ANIMAIS
BIBLIOGRAFIA
01- A Agonia das Religiões - pág. 97 02 - A Alma é Imortal - pág. 121
03 - A Evolução Anímica- pág. 57, 63, 83 04 - A mansão Renoir - pág. 171
05 - A Reencarnação - pág. 76, 92 06 - Ação e Reação - pág. 49, 62, 260
07 - Almas que voltam - pág. 51 08 - Alquimia da mente - pág. 45, 71, 72
09 - Animais nossos irmãos -toda a obra 10 - Antologia do perispírito - ref. 222
11 - Antologia mediúnica do Natal - pág. 83, 140 12 - Cartilha da Natureza - pág. 61
13 - Ciência e Espiritismo - pág. 111, 122 14 - Conduta Espírita - pág. 116
15 - Deus na Natureza - pág. 339, 347

16 - Emmanuel - pág. 93

17 - Entre o céu e a Terra - pág. 180 18 - Gêneses da alma - toda a obra
19 - Mediunidade - pág. 93, 122 20 - Nosso Lar - pág. 183
21 - O Consolador - pág. 39, 59, 217 22 - O Espírito e o Tempo -pág. 154
23 - O fim do mundo - pág. 177 24 - O homem novo - pág. 82, 85
25 - O Livro dos Espíritos - q 590 a 610 26 - O Livro dos Médiuns - q 234 a 283
27 - Os animais tem alma? - toda a obra 28 - Os Mensageiros - pág. 217, 219
29 - Passes e curas espirituais - pág. 169 30 - Resumo da Doutrina Espírita - pág. 149
31 - Vida e Atos dos Apóstolos - pág. 234 32 - Voltei - pág. 84

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ANIMAIS– COMPILAÇÃO

01 - A AGONIA DAS RELIGIÕES - J.HERCULANO PIRES - PÁG. 97 cap. XII - Rito e palavra

O formalismo das igrejas caracteriza-se principalmente pelos seus rituais. Mas todo rito implica o uso da palavra. Trata-se de uma conjugação de dois sistemas complementares de comunicação. A eles se junta o instrumento, na explicação clássica da evolução humana. Foi graças ao rito e à palavra que o homem ascendeu do primata ao sábio. Mas, para dar mais alcance ao processo de comunicação, o homem teve de inventar o instrumento. O fogo, a fumaça, penas de aves nas árvores, estacas no chão foram os precursores de todos os meios de comunicação à distância de que hoje nos orgulhamos. Mas pouca gente sabe, além dos círculos restritos de especialistas, que os animais também se utilizam de ritos e até mesmo de palavras em seus processos de comunicação. No tocante aos instrumentos, eles os trazem no próprio corpo, o que não impede que animais superiores se utilizem também de instrumentos naturais, como pedras e varas. Remy Chauvin, biólogo e entomólogo francês da atualidade, em seu livro Lês Societés Animales, oferece-nos abundantes informações sobre este assunto.


A teoria da evolução criadora, de Henri Bergson, propõe-nos a tese da infiltração do impulso vital na matéria em duas direções: uma que leva ao desenvolvimento dos insetos sociais, outra que resulta no aparecimento das sociedades humanas. Chauvin chega mesmo a referir-se à civilização das abelhas, advertindo naturalmente que se trata de civilização de insetos e não humana. Ortega y Gasset discorda do uso do termo social para os insetos, mas Chauvin, que pesquisou o problema a fundo, não encontra explicação para o fato de não haverem os insetos sociais alcançado o plano do pensamento criador. Chega mesmo a supor que talvez em outro planeta o tenham feito. Tudo isso pode ser pouco lisonjeiro para o orgulho humano, mas nem por isso deixa de ser significativo para os estudiosos da evolução humana na terra. Chauvin é diretor de pesquisas do Instituto de Altos Estudos de Paris. Menciono esse dado da sua ficha para mostrar a sua qualificação científica.


O que nos interessa neste problema é verificar, através de dados científicos, que o formalismo religioso, como o social e o das chamadas sociedades ocultas, não provêm de uma revelação divina, mas do impulso vital que, passando através das espécies animais, projetou-se e desenvolveu-se no homem. O sacerdote que se paramenta para uma cerimónia religiosa, o maçom que veste os seus símbolos para uma sessão da loja, o universitário que enverga a sua beca para a formatura talvez não saibam que repetem processos antiquíssimos — evidentemente refinados pela tradição humana —, que procedem de ritos animais de milhões de anos antes da aparição do homem no planeta. Isso pode desapontar a nossa vaidade, mas servirá para nos lembrar a humildade. Não somos seres privilegiados na Terra. Somos os últimos rebentos de uma evolução multimilenar daquilo que, no Espiritismo, chama-se princípio inteligente, o espírito que estrutura a matéria e através dela se desenvolve, despertando suas potencialidades ocultas e fazendo-as passar de potência a ato, de possibilidade a realidade.

03 - A EVOLUÇÃO ANÍMICA - GABRIEL DELANNE - PÁG. 57 - CAP. II - A ALMA ANIMAL

O problema da origem do homem é um dos mais difíceis de abordar aqui na Terra. Colocados, como nos encontramos, num estágio de civilização avançada, temos a impressão de que um abismo nos separa dos outros seres. Tem o homem, de fato, conquistado o cetro do mundo: submeteu à sua vontade toda a natureza, perfurando montanhas, unindo mares, secando pântanos, desviando rios, dirigindo a vegetação em sentido mais útil ou agradável às suas conveniências, domando os animais aproveitáveis — ele, o homem, soube utilizar todas as forças vivas e capazes de lhe aumentarem o bem-estar.


Os caminhos de ferro transportam-no longe, sem fadiga; a eletricidade conduz-lhe o pensamento aos confins do globo e adapta-se a todos os usos domésticos; o balão permite-lhe explorar altas camadas atmosféricas, ao mesmo passo que mergulha, pela mineração, nas entranhas do solo. Diante de resultados que tais, atingidos pelo seu gênio, propende o homem a crer-se formado de essência diversa e superior à dos animais, havidos por incapazes de qualquer progresso. As religiões, que não passam, em última análise, de quimeras antropomorfas, têm estimulado, ingenuamente, essas tendências, fazendo do homem a imagem material da divindade, e da alma um princípio, uma causa especial, completamente diferente de quanto existe no mundo.Entretanto, examinada de mais perto, essa magnífica inteligência está bem longe de ser perfeita, e faz-se preciso certa parcela de parcialidade e de orgulho para imaginar que criaturas que se massacram ferozmente em combates sangrentos, sem outro ideal que o de semear desolação e morte entre vizinhos, representem a Inteligência infinita que governa o cosmo.


O esplendor de nossos progressos materiais não deve obscurecer nossa modesta origem. Os ensinos da História aí estão para mostrar que o desenvolvimento intelectual foi, sobretudo, obra dos séculos. A noite morna da Idade Média de há muito cessou, para que não deslumbremos o passado e, ao demais, se é certo que uma fração da Humanidade avançou, menos não o é que muitos de nossos semelhantes ainda jazem embotados na ignorância, vítimas de paixões bestiais, como a mostrar-nos o percurso da evolução humana.

Os selvagens: Ao lado da civilização, vegetam seres degradados que mal poderemos chamar homens. Entre essas tribos caracterizadas por inferioridade inaudita, costuma dar-se preeminência aos Diggers (Pau-Entaw), índios repelentes, de uma selvajaria extrema, que habitam cavernas da Serra Nevada e são julgados pelos naturalistas mais fidedignos como inferiores, de alguns graus, ao orangotango. O missionário A.L. Krapf, que viu de perto os Dokos do Sul de Kafa e Qurage, na Abissínia, conta que estes selvagens têm todos os traços físicos de grande inferioridade. Não sabem fazer fogo nem cultivar o solo. Sementes e raízes, arrancadas à unha, constituem a alimentação usual, e felizes se consideram quando podem pilhar um rato, um lagarto, uma serpente. Assim, erram pelas florestas, incapazes de construir uma choça, abrigando-se sob o arvoredo. Ignoram, mais ou menos, o pudor e apenas toleram efêmeros laços familiares, tão certo como as mães abandonarem o filho, ao termo da lactação.


Os Tarungares (Papuas da Costa Oriental) visitados pelo Dr. Meyer, são de um selvagismo inaudito. Completamente nus e privados de todo sentimento moral, antropófagos inveterados, chegam, por vezes, a exumar cadáveres a fim de os devorar. Que diríamos nós se os macacos assim procedessem? Os Weddas do Ceilão são de pequena estatura, de um tipo abjeto, a fisionomia repulsiva, bestial. A conformação craniana apresenta traços que a aproximam da dos macacos: — nariz chato, prognatismo agudo, à feição de focinho, dentadura saliente. Vivem como animais e mal se abrigam em furnas rupestres, quando faz mau tempo. Tal como os Boschimans, também constróem uma espécie de ninho. O missionário Moffat informa que esses ninhos se assemelham aos dos Antropóides. De fato, sabemos que o orangotango de Sumatra e de Bornéu agasalha-se, em noites frias, construindo um ninho de folhagem. O sábio e consciencioso naturalista Burmeister opina que muitos selvagens do Brasil se comportam como animais, privados de qualquer inteligência superior.


O doutor Avé-Lallement, que, na sua viagem ao norte do Brasil, em 1859, teve ocasião de observar várias tribos ameríndias, compara esses selvagens aos macacos domesticados. "Adquiri — afirma ele — a convicção de existirem também macacos bimanos." Esta comparação, talvez um tanto exagerada, ressalta, nada obstante, de quase todas as narrativas dos viajantes. O célebre explorador W. Baker diz dos Kytches e dos Latoukas, (africanos) que eles mal se diferenciam dos brutos. Verdadeiros macacos — acrescenta. La Gironnière, ao percorrer as montanhas de Luçon (uma das Filipinas), ficou impressionado com o caráter simiesco dos Aetas, cuja voz e gestos dir-se-iam de perfeitos macacos. Darwin, na viagem do "Beagle", chegou a espantar-se quando avistou os Fueguinos. "Ao contemplar tais seres — escreve —, é dificil acreditar sejam nossos semelhantes e conterrâneos... À noite, cinco ou seis criaturas dessa espécie, nuas e mal protegidas das intempéries de um clima horrível, deitam-se no solo úmido, encolhidas sobre si mesmas e confundidas como verdadeiros brutos."

Aí temos como é insignificante a diferença do homem para o macaco. Distingue-se o nosso ramo por qualquer coisa de verdadeiramente especial? A história natural e a filosofia demonstram que, nem do ponto de vista físico, nem do intelectual, não há diferença essencial. Que, entre o mais inteligente dos animais — o macaco, e o mais embrutecido dos homens haja diferenças, ninguém o negaria, ou o macaco seria um homem. Tais diferenças, contudo, não passam de graduações ascendentes de um mesmo princípio, que vai progredindo à proporção que anima organismos mais desenvolvidos. Estabeleçamos claramente, com exemplos, essa grande verdade.


Similitude dos organismos humano e animal
: Já sabemos que os elementos componentes dos tecidos de todos os seres vivos são substancialmente idênticos na composição, e, assim, que a carne de um animal, seja qual for, não se distingue da nossa. O esqueleto dos vertebrados não varia sensivelmente. A noção de um tipo uniforme tornou-se hoje banal. Sabemos todos que há sempre vértebras encimadas de um crânio mais ou menos volumoso, dois membros articulados ao tórax, dois outros à bacia: isso, tanto no homem como no macaco, na águia como na rã. Sob esse aspecto considerada, a semelhança é tal, que, por mais estranhável que pareça, poder-se-ia conceber viver um homem com um coração de cavalo ou de cachorro. A circulação sanguínea far-se-ia em um, como em outro. Poderíamos atribuir ao homem um pulmão de vitelo, a respirar com a mesma facilidade peculiar ao seu pulmão. O sangue, que nos parece elemento capital da vida, apresenta a mesma identidade no boi, no carneiro, no homem, e os médicos legistas ainda não encontraram método seguro que lhes permita dizer, com certeza, se a nódoa sanguínea de um pano é de origem humana ou animal.

Coração, pulmão, fígado, estômago, sangue, olhos, nervos, músculos, ossatura, é tudo análogo no homem como nos vertebrados. Há menos diferença entre um homem e um cão, do que entre um crocodilo e uma borboleta. Diariamente as descobertas dos naturalistas estabelecem, sobre bases mais sólidas, esta profunda verdade que Aristóteles — grande mestre de coisas naturais — magistralmente exprimiu: a natureza não dá saltos. Perpétuas transições ocorrem entre os seres vivos, Do homem ao macaco, deste ao cão; da ave ao reptil e deste ao peixe; do peixe ao molusco, ao verme, ao mais ínfimo dos colocados nas fronteiras extremas do mundo orgânico com o mundo inanimado, nenhuma passagem é brusca. O que se dá é sempre uma degradação insensível. Todos os seres se tocam, formam uma cadeia de vida, que só nos parece interrompida pelo desconhecimento das formas extintas ou desaparecidas. Nessa hierarquia dos seres, o homem reivindica o primeiro lugar a que tem, certo, incontestável direito; mas, isso não o coloca fora da série, e quer simplesmente dizer que ele é o mais aperfeiçoado dos animais.


Não só é impossível fazer do homem um ser destacado do reino animal, como devemos conceituá-lo também ligado aos seres inferiores, visto que, entre animais e vegetais, não há delimitação concebível. Certo, o vulgar bom senso, como diz Charles Bonnet, distinguirá sempre um gato de uma roseira; mas, se quisermos avançar no estudo dos processos vitais que diferenciam o animal da planta, havemos de ver que não existem mais caracteres próprios do animal que faltem à planta. Porque, de um lado, há plantas que, como as algas, se reproduzem por meio de corpúsculos agilíssimos, e, de outro lado, animais que, no decurso de longa existência permanecem imóveis, aparentemente insensíveis, sem terem mesmo, como a sensitiva, a faculdade de subtrair-se às hostilidades exteriores. Ao homem é impossível viver de maneira diferente dos outros animais.O sangue lhe circula do mesmo feitio, o ar é respirado nas mesmas proporções, mercê de idêntico mecanismo. Os alimentos são da mesma natureza, transformados nas mesmas vísceras, mediante as mesmas operações químicas, pois, como temos visto, as condições indispensáveis à manutenção da vida são idênticas para todos os seres.


O nascimento não é fenômeno particular. Nos primeiros períodos de vida fetal, é impossível distinguir o embrião humano do canino, ou de outro qualquer vertebrado. A monera que haja de produzir o "rei da criação" é, originariamente, composta de um simples protoplasma, como a de qualquer vegetal. A morte é também a mesma para toda a série orgânica. Idêntica nas causas, como nos resultados, ou seja, a desorganização da matéria viva, em retorno ao grande laboratório da natureza. Resumindo: reconhecemos, com os sábios, que, por seus caracteres físicos, o homem em nada se distingue do animal, e que vã tem resultado a tentativa para estabelecer uma linha divisória que lhe permita atribuir-se um lugar privilegiado na criação. Resta-nos examinar se as faculdades intelectuais e morais são de natureza particular e se bastam para criar um abismo intransponível entre a animalidade e a humanidade.


Estudo sobre as faculdades morais e intelectuais dos animais
: Podemos estabelecer, como princípio, a impossibilidade de conhecer os fenômenos psíquicos ocorrentes no íntimo do indivíduo por forma outra que não observando as manifestações exteriores de sua atividade. Se ele executar atos inteligentes, concluiremos que possui uma inteligência; se tais atos forem da mesma índole dos que observamos nos homens, deduziremos que essa inteligência é similar à da alma humana, de vez que, na criação, somente a alma é dotada de inteligência. Ora, como os animais possuem, não apenas a inteligência, mas, também, o instinto e a sensibilidade; e considerando o axioma que diz que iodo efeito inteligente tem uma causa inteligente; assim como a grandeza do efeito é diretamente proporcional à potência da causa, temos o direito de concluir que a alma animal é da mesma natureza que a humana, apenas diferenciada no desenvolvimento gradativo. Frequentemente, falando-se de inteligência animal, corre-se o risco de não ser compreendido. Algumas pessoas figuram-se que, para demonstrar a existência de faculdades intelectuais ou morais da espécie animal, importa estabelecer que os animais possuam, sensivelmente, memória, discernimento, etc., no mesmo grau que possuímos, o que, aliás é impossível, tão certo como ser o seu organismo inferior ao nosso.


Outros imaginam que admitir tal princípio equivale a rebaixar a dignidade humana. Nós, entretanto, não vemos o que perder com esse paralelo, só a nós favorável, pois é incontestável que um dado animal não pôde, nem poderá jamais encontrar a lei das proporções definidas, ou escrever O Sonho duma noite de verão. Trata-se, simplesmente, de assentar que, se o homem é mais desenvolvido que o animal, nem por isso deixa de ser uma Certa feita um abegão, através da sua janela, lobriga de madrugada uma raposa a conduzir o ganso apressado. Chegando rente ao muro, alto, de 1m20, a raposa tentou de um salto transpô-lo, sem largar a presa. Não o conseguiu, porém, e veio ao chão, para insistir ainda em três tentativas inúteis. Depois, ei-la assentada, a fitar e como que a medir o muro. Tomou, então, o partido de segurar o ganso pela cabeça, e, levantando-se de encontro ao muro, com as patas dianteiras, tão alto quanto possível, enfiou o bico do ganso numa frincha do muro. Saltando após ao cimo deste, debruçou-se jeitosamente até retomar a presa e atirá-la para o outro lado, não lhe restando, então, mais que saltar por sua vez, seguindo o seu caminho.


Que os animais refletem antes de tomar decisão, é o que acabamos de verificar com esta nossa raposa. Como este, outros casos análogos poderíamos citar. Mas, neles, a ação é muito mais demorada que em nós. Vejamos: Um urso do Jardim Zoológico de Viena, querendo colher um pedaço de pão que flutuava fora da jaula, teve a idéia engenhosa de revolver a água com a pata e formar uma corrente artificial. Plourens conta que, por serem assaz numerosos os ursos do Jardim das Plantas, resolvera-se eliminar dois deles. Com tal intuito, lançaram-lhes bolos envenenados com ácido prússico, mas eis que eles, apenas cheiraram o alimento letal, puseram-se em fuga. Ninguém os suporia capazes de regressar e, contudo, atraídos pela guloseima, ei-los agora a empurrar os bolos com as patas para a bacia do fosso, onde os remexiam. Depois, farejavam atentos e, à medida que o tóxico se evaporava, apressavam-se a comê-los. Tal sagacidade valeu-Ihes a vida, foram perdoados.


Um elefante esforçava-se, debalde, para captar uma moeda junto da muralha, quando, de súbito, pôs-se a soprar e, com isso, fez deslocar-se e rolar a moeda até o ponto em que ele se encontrava, conseguindo-o admiravelmente. Erasmus Darwin atesta-nos estes dois fatos: Certa vespa dispunha-se a transportar a carcaça da mosca, quando notou que as asas ainda presas à mesma carcaça lhe dificultavam o voo. Que fez, então, nossa vespa? Pousou, cortou as asas da mosca e librou-se mais facilmente com o despojo. Um canguru, perseguido pelo cão, prestes lançou-se ao mar, e aí, sempre acossado de perto, avançou nágua até que só a cabeça emergisse. Isso feito, aguardou o inimigo que nadava ao seu encontro, agarrou-o, mergulhou-o, e tê-lo-ia infalivelmente afogado, se o dono não acudisse a socorrê-lo.


Citaremos, ainda, um traço curioso da inteligência de um macaco. Eu estava assentado com a família junto da lareira — diz Torrebianca —, enquanto os criados assavam na cinza as castanhas. Um macaco de grande estimação por suas diabruras lá estava a cobiçá-las, impaciente, e, não vendo como pescá-las sem queimar-se, ei-lo que se atira a um gato sonolento, comprime-o vigorosamente contra o peito e, agarrando-lhe uma das patas, dela se serve, à guisa de bastão, para tirar as castanhas do borralho comburente. Aos miados desesperados do bichano, todos acorrem, enquanto algoz e vítima debandam, um com o seu furto, outro com a pata queimada. O curioso, acrescenta Gratiolet, é que, diante disso, o Sr. Torrebianca concluiu que os animais não raciocinam. "Confesso — diz o espiritualista e religioso Agassiz — que não saberia como diferençar as faculdades mentais de uma criança das de um chimpanzé."


A curiosidade
: Esta faculdade é muito desenvolvida, mesmo nas espécies menos inteligentes, quais os peixes, os lagartos, as calhandras. Ela cresce de ponto nos patos selvagens, nos cabritos monteses, nas vacas. Superabunda, irresistível, nos macacos, indiciando já uma característica da curiosidade humana, ou seja, o desejo de compreender, de penetrar o sentido das coisas. O macaco possui a faculdade de "exame atento". O macaco, como bem advertiu M. H. Foi, sabe, de fato, "absorver-se completamente no exame de um objeto, passando horas a fio para compreender um mecanismo, e chegando, mesmo, a esquecer o alimento e tudo que o rodeia. Ora, observa Romanes, quando um macaco assim procede, não há que admirar seja o homem um animal cientifico. Essa faculdade de exame atento tem, evidentemente, como base primária, a curiosidade, mas já de muito lhe sobreleva: — é uma das mais altas expressões da inteligência, a que visa o próprio aperfeiçoamento".


O amor-próprio
: Os cães não roubam o alimento de seu dono (Agassiz) e demonstram satisfação quando aplaudidos. Sanson diz estar provado, por fatos inúmeros, que o cavalo de corrida é suscetível de emulação e experimenta o orgulho da vitória. Tal o caso de Forster que, depois de um tirocínio longo e sempre invicto, ao ver-se uma vez na iminência de ser batido por Elèphant, já perto do poste de chegada, precipitou-se num salto desesperado e agarrou com os dentes o rival, no intuito de conjurar uma derrota jamais conhecida. E não foi sem muito esforço que conseguiram sequestrar-lhe a presa. Outro cavalo, em condições semelhantes, também agarrou o rival pelos jarretes. O elefante, o cachorro, o cavalo, mostram-se assaz sensíveis ao elogio; e, assim como o antropóide, também temem o ridículo, enfadam-se quando se lhes faz zombaria. M. Romanes relata, a propósito, uma curiosa observação. Divertia-se o seu cão a caçar as moscas que pousavam na vidraça, e, como muitíssimas se escapassem, ele, Romanes entrou a chacotear, esboçando um sorriso irónico a cada insucesso. Foi quanto bastou para envergonhar o cão, que fingiu, de repente, ter apanhado uma mosca e esmagá-la de encontro ao solo. O dono, porém, não se deixou iludir, e, verberando-lhe a impostura, viu que ele partia a ocultar-se sob os móveis, duplamente envergonhado.

A imitação inteligente: Da imitação inteligente não faltam exemplos, e tanto mais dignos de nota, quando atestam uma certa noção das relações de causa e efeito, de uma consciência da causalidade. O orangotango e o chimpanzé, por exemplo, pronto descobrem o meio de abrir as fechaduras. O macaco de Buffon aprendera, por si mesmo, a utilizar-se de uma chave. A bugia Mafuca, do Jardim Zoológico de Dresde, querendo ficar livre para sair à vontade da sua gaiola, imaginou roubar e esconder cuidadosamente a respectiva chave. Cães, cabras, gatos, aprenderam por si mesmos, sem qualquer educação prévia, a tocar uma campainha ou abrir uma porta. Apontam-se vacas, mulas, jumentos, que manejaram ferrolhos para abrir porteiras. O professor Hermann Foi conta que, na vacaria-modelo de Lancy (perto de Genebra), pouco depois de instalar-se no pátio um bebedouro, foi preciso mudar-lhe a torneira por outra só utilizável à chave, mas chave que o vaqueiro teve de carregar sempre consigo, porque o gado logo aprendera a manejá-la. O mesmo aconteceu em Turim, na vacaria ali instalada por Henri Bourrit. Nos macacos, a imitação inteligente é comumente desenvolvida ao extremo. Vários se hão visto que tiveram a idéia espontânea de cavalgar cachorros. Boitard cita um macaco roloway, que gostava de cavalgar um cão vagabundo, e Lê Vaillant refere caso idêntico, de um bugio.

A abstração: A faculdade de abstrair, isto é, de tomar conhecimento dos objetos e determinar-lhes as qualidades sensíveis, quais sejam: amarelo, verde, mole, duro, rugoso, liso, etc.; a pedra, o animal, a árvore, etc.; a espécie de animal — cão, gato, homem; tal espécie de homem, bem ou mal vestido, etc.; todas essas idéias abstratas os animais as possuem, pois, assim como assinala M. Vulpian , é evidentemente sobre estas idéias que se exercem a sua memória, a sua reflexão, o seu raciocínio. Eles podem mesmo elevar-se à compreensão de umas tantas realidades metafísicas, como o tempo, o espaço, etc. "Os animais têm um tal ou qual sentimento da extensão, diz Gratiolet, visto que caminham e saltam com precisão. Têm no do tempo decorrido, porque o sentem; do presente, porque o gozam; e até do futuro, porque há casos de previsões, temores, esperanças. Mas, tudo isso não passa de idéias concretas, que jamais se elevam ao grau da verdadeira abstração." O naturalista Fisher certificou-se, mediante engenhosas experiências (Revue Scientijique, 1884), que os macacos mais inteligentes possuem a noção do número e sabem muito bem avaliar o peso.Não é novidade que a pega pode contar até cinco, pois quando os caçadores são em número menor ela não voa, até que eles se afastem. Temos assim que, neste particular, a pega se mostra superior a muitos selvagens.

A linguagem: A linguagem articulada é apanágio do homem. Foi graças a esse poderoso instrumento de progresso que ele pôde desenvolver-se, enquanto os outros seres permaneceram quase estacionários. Diga-se, contudo, que os animais da mesma espécie podem comunicar-se entre si. O cão doméstico possui uma linguagem outra, que não a de seus ancestrais selvagens. Darwin nota que "nos cães domésticos, temos o ladrido da impaciência, como se dá em caçadas; o da cólera — um rugido; o grunhido ou uivo desesperado do prisioneiro; o da alegria, quando vai a passeio, e finalmente o da súplica, para que se lhe abra a porta".
A linguagem expressa por sinais ou gestos é muito desenvolvida nos animais que vivem agregados, como os cães selvagens, os cavalos em liberdade, os elefantes, formigas, castores, abelhas, etc. É incontestável que esses animais se compreendem. Vêem, algumas vezes, as andorinhas deliberarem antes de tomar um roteiro. Sendo, porém, simples, primitivas as suas idéias, e não podendo amplificá-las pela linguagem articulada, nem coordená-las para tirar delas todo o partido desejável, é claro que se não aperfeiçoam senão com lenteza inaudita, parecendo-nos por isso imutáveis. Contudo, uma observação atenta faz-nos ver que os instintos variam conforme as novas condições criadas para os animais.As faculdades intelectuais também aumentam com exercícios reiterados, sobretudo nas espécies em contacto com o homem.

A idiotia: Se fizermos um confronto da suspensão do desenvolvimento da inteligência humana e o que ocorre com os animais, facilmente veremos que a diferença não é substancial. Quando a função do espírito é tolhida pela conformação defeituosa do organismo, a alma só pode manifestar-se no exterior pelas formas rudimentares da inteligência. O idiotismo é disso uma prova flagrante. Como sabemos, os idiotas dividem-se em três classes: — completos, secundários, imbecis.
1.° — Os idiotas completos são reduzidos ao automatismo: criaturas inertes, despidas de sensibilidade, falta-lhes até o instinto animal. Olhar parado, inexpressivo, não têm paladar nem olfato, não sabem comer por si, preciso se torna levar-lhes o alimento à boca e à garganta, para provocar a deglutição. Alguns há que comem com mais íacilidade, mas engolem, sem distinguir, tudo o que apanham — terra, seixos, pano, íezes, etc. Temos, assim, que os idiotas desta categoria estão abaixo dos cães, dos elefantes ou dos macacos. E, contudo, são homens. A alma, assim aprisionada num invólucro inerte, deve suportar largo e cruel martírio, pela impossibilidade de movimentar seus órgãos insubmissos.


2.° — Os idiotas de segundo grau têm instintos, mas a faculdade de comparar, julgar, raciocinar, é neles mais ou menos nula. Estão mais próximos dos animais, mas ainda se lhes não equiparam.

3.° — Temos, enfim, os imbecis: são os que possuem instintos e determinações raciocinadas. Capazes de abstrações físicas muito simples, não podem, contudo, elevar-se a noções quaisquer de ordem geral, ou superior, ficando mais ou menos nivelados aos animais. O mesmo sucede com os cretinos.
Esses estados precários da inteligência, podemos aproximá-los aos da nossa infância, dado que, até o terceiro ano, a criança revela-se inferior aos grandes símios. Vale dizer que, do ponto de vista intelectual, a puerícia, a idiotia e o cretinismo facultam-nos o exemplo tangível e flagrante da evolução humana.

A evolução: Se tivermos bem de vista os fatos retrocitados, a respeito dos selvagens, compreenderemos melhor ainda a marcha ascendente do princípio pensante, a partir das mais rudimentares formas da animalidade, até atingir o máximo do seu desenvolvimento no homem. Os povos primitivos aí estão, como vestígios que demonstram as fases do processo transformista. Não esqueçamos que estes seres, que se nos figuram tão degradados, são, ainda assim, superiores ao nosso ancestral da época quaternária, e poderemos, então, compreender que não há diferença essencial entre a alma animal e a nossa. Os diversos graus observados nas manifestacoes inteligentes, à medida que remontamos à série dos seres animados, são correlativos ao desenvolvimento orgânico das formas. Tanto mais o corpo se torna flexível, maneável, quanto mais as partes se lhe diferenciam e mais facilidades encontra a inteligência em exercitar-se, de sorte que, assim, sobe, da monera ao homem, sem hiatos nem solução de continuidade assinalável. Havendo focalizado o desenvolvimento intelecto-animal, veremos agora que, no concernente aos sentimentos, eles nos oferecem surpreendente analogia.

Amor conjugal — Amor materno: Buffon adverte-nos que as aves representam tudo quanto se passa num lar honesto. Observam a castidade conjugal, cuidam dos filhos; o macho é o marido, o pai da família, e o casal, por débil que seja, mostra-se valoroso até ao sacrifício de morte, em se tratando de defender a prole. Não há quem ignore o zelo da galinha na defesa dos pintainhos. Os animais ferozes: — tigre, lobo, gato selvagem, todos têm por suas crias o mais terno afeto. Darwin, Brahm, Leuret, citam exemplos curiosos desse sentimento tão vivo. Aqui estão dois exemplos capazes de varrer qualquer dúvida a respeito: Leuret conta que um macaco, cuja fêmea lhe morrera, cuidava solícito do filhote, pobre rebento esquálido, enfermiço. À noite, tomava-o ao colo para adormecê-lo, e, durante o dia, não o perdia de vista um instante. De resto, entre os macacos, os órfãos são sempre recolhidos e adotados com carinho, tanto pelos machos como pelas fêmeas. Uma bugia (cinocéfalo), notável por sua bondade, recolhia macaquinhos doutras espécies e chegava a furtar cachorros e gatos pequenos, que lhe faziam companhia. Certa feita, um gatinho adotado arranhou-a, e ela, admirada, deu prova de inteligência examinando-lhe as patas, e, logo, com os dentes, aparou-lhe as garras.

Amor do próximo: O Sr. Bali relatou na Revue Scientifique o seguinte fato, por ele testemunhado: O cão de fila aventurava-se a dentro do lago congelado, quando, súbito, se quebrou o gelo e ele resvalou nágua, tentando em. vão libertar-se. Perto, flutuava um ramo e o fila se lhe agarrou, na esperança de poder alçar-se. Um terra-nova que, distante, assistira ao acidente, decidiu-se, rápido, a prestar socorro. Meteu-se pelo gelo, caminhando com grande precaução, e não se aproximou da fenda mais que o suficiente para agarrar com os dentes a extremidade do ramo e puxar a si o companheiro, dessarte lhe salvando a vida. "A previdência, a prudência e o cálculo mostram-se, diz o Sr. Bali, de um modo evidente neste ato, tanto mais notável, quanto absolutamente espontâneo. Os animais são, comumente, suscetíveis de educação, e sua inteligência desenvolve-se em convívio com o homem. Mais interessante, porém, é acompanhá-los em sua evolução pessoal, e constatar que são capazes, por assim dizer, de evolver por si mesmos. Neste particular, o nosso terra-nova elevou-se, por instantes, ao nivel da inteligência humana, e, no tocante à observação e ao raciocínio, em nada inferior ao que um homem faria em tais conjunturas."


Refere Darwin que o capitão Stransbury encontrou num lago salino do Utah um velho pelicano completamente cego e aliás muito gordo, que devia o seu bem-estar, de longa data, ao tratamento e assistência dos companheiros. O Sr. Blyth me informa — diz ele — ter visto corvos indígenas alimentando dois ou três companheiros cegos, e eu mesmo conheço caso análogo, com um gato doméstico. O Sr. Burton cita o caso curioso de um papagaio que tomara a seu cargo uma ave de outra espécie, raquítica e estropiada. Assim é que lhe limpava a plumagem e procurava defendê-la de outros papagaios, soltos no jardim. Mas, o fato mais demonstrativo é o seguinte, contado por Gratiolet: "O Sr. de Ia Boussanelle, capitão de cavalaria do antigo regimento de Beauvilliers, comunica o seguinte: — Em 1757, um cavalo do meu esquadrão, já fora do serviço devido à idade, teve os dentes inutilizados a ponto de não poder mastigar o seu feno e a sua aveia. Verificou-se, então, que dois outros animais, que lhe ficavam à esquerda e à direita, dele passaram a cuidar, retirando o feno da manjedoura e colocando-lhe à frente, depois de mastigado. O mesmo faziam com a aveia, depois de bem triturada. Esse curioso trabalho prolongou-se por dois meses, e mais durara, certo, se lá ficara o velho companheiro. Aí tom — acrescenta o narrador — o testemunho de toda uma companhia — oficiais e soldados."


O sentimento estético: Muito se tem presumido que o sentimento do belo seja apanágio da espécie humana. Entretanto, sabemos que as aves femininas são muito atraídas pela beleza de plumagem dos machos, tanto quanto por seu canto melodioso. Nem poderíamos duvidar que sejam uns tantos sons musicais compreendidos por muitos animais. Romanes viu um galgo acompanhar certa canção com latidos brandos. O cão do professor J. Delboeuf acompanhava regularmente, com a voz, um contralto na ária de A Favorita. O asseio é modalidade da estética e nós podemos assinalá-lo nas aves que limpam o ninho, nos gatos que fazem a sua toilette com minúcias, e, principalmente, nos macacos. Espetáculo curioso — diz Cuvier — o das macacas a conduzirem as crias ao banho, lavá-las apesar dos seus gritos, enxugá-las e secá-las, dispensando-lhes, na limpeza, tempo e cuidados que, em muitos casos, nossas crianças poderiam invejar. Mas, onde o sentimento do belo e do confortável atinge o mais alto grau é, certamente, nas aves jardineiras da Nova-Guiné. Estes pássaros, da família das paradíseas, não se contentam com um simples ninho, pois constróem, fora da moradia ordinária, verdadeiras casas de recreio, que se tornam atestados de bom gosto. Tais construções, reservadas aos adultos, que a elas vão para entregar-se a brincos e deleites amorosos, apresentam grande variedade ornamental e as paradiseas gozam, realmente, o luxo de que se rodeiam. Cabanas há que atingem dimensões consideráveis. Têm o formato de quiosques com passadiços cobertos. Há uma espécie que constrói a casinhola colorida de frutos e conchinhas. As mais apuradas requintam em dar a essas mansões de prazer um luxo ainda maior, selecionando as conchas, preferindo pedras rútilas, penas de papagaio, retalhos de pano, tudo, enfim, que encontrem de mais vistoso. O pavimento é feito de varinhas entrelaçadas. Contudo, não haja vacilação em conceder supremacia à Amblyornis inornata, cujas construções valem por verdadeiras maravilhas, cercadas de um jardinzinho artificial, feito com musgo disposto em tabuleiros, e decorado, com muita arte, com flores constantemente renovadas, bem como frutos de matizes fortes, seixos e conchas brilhantes, etc.


A gradação dos seres: Poderiamos, aqui, mostrar, também, que os sentimentos morais, como "o remorso, o senso moral, a idéia ao justo e do injusto", encontram-se em gérmen em todos os animais, podendo manifestar-se em ocasiões oportunas. Para que o leitor melhor firme a sua convicção, indicamos-lhe as precitadas obras, certo de que um estudo atento demonstrar-lhe-á não existir, entre a alma do homem e a do animal, mais que uma diferença de graus, tanto do ponto de vista moral, como do intelectual. O agente imortal que anima todos os seres é sempre uno e único. De início, manifestando-se solta as mais rudimentares formas, nos últimos estádios da vida vai, contudo, aperfeiçoando-se pouco a pouco, ao mesmo passo que se eleva na escala dos seres. Nessa longa evolução, desenvolve as faculdades latentes e as manifesta de modo mais ou menos idêntico ao nosso, à medida que se aproxima da humanidade. Vede como o grande naturalista Agassiz, em que pese às suas idéias religiosas, proclama a identidade do princípio pensante no homem e no animal: "Quando se combatem, ou quando se associam para um fim comum; quando se advertem do perigo ou socorrem outro; na tristeza como na alegria, eles manifestam impulsos e atitudes da mesma índole dos havidos por atributos morais da espécie humana.

"A gradação das faculdades morais, nos tipos superiores e no homem, é tão imperceptível que, para negar aos animais uma certa dose de responsabilidade e consciência, é preciso exagerar, em demasia, a diferença entre uns e outro." Com efeito, não podemos conceber por que houvesse Deus criado seres passíveis de sofrimentos, sem lhes outorgar, ao mesmo tempo, a faculdade de se beneficiarem dos esforços que fazem por se melhorarem. Se o princípio inteligente que os anima fosse condenado a permanecer eternamente nessa condição inferior, Deus não seria justo, com o favorecer o homem em detrimento de outras criaturas. A razão diz-nos que tal não poderia suceder, e a observação demonstra a identidade substancial entre a alma dos brutos e a nossa. De resto, tudo se liga e se entrosa intimamente no Universo, desde o átomo Insignificante ao sol gigantesco, pendurado no espaço; desde a simples monera ao Espírito superior, a sobrepairar sereno nas regiões da eternidade.


A evolução da alma: Supondo que a alma se tenha individualizado lentamente por um processo de elaboração das formas inferiores da natureza, a fim de atingir gradativamente a humanidade, quem se não sentirá maravilhado de tão grandiosa ascensão? Através de mil modelos inferiores, nos labirintos de uma escalada ininterrupta; através das mais bizarras formas; sob a pressão dos instintos e a sevícia de forças inverossímeis, a cetía psique vai tendendo para a luz, para a consciência esclarecida, para a liberdade. Esses inúmeros avatares, em milhares de organismos diferentes, devem dotar a alma de todas as forças que lhe hajam de servir mais tarde. Eles têm por objeto desenvolver o envoltório fluídico, dar-lhe a necessária plasticidade, fixando nele as leis cada vez mais complexas que regem as formas vivas, criando-lhes, assim, um tesouro, mediante o qual possam, um dia, manipular a matéria, de modo inconsciente, para que o Espírito possa operar sem o entrave dos liames terrestres.
Quem recusará ver nos milhões de existências a palpitarem no Planeta a elaboração sublime da inteligência, prosseguindo incessante na extensão indefinita do tempo e do espaço? São as eternas leis da evolução que arrastam o princípio inteligente a destinos cada vez mais altanados, para um futuro sempre melhor, desdobrando-se em panorama de renovadas perspectivas, a partir da idade primáta aos nossos dias. Para quem quer que se disponha a interrogar a natureza, admirar a obra da vida em seus aspectos cambiantes, o quadro é grandioso pela multiplicidade das manifestações. É um desfile mágico de meios imprevistos, de metamorfoses multifárias, de uma originalidade maravilhosa, capaz de confundir a mais rica imaginação. A natureza tem recursos tão inesgotáveis que o homem jamais poderia enumerá-los.


Apesar das ativas investigações dos sábios, mau grado à legião de observadores debruçados para o mistério da criação, o mistério escapa-lhes pela infinidade da produção, ou pelo esplendor da fecundidade. Entretanto, os tesouros prodigalizados indiciam, demonstram uma tendência para o belo, para o melhor, para o progresso, enfim. É a marcha avante e através da matéria caliginosa — a rígida matriz que importa abrandar, molgar, dominar. É o impulso para a onipotência radiante, para a luz, para a consciência universal.
Quem poderá pintar os meandros incontáveis desse painel eterno, as veredas múltiplas e tortuosas dessas existências que se desenrolam na profundeza do solo e dos mares, como nas camadas atmosféricas? Contudo, nesse caleidoscópio cintilante, e mau grado à infinita diversidade das formas, nota-se uma idéia geral, uma vontade definida, um plano assentado.


Não foi o acaso que gerou essas espécies animais e vegetais. No seu desfile, a consequente possui sempre algo mais que a antecedente e, quando a Ciência nos desvenda os quadros sucessivos dessas transmutações, é que vemos a inapreciável riqueza nelas contida, a ampliar-se sempre. Quanta majestade nessas fases de transição! Que grandeza nessa marcha lenta, porém firme, para chegar ao homem, florescência da força criadora, magnífica jóia que resume e sintetiza todo o progresso, receptáculo de todas as formas, colônia viva, hierarquizada de todas as formas de vida, pois que nele concorrem, e se prestam mútuo auxílio, todos os reinos. A estrutura óssea é o mundo mineral, mas, quão melhorado, vitalizado! Os sais, inertes in natura, aí estão vivos, mutáveis e permutáveis, mas conservando, em seu trânsito, o caráter essencial — a solidez!


Depois, é o mundo vegetal nas células que apresentam variedade e opulência incapazes de serem ultrapassadas por qualquer planta. Em seguida, é o reino animal que fornece sucessivamente os melhores órgãos, nos quais encontramos o esboço de aperfeiçoamento, de espécie em espécie, até atingir o tipo definitivo da humanidade. O sistema nervoso é que tomou a direção do todo orgânico, disciplinou elementos díspares, hierarquizou-os em função de sua utilidade, estimulando ou sustando-lhes a ação. Sempre variável na sua atividade, ele vela por todos os pormenores e mantém ordem e harmonia no concerto tão complexo de todas as forças vitais.


Por fim, radia na cimeira a inteligência que tanto lutou pura desprender-se de suas formas inferiores. Ainda entorpecida pela viagem através das formas subalternas, guarda em si as impressões do instinto que foi, por tão longo tempo, a mui única manifestação exterior. Os tesouros do intelecto, esses abrolham mais demoradamente, através da crosta dos apetites. o egoísmo, o pensamento do ego engendrado pela lei de conservação, cuja suserania predominara até então, vai diminuir pouco a pouco, pois que no reino animal a maternidade já implantou na alma o sentimento de amor, embora sob as mais ínfimas e rudimentares formas. Entretanto, esses ténues lampejos, que mal estriam o sonho animal, irão aumentando de intensidade e mais irradiando, até que se tornem nas almas evoluídas a luz rutilante, o farol tutelar que nos guie em meio às trevas da ignorância.
Como foi que se completou essa gênese da alma? Por quais multimorfoses terá passado o princípio inteligente antes de atingir a humanidade? Eis o que o transformismo nos ensina com evidência luminosa. Graças ao gênio de Lamarck, de Ditrwin, de Wallace, de Haeckel e de todo um exército de sábios naturalistas, nosso passado foi exumado das entranhas do solo. (....)

05 - A REENCARNAÇÃO -GABRIEL DELLANNE - CAP. IV- PÁG. 76

Para apoiar as asserções dos naturalistas que admitem a inteligência animal, experiências do mais alto interesse íoram levadas a efeito há alguns anos, principalmente na Alemanha, em cavalos e cães; elas tendem a demonstrar que nossos irmãos inferiores não se acham tão afastados de nós, intelectualmente, como vulgarmente se imagina. Vou resumir as observações publicadas a respeito dos cavalos de Elberfeld, dos cães Bolf e de Lola.
Os cavalos calculadores: Em 1912, a imprensa parisiense fez grande ruído em torno da publicação das experiências de Krall, rico negociante de Elberfeld, com seus cavalos Muhamed e Zarif. Esses inteligentes quadrúpedes, por meio de um alfabeto convencional, podiam entreter-se com seu mestre, executar cálculos complicados, indo mesmo até à extração de raízes quadradas e cúbicas. Para o método de educação de von Osten, vejam-se os Anais de Ciências Psíquicas. (Annatos dês Sciences Psychlques, Janvler, 1913, pág. 1.) Concebe-se que semelhantes afirmações fossem acolhidas por uma incredulidade geral. Muitos filósofos de renome, entretanto, tendo estudado o caso desses animais notáveis, perceberam que havia aí, realmente, um campo novo de observação para a psicologia animal, e publicaram numerosos relatórios nos "Annales dês Sciences Psychiques" dos anos de 1912 e 1913, nos "Archives de Psychologie de Ia Suisse Allemande" e na revista italiana "Psyche". Vou citar passagens tomadas nessas diferentes fontes. Elas estabelecem a certeza das notáveis faculdades desses animais.


Krall não foi o primeiro que se ocupou em estudar a inteligência dos cavalos; a honra cabe a um precursor, chamado Wilhelm von Osten, que desde 1890 acreditou perceber no cavalo Hans, garanhão suíço, sinais de uma inteligência, que resolveu cultivar. Com infatigável paciência, buscou fazer-se compreender por Hans, que se tornou capaz, não só de contar, isto é, de bater num trampolim, colocado diante de si, com o pé direito, o algarismo das unidades e com o esquerdo o das dezenas, como, ainda mais, de efetuar verdadeiros cálculos, de resolver pequenos problemas. Aprendeu a ler e indicar a data dos dias da semana corrente.


O ruído provocado por esses sensacionais resultados suscitou violentas polêmicas. Foi nomeada, em 1904, uma comissão composta dos Srs. Stumpf e Nagel, professores de Psicologia e de Fisiologia da Universidade de Berlim; do diretor do Jardim Zoológico; de um diretor de circo; de veterinários; de oficiais de Cavalaria. O inquérito concluiu pela inexistência de truques ou embuste, porque o cavalo calculava exatamente, mesmo na ausência de seu proprietário. Foi então que Oskar Pfungst, aluno do Laboratório de Psicologia de Berlim, depois de estudar atentamente Hans, acreditou poder afirmar que o cavalo era levado a dar respostas exatas pela observação de movimentos Inconscientes da cabeça ou dos olhos do experimentador. A questão da inteligência animal pareceu logo enterrada, e, em 1909, o precursor von Osten morreu desesperado.


Eis, porém, que um dos seus admiradores e dos seus discípulos, Krall, pouco convencido da realidade das explicações de Pfungst, e muito versado no estudo da psicologia animal, herdou Hans, estudou-o metodicamente e apresentou o resultado dos seus trabalhos em um grosso volume, que atraiu de novo a atenção sobre essa questão apalxonante. Krall afirmava, com efeito, que Hans é capaz de trabalhar em completa obscuridade, e ainda quando lhe põem antolhos que o impedem de ver os assistentes. Enfim, contrariava ele, perfeitamente, o que dizia Pfungst, quando falava das perguntas feitas a mais de 4 metros e meio atrás do cavalo.


Não havia mais duvidar: Hans não obedecia a sinais visíveis e as respostas exatas eram o produto do seu próprio psiquismo. Krall descobriu, em uma série de experiências, que a acuidade visual do cavalo é muito fina e muito grande, e que ele não é sujeito as ilusões ópticas que nele ensaiaram provocar. Finalmente, Hans compreendeu a língua alemã e tornou-se capaz de exprimir idéias por meio de um alfabeto convencional, batido com o casco. Depois dessas pesquisas, Hans, velho e fatigado, não dava mais que resultados incertos, o que decidiu Krall a procurar dois cavalos árabes, Muhamed e Zarif, de que empreendeu a educação, e esta não tardou a dar os mais brilhantes resultados. Treze dias depois da primeira lição, Muhamed executava pequenas adições e subtrações. Krall não ensinava a seus animais como fazemos essas operações, mas somente no que elas consistem.


No mês de maio seguinte, Muhamed compreendia o francês e o alemão e podia extrair raízes quadradas e cúbicas, executar pequenos cálculos. Além disso, Zarif aprendeu a soletrar palavras que se pronunciavam diante dele e que nunca tinha visto escritas. Como é de ver, tais resultados suscitaram um espanto geral, porque, como escreveu Claparède, era o maior acontecimento que Jamais se produziu na psicologia geral. De todas as partes afluíram sábios que, a princípio incrédulos, voltaram convencidos da realidade das narrativas de Krall. Entre os afamados homens de ciência, que emitiram juízo sobre os cavalos de Elberfeld, citarei, desde logo, Ernest Hoeckel, o ilustre Hoeckel, que escreveu a Krall: — "Suas pesquisas cuidadosas e críticas mostram, de maneira convincente, a existência da razão no animal, o que, para mim, nunca foi motivo de dúvida."


O célebre naturalista via, evidentemente, nessa semelhança entre o animal e o homem, uma confirmação de suas teorias materialistas. Vem em seguida o Dr. Edinger, eminente neurologista de Frankfurt, depois os Professores Dr. H. Kraemer e Dr. H. E. Ziegler, ambos de Stuttgart; o Dr. Paul Sarazin, de Bale; o Professor Ostwald, de Berlim; o Prof. Dr. A. Beredka, do Instituto Pasteur, de Paris; o Dr. Claparède, da Universidade de Genebra; o Prof. Schoeller; o físico Prof. Gehrke, de Berlim; o Prof. Goldstein, de Darmstadt; o Prof. Dr. von Buttel Reopen, de Oldemburgo; o Prof. Dr. William Mackenzie, de Génova; o Prof. Dr. R. Assagioli, redator-chefe da revista "Psyche", de Florença; o Dr. Hartkopf, de Colónia; o Dr. Freu-denberg, de Bruxelas, que vieram a Elberfeld verificar as inesperadas faculdades que se revelavam entre os pensionistas de Krall. Foi, enfim, o Dr. Ferrari, professor de Neurologia da Universidade de Bolonha, que depois de haver publicado na "Revista de Psicologia" e nos "Annales dês Sciences Psychiques" um artigo contrário à tese de Krall, declarou-se, em seguida, convencido da realidade da inteligência dos cavalos, depois de maduro exame da questão. Como diz Alfred Wallace, os fatos são coisas obstinadas e é preciso inclinar-se diante deles, quando irrefutavelmente estabelecidos, como é o caso. (...)

07 - ALMAS QUE VOLTAM - FERNANDO DO Ó - PÁG. 51

(...) Certa vez, depois de ter ouvido, em êxtase, as sábias lições dessa entidade invisível que tanto o amava, indagou-lhe quanto aos sofrimentos dos animais.— Paulo, meu filho, não vejas na Obra da Criação a imperfeição que somente existe em nossos conhecimentos, de vez que o nosso atraso não permite abarcar toda a grandeza da Obra de Deus.— Referi, Mestre — ponderou Paulo, humildemente — ao meu atraso, porque vós já atingistes tamanho grau de perfeição que eu mal compreendo na minha pobreza espiritual.— Não afirmes isso, Paulo. Imperfeito, como tu, eu o sou; apenas, um pouco mais esclarecido pela experiência de existências dolorosas e redentoras.— Quanto sois bom, Mestre — retrucou Paulo — equiparando-vos a mim, pobre espírito faltoso, delinquente, habitual infrator do Có­digo Celeste!


— Ouve-me, Paulo. Tudo na obra de Deus é perfeito e justo. O sofrimento dos animais tem uma finalidade, qual a de ir despertando a consciência deles, preparando-lhes a alma rudimentar para a grande hora da sua evolução.— Porque despertar a consciência deles, Mestre? — inquiriu Paulo, admirado.— Paulo, meu filho, todos temos percorrido os vários reinos da Natureza. E' muito cedo ainda para que compreendas a grandeza sem par da Obra do Senhor dos Mundos. Fomos força de coesão molecular no fundo sombrio e compacto dos rochedos. Adormecemos na dureza dos minerais como energia, apenas, desde que saímos, fagulha divina, das mãos eviternas do Pai, para despertarmos, depois, na planta humilde que o sereno da noite orvalhou, sempre em busca da Perfeição, das formas definitivas da Beleza Espiritual.


A voz cessara. Paulo, maravilhado, escutava aquela lição de sabedoria sideral.
Quanto teria ainda que aprender, através de encarnações, em mundos distantes, longínquos, perdidos na imensidade do Espaço Infinito. Fora mineral, tíomo força de coesão molecular! Planta! Monera! Mísero protozoário no abismo dos oceanos! Planta marinha, depois molusco. E depois? No reino animal! Ave canora ou mísero quadrúpede? Como compreendia agora, um pouco, a grandeza dessa obra imensa que mal podia aquilatar!
Do reino animal ao nominal! Mas porque o Espírito, no desempenho de missões santificadoras, carece da roupagem carnal?


— Já esperava, Paulo, essa interrogação. Era a voz do seu Guia Espiritual.— Passado por todos os reinos da Natureza, o Espírito — continuou o Guia —, depois desse longo jornadear pelo Infinito e pelos Mundos, prepara-se para receber o seu Livre Arbítrio, mediante o qual se torna senhor do seu Destino. Desse momento em diante, quantos Espíritos não baqueiam, não caem, como naquela doce alegoria bíblica, dos anjos decaídos!
Decaído o Espírito, vem a humanização das almas, nos mundos primitivos, inicialmente, e depois, nos planetas de expiação, de regeneração, felizes, conforme o grau de cada um. Aí está, Paulo, numa síntese estonteante, o que é a vida eterna, a vida dos Espíritos, através do turbilhão estelar, do turbilhão dos Universos! Quereis ainda a explicação dos sofrimentos dos animais?— Não, Mestre. Agora se me abriram as janelas da alma para uma visão mais alta da Obra de Deus! — Graças a Deus, ciciou a voz do seu Guia Espiritual.


Paulo compreendera o porquê dos sofrimentos dos seres inferiores da Criação.— Tens muito em que meditar, Paulo, antes de desceres para a Jornada do Sofrimento.— Anseio, Mestre, não somente por esses conhecimentos, senão também por baixar à Terra na reparação de um passado tenebroso.— Ama e Estuda.— E como sinto necessidade de amar, Mestre, eu que nunca pude entender o Amor, como expressão superior dos nossos sentimentos.— Um dia te será facultado esse entendimento. Quando tiveres passado pelas provas redentoras que te aguardam no mundo físico terás atingido aquele grau de conhecimento a que chegamos após as lutas pela libertação espiritual. (...)

09 - ANIMAIS, NOSSOS IRMÃOS - EURIPEDES KUHL - TODA A OBRA

ROTEIRO EVOLUTIVO: Homem
Sem pieguismos, sem soluções simplistas, menos ainda com teorias mirabolantes ou esdrúxulas, ocorre-nos que temos aqui uma situação muito parecida com a que Freud vivenciou: o "Pai da Psicanálise", como era conhecido o festejado médico austríaco, levou a vida toda laborando cientificamente sobre a alma humana -a psique; não conseguiu transpor a barreira que separava suas descobertas da explicação dos mistérios humanos, atávicos, transcendentais...
- Que barreira seria essa?- A Reencarnação! Com seus postulados recheados de lógica, de bom senso e de sabedoria, a Reencarnação escancara para o presente a "face oculta" da alma - o passado, as vidas pregressas! A luz se faz, e onde havia perguntas e dúvidas tudo se esclarece: a Evolução, a bordo das vidas sucessivas, é bênção do Criador que a todas as criaturas contempla.


Ao adentrar na racionalidade, os espíritos agora possuem: inteligência; livre-arbítrio - liberdade de ações (para o bem ou para o mal); bússola segura para a rota evolutiva (a consciência); finalmente, responsabilidade - colherá na medida exata do que plantar. Instintos, embora atenuados, são mantidos.
De vida em vida, evoluirão incessantemente até que, depurando-se, serão virtuosos, amando a Natureza e por igual a todas as criaturas de Deus.
Esse, o roteiro dos anjos...


ROTEIRO EVOLUTIVO: Animais
Quanto aos animais, parcela maior do nosso tema, os Mensageiros Celestiais já nos deixaram várias informações, sendo-nos justo pensar que evoluem dentro das espécies: equídeos, bovídeos, felídeos etc. Engenheiros Siderais, altamente credenciados por Jesus, realizam, nos diferentes corpos espirituais dos indivíduos selecionados em cada espécie, as necessárias modificações ou transformações; assim, acréscimos ou subtrações de caracteres morfológicos ou biológicos adaptam os organismos às mudanças do panorama terrestre. Com isso, as espécies se compatibilizam com a nova realidade geológica que o Tempo se encarrega de administrar, também com transformações periódicas. Esse, o roteiro para o reino nominal!


Funções Vegetais: Têm tríplice função: • purificação do ar, pela fotossíntese; • alimentar seres vivos; • curar enfermidades, de homens e animais.
Já no Velho Testamento, em Ezequiel, 47:12, encontramos: "...E o seu fruto servirá de alimento e a sua folha de remédio". A grande variedade da flora mundial, precedente aos animais, por si só demonstra, conquanto desnecessário, a Sabedoria e a Bondade do Criador para com as criaturas que iriam habitar a Terra. Os vegetais possuem todos os elementos nutritivos de que homens e animais necessitam para sua sobrevivência.


Micróbios: O termo micróbio inclui: bactérias, riquétsias, protozoários, muitos fungos, algas, vírus. São seres unilulares, microscópicos ou ultramicroscópicos. Podem ser: • patogênicos: que provocam doenças; • saprófitos: desenvolvem-se em seres vivos, nutrindo-se de matéria orgânica morta, sem causar doenças. Desempenham importantíssima e indispensável função na Natureza: a desintegração das matérias orgânicas mortas (vegetais e animais) após serem desintegradas retornam ao solo, onde vão formar novas substâncias e igualmente originar novas plantas, que por sua vez alimentarão novos animais. O que seria do mundo se os cadáveres não se desintegrassem? Teríamos um tétrico e insuportável panorama sobre a terra e nas águas...E o solo não teria a renovação de substâncias que o fertilizam.


Em nosso próprio organismo essas operações ocorrem, pois em muitos casos há micróbios transformando matérias e alimentos: auxiliando a digestão e desintegrando a celulose dos vegetais. No caso dos seres saudáveis, essa transformação proporciona e mantêm a harmonia orgânica; seres doentes, ao contrário, estão com tal sistema em desequilíbrio e como em quase tudo (ar, água, alimentos) há micróbios - nocivos e úteis - com facilidade têm agravado o seu estado mórbido, diante da maior proliferação desses micróbios. Quando no organismo os micróbios se multiplicam perigosamente, pela presença excessiva de matéria morbosa (que causa doenças), entram em ação numerosas glândulas, que os expulsam, através dos órgãos de eliminação. Quanta sabedoria na existência dos micróbios!


O homem desde sempre intuiu que os fenômenos naturais, do nascimento à morte, seguem o inexorável curso da Evolução. Leis Divinas, sobre as quais Kardec tão bem discorreu em O Livro dos Espíritos, balizam todos os ciclos de todos os atos dos seres vivos, principalmente do homem, atribuindo-lhe maiores responsabilidades; pois, dentre todos os demais seres vivos daqui do nosso querido mundo, somente a ele é concedido o equipamento da inteligência e do livre-arbítrio.Assim, necessariamente, o homem não tem direito sobre a Vida do próximo, seja ele de que espécie for.


Animais: Colocados na Terra, muitos deles ao lado dos homens, para evoluir. Sua transformação em alimento humano é terrível equívoco, porque sua carne é de teor alimentar deficiente e prejudicial. A deficiência reside na insuficiência de vitaminas, sais minerais e hidratos de carbono. E é prejudicial porque nela estão contidas substâncias venenosas, tais como: ácido úrico, creatina, creatinina, purina, xantina etc. Ao crer em Deus, Arquiteto do Universo, mantido por Ele em dinâmica permanente mercê da Vida, o homem desde sempre intuiu que os fenômenos naturais, do nascimento à morte, seguem o inexorável curso da evolução. Leis Divinas, sobre as Kardec tão bem discorreu em O Livro dos Espíritos, balizam todos os ciclos de todos os atos dos seres vivos, principalmente do homem, atribuindo-lhe maiores responsabilidades; pois, dentre todos os demais seres vivos daqui do nosso querido mundo, somente ele é concedido o equipamento da inteligência e do livre-arbítrio. Assim, necessariamente, o homem não tem direito sobre a Vida do próximo, seja ele de que espécie for. (...)

15 - DEUS NA NATUREZA - CAMILLE FLAMMARION - PÁG. 339

(..)Tendo o mar recoberto outrora todas as regiões do globo, é natural conjeturar que todas as espécies, vegetais e animais, inclusive o homem, começaram pela vida do peixe. Admira-vos a transformação de peixes em cavalos e homens? Pois não há motivo, que fatos há, mais maravilhosos na Natureza. Dignai-vos, ao menos, prestar um pouco de atenção ao editor responsável desta teoria, o falecido Sr. Maillet. Não há animal volátil ou rasteiro que não tenha no mar espécies semelhantes, ou aparentadas, e cuja transição de um para outro elemento seja impossível e, dir-se-ia, até provável com exemplos numerosos. Não nos referimos somente aos anfíbios, serpentes, crocodilos, lontras, focas e muitos outros que vivem tanto nágua como em terra, ou no ar, mas, também aos de vida aérea exclusiva. Sabemos que o mar produz dois gêneros de animais: os que nadam, viajam, passeiam, caçam, e os que rastejam no fundo, daí não se afastam, ou raramente o fazem, sem qualquer propensão natatória. Como duvidar que, do gênero dos peixes voláteis tenham provindo as nossas aves e que dos rastejantes descendam os nossos animais terrestres, sem pendor nem habilidade para alar-se ? Para nos convencermos de que uns e outros passaram do elemento equóreo ao terrestre, basta analisar-lhes a forma, as disposições e tendências recíprocas, confrontando-as de conjunto.


Para começar pelos voláteis, atentai, se vos prouver, não só na forma de todas as espécies de ave, mas também na diversidade da plumagem e das inclinações peculiares. Não encontrareis uma só que não pudésseis encontrar no mar. Observai, ainda, que a transição do ambiente equóreo para o aéreo é muito mais natural do que comumente se presume. O ar que envolve o globo está impregnado de muitas partículas dágua. Esta, dir-se-ia, é um ar carregado de partículas mais grosseiras, mais húmidas e mais pesadas que o fluido superior, que denominamos ar, posto que uma e outro não sejam mais que a mesma coisa, para as necessidades teóricas de Telliamed. E' fácil, portanto, conceber que animais habituados ao ambiente equóreo tenham podido conservar a vida respirando um ar dessa qualidade. "O ar inferior não é senão água difundida. " E' húmido porque provém da água, e é quente porque não é tão frio como poderia ser, transformando-se em água. Mais abaixo, acrescenta: "Há no mar peixes de formas semelhantes a de quase todos os animais terrestres, mesmo pássaros ." Também lá existem plantas, flores e alguns frutos: a urtiga, a rosa, o cravo, o melão, a uva, lá encontram seus congêneres.


Acrescentemos a isso as disposições favoráveis que se podem encontrar em dadas regiões, facilitando a passagem do meio aquático para o aéreo; a necessidade mesmo dessa passagem em dadas circunstâncias, como, por exemplo, o isolamento em lagos cuja seca progressiva obrigasse a viver em terra; ou ainda por qualquer acidente dos que se não podem considerar como extraordinários, dar-se-ia que os peixes voadores, caçando ou sendo caçados, no mar fossem, pelo temor ou pelo desejo de presa, arremessados a maior distância das praia, entre caniços e pedregais, na impossibilidade de regressar ao "habitat", tirassem do próprio esforço para o conseguirem uma faculdade maior de vôo. Neste caso, não mais banhadas pela água as barbatanas fenderam-se, ressecaram e caíram. Enquanto encontraram, em o novo meio, algum alimento que os nutrisse, as cânulas das barbatanas separaram-se, prolongaram-se e revestiram-se de plumas, ou, por melhor dizer, as membranas, antes coladas entre si, metamorfosearam-se.


O pêlo formado dessas películas arqueadas alongou-se por si mesmo; a pele revestiu-se insensivelmente de uma penugem da mesma cor original, e essa penugem cresceu também. As pequenas barbatanas ventrais, que, como as natatórias, lhes auxiliavam a cortar as águas, transmutaram-se em pés e lhes serviram para percorrer o solo. Ainda outras pequenas alterações lhes sobrevieram na conformação. O bico e o pescoço de uns alongaram-se e os outros retraíram-se. A mesma coisa se deu com o corpo. Contudo, a conformidade primária subsiste no todo, e é sempre fácil reconhecê-la. A respeito dos animais que rastejam ou caminham, a transição do meio líquido é ainda mais fácil de conceber. Não custa crer, por exemplo, que serpentes e répteis pudessem viver igualmente num e noutro elemento. As experiências não permitem dúvidas a respeito.
Quanto aos quadrúpedes, não só encontramos no mar espécies semelhantes, com os mesmos pendores, nutrindo-se dos mesmos alimentos que utilizam em terra, como ainda temos cem outros exemplos de espécies que vivem no ar, como nas águas. Não têm os macacos marinhos o mesmo aspecto dos terrestres? Há até mais de uma espécie. O leão, o cavalo, o porco, o lobo, o gato, o cão, a cabra, o carneiro, também têm no mar os seus afins.


A história romana menciona focas aprisionadas e exibidas ao povo nos espetáculos, a saudá-lo com os seus gritos e mesuras, ao mando de um treinador, tal como se pratica com outros animais adestrados para esse fim. E não sabemos que elas se afeiçoam a quem delas cuida, como o fazem os cães a seus donos? Compreende-se que esse progresso, obtenível com as focas, a Natureza o possa realizar por si mesma e que, em certas ocasiões, obrigado a viver alguns dias fora dágua, não seja de todo impossível ao animal identificar-se com o novo ambiente, quando ao antigo não possa regressar. Foi assim, decerto, que todos os animais terrestres passaram do meio equóreo ao etéreo e, por efeito da respiração do ar, adquiriram a faculdade de mugir, uivar, ladrar, faculdade que antes tinham imperfeitas.


Não iremos mais longe para ouvir este escritor, maiormente celebrizado pelas sátiras de Voltaire, do que pelo seu filósofo indiano. Diremos apenas que ele prossegue com uma série de historietas e contos mais ou menos autênticos, de homens selvagens, homens de cauda, imberbes, unípedes, manetas, pretos, gigantes, anões, etc., para culminar na transmigração dos homens e macacos marinhos para a terra firme. Cuvier, o mais ilustre dos geólogos, consignou a sua opinião sobre esta renovada teoria dos Gregos, agora proposta sob aspecto algo diferente, a saber: "Naturalistas, materializados em suas idéias, permaneceram como sectários humildes de Maillet; vendo que o exercício mais ou menos intenso de um órgão lhe aumenta ou diminui, por vezes, a força e o volume, imaginaram que o hábito e as influências exteriores, por muito tempo combinados, puderam alterar gradativamente as formas animais, a ponto de atingirem o que demonstram hoje as diferentes espécies. E' a mais vã e, porventura, a mais superficial de quantas idéias temos tido ensejo de refutar. Nela, os corpos são considerados simples massa, pasta argilosa que se pudesse modelar entre os dedos.(...)


16 -EMMANUEL - EMMANUEL - CAP. XVII - SOBRE OS ANIMAIS

Com o desenvolvimento das idéias espiritualistas no mundo, torna-se um estudo obrigatório, e para todos os dias, o grande problema que implica o drama da evolução anímica. Teria sido a alma criada no momento da concepção, na mulher, segundo as teorias anti-reencarnacionistas? Como será a preexistência? O espírito já é criado pela potência suprema do Universo, apto a ingressar nas fileiras humanas? E os pensadores se voltam para os vultos eminentes do passado. As autoridades católicas valem-se de Tomás de Aquino, que acreditava na criação da alma no período de tempo que precede o nascimento de um novo ser, esquecendo-se dos grandes padres da antiguidade, como Orígenes, cuja obra é um atestado eterno em favor das verdades da preexistência. Outras doutrinas religiosas buscam a opinião falível da sua ortodoxia e dos seus teólogos, relutando em aceitar as realidades luminosas da reencarnacão. Pascal, escrevendo na adolescência o seu tratado sobre os cones, e inúmeros Espíritos de escol, laborando com a sua genialidade precoce nas grandes tarefas para as quais foram chamados à Terra, constituem uma prova eloquente, aos olhos dos menos perspicazes e dos estudiosos de mentalidades tardas no raciocínio, a prol da verdade reencarnacionista.
O homem atual recorda instintivamente os seus labores e as suas observações do passado. Sua existência de hoje é a continuação de quanto efetuou nos dias do pretérito. As conquistas de agora representam a soma dos seus esforços de antanho, e a civilização é a grande oficina onde cada um deixa estereotipada a própria obra.


A SOMBRA DOS PRINCÍPIOS: Contempla-se, porém, até hoje, a sombra dos princípios como noite insondável sobre abismos. Os desencarnados de minha esfera não se acham indenes, por enquanto, do socorro das hipóteses. A única certeza obtida é a da imortalidade da vida e, como não é possível observar a essência da sabedoria, sem iniciativas individuais e sem ardorosos trabalhos, discutimos e estudamos as nobres questões que, na Terra, preocupavam o nosso pensamento. Um desses problemas, que mais assombram pela sua singular transcendência, é o das origens. Se na Terra o progresso humano se verifica, através de dois caminhos, o da Ciência e o da Revelação espiritual, ainda não encontramos, em identidade de circunstâncias, em nossa evolução relativa, nenhuma estrada estritamente científica para determinar o Alfa do Universo, senão a das hipóteses plausíveis. Contudo, saturada da mais profunda compreensão moral, copiosa é a nossa fonte de revelações, a qual constitui para nós um elemento granítico, servindo de base à sabedoria de amanhã.


OS ANIMAIS — NOSSOS PARENTES PRÓXIMOS: Se bem haja no próprio círculo dos estudiosos dos espaços o grupo dos opositores das grandes idéias sobre o evolucionismo do princípio espiritual através das espécies, sou dos que o estudam, atenta e carinhosamente. Eminentes naturalistas do mundo, como Charles Darwin, vislumbram grandiosas verdades, levando a efeito preciosos estudos, os quais, aliás, se prejudicaram pelo excessivo apego à ciência terrena, que se modifica e se transforma, com os próprios homens; e, dentro das minhas experiências, posso afirmar, sem laivos de dogmatismo, que, oriundos na flora microbiana, em séculos remotíssimos, não poderemos precisar onde se encontra o acume das espécies ou da escala dos seres, no pentagrama universal. E, como o objetivo desta palestra é o estudo dos animais, nossos irmãos inferiores, sinto-me à vontade para declarar que todos nós já nos debatemos no seu acanhado círculo evolutivo. São eles os nossos parentes próximos, apesar da teimosia de quantos persistem em o não reconhecer.


Considera-se, às vezes, como afronta ao gênero humano a aceitação dessas verdades. E pergunta-se como poderíamos admitir um princípio espiritual nas arremetidas furiosas das feras indomesticadas, ou como poderíamos crer na existência de um raio de luz divina na serpente venenosa ou na astúcia traiçoeira dos carnívoros. Semelhantes inquirições, contudo, são filhas de entendimento pouco atilado. Atualmente, precisamos modificar todos os nossos conceitos acerca de Deus, porquanto nos falece autoridade para defini-Lo ou individualizá-Lo. Deus existe. Eis a nossa luminosa afirmação, sem poder, todavia, classificá-Lo em sua essência. Os que nos interpelam por essa forma, olvidam as histórias de calúnias, de homicídios, no seio das perversidades humanas. Para que o homem se conservasse nessa posição especial de perfectibilidade única, deveria apresentar todos os característicos de uma entidade irrepreensível, dentro do orbe onde foi chamado a viver. Tal não se verifica e, diariamente, comentais os dramas dolorosos da Humanidade, os assassínios, os infanticídios nefandos, efetuados em circunstâncias nas quais, muitas vezes, as faculdades imperfeitas dos irracionais agiriam com maior benignidade e clemência, dando testemunho de melhor conhecimento das leis de amor que regem o mecanismo do mundo.


A ALMA DOS ANIMAIS: Os animais têm a sua linguagem, os seus afetos, a sua inteligência rudimentar, com atributos inumeráveis. São eles os irmãos mais próximos do homem, merecendo, por isso, a sua proteção e amparo.Seria difícil ao médico legista determinar, nas manchas de sangue, qual o que pertence ao homem ou ao animal, tal a identidade dos elementos que o compõem. A organização óssea de ambos é quase a mesma, variando apenas na sua conformação e observando-se diminuta diferença nas vértebras. O homem está para o animal, simplesmente como um superior hierárquico. Nos irracionais desenvolvem-se igualmente as faculdades intelectuais. O sentimento de curiosidade é, na maioria deles, altamente avançado e muitas espécies nos demonstram as suas elevadas qualidades, exemplificando o amor conjugal, o sentimento da paternidade, o amparo ao próximo, as faculdades de imitação, o gosto da beleza. Para verificar a existência desses fenômenos, basta que se possua um sentimento acurado de observação e de análise.


Inúmeros espíritos trouxeram à luz o fruto de suas pacientes indagações, que são para vós elementos de inegável valor. Entre muitos, citaremos Darwin, Gratiolet e vários outros estudiosos dedicados a esses notáveis problemas. Os mais ferozes animais têm para com a prole ilimitada ternura. Aves existem que se deixam matar, quando não se lhes permite a defesa das suas famílias. Os cães, os cavalos, os macacos, os elefantes deixam entrever apreciáveis qualidades de inteligência. É conhecido o caso dos cavalos de um regimento que mastigavam o feno para um de seus companheiros, inutilizado e enfermo. Conta-se que uma fêmea de cinocéfalo, muito conhecida pela sua mansidão, gostava de recolher os macaquinhos, os gatos e os cães, dos quais cuidava com desvelado carinho; certo dia, um gato revoltou-se contra a sua benfeitora, arranhando-lhe o rosto, e a mãe adotiva, revelando a mais refletida inteligência, examinou-lhe as patas, cortando-lhe as unhas pontiagudas com os dentes. Constitui um fato observável a sensibilidade dos cães e dos cavalos ao elogio e às reprimendas. Longe iríamos com as citações. O que podemos assegurar é que, sobre os mundos, laboratórios da vida no Universo, todas as forças naturais contribuem para o nascimento do ser.


TODOS SOMOS IRMÃOS: De milênios remotos, viemos todos nós, em pesados avatares. Da noite dos grandes princípios, ainda insondável para nós, emergimos para o concerto da vida. A origem constitui, para o nosso relativo entendimento, um profundo mistério, cuja solução ainda não nos foi possível atingir, mas sabemos que todos os seres inferiores e superiores participam do patrimônio da luz universal. Em que esfera estivemos um dia, esperando o desabrochamento de nossa racionalidade? Desconheceis ainda os processos, os modismos dessas transições, etapas percorridas pelas espécies, evolutindo sempre, buscando a perfeição suprema e absoluta, mas sabeis que um laço de amor nos reúne a todos, diante da Entidade Suprema do Universo.


É certo que o Espírito jamais retrograda, constituindo uma infantilidade as teorias da metempsicose dos egípcios, na antiguidade. Mas, se é impossível o regresso da alma humana ao círculo da irracionalidade, recebei como obrigação sagrada o dever de amparar os animais na escala progressiva de suas posições variadas no planeta. Estendei até eles a vossa concepção de solidariedade e o vosso coração compreenderá, mais profundamente, os grandes segredos da evolução, entendendo os maravilhosos e doces mistérios da vida.

25 - O LIVRO DOS ESPÍRITOS - ALLAN KARDEC, QUESTÃO 590 à 610

Perg. 590. Não há nas plantas, como nos animais, um instinto de conservação que as leva a procurar aquilo que lhes pode ser útil e a fugir do que lhes pode prejudicar? - Há, se o quiserdes, uma espécie de instinto: isso depende da extensão que se atribua a essa palavra; mas é puramente mecânico. Quando, nas reações químicas, vedes dois corpos se unirem, é que eles se afinam, quer dizer que há afinidade entre eles; mas não chamais a isso de instinto.

Perg. 591. Nos mundos superiores as plantas são, como os outros seres, de natureza mais perfeita? - Tudo é mais perfeito; mas as plantas são sempre plantas, como os animais são sempre animais e os homens sempre homens.

Perg. 592. Se comparamos o homem e os animais, em relação à inteligência, parece difícil estabelecer a linha de demarcação, porque certos animais têm, nesse terreno, notória superioridade sobre certos homens. Essa linha de demarcação pode ser estabelecida de maneira precisa? - Sobre esse assunto os vossos filósofos não estão muito de acordo. Uns querem que o homem seja um animal, e outros que o animal seja um homem. Estão todos errados. O homem é um ser à parte, que desce às vezes muito abaixo, ou pode elevar-se muito alto. No físico, o homem é como os animais e menos bem provido que muitos dentre eles; a Natureza lhes deu tudo aquilo que o homem é obrigado a inventar com a sua inteligência, para prover às suas necessidades e à sua conservação. Seu corpo se destrói como o dos animais, isto é certo, mas o seu Espírito tem um destino que só ele pode compreender, porque só ele é completamente livre. Pobres homens, que vos rebaixais mais do que os brutos! Não sabeis distinguir-vos deles? reconhecei o homem pelo pensamento de Deus.

Perg. 593. Podemos dizer que os animais só agem por instinto? - Ainda nisso há um sistema. É bem verdade que o instinto domina na maioria dos animais; mas não vês que há os que agem por uma vontade determinada? É que têm inteligência, porém ela é limitada.
Além do instinto, não se poderia negara certos animais a prática de atos combinados, que denotam a vontade de agir num determinado e de acordo com as circunstâncias. Há neles, portanto, uma espécie de inteligência, mas cujo exercício é mais precisamente concentrado sobre os meios de satisfazer às suas necessidades físicas e prover a conservação. Não há entre eles nenhuma criação, nenhum melhoramento; qualquer que seja a arte que admiremos em seus trabalhos, aquilo que faziam antigamente é o mesmo que fazem hoje, nem melhor nem pior, segundo formas e proporções constantes e invariáveis. Os filhotes separados de sua espécie não deixam de construir seu ninho de acordo com o mesmo modelo, sem terem sido ensinados. Se alguns são suscetíveis de uma certa educação, esse desenvolvimento intelectual, sempre fechado em estreitos limites, é devido à ação do homem sobre uma natureza flexível, pois não fazem nenhum progresso por si mesmos, e esse progresso é efêmero, puramente individual, porque o animal,abandonado a si próprio, não tarda a voltar aos limites traçados pela Natureza.

Perg. 594. Os animais têm linguagem? - Se pensais numa linguagem formada de palavras e de sílabas, não; mas num meio de se comunicarem entre si, então, sim. Eles dizem muito mais coisas que supondes, mas a sua linguagem é limitada, como as próprias idéias, às suas necessidades.

Perg. 594a. Há animais que não possuem voz; esses não parecem destituídos de linguagem? - Compreendem-se por outros meios. Vós, homens, não tendes mais do que palavras para vos comunicardes? E dos mudos, que dizeis? Os animais, sendo dotados da vida de relação, têm meios de se prevenirem e de exprimirem as sensações que experimentam. Pensas que os peixes não se entendem? O homem não tem o privilégio da linguagem, mas a dos animais é instintiva e limitada pelo círculo exclusivo das suas necessidades e das suas idéias, enquanto a do homem é perfectível e se presta a todas as concepções da sua inteligência.
Realmente, os peixes que emigram em massa, bem como as andorinhas, que obedecem ao guia, devem ter meios de ser advertirem, de se entenderem e de se combinarem. Talvez disponham de uma vista mais penetrante que lhes permita percerber os sinais que façam entre si; ou talvez a água seja um veículo que lhes transmita certas vibrações. Seja o que for, é incontestável que eles dispõem de meios para se entenderem, da mesma maneira que todos os animais privados de voz, que realizam trabalhos em comum. Deve-se admirar, diante disso, que os Espíritos possam comunicar-lhe entre eles sem o recurso da palavra articulada?

Perg. 595. Os animais têm livre-arbítrio? - Não, são simples máquinas, como supondes, mas sua liberdade de ação é limitada pelas suas necessidades e não pode ser comparada à do homem. Sendo muito inferiores a este, não têm os mesmos deveres. Sua liberdade é restrita aos atos da vida material.

Perg. 596. De onde vem a aptidão de certos animais para imitar a linguagem do homem, e por que essa aptidão se encontra mais entre as aves do que entre os símios, por exemplo, cuja informação tem mais analogia com a daquele? - Conformação particular dos órgãos vocais, secundada pelo instinto da imitação. O símio imita os gestos; certos pássaros imitam a voz.

Perg. 597. Pois se os animais têm inteligência que lhes dá uma certa liberdade de ação, há neles um princípio independente da matéria? - Sim, e que sobrevive ao corpo.

Perg. 598. A alma dos animais conserva após a morte sua individualidade e a consciência de si mesma? - Sua individualidade, sim, mas não a consciência de si mesma. A vida inteligente permanece em estado latente.

Perg. 599. A alma dos animais pode escolher a espécie em que prefira encarnar-se? - Não; ela não tem o livre-arbítrio.

Perg. 600. A alma do animal, sobrevivendo ao corpo, fica num estado errante, como a do homem após a morte? - Fica numa espécie de erraticidade, pois não está unida a um corpo. Mas não é um Espírito errante. O Espírito errante é um ser que pensa e age por sua livre vontade; o dos animais não tem a mesma faculdade. É a consciência de si mesmo que constitui o atributo principal do Espírito. O Espírito do animal é classificado, após a morte, pelos Espíritos incumbidos disso, e utilizado quase imediatamente, não dispõe de tempo para se pôr em relação com outras criaturas.

Perg. 601. Os animais seguem uma lei progressiva, como os homens? - Sim, e é por isso que nos mundos superiores, onde os homens são mais adiantados, os animais também o são, dispondo de meios de comunicação mais desenvolvidos. São, porém, inferiores e submetidos aos homens, sendo para estes servidores inteligentes.
Nada há nisso de extraordinário. Suponhamos os nossos animais de maior inteligência, como o cão, o elefante, o cavalo, dotados de uma conformação apropriada aos trabalhos manuais, o que não poderiam fazer sob a a direção do homem?

Perg. 602. Os animais progridem como o homem, por sua própria vontade, ou pela força das coisas?—- Pela força das coisas; e é por isso que, para eles, não existe expiação

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Perg. 603. Nos mundos superiores, os animais conhecem Deus? — Não. O homem é um deus para eles, como antigamente os Espíritos foram deuses para os homens.


Perg. 604. Os animais, mesmo aperfeiçoados nos mundos superiores, sendo sempre inferiores aos homens, disso resultaria que Deus tivesse criado seres intelectuais perpetuamente votados à inferioridade, o que parece em desacordo com a unidade de vistas e de progresso que se assinalam em todas as suas obras?
— Tudo se encadeia na Natureza, por liames que não podeis ainda perceber, e as coisas aparentemente mais disparatadas têm pontos do contato que o homem jamais chegará a compreender, no seu estado atual. Pode entrevemos, por um esforço de sua inteligência, mas somente quando essa inteligência tiver atingido todo o seu desenvolvimento e se libertado dos preconceitos, do orgulho e da ignorância poderá ver claramente na obra de Deus. Até lá, suas idéias limitadas lhe farão ver as coisas de um ponto de vista mesquinho e acanhado. Sabei que Deus nunca se contradiz e que tudo, na Natureza, se harmoniza por meio de leis gerais, que jamais se afastam da sublime sabedoria do Criador.


Perg. 604-a. A inteligência é assim uma propriedade comum, um ponto de encontro entre a alma dos animais e a do homem?— Sim, mas os animais não têm senão a inteligência da vida material; nos homens, a inteligência produz a vida moral.


Perg. 605. Se considerarmos todos os pontos de contato existentes entre o homem e os animais, não poderíamos pensar que o homem possui duas almas: a alma animal e a alma espírita; e que, se ele não tivesse esta última, poderia viver, mas como os animais? Dizendo de outra maneira: o animal é um ser semelhante ao homem, menos a alma espírita? Disso resultaria que os bons e os maus instintos do homem seriam o efeito da predominância de uma ou de outra dessas duas almas? - Não, o homem não tem duas almas, mas o corpo tem os seus instintos, que resultam da sensação dos órgãos. Não há no homem senão (uma dupla natureza: a natureza animal e a espiritua); pelo seu corpo, participa da natureza dos animais e dos seus instintos; pela sua alma, participa da natureza dos Espíritos.


Perg. 605-a. Assim, além das suas próprias imperfeições, de que o Espírito deve despojar-se, deve ele lutar contra a influência da matéria?— Sim, quanto mais inferior é ele, mais apertados são os laços entre o espírito e a matéria. Não o vedes? Não, o homem não tem duas almas; a alma é sempre única, um ser único. A alma do animal e a do homem são distintas entre si, de tal maneira que a de um não pode animar o corpo criado para o outro. Mas se o homem não possui uma alma animal, que por suas paixões o coloque no nível dos animais, tem o seu corpo, que o rebaixa frequentemente a esse nível, porque o seu corpo é um ser dotado de vitalidade, que tem instintos, mas ininteligentes e limitados ao interesse de sua conservação.
O Espírito, encarnando-se no corpo do homem, transmite-lhe princípio intelectual e moral, que o torna superior aos animais. A duas naturezas existentes no homem oferecem às suas paixões duas fontes diversas: "umas provêm dos instintos da natureza animal, outras das impurezas do Espírito encarnado, que simpatiza em maior ou menor proporção com a grosseria dos apetites animais. O Espírito, ao purificar-se, liberta-se pouco a pouco da influência da matéria. Sob essa influência, ele se aproxima dos brutos; liberto dessa influência, eleva-se ao seu verdadeiro destino.

Perg. 606. De onde tiram os animais o princípio inteligente que constitui a espécie particular de alma de que são dotados? — Do elemento inteligente universal.

Perg.606-a. A inteligência do homem e a dos animais emanam, portanto, de um princípio único?- Sem nenhuma dúvida; mas no homem ela passou por uma elaboração que a eleva sobre a dos brutos.

Perg. Perg. 607. Ficou dito que a alma do homem, em sua origem, assemelha-se ao estado de infância da vida corpórea, que a sua inteligência apenas desponta e que ela ensaia para a vida. Onde cumpre o Espírito essa primeira fase? — Numa série de existências que precedem o período que chamais de Humanidade.


Perg. Perg. 607-a. Parece, assim, que a alma teria sido o princípio inteligente dos seres inferiores da criação?— Não dissemos que tudo se encadeia na Natureza e tende à unidade? E nesses seres, que estais longe de conhecer inteiramente, que o princípio inteligente se elabora, se individualiza pouco a pouco, e ensaia para a vida, como dissemos. E, de certa maneira, um trabalho preparatório, como o da germinação, em seguida ao qual o princípio inteligente sofre uma transformação e se torna Espírito. E então que começa para ele o período de humanidade e, com este, a consciência do seu futuro, a distinção do bem e do mal e a responsabilidade dos seus atos. Como depois período da infância vem o da adolescência, depois a juventude e por fim a idade madura. Nada há, de resto, nessa origem, que deva humilhar homem. Os grandes gênios sentem-se humilhados por terem sido fetos informes no ventre materno? Se alguma coisa deve humilha-los, é a sua. inferioridade perante Deus e sua impotência para sondar a profundeza de seus desígnios e a sabedoria das leis que regulam a harmonia do Universo. Reconhecei a grandeza de Deus nessa admirável harmonia que faz a solidariedade de todas as coisas na Natureza. Crer que Deus pudesse ter feito qualquer coisa sem objetivo e criar seres inteligentes sem futuro seria blasfemar contra a sua bondade, que se estende sobre todas as suas criaturas.

Perg. 607-b. Esse período de humanidade começa na Terra?— A Terra não é o ponto de partida da primeira encarnação humana. O período de humanidade começa, em geral, nos mundos ainda mais inferiores. Essa, entretanto, não é uma regra absoluta e poderia acontecer que um Espírito, desde o seu início humano, estivesse apto a viver na Terra. Esse caso não é frequente, e seria antes uma exceção.


Perg. 608. O Espírito do homem, após a morte, tem consciência das existência que precederam, para ele, o período de humanidade?— Não, porque não é senão desse período que começa para ele a vida de Espírito, e é mesmo difícil que se lembre de suas primeiras existências como homem, exatamente como o homem não se lembra mais dos primeiros tempos de sua infância, e ainda menos, do tempo que passou no ventre materno. Eis porque os Espíritos vos dizem que não sabem como começaram.


Perg. 609. O Espírito, tendo entrado no período de humanidade, conserva os traços do que havia sido precedentemente, ou seja, do estado em que se encontrava no período que se poderia chamar anti-humano?— Isso depende da distância que separa os dois períodos e do progresso realizado. Durante algumas gerações ele pode conservar um reflexo mais ou menos pronunciado do estado primitivo, porque nada na Nutureza se faz por transição brusca; há sempre anéis que ligam extremidades da cadeia dos seres e dos acontecimentos. Mas esses traços desaparecem com o desenvolvimento do livre-arbítrio. Os primeiros progressos se realizam lentamente, porque não são ainda secundados pela vontade, mas seguem uma progressão mais rápida, à medida que o Espírito adquire a consciência mais perfeita de si mesmo.


Perg. 610. Os Espíritos que disseram que o homem é um ser à parte na ordem da criação enganaram-se, então? - Não, mas a questão não havia sido desenvolvida, e há coisas que não podem vir senão a seu tempo. O homem é, de fato, um ser à parte, porque tem faculdades que o distinguem de todos os outros e tem outro destino. A espécie humana é a que Deus escolheu para a encarnação dos seres que O podem conhecer.