BEM
BIBLIOGRAFIA
01- A gênese - cap. III 02 - A mansão Renoir - pág. 172
03 - A pluralidade dos Mundos Habitados - pág. 267 04 - A sombra do olmeiro - pág. 79, 120
05 - Ação e reação - pág.90, 255 06 - Alerta - pág. 50, 125
07 - As aves feridas na Terra voam - pág. 23 08 - Auto desobsessão - pág. 20
09 - Boa Nova - pág. 35 10 - Caminho, verdade e vida - pág. 99, 135, 361
11 - Cartas e crônicas - pág. 35, 77 12 - Catecisto Espírita - pág.59 28ª lição
13 - Coragem - pág.49 14 - Deus aguarda- pág. 70
15 - Do país da Luz - vol. I pág. 187, vol. IV v135

16 - Escrínio de luz- pág.83

17 - Espírito e vida - pág. 41 18 - Estante davida - pág. 129
19 - Estude e viva- pág. 116 20 - Expiação- pág. 75
21 - Fonte Viva - pág. 85, 245, 391 22 - Jesus no lar - pág. 71, 91, 147
23 - Mecanismos da mediunidade - pag. 110 24 - Mediunidade e sintonia - pág. 73
25 - Nas pegadas do mestre - pág. 291 26 - O Evangelho S. o Espiritismo- pág. 110, 148, 196
27 - O Livro dos Espíritos- q. 75, 97, 120, 133 28 - O porquê da vida - pág. 71
29 - Palavras de vida eterna - pág. 17 - 2 30 -Segue-me- pág. 119
31 - Vinhas de luz - pág. 49 32 - Vozes do Grande além - pág. 129
33 - Oferenda - pág. 145  

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BEM – COMPILAÇÃO

01- A gênese - Allan Kardec - cap. III

CAPITULO III O BEM E O MAL - ORIGEM DO BEM E DO MAL
1. - Sendo Deus o princípio de todas as coisas, e sendo este princípio todo sabedoria, todo bondade, todo justiça, tudo o que dele procede deve participar de seus atributos, por que é infinitamente sábio, justo e bom, nada pode produzir de insensato, de mau e de injusto. O mal que observamos não deve, pois, ter a sua fonte nele.

2. - Se o mal, estando nos atributos de um ser especial que se chama Arimane ou Satã, de duas coisas uma: ou esse ser seria igual a Deus e, conseqüentemente, tão poderoso quanto ele, e de toda a eternidade igual a ele, ou lhe seria inferior. No primeiro caso, haveria duas potências rivais, lutando sem cessar, cada uma procurando desfazer o que a outra f az, e se opondo mutuamente. Esta hipótese é inconciliável com a unidade de vistas que se revela na disposição do Universo. No segundo caso, esse ser, sendo inferior a Deus, ser-lhe-ia subordinado; não podendo ter sido igual a ele, de toda a eternidade, sem ser seu igual, teria um começo; se foi criado, não pode tê-lo sido senão por Deus; Deus teria, assim, criado o Espírito do mal, o que seria negação da infinita bondade. (Ver O Céu e o Inferno Segundo o Espiritismo, cap. X, Os Demônios).

3. - Entretanto, o mal existe e tem uma causa.
Os males de todas as espécies, físicos ou morais, que afligem a Humanidade, apresentam duas categorias que importa distinguir: são os males que o homem pode evitar, e aqueles que independem da sua vontade. Entre estes últimos, é preciso colocar os flagelos naturais. O homem, cujas faculdades são limitadas, não pode penetrar, nem abarcar, o conjunto dos objetivos do Criador; julga as coisas sob o ponto de vista da sua personalidade, dos interesses factícios e da convenção que se criou, e que não estão na ordem da Natureza; por isso é que ele acha, frequentemente, mau e injusto, o que acharia justo e admirável se lhe visse a causa, o fim e o resultado definitivo. Procurando a razão de ser e a utilidade de cada coisa, reconhecerá que tudo leva a marca da sabedoria infinita, e se inclinará diante dessa sabedoria, mesmo para as coisas que não compreende.

4. - O homem recebeu, em herança, uma inteligência com a ajuda da qual pode conjurar, ou pelo menos grandemente atenuar os efeitos de todos os flagelos naturais; quanto mais ele adquire saber e avance em civilização, menos esses flagelos são desastrosos; com uma organização social sabiamente previdente, poderá mesmo neutralizar-lhes as consequências, quando não puderem ser inteiramente evitadas. Assim, para esses mesmos flagelos, que têm a sua utilidade na ordem da Natureza e para o futuro, que ferem no presente, Deus deu ao homem, pelas faculdades com as quais dotou o seu Espírito, os meios de paralisar-lhes os efeitos. Assim é que ele saneia os continentes insalubres, neutraliza os miasmas pestilentos, fertiliza as terras incultas e se esforça por preservá-las das inundações; que construiu habitações mais sadias, mais sólidas para resistirem aos ventos, tão necessários para a depuração da atmosfera, que se coloca ao abrigo das intempéries; foi assim, enfim, que, pouco a pouco, a necessidade fê-lo criar as ciências, com a ajuda das quais melhora a habitabilidade do globo, e aumenta a soma do seu bem-estar.

5. - Devendo o homem progredir, os males, aos quais está exposto, são um estimulante para o exercício da sua inteligência, de todas as suas faculdades, físicas e morais, iniciando-o na pesquisa dos meios para deles subtrair-se. Se
não tivesse nada a temer, nenhuma necessidade o levaria à procura dos meios, seu espírito se entorpeceria na inatividade; não inventaria nada e não descobriria nada. A dor é o aguilhão que impele o homem para a frente, no caminho do progresso.

6.-Mas os mais numerosos males são aqueles que o homem cria para si mesmo, pelos seus próprios vícios, aqueles que provêm de seu orgulho, de seu egoísmo, de sua ambição, de sua cupidez, de seus excessos em todas as coisas; aí está a causa das guerras e das calami­dades que elas arrastam, dissenções, injustiças, opressão do fraco pelo forte, enfim, a maioria das doenças. Deus estabeleceu leis, plenas de sabedoria, que não têm por objetivo senão o bem; o homem encontra, em si mesmo, tudo o que é necessário para segui-las; sua rota está traçada pela sua consciência; a lei divina está gravada no seu coração; e, além disso, Deus o chama, sem cessar, através dos seus messias e profetas, por todos os Espíritos encarnados que receberam a missão de esclarecê-lo, moralizá-lo, melhorá-lo, e, nestes últimos tempos, pela multidão de Espíritos desencarnados que se manifestam por toda parte. Se o homem se conformasse, rigorosamente, com as leis divinas, não há dúvida de que evitaria os mais pungentes males, e que viveria feliz sobre a Terra. Se não o faz, e em virtude do seu livre arbítrio, e, disso sofre as consequências. (O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. V, n°s 4, 5, 6 e seguintes).

7. - Mas Deus, cheio de bondade, colocou o remédio ao lado do mal, quer dizer, do próprio mal faz sair o bem. Chega um momento em que o excesso do mal moral se torna intolerável, e faz o homem sentir o desejo de mudar de caminho; instruído pela experiência, é compelido a procurar um remédio no bem, sempre por efeito do seu livre arbítrio; quando entra num caminho melhor, é pelo fato da sua vontade e porque reconheceu os inconvenientes do outro caminho. A necessidade o constrange, pois, a se melhorar moralmente, para ser mais feliz, como esta mesma necessidade o constrange a melhorar as condições materiais da sua existência.

8. - Pode-se dizer que o mal é a ausência do bem, como o frio é a ausência do calor. O mal não é mais um atributo distinto do que o frio não é um fluido especial; um é o negativo do outro. Aí, onde o bem não existe, existe forçosamente o mal; não fazer o mal, já é o começo do bem. Deus não quer senão o bem; só do homem vem o mal. Se houvesse, na criação, um ser predisposto ao mal, nada poderia evitá-lo; mas o homem, tendo a causa do mal em SI MESMO, e tendo, ao mesmo tempo, seu livre arbítrio e, por guia, as leis divinas, evitá-lo-ia quando quisesse.

Tomemos um fato vulgar por comparação. Um proprietário sabe que, na extremidade do seu campo, há um lugar perigoso, onde poderia perecer ou se ferir aquele que ali se aventurasse. O que faz, para prevenir os acidentes? Coloca, perto do local, um aviso tornando proibido ir mais longe, por causa do perigo. Eis a lei; ela é sábia e previdente. Se, malgrado isso, um imprudente não o tem em conta, e passa alem, se lhe ocorre algo mal, a quem pode imputar senão a si mesmo?

Assim ocorre com todo o mal; o homem o evitaria, se observasse as leis divinas. Deus, por exemplo, colocou um limite à satisfação das necessidades; o homem é advertido pela saciedade; se ultrapassa esse limite, o faz voluntariamente. As doenças, as enfermidades, a morte, que lhe podem ser consequentes, são, pois, o fato da sua imprevidência, e não de Deus.

9. - O mal, sendo o resultado das imperfeições do homem, e o homem, sendo criado por Deus, Deus, dir-se-á, se não criou o mal, pelo menos a causa do mal; se houvesse feito o homem perfeito, o mal não existiria. Se o homem tivesse sido criado perfeito, seria levado, fatalmente, ao bem: ora, em virtude o seu livre arbítrio, ele não é levado, fatalmente, nem ao bem nem ao mal. Deus quis que fosse submetido à lei do progresso, e que, esse progresso fosse fruto do seu próprio trabalho, afim de que, dele, tivesse o mérito, do mesmo modo que carrega a responsabilidade do mal que é o fato da sua vontade. A questão, pois, é saber qual é, no homem, a fonte da propensão para o mal (O erro consiste em pretender que a alma tenha saído perfeita das mãos do Criador, ao passo que este, ao contrário, quis que a perfeição fosse o resultado da depuração gradual do Espírito e sua própria obra. Deus quis que a alma, em virtude do seu livre arbítrio, pudesse optar entre o bem o mal, e que ela chegasse aos seus fins últimos por uma vida militante e resistindo ao mal. Se tivesse feito a alma perfeita, como ele, e que, saindo das suas mãos, a tivesse associado à sua beatitude eterna, não a teria feito à sua imagem, mas semelhante a ele mesmo. (Bonnamy, juiz de instrução: A Razão do Espiritismo cap. VI).)

10. - Se se estudam todas as paixões, e mesmo todos os vícios, vê-se que têm seu princípio no instinto de conservação. Este instinto está, com toda a sua força, nos animais e nos seres primitivos que mais se aproximam da animalidade; aí só ele domina, porque, neles, não há ainda, por contrapeso, o senso moral; o ser ainda não nasceu para a vida intelectual. O instinto se enfraquece, ao contrário, à medida que a inteligência se desenvolve, porque esta domina a matéria.

O destino do homem é a vida espiritual; mas, nas primeiras fases da sua existência corpórea, não há senão necessidades materiais a satisfazer, e, para esse fim, o exercício das paixões é uma necessidade para a conservação da espécie e dos indivíduos, materialmente falando. Mas, saído desse período, há outras necessidades, necessidades primeiro semi-morais e semi-materiais, depois, exclusivamente morais. E, então, quando o Espírito domina a matéria; se lhe sacode o jugo, avança no caminho providencial, e se aproxima da sua destinação final.

Se, ao contrário, se deixa dominar por ela, se atrasa assimilando-se ao animal. Nessa situação, o que, outrora, era um bem, porque era uma necessidade da sua natureza, torna-se um mal, não somente por não ser mais uma necessidade, mas porque isso se torna nocivo à espíritualização do ser. Tal o que é qualidade na criança e se torna defeito no adulto. O mal, assim, é relativo, e a responsabilidade proporcionada ao grau de adiantamento. Todas as paixões têm, pois, a sua utilidade providencial; sem isso, Deus teria feito algo inútil e nocivo. É o abuso que constitui o mal, e o homem abusa em virtude do seu livre arbítrio. Mais tarde, esclarecido pelo seu próprio interesse, escolherá, livremente, entre o bem o mal.

03 - A pluralidade dos Mundos Habitados - Camille Flammarion- pág. 267

A beleza absoluta é a beleza espiritual, a beleza intelectual, a beleza moral; qualquer que seja o seu nome, ela está no fundo de nossas consciências como o princípio da ideia do belo, como o ideal do qual se aproximam mais ou menos as belezas finitas que nossos sentidos percebem. Esse ideal é a medida e a regra de todos os nossos julgamentos sobre as belezas particulares; e se estabelecemos graus entre as diversas belezas, é porque nós comparamos, mesmo sem; o sabermos, essas belezas de que essa comparação nos faz
juizes.

Esse princípio irredutível está em nós com seu caráter absoluto, e nada pode fazer com que não esteja. Mais outro menos velado por nossa inferioridade, mais ou menos visível sob nossa educação moral, ele julga, mesmo que nós queiramos lhe impor silêncio, e julga não apenas o valor de nossas idéias mas também o daquelas de todos os homens. E logo que um fato moral, submetido a nosso julgamento íntimo, é declarado belo em si mesmo, nós o temos por belo, ainda que outros homens afirmem que lhe são indiferentes.

Tomamos um exemplo nos fatos da ordem moral cor o fizemos nas obras da ordem física. Durante um episódio da vergonhosa guerra que Rússia travou contra a Polônia, ocorreu um fato que denotou uma coragem sobre-humana. As hordas russas havia mergulhado em fogo e sangue pobres cidadezinhas ao redor de Varsóvia; os habitantes que puderam ser atingidos pelo ferro do soldado haviam sido massacrados, as mulheres arrancadas de seus lares e submetidas a ignóbeis ultrajes, crianças deixadas nas neves para morrer. O resto da população que pudera escapar estava em fuga, com os cossacos em sua perseguição. Estes chegaram logo a um rio, além do qual perceberam os poloneses em fuga; mas, não sabendo onde o vau por onde pudessem atravessar, procuraram por algum camponês ocupado com a terra. Eles obrigaram o primeiro que encontraram a indicar-lhes o vau, sob pena de ser impiedosamente massacrado.

Este lhes afirmou não ser da região e não conhecer o rio. Eles empregaram as ameaças e juntaram a ação à palavra; o polonês persistiu em sua afirmação. Perdendo então a paciência, eles lhe ordenaram, sob pena de morte imediata, que se atirasse à água, procurasse o vau e o indicasse a eles. O polonês mergulhou e procurou. Esgotado pela fadiga, encontrou afinal o lugar por onde se poderia atravessar a pé. Simulou então grandes esforços, como se a água tivesse se tornado mais profunda, afundou pouco a pouco, e se afogou para salvar seus irmãos.

Eis aí uma ação que declaramos bela em si mesma. Esse julgamento absoluto, nós o usamos em virtude do princípio que está em nós, e se qualquer um viesse nos dizer que tal ação não o toca nós tomaríamos sua palavra como mentirosa ou seu senso moral como invertido. Se nós raciocinamos desta forma, é porque aquela ação oferece um gênero de beleza que se liga ao nosso ideal de beleza absoluta. Raciocinamos da mesma forma com todos os gêneros de beleza que tocam à beleza intelectual, seja Vicente de Paulo socorrendo as crianças, ou Régulo, cumulado de honrarias em Roma, retornando a Cartago para morrer; a última palavra de Sócrates ao beber a cicuta ou aquela do divino Cristo sobre a cruz; seja Newton, pesando os mundos, ou Platão contemplando Vênus-Urano.

A beleza física, a beleza sensível é então relativa, ao passo que a beleza ideal é absoluta; esta é o fundo, o princípio da primeira. Nenhuma das belezas que constituem o belo exterior nos satisfaz; são apenas o indício de uma beleza superior que é a beleza ideal. E esse ideal é tanto mais aparente no fundo de nossa alma, tanto mais parece purificado, lanto mais completo, quanto mais somos elevados na esfera da inteligência; ele parece elevar-se e recuar à medida que nós mesmos nos elevamos; ele participa do infinito, pois seu termo está em Deus, princípio dos princípios.

Todas as almas criadas, quer habitem a Terra ou outra moradas, estão unidas pelos mesmos princípios irredutíveis da beleza ideal, pois esses princípios possuem os caracteres do absoluto e do universal. Se o belo nos objetos difer conforme os mundos, não é assim com o belo no espírito de homem; este é uma noção necessariamente universal. Ele constitui, como veremos, com os princípios da verdade e do bem absolutos, o laço moral que liga à Inteligência primeira; todas as inteligências criadas. Em todas as terras habitadas de espaço como na nossa, as almas humanas podem dizer com Platão essas palavras inspiradas:

"Beleza eterna, não engendrada e imperecível, isentai de decadência como de crescimento, que não é bela em uma parte e feia em outro, bela somente em tal tempo, em tal lugar, em tal relação; bela para esses, feia para aqueles; beleza qua não tem forma sensível, um rosto, mãos, nada de corporal que também não é tal pensamento ou tal ciência em particular, que não reside em nenhum ser diferente dela mesma como um animal, ou a terra, ou o céu, que é absolutamente idêntica e invariável por si mesma, da qual todas as outras! belezas participam, de maneira contudo que seu nascimento ou sua destruição não lhe acarrete nem diminuição, nem crescimento, nem a menor mudança. Para chegar a ti, beleza perfeita, é preciso começar pelas belezas de aqui embaixo, os olhos fitos na beleza suprema, elevar-se sem cessar, passando, por assim dizer, por todos os graus da escala, até que de conhecimentos em conhecimentos, se chegue ao conhecimento por excelência, que não tem outro fim que não o próprio belo, e que se acaba conhecendo tal como é em si.. .

Qual não seria o destino de um mortal a quem fosse dado contemplar o belo sem mistura, em sua pureza e simplicidade, não mais revestido de carnes e cores humanas, e de todos esses vãos ornamentos condenados a perecer, mas em todo o seu imperecível e eterno esplendor! "Se há no belo princípios absolutos que formam como o fundo e o tipo espiritual da beleza, igualmente e com mais forte razão deveremos encontrar esses mesmos princípios absolutos na idéia do Verdadeiro e do Bem; pois aqui nada mais há de material, tudo é essencialmente moral e pertence ao reino do espírito. O que é verdadeiro é verdadeiro, o que é bem é bem, na absoluta acepção da palavra; e se a história dos povos parece mostrar junto a alguns as verdades não reconhecidas por outros, e invalidar por isso o princípio das verdades absolutas, tal fato só deve nos servir para esclarecer sobre a existência dessas verdades, para ensinar-nos a distingui-las de certas ideias relativas, e a não tomar levianamente por absoluto o que não oferece os caracteres indestrutíveis.

As verdades universais oferecem esse caráter distintivo, de que elas existem necessariamente, independentemente de nós, e não podem sofrer alteração seja onde for. Elas são axiomáticas e imperecíveis. Nossa razão as percebe, mas não as inventa; ela as encontra, mas não as forma; e se todos os homens não podem igualmente apreciar seu valor, pois não são igualmente elevados na ordem moral e intelectual, ao menos sua noção é acessível a toda consciência humana, porque esta noção deve ser a regra de nossa conduta interior.

Esses princípios universais estão à frente de todas as ciências, e, sem a sua autoridade indiscutível, nenhuma ciência saberia como se edificar. À frente das matemáticas temos nossos axiomas, nossas definições primeiras, que formam a base original de nossa ciência, além da qual não subimos, já que nela subsiste a confirmação inalienável de


05 - Ação e reação - André Luiz- pág.90, 255

7 - Conversação preciosa
Facilitando-nos a tarefa, Druso apresentou-nos, mais intimamente, ao Ministro Sânzio, informando que estudávamos, em alguns problemas da Mansão, as leis de causalidade. Anelando penetrar mais amplas esferas de conhecimento, acerca do destino, indagávamos sobre a dor...O grande mensageiro como que abdicou por momentos a elevada posição hierárquica que lhe quadrava à personalidade distinta, e, tanto pelo olhar quanto pela inflexão da voz, parecia agora mais particularmente associado a nós, mostrando-se mais à vontade.

— A dor, sim, a dor... — murmurou, compadecido, como se perscrutasse transcendente questão nos escaninhos da própria alma. E fitando-nos, a Hilário e a mini, com inesperada ternura acentuou, quase doce:— Estudo-a, igualmente, filhos meus. Sou funcionário humilde dos abismos. Trago comigo a penúria e a desolação de muitos. Conheço irmãos nossos, portadores do estigma de padecimentos atrozes, que se encontram animalizados, há séculos, nos despenhadeiros infernais; entretanto, cruzando as trevas densas, embora o enigma da dor me dilacere o coração, nunca surpreendi criatura alguma esquecida pela Divina Bondade.

Registrando-lhe a palavra amorosa e sábia, inexprimível sentimento me invadiu a alma toda. Até ali, não obstante ligeiramente, convivera com numerosos Instrutores. De muitos deles conseguira ensinamentos e observações magistrais, mas nenhum, até então, me trouxera ao espírito aquele amálgama de enlevo e carinho, admiração e respeito que me assomava ao sentimento. Enquanto Sânzio falava, generoso, cintilações roxo-prateadas nimbavam-lhe a cabeça, mas não era a sua dignidade exterior que me fascinava. Era o caricioso magnetismo que ele sabia exteriorizar.

Tinha a impressão de achar-me à frente de meu pai ou de minha própria mãe, ao lado de quem me cabia dobrar os joelhos. Sem que me fosse possível governar a comoção, lágrimas ardentes rolavam-me pela face. Não pude saber se Hilário estava preso ao mesmo estado d'alma, porque, diante de mim, passei a ver Sânzio somente, dominado por sua grandeza humilde. De onde vinha, Senhor — perguntava sem palavras nos refolhos do coração —, aquele vulto tão ilustre, mas, apesar disso, tão simples dalma? onde conhecera eu aqueles olhos belos e límpidos? em que lugar lhe recebera, um dia, o orvalho de amor divino, assim como o verme na caverna sente a bênção do calor do Sol?

O Ministro percebeu-me a emotividade, como o professor assinala a perturbação do aprendiz, e, qual se quisesse advertir-me sobre o aproveitamento das horas, avançou para mim e observou carinhosamente:— Pergunte, meu filho, sobre questões não pessoais, e responderei quanto puder. Percebi-lhe a nobre intenção e busquei dominar-me.— Grande benfeitor — exclamei, comovido, buscando olvidar os meus próprios sentimentos —, poderemos ouvi-lo, de algum modo, acerca do «carma» ? Sânzio retomou a posição que lhe era habitual, junto ao espelho cristalino, e obtemperou:

— Sim, o «carma», expressão vulgarizada entre os hindus, que em sânscrito quer dizer «ação», a rigor, designa «causa e efeito», de vez que toda ação ou movimento deriva de causa ou impulsos anteriores. Para nós expressará a conta de cada um, englobando os créditos e os débitos que, em particular, nos digam respeito. Por isso mesmo, há conta dessa natureza, não apenas catalogando e definindo individualidades, mas também povos e raças, estados e instituições. O Ministro fez uma pausa, como quem dava a perceber que o assunto era complexo, e continuou:— Para melhor entender o «carma» ou «conta do destino criada por nós mesmos», convém lembrar que o Governo da Vida possui igualmente o seu sistema de contabilidade, a se lhe expressar no mecanismo de justiça inalienável.

Se no círculo das atividades terrenas qualquer organização precisa estabelecer um regime de contas para basear as tarefas que lhe falem à responsabilidade, a Casa de Deus, que é todo o Universo, não viveria igualmente sem ordem. A Administração Divina, por isso mesmo, dispõe de sábios departamentos para relacionar, conservar, comandar e engrandecer a Vida Cósmica, tudo pautando sob a magnanimidade do mais amplo amor e da mais criteriosa justiça.

Nas sublimadas regiões celestes de cada orbe entregue à inteligência e à razão, ao trabalho e ao progresso dos filhos de Deus, fulguram os gênios angélicos, encarregados do rendimento e da beleza, do aprimoramento e da ascensão da Obra Excelsa, com ministérios apropriados à concessão de empréstimos e moratórias, créditos especiais e recursos extraordinários a todos os Espíritos encarnados ou desencarnados, que os mereçam, em função dos serviços referentes ao Bem Eterno; e, nas regiões atormentadas como esta, varridas por ciclones de dor regenerativa, temos os poderes competentes para promover a cobrança e a fiscalização, o reajustamento e a recuperação de quantos se fazem devedores complicados ante a Divina Justiça, poderes que têm a função de purificar os caminhos evolutivos e circunscrever as manifestações do mal.

As religiões na Terra, por esse motivo, procederam acertadamente, localizando o Céu nas esferas superiores e situando o Inferno nas zonas inferiores, porquanto, nas primeiras, encontramos a crescente glorificação do Universo e, nas segundas, a purgação e a regeneração indispensáveis à vida, para que a vida se acrisole e se eleve ao fulgor dos cimos. Ante o intervalo espontâneo e reparando que o Ministro se propunha a manter contacto conosco, através da conversação, aduzi, com interesse:— Comove saber que sendo a Providência Divina a Magnanimidade Perfeita, sem limites gerando tesouros de amor para distribuí-los com abundância, em favor de todas as criaturas, é também a Equidade Vigilante, na direção e na aplicação dos bens universais.

— Efetivamente, não poderia ser de outro modo — ajuntou Sânzio, bondoso. — Em assuntos da lei de causa e efeito, é imperioso não olvidar que todos os valores da vida, desde as mais remotas constelações à mais mínima partícula subatômica, pertencem a Deus, cujos inabordáveis desígnios podem alterar e renovar, anular ou reconstruir tudo o que está feito. Assim, pois, somos simples usufrutuários da Natureza que consubstancia os tesouros do Senhor, com responsabilidade era. todos os nossos atos, desde que já possuamos algum discernimento. O Espírito, seja onde for, encarnado ou desencarnado, na Terra ou noutros mundos, gasta, em verdade, o que lhe não pertence, recebendo por empréstimos do Eterno Pai os recursos de que se vale para efetuar a própria sublimação no conhecimento e na virtude.

Patrimônios materiais e riquezas da inteligência, processos e veículos de manifestação, tempo e forma, afeições e rótulos honoríficos de qualquer procedência são de propriedade do Todo-Misericordioso, que no-los concede a título precário, a fim de que venhamos a utilizá-los no aprimoramento de nós mesmos, marchando nas largas linhas da experiência, de modo a entrarmos na posse definitiva dos valores eternos, sintetizados no Amor e na Sabedoria com que, em futuro remoto, Lhe retrataremos a Glória Soberana. Desde o elétron aos gigantes astronômicos da Tela Cósmica, tudo constitui reservas das energias de Deus, que usamos, em nosso proveito, por permissão d'Ele, de sorte a promovermos, com firmeza, nossa própria elevação a Sua Majestade Sublime. Dessa maneira, é fácil perceber que, após conquistarmos a coroa da razão, de tudo se nos pedirá contas no momento oportuno, mesmo porque não há progresso sem justiça na aferição de valores.

Lembrei-me instintivamente da nossa errada conceituação de vida na Terra, quando nos achamos sempre dispostos a senhorear indebitamente os recursos do estágio humano, em terras e casas, títulos e favores, prerrogativas e afetos, arrastando, por toda a parte, as algemas do mais gritante egoísmo...Sânzio registrou-me os pensamentos, porque acentuou com paternal sorriso, apés ligeira pausa:— Realmente, no mundo o homem inteligente deve estar farto de saber que todo conceito de propriedade exclusiva não passa de simples suposição. Por empréstimo, sim, todos os valores da existência lhe são adjudicados pela Providência Divina, por determinado tempo, de vez que a morte funciona como juiz inexorável, transferindo os bens de certas mãos para outras e marcando com inequívoca exatidão o proveito que cada Espírito extrai das vantagens e concessões que lhe foram entregues pelos Agentes da Infinita Bondade.

Aí, vemos os princípios de causa e efeito, em toda a força de sua manifestação, porque, no uso ou no abuso das reservas da vida que representam a eterna Propriedade de Deus, cada alma cria na própria consciência os créditos e os débitos que lhe atrairão inelutavelmente as alegrias e as dores, as facilidades e os obstáculos do caminho. Quanto mais amplitude em nossos conhecimentos, mais responsabilidade em nossas ações. Através de nossos pensamentos, palavras e atos, que nos fluem, invariáveis, do coração, gastamos e transformamos constantemente as energias do Senhor, em nossa viagem evolutiva, nos setores da experiência, e, do quilate de nossas intenções e aplicações, nos sentimentos e práticas da marcha, a vida organiza, em nós mesmos, a nossa conta agradável ou desagradável ante as Leis do Destino.. Nesse ponto do valioso esclarecimento, Hilário inquiriu com humildade:

— Amado Instrutor, à face da gravidade de que a lição se reveste para nós, que devemos entender como sendo «bem» e «mal» ? Sânzio fez um gesto de tolerância bondosa e replicou : — Evitemos o mergulho nos labirintos da Filosofia, não obstante o respeito que a Filosofia nos merece, porquanto não nos achamos num cenáculo simplesmente destinado à esgrima da palavra. Busquemos, antes de tudo, simplificar. É fácil conhecer o bem quando o nosso coração se nutre de boa-vontade à frente da Lei. O bem, meu amigo, é o progresso e a felicidade, a segurança e a justiça para todos os nossos semelhantes e para todas as criaturas de nossa estrada, aos quais devemos empenhar as conveniências de nosso exclusivismo, mas sem qualquer constrangimento por parte de ordenações puramente humanas, que nos colocariam em falsa posição no serviço, por atuarem de fora para dentro, gerando, muitas vezes, em nosso cosmo interior, para nosso prejuízo, a indisciplina e a revolta.

O bem será, desse modo, nossa decidida cooperação com a Lei, a favor de todos, ainda mesmo que isso nos custe a renunciação mais completa, visto não ignorarmos que, auxiliando a Lei do Senhor e agindo de conformidade com ela, seremos por ela ajudados e sustentados no campo dos valores imperecíveis. E o mal será sempre representado por aquela triste vocação do bem unicamente para nós mesmos, a expressar-se no egoísmo e na vaidade, na insensatez e no orgulho que nos assinalam a permanência nas linhas inferiores do espírito. Finda breve pausa, o Ministro ajuntou:— Possuímos em Nosso Senhor Jesus-Cristo o paradigma do Eterno Bem sobre a Terra. Tendo dado tudo de si, em benefício dos outros, não hesitou em aceitar o supremo sacrifício no auxílio a todos, para que o bem de todos prevalecesse, ainda mesmo que a ele, em particular, se reservassem a incompreensão e o sofrimento, a flagelação e a morte.

Em vista da pausa que se fizera espontânea, ousei ainda interrogar, faminto de luz:— Generoso amigo, poderíamos ouvi-lo, de alguma sorte, quanto aos sinais cármicos que trazemos em nós mesmos?Sânzio refletiu alguns momentos e ponderou:— Ê muito difícil penetrar o sentido das Leis Divinas, com os recursos limitados da palavra humana. Ainda assim, iniciemos o tentame, recorrendo a imagens tão simples quanto seja possível. Apesar da impropriedade, comparemos a esfera humana ao reino vegetal. Cada planta produz na época própria, segundo a espécie a que se ajusta, e cada alma estabelece para si mesma as circunstâncias felizes ou infelizes em que se encontra, conforme as ações que pratica, através de seus sentimentos, idéias e decisões na peregrinação evolutiva.

A planta, de começo, jaz encerrada no embrião, e o destino, ao princípio de cada nova existência, está guardado na mente. Com o tempo, a planta germina, desenvolve-se, floresce e frutifica e, também com o tempo, a alma desabrocha ao sol da eternidade, cresce em conhecimento e virtude, floresce em beleza e entendimento e frutifica em amor e sabedoria. A planta, porém, é uma crisálida de consciência, que dorme largos milênios, rigidamente presa aos princípios da genética vulgar que lhe impõe os caracteres dos antepassados, e a alma humana é uma consciência formada, retratando em si as leis que governam a vida e, por isso, já dispõe, até certo ponto, de faculdades com que influir na genética, modificando-lhe a estrutura, porque a consciênciar responsável herda sempre de si mesma, ajustada às consciências que lhe são afins. Nossa mente guarda consigo, em germe,os acontecimentos agradáveis ou desagradáveis que o surpreenderão amanhã, assim como a pevide minúscula encerra potencialmente a planta produtiva em que se transformará no futuro. (...)

09 - Boa Nova - Humberto de Campos - pág. 35

A FAMÍLIA ZEBEDEU
Na manhã que se seguiu à primeira manifestação da sua palavra defronte do Tiberíades, o Mestre se aproximou de dois jovens que pescavam nas margens e os convocou para o seu apostolado.— Filhos de Zebedeu — disse, bondoso —, desejais participar das alegrias da Boa Nova?!Tiago e João, que já conheciam as pregações do Batista e que o tinham ouvido na véspera, tomados de emoção se lançaram para ele, transbordantes de alegria:— Mestre! Mestre! — exclamavam felizes.

Como se fossem irmãos bem-amados que se encontrassem depois de longa ausência, tocados pela força do amor que se irradiava do Cristo, fonte inspiradora das mais profundas dedicações, falaram largamente da ventura de sua união perene, no futuro, das esperanças com que deveriam avançar para o porvir, proclamando as belezas do esforço pelo Evangelho do Reino. Os dois rapazes galileus eram de temperamento apaixonado. Profundamente generosos, tinham carinhosas e simples, ardentes e sinceras as almas. João tomou das mãos do Senhor e beijou-as afetuosamente, enquanto Jesus lhe acariciava os anéis macios dos cabelos. Tiago, como se quisesse hipotecar a sua solidariedade inteira, aproximou-se do Messias e lhe colocou a destra sobre os ombros, em amo­roso transporte.

Os dois novos apóstolos, entretanto, eram ainda muito jovens e, em regressando a casa com o espírito arrebatado por imensa alegria, relataram a sua mãe o que se passara. Salomé, a esposa de Zebedeu, apesar de bondosa e sensível, recebeu a notícia com certo cuidado. Também ela ouvira o profeta de Nazaré nas suas gloriosas afirmativas da véspera. Pôs-se então a ponderar consigo mesma: não estaria próximo aquele reino prometido por Jesus? Quem sabe se o filho de Maria não falava na cidade em nome de algum príncipe? Ah! o Cristo deveria ser o intérprete de algum desconhecido ilustre que recrutava adeptos entre os homens trabalhadores e mais fortes. A quem seriam confiados os postos mais altos, dentro da nova fundação? Seus filhos queridos bem os mereciam.

Precisava agir, enquanto era tempo. O povo, de há muito, falava em revolução contra os romanos e os comentadores mais indiscretos anteviam a queda próxima dos Ântipas. O novo reinado estava próximo e, alucinada pelos sonhos maternais, Salomé procurou o Messias no círculo dos seus primeiros discípulos.— Senhor — disse, atenciosa —, logo após a instituição do teu reino, eu desejaria que os meus filhos se sentassem um à tua direita e outro à tua esquerda, como as duas figuras mais nobres do teu trono. Jesus sorriu e obtemperou com gesto bondoso: — Antes de tudo, é preciso saber se eles quererão beber do meu cálice!...

A genitora dos dois jovens embaraçou-se. Além disso, o grupo que rodeava o Messias a observava com indiscricão e manifesta curiosidade. Reconhecendo que o instante não lhe permitia mais amplas explicações, retirou-se apressada, colocando o seu velho esposo ao corrente dos fatos. Ao entardecer, cessado o labor do dia, Zebedeu acompanhado pelos dois filhos procurou o Mestre em casa de Simão. Jesus lhes recebeu a visita com extremo carinho, enquanto o velho galileu expunha as suas razões, humilde e respeitoso.— Zebedeu — respondeu-lhe Jesus —, tu, que conheces a lei e lhe guardas os preceitos no coração, sabes de algum profeta de Deus que, no seu tempo, fosse amado pelos homens do mundo?

— Não, Senhor.— Que fizeram de Moisés, de Jeremias, de Jonas? Todos os emissários da verdade divina foram maltratados e trucidados, ou banidos do berço em que nasceram. Na Terra, o preço do amor e da verdade tem sido o martírio e a morte. O pai de Tiago e de João ouvia-o humilde e repetia: — Sim, Senhor. E Jesus, como se aproveitasse o momento para esclarecer todos os pontos em dúvida, continuou:— O reino de Deus tem de ser fundado no coração das criaturas; o trabalho árduo é o meu gozo; o sofrimento o meu cálice; mas, o meu Espírito se ilumina da sagrada certeza da vitória.— Então, Senhor — exclamou Zebedeu, respeitoso —, o vosso reino é o da paz e da resignação que os crentes de Elias esperavam! Jesus com um sorriso de benignidade acrescentou:

— A paz da consciência pura e a resignação suprema à vontade de meu Pai são do meu reino; mas os homens costumam falar de uma paz que é ociosidade de espírito e de uma resignação que é vício do sentimento. Trago comigo as armas para que o homem combata os inimigos que lhe subjugam o coração e não descansarei enquanto não tocarmos o porto da vitória. Eis por que o meu cálice, agora, tem de transbordar de fel, que são os esforços ingentes que a obra reclama. E, como se quisesse pormenorizar os esclarecimentos, prosseguiu: — Há homens poderosos no mundo que morrem comodamente em seus palácios, sem nenhuma paz no coração, transpondo em desespero e com a noite na consciência os umbrais da eternidade; há lutadores que morrem na batalha de todos os momentos, muita vez vencidos e humilhados, guardando, porém, completa serenidade de espírito, porque, em todo o bom combate, repousaram o pensamento no seio amoroso de Deus.

Outros há que aplaudem o mal, numa falsa atitude de tolerância, para lhe sofrer amanhã os efeitos destruidores. Os verdadeiros discípulos das verdades do céu, esses não aprovam o erro, nem exterminam os que os sustentam. Trabalham pelo bem, porque sabem que Deus também está trabalhando. O Pai não tolera o mal e o combate, por muito amar a seus filhos. Vê, pois, Zebedeu, que o nosso reino é de trabalho perseverante pelo bem real da Humanidade inteira. Enquanto os dois apóstolos fitavam em Jesus os olhos calmos e venturosos, Zebedeu o contemplava como se tivesse à sua frente o maior profeta do seu povo. — Grande reino! — exclamou o velho pescador e, dando expansão ao entusiasmo que lhe enchia o coração, disse, ditoso:

— Senhor! Senhor! trabalharemos convosco, pregaremos o vosso Evangelho, aumentaremos o número dos vossos seguidores!... Ouvindo estas últimas palavras, o Mestre elucidou, pondo ênfase nas suas expressões: — Ouve, Zebedeu! nossa causa não é a do número; é a da verdade e do bem. É certo que ela será um dia a causa do mundo inteiro, mas, até lá, precisamos esmagar a serpente do mal sob os nossos pés. Por enquanto, o número pertence aos movimentos da iniquidade. À mentira e a tirania exigem exércitos e monarcas, espadas e riquezas imensas para dominarem as criaturas. O amor, porém, essência de toda a glória e de toda a vida, pede um coração e sabe ser feliz. A impostura reclama interminável fileira de defensores, para espalhar a destruição; basta, no entanto, um homem bom para ensinar a verdade de Deus e exaltar-lhe as glórias eternas, confortando a infinita legião de seus filhos.

Quem será maior perante Deus? A multidão que se congrega para entronizar a tirania, es­magando os pequeninos, ou um homem sozinho e bem-intencionado que com um simples sinal salva uma barca cheia de pescadores? Empolgado pela sabedoria daquelas considerações, Zebedeu perguntou:— Senhor, então o Evangelho não será bom para todos?— Em verdade — replicou o Mestre —, a mensagem da Boa Nova é excelente para todos; contudo, nem todos os homens são ainda bons e justos para com ela. É por isso que o Evangelho traz consigo o fermento da renovação e é ainda por isso que deixarei o júbilo e a energia como as melhores armas aos meus discípulos. Exterminando o mal e cultivando o bem, a Terra será para nós um glorioso campo de batalha. Se um companheiro cair na luta, foi o mal que tombou, nunca o irmão que, para nós outros, estará sempre de pé. Não repousaremos até ao dia da vitória final. Não nos deteremos numa falsa contemplação de Deus, à margem do caminho, porque o Pai nos falará através de todas as criaturas trazidas à boa estrada; estaremos juntos na tempestade, porque aí a sua voz se manifesta com mais retumbância.

Alegrar-nos-emos nos instantes transitórios da dor e da derrota, porque aí o seu coração amoroso nos dirá: "Vem, filho meu, estou nos teus sofrimentos com a luz dos meus ensinos!" Combateremos os deuses dos triunfos fáceis, porque sabemos que a obra do mundo pertence a Deus, compreendendo que a sua sabedoria nos convoca para completá-la, edificando o seu reino de venturas sem-fim no íntimo dos corações. Jesus guardou silêncio por instantes. João e Tiago se lhe aproximaram, magnetizados pelo seu olhar enérgico e carinhoso. Zebedeu, como se não pudesse resistir à própria emotividade, fechara os olhos, com o peito oprimido de júbilo. Diante de si, num vasto futuro espiritual, via o reino de Jesus desdobrar-se ao infinito. Parecia ouvir a voz de Abraão e o eco grandioso de sua posteridade numerosa. Todos abençoavam o Mestre num hino glorificador. Até ali, seu velho coração conhecera a lei rígida e temera Jeová com a sua voz de trovão sobre as sarças de fogo; Jesus lhe revelara o Pai carinhoso e amigo de seus filhos, que acolhe os velhos, os humildes e os derrotados da sorte, com uma expressão de bondade sempre nova.

O velho pescador de Cafarnaum soltou as lágrimas que lhe rebentavam do peito e ajoelhou-se. Adiantando-se-lhe, Jesus exclamou:— Levanta-te, Zebedeu! os filhos de Deus vivem de pé para o bom combate! Avançando, então, dentro da pequena sala, o pai dos apóstolos tomou a destra do Mestre e a umedeceu com as suas lágrimas de felicidade e de reconhecimento, murmurando:— Senhor, meus filhos são vossos. Jesus, atraindo-o docemente ao coração, lhe afagou os cabelos brancos, dizendo:— Chora, Zebedeu! porque as tuas lágrimas de hoje são formosas e benditas!... Temias a Deus; agora o amas; estavas perdido nos raciocínios humanos sobre a lei; agora, tens no coração a fonte da fé viva!


10 - Caminho, verdade e vida - Emmanuel - pág. 99, 135, 361

42 - GLÓRIA AO BEM - "Glória, porém, e honra e paz a qualquer que obra o bem". - Paulo (Romanos, 2:10)

A malícia costuma conduzir o homem a falsas apreciações do bem, quando não parta da confissão religiosa a que se dedica, do ambiente de trabalho que lhe é próprio, da comunidade familiarem que se integra. O egoísmo fá-lo crer que o bem completo só poderia nascer de suas mãos ou dos seus.

Esse é dos característicos mais inferiores da personalidade. O bem flui incessantemente de Deus e Deus é o Pai de todos os homens. E é através dohomem bom que o Altíssimo trabalha contra o sectarismo que lhe transformou os filhos terrestres em combatentes contumazes, de açõesestéreis e sanguinolentas.

Por mais que as lições espontâneas do Céu convoquem as criaturas ao reconhecimento dessa verdade, continuam os homens em atitudes de ofensivas ameaça e destruição, uns para com os outros. O Pai, no entanto, consagrará o bem, onde quer que o bem esteja. É indispensável não atentarmos para os indivíduos, mas, sim observar e compreender o bem que o Supremo Senhor nos envia por intermédio deles.

Que importa o aspecto exterior desse ou daquele homem? que interessam a sua nacionalidade, o seu nome, a sua cor? Anotemos a mensagem de que são portadores. Se permanecem consagrados ao mal, são dignos do bem que lhes possamos fazer, mas se são bons e sinceros, no setor de serviço em que se encontram, merecem a paz e a honra de Deus.

60 - PRÁTICA DO BEM - "Porque assim é a vontade de Deus que, fazendo o bem, tapeis a boca à ignorância dos homens loucos". - I Pedro, 2:15)

A medida que o espírito avulta em conhecimento, mais compreende o valor do tempo e das oportunidades que a vida maior lhe proporciona, reconhecendo, por fim, a imprudência de gastar recursos preciosos em discussões estéreis e caprichosas.

O apóstolo Pedro recomenda seja lembrado que é da vontade de Deus que se faça o bem, impondo silêncio à ignorância e à loucura dos homens. Uma contenda pode perdurar por muitos anos, com graves desastres para as forças em litígio; todavia, basta uma expressão de renúncia para que a concórdia se estabeleça num dia.

No serviço divino, é aconselhável não disputar, a não ser quando o esclarecimento e a energia traduzam caridade. Nesse caminho, a prática do bem é a bússola do ensino. Antecedendo qualquer disputa, convém dar algo de nós mesmos. Isso é útil e convincente. O bem mais humilde, é semente sagrada.

Convocado a discutir, Jesus imolou-se. Por se haver transformado ele próprio em divina luz, dominou-nos a treva da ignorância humana. Não parlamentou conosco. Ao invés disso, converteu-nos. Não reclamou compreensão. Entendeu a nossa loucura, localizou-nos ainda mais.

173 - ZELO DO BEM - "E qual é aquela que vos fará mal, se fordes zelosos do bem?" - (I Pedro, 3:13)

Temer os que praticam o mal é demonstrar que o bem ainda não se nos radicou na alma convenientemente. A interrogação de Pedro reveste-se de enorme sentido. Se existe sólido propósito do bem nos teus caminhos, se és cuidadoso em sua prática, quem mobilizará tamanho poder para anular as edificações de Deus?

O problema reside, entretanto, na necessidadede entendimento. Somos ainda incapazes de examinar todos os aspectos de uma questão, todos os contornos de uma paisagem. O que hoje nos parece a felicidade real pode ser amanhã cruel desengano. Nossos desejos humanos modificam-se aos jorros purificadores da fonte evolutiva.

Urge, pois, afeiçoarmo-nos à Lei Divina, refletir-lhe os princípios sagrados e sumeter-nos aos Superiores Desígnios, trabalhando incessantemente para o bem, onde estivermos. Os melindres pessoais, as falsas necessidades, os preconceitos cristalizados, operam muita vez a cegueira do espírito.

Procedem daí imensos desastres para todos os que guardam a intenção de bem fazer, dando ouvidos, porém, ao personalismo inferior. Quem cultiva a obediência ao Pai, no coração, sabe encontrar as oportunidades de construir com o seu amor. Os que alcançam, portanto, a compreensão legítima não podem termer o mal.

Nunca se perdem na secura da exigência nem nos desvios do sentimentalismo. Para essas almas, que encontraram no íntimo de si próprias o prazer de servir sem indagar, os insucessos, as provas, as enfermidades e os obstáculos são simplesmente novas decisões das Forças Divinas, relativamente à tarefa que lhes dizem respeito, destinadas a conduzí-las para a vida maior.

11 - Cartas e crônicas - Irmão X - pág. 35, 77

Consciência espírita
Diz você que não compreende o motivo de tanta autocensura nas comunicações dos espíritas desencarnados. Fulano, que deixou a melhor ficha de serviço, volta a escrever, declarando que não agiu entre os homens como deveria; sicrano, conhecido por elevado padrão de virtudes, regressa, por vários médiuns, a lastimar o tempo perdido... E você acentua, depois de interessantes apontamentos: «Tem-se a impressão de que os nossos confrades tornam, do Além, atormentados por terríveis complexos de culpa. Como explicar o fenómeno?»

Creia, meu caro, que nutro pessoalmente pelos espíritas a mais enternecida admiração. Infatigáveis construtores do progresso, obreiros do Cristianismo Redivivo. Tanta liberdade, porém, receberam para a interpretação dos ensinamentos de Jesus que, sinceramente, não conheço neste mundo pessoas de fé mais favorecidas de raciocínio, ante os problemas da vida e do Universo. Carregando largos cabedais de conhecimento, é justo guardem eles a preocupação de realizar muito e sempre mais, a favor de tantos irmãos da Terra, detidos por ilusões e inibições no capítulo da crença.

Conta-se que Allan Kardec, quando reunia os textos de que nasceria «O Livro dos Espíritos», recolheu-se ao leito, certa noite, impressionado com um sonho de Lu-tero, de que tomara notícias. O grande reformador, em seu tempo, acalentava a convicção de haver estado no paraíso, colhendo informes em torno da felicidade celestial. Comovido, o codificador da Doutrina Espírita, durante o repouso, viu-se também fora do corpo, em singular desdobramento. .. Junto dele, identificou um enviado de Planos Sublimes que o transportou, de chofre, a nevoenta região, onde gemiam milhares de entidades em sofrimento estarrecedor. Soluços de aflição casavam-se a gritos de cólera, blasfémias seguiam-se a gargalhadas de loucura. Atônito, Kardec lembrou os tiranos da História e inquiriu, espantado:

— Jazem aqui os crucificadores de Jesus?— Nenhum deles — informou o guia solícito. — Conquanto responsáveis, desconheciam, na essência, o mal que praticavam. O próprio Mestre auxiliou-os a se desembaraçarem do remorso, conseguindo-lhes abençoadas reencarnações, em que se resgataram perante a Lei.— E os imperadores romanos? Decerto, padecerão nestes sítios aqueles mesmos suplícios que impuseram à Humanidade...— Nada disso. Homens da categoria de Tibério ou Calígula não possuíam a mínima noção de espiritualidade. Alguns deles, depois de estágios regenerativos na Terra, já se elevaram a esferas superiores, enquanto que outros se demoram, até hoje, internados no campo físico, à beira da remissão.

— Acaso, andarão presos nestes vales sombrios — tornou o visitante — os algozes dos cristãos, nos séculos primitivos do Evangelho?
— De nenhum modo — replicou o lúcido acompa­nhante —, os carrascos dos seguidores de Jesus, nos dias apostólicos, eram homens e mulheres quase selvagens, apesar das tintas de civilização que ostentavam... Todos foram encaminhados à reencarnação, para adquirirem instrução e entendimento. O codificador do Espiritismo pensou nos conquistadores da Antiguidade, Atila, Aníbal, Alarico I, Gengis Khan. . . Antes, todavia, que enunciasse nova pergunta, o mensageiro acrescentou, respondendo-lhe à consulta mental:— Não vagueiam, por aqui, os guerreiros que recordas. .. Eles nada sabiam das realidades do espírito e, por isso, recolheram piedoso amparo, dirigidos para o renascimento carnal, entrando em lides expiatórias, conforme os débitos contraídos...

— Então, dize-me — rogou Kardec, emocionado —, que sofredores são estes, cujos gemidos e imprecações me cortam a alma?E o orientador esclareceu, imperturbável:— Temos junto de nós os que estavam no mundo plenamente educados quanto aos imperativos do Bem e da Verdade, e que fugiram deliberadamente da Verdade e do Bem, especialmente os cristãos infiéis de todas as épocas, perfeitos conhecedores da lição e do exemplo do Cristo e que se entregaram ao mal, por livre vontade. .. Para eles, um novo berço na Terra é sempre mais difícil...Chocado com a inesperada observação, Kardec regressou ao corpo e, de imediato, levantou-se e escreveu a pergunta que apresentaria, na noite próxima, ao exame dos mentores da obra em andamento e que figura como sendo a Questão número 642, de «O Livro dos Espíritos»:

«Para agradar a Deus e assegurar a sua posição futura, bastará que o homem não pratique o mal?», indagação esta a que os instrutores retorquiram: «Não; cumpre-lhe fazer o bem, no limite de suas forças, porquanto responderá por todo o mal que haja resultado de não haver praticado o bem.» Segundo é fácil de perceber, meu amigo, com princípios tão claros e tão lógicos, é natural que a consciência espírita, situada em confronto com as idéias dominantes nas religiões da maioria, seja muito diferente.

17 - Influência do bem
Diz você que os espíritas exageram os temas de caridade, lançando livros, escrevendo crônicas, pronunciando conferências e traçando anotações, em torno da Sublime virtude. «Assistência social não será obra para governo?» — pergunta você com a serenidade de quem se julga exonerado de auxiliar o corpo de bombeiros na liquidação de um incêndio. E acrescenta: «Creio que os desencarnados, a título de beneficência, não deveriam estimular a preguiça e a vagabundagem.> Não posso dizer que você fala assim por ser um homem nascido de berço manso, com todas as facilidades do pão e da educação, e concordo plenamente com o seu ponto de vista, quanto a esperarmos da ação administrativa solução adequada aos problemas da ignorância e da penúria.

Entretanto, que nadador não estenderá braços amigos ao banhista que o mar grosso ameaça com a morte, simplesmente porque o guarda esteja ocupado ou distraído no posto de salvamento? Além disso, a caridade é ingrediente da paz em todos os climas da existência, não apenas aliviando os sofredores ou soerguendo caídos, mas também frustrando crimes e arredando infortúnios. Certo que a justiça é fundamento do Universo; contudo, o amor é alma da vida. Quantos enigmas do ódio resolvidos num gesto de brandura? Quantas toneladas de sombra, segregadas no tonel do sofrimento, se escoam pela fresta descerrada por um raio de luz?

Compreendo que você, reencarnado qual se encontra, terá dificuldade para entender os obstáculos que a bondade dissolve em silêncio, mas, deste outro lado da experiência terrestre, somos defrontados, hora a hora, por lições vivas que nos convidam a servir e pensar. O trabalho e a dor, o aviso e a provação fazem muito em benefício da alma; no entanto, a caridade propicia renovação imediata ao destino. O Talmude, alinhando lições de sabedoria, conta que dois aprendizes do Rabi Hanina recusavam sistematicamente aceitar avisos e predições de adivinhos, fossem eles quais fossem.

Um dia houve em que, penetrando na floresta, a fim de lenhar, ambos encontraram velho clarividente que viu, em torno deles, vasta corte de malfeitores desencarnados, desejosos de dar-lhes perseguição e morte. O mago, para não assustá-los em demasia com as minudências da visão, fitou as estrelas qual se buscasse nos astros as palavras que iria pronunciar e pediu-lhes considerassem os riscos a que se expunham, aconselhando-os urgente regresso a casa. Sombrios vaticínios lhes pesavam na marcha. Mais razoável tornar ao aconche­go doméstico, de vez que provavelmente não sairiam vivos da mata. Riram-se os jovens da advertência, prosseguindo adiante.

Vencido pequeno trecho de estrada, foram defrontados por um velhinho a lhes rogar algum recurso com que pudesse matar a fome. Os rapazes não traziam consigo outro farnel que não fosse um naco de pão; todavia, não hesitaram dividi-lo com o pedinte que, ali mesmo, suplicou a Deus lhes retribuísse a beneficência. Os improvisados lenhadores, sem maior atenção para com o incidente, muniram-se dos gravetos de que necessitavam e voltaram ao vilarejo, sem o menor contratempo que lhes tisnasse a alegria. Certo homem, contudo, que observara a predição e aguardava os resultados, dirigiu-se ao clarividente, indagando com ironia:

— Embusteiro, como explicas teu erro? Os moços retornaram mais felizes que nunca.O ancião, intrigado, procurou os rapazes e, notando--os libertos dos obsessores que se lhes faziam acompanhantes, solicitou permissão para examinar os fardos que traziam e, desatados os feixes de maravalhas, foi encontrada num deles uma serpente morta, cortada ao meio.— Vistes? — falou o mago — a morte esteve a pique de arrasar-vos... O golpe, porém, foi removido. Que fizestes para merecer a Divina Misericórdia que vos livrou do desastre fatal?Um dos interpelados informou que o único episódio de que se lembrava era simplesmente o encontro com um velho esfaimado com quem haviam os dois repartido a merenda.

O adivinho mostrou regozijo indísfarçável e falou para o homem que o criticara:— Tudo agora está claro! Que se pode fazer ee a lei de Deus se deixa influenciar por um pedaço de pão? Desculpará você se recorro à página de antigos documentos hebreus para responder à sua carta; entretanto, se o conto simples nos fala dos créditos de um pedaço de pão doado com amor, perante as Leis Divinas, imaginemos o júbilo que reinará entre nós quando soubermos criar a felicidade dos semelhantes, empenhando à fraternidade o coração inteiro.

24 - MEDIUNIDADE E SINTONIA - EMMANUEL - PÁG. 73

NO BEM, HOJE E SEMPRE: Se aspiras, efetivamente, a colaborar na construção do Reino Divino sobre a Terra, não solenizes o mal, para que o bem germine e se estenda ao grande campo da vida. Ante as pedras da incompreensão, não renuncies ao arado sacrificial da tolerância, para que os calhaus da crueldade se converteram em alicerces da edificação espiritual a que te empenhas.

Nos espinheiros da perseguição gratuíta, não te afastes da paciência, a fim de que os ingredientes da prova, pouco a pouco, se façam adubo da plantação de valores imperecíveis da alma a que te dedicas.

Não interpretes ninguém por inimigo. Quando os adversários não se nos revelam por instrutores não se nos revelam por instrutores, são enfermos necessitados de amparo e entendimento.

Em toda parte, seremos defrontados por aqueles que realmente não nos conhecem e que, em nos julgando pelas impressões superficiais ou pelos pareceres de oitiva, se transformam em instrumentos de nossas dificuldades.

Aparecem, por vezes, na posição de companheiros que nos reclamam demonstrações de heroísmo ou de santidade que eles mesmos ainda não possuem; ou na forma de censores que nos reprovam a presença e o trabalho sem cogitar do objetivo de nossas manifestações.

Recebemo-los todos com serenidade e amor, e continuemos a tarefa da boa vontade, na certeza de que o tempo falará por nós, hoje, amanhã e sempre.

Toda a vez que o mal te procure, veste a couraça do bem e auxilia-o a renovar-se em experiência edificante. Não recalcitres.

Imagina se Jesus tivesse adotado a reação da dignidade ferida ! O apelo à justiça teria apagado o esplendor da Boa Nova; no entanto, o silêncio e o sacrifício do Mestre Divino, ainda hoje, como ontem e qual ocorrerá no futuro, suscita o aprendizado e a sublimação da Humanidade inteira.

33 - OFERENDA - JOANNA DE ÂNGELIS - PÁG. 145

ANTE O BEM E O MAL

A dualidade convencional do bem e do mal pode ser apresentada de forma simples, sem atavios. A opção do bem, a seleção do mal defluem de uma colocação espontânea do pensamento, excetuando-se os casos de impulsão psicopata. Por que a eleição do pessimismo, quando a vida é um hinário à beleza otimista?! Por que a aceitação tácita da tristeza, quando o mundo é uma obra de incomparável beleza, desafiando a imaginação do homem?!

Por que a aptidão para as faixas inferiores, quando tudo obedece a uma atração gravitacional superior: "quanto maior o corpo, menor a sua queda?!" Por que a experiência da sombra, se a luz é a tendência que governa a criação?! Por que a observância maldosa, quando a piedade é a voz corrente da natureza?! Por que a utilização da violência, se tudo, no Orbe, resulta de uma molécula primária que se desdobra e, em harmonia pacificadora, se multiplica, gerando as formas mais complexas?!

Por que o instinto destrutivo, quando as leis que vigem no universo são de edificação?! Por que a contínua tendência para negar, se pensar é uma forma afirmativa da vida exteriorizada pelos neurônios cerebrais, que se vão consumir na desarticulação cadavérica?! A escolha do ponto de ação revela o que se deseja na conjuntura carnal: o bem ou o mal.

O Zendavesta, de Zoroastro, narra, em linguagem milenária, a luta de Ormasde e Arimânio, simbolizados na doutrina bíblica do anjo e do demônio, traduzidos na literatura contemporânea em Mr. Hyde e Dr. Jeckyll. Não se diga que no homem estão conflitantes as duas forças: a do bem e a do mal. Gerado pelo Divino Amor, está o homem fadado ao Amor.

O bem nele ínsito, é a preservação da vida, o estímulo para a vida, a geratriz da vida. É a luta para que a vida se mantenha. O mal é a negação disto, que o indivíduo elege, porque se deixa dominar pelos instintos primevos, constitutivos da ação orgânica sobre o hálito divino que vitaliza o corpo. Eleger a condição em que prefere transitar, é opção livre de cada um.

Por isso, cumpre-nos modificar a paisagem vigente no mundo pela aceitação do bem, que é um impulso natural da vida e o destino compulsório do ser.

Assim reflexionando, não dês guarida às injunções primitivas de que estás tentando libertar-te. Esforça-te pela opção positiva, como te inclinas para as tendências de supremacia de mando, de primarismo, de governança, de destemor, de posse, a que te arrojas, muitas, insensata e desequilibradamente. A diretriz do bem é aquela que acalma, que normaliza, que dulcifica e integra o homem na consciência cósmica.

Ninguém espere, porém, o salto na catapulta do momento para lograr a cumeada do êxito, sem o esforço da escalada da montanha da dificuldade, degrau a degrau. Ninguém há que frua privilégio, a que não faça jus, na condição de uma eleição por preferencialismo da Divindade. Espírito secularmente vinculado ao lado sombrio da natureza humana e à convencional manifestação do mal, opta pela eleição do bem e atira-te à busca desse bem incessante, através de esforço acendrado e com impostergável ação nos dias de hoje, porquanto, cada dia que passa é uma oportunidade vencida, e cada chance perdida é um degrau a mais por conquistar.

Mantém, assim, o teu espírito de união otimista, de vinculação com o bem, porque Cristo Jesus, nosso inspirador e Mestre, entre a opulência enganosa do mundo e a cruz, elegeu a última, com que permanece até hoje como o Supremo Governante do Orbe terrestre, invencível à morte, à decomposição e à miséria mundanas.

LEMBRETE:

1° - A prática do bem exterior é um ensinamento e um apelo para que cheguemos à prática do bem interior. Jesus deu mais de si para o engrandecimento dos homens, que todos os milionários da Terra congregados no serviço, sublime embora, da caridade material. André

2° - Procura a alegria do trabalho honesto e semeia o bem através de todas as oportunidades que o mundo te ofereça! A prática do bem dá saúde ao corpo e alegria ao espírito. André Luiz

3° -
No mundo vale quem tem
Um cifrão de prata ou de ouro;
Mas, da morte ao sorvedouro,
Jamais escapa ninguém!
No céu só vale o tesouro
Daquele que fez o bem.
Belmiro Braga

4° - Quem se detenha exclusivamente no mal, apaga a lâmpada e foge à colaboração com a vida; mas, quem vive pelo bem, embora se aproxime do mal, consegue transformá-lo em coisa útil, porque encontrará possibilidades divinas em toda parte, cooperando com o Cristo para a luz eterna. Humberto de Campos

5° - O bem é tudo o que é conforme à lei de Deus (..) assim, fazer o bem é proceder de acordo com a lei de Deus (...) Allan Kardec

6° - O Bem é a luz que deve consolidar as conquistas substanciais do nosso esforço e onde estiver o bem, aí se encontra o Espírito do Senhor, auxiliando-nos a soerguer os corações para as Esferas Superiores. Francisco C. Xavier

7° - (..) O bem que fazemos é conquista pessoal, mas ele vem partilhado pelos empréstimos de talentos da Bondade Divina, a fim de que nossos esforços não sucumbam diante da história de sombras que trazemos de experiências passadas. Para realizar o bem, é preciso a decisão íntima- "eu quero fazer" - Mas os resultados que porventura venham dessa prática, segundo Paulo, não nos pertencem. Uma visita fraterna, uma aula bem preparada em favor da evangelização infanto-juvenil, uma palestra amorosa que toque o coração dos ouvintes - tudo são ações cometidas pelo empenho individual, por uma decisão particular, mas cujas consequências devem ser depositadas na conta do Cristo, Fonte geradora dos recursos sutis em que nos apoiamos para realizar a tarefa. Carlos A. A.

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