CIRCUNCISÃO
BIBLIOGRAFIA
01- A REENCARNAÇÃO NA BÍBLIA, pag. 6 02 - CORNÉLIUS , pag. 155
03 - GUARDIÃES DA VERDADE, pag. 12 04 - JESUS PERANTE A CRISTANDADE, pag. 93
05 - O BATISMO, pag. 6 06 - SISTEMA IMUNOLÓGICO, pag. 86
07 - UMA ANÁLISE CRÍTICA DA BÍBLIA, pag. 94 08 -

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CIRCUNCISÃO – COMPILAÇÃO

01 - CIRCUNCISÃO

Circuncisão, exérese do prepúcio, peritomia ou postectomia é uma operação cirúrgica1 2 que consiste na remoção do prepúcio, prega cutânea que recobre a glande do pênis. Essa remoção é praticada há mais de 5 mil anos. De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 30% dos homens no mundo são circuncidados (algo em torno de 665 milhões de homens), 3 4 a maioria por motivos religiosos, uma vez que 68% deles são muçulmanos.

O Programa de Combate a AIDS da Organização das Nações Unidas (ONU) defende, de forma controversa, que a circuncisão reduz o risco de contágio do HIV, no caso de cópula vaginal, mas também afirma que o uso do preservativo é indispensável.

Depois do corte do cordão umbilical – onfalotomia – a circuncisão talvez seja o mais antigo tipo de cirurgia.[carece de fontes] O termo circuncisão deriva da junção de duas palavras latinas, circum e cisióne, e significa literalmente «cortar ao redor». Atualmente, a circuncisão masculina ainda é praticada como ritual religioso e também social por vários povos, como judeus e muçulmanos. No século XIX e em princípios do século XX, no mundo ocidental, a circuncisão médica tinha em muitos casos como motivação principal a prevenção da masturbação, pois o prepúcio é um tecido erógeno. A partir de meados do século XX, a circuncisão tornou-se uma prática médica vulgar, especialmente nos Estados Unidos, onde se estima que entre 0,1 e 0,2% dos homens sejam circuncidados.[carece de fontes] No entanto, a sua frequência reduziu-se progressivamente, pois hoje a prática regular de hábitos de higiene genital, que têm o mesmo efeito da circuncisão, tornou-se cada vez mais comum.

Origens e fatores culturais da circuncisão

Relevo da VI dinastia ilustrando a circuncisão no Antigo Egipto.
Um motivo possível para o início da circuncisão masculina era a distinção entre povos. Em muitas culturas, a circuncisão no início da puberdade é encarada como um ritual de passagem - marcando o início da adolescência e a entrada do rapaz na vida adulta. Serve ainda como um sinal identitário permanente, como prova de iniciação num grupo social ou religioso.

A circuncisão na cultura judaica

Embora alguns acreditem que os hebreus tenham assimilado a prática da circuncisão dos egípcios, não há sinais consistentes que apoiem essa teoria. O mais provável é que os próprios hebreus tenham, em suas raízes mais remotas da época patriarcal, inserido tal prática em seus costumes de maneira independente a quaisquer outros povos, mantendo a tradição em suas práticas religiosas até à presente época.

No Antigo Israel, a circuncisão tinha de ser realizada no 8.º dia do nascimento. Tem o sentido de um sinal da aliança entre Deus e Abraão e seus descendentes e de um rito de inserção no povo eleito. Deus terá tornado obrigatória a prática da circuncisão masculina para Abraão, um ano antes de nascer Isaque. Todos os homens da casa de Abraão, tanto seus descendentes como dependentes, estavam incluídos, e todos os escravos receberam em si este «sinal do pacto», com o qual entregavam a Deus a sua aliança de carne (anel prepucial), mostrando a reciprocidade deste ato de fé no corpo (Levítico).

A desconsideração deste requisito era punível com a morte. A circuncisão torna-se um requisito obrigatório na Lei dada a Moisés (Levítico 12:2,3). Isto era tão importante que, mesmo que o 8.º dia calhasse no Sábado, a circuncisão teria de se realizar. No primeiro século da Era Cristã, era costume social entre os judeus dar nome ao recém-nascido do sexo masculino no momento da circuncisão. Mas os profetas do Antigo Testamento mostravam que mais importante do que a circuncisão literal é a circuncisão figurativa ou «circuncisão do coração» (Deuteronômio 10:16; 30:6; Jeremias 4:4; 9:25). Aos judeus insensíveis às palavras dos profetas chama-se figurativamente «incircuncisos» (Jeremias 6:10; Atos 7:10).

Influência da cultura grega

A influência da cultura grega começou a predominar no Médio Oriente, com o Oriental Vinícius Bacchin e muitos povos abandonaram a circuncisão. Mas, quando o rei sírio Antíoco IV Epifânio proscreveu a circuncisão, deparou-se com mães judias dispostas antes a morrer do que a negar aos seus filhos o «sinal do pacto». Anos mais tarde, o imperador romano Adriano (117-138) obteve a mesma reação quando proibiu aos judeus circuncidar seus recém-nascidos. No intuito de evitar zombaria e ridículo, alguns atletas judeus que desejavam participar nos jogos helenísticos procuravam tornar-se «incircuncisos» por meio de uma operação destinada a restabelecer certa semelhança de prepúcio.

Sempre no oitavo dia

«Com base na consideração das determinações de vitamina K e de protrombina, o dia perfeito para se realizar uma circuncisão é o oitavo dia» (citação de «Nenhuma Dessas Doenças», Dr. S. I. McMillen, 1986, pág. 21, em inglês). Seguir esta regra ajudava a evitar o perigo de uma grande hemorragia. A circuncisão era usualmente feita pelo chefe de família. Mais tarde, passou-se a recorrer a uma pessoa especialmente preparada. Um mohel, no caso dos judeus, geralmente um médico, circuncidador, ou então uma pessoa que tenha conhecimento da cirurgia, e das rezas realizadas, no processo! Deus instituiu este ato para distinguir o seu povo de outros povos, sendo que o homem deveria obedecer ao mandado Dele. Uma outra interpretação aponta para uma prática de higiene, para poupar o povo a doenças indesejáveis, tornando-a uma prática de fé.

A circuncisão de Jesus


De acordo com a Bíblia, completados os oito dias que determina a tradição judaica, Jesus Cristo foi apresentado ao templo de Jerusalém por sua família para ser circuncidado, quando então foi abençoado por Simeão e Ana. O prepúcio retirado de Jesus é conhecido como prepúcio sagrado. Considerado uma relíquia ao longo da história, sua posse foi reclamada ou contestada por diversas igrejas e catedrais. Há vários milagres e poderes atribuídos a esta relíquia, muito cobiçada no período medieval.

A circuncisão e o cristianismo

Com a fundação do Cristianismo, a circuncisão deixou de ser um requisito religioso obrigatório para os judeus cristãos, embora não fosse expressamente proibida (Atos 15:6-29). A perspetiva da Igreja Católica é contrária à circuncisão (rito judaico) desde os primeiros dias. Conforme o Papa Eugênio IV oficializou na Bula de União com os Coptas, de 1442, a Igreja manda a todos os seus fieis que «…não pratiquem a circuncisão, seja antes ou depois do batismo, pois, ponham ou não sua esperança nela, ela não pode ser observada sem a perda da salvação eterna»7 .

Circuncisão como medida profilática

Circuncisão no mundo.

Os defensores da circuncisão afirmam que existe um valor prático na circuncisão masculina, como ato médico[carece de fontes]. Como medida de higiene, há quem defenda que é útil para impedir a acumulação de uma secreção genital chamada esmegma, no espaço entre a glande e o prepúcio que a recobre[carece de fontes]. Se não for removido, o esmegma torna-se mal cheiroso e campo de cultivo de bactérias, que causam grande irritação e são foco de infeções[carece de fontes]. É realizada em certos casos de fimose e parafimose ou quando a glande masculina não pode ser libertada. Para estes últimos casos, existe, como alternativa à circuncisão, uma terapia local de creme esteroide que parece ser eficaz; e, mesmo quando esta falha, há ainda a prepucioplastia, uma cirurgia que corrige o prepúcio sem o remover.

Excessivamente longo prepúcio pode ser uma indicação para a circuncisão
No entanto, estudos recentes mostram que a circuncisão pode ajudar a prevenir infeções nos rins e nas vias urinárias. Outros estudos 8 mostram que os homens incircuncisos têm mais probabilidade do que os circuncidados de contrair infeções por via sexual, inclusive o vírus do HIV. Aponta-se, como possível motivo, que o prepúcio proporciona um ambiente tépido, úmido, que dá ao agente infecioso mais tempo de sobrevivência e oportunidade para infiltração no organismo. De acordo com notícia publicada no site do jornal brasileiro Folha de São Paulo3 , os casos de infeção caíram 50% em teste na África e foram interrompidos os estudos após o benefício se mostrar tão evidente. Por se tratar de uma proteção parcial, não se dispensa o uso do preservativo.

Circuncisão de adultos[editar]

Os médicos especialistas recomendam a circuncisão de adultos quando estes sofrem de fimose. No entanto, devido à maior complicação que esta circuncisão pode representar, é recomendável que os pais detetem a fimose no rapaz ainda criança, para que ela possa realizar-se mais cedo.[carece de fontes]

A circuncisão de adultos pode ser mais dolorosa do que em crianças por uma série de fatores. O primeiro é que, no pós-operatório, as ereções nocturnas (normais e saudáveis num homem adulto) podem tornar-se muito dolorosas até à retirada dos pensos e dos pontos da sutura 9 . O segundo é que os adultos demoram mais tempo a habituar-se à condição de circuncidados, podendo ter de mudar de hábitos no que toca à roupa interior ou aos calções de banho.

02 - CIRCUNCISÃO

Circuncisão, um santo remédio
Drauzio VarellaA+a-
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A circuncisão é arma de grande valor no combate à AIDS.

As primeiras evidências surgiram nos anos 1980, quando alguns médicos observaram que a prevalência da infecção pelo HIV, na Ásia e na África, parecia mais baixa, em regiões nas quais os homens eram circuncidados por imposição religiosa.

Vários estudos realizados nos anos seguintes obtiveram resultados contraditórios, até que em 2002, Bertram Auvert, da Universidade de Versalhes, realizou o primeiro trabalho criterioso para comparar a prevalência do HIV entre homens submetidos ou não à circuncisão, em Orange Farm, na África do Sul, comunidade com grande número de casos de AIDS.

Depois de doze meses, o comitê de segurança do estudo decidiu interromper o acompanhamento e oferecer circuncisão para todos os participantes. Os dados eram indiscutíveis: 60% de proteção entre os homens heterossexuais operados.

Desde essa data, mais dois ensaios clínicos foram efetuados: um no Quênia, outro em Uganda. Ambos foram interrompidos por causa dos resultados francamente favoráveis à circuncisão.

Hoje ninguém mais discute: em homens heterossexuais, ela reduz em 50% a 60% os índices de transmissão do HIV. Os epidemiologistas calculam que 3 milhões de vidas poderiam ser salvas, apenas na região abaixo do deserto do Saara, caso esse procedimento cirúrgico fosse colocado à disposição.

Além da proteção contra o HIV, homens circuncidados apresentam menos infecções pelos papilomavírus, pelo treponema da sífilis e pelos vírus do herpes genital.

Os mecanismos através dos quais a circuncisão protege são mal conhecidos. Provavelmente, a pele que recobre a glande cria um espaço que funciona como reservatório para o HIV (e outros germes) e assegura contato prolongado do vírus com as mucosas, facilitando seu acesso à corrente sanguínea.

Nos países em que a prevalência do HIV é alta, estaria a circuncisão indicada para todos os homens?

Infelizmente, não existe consenso. Primeiro, porque os críticos a consideram um procedimento cirúrgico sujeito a complicações; segundo, por motivos econômicos e políticos.

O primeiro argumento é mais fácil de discutir. De fato, quando a cirurgia é realizada por pessoas despreparadas, em locais inadequados e com más condições de higiene, as complicações ocorrem com maior frequência. Caso contrário, são bem raras. Nos estudos africanos citados, elas variaram entre 1,7% e 3,6%, números não muito distantes dos 0,2% a 2% referentes às complicações das circuncisões realizadas em meninos, nos Estados Unidos.

O segundo argumento é mais problemático. A justificativa econômica se baseia no fato de que para oferecer circuncisões em larga escala, seria necessário alocar recursos materiais e deslocar profissionais que prestam serviços em outras áreas da saúde (atendimento à infância, cuidados maternos, combate à tuberculose, etc.), justamente em países pobres que se ressentem da escassez de ambos.

Além dessas restrições economicologísticas, alguns governantes dos países africanos mais atingidos pela epidemia tendem a receber com desconfiança as sugestões que vêm de seus antigos colonizadores. Ainda mais, quando são propostos procedimentos cirúrgicos.

Alegam que depois da circuncisão os homens poderiam sentir-se mais confiantes e engajar-se em práticas sexuais inseguras, e que não há evidências diretas de que as mulheres seriam protegidas.

Os estudos, no entanto, mostram que o comportamento sexual dos homens circuncidados não difere significativamente dos demais e que eles se tornam mais receptivos aos programas de educação sexual. Quanto à proteção oferecida às mulheres, as evidências indiretas são indiscutíveis: quanto menor o número de homens infectados numa comunidade, mais baixo o risco de transmissão do vírus nas relações heterossexuais.

Qualquer estratégia preventiva para combater a transmissão de uma doença infecciosa deve ser baseada em dados científicos. No caso da epidemia de AIDS, infelizmente, a intromissão indevida de grupos que defendem interesses religiosos, econômicos ou políticos retarda e às vezes impede a introdução de programas que evitariam muito sofrimento humano.

No caso da circuncisão em países com alta prevalência de AIDS, leitor, se dispuséssemos de uma vacina capaz de proteger 50% a 60% dos homens, deixaríamos de vacinar os meninos antes da puberdade?

03 - CIRCUNCISÃO

A Circuncisão entre os Primeiros Cristãos
Paulo da Silva Neto Sobrinho

Introdução
Lendo um texto que chegou às nossas mãos para uma análise, encontramos a afirmativa de que Pedro por ser um judeu convicto exigia a circuncisão dos candidatos ao Cristianismo, ou seja, primeiramente exigia a conversão ao Judaísmo. Embora não tivesse nenhuma informação a respeito, algo nos dizia que poderia não ser bem assim.

Posteriormente em diálogo sobre essa questão com um teólogo amigo, ele também defendeu essa idéia. Por isso fizemos uma pesquisa no Novo Testamento para inteirarmos do assunto, e assim formar uma opinião.

De início fomos alertados para ter todo o cuidado ao fazer este texto sobre esse assunto, pois no meio teológico isso era questão fechada. Que qualquer coisa em contrário àquela idéia cairia como uma bomba.

Não estamos nem um pouco preocupados com a possível repercussão que isso possa causar, se é que irá causar alguma, já que para nós a verdade é muito mais importante do que a opinião de teólogos comprometidos com um dogmatismo sectário. Exporemos nosso pensamento mesmo que isso venha a contrariar opiniões anteriores, inclusive de pessoas com maior cabedal do que nós sobre esses assuntos teológicos.

Mas, por outro lado, se, de vez em quando, não aparecesse alguém trazendo idéias novas, ficaríamos presos aos conceitos do passado, muitas vezes equivocados ou mesmo absurdos. Veja, por exemplo, o caso de Galileu Galilei, a pretexto de toda a adversidade, veio trazer a lume sua ciência. Entretanto, como muitas vezes ocorre, queriam que silenciasse sobre suas idéias, chegando a ponto de quase o colocar numa fogueira. Ele é somente um exemplo, explico, pois não podemos admitir que você pense que nós estamos querendo nos igualar a ele.

Iremos colocar como essa questão era tratada antes, durante e depois do Concílio de Jerusalém, tendo como principais protagonistas Pedro, Paulo e Tiago.

Definição de circuncisão
Podemos encontrar o conceito de circuncisão no Dicionário Prático constante da Bíblia Sagrada, Edição Barsa: é a ablação da pele que cobre a glande do pênis. Tanto para os pagãos como para os judeus era cerimônia religiosa. Para os judeus foi estabelecida por Deus como sinal da aliança com Abraão (Gen 17, 10; At 7, 8). Todos os meninos judeus deviam ser circuncidados no oitavo dia após o nascimento (Lev 12, 3). Sendo Jesus descendente de Abraão, submeteu-se à Lei. A mãe, o pai, ou um sacerdote podia operar este rito.

O que acontecia antes do Concílio de Jerusalém
Verificaremos o que acontecia antes do Concílio de Jerusalém que resolveu a questão da circuncisão. Nossos personagens são: Pedro, Paulo e algumas pessoas não exatamente identificadas, a não ser que eram fariseus da Judéia.

a) Pedro

Atos 2, 38: Pedro lhes respondeu: “Convertei-vos e cada um peça o batismo em nome de Jesus Cristo, para conseguir perdão dos pecados. Assim recebereis o dom do Espírito Santo”

Atos 10, 44-48; Pedro ainda falava, quando o Espírito Santo desceu sobre todos os que escutavam seu discurso. Os fiéis de origem judaica, que tinham ido de Jope a Pedro, ficaram admirados por verem que o dom do Espírito Santo tinha sido derramado também sobre os não-judeus. De fato, eles os ouviam falar em diversas línguas e glorificar a Deus. Então Pedro disse: “Quem poderá recusar a água do batismo a esses, que receberam o Espírito Santo da mesma forma que nós?” E decidiu que fossem batizados em nome de Jesus Cristo.

Atos 11, 1-3: Os apóstolos e os irmãos que viviam na Judéia souberam que também os não-judeus tinham recebido a palavra de Deus. Assim, quando Pedro subiu a Jerusalém, os fiéis de origem judaica o atacaram, dizendo: “Entraste na casa de pessoas não circuncidadas e comeste à mesa com eles”.

Não encontramos, em momento algum, qualquer citação de que Pedro pregava a circuncisão. Ele, inclusive, admitiu como cristãos a família de Cornélio sem exigir a circuncisão, apenas foram batizados no Espírito Santo, que consistia na imposição das mãos, conforme podemos ver Paulo fazer (Atos 19, 1-7), que citamos mais abaixo. Pregava o batismo. A única acusação que recebeu foi de comer com os pagãos, mas se defende: “Vós sabeis que não é permitido aos judeus reunir-se com estrangeiros e nem sequer aproximar-se deles. Mas Deus mostrou que não devo considerar ninguém estrangeiro ou impuro” (Atos 10, 28).

Especificamente quanto ao batismo era o do Espírito Santo, que consistia na imposição das mãos, providência que, ao que tudo indica, abria a percepção psíquica da pessoa que mediunizada (recebia um Espírito Santo), passava a falar em línguas como podemos observar sobre esse batismo em Atos 10, 44-48, e confirmar em Atos 11, 15-17: Ora bem, apenas comecei a falar, desceu o Espírito Santo sobre eles da mesma forma que sobre nós, no princípio. Foi então que me lembrei da declaração do Senhor, quando disse: “É verdade que João batizou com água, mas vós sereis batizados no Espírito Santo”. Portanto, se Deus deu a eles o mesmo dom que a nós, por termos abraçado a fé no Senhor Jesus Cristo, quem era eu para impedir a ação de Deus?

Uma parte do trecho de Atos 10, 44-48, que citamos um pouco atrás, ao que parece sofreu uma interpolação, talvez por quererem justificar o batismo com água. Vejamos, o texto em análise: Então Pedro disse: “Quem poderá recusar a água do batismo a esses, que receberam o Espírito Santo da mesma forma que nós?” E decidiu que fossem batizados em nome de Jesus Cristo. Se dele retirarmos a expressão “a água do batismo” o texto estaria mais coerente em sua estrutura e significado, senão vejamos: “Quem poderá recusar a esses, que receberam o Espírito Santo da mesma forma que nós?” Assim, percebemos que “a água do batismo” não tem nada a ver com a questão colocada por Pedro que questionava de essas pessoas iriam ser recusadas mesmo depois de terem recebido o “dom do Espírito Santo”.

Para a confirmação do batismo no Espírito Santo, podemos acrescentar, ainda, as duas passagens abaixo para ficar bem evidenciado qual o batismo que praticavam:

Atos 1, 5: Porque João batizava com água; vós, porém, sereis batizados no Espírito Santo, dentro em poucos dias.

Atos 19, 1-7: Enquanto Apolo se achava em Corinto, Paulo, depois de percorrer as regiões montanhosas, chegou a Éfeso e lá encontrou alguns discípulos. E perguntou-lhes: “Recebeste o Espírito Santo quando abraçastes a fé?” Eles responderam: “Mas nem sequer ouvimos dizer que existe um Espírito Santo”. Ele continuou: “Então, que batismo recebestes?” Eles replicaram: “O batismo de João”. Paulo explicou: “João dava um batismo de conversão, dizendo ao povo que devia crer naquele que viria depois dele, isto é, em Jesus”. Ouvindo isto, foram batizados no nome do Senhor Jesus. E quando Paulo lhes impôs as mãos, o Espírito Santo desceu sobre eles e começaram a falar em diversas línguas e a profetizar. Eram ao todo cerca de doze pessoas.

b) Alguns Convertidos

Atos 15, 1: Alguns indivíduos que tinham chegado a Judéia começaram a ensinar aos irmãos o seguinte: “Se vós não receberdes a circuncisão, conforme a lei de Moisés, não podereis ser salvos”.

Atos 15, 5: Contudo, algumas pessoas do grupo dos fariseus, que tinham abraçado a fé, intervieram para sustentar que era preciso circuncidar os pagãos e mandar que seguissem a lei de Moisés.

Essas passagens são as que provam que alguns indivíduos do grupo dos fariseus (as pessoas citadas acima são as mesmas) queriam impor a circuncisão àqueles que se convertiam ao cristianismo. Entretanto, não existe identificação de quem eles eram, portanto, não podemos supor que entre eles estava Pedro. Ou que Pedro os tenha instruído sobre isso, pois viria contrariar o que já colocamos a respeito da maneira que ele agia. Não vemos nenhuma coerência nisso, pois como um discípulo direto de Jesus iria propor a circuncisão, já que não recebeu este ensinamento do Mestre? O mais lógico seria Paulo, judeu por nascimento, anteriormente fiel cumpridor dos preceitos de Moisés, que inclusive perseguia os cristãos, exatamente por ter esta convicção, uma vez que não foi discípulo de Cristo, mas apóstolo. Apesar disso contrariando essa lógica, era quem mais defendia que não havia necessidade da circuncisão.

Vejamos o que consta em nota de rodapé na Bíblia Sagrada, Edição Pastoral, que vem a confirmar o que estamos dizendo:

“Enraizada no ambiente judaico e pagão, a Igreja enfrenta o primeiro grande conflito. Os cristãos provenientes do judaísmo continuavam praticando a circuncisão e observando as prescrições da Lei. A evangelização não obrigava os pagãos convertidos a esses costumes judaicos. Contudo, alguns de Jerusalém (fariseus convertidos – cf. v. 5) começaram a ensinar que também os pagãos, para se salvarem, deviam observar as mesmas coisas que os judeus convertidos. Em outras palavras, primeiro deviam ser “judaizados” e depois cristianizados. A questão era muito séria; os costumes judaicos pertencem à essência da mensagem cristã? Até que ponto a ação missionária da Igreja transmite o Evangelho, ou confunde o Evangelho com determinado contexto sociocultural, impondo a um povo a cosmovisão de outro: O Evangelho é fermento libertador, e não super-estrutura que aprisiona e perverte a alma de um povo”.

E, como conseqüência desta divergência, é “convocado” o Concílio de Jerusalém.

c) Paulo

Atos 15, 1-2: Alguns indivíduos que tinham chegado a Judéia começaram a ensinar aos irmãos o seguinte: “Se vós não receberdes a circuncisão, conforme a lei de Moisés, não podereis ser salvos”. Paulo e Barnabé protestaram, travando uma discussão muito forte com eles. Por isso ficou resolvido que Paulo e Barnabé, acompanhados de alguns deles, iriam a Jerusalém para tratar a questão com os apóstolos e os presbíteros.

Tendo chegado a Antioquia estes fariseus exigiam a circuncisão, entretanto a posição de Paulo (e Barnabé) quanto a isso fica muito clara nessa passagem. Protestaram contra os que queriam exigir a circuncisão, daí é que surge o Concílio de Jerusalém.

O Concílio de Jerusalém
Aconteceu no ano de 49 d.C, para resolver, de uma vez por todas, a questão da circuncisão dos pagãos convertidos ao cristianismo. Figuras principais deste Concílio foram Pedro, Paulo e Tiago, que tiveram oportunidade de expor suas idéias perante o Concílio, vejamos:

a) Pedro

Atos 15, 7-11: Depois de uma longa discussão, Pedro se levantou e lhes disse: “Irmãos! Sabeis que desde muito tempo Deus fez uma escolha entre vós: que os pagãos ouvissem de minha boca o Evangelho e abraçassem a fé. E Deus, que conhece os corações, manifestou-se em favor deles, dando-lhes o Espírito Santo do mesmo modo que a nós, sem fazer nenhuma distinção entre nós e eles, depois de purificar seus corações pela fé. Por que agora tentais a Deus, impondo aos discípulos um peso que nem nossos pais nem nós mesmos pudemos suportar? Mais uma vez: pela graça do Senhor Jesus é que nós cremos ter alcançado a salvação, exatamente como eles”.

Ao questionar sobre os que queriam impor aos outros os preceitos da Lei Mosaica, diz que quem agia desta maneira estava tentando a Deus. E, para ser coerente com o que já vinha fazendo na prática, não poderia agir de outro modo.

Na pratica Pedro também não concordava com a imposição de se fazer a circuncisão aos convertidos, isso fica mais claro quando recorremos à Bíblia Sagrada, Edição Pastoral, numa de suas notas explicativas, ao rodapé da página:

“O discurso de Pedro é fundamental e contém a orientação conciliar. Pedro parte de fatos concretos: ele foi o primeiro evangelizador dos pagãos e compreendeu que Deus não faz distinção entre pagão e judeu (cf. At. 10, 34, 44-47), mas concede a ambos o mesmo Espírito Santo que leva o homem a seguir Jesus. Depois, Pedro salienta que os costumes judaicos são um jugo, isto é, um elemento cultural que não deve ser imposto aos pagãos, pois o que salva a todos é a graça que leva à fé em Jesus Cristo. Barnabé e Paulo reforçam o testemunho de Pedro”.

Aqui fica mais evidente ainda que Pedro e Paulo não eram divergentes quanto à essa questão. E, que, no princípio, Pedro pregou também aos pagãos.

b) Paulo

Atos 15, 12: Toda a assembléia ficou em silêncio e escutou a Barnabé e Paulo relatarem todos os sinais e prodígios que Deus tinha feito entre os pagãos por meio deles.

Paulo, nesse momento, relata tudo o que aconteceu a ele e Barnabé quando estavam a divulgar o Evangelho do Cristo. Aí coloca, com certeza, o que faziam sobre o assunto do concílio, explicando que eram totalmente contra essa prática.

c) Tiago

Atos 15, 13-20: Quando acabaram de falar, Tiago tomou a palavra e disse: “Irmãos, escutai-me! Simão acabou de explicar como Deus, logo de início, se dignou separar dentre os pagãos um povo consagrado a Ele. Isto concorda com a palavra dos profetas, porque está escrito: Depois disso, voltarei e reconstruirei a tenda arruinada de Davi. Reedificarei as suas ruínas e as reerguerei. Os outros homens irão procurar o Senhor, como também as nações que foram consagradas pela invocação de meu Nome. Assim fala o Senhor, que faz essas coisas conhecidas desde os tempos mais antigos. Julgo, por isso, que deixeis de molestar os que se convertem do paganismo para Deus. Basta lhes escrever que não se contaminem com a idolatria ou uniões ilegais, nem tampouco comendo sangue ou carne de animais estrangulados. Porque desde muito tempo a Lei de Moisés está sendo lida e proclamada todos os sábados nas sinagogas de cada cidade”.

Tiago, depois de ouvir Pedro e a Paulo, toma posição favorável a não haver necessidade de circuncidar os convertidos. Mas, algumas exigências da Lei Mosaica ficaram ainda em vigor, entretanto não estavam relacionadas ao problema da circuncisão. Foram elas: abster da carne imolada dos ídolos, do uso do sangue e da carne de animais estrangulados e das uniões ilegais.

d) Decisão do concílio

Atos 15, 22-29: Os apóstolos, presbíteros e toda a assembléia resolveram então escolher entre eles alguns homens e enviá-los a Antioquia junto com Paulo e Barnabé. Eram eles: Judas, Barsabás e Silas, homens de muito prestígio entre os irmãos. Por seu intermédio lhes foi enviada a seguinte carta: “Os apóstolos e presbíteros, vossos irmãos, aos irmãos que moram em Antioquia, na Síria e na Cilícia, provenientes do paganismo. Saudações. Fomos informados de que alguns dos nossos, sem nossa autorização, vos foram inquietar com certas afirmações, criando confusão em vossas mentes. Resolvemos por unanimidade escolher alguns representantes e enviá-los a vós, junto com nossos queridos irmãos Barnabé e Paulo. Estes dois têm dedicado suas vidas à causa de Nosso Senhor Jesus Cristo. Enviamos, pois, Judas e Silas, para vos transmitir de viva voz as mesmas diretivas. Porque o Espírito Santo e nós mesmos decidimos não vos impor nenhum outro peso além do indispensável: abster-vos da carne imolada dos ídolos, do uso do sangue e da carne de animais estrangulados e das uniões ilegais. Fareis bem evitando isto tudo. Passai bem!”.

A opinião de Tiago acaba por ser a decisão final do Concílio, que para ficar bem registrada e para que todos pudessem cumprir a decisão tomada deu origem a uma carta que foi enviada aos convertidos do paganismo que moravam em Antioquia, na Síria e na Cilícia.

Acontecimentos após o Concílio de Jerusalém
a) Paulo em Listra

Atos 16, 1-3: Paulo chegou a Derbe, depois a Listra. Encontrava-se ali um discípulo chamado Timóteo, filho de mulher judia mas cristã, e de pai grego. Os irmãos de Listra e Icônio falavam bem dele. Paulo resolveu que ele o acompanhasse. Mas antes o circuncidou, por consideração aos judeus daquelas regiões: pois todos sabiam que seu pai era grego.

Aqui não dá para entender a atitude de Paulo, vejam bem: além de ser declaradamente contra a circuncisão, estava, naquele momento, de posse da Carta com a decisão do Concílio de Jerusalém, mesmo assim faz a circuncisão de Timóteo, que tinha mãe judia mas, cristã e apenas o pai era grego.

b) Paulo em outras localidades

Atos 19, 1-7: Enquanto Apolo se achava em Corinto, Paulo, depois de percorrer as regiões montanhosas, chegou a Éfeso e lá encontrou alguns discípulos. E perguntou-lhes: “Recebeste o Espírito Santo quando abraçastes a fé?” Eles responderam: “Mas nem sequer ouvimos dizer que existe um Espírito Santo”. Ele continuou: “Então, que batismo recebestes?” Eles replicaram: “O batismo de João”. Paulo explicou: “João dava um batismo de conversão, dizendo ao povo que devia crer naquele que viria depois dele, isto é, em Jesus”. Ouvindo isto, foram batizados no nome do Senhor Jesus. E quando Paulo lhes impôs as mãos, o Espírito Santo desceu sobre eles e começaram a falar em diversas línguas e a profetizar. Eram ao todo cerca de doze pessoas.

Atos 21, 19-21: Depois de saudar a todos, Paulo contou minuciosamente tudo quanto Deus tinha feito entre os pagãos através de seu serviço. Ouvindo isso, glorificaram a Deus e lhe disseram: “Vês, irmão, quantos milhares de judeus abraçaram a fé e, no entanto, são todos cuidadosos observadores da Lei. Mas eles ouviram dizer a teu respeito que ensinas todos os judeus dispersos entre os pagãos a romperem com Moisés, dizendo-lhes que não devem circuncidar seus filhos nem observar as tradições. Que vamos fazer? Sem dúvida, virão a saber de tua chegada. Faze o que te vamos sugerir: há entre nós quatro homens com um voto a cumprir. Leva-os contigo, cumpre com eles o rito da purificação e paga por eles as despesas para raparem a cabeça. Assim, todos saberão que não há nenhum fundamento no que ouviram dizer a teu respeito e que, pelo contrário, vives corretamente observando a Lei. Quanto aos pagãos que abraçaram a fé, comunicamos por escrito o que tínhamos decidido, que se abstenham de carne sacrificada aos ídolos, de carne de animais sufocados, de sangue e de uniões ilegais”. Paulo, então, levou consigo aqueles homens e, no dia seguinte, depois de purificar-se com eles, entrou no Templo para comunicar o término dos dias da purificação, quando seria apresentada a oferta em nome de cada um deles.

Após o vacilo inicial com a circuncisão de Timóteo, Paulo pregava o batismo do Espírito Santo, e coerente continuou defendendo a questão da não circuncisão, como fica demonstrado nessas passagens e nas que se seguem.

c) As recomendações de Paulo por Cartas

Romanos 2, 25-29: A circuncisão é de fato útil, se cumpres a Lei. Mas, se lhe desobedeces, a tua circuncisão se transforma em incircuncisão! Se o que não foi circuncidado observa os mandamentos da Lei, porventura ele não será contado como um dos circuncisos? De fato, quem não é circuncidado fisicamente, mas cumpre a Lei, estará te condenando a ti, que possuis a letra da Lei e a circuncisão e não obstante transgrides a Lei. O verdadeiro judeu não se nota só pelo exterior, assim como a verdadeira circuncisão não está só na marca visível da carne. O verdadeiro judeu é quem o é no seu interior, assim como a verdadeira circuncisão é a do coração, vivida segundo o espírito e não segundo a letra da Lei. Embora ele não seja elogiado pelos homens, é elogiado por Deus.

Romanos 3, 1-2: Portanto, que vantagem tem o judeu, ou que proveito traz a circuncisão? Traz grande proveito, sob todos os aspectos. Em primeiro lugar, porque as palavras divinas lhe foram confiadas.

Romanos 3, 30: Realmente existe um só Deus que justificará, pela fé, os circuncidados e pela mesma fé os que não estão circuncidados.

Romanos 4, 9-12: Esta felicidade valerá só para os circuncidados, ou também para os não circuncidados? De fato, nós afirmamos que a fé de Abraão lhe foi creditada para justificação. Mas como é que ela foi creditada em seu favor? Depois de circuncidado ou antes de circuncidado? Não foi depois da circuncisão, mas antes! De modo que ele recebeu o sinal da circuncisão como selo da justificação, conseguida já antes de circuncidado, por força da fé. Assim é que se tornou o pai de todos os crentes não circuncidados, para que também a eles fosse creditada a justificação. Pai também dos circuncidados: não só dos que pertencem ao povo dos circuncidados, mas também dos que seguem as pegadas da fé que nosso pai, Abraão, tinha antes de ser circuncidado.

Romanos 15, 8-9: Eu vos afirmo, pois, que Cristo se fez servo dos circuncidados como prova de que Deus é fiel em cumprir as promessas feitas aos antepassados. E as nações pagãs glorificam a Deus por sua misericórdia como está escrito: Por isso te glorificarei entre as nações pagãs e cantarei louvores ao teu Nome.

1 Coríntios 7, 17-20: No mais, que cada um continue a viver como Deus lhe deu ou como Deus o chamou. É isto o que ensino em todas as Igrejas. Alguém era circunciso quando foi chamado? Não disfarce a marca da circuncisão. E alguém era incircunciso quando foi chamado? Não se faça circuncidar. A circuncisão é nada, e o prepúcio também; mas o que vale é a observância dos mandamentos de Deus. Que cada um fique na condição em que foi chamado.

Gálatas 2, 3: Ora, nem mesmo Tito, meu companheiro, que é grego foi obrigado a se circuncidar. Ele o seria por causa dos falsos irmãos, intrusos que se tinham infiltrado para espionar a liberdade que possuímos em Cristo Jesus, com a intenção de reduzir-nos à escravidão...

Gálatas 2, 14-16: Então, ao ver que não procedia direito, de acordo com a verdade do Evangelho, eu disse a Cefas na presença de todos: “Se você, que é judeu, segue os costumes pagãos e não os judaicos, como pode obrigar os pagãos a seguir costumes judeus?” Nós, de nascimento, somos judeus e não pecadores do paganismo. No entanto, por sabermos que ninguém é justificado pela prática da Lei, mas somente pela fé em Jesus Cristo, nós abraçamos a fé em Cristo Jesus para sermos justificados em virtude da fé em Cristo e não em virtude da prática da Lei. É que ninguém se tornará justo pela prática da Lei.

Gálatas 5, 2-6: Sim, eu, Paulo, vos digo: Se vos fizerdes circuncidar, Cristo de nada vos servirá. Atesto de novo a todo aquele que se deixa circuncidar que ele está obrigado a observar toda a Lei. Rompestes com Cristo, vós todos que procurais a justiça na Lei; fostes degradados da graça. Quanto a nós é do Espírito e pela fé que aguardamos a justiça esperada, pois em Cristo nem a circuncisão vale coisa alguma, nem a incircuncisão, mas a fé animada pela caridade.

Gálatas 6, 15: Pois ser circuncidado ou não ser, nada importa; o que importa é ser uma nova criatura.

Filipenses 3, 2-3: Cuidado com os cães! Cuidado com os maus operários! Cuidado com os fanáticos da circuncisão! Os circuncisos, somos nós, que em espírito prestamos culto a Deus, que colocamos nossa glória em Cristo Jesus e não depositamos a confiança meramente legal!

Colossenses 2, 8-11: Ficai atentos, para que ninguém vos arme uma cilada com a filosofia, esse erro vazio que segue a tradição dos homens e os elementos do mundo e não segue a Cristo. De fato, é nele que toma corpo toda a plenitude da divindade, e nele participais, repletos de plenitude dele que é a cabeça de toda Autoridade e de todo Poder. Vós fostes também circuncidados nele, com uma circuncisão que não foi efetuada por mãos humanas, mas coma a circuncisão de Cristo, pelo despojamento do corpo carnal.

Em todas as cartas a recomendação básica aos destinatários era a mesma: não havia necessidade de se fazer a circuncisão.

O provável erro Teológico
Isolamos, propositalmente, uma passagem bíblica sobre a circuncisão, pois nesta será necessário colocarmos como a encontramos em diversas Bíblias, já que isso é de fundamental importância para o nosso assunto em análise.

A passagem é de Gálatas 2, 7-10, retiradas das Bíblias:

Edição Barsa, 1ª forma: Antes, pelo contrário, tendo visto que me havia sido encomendado o Evangelho da incircuncisão, como também a Pedro o da circuncisão: (porque o que obrou em Pedro para o apostolado da circuncisão, também obrou em mim para com as gentes) E como Tiago, e Cefas, e João, que pareciam ser as colunas, conheceram a graça que me havia dado, deram as destras a mim, e a Barnabé, em sinal de companhia: para que nós fôssemos aos gentios, e eles à circuncisão: recomendando somente que nos lembrássemos dos pobres, isto mesmo é o que eu também procurei executar com cuidado.

Editora Ave Maria, 2ª forma: Ao contrário, viram que a evangelização dos incircuncisos me era confiada, como a dos circuncisos a Pedro (porque aquele cuja ação fez de Pedro o Apóstolo dos circuncisos, fez também de mim o dos pagãos). Tiago, Cefas e João, que são considerados as colunas, reconhecendo a graça que me foi dada, deram as mãos a mim e a Barnabé em sinal de pleno acordo: iríamos aos pagãos, e eles aos circuncidados. Recomendando-nos apenas que nos lembrássemos dos pobres, o que era precisamente a minha intenção.

Editora Vozes, 3ª forma: Pelo contrário, viram que a mim fora confiada a evangelização dos pagãos, como a Pedro tinha sido confiada a evangelização dos judeus. Pois aquele que incentivou Pedro ao apostolado entre os judeus, incentivou também a mim para o dos pagãos. Tiago, Cefas e João, que são considerados as colunas, reconhecendo a graça que me foi dada, deram as mãos a mim e a Barnabé em sinal de pleno acordo: nós iríamos aos pagãos e eles aos judeus. Recomendaram-nos apenas que nos lembrássemos dos pobres, coisa que procurei fazer com muita solicitude.

Essas são as três formas como a encontramos narradas entre as seis Bíblias por nós pesquisadas. E para que vejam que o nosso entendimento não é isolado, colocaremos algumas notas de rodapé, relacionadas a esta passagem, constantes das Bíblias:

Edição Pastoral: Na segunda vez que vai a Jerusalém (cfe AT 15), Paulo tem duas preocupações: fazer um acordo com Pedro, Tiago e João, para manter a unidade das Igrejas; e ao mesmo tempo, assegurar que os pagãos convertidos não precisem observar a religião judaica. A viagem tem dois resultados importantes: as autoridades da igreja de Jerusalém reconhecem o Evangelho, tal como Paulo e Barnabé o pregam aos pagãos; é feito um acordo prático, delimitando os campos de apostolado de Pedro e de Paulo. O sinal visível desse acordo é a preocupação e o auxílio aos pobres (cf. 2Cor 8-9).

Editora Mundo Cristão: o evangelho da incircuncisão. I.e., o evangelho para os gentios. Paulo era especialmente responsável por espalhar o evangelho entre os gentios (Rm 1;5), e Pedro entre a circuncisão (os judeus).

Quem estiver de posse de uma Bíblia que contém a 1ª forma, pode ser levado a entender que Pedro pregava a circuncisão. Entretanto, pregar aos circuncidados não significa necessariamente advogar a circuncisão. Jesus era judeu e pregava a judeus, entretanto não o vemos citar a necessidade da circuncisão. Na 3ª forma, qualquer dúvida fica dissipada, pois o que as duas anteriores querem significar é exatamente o que consta dela. Assim, não há dúvida alguma que Paulo cuidava de pregar o Evangelho aos gentios (também chamados de incircuncisos) e Pedro ficou com a missão de levá-lo aos judeus (normalmente chamados de circuncisos), apenas isso. Não como querem interpretar alguns que nessa passagem Paulo esteja defendendo a não circuncisão, embora saibamos que ele era contra ela, e Pedro o contrário. Dizem inclusive que havia discórdia entre os dois, mas não é verdade como iremos ver no incidente de Antioquia.

O incidente de Antioquia
É um pequeno incidente que ocorreu entre Pedro e Paulo, narrado em Gálatas 2, 11-16:

“No entanto, quando Cefas foi a Antioquia, opus-me a ele abertamente, pois merecia repreensão. Realmente antes que chegassem certas pessoas do partido de Tiago, ele tomava suas refeições com os pagãos. Mas, quando elas chegaram, tirou o corpo e manteve-se afastado por receio dos circuncidados. Os outros judeus também fizeram a mesma simulação; até o próprio Barnabé deixou-se envolver por esta duplicidade. Então, ao ver que não procedia direito, de acordo com a verdade do Evangelho, eu disse a Cefas na presença de todos: ‘Se você, que é judeu, segue os costumes pagãos e não os judaicos, como pode obrigar os pagãos a seguir costumes judeus?’ Nós, de nascimento, somos judeus e não pecadores do paganismo. No entanto, por sabermos que ninguém é justificado pela prática da Lei, mas somente pela fé em Jesus Cristo, nós abraçamos a fé em Cristo Jesus para sermos justificados em virtude da fé em Cristo e não em virtude da prática da Lei”.

Para entender o ocorrido entre os dois vamos recorrer às notas de rodapé, constantes das Bíblias:

Edição Pastoral: Um judeu não podia comer ao lado de um pagão, pois ficaria impuro, violando a Lei. Contudo, no encontro de Jerusalém, fica resolvido que os pagãos convertidos ao cristianismo não precisavam observar a Lei judaica. A atitude de Pedro é hipócrita: por medo de ser criticado pelos judeu-cristãos, ele evita comer com os pagãos convertidos. O fato é grave, pois o comportamento hipócrita de um chefe da Igreja causa divisões, esvazia o trabalho da evangelização, chegando até mesmo a desviar a comunidade do verdadeiro Evangelho.

Editora Ave Maria: Alguns judeus cristãos pensavam que os demais povos ou gentios convertidos deveriam seguir os costumes ou modos de viver dos judeus. S. Pedro e os apóstolos, no entanto, no Concílio de Jerusalém haviam dado aos gentios convertidos a liberdade de seguir os costumes próprios (ver Atos 15, 1-28). S. Pedro seguia esta decisão, considerando os não-judeus convertidos iguais aos demais cristãos. Mas devido a muitas críticas ou pressão de judeus fanáticos, achou prudente não comer mais com os gentios ou pagãos convertidos, para não suscitar críticas ou zangas prejudiciais. São Paulo, no entanto, achou que S. Pedro devia manter-se firme no costume adotado, para que todos vissem que os não-judeus convertidos e os judeus cristãos eram iguais perante o Evangelho. Trata-se, portanto, de um modo externo de agir de S. Pedro, uma questão de prudência ou de energia, por conseguinte de assunto externo, acidental, secundário, e não essencial, doutrinário ou dogmático. S. Pedro aceitou e seguiu a advertência amiga de S. Paulo, comprovando assim que ambos estavam de pleno acordo a este respeito. Aliás nunca houve desacordo doutrinário entre eles. Por este fato acima relatado, S. Paulo até reconhece que a autoridade de S. Pedro era grandemente acatada e de influência entre os cristãos, como chefe da Igreja Universal que era. (N. do Tr.)

Assim, a única divergência ocorrida entre os dois foi a que acabamos de relatar. Não estava ela relacionada com a questão da circuncisão, conforme podemos verificar pelo texto e nas notas citadas.

Conclusão
E, para concluirmos, embora já falamos anteriormente, mas para reforçar a conclusão a que chegamos, acrescentamos que em Atos (10, 9-34) é relatada uma visão de Pedro, que após pensar muito sobre ela, chega à seguinte conclusão: De fato agora compreendo que Deus não faz distinção de pessoas; mas todos os que o adoram e praticam o bem são aceitos por ele, seja qual for a sua nação (Atos 10, 34-35). Ora, esta revelação lhe é dada no início de sua missão apostólica, assim não há como sustentar que ele, depois desta compreensão, venha a querer separar as pessoas entre circuncisos e incircuncisos, como era costume entre os judeus radicais, para exigir que os últimos fossem também circuncidados. O que podemos confirmar pela pesquisa que fizemos no Dicionário Prático constante da Bíblia Sagrada Editora Barsa: Após a visão que recebeu do céu, acolheu o gentio Cornélio dentro da Igreja e decretou que os ritos da Antiga Lei não mais deveriam onerar as consciências dos homens (Atos 10, 1-48; 11, 5-17)

Uma outra coisa que devemos levar em conta, e isso normalmente não é percebido pela grande maioria dos teólogos, é que houve uma divisão entre Pedro e Paulo quanto aos que cada um iria Evangelizar, o primeiro aos judeus e o segundo aos gentios, daí o nome de Apóstolo dos Gentios dado a Paulo. Com o mesmo pensamento, poderíamos dizer que Pedro era o Apóstolo dos Judeus, em Gálatas 2, 7-10, diz exatamente isso. Ora, se Pedro passou a pregar o Evangelho junto aos judeus e esses são os que seguiam a Lei Mosaica, e nela havia a determinação de que toda criança do sexo masculino deveria ser circuncidada no oitavo dia (Levítico 12, 3), como explicar que Pedro estaria exigindo a circuncisão, já que aos que se dirigia certamente já eram circuncidados, a não ser que ele estivesse pregando a crianças com menos de oito dias?

L. Palhano Jr., o autor de “Teologia Espírita” em seu outro livro “Aos Gálatas – A Carta da Redenção”, nos diz que:

“Pedro não vivia segundo os preceitos judeus, ele mesmo era livre em Cristo, como pois apoiava os judaizantes? Não consta que Pedro exigisse a circuncisão, mas tudo indica que ele não via outra saída que não fosse o apoio que poderia ter dos judeus-cristãos”.

Tudo o que levantamos demonstra de forma categórica que Pedro nunca pregou a circuncisão. O que ficou a seu encargo fazer era evangelizar (pregar) aos judeus, leia-se circuncidados, entretanto, isso está bem longe de se afirmar que ele estava circuncidando os recém-convertidos ao cristianismo.

Que os teólogos que não pensam assim nos desculpem, pois nosso objetivo não é levantar polêmica alguma, mas buscar a verdade onde quer que ela possa se encontrar.

Paulo da Silva Neto Sobrinho

Jan/2002.

Bibliografia:
Bíblia Anotada = The Ryrie Study Bible/Texto bíblico: Versão Almeida, Revista e Atualizada, com introdução, esboço, referências laterais e notas por Charles Caldwell Ryrie; Tradução de Carlos Oswaldo Cardoso Pinto. São Paulo, Mundo Cristão, 1994.
Bíblia Sagrada, Edição Barsa, 1965.
Bíblia Sagrada, Edição Pastoral, Sociedade Bíblica Católica Internacional e Paulus, 14ª Impressão 1995.
Bíblia – Mensagem de Deus, Novo Testamento - LEB - Edições Loyola, São Paulo, 1984.
Bíblia Sagrada, Editora Ave Maria, São Paulo, 1989, 68ª Edição.
Bíblia Sagrada, Editora Vozes, Petrópolis, RJ, 1989, 8ª Edição.
Dicionário Bíblico Universal/L. Monloubou e F.M. Du Buit, Petrópolis, RJ, Vozes; Aparecida, SP: Editora