CIÚME
BIBLIOGRAFIA
01- A vingança do judeu - pág. 80 02 - Amor e ódio - pág. 158
03 - Chão de flores - pág. 76 04 - Correlações Espírito-Matéria - pág. 27
05 - Depoimentos vivos - pág. 39 06 - Entre a Terra e o céu - pág. 143
07 - Estante da vida - pág. 23, 53 08 - Falando a Terra - pág. 145
09 - Justiça Divina - pág. 114 10 - Manual Prático do Espírita - pág.83
11 - Mediunidade e Medicina - pág. 84 12 - O Consolador - pág. 110
13 - O Espírito da Verdade - pág. 101, 155 14 - O Evangelho S. o Espiritismo - Cap V ítem 13
15 - O Livro dos Espíritos - introd. VI, q. 101, 933

16 - O matuto - toda a obra

17 - Pérolas do Além - pág. 46 18 - Rumos libertadores - pág. 92
19 - Saúde e Espiritismo - pág. 74 20 - Síntese de o Novo Testamento - pág. 262

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CIÚME – COMPILAÇÃO

06 - Entre a Terra e o céu - André Luiz - pág. 143

Conversação edificante
Enquanto regressávamos ao nosso círculo de trabalho e de estudo, para articular novas providências de auxílio, em favor dos protagonistas da história que a vida estava escrevendo, concluí que não me cabia perder a oportunidade de mais amplo entendimento com o nosso orientador, com alusão aos esclarecimentos que nos fornecera, acerca do perispírito.

Assim como o homem comum mal conhece o veículo em que se movimenta, ignorando a maior parte dos processos vitais de que se beneficia e usando o corpo de carne à maneira de um inquilino estranho à casa em que reside, também nós, os desencarnados, somos compelidos a meticulosas meditações para analisar a vestimenta de que nos servimos, de modo a conhecer-lhe a intimidade.

Efetivamente, em novas condições na vida espiritual, passamos a apreciar, com mais segurança, o corpo abandonado à Terra, penetrando os segredos de sua formação e desenvolvimento, sustentação e desintegração, mas somos desafiados pelos enigmas do novo instrumento que passamos a utilizar. Lidamos, na Vida Maior, com o carro sutil da mente, pelo menos na esfera em que nos situamos, acentuando, pouco a pouco, os nossos conhecimentos, quanto às peculiaridades que lhe dizem respeito.

Reparei que Hilário, pela expressão dos olhos, demonstrava não menor anseio de saber. E, encorajado pela atitude do companheiro, desfechei a primeira questão, considerando: - Inegavelmente, será difícil alcançar o grande equilíbrio que nos outorgará o trânsito definitivo para as eminências do Espírito Puro.- Ah! sim - concordou o Ministro, com grave entono-, para que tivéssemos na Crosta Planetária um vaso tão aprimorado e tão belo, quanto o corpo humano, a Sabedoria Divina despendeu milênios de séculos, usando os multiformes recursos da Natureza, no campo imensurável das formas... Para que venhamos a possuir o sublime instrumento da mente em planos mais elevados, não podemos esquecer que o Supremo Pai se vale do tempo infinito para aperfeiçoar e sublimar a beleza e a precisão do corpo espiritual que nos conferirá os valores imprescindíveis à nossa adaptação à Vida Superior.

- Compete-nos, então - observou Hilário, atencioso-, atribuir importante papel às enfermidades na esfera humana. Quase todas estarão no mundo, desempe­nhando expressivo papel na regeneração das almas.- Exatamente.- Cada "centro de força" - ponderei - exigirá absoluta harmonia, perante as Leis Divinas que nos regem, a fim de que possamos ascender no rumo do Perfeito Equilíbrio...- Sim - confirmou Clarêncio -, nossos deslizes de ordem moral estabelecem a condensação de fluidos inferiores de natureza gravitante, no campo electromagnético de nossa organização, compelindo-nos a natural cativeiro em derredor das vidas começantes às quais nos imantamos.

Hilário, conduzindo mais longe as próprias divaga­ções, perguntou:- Imaginemos, contudo, um homem puramente sel­vagem, a situar-se em plena ignorância dos Desígnios Superiores, que se confia a delitos indiscriminados... Terá nos tecidos sutis da alma as lesões cabíveis a um europeu supercivilizado, que se entrega à indústria do crime? Clarêncio sorriu, compreensivo, e acentuou: - Sigamos devagar. Comentávamos, ainda há pouco, o problema da evolução. Assim como o aperfeiçoado veículo do homem nasceu das formas primárias da Natureza, o corpo espiritual foi iniciado também nos princípios rudimentares da inteligência.

É necessário não confundir a semente com a árvore ou a criança com o adulto, embora surjam na mesma paisagem de vida. O instrumento perispirítico do selvagem deve ser classificado como protoforma humana, extremamente condensado pela sua integração com a matéria mais densa. Está para o organismo aprimorado dos Espíritos algo enobrecidos, como um macaco antropomorfo está para o homem bem-posto das cidades modernas. Em criaturas dessa espécie, a vida moral está começando a aparecer e o perispírito nelas ainda se encontra enormemente pastoso. Por esse motivo, permanecerão muito tempo na escola da experiência, como o bloco de pedra rude sob marteladas, antes de oferecer de si mesmo a obra-prima...

Despenderão séculos e séculos para se rarefazerem, usando múltiplas formas, de modo a conquistarem as qualidades superiores que, em lhes sutilizando a organização, lhes conferirão novas possibilidades de crescimento consciencial. O instinto e a inteligência pouco a pouco se transformam em conhecimento e responsabilidade e semelhante renovação outorga ao ser mais avançados equipamentos de manifestação... O prodigioso corpo do homem na Crosta Terrestre foi erigido pacientemente, no curso dos séculos, e o delicado veículo do Espírito, nos planos mais elevados, vem sendo construído, célula a célula, na esteira dos milénios incessantes...E, com um olhar significativo, Clarêncio concluiu:

- ...até que nos transfiramos de residência, aptos a deixar, em definitivo, o caminho das formas, colocando-nos na direção das esferas do Espírito Puro, onde nos aguardam os inconcebíveis, os inimagináveis recursos da suprema sublimação. Calara-se o instrutor, mas o assunto era por demais importante para que eu me desinteressasse dele apressadamente. Recordei os inúmeros casos de moléstias obscuras de meu trato pessoal e aduzi:- Decerto a Medicina escreveria gloriosos capítulos na Terra, sondando com mais segurança os problemas e as angústias da alma...- Gravá-los-á mais tarde - confirmou Clarêncio, seguro de si. - Um dia, o homem ensinará ao homem, consoante as instruções do Divino Médico, que a cura de todos os males reside nele próprio. A percentagem quase total das enfermidades humanas guarda origem no psiquismo.

Sorridente, acrescentou:- Orgulho, vaidade, tirania, egoísmo, preguiça e crueldade são vícios da mente, gerando perturbações e doenças em seus instrumentos de expressão. No objetivo de aprender, observei:- É por isso que temos os vales purgatoriais, depois do túmulo... a morte não é redenção...- Nunca foi - esclareceu o Ministro, bondoso. - O pássaro doente não se retira da condição de enfermo, tão-só porque se lhe arrebente a gaiola. O inferno é uma criação de almas desequilibradas que se ajuntam, assim como o charco é uma coleção de núcleos lodacentos, que se congregam uns aos outros.

Quando de consciência inclinada para o bem ou para o mal perpetramos esse ou aquele delito no mundo, realmente podemos ferir ou prejudicar a alguém, mas, antes de tudo, ferimos e prejudicamos a nós mesmos. Se eliminamos a existência do próximo, nossa vítima receberá dos outros tanta simpatia que, em breve, se restabelecerá, nas leis de equilíbrio que nos governam, vindo, muita vez, em nosso auxílio, muito antes que possamos recompor os fios dilacerados de nossa consciência. Quando ofendemos a essa ou àquela criatura, lesamos primeiramente a nossa própria alma, de vez que rebaixamos a nossa dignidade de espíritos eternos, retardando em nós sagradas oportunidades de crescimento.

- Sim - concordei -, tenho visto aqui aflitivas pai­sagens de provação que me constrangem a meditar...- A enfermidade, como desarmonia espiritual - atalhou o instrutor -, sobrevive no perispírito. As moléstias conhecidas no mundo e outras que ainda escapam ao diagnóstico humano, por muito tempo persistirão nas esferas torturadas da alma, conduzindo-nos ao reajuste. A dor é o grande e abençoado remédio. Reeduca-nos a atividade mental, reestruturando as peças de nossa instrumentação e polindo os fulcros anímicos de que se vale a nossa inteligência para desenvolver-se na jornada para a vida eterna.

Depois do poder de Deus, é a única força capaz de alterar o rumo de nossos pensamentos, compelindo-nos a indispensáveis modificações, com vistas ao Plano Divino, a nosso respeito, e de cuja execução não poderemos fugir sem graves prejuízos para nós mesmos. Nosso domicílio, porém, estava agora à vista. Os raios dourados da manhã varriam o horizonte longínquo. Despediu-se o Ministro, paternal. Aquele era um dos momentos em que, desde muito, se devotava ele à oração.

09 - Justiça Divina - Emmanuel - pág. 114

Doenças da alma - Reunião pública de 7-8-61 19 Parte, cap. VII, item 7
Na forja moral da luta em que temperas o caráter e purificas o sentimento, é possível acredites estejas sempre no trato de pessoas normais, simplesmente porque se mostrem com a ficha de sanidade física. Entretanto, é preciso pensar que as moléstias do espírito também se contam. O companheiro que te fala, aparentemente tranquilo, talvez guarde no peito a lâmina esbraseada de terrível desilusão.

A irmã que te recebe, sorrindo, provavelmente carrega o coração ensopado de lágrimas. Surpreendeste amigos de olhos calmos e frases doces, dando-te a impressão de controle perfeito, que soubeste, mais tarde, estarem caminhando na direção da loucura. Enxergaste outros, promovendo festas e estadeando poder, a escorregarem, logo após, no engodo da delinquência. É que as enfermidades do espírito atormentam as forças da criatura, em processos de corrosão inacessíveis à diagnose terrestre.

Aqui, o egoísmo sombreia a visão; ali, o ódio empeçonha o cérebro; acolá, o desespero mentaliza fantasmas; adiante, o ciúme converte a palavra em látego de morte... Não observes os semelhantes pelo caleidoscópio das aparências. É necessário reconhecer que todos nós, espíritos encarnados e desencarnados em serviço na Terra, ante o volume dos débitos que contraímos nas existências passadas, somos doentes em laboriosa restauração.

O mundo não é apenas a escola, mas também o hospital em que sanamos desequilíbrios recidivantes, nas reencarnações regenerativas, através do sofrimento e do suor, a funcionarem por medicação compulsória. Deixa, assim, que a compaixão retifique em ti próprio os velhos males que toleras nos outros. Se alguém te fere ou desgosta, debita-lhe o gesto menos feliz à conta da moléstia obscura de que ainda se faz portador.

Se cada pessoa ofendida pudesse ouvir a voz inarticulada do Céu, no instante em que se vê golpeada, escutaria, de pronto, o apelo da Misericórdia Divina: «Compadece-te!» Todos somos enfermos pedindo alta. Compadeçamo-nos uns dos outros, a fim de que saibamos auxiliar. E mesmo que te vejas na obrigação de corrigir alguém — pelas reações dolorosas das doenças da alma que ainda trazemos —, compadece-te mil vezes antes de examinar uma só.

10 - MANUAL PRÁTICO DO ESPÍRITA - NEY PRIETO PERES - PÁG. 83

CIÚME
"- Inveja e ciúme! Felizes os que não conhecem esses dois vermes vorazes. Com a inveja e o ciúme não há calma, não há repouso possível. Para aquele que sofre desses males, os objetos da sua cobiça, do seu ódio e do seu despeito se erguem diante dele como fantasmas que não o deixam em paz e o perseguem até no sono. O invejoso e o ciumento vivem num estado de febre contínua. Ë essa uma situação desejável? Não compreendeis que, com essas paixões, o homem cria para si mesmo suplícios voluntários, e que a terra se transforma para ele num verdadeiro inferno?"
(Allan Kardec. O Livro dos Espíritos. Livro Quarto. Capítulo I. Penas e Gozos Terrenos. Parte da resposta à pergunta 933.)


O nosso apego aos objetos e às pessoas tem, no ciúme, uma das suas formas de manifestação. O zelo demasiado, o cuidado excessivo, a valorização descabida aos nossos pertences chegam às raias da preocupação, do desequilíbrio, do desassossego, nas reações do indisfarçável ciúme. Ë mesmo um estado febril de intranquilidade, que pode nos tirar o sono muitas vezes. O ciúme anda próximo da inveja. Ambos são expressões da cobiça, e se manifestam no nosso desejo de posse ou na nossa condição possessiva, ambiciosa, egoísta.

Quando o ciúme se refere às pessoas do nosso relacionamento, é indício da paixão, do amor ainda condicionante, dominante, restritivo, exclusivista. Ninguém em verdade pertence a outrem. Alguns pares, no entanto, podem desenvolver laços afetivos que os liguem a compromissos ou a tarefas comuns, como entre cônjuges, por exemplo, assumindo responsabilidades a dois, num desejável clima de compreensão, tolerância e respeito mútuo.

Os suplícios ou tormentos muitas vezes são criados voluntariamente, quando começamos a exigir, a cobrar do outro, o que achamos ser de sua obrigação: o ciúme impõe condições. Ë assim que quase sempre se origina a inconformação, o desespero, o desentendimento entre casais. Respeito e liberdade, de ambas as partes, na confiança que edifica, e fortalece, aprofunda a amizade para muito além dos limites de uma paixão, tudo isso pela admiração construtiva, mútua, que estimula o bem proceder e amplia o reconhecimento dos valores individuais dos dois. Quantos ciúmes doentios não geram desconfianças e desarmonias desnecessárias?

Por que vamos, então, transformar nossa vida num verdadeiro inferno? Procuremos serenamente indagar o porquê dos nossos ciúmes. Com que sentido nos deixamos envolver por eles? Será por carência, ou por insegurança? Por apego ou desespero? Localizemos as causas do apare­cimento desse fantasma que é o ciúme. Fantasma criado pela nossa imaginação, que pode estar mal informada ou até deformada, e que precisa ser realimentada com a confiança, a fé, o otimismo, a esperança, a alegria, a dedicação e o desprendimento, para sermos felizes em profundidade, gerando felicidade e bem-estar em volta de nós.


12 - O Consolador - EMMANUEL -pág. 110

Perg. 183 - Como se interpreta o ciúme na plano espiritual? - O ciúme, propriamente considerado nas suas expressões de escândalo e de violência, é um indício de atraso moral ou de estacionamento no egoísmo, dolorosa situação que o homem somente vencerá a golpes de muito esforço, na oração e na vigilância, de modo a enriquecer o seu íntimo com a luz do amor universal, começando pela piedade para com todos os que sofrem e erram, guardando também a disposição sadia para cooperar na elevação de cada um.

Só a compreensão da vida, colocando-nos na situação de quem errou ou de quem sofre, a fim de iluminarmos o raciocínio para a análise serena dos acontecimentos, poderá aniquilar o ciúme no coração, de modo a cerrar-se a porta ao perigo, pela qual toda alma pode atirar-se a terríveis tentações, com largos reflexos nos dias do futuro.

13 - O Espírito da Verdade - Espíritos diversos - pág. 101, 155

A TOMADA ELÉTRICA - Cap. VIII — Item 7
De volta à reencarnação, em breve tempo, sou trazido ao vosso recinto de oração e fraternidade por benfeitores e amigos para que algo vos fale de minha história — amargo escarmento aos levianos do ouvido e aos imprudentes da língua. Sem ornato verbal de qualquer natureza, em minha confissão dolorosa, passo diretamente ao meu caso triste, à maneira de um louco que retorna ao juízo, depois de haver naufragado na vileza de um pântano.

Há alguns anos, em minha derradeira romagem na Terra, era eu simples comerciário de hábitos simples. Com pouco mais de trinta anos, desposei Marina, muito mais jovem que eu, e, exaltando a nossa felicidade, construímos nosso paraíso doméstico, numa casa pequena de movimentado bairro do Rio. Nossa vida modesta era um cântico de ventura, entretecido de esperanças e preces; todavia, porque fosse, de ordinário, desconfiado e inquieto, amava minha esposa com doentia paixão. Marina era muito moça, quase menina...

Estimava as cores festivas, o cinema, a vida social, a gargalhada franca e, por guardar temperamento infantil, a curto espaço teve o nome enliçado à maledicência que fustiga a felicidade, como a sombra persegue a luz. Em torno de nós, fez-se o "disse-me-disse". Se tomávamos um bonde, éramos logo objeto de olhares assustadiços, enquanto se cochichava, lembrando-se-nos o nome...Se passávamos numa praça, éramos, quase sempre, seguidos de assovios discretos...Começaram para mim os recados escusos, os telefonemas inesperados, as cartas anônimas e os conselhos de família, reunindo várias acusações.

— "Marina desertara dos compromissos do lar."
— "Marina era ingrata e infiel."
— "Marina respirava numa poça de lama."
— "Marina tornara-se irregular."

Muita vez, minha própria mãe, zelosa de nosso nome, chamava-me a brios, indicando-me providências. Amigos segredavam-me anedotas irreverentes com sentido indireto. Lutas enormes do sentimento ditavam-me desesperados conflitos. Acabou-se em casa a alegria espontânea. Debalde, a companheira se inocentava, alertando-me o coração; entretanto, densas trevas possuíam-me o raciocínio, induzindo-me a criar assombrosos quadros em torno de faltas inexistentes. Como se eu fora puro, exigia pureza em minha mulher. Qual se fosse santo, reclamava-lhe santidade.

Deplorável cegueira humana! Foi assim que, numa tarde inesquecível para o re­morso que me vergasta, tilintou o telefone, buscando-me para aviso. Três horas da tarde... Anuncia-me alguém ao cérebro atormentado que um estranho se achava em meu aposento íntimo. Desvairado, tomei de um revólver e busquei minha casa. Sem barulho, penetrei nossa câmara e, de olhos embaciados no desespero, vi Marina curvada, ao lado de um homem que se curvava igualmente a dois passos de nosso leito.

Não tive dúvida e alvejei-os, agoniado... Vi-lhes o sangue a misturar-se, enquanto me deitavam olhares de imensa angústia, e, porque não pudesse, eu mesmo, resistir a tamanha desdita, estilhacei meu crânio, com bala certa, caindo, logo após, para acordar no túmulo, agarrado a meu corpo, mazelento e fedentinoso, que servia de engorda a vermes famintos. Em vão, busquei desvencilhar-me do arcabouço de lama, a emparedar-me na sombra. Gargalhadas irónicas de Espíritos infelizes cercavam -me a prisão.

Descrever minha pena é tarefa impossível no vocabulário dos homens, porque o verbo dos homens não tem bastante força para pintar o inferno que brame dentro da alma. Por muito tempo, amarguei meu cálice de aflição e pavor, até que mãos amigas me afastaram, por fim, do cárcere de lodo. Vim, então, a saber que Marina, sem culpa, fora sacrificada em minhas mãos de louco.

Esposa abnegada e inocente que era, simplesmente pedira a um companheiro da vizinhança consertasse, em nosso quarto humilde, a tomada elétrica desajustada, a fim de passar a roupa que me era precisa para o dia seguinte. Transido de vergonha e enojado de mim, antes de suplicar perdão às minhas pobres vítimas, implorei, humilhado, a prova que me espera...

E é assim que, falando às almas descuidadas que cultivam na Terra o vício da calúnia, venho dizer a todas na condição de um réu, que para me curar da própria insensatez roguei ao Pai Celeste e me foi concedida a bênção de meio século de doença e martírio, luta e flagelação na dor de um corpo cego.

14 - O Evangelho S. o Espiritismo - Cap V ítem 13

13. O homem pode abrandar ou aumentar o amargor das suas provas, pela maneira de encarar a vida terrena. Maior é o seu sofrimento, quando o considera mais longo. Ora, aquele que se coloca no ponto de vista espiritual, abrange na sua visão a vida corpórea, como um ponto no infinito, compreendendo a sua brevidade, sabendo que esse momento penoso passa bem depressa. A certeza de um futuro próximo e mais feliz o sustenta e encoraja, e em vez de lamentar-se, ele agradece ao céu as dores que o fazem avançar. Para aquele que, ao contrário, só vê a vida corpórea, esta parece interminável, e a dor pesa sobre com todo o seu peso. O resultado da maneira das coisas mundanas, a moderação dos desejos humanos, fazendo o homem contentar-se com a sua posição, sem invejar a dos outros, e sentir menos os seus reveses e decepções. Ele adquire, assim, uma calma e uma resignação tão úteis à saúde do corpo como à da alma, enquanto com a inveja, o ciúme e a ambição, entrega-se voluntariamente à tortura, aumentando as misérias e as angústiasde sua curta existência.

15 - O Livro dos Espíritos - Allan Kardec - introd. VI, q. 101, 933

101. Caracteres gerais: Predominância da matéria sobre o Espírito. Propensão ao mal, ignorância, orgulho, egoísmo e todas as más paixões consequentes, têm a intuição de Deus, mas não o compreendem. Nem todos são essencialmente maus; em alguns, há mais leviandade, uns não fazem o bem nem o mal; mas, pelo simples fato de não fazerem o bem, revelam a sua inferioridade, outros pelo contrário, se comprazem no mal e ficam satisfeitos quando encontram ocasião de praticá-lo.

Vêem a felicidade dos bons, e essa visão é para eles um tormento incessante, porque lhes faz provar as angústias da inveja e do ciúme.

Perg. 933 - Se é o homem, em geral, o artífice dos seus sofrimentos materiais, sê-lo-à também dos sofrimentos morais? - Mais ainda, pois os sofrimentos materiais são às vezes independentes da vontade, enquanto o orgulho ferido, a ambição frustrada, a ansiedade da avareza, a inveja, o ciúme, todas as paixões, enfim, constituem torturas da alma. Inveja e ciúme! Felizes os que não conhecem esses dois vermes vorazes. Com a inveja e o ciúme não há calma, não há repouso possível. Para aquele que sofre desses males, os objetos da sua cobiça, do seu ódio e do seu despeito se erguem diante dele como fantasmas que não o deixam em paz e o perseguem até no sono. O invejoso e o ciumento vivem num estado de febre contínua. É essa uma situação desejável? Não compreendeis que, com essas paixões, o homem cria para si mesmo suplícios voluntários e que a Terra se transforma para ele num verdadeiro inferno?

20 - Síntese de o Novo Testamento - Mínimus - pág. 262

EPISTOLA DE TIAGO (1)(1) Tiago, o Menor, também chamado — irmão de Jesus.
Tiago, servo de Deus e do Senhor Jesus-Cristo, às doze tribos que estão dispersas, saúde. Meus irmãos, tende por motivo de júbilo, quando passardes por diversas tentações, reconhecendo que a provação da vossa fé produz a fortaleza, e esta deve completar a sua obra, para que sejais perfeitos e completos, não faltando em coisa alguma. Se algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus que a todos dá liberalmente, e não impropera, e ser-lhe-á dada. Peça-a, porém, com fé, nada duvidando; porque quem duvida se assemelha à vaga do mar, que é levada pelo vento e lançada de uma para outra parte. Não pense tal homem que alcançará do Senhor alguma coisa, com irresolução e inconstância em todos os seus caminhos.

Glorie-se o irmão de condição humilde na sua exaltação, e o rico na sua humilhação; porque ele passará como a flor da erva, pois o sol se levanta, acompanhado de vento abrasador, e seca a erva; e a sua flor cai, e a beleza do seu aspecto desaparece. Assim também murchará o rico nos seus caminhos. Bem-aventurado o homem que suporta a tentação, porque, após ter sido provado, receberá a coroa da vida, que o Senhor prometeu aos que o amam. Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; pois Deus não é tentado pelo mal, e ele a ninguém tenta. Cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz; então a cobiça, havendo concebido, gera o pecado, e este, sendo consumado, gera a morte.

Não vos enganeis, meus amados irmãos. Toda boa dádiva e todo dom perfeito vem lá de cima, descendo do Pai das luzes, no qual não pode haver mudança nem sombra de variação. Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que de algum modo fôssemos as primícias das suas criaturas. Todo homem seja pronto para ouvir, tardio para falar e tardio para se irar; porque a ira do homem não cumpre a justiça de Deus. Por isso, renunciando a toda a imundície e a todo excesso de malícia, recebei com mansidão a palavra em vós enxertada, a qual pode salvar as vossas almas. Tornai-vos cumpridores da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos.

Quem ouve a palavra e não a pratica, é semelhante a um homem que mira no espelho o seu rosto natural; porque se mira a si mesmo e se vai e logo se esquece qual ele era. Mas quem contempla atentamente a lei perfeita — a lei da liberdade — e nela persevera, não sendo ouvinte esquecediço, mas fazedor de obra, este será bem-aventurado no seu feito. Se alguém se supõe religioso, não refreando a sua língua, mas iludindo o seu coração, a sua religião é vã. A religião pura e imaculada diante de nosso Deus e Pai é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas aflições e guardar-se a si mesmo isento da corrupção do mundo. Não tenhais a fé em nosso Senhor Jesus-Cristo, Senhor da glória, com respeitos humanos; pois se entrar na vossa reunião algum homem que tenha anel de ouro e com vestido esplêndido, e se entrar também um pobre com vestido sujo, e se tratardes com deferência ao que tenha o vestido esplêndido e lhe disserdes:

Senta-te aqui neste bom lugar, e disserdes ao pobre: Fica-te para ali em pé, ou senta-te abaixo do escabelo dos meus pés; não fazeis, porventura, distinções entre vós mesmos e não vos tornais juizes de maus pensamentos? Escutai, meus amados irmãos: não escolheu Deus os pobres do mundo para fazê-los ricos na fé e herdeiros do reino que ele prometeu aos que o amam? Vós, porém, desprezastes o pobre. Não são os ricos os que vos oprimem e os que vos arrastam aos tribunais? Não são eles os que blas­femam o bom nome pelo qual sois chamados? Se vós, porém, cumpris a lei real segundo a Escritura: Amarás teu próximo como a ti mesmo, fazeis bem; mas se vos deixais levar pêlos respeitos humanos, cometeis pecado, sendo condenados pela Lei como transgressores; pois quem guardar a Lei toda, mas deslizar em algum pon­to, tem-se tornado culpado de todos. O mesmo que disse: Não adulterarás, disse também: Não matarás.

Ora, se não cometes adultério, mas és homicida, tu te tornaste transgressor da Lei. Falai e procedei de tal sorte, como aqueles que hão-de ser julgados pela lei da liberdade; pois o juízo é sem misericórdia para aquele que não tem usado de misericórdia; a misericórdia triunfa sobre o juízo. De que serve, meus irmãos, se alguém disser que tem fé, e não tiver as obras ? acaso pode essa fé salvá-lo ? Se um irmão ou irmã estiverem nus e necessitarem do pão cotidiano, e algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquentai-vos e fartai-vos, e não lhes derdes o que é necessário para o corpo, que lhes aproveita? Assim também a fé, se não tiver obras, é morta em si mesma. Mas alguém dirá: Tu tens fé, e eu tenho obras; mostra-me a tua fé sem as obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras. Sem dúvida, crês que Deus é um; fazes bem; os demónios também o crêem e estremecem. Mas, ó homem vão, queres tu saber que a fé sem as obras é estéril?

Não foi pelas obras que Abraão, nosso pai, foi justificado, quando ofereceu seu filho Isaac sobre o altar? Vês que a fé cooperou com as suas obras e que por estas a fé foi aperfeiçoada, e cumpriu-se o que diz a Escritura: E Abraão creu a Deus, e isto lhe foi imputado para justiça, e ele foi chamado amigo de Deus. Vedes que o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé. Do mesmo modo Raab, a meretriz, não foi justificada pelas obras quando recebeu os emissários e os fez seguir por outro caminho? Porque, assim como o corpo sem espírito está morto, assim também a fé sem obras está morta. Não vos torneis muitos de vós mestres, meus irmãos, sabendo que receberemos um juízo mais severo. Pois todos nós tropeçamos em muitas coisas; se alguém não tropeça em sua palavra, é um homem perfeito, capaz de refrear também todo o seu corpo. Ora, se pomos freios nas bocas dos cavalos, para que nos obedeçam, também governamos todo o seu corpo.

Vede também os navios, ainda que sejam grandes, e levados por impetuosos ventos, eles, sob a ação de pequenino leme, se voltam para onde quer a vontade do timoneiro. Assim também, a língua é um pequeno membro, mas se vangloria de grandes coisas. Vede como um pouco de fogo abrasa um grande bosque! E a língua é um fogo; mundo de iniquidade entre os nossos membros é a língua, que contamina o corpo todo, incendeia o curso da vida, e é incendiada pelo fogo da geena. Toda a espécie de feras, de aves, de reptis e de peixes se amansa e tem sido domada pela espécie humana; porém não há homem que possa domar a língua: é um mal irrequieto, está cheia de veneno mor­tífero. Com ela bendizemos o Senhor e Pai, e com ela maldizemos os homens que foram criados à imagem de Deus: da mesma boca procede bênção e maldição. Não convém, meus irmãos, que isto seja assim. Acaso a fonte lança por uma mesma abertura água doce e água amargosa? Poderá uma figueira dar azeitonas, ou uma videira figos? Nem tão-pouco pode uma fonte de água salgada dar água doce.

Quem dentre vós é sábio e entendido? Mostre por seu bom procedimento as suas obras em mansidão de sabedoria. Mas se tendes amargo ciúme e espírito de contenda nos vossos corações, não vos glorieis e não mintais contra a verdade. Esta sabedoria não é a sabedoria que vem de cima, mas é terrena, animal e diabó­lica; porque onde há ciúme e espírito de contenda, ali também há confusão e toda obra má. Mas a sabedoria que vem de cima é primeiramente pura, depois pacifica, moderada, fácil de conciliar-se, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade, sem hipocrisia. Ora, o fruto da justiça é semeado em paz para aqueles que são pacificadores. Donde vêm as guerras e as contendas entre vós? Não vêm porventura dos vossos deleites, que combatem nos vossos membros? Cobiçais, e não possuís; matais e invejais e não podeis alcançar; contendeis e fazeis guer­ras. Não tendes, porque não pedis; pedis, e não recebeis, porque pedis erradamente, para satisfação de vossos deleites.

Adúlteros, não sabeis que a amizade do mundo é inimizade contra Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo, constitui-se inimigo de Deus. Acaso julgais que é em vão que a Escritura diz: O espírito que em nós habita tem desejo de inveja? Porém, dá maior graça, pelo que também diz: Deus resiste aos orgulhosos e dá graça aos humildes. Sujeitai-vos, pois, a Deus; mas resisti ao diabo, e ele fugirá de vós. Chegai-vos para Deus, e ele se chegará para vós. Lavai, pecadores, as mãos; e, vós de espírito vacilante, purificai os corações. Sofrei, lamentai e chorai; converta-se o vosso riso em pranto, e a vossa alegria em tristeza. Humilhai-vos diante do Senhor, e ele vos exaltará.

Não faleis mal uns dos outros. Aquele que fala mal de um irmão, ou julga a seu irmão, fala contra a Lei, e julga a Lei; e, se julgas a Lei, não és mais observador da Lei, mas juiz. Um só é o Legislador e Juiz, aquele que pode salvar e destruir; tu, porém, quem és para seres juiz do teu próximo? Cuidado, vós que dizeis: Hoje ou amanhã iremos a tal cidade, ali passaremos um ano, negociaremos e ganharemos; ignorais o que sucederá amanhã. Que é a vossa vida? Nada mais sois que um vapor que aparece por um pouco, e logo se desvanece; em vez de dizerdes: Se o senhor quiser, viveremose faremos isto ou aquilo. Agora, porém, vos gabais das vossas presunções; toda jactância tal como esta é maligna. Aquele, pois, que sabe fazer o bem, e o não faz, comete pecado.

LEMBRETE:

1° - Por excesso de preocupações, muitos cônjuges descem às cavernas do desespero, defrontados pelos insensíveis monstros do ciúme que lhes aniquilam a felicidade.Emmanuel

2° - O ciúme, propriamente considerado nas suas expressões de escândalo e de violência, é um dos indícios de atraso moral ou de estacionamento no egoísmo, dolorosa situação que o homem somente vencerá a golpes de muito esforço, na oração e na vigilância, de modo a enriquecer o seu íntimo com a luz do amor universal, começando pela piedade para com todos os que sofrem e erram, guardando também a disposição sadia para cooperar na elevação de cada um. Só a compreensão da vida, colocando-nos na situação de quem errou ou de quem sofre, a fim de iluminarmos o raciocínio para a análise serena dos acontecimentos, poderá aniquilar o ciúme no coração, de modo a cerrar-se a porta ao perigo, pela qual toda alma pode atirar-se a terríveis tentações, com largos reflexos nos dias do futuro. Emmanuel

Ter ciúme é sofrer por perceber a felicidade do outro quando a gente não está perto.

Ciúme: s.m. Inquietação mental causada por suspeita ou receio de rivalidade no amor ou em outra aspiração. Dic. da Lígua Portuguesa.

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