FAMÍLIA
BIBLIOGRAFIA
01- A educação da nova era- pág.45 02 - A educação segundo o Espiritismo - pág. 58,183
03 - Após a tempestade - pág. 71 04 - As aves feridas na Terra voam - pág. 14
05 - Boa Nova - pág. 83 06 - Caminho verdade e vida - pág. 139, 265
07 - Catecismo Espírita - pág. 69 08 - Ceifa de luz - pág. 179
09 - Coragem - pág. 73, 107 10 - Curso Dinâmico de Espiritismo - pág. 39
11 - Encontro marcado - pág. 37, 109, 112 12 - Estude e viva - pág. 66, 92 ,216
13 - Estudos Espíritas - pág. 175 14 - Há dois mil anos- pág. 32
15 - Lampadário Espírita - pág. 77

16 - Lázaro redivivo- pág. 257

17 - Na era do Espírito - pág. 22 a 25 18 - O Consolador - pág. 107, 224
19 - O Espírito da Verdade - pág. 113 20 -O Evangelho Seg. o Espiritismo - cap. 4, ítem 18
21 - O Homem novo- pág. 17 22 - O Livro dos Espíritos - q59, 205, 215,..
23 - Obreiros de vida eterna - pág. 137 24 - Pão Nosso - pág. 63
25 - Rumo Certo - pág. 77 26 - Vida e Sexo - pág. 13, 21, 145
27 - Viver em plenitude - pág. 19 28 - Voltei - pág. 100

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FAMÍLIA – COMPILAÇÃO

05 - BOA NOVA - HUMBERTO DE CAMPOS - PÁG. 83

(..) Muito tempo ainda não decorrera sobre essa conversação, quando o Mestre, em seus ensinos, deixou perceber que todos os homens, que não estivessem decididos a colocar o Reino de Deus acima de pais, mães e irmãos terrestres, não podiam ser seus discípulos. No dia desses novos ensinamentos, terminados os labores evangélicos, o mesmo apóstolo interpelou o Senhor, na penumbra de suas expressões indecisas:— Mestre, como conciliar estas palavras tão duras com as vossas anteriores observações, relativamente aos laços sagrados entre os que se estimam?! Sem deixar transparecer nenhuma surpresa, Jesus esclareceu:

— Simão, a minha palavra não determina que o homem quebre os elos santos de sua vida; antes exalta os que tiverem a verdadeira fé para colocar o poder de Deus acima de todas as coisas e de todos os seres da criação infinita. Não constitui o amor dos pais uma lembrança da bondade permanente de Deus? Não representa o afeto dos filhos um suave perfume do coração?! Tenho dado aos meus discípulos o título de amigos, por ser o maior de todos. O Evangelho — continuou o Mestre, estando o apóstolo a ouvi-lo atentamente — não pode condenar os laços de família, mas coloca acima deles o laço indestrutível da paternidade de Deus. O Reino do Céu no coração deve ser o tema central de nossa vida. Tudo mais é acessório. A família, no mundo, está igualmente subordinada aos imperativos dessa edificação. Já pensaste, Pedro, no supremo sacrifício de renunciar? Todos os homens sabem conservar, são raros os que sabem privar-se. Na construção do Reino de Deus, chega um instante de separação, que é necessário se saiba suportar com sincero desprendimento.

E essa separação não é apenas a que se verifica pela morte do corpo, muitas vezes proveitosa e providencial, mas também a das posições estimáveis no mundo, a da família terrestre, a do viver nas paisagens queridas, ou, então, a de uma alma bem-amada que preferiu ficar, a distância, entre as flores venenosas de um dia!...Ah! Simão, quão poucos sabem partir, por algum tempo, do lar tranquilo, ou dos braços adorados de uma afeição, por amor ao reino que é o tabernáculo da vida eterna! Quão poucos saberão suportar a calúnia, o apodo, a indiferença, por desejarem permanecer dentro de suas criações individuais, cerrando ouvidos à advertência do céu para que se afastem tranquilamente!... Como são raros os que sabem ceder e partir em silêncio, por amor ao reino, esperando o instante em que Deus se pronuncia! Entretanto, Pedro, ninguém se edificará, sem conhecer essa virtude de saber renunciar com alegria, em obediência à vontade de Deus, no momento oportuno, compreendendo a sublimidade de seus desígnios.

Por essa razão, os discípulos necessitam aprender a partir e a esperar onde as determinações de Deus os conduzam, porque a edificação do Reino do Céu no coração dos homens deve constituir a preocupação primeira, a aspiração mais nobre da alma, as esperanças centrais do espírito!...Ainda não havia anoitecido. Jesus, porém, deu por concluídas as suas explicações, enquanto as mãos calosas do apóstolo passavam, de leve, sobre os olhos úmidos. Dando o testemunho real de seus ensinamentos, o Cristo soube ser, em todas as circunstâncias, o amigo fiel e dedicado. Nas elucidações de João, vemo-lo a exclamar:— "Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; tenho-vos chamado amigos, porque vos revelei tudo quanto ouvi de meu Pai!" E, na narrativa de Lucas, ouvimo-lo dizer, antes da hora extrema:


— "Tenho desejado ansiosamente comer convosco esta Páscoa, antes da minha paixão."Ninguém no mundo já conseguiu elevar, à altura em que o Senhor as colocou, a beleza e a amplitude dos elos afetivos, mesmo porque a sua obra inteira é a de reunir, pelo amor, todas as nações e todos os homens, no círculo divino da família universal. Mas, também, por demonstrar que o reino de Deus deve constituir a preocupação primeira das almas, ninguém como ele soube retirar-se das posições, no instante oportuno, em obediência aos desígnios divinos. Depois da magnífica vitória da entrada em Jerusalém, é traído por um dos discípulos amados; negam-no os seus seguidores e companheiros; suas idéias são tidas como perversoras e revolucionárias; é acusado como bandido e feiticeiro; sua morte passa por ser a de um ladrão.


Jesus, entretanto, ensina às criaturas, nessa hora suprema, a excelsa virtude de retirar-se com a solidão dos homens, mas com a proteção de Deus. Ele, que transformara toda a Galiléia numa fonte divina; que se levantara com desassombro contra as hipocrisias do farisaísmo do tempo; que desapontara os cambistas, no próprio templo de Jerusalém, como advogado enérgico e superior de todas as grandes causas da verdade e do bem, passa, no dia do Calvário, em espetáculo para o povo, com a alma num maravilhoso e profundo silêncio. Sem proferir a mais leve acusação, caminha humilde, coroado de espinhos, sustendo nas mãos uma cana imunda à guisa de cetro, vestindo a túnica da ironia, sob as cusparadas dos populares exaltados, de faces sangrentas e passos vacilantes, sob o peso da cruz, vilipendiado, submisso. No momento do Calvário, Jesus atravessa as ruas de Jerusalém, como se estivesse diante da humanidade inteira, sem queixar-se, ensinando a virtude da renúncia por amor do Reino de Deus, revelando por essa a sua derradeira lição.

09 - CORAGEM - ESPIRITOS DIVERSOS - PÁG. 73

ÍTEM 22 - QUANTO PUDERES - PÁG. 73 - EMMANUEL

Quanto puderes, não te afastes do lar, ainda mesmo quando o lar te pareça inquietante fornalha de fogo e aflição. Quanto te seja possível, suporta a esposa incompreensiva e exigente, ainda mesmo quando surja aos teus olhos por empecilho à felicidade.
Quanto estiver ao teu alcance, tolera o companheiro áspero ou indiferente, ainda mesmo quando compareça ao teu lado, por adversário de tuas melhores esperanças. Quanto puderes, não abandones o filho impermeável aos teus bons exemplos e aos teus sa-dios conselhos, ainda mesmo quando se te afigure acabado modelo de ingratidão. Quanto te seja possível, suporta o irmão que se fez cego e surdo aos teus mais elevados testemunhos no bem, ainda mesmo quando se destaque por inexcedível representante do egoísmo e da vaidade, menos simpático, ainda mesmo quando escarneçam de tuas melhores aspirações.


Apaga a fogueira da impulsividade que nos impele aos atos impensados ou à queixa descabida e avancemos para diante arrimados à tolerância porque se hoje não conseguimos realizar a tarefa que o Senhor nos confiou, a ela tornaremos amanhã com maiores dificuldades para a necessária recapitulação. Não vale a fuga que complica os problemas, ao invés de simplificá-los. Aceitemos o combate em nós mesmos, reconhecendo que a disciplina antecede a espontaneidade. Não há purificação sem burilamento, como não há metal acrisolado sem cadinho esfogueante. A educação é obra de sacrifício no espaço e no tempo, e atendendo à Divina Sabedoria, — que jamais nos situa uns à frente dos outros sem finalidade de serviço e reajustamento para a vitória do amor —, amemos nossas cruzes por mais pesadas e espinhosas que sejam, nelas recebendo as nossas mais altas e mais belas lições.

10 - CURSO DINÂMICO DE ESPIRITISMO - JOSÉ HERCULANO PIRES - PÁG. 30, 39

ÍTEM V — AMOR E FAMÍLIA EM NOVOS TEMPOS: Ninguém colocou melhor o problema da família do que Allan Kardec, pois não se apoiou apenas na pesquisa das aparências formais, mas penetrou na substância da questão, no plano das causas determinantes. Por isso nos oferece um esquema tríplice das formações familiais do nosso tempo, a saber:
a) a família carnal, formada a partir dos clãs primitivos, evoluindo nas miscigenações raciais, através de inumeráveis conflitos ao longo das civilizações progressivas, na fermentação dialética do amor e do ódio. Os grupos assim formados subdividem-se, nas reencarnações progressivas, em inumeráveis subgrupos, que também crescerão e se subdividirão na temporalidade, ou seja, na imensa esteira do tempo, que, segundo Heedegger, acolhe o espírito. São essas as famílias consanguíneas, que se desfazem com a morte.
b) a família mista, carnal e espiritual, em que os conflitos do amor e do ódio entram em processo de solução, nos reajustamentos das lutas e experiências comuns, definindo-se e ampliando-se as afinidades espirituais entre diversos grupos, absorvendo elementos de outras famílias, nas coordenadas da evolução coletiva. O condicionamento familial, nas relações endógenas e necessárias da vivência em comum, quebra a pouco e pouco as arestas do ódio e das antipatias, restabelecendo na medida do possível as relações simpáticas que se ampliarão no futuro. A desagregação provocada pela morte permitirá reajustes mais eficazes nas sucessivas reencarnações grupais.
c) a família espiritual, resultante de todos esses processos reencarnatórios, que aglutinará os espíritos afins no plano espiritual, nas comunidades dos espíritos superiores que se dedicam ao trabalho de assistência e orientação aos dois tipos familiais anteriores, mesclando-as de elementos que nelas se reencarnam para modificá-las com seu exemplo de amor e dedicação ao próximo. Essa família não perece, não se desfaz com a morte, crescendo constantemente para a formação de Humanidades Superiores. É fácil, usando-se as medidas da Escala Espírita em O Livro dos Espíritos, identificar-se nas famílias terrenas a presença de vários tipos descritos na referida escala, percebendo-se claramente as funções que exercem no processo evolutivo familial.

A concepção espírita da família, como se vê, é muito mais complexa e de importância muito maior que a das religiões cristãs, que conferem eternidade e inviolabilidade ao sacramento do matrimônio, mas não podem impedir que, na morte, o marido vá parar nas garras do Diabo, a esposa estagiar no Purgatório e os filhos inocentes curtir a sua orfandade nos jardins do céu. A concepção jurídica e terrena da família não vai além dos interesses materiais de uma existência. O mesmo se dá com a concepção sociológica, que faz da família a base da sociedade, ambas perecíveis e transitórias. As pessoas que acusam o Espiritismo de aniquilar a família através da reencarnação revelam a mais completa ignorância da Doutrina ou o fazem por má-fé, na defesa de interesses religiosos — sectários.
A família nasce do amor e dele se alimenta. Não é apenas a base da sociedade, mas de toda a Humanidade. É na família que as gerações se encontram, transmitindo suas experiências de uma para outra. Combater a instituição familial, negar a sua necessidade e a sua eficácia no desenvolvimento dos povos e dos mundos é revelar miopia ou cegueira espiritual, em cultura ou desequilíbrio mental e psíquico, falta de ajustamento à realidade, esquizofrenia não raro catatônica. Isso é evidente no estado de alienação em que essa atitude se manifesta, em pessoas amargas, ressentidas ou extremamente pretensiosas, que desejam mostrar-se originais. Em geral, são criaturas carentes de afetividade. Quando se desligam da família natural ligam-se a grupos de criaturas afins, engajam-se em outras famílias ou tornam-se misantropas destinadas à neurastenia ou à loucura. O instinto gregário da espécie é uma exigência da evolução humana, a que ninguém pode furtar-se sem pagar pelo seu egoísmo.

Os ideólogos da solidão individual esquecem-se de que todas as tentativas nesse sentido fracassaram ao longo da História. Esparta morreu de inanição por falta de relações familiais, enquanto Atenas cresceu e projetou-se num futuro glorioso, pela solidez de seu sistema familial. Roma caiu nas mãos dos bárbaros quando suas famílias se entregaram à degeneração. Os próprios nômades jamais dispensaram o seu sistema de famílias ambulantes. Anarquistas e socialistas delirantes, que sonhavam com sociedades anti-sociais, formadas de indivíduos avulsos e dotadas de grandes depósitos de crianças avulsas — os filhos do Estado — morreram protegidos pelo caminho dos familiares. Robinson Crusoé é a imagem do homem arrebatado ao seu meio, sem perspectivas. Sartre, que rompeu com a tradição familial e de­monstrou os inconvenientes da convivência, fazendo uma tenta­tiva de misantropia estóica, nunca dispensou a companhia de Simone de Beauvoir e o cosmopolitismo parisiense, formulou o célebre veredito: Os outros são o inferno, mas jamais os dispensou. Escrevia no Café de Fiori e quando visitou a URSS exigiu a inclusão no programa oficial de horas de solidão absoluta, mas nessas horas se ralava inquieto, segundo o testemunho de Simone. O homem é relação e a família é o meio de relação em que ele absorve a seiva humana que o faz homem.

Uma paisagem solitária é um motivo edênico de contemplação, e quando alguém aparece, como Sartre observou, imediatamente nos tira a liberdade e nos transforma em objeto. Mas o próprio ato de objetivar-nos permite-nos recuperar a nossa subjetividade dispersada na paisagem. Essa dinâmica de projeção e retroação revela ao mesmo tempo a natureza dialética do ser, estável no soma e instável na psique. Dessa dialética resulta a síntese total da consciência estética, em que o real objetivo e o irreal subjetivo se fundem na percepção estética do amor. Por isso, no Espiritismo o amor não é instinto (necessidade orgânica) nem desejo ou simples fazer sexual (sensoríalidade) mas a aspiração suprema de beleza e espiritualidade nas perspectivas da transcendência. A superação de objetivo e subjetivo se resolve na globalidade do Amor. Por isso o Apóstolo João, no seu Evangelho, define o Ser Supremo na conhecida frase: Deus é Amor. As definições da Filosofia como Amor da Sabedoria (Pitágoras) e Sabedoria do Amor (Platão) revelam a intuição, já na Antiguidade, dessa total globalidade do Amor que o Espiritismo viria explicar mais tarde. O desenvolvimento dessa globalidade se processa na família, em que a afetividade desabrocha para a posterior floração do Amor no processo existencial. As famílias "a" e "b" da teoria kardeciana, que explicitamos em nosso esquema, preparam o ser, projetado na existência, para a odisséia das almas viajoras de Plotino, que vão subir e descer pela escada de Jacó nas reencarnações sucessivas, em busca do arquétipo da família "c", em que as famílias desse padrão superior se integrarão progressivamente no plano divino das humanidades espirituais que constituirão no Infinito a Humanidade Cósmica. Essa a razão por que René Hubert, filósofo e pedagogo francês contemporâneo, sustenta que os fins da Educação consistem no estabelecimento, na Terra, da República dos Espíritos, através da Solidariedade de consciências.

A Educação Familial é o germe afetivo e puro de que decorre todo o processo educacional do homem. Com o amparo da família, na solidariedade doméstica do lar, por mais obscuro e humilde, é que se realiza a fotossíntese inicial da atmosfera de solidariedade e amor das gerações que modelam o futuro. Cabe aos espíritas implantar na Terra uma nova Educação, com base nos dados da pesquisa espírita e segundo o esquema da Pedagogia Espírita. Essa Pedagogia, iniciada por Hubert (que não é espírita) fundamenta-se nos princípios doutrinários do Espiritismo e destina-se a preparar as novas gerações para a Era Cósmica que se aproxima. Os professores espíritas de todos os graus do ensino têm um dever supremo a cumprir, nesta fase de transição do nosso planeta: procurar compreender os princípios educacionais do Espiritismo e trabalhar pelo desenvolvimento da Educação Espírita. Estamos entrando na Era Cósmica, numa sequência natural do desenvolvimento da Era Tecnológica. Tudo se encadeia no Universo, como assinala O Livro dos Espíritos. Com o avanço científico e técnico dos últimos séculos, e particularmente do nosso, a Terra amadureceu para a conquista do espaço sideral. O impacto de nossos primeiros contatos com outros mundos já produziu profundas modificações, de que ainda não demos conta, em mundividência. As pesquisas espaciais continuam, ampliando a nossa visão da realidade cósmica. Uma nova civilização está surgindo aos nossos olhos, sob os nossos pés e sobre as nossas cabeças. Mas para que isso aconteça, sem perdermos de todo o equilíbrio cultural, já bastante abalado, temos de cuidar seria­mente da renovação de nossos instrumentos culturais básicos, a saber:

a) a Economia, que deve tornar-se universal, rompendo os diques e as barreiras de um mundo pulverizado, para lhe dar a unidade necessária e a flexibilidade possível para o atendimento dos povos e de suas camadas diversificadas, afastando do planeta os privilégios e os desperdícios, a penúria e a fome. A civilização humana e perfeita, ensina o Livro dos Espíritos, é aquela em que ninguém morre de fome. A duras penas, a nova mentalidade econômica já está se definindo em todas as nações civilizadas, mas o egoísmo das camadas privilegiadas ainda impede a compreensão das exigências de fraternidade e humanismo dos novos tempos.
b) a Moral, que tem de romper os seus padrões envelhecidos de egoísmo e sociocentrismo, moldados em preconceitos de vaidade, ambição e prepotência, para elevar-se a novos padrões de humanismo, respeito por todos os direitos humanos, até hoje sempre espezinhados na Terra dos Homens, essa expressão de Saint-Exupéry que é um novo chamado à nossa consciência em termos evangélicos. Altruísmo — interesse pelos outros — humildade, fraternidade, tolerância e compreensão, amor, são essas as novas palavras de uma moral realmente cristã. A violência terá de ser expulsa da Terra dos Homens, com seu cortejo de brutalidades. É necessário que o conceito da não-violência se transforme na marca do homem, no signo que o distingue do bruto, do primata inconsciente. A honra e a dignidade humanas são incompetíveis com a estupidez dos broncos, inamissíveis num sistema de civilização. Como adverte Fredric Wertham, a violência é um câncer social, que corrói e destrói toda a estrutura de uma civilização. O homem verdadeiramente homem deve ter vergonha e horror da violência. Ser violento é ser amoral, pois quem não respeita os outros não respeita a si mesmo.
c) a Educação — que tem de renovar os seus conceitos básicos sobre o seu objeto, o educando. Em primeiro lugar a educação familial, que deve basear-se na afetividade, nas relações de amor e compreensão entre pais e filhos. Educação com violência é domesticação. O mundo da criança não é o mesmo do adulto e este tem de descer a esse mundo, voltar à sua própria infância para não esmagar a infância dos filhos. As pesquisas entre os povos selvagens mostraram que a essência da educação é o amor. Sem amor não se educa, deforma-se. Nos povos selvagens a educação não foi deformada pela idéia do pecado, pelo mito da queda do homem, que envolvera o mundo de violências redentoras capazes de aterrorizar um brutamontes, quanto mais uma criança. Kardec ensina que a criança, embora tenha o seu passado em geral lamentável, nasce vestida com a roupagem da inocência para tocar o coração dos pais e despertar-lhes o amor e a ternura, de que ela necessita para o desenvolvimento das suas potencialidades humanas. Se fazemos o contrário, despertamos na criança o seu passado de erros e depois a condenamos por seus instintos. Essa tese kardeciana é hoje dominante nos meios pedagógicos. Como dizia Gandhi, não se pode levar uma criatura ao bem pelos caminhos do mal. Os povos selvagens são mais civilizados que os povos civilizados, no tocante a esse problema, pois intuem com pureza e ingenuidade o verdadeiro sentido da educação. Educar é um ato de amor, diz Kerchensteiner em nossos dias, endossando o pensamento de todos os grandes pedagogos e educadores da Grécia antiga e do mundo moderno, a partir de Rousseau.

Mas a Educação Espírita tem ainda uma função essencial a desenvolver: o desenvolvimento das faculdades paranormais do educando, preparando-o para as atividades cósmicas da nova era. O Espiritismo foi o revelador dessas faculdades humanas que o passado confundiu com manifestações doentias ou sobrenaturais. O Espiritismo foi a primeira Ciência a mostrar experimentalmente esse engano fatal, de que resultou para a Humanidade terríveis tragédias. Cento e trinta anos antes das descobertas parapsicológicas nesse sentido, a Ciência Espírita demonstrou que as funções anímicas e psico-anímicas da criatura humana eram normais, pertenciam à própria natureza do homem. As pesquisas atuais no Cosmos revelaram que o desenvolvimento das faculdades psi é indispensável ao bom êxito das incursões no espaço sideral. A Educação Espírita é a única que pode enfrentar essas exigências dos novos tempos, cuidando do desenvolvi­mento dessas faculdades de maneira racional, sem os prejuízos dos falsos conceitos e dos temores infundados das formas de educação religiosas e leigas do nosso tempo. Cabe assim ao Espiritismo renovar totalmente a cultura atual, reestruturar a Civilização Tecnológica nos rumos da Civilização do Espírito. Esse o fardo leve do Cristo que pesa sobre a consciência de todos os espíritas verdadeiros, nesta hora do mundo, e particularmente sobre a consciência dos educadores espíritas. Nessa civilização o amor não será fonte de decepções, desajustes e tragédias. A Família não se estruturará em preconceitos provindos dos tempos de barbárie, mas na moral evangélica pura, feita de amor e respeito pelas exigências da vida. O amor verdadeiro e espontâneo, puro como água da fonte, livre de interesses secundários, fará da família a fonte de amor que elevará a Terra na Escala dos Mundos. Isto não é sonho nem profecia, é o programa espírita para o Mundo de Amanhã, e que cabe aos espíritas realizar a partir de hoje, sem perda de tempo.

ÍTEM VI — RELAÇÕES FAMILIAIS NO ESPIRITISMO
As relações familiais dos povos primitivos começavam com ampla liberalidade, como já vimos, nas fases infantis. O instinto de imitação das crianças respondia pelo aprendizado espontâneo do comportamento dos adultos. A criança era encarada como um estrangeiro amigo e tratada com respeito e observação. Só na puberdade iria integrar-se no sistema tribal e começar a enfronhar-se dos ritos e tradições tribais. Daí por diante sua liberdade estava condicionada pela cultura da nação, por suas tradições, sua moral e suas crenças. As pesquisas antropológicas revelaram assim que:
a) os filhos não eram considerados como produzidos pelos pais e herdeiros consanguíneos naturais da raça, mas como criaturas adventícias ou familiares que nela se encarnavam, portanto preexistentes ao nascimento. Essa intuição da preexistência do ser e da reencarnação era inata e generalizada nos povos primitivos, com algumas variantes em sua manifestação nos diferentes povos. Isso comprova a afirmação de Kardec de que as marcas do Espiritismo são encontradas em todas as fases da evolução humana. As manifestações de espíritos de mortos, as práticas mágicas e as evocações completam esse quadro.
b) a prátifca da cuvade (do francês: couvadé) que consiste na dieta do pai e não da mãe após o parto revela a origem natural da autoridade do pai na estrutura da família; mostra que a supremacia do pai não provém apenas de sua maior potencialidade física, mas também e principalmente do fato de ser ele o fecundador e portanto o criador;
c) a mãe não precisa de dieta, não fecunda, é fecundada, sua relação com o filho é a de serva, incumbida de recebê-lo à porta da vida, criá-lo, zelar por ele, de maneira que o mito da Terra-Mãe, sob o poder fecundante do Sol-Pai, completa nela a sua função protetora.
É desse mito remoto que, nascido do chão, da carne e do sangue, no relacionamento inconsciente da Natureza com o Homem, que vem a estrutura dinâmica da Família, ao mesmo tempo coercitiva e protetora. As leis da tribo ou da horda se centralizam nela e se ajustam como a casca ao tronco da árvore. Mais tarde essa imagem se define culturalmente na figura da árvore genealógica. Na cuvade o pai faz a dieta porque, como criador, o filho está ligado a ele organicamente, de maneira tão íntima, que os seus movimentos no andar, no correr, no saltar, em todas as atividades físicas, estraçalhará o recém-nascido. A superstição ingênua, que muitos atribuíram à preguiça do índio, tem motivos profundos na alma primitiva, em que as ligações da magia simpática representam a estrutura mágica do Universo. É o princípio espírita da unidade do Universo, onde as coisas e os seres procedem uns dos outros, numa continuidade absoluta. A prática da cuvade precedeu de muitos milênios, na mentalidade do homem primitivo, à estruturação matemática do Universo por Pitágoras e à concepção unitária e panteísta de Espinosa.

Das percepções instintivas dos primatas às intuições supersticiosas dos povos selvagens passamos às elaborações mentais das civilizações agrárias e pastoris e destas às formulações de normas, leis e códigos das civilizações teocráticas. Na Idade Média as linhagens de tipo davídico formam os conjuntos de famílias rigidamente estruturadas, que no Renascimento e no Mundo Moderno se prolongam e dispersam em ramificações sofisticadas. O padrão familial se consolida, mas a evolução cultural e o desenvolvimento industrial, juntamente com o aumento populacional, ameaçam esse mosaico de leis divinas e humanas que não pode resistir às violentas modificações das estruturas sociais. A integridade da família se afrouxa, a sua rigidez de princípios amolece ante as novas exigências do mundo novo. Preconceitos milenares são esfarelados e teorias revolucionárias provocam terremotos demolidores. Na Era Tecnológica em que nos encontramos a subversão das estruturas antigas chega ao extremo. Profetas alucinados pregam a destruição pura e simples da família e a volta do homem a uma liberdade primitiva que nunca existiu. Os freios de aço da moral burguesa não podem mais conter o ímpeto da carne, dessa frágil carne humana mais forte que a pedra e o aço. Rompem-se os tabus sexuais e a liberdade, essa deusa de barrete frígio dos ideólogos franceses, reverte-se em libertinagem. Não há mais freios, nem divinos nem humanos, que possam conter a fúria dos impulsos desencadeados. Os faunos recalcados do puritanismo vitoriano esfregam as mãos e arregalam os olhos concupiscentes ante o alvorecer da irresponsabilidade. É nesse momento que o conceito espírita de família se impõe como única solução para os problemas atuais. As três formas familiais que estudamos no capítulo anterior mostram a insanidade de encarar-se a família como simples organização material destinada a acomodar os homens nas estruturas sociais passageiras. Há na família, como no homem, uma finalidade superior a atingir. O elemento que determina a organização familial não é o simples interesse material. A linhagem não é determinada pela tradição ou pêlos títulos nobiliárquicos, mas pelo desenvolvimento moral e espiritual das linhas sucessórias.

O sangue, por si só, não cria distinções na espécie humana. O único valor verdadeiro do homem, e por isso imperecível, pertence à sua natureza intrínseca, à sua subjetividade existencial. A força aglutinadora, que mantém a estabilidade da família e a projeta no futuro, é a afetividade, o que vale dizer: o Amor. A tónica emocional e magnética que atrai para a família criaturas desviadas ou afastadas é a afinidade de grau evolutivo, de posição conceptual, de aprimoramento ético e estético. Nada disso é objetivo ou material. A família se apresenta, portanto, na concepção espírita, como um centro dinâmico de forças espirituais produzido pela evolução terrena e destinado a formar, nas conjugações familiais, a nova Humanidade Terrena. O problema das relações familiais, na concepção espírita, escapa ao rígido esquema autoritário elaborado nas civilizações agrárias e pastoris, com base nos mitos telúricos. Essa rigidez foi quebrada no mundo moderno, mas ainda subsiste em vastas camadas e em populações inteiras. A estúpida e ridícula tragédia burguesa do marido traído que mata a esposa infiel ou o amante para defender a sua honra pessoal, tornando-se um honrado e truculento assassino, vigora ainda com força quase total nas nações civilizadas. Isso porque o homem, o criador — segundo a concepção da cuvade, tem direitos absolutos sobre a mulher que fecundou; matá-la, como faziam os romanos com os instrumentos vocais, ou seja, os escravos humanos. A mentalidade prepotente dos escravocratas domina até agora a maioria dos homens, que se julgam viris por assassinarem mulheres indefesas e mais fracas que eles, substituindo os chifres simbólicos pela prova concreta e real de sua covardia. A diferença injusta e criminosa dos direitos entre homem e mulher, que levou Jesus a livrar a mulher adúltera da lapidação brutal em praça pública, responde por esses costumes bárbaros através dos milênios. No Espiritismo a atitude de Jesus é referendada pelo princípio que estabelece a igualdade de direitos entre o homem e a mulher, com diversificação de funções. Porque a diversificação corresponde às exigências de complementação recíproca das atividades masculinas e femininas na família e na sociedade. Não há razão para que a mulher sofra perda de direitos humanos na posição de companheira do homem, da qual é mãe, esposa e filha.

Em face desse princípio a liberdade humana é a mesma para o homem e a mulher no processo existencial, no qual existem como metades biológicas, necessária e reciprocamente complementares, tanto no plano vital e psíquico, quanto em todas as atividades. Reconhecida a igualdade de direitos, não apenas no plano legal, mas principalmente no plano conceptual, a sanção da consciência afasta da família o autoritarismo gerador de conflitos e estabelece o clima de respeito e amor que gera o entendimento. Jesus não vacilou em reconhecer de público os direitos romanos, determinados pela aliança dos grandes de Israel com os conquistadores. Não lhe interessava a política mundana, mas quando os donos da casa abrem as portas ao inimigo e banqueteiam-se com ele, há direitos de lado a lado. Para Jesus os direitos não eram uma questão de poder, mas de justiça. No caso familial cada membro tem o seu direito e este deve ser reconhecido pelos demais. Por isso aprovou o divórcio de Moisés nos casos de traições conjugais, mas advertiu que isso acontecia pela dureza dos corações. E lembrou que no princípio não era assim, porque então prevalecia o amor. A família não se constitui ao acaso. Toda reunião de criaturas numa instituição social decorre de compromissos de reajuste e reequilíbrio de situações anteriores. Por isso, as chamadas famílias consanguíneas se desfazem facilmente com a morte, mas para renascerem mais tarde em novas situações reparadoras. Na proporção em que o homem toma consciência desse aspecto do problema, as dificuldades familiais se tornam mais suportáveis. No seu crisol as almas se depuram e se preparam para reencontros mais felizes no futuro. Mas erram os que pretendem manter à força a unidade familial, sob a pressão de ameaças divinas ou leis humanas iníquas. Os reajustes só se efetivam em condições propícias e por livre decisão dos implicados. Sem o respeito pela liberdade de opção os sacrifícios forçados geram novos desequilíbrios.

O segredo do êxito no desenvolvimento familial depende da capacidade de amar e compreender dos seus membros. Cada membro da família tem de compreender as condições temperamentais dos outros e sentir que pode amá-los apesar de seus erros e imperfeições. Nesse caso a família perdura e atinge os seus objetivos. Os problemas sexuais geram situações aparentemente insolúveis no quadro familial. Mas se colocarmos o amor ao próximo acima das condenações impiedosas, compreendendo que cada qual sente as exigências do sexo de acordo com a sua condição própria, passando pelas provas de que necessita, poderemos transformar situações desastrosas em oportunidades de orientação. O Espiritismo nos oferece um conceito do bem e do mal que, apesar de muito simples e claro, ainda não foi bem compreendido até agora pela maioria dos espíritas. Deus é o Bem e está presente em tudo. O Mal é tudo o que se opõe a Deus. Dessa maneira, a dialética do Bem e do Mal se define como Evolução. Toda a realidade que conhecemos e podemos conhecer nos revela a incessante passagem das coisas e dos seres de uma condição caótica, imprecisa, confusa, estática, morta, para condições de ordem, organização, definição, dinamismo e vida. A morte e a destruição, como a dor, o desespero, a loucura, nada mais são do que fases de transição de um estágio para outro. São os túneis da evolução. A morte enquanto morte é mal, mas quando se reacende em vida na ressurreição é Bem, e sempre um bem maior do que o anterior. Nada morre, nada se destrói, tudo evolui. Sem o erro não há acerto. Sem a derrota não há vitória, que nos devolve alegremente à rota. Progredimos no Mal em direção ao Bem. Erros, quedas, crimes, sofrimentos são passos no caminho do Bem que nos levam a Deus. Nada e ninguém pode permanecer no Mal, porque os males do Mal impulsionam tudo e todos na direção do Bem. O não-Ser é o projeto do Ser, como a flor é o projeto do fruto. Se compreendermos bem esse princípio avançaremos mais depressa, estimulados pela fé em Deus, que é a certeza do Bem que nos espera, que é a herança de todos, na qual todos se encontrarão. Essa não é uma visão mística ou otimista de uma realidade trágica, mas a visão realista do real que todos podem comprovar na simples observação de si mesmos e do mundo exterior. As Ciências, na sua objetividade neutra, comprovam cada vez mais essa realidade. O teólogo Kierkegaard chegou a conclusão de que o pecado é o caminho da redenção, fundando sem querer a Filosofia Existencial, no mesmo tempo em que Kardec fundava sem o desejar a Ciência do Espírito. A compreensão profunda deste problema nos leva a amar com mais razão os familiares transviados, procurando auxiliá-los na dura caminhada dos seus males ao invés de condená-los e expulsá-los como perdidos.

Mas nem por isso devemos aprovar o Mal, caindo no extremo contrário dos que o condenaram com violência e aterrorizaram as almas frágeis com ameaças desesperantes. Certos adeptos de mente estreita chegaram a negar a existência do Mal — neste mundo de provas e expiações em que ele ainda predomina — oferecendo óculos angélicos a criaturas ingênuas. Negar o Mal num plano inferior é convencer os maus de que eles são bons e entregar-lhes nas garras os bons desprevenidos. Todos somos bons em potencial, trazemos em nós a potencialidade do Bem, mas enquanto não transformarmos a nossa bondade em ato continuamos a ser maus. Disfarçar essa realidade inegável e patente é estimular os maus a continuarem no Mal e colherem mais facilmente os ingênuos (nem bons nem maus) nas malhas de sua hipocrisia. O realismo espírita exige dos adeptos a vigilância crítica que Jesus recomendou aos discípulos, quando os enviou aos lobos, e à oração que os resguardaria das ciladas dos sofistas. Jesus rompeu a tradição profética de Israel, delirante e apocalíptica, instalando em seu lugar a didática racional e realista que Kardec desenvolveria de maneira intensiva no Século XIX, combatendo por sua vez os delírios paranóicos de uma teologia Cristã decalcada no Fabulário mitológico e nos resíduos da metafísica rabínica. O Espiritismo é realista, apoia-se no real comprovado por experiências científicas, Jesus e Kardec provaram o que ensinaram. Expressões e frases evangélicas que destoam dessa orientação metódica foram atribuídas a Jesus pelos redatores dos textos, homens impregnados pela cultura judaica e mitológica em que foram criados e formados. Kardec realizou a depuração desses textos, sob orientação constantes dos Espíritos superiores, que demonstraram essa superioridade através da coerência de suas manifestações rigorosamente racionais e comprovadas experimentalmente. Por isso Richet afirmou — ele que temia, como cientista eminente, os enganos da mística, que Kardec jamais expusera um princípio sem o haver comprovado. As partes mitológicas dos Evangelhos, hoje bem identificadas pelos pesquisadores universitários, comprovando a depuração kardeciana, e todo o Apocalipse, atribuído a João — livro judaico, pertencente a conhecida fase apocalíptica da Israel antiga e não a era apostólica — provam de maneira irrefutável as influências místicas e mitológicas na redação dos textos evangélicos. O Apóstolo Paulo foi o primeiro a perceber e declarar que a Bíblia Judaica estava perempta e substituída pelo Evangelho. Claro que o valor histórico da Bíblia e o valor literário de seus livros poéticos e proféticos perduram no plano cultural, mas o Velho Testamento é uma obra do passado longínquo e só o Novo Testamento contém a orientação moral e espiritual que os espíritas devem seguir. As relações familiais no Espiritismo só podem seguir a orientação evangélica, pois só ela atende às exigências racionais do presente e do futuro da Humanidade atual, na preparação dos novos tempos. As famílias espíritas assim estruturadas não se abalam com as mudanças naturalmente ocorridas em nossa civilização nesta fase de transição.

12 - ESTUDE E VIVA - EMMANUEL E ANDRÉ LUIZ -

ANTE A FAMÍLIA MAIOR - PÁG. 66 - Se podes transportar as dificuldades que te afligem num corpo robusto e razoavelmente nutrido, reflete naqueles nossos irmãos da família maior que a penúria vergasta. Diante deles, não permitas que considerações de natureza inferior te cerrem as portas do sentimento. Se algo possuis para dar, não atrases a obra do bem e nem te baseies nas aparências para sonegar-lhes cooperação. Aceitemo-los como sendo tutores paternais ou filhos inesquecíveis largados no mar alto da experiência terrestre e que a maré da provação nos devolve, qual se fossemos para eles o cais da esperança. Muitos chegam agressivos; entretanto, não julgues sejam eles especuladores da violência. Impacientaram-se na expectativa de um socorro que se lhes afigurava impossível e deixaram que a desesperação os enceguecesse.


Outros se apresentam marcados por hábitos lastimáveis; todavia, não admitas estejam na posição de escravos irresgatáveis do vício. Atravessaram longas trilhas de sombra, e, desenganados quanto à chegada de alguém que lhes fizesse luz no caminho, tombaram desprevenidos nos precipícios da margem. Surpreendemos os que aparecem exteriormente bem-postos e aqueles que dão a idéia de criaturas destituídas de qualquer noção de higiene, mas não creias, por isso, vivam acomodados à impostura e ao relaxamento. Um a um, carregam desdita e enfermidade, tristeza e desilusão. Não duvidamos de que existam, em alguns raros deles, orgulho e sovinice; no entanto, isso nunca sucede no tamanho e na extensão da avareza e da vaidade que se ocultam em nós, os companheiros indicados a estender-lhes as mãos.


Se rogam auxílio, não poderiam ostentar maior credencial de necessidade que a dor de pedir. Sobretudo, convém acrescentar que nenhum deles espera possamos resolver-lhes todos os problemas cruciais do destino. Solicitam somente essa ou aquela migalha de amor, à feição do peregrino sedento que suplica um copo dágua para ganhar energia e seguir adiante. Esse pede uma frase de bênção, aquele um sorriso de apoio, outro mendiga um gesto de brandura ou um pedaço de pão. Abençoa-os e faze, em favor deles, quanto possas, sem te esqueceres de que o Eterno Amigo nos segue os passos, em divino silêncio, após haver dito a cada um de nós, na acústica dos séculos:— "Em verdade, tudo aquilo que fizerdes ao menor dos pequeninos é a mim que o fizestes".

Na seara doméstica - pág. 92 - Todos somos irmãos, constituindo uma família só, perante o Senhor; mas, até alcançarmos a fraternidade suprema, estagiaremos, através de grupos diversos, de aprendizado em aprendizado, de reencarnação a reencarnação. Temos, assim, no cotidiano, a companhia daquelas criaturas que mais entranhadamente se nos associam ao trabalho, chamem-se esposo ou esposa, pais ou filhos, parentes ou companheiros. E, por muito se nos impessoalizem os sentimentos, somos defrontados em família pelas ocasiões de prova ou de crises, em que nos inquietamos, gastando tempo e energia para vê-los na trilha que consideramos como sendo a mais certa. Se já conquistamos, porém, mais amplas experiências, é forçoso, a fim de ajudá-los, cultivar a bondade e a paciência com que, noutro tempo, fomos auxiliados por outros. Suportamos dificuldades e desacertos para atingir determinados conhecimentos, atravessamos tentações aflitivas e, em alguns casos, sofremos queda imprevista, da qual nos levantamos somente à custa do amparo daqueles que fizeram da virtude não uma alavanca de fogo, mas sim um braço amigo, capaz de compreender e de sustentar.

Lembremo-nos, sobretudo, de que os nossos entes amados são consciências livres, quais nós mesmos. Se errados, não será lançando condenação que poderemos reajustá-los; se fracos, não é aguardando deles espetáculos de força que lhes conferiremos valor; se ignorantes, não é lícito pedir-lhes entendimento, sem administrar-lhes educação; e, se doentes, não é justo esperar testemunhem comportamento igual ao da criatura sadia, sem, antes, suprimir-lhes a enfermidade. Em qualquer circunstância, é necessário observar e observar sempre que fomos transitoriamente colocados em regime de intimidade, a fim de aprendermos uns com os outros e amparar-nos reciprocamente. À vista disso, quando o mal se nos intrometa na seara doméstica, evitemos desespero, irritação, desânimo e ressentimento, que não oferecem proveito algum, e sim recorramos à prece, rogando à Providência Divina nos conduza e inspire por seus emissários; isso para que venhamos a agir, não conforme os nossos caprichos, e sim de conformidade com o amor que a vida nos preceitua, a fim de fazermos o bem que nos compete fazer.


O Espiritismo e os cônjuges: Sem entendimento e respeito, conciliação e afinidade espiritual, torna-se difícil o êxito no casamento . Todos os pretendentes à união conjugal carecem de estudar as circunstâncias do ajuste esponsalício antes do consórcio, para isso existindo o período natural do noivado. Aspecto deveras importante para ser analisado será sempre o da crença religiosa. Efetivamente, se a religião idêntica no casal contribui bastante para a estabilidade do matrimônio, a diversidade dos pontos de vista não é um fator proibitivo da paz em família. Mas se aparecem rixas no lar, oriundas do choque de opiniões religiosas diferentes, a responsabilidade é claramente debitada aos esposos que se escolheram um ao outro.


A tendência comum de um cônjuge é a de levar o outro a pensar e a agir como ele próprio, o que nem sempre é viável e nem pode ocorrer. Eis por que não lhes cabe violentar situações e sentimentos, manejando imposições recíprocas, mormente no sentido de se arrastarem a determinada crença religiosa. Deve partir do cônjuge de fé sincera a iniciativa de patentear a qualidade das suas convicções, em casa, pelo convite silencioso a elas, através do exemplo. Não será por meio de discussões, censuras ou pilhérias em torno de assuntos religiosos que se evidenciará algum dia a excelência de uma doutrina. Ao invés de murmurações estéreis, urge dar provas de espiritualidade superior, repetidas no dia-a-dia. Em lugar de conceitos extremados nas prédicas fatigantes, vale mais a exposição da crença pela melhoria da conduta, positivando-se quão pior seria qualquer criatura sem o apoio da religião.


Para os espíritas jamais será construtivo constranger alguém a ler certas obras, frequentar determinadas reuniões ou aceitar critérios especiais em matéria doutrinária. Quem deseje modificar a crença do companheiro ou da companheira, comece a modificar a si mesmo, na vivência da abnegação pura, do serviço, da compreensão, do bom-senso prático, salientando aos olhos do outro ou da outra a capacidade de renovação dos princípios que abraça. O cônjuge é a pessoa mais indicada para revelar as virtudes de uma crença ao outro cônjuge. Um simples ato de bondade, no recinto do lar, tem mais força persuasiva que uma dezena de pregações num templo onde a criatura comparece contrariada. Uma única prova de sacrifício entre duas pessoas que se defrontam, no convívio diário, surge mais eficaz como agente de ensino que uma vintena de livros impostos para leituras forçadas. Em resumo, depende do cônjuge fazer a sua religião atrativa e estimulante para o outro, ao contrário de mostrá-la fastidiosa ou incômoda. Nos testemunhos de cada instante, no culto vivo do Evangelho em casa e na lealdade à própria fé, persista cada qual nas boas obras, porque, ante demonstrações vivas de amor, cessam qualque azedumes da discórdia e todas as resistências da incompreensão.


13 - ESTUDOS ESPÍRITAS - JOANNA DE ÂNGELIS - ÍTEM 24 - PÁG. 175

Conceito — Grupamento de raça, de caracteres e gêneros semelhantes, resultado de agregações afins, a família, genericamente, representa o clã social ou de sintonia por identidade que reúne espécimes dentro da mesma classificação. Juridicamente, porém, a família se deriva da união de dois seres que se elegem para uma vida em comum, através de um contrato, dando origem à genitura da mesma espécie. Pequena república fundamental para o equilíbrio da grande república humana representada pela nação. A família tem suas próprias leis, que consubstanciam as regras de bom comportamento dentro do impositivo do respeito ético, recíproco entre os seus membros, favorável à perfeita harmonia que deve vigir sob o mesmo teto em que se agasalham os que se consorciam. Animal social, naturalmente monogâmico, o homem, na sua generalidade, somente se realiza quando comparte necessidades e aspirações na conjuntura elevada do lar.

O lar, no entanto, não pode ser configurado como a edificação material, capaz de oferecer segurança e paz aos que aí se resguardam. A casa são a argamassa, os tijolos, a cobertura, os alicerces e os móveis, enquanto o lar são a renúncia e a dedicação, o silêncio e o zelo que se permitem àqueles que se vinculam pela eleição afetiva ou através do impositivo consanguíneo, decorrente da união. A família, em razão disso, é o grupo de espíritos normalmente necessitados, desajustados, em compromisso inadiável para a reparação, graças à contingência reencarnatória. Assim, famílias espirituais frequentemente se reúnem na Terra em domicílios físicos diferentes, para as realizações nobilitantes com que sempre se viram a braços os construtores do Mundo. Retornam no mesmo grupo consanguíneo os espíritos afins, a cuja oportunidade às vezes preferem renunciar, de modo a concederem aos desafetos e rebeldes do passado o ensejo da necessária evolução, da qual fruirão após as renúncias às demoradas uniões no Mundo Espiritual... Modernamente, ante a precipitação dos conceitos que generalizam na vulgaridade os valores éticos, tem-se a impressão de que paira rude ameaça sobre a estabilidade da família. Mais do que nunca, porém, o conjunto doméstico se deve impor para a sobrevivência a benefício da soberania da própria Humanidade.

A família é mais do que o resultante genético... São os ideais, os sonhos, os anelos, as lutas e árduas tarefas, os sofrimentos e as aspirações, as tradições morais elevadas que se cimentam nos liames da concessão divina, no mesmo grupo doméstico onde medram as nobres expressões da elevação espiritual na Terra. Quando a família periclita, por esta ou aquela razão, sem dúvida a sociedade está a um passo do malogro... Histórico — Graças ao instinto gregário, o homem, por exigência da preservação da vida, viu-se conduzido à necessidade da cooperação recíproca, a fim de sobreviver em face das ásperas circunstâncias nos lugares onde foi colocado para evoluir. A união nas necessidades inspirou as soluções para os múltiplos problemas decorrentes do aparente desaparelhamento que o fazia sofrer ao lutar contra os múltiplos fatores negativos que havia por bem superar. Formando os primitivos agrupamentos em semibarbárie, nasceram os pródromos das eleições afetivas, da defesa dos dependentes e submissos, surgindo os lampejos da aglutinação familial.

Dos tempos primitivos aos da Civilização da Antiguidade Oriental, os valores culturais impuseram lentamente as regras de comportamento em relação aos pais — representativos dos legisladores, personificados nos Anciãos; destes para os filhos — pela fragilidade e dependência que sempre inspiram; entre irmãos — pela convivência pacífica indispensável à fortaleza da espécie; ou reciprocamente entre os mais próximos, embora não subalternos ao mesmo teto, num desdobramento do próprio clã, ensaiando os passos na direção da família dilatada... A Grécia, aturdida pela hegemonia militar espartana, não considerou devidamente a união familial, o que motivou a sua destruição, ressalvada Atenas, que, não obstante amando a arte e a beleza, reservava ao Estado os deveres pertencentes à família, facultando-a sobreviver por tempo maior, mas não lobrigando atingir o programa estético e superior a que se propuseram os seus excelentes filósofos.

A Roma coube essa indeclinável tarefa, a princípio reservada ao patriciado, e depois, através de leis coordenadas pelo Senado, que alcançaram as classes agrícolas, militares, artísticas e a plebe, facultando direitos e deveres que, embora as hediondas e infelizes guerras, se foram fixando no substrato social e estabelecendo os convênios que o amor sancionou e fixou como técnica segura de dignificação do próprio homem, no conjunto da família. A Idade Média, caracterizada pela supremacia da ignorância, desfigurou a família com o impositivo de serem doados os filhos à Igreja e ao suserano dominador, entibiando por séculos a marcha do espírito humano. Aos enciclopedistas foi reservada a grandiosa missão de, em estabelecendo os códigos dos direitos humanos, reestruturarem a família em bases de respeito para a felicidade das criaturas. Todavia, a dialética materialista e os modernos conceitos sensualistas, proscrevendo o matrimônio e prescrevendo o amor livre, voltam a investir contra a organização familial por meio de métodos aberrantes, transitórios, é certo, mas que não conseguirão, em absoluto, qualquer triunfo significativo.

São da natureza humana a fidelidade, a cooperação e a fraternidade como pálidas manifestações do amor em desdobramento eficaz. Tais valores se agasalham, sem dúvida, no lar, no seio da família, onde se arregimentam forças morais e se caldeiam sentimentos na forja da convivência doméstica. Apesar de a poliandria haver gerado o matriarcado e a promiscuidade sexual feminina, a poligamia, elegendo o patriarcado, não foi de menos infelizes consequências. Segundo o eminente jurista suíço Bachofen, que procedeu a pesquisas históricas inigualáveis sobre o problema da poliandria, a mulher sentiu-se repugnada e vencida pela vulgaridade e abuso sexual, de cuja atitude surgiria o regime monogâmico, que ora é aceito por quase todos os povos da Terra.
Conclusão — A família, todavia, para lograr a finalidade a que se destina, deve começar desde os primeiros arroubos da busca afetiva, em que as realizações morais devem sublevar às sensações sexuais de breve durabilidade. Quando os jovens se resolvem consorciar, impelidos pelas imposições carnais, a futura família já padece ameaça grave, porquanto, em nenhuma estrutura se fundamenta para resistir aos naturais embates que a união a dois acarreta, no plano do ajustamento emocional e social, complicando-se, naturalmente, quando do surgimento da prole.

Fala-se sobre a necessidade dos exames pré-nupciais, sem dúvida necessários, mas com lamentável descaso pela preparação psicológica dos futuros nubentes em relação aos encargos e às responsabilidades esponsalícias e familiares. A Doutrina Espírita, atualizando a lição evangélica, descortina na família esclarecida espiritualmente a Humanidade ditosa do futuro promissor. Sustentá-la nos ensinamentos do Cristo e nas lições da reta conduta, apesar da loucura generalizada que irrompe em toda parte, é o mínimo dever de que ninguém se pode eximir.
ESTUDO E MEDITAÇÃO: "Será contrário à lei da Natureza o casamento, isto é, a união permanente de dois seres?" -"É um progresso na marcha da Humanidade." (O Livro dos Espíritos, Allan Kardec, questão 695.) "(...) Não são os da consanguinidade os verdadeiros laços de família e sim os da simpatia e da comunhão de idéias, os quais prendem os Espíritos antes, durante e depois de suas encarnações. Segue-se que dois seres nascidos de pais diferentes podem ser mais irmãos pelo Espírito, do que se o fossem pelo sangue (...) O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. 14, ítem 8).