FUNERAIS
BIBLIOGRAFIA
01- Animais nossos irmãos - pág. 147 02 - Cartilha da natureza -
03 - Da alma humana - pág. 64 04 - Do país da luz - vol. iv pág. 190
05 - Entre a matéria e o espírito - pág. 118 06 - Estante da vida - pág. 22
07 - Falando à Terra - pág. 65 08 - O Livro dos Espíritos - q. 320, 824
09 - O martírio dos suicidas - pág. 175, 194 10 - O trabalho dos mortos - pág. 269
11 - Obreiros da vida eterna - pág. 226, 232 12 - Os funerais da santa sé - pág. 60,113
13 - Pérolas do além - pág. 108 14 - Revista Espírita, 1865, pág. 134
15 - Somos seis - pág. 126, 170

16 - Tramas do destino - pág. 247

17 - Voltei - pág. 45 18 - Vozes do grande além - pág. 33
FINADOS
BIBLIOGRAFIA
01- A luz da oração - pág. 46 02 - Depois da morte - pág. 63, 105
03 - Encontro marcado - pág. 83 04 - Hipnotismo e espiritismo - pág. 262
05 - Joana D'Arc - pág. 214 06 - Lampadário Espírita - pág. 58
07 - Na era do Espírito - pág. 123 08 - Nas pegadas do Mestre - pág. 218
09 - O Livro dos Espíritos - q. 320 10 - Pérolas do além - pág. 103
11 - Pontos e contos - pág. 255 (48) 12 - Religião dos Espíritos - pág. 217
13 - Revista espírita 1868 - pág. 360 14 - Somos seis - pág. 126, 170
15 - Vozes do grande além - pág. 91 16 - Florações Evangélicas- pág. 241
17 - Canais da vida - pág. 43, 59  

LEMBRETE: O NÚMERO DA PÁGINA PODE VARIAR DE ACORDO COM A EDIÇÃO DA OBRA CITADA.

FUNERAIS – COMPILAÇÃO

04 - Do país da luz - Espíritos Diversos - vol. iv pág. 190

XXXVI - SILVA Pinto. - DAQUI DA ETERNIDADE
Mal imagina você que coisas há vontade de dizer depois da morte: vontade e necessidade. Aqui, dizem-me que não merece a pena. Entendo que merece. Acho até que fazemos uma obra caritativa com o darmos para aí a nossa opinião sincera sobre tantas coisas que a hipocrisia faz, revestindo-as de sinceridade. Por exemplo: — não me sofre o ânimo ver em silêncio criaturas dessas que aí me abocanhavam e que lançavam jactos de veneno sobre a minha vida, destilarem agora nênias sobre a minha morte e enaltecerem, com palavras sonoras, aquilo que ainda ontem deprimiam. Arre! Estupores!
A quem suporão eles enganar?

Bem se vê que não acreditam em Deus, nem presumem que eu os possa observar daqui. Se presumissem, haviam de ter pejo do meu asco por eles. Deixaram-me arrastar uma longa agonia sem um gesto de auxílio. Sabiam-me a braços com uma doença impiedosa e com miséria acabrunhadora, e não tiveram um movimento de solidariedade, de piedade sequer, para este velho lutador, este desgraçado enfermo, que consumira a vida inteira em lutar a favor dos fracos -e contra os preconceitos. Então, insultavam-me, deprimiam-me. Era devasso, era azedo, era orgulhoso, como diziam em ato de desculpa para a sua crueza; e só agora se mostram compungidos; só agora me encontram merecimento e grandezas. Para quem estarão a representar os sevandijas?

Lá iam alguns no meu enterro. Era coisa de ver a compunção e a compostura solene, em que iam a dar-se ares! Não iam, porém, penitenciar-se do mal que me fizeram, nem da covardia de me deixarem morrer à míngua e isolado como um cão com rabuje. Não. Iam mas era ver se eu ficava bem enterrado, não fosse o diabo que eu pudesse voltar ainda. Eu que os conheço!...Iam como aquele genro que, tendo-se dado toda a vida mal com a sogra, lhe acompanhava o enterro, chorando desabaladamente, e que, em resposta a alguém que lhe perguntou porque inesperadamente chorava tanto, disse que era de pena... por ela não ter morrido há mais tempo.

Alguns, ao lerem isto, devem sentir vagados na alma amalandrada: não de vergonha, que é coisa que não conhecem, mas de raiva por verem que ainda os posso apreciar. Agora não me enganam. Vejo-os bem. Que ridícula e nojosa comédia desfrutamos com a nossa morte, se temos logo a lucidez necessária para vermos o desenrolar de hipocrisia que a velhacaria humana põe em jogo em volta do nosso cadáver! Como há lágrimas mentidas, pragas em tom de orações, insultos murmurados com maneiras dolentes e merencórias! Há fundas alegrias dissimuladas em tristezas. E nós a vermos tudo, sem lhes podermos dar dois pontapés!

Vejo aí almas cândidas horrorizadas com o que digo. Essas almas, de uma piedade talvez sincera, mas tola, imaginam que a morte tem a propriedade santa e milagrosa de nos transformar subitamente ao entrarmos no seu alçapão de mágica. Não nos pode transformar de campônios em príncipes, como as boas fadas dos contos, mas deve fazer de criaturas torturadas e justificadamente azedas, anjos de celestial doçura. Ingênuas ou tolas, essas almas. Não conhecem as longas agonias, repletas de inquietações; não fazem idéia de quanta bílis faz saturar o nosso ser o travor das lutas cruentas na conquista do pão; o amargor das lágrimas feitas chorar pela inveja e pela calúnia!

Não sabem a que grau de desespero conduzem as feridas pungentíssimas com que, a cada passo, nos retalham o coração; não sentiram jamais a reputação anavalhada por colmilhos de bocas que simulam sorrir. Não sabem o que é morrer de fome com a consciência de que sempre se foi honesto, de que sempre se trabalhou exaustivamente durante uma longa vida, legando, como patrimônio aos seus, dívidas, misérias e um nome conspurcado por desonestos felizes.

Não sabem o que é sofrer por ver sofrer os que amamos; não sabem que horror representa o sentirmo-nos intimamente honrados e vermos que nos arremessam lama, que nos insultam injustamente, que nos degradam e que, ainda por cima, depois da nossa morte, esses que concorreram para o nosso martírio e para o nosso vilipêndio nos atiram a suprema injúria de simularem piedade, admiração ou saudade por nós.

Entendo que é preciso que se diga isto para aí com esta crueza sangrenta. Talvez consiga evitar-se que algum mau homem possa ainda fazer exasperar mais as suas vítimas, fingindo sentimentos que não possui, e simulando homenagens que não têm verdade.
Perdoar sem ressentimentos aos seus verdugos, só Cristo. E se perdoou foi por ver que os fanáticos idiotas não sabiam o que faziam. Vá que ele perdoe hoje aos que convictamente fazem o mal, como mo faziam esses que eu ainda deslombo! E a prova de que não é coisa fácil perdoar, é que essas almas cândidas a quem a minha crueza escandaliza me não perdoam, como escândalo, o que eu considero meritória obra de misericórdia. (...)

08 - O Livro dos Espíritos - Allan Kardec - questões. 320, 824

IX - COMEMORAÇÃO DOS MORTOS - FUNERAIS
Perg. 320 - Os Espíritos são sensíveis à saudade dos que os amavam na Terra?
- Muito mais do que podeis julgar. Essa lembrança aumenta-lhes a felicidade, se são felizes, e se são infelizes, serve-lhes de alívio.
Perg. 321 - O dia de comemoração dos mortos tem alguma coisa de mais solene para os Espíritos? Preparam-se eles para visitar os que vão orar sobre os túmulos?
- Os Espíritos atendem ao chamado do pensamento, nesse dia como nos outros.

Perg. 321a - Esse é para eles um dia de reunião junto às sepulturas?
- Reúnem-se em maior número nesse dia, porque maior é o número de pessoas que os chamam. Mas cada um só comparece em atenção aos seus amigos, e não pela multidão dos indiferentes.
Perg. 321b - Sob que forma comparecem, e como seriam vistos, se pudessem tornar-se visíveis?
- Sob a que tinham em vida.
Perg. 322 - Os Espíritos esquecidos, cujas tumbas não são visitadas por ninguém, comparecem apesar disso e sentem algum desgosto por não verem nenhum amigo se lembrar deles?
- Que lhes importa a Terra? Somente pelo coração se prendem a ela. Se não mais o amam, nada mais há que faça o Espírito voltar à Terra. Ele tem todo o Universo pela frente.

Perg. 323 - A visita ao túmulo proporciona mais satisfação ao Espírito do que uma prece feita em sua intenção?
- A visita ao túmulo é uma maneira de manifestar que se pensa no Espírito ausente: é a exteriorização desse fato. Eu já vos disse que é a prece que santifica o ato de lembrar; pouco importa o lugar, se a lembrança é ditada pelo coração.
Perg. 324. Os Espíritos das pessoas homenageadas com estátuas ou monumentos assistem às inaugurações e as vêem com prazer?
— Muitos as assistem, quando podem, mas são menos sensíveis às honras que lhes tributam do que às lembranças.
Perg. 325. De onde pode vir, para certas pessoas, o desejo de serem enterradas antes num lugar do que noutro? Voltam a ele com mais satisfação, após a morte? E essa importância dada a uma coisa material é sinal de inferioridade do Espírito?
— Afeição do Espírito por certos lugares: inferioridade moral. O que representa um pedaço de terra, mais do que outro, para o Espírito elevado? Não sabe ele que a sua alma se reunirá aos que ama, mesmo que os seus ossos estejam separados?

Perg. 325-a. A reunião dos despojos mortais de todos os membros de uma família deve ser considerada como futilidade?
— Não. E um costume piedoso e um testemunho de simpatia pelos entes amados. Se essa reunião pouco representa para os Espíritos, é útil para os homens: suas recordações se concentram melhor.
Perg. 326. A aíma que volta à vida espiritual é sensível às honras que tributam aos seus despojos mortais?
— Quando o Espírito já chegou a um certo grau de perfeição não tem mais a vaidade terrestre e compreende a futilidade de todas as coisas. Sabei, porém, que frequentemente há Espíritos que, no primeiro momento da morte, gozam de grande satisfação com as honras que lhes tributam, ou se desgostam com o abandono a que lançam o seu envoltório, pois conservam ainda alguns preconceitos deste mundo.
Perg. 327. O Espírito assiste ao seu enterro?
— Muito frequentemente assiste. Mas algumas vezes não percebe o que se passa, se ainda estiver perturbado.
Perg. 327-a. Fica lisonjeado com a concorrência ao seu enterro?
— Mais ou menos, segundo o sentimento que provoca essa concorrência.

Perg. 328 - O Espírito daquele que acaba de morrer assiste às reuniões de seus herdeiros?
- Quase sempre. Deus o quer, para sua própria instrução e para castigo dos culpados. É nessa ocasião que vê quanto valiam os protestos que lhe faziam. Todos os sentimentos se tornam patentes, e a decepção que experimenta vendo a capacidade dos que dividem os eu espólio, o esclarece quanto aos propósitos. Mas a vez deles também chegará.
Perg. 329 - O respeito instintivo do homem pelos mortos, em todos os tempos e entre todos os povos, é um efeito da intuição da existência futura?
- É a sua consequência natural. Sem ela, esse respeito não teria sentido.

Perg. 824 - Reprovais de maneira absoluta as pompas fúnebres?
- Não. Quando homenageiam a memória de um homem de bem, são justas e de bom exemplo.

18 - VOZES DO GRANDE ALÉM - ESPÍRITOS DIVERSOS - PÁG.33

PRIMEIROS INSTANTES DE UM MORTO

Meus amigos: Recordando aquele rico da parábola evangélica que não obteve permissão para tornar ao círculo doméstico depois da morte, compreendo hoje perfeitamente a justeza da proibição que lhe frustrou o propósito, porque, sem sombra de dúvida, ninguém no mundo lhe daria crédito à palavra. A experiência social na Terra vive tão distraída nos jogos de máscara, que a visita da verdade sem mescla, a qualquer agrupamento humano, por muito tempo ainda será francamente inoportuna.

Falando assim ao vosso mundo afetivo, não nutro o menor interesse em quebrar a cadeia de enganos a que se aprisionam meus antigos laços do coração. Profundamente transformado, depois da grande travessia, em que o túmulo é o marco de nosso retorno à realidade, dirijo-me particularmente a vos outros, navegantes da fé no oceano da vida, para destacar a necessidade de valorização do tempo nos curtos dias de nossa permanência no corpo.

Para exemplo, recorro ao meu caso, já que, pelo concurso fraterno, ligastes-vos ao processo de minha renovação. Como sabeis, qual ocorre à árvore doente, que tomba aos primeiros toques do lenhador, caí também, de imprevisto, ao primeiro golpe da Morte. Industrial, administrador e homem público, em atividade intensa e incessante, não admitia que o sepulcro me requisitasse tão apressadamente à meditação.

A angina, porém, espreitava-me, vigilante, e fulminou-me sem que eu pudesse lutar. Recordo-me de haver sido arremessado a uma espécie de sono que me não furtava a consciência e a lucidez, embora me aniquilasse os movimentos. Incapaz de falar, ouvi os gritos dos meus e senti que mãos amigas me tateavam o peito, tentando debalde restituir-me a respiração.

Não posso precisar quantos minutos gastei na vertigem que me tomara de assalto, até que, em minha aflição por despertar, notei que a forma inerte me retomava a si, que minhalma entontecida regressava ao corpo pesado; no entanto, espessa cortina de sombra parecia interpor-se agora entre os meus afeiçoados e a minha palavra ressoante, que ninguém atendia...

Inexplicavelmente assombrado, em vão pedia socorro, mas acabei por resignar-me à idéia de que estava sendo vítima de estranho pesadelo, prestes a terminar. Ainda assim, amedrontava-me a ausência de vitalidade e calor a que me via sentenciado. Após alguns minutos de pavoroso conflito, que a palavra terrestre não consegue determinar, tive a impressão de que me aplicavam sacos de gelo aos pés.

Por mais verberasse contra semelhante medicação, o frio alcançava-me todo o corpo, até que não pude mais... Aquilo valia por expulsão em regra. Procurei libertar-me e vi-me fora do leito, leve e ágil, pensando, ouvindo e vendo... Contudo, buscando afastar-me, reparei que um fio tênue de névoa branquicenta ligava minha cabeça móvel à minha cabeça inerte.

Indiscutivelmente delirava — dizia de mim para comigo —, no entanto aquele sonho me dividia em duas personalidades distintas, não obstante guardar a noção perfeita de minha identidade. Apavorado, não conseguia maior afastamento da câmara íntima, reconhecendo, inquieto, que me vestiam caprichosamente a estátua de carne, a enregelar-se.

Dominava-me indizível receio. Sensações de terror neutralizavam-me o raciocínio. Mesmo assim, concentrei minhas forças na resistência. Retomaria o corpo. Lutaria por reaver-me. O delíquio inesperado teria fim. Contudo, escoavam-se as horas e, não. obstante contrariado, vi-me exposto à visitação pública. Mas oh! irrisão de meu novo caminho!...

Eu, que me sentia singularmente repartido, observei que todas as pessoas com acesso ao recinto, diante de mim, revelavam-se divididas em identidade de circunstâncias, porque, sem poder explicar o fenômeno, lhes escutava as palavras faladas e as palavras imaginadas.

Muitas diziam aos meus familiares em pranto:— Meus pêsames! perdemos um grande amigo...E o pensamento se lhes esguichava da cabeça, atingindo-me como inexprimível jato de força elétrica, acentuando: - "não tenho pesar algum, este homem deveria realmente morrer..."

— Meus sentimentos! O doutor G. morreu moço, muito moço. E acrescentavam, refletindo: — «morreu tarde... ainda bem que morreu... Velhaco! deixou uma fortuna considerável... deve ter roubado excessivamente...» Outras, ainda, comentavam junto à carcaça morta:
— Homem probo, homem justo!...

E falavam de si para consigo: — «político ladrão e sem palavra! que a terra lhe seja leve e que o inferno o proteja!...» Via-me salteado por interminável projeção de espinhos invisíveis a me espicaçarem o coração. Torturado de vergonha, não sabia onde esconder-me.
Ainda assim, quisera protestar quanto às reprovações que me pareceram descabidas.

Realmente não fora o homem que devia ter sido, no entanto, até ali, vivera como o trabalhador interessado em quitar-se com os seus compromissos. Não seria falta de caridade atacarem-me, assim, quando plenamente inabilitado a qualquer defensiva? Por muito tempo, perdurava a conturbação, até que encontrei algum alívio...

Muitas crianças das escolas, que eu tanto desejaria ter ajudado, oravam agora junto a mim. Velhos empregados das empresas em que eu transitara, e de cuja existência não cogitara com maior interesse, vinham trazer-me respeitosamente, com lágrimas nos olhos, a prece e o carinho de sincera emoção.

Antigos funcionários, fatigados e humildes, aos quais estimara de longe, ofertavam-me pensamentos de amor. Alguns poucos amigos envolveram-me em pensamentos de paz. Aquietei-me, resignado. Doce bálsamo de reconhecimento acalmou-me a aflição e pude chorar, enfim...

Com o pranto, consegui encomendar-me à Bondade Infinita de Deus, respirando consolo e apaziguamento. Humilhado, aguardei paciente as surpresas da nova situação. Estava inegavelmente morto e vivo. O catafalco não favorecia qualquer dúvida. Curtia dolorosas indagações, quando, em dado instante, arrebataram-me o corpo.

Achava-me livre para pensar, mas preso aos despojos hirtos pelo estranho cordão que eu não podia compreender e, em razão disso, acompanhei o cortejo triste, cauteloso e desapontado. Não valiam agora o carinho sincero e a devoção afetiva com que muitos braços amigos me acalentavam o ataúde...

A vizinhança do cemitério abalava a escassa confiança que passara a sustentar em mim mesmo. O largo portão aberto, a contemplação dos túmulos à entrada e a multidão que me seguia, compacta, faziam-me estarrecer. Tentei apoiar-me em velhos companheiros de ideal e de luta, mas o ambiente repleto de palavras vazias e orações pagas como que me acentuava a aflição e o desespero.

Senti-me fraquejar. Clamei debalde por socorro, até que, com os primeiros punhados de terra atirados sobre o esquife, caí na sepultura acolhedora, sem qualquer noção de mim mesmo. Apagara-se o conflito. Tudo era agora letargo, abatimento, exaustão...

Por vários dias repousei, até que, ao clarão da verdade, reconheci que as tarefas do industrial e político haviam chegado a termo. Apesar disso, porém, a certeza da vida que não morre levantara-me a esperança. Antigas afeições surgiram, amparando-me a luta nova e, desse modo, voltou à condição do servidor anônimo o homem que talvez indebitamente se elevara no mundo aos postos de diretiva.

É assim que, em vos visitando, devo estimular-vos ao culto dos valores claros e certos. Instalar a felicidade no próprio espírito, através da felicidade que pudermos edificar para os outros, é a única forma de encontrarmos a verdadeira felicidade.

Tenho hoje a convicção de que os patrimônios financeiros apenas agravam as responsabilidades da alma encarnada, e a política, presentemente, para mim se assemelha à tina dágua que agitamos em esforço constante para vê-la sempre a mesma, em troca apenas do cansaço que nos impõe.

Todos os aparatos da experiência humana são sombras a se movimentarem nas telas passageiras da vida. Só o bem permanece. Só o bem que idealizamos e plasmamos é a luz que fica. Assim pois, buscando o bem, roguemos a Deus nos esclareça e nos abençoe.
G.

FINADOS

02 - Depois da morte - Léon Denis - pág. 63, 105

(..) A alma, em sua peregrinação imensa, diziam os druidas, percorre três círculos, aos quais correspondem três estados sucessivos. No anoufn sofre o jugo da matéria; é o período animal. Penetra depois no abred, círculo das migrações que povoam os mundos de expiação e de provas; a Terra é um desses mundos, e a alma se encarna bastantes vezes em sua superfície. À custa de uma luta incessante, desprende-se das influências corpóreas e deixa o círculo das encarnações para atingir gwynfiá, círculo dos mundos venturosos ou da felicidade. Aí se abrem os horizontes encantadores da espiritualidade.

Ainda mais acima se desenrolam as profundezas do ceugant, círculo do infinito que encerra todos os outros e que só pertence a Deus. Longe de se aproximar do Panteísmo, como a maior parte das doutrinas orientais, o druidismo afasta-se dele por uma concepção inteiramente diferente sobre a Divindade. A sua concepção sobre a vida também não é menos notável. Segundo as Tríades, nenhum ser é joguete da fatalidade, nem favorito de uma graça caprichosa, visto preparar e edificar por si próprio os seus destinos. O seu alvo não é a pesquisa de satisfações efémeras, mas sim a elevação pelo sacrifício e pelo dever cumprido.

A existência é um campo de batalha onde o braço conquista seus postos. Tal doutrina exaltava as qualidades heróicas e depurava os costumes. Estava tão longe das puerilidades místicas quanto da avidez ilusória da teoria do nada Entretanto, parece ter-se afastado da verdade em certo ponto: foi quando estabeleceu que a alma culpada, perseverando no mal, pode perder o fruto de seus trabalhos e recair nos graus inferiores da vida, donde lhe será necessário recomeçar sua longa e dolorosa ascensão. Mas, ajuntam as Tríades, a perda da memória lhe permite recomeçar a luta, sem ter, por obstáculos, o remorso e as irritações do passado. No Gwynfid, recupera, com todas as recordações, a unidade da sua vida-; reata os fragmentos esparsos pela sucessão dos tempos.

Os druidas possuíam conhecimentos cosmológicos muito extensos. Sabiam que o nosso planeta rola no espaço, levado em seu curso ao redor do Sol. É o que ressalta deste outro canto de Taliesino, chamado O Cântico do Mundo: "Perguntarei aos bardos, e por que os bardos não responderão? Perguntarei o que sustenta o mundo; porque, privado de apoio, este globo não se desloca. Que lhe poderia servir de apoio? "Grande viajor é o mundo! Correndo sempre e sem repouso, nunca se desvia da sua linha, e quão admirável é a forma dessa órbita para que jamais se escape dela."

O próprio César, tão pouco versado nessas matérias, diz-nos que os druidas ensinavam muitas coisas sobre a forma e a dimensão da Terra, sobre o movimento dos astros, sobre -as montanhas e os vales da Lua. Dizem que o Universo, eterno e imutável em seu conjunto, se transforma incessantemente em suas partes; que a vida o anima por uma circulação infinita, e espalha-se por todos os pontos. Desprovidos dos meios de observação de que dispõe a ciência moderna, pergunta-se: onde foram os gauleses aprender tais noções?

Os druidas comunicavam-se com o mundo invisível; mil testemunhas o atestam. Nos recintos de pedra evocavam os mortos. As druidesas e os bardos proferiam oráculos. Vários autores referem que Vercingétorix entretinha-se, debaixo das ramagens sombrias dos bosques, com as almas dos heróis mortos em serviço da pátria. Antes de sublevar a Gália contra César, foi para a ilha de Sein, antiga residência das druidesas, e aí, ao esfuziar dos raios, apareceu-lhe um Gênio que predisse sua derrota e seu martírio.

A comemoração dos mortos é de iniciativa gaulesa. No dia primeiro de novembro celebrava-se, a festa dos Espíritos, não nos cemitérios — os gauleses não honravam os cadáveres —, mas sim em cada habitação, onde os bardos e os videntes evocavam as almas dos defuntos. No entender deles, os bosques e as charnecas eram povoados por Espíritos errantes. Os Duz e os Korrigans eram almas em procura de novas encarnações.

O ensino dos druidas adaptava-se, na ordem política e social, a instituições conforme à justiça. Os gauleses, sabendo que eram animados por um mesmo princípio, chamados todos aos mesmos destinos, sentiam-se iguais e livres. Em cada república gaulesa, os chefes eram oportunamente eleitos pelo povo reunido. A lei céltica punia, com o suplício do fogo, os ambiciosos e os pretendentes à coroa. As mulheres tomavam parte nos conselhos, exerciam funções sacerdotais, eram videntes e profetas. Dispunham de si mesmas e escolhiam seus esposos. A propriedade era coletiva, pertencendo todo o território à república. Por forma alguma era entre eles reconhecido o direito hereditário: a eleição decidia tudo. (..)

(..) Uma sociedade sem esperança, sem fé no futuro, é como um homem perdido no deserto, como uma folha seca que vagueia à feição dos ventos. É bom combater a ignorância e a superstição, mas cumpre substituí-las por crenças racionais. Para seguirmos na vida com passo firme, para nos preservarmos dos desfalecimentos e das quedas, é preciso uma convicção robusta, uma fé que nos eleve acima do mundo material: é necessário ver-se o alvo e para ele nos encaminharmos. A mais segura arma no combate terrestre é uma consciência reta e esclarecida.

Mas, se nos domina a idéia do nada, se acreditamos que a vida não tem sequência e que tudo termina com a morte, então, para sermos lógicos, cumpre sobrepor, a qualquer outro sentimento, o cuidado da existência material, o interesse pessoal. Que nos importa um futuro que não devemos conhecer? A que título falar-nos-ão de progresso, de reformas, de sacrifícios? Se há para nós somente uma existência efêmera, nada mais nos resta fazer do que aproveitar a hora atual, gozar-lhe as alegrias e abandonar-lhe os sofrimentos e os deveres! Tais são os raciocínios em que forçosamente terminam as teorias materialistas, raciocínios que ouvimos formular e vemos aplicar todos os dias em nosso círculo.

Que desordens não serão de esperar como consequência dessas doutrinas, no meio de uma civilização rica e já muito desenvolvida no sentido do luxo e dos gozos? Entretanto, nem todo o ideal está morto. A alma humana tem, ainda, algumas vezes, o sentimento de sua miséria, da insuficiência da existência presente e da necessidade da sobrevivência. No pensamento do povo uma espécie de intuição subsiste. Iludido durante séculos, o povo tornou-se incrédulo a todos os dogmas, mas não é céptico. Vaga e confusamente, crê, aspira à Justiça. E esse culto da saudade, essas manifestações comoventes do 2 de novembro, que impelem as multidões para junto dos túmulos dos mortos, denotam também um instinto confuso da imortalidade.

Não, o povo não é ateu, pois crê na Justiça imanente, como crê na Liberdade, porque a Justiça e a Liberdade existem pelas leis eternas e divinas. Esse sentimento, o maior, o mais belo que se pode achar no fundo da alma, esse sentimento salvar-nos-á!
Para isto, basta fazer compreender a todos que esta noção de Justiça, gravada em nós, é a lei do Universo, que rege todos os seres e todos os mundos, e que, por ela, o Bem deve finalmente triunfar do mal, e a Vida sair da Morte.

Ao mesmo tempo que aspira à Justiça, busca o ente humano vê-la realizada. Procura-a no terreno político como no terreno econômico, no princípio de autoridade. O poder popular começou a estender sobre o mundo uma vasta rede de associações operárias, um agrupamento socialista que abraça todas as nações, e, sob um só estandarte, faz ouvir por toda parte os mesmos apelos, as mesmas reivindicações. Há aí, ninguém se engane, ao mesmo tempo que um espetáculo cheio de ensinamentos para o pensador, uma obra repleta de consequências para o futuro. Inspirada pelas teorias materialistas e ateias, ela se tornaria um instrumento de destruição, porque sua ação resolver-se-ia em tempestades violentas, em resoluções dolorosas.

Contida nos limites da prudência e da moderação, ela muito pode para a felicidade humana. Que um raio de luz desça a esclarecer essas multidões em trabalho; que um ideal elevado venha reanimar essas massas ávidas de progresso, e, graças a tal benefício, veremos todas as antigas pátrias, todas as velhas formas sociais se dissolverem e se fundirem em um mundo novo, baseado sobre o direito de todos, na solidariedade e na justiça. (..)

06 - Lampadário Espírita - Joana De Ângelis - pág. 58

12. IMORTALIDADE

À noite sombria da morte sucede a madrugada clarificadora da vida espiritual. Em toda a parte estua a vibração miraculosa e pulsante da vida que não cessa. Morre a semente para surgir a planta vitoriosa. Decompõe-se a matéria a fim de nutrir outras formas de vidas. Gasta-se uma estrutura desta ou daquela natureza para ressurgir, mais além, em manifestações novas e expressivas. A serenidade do cadáver humano é enganosa e utópica. Além das células em transformações incessantes, onde se locupletam vibriões, o espírito desperta.

Nada nem ninguém. Morrer é somente mudar de estado. A paz das necrópoles é pobreza dos sentidos dos que supõem contemplá-la. A perda da indumentária física não confere prosperidade espiritual nem conduz à ruína desesperadora, senão àqueles que as elaboraram antes. Cada ser desperta consoante viveu vinculado ou liberto das paixões. A morte pode ser considerada como o despir da aparência e o despertar para a realidade. Ela não apaga o amor que prossegue em cânticos afetuosos, imanando sentimentos que se alongam além das fronteiras do corpo, nem interrompe o intercâmbio do ódio que expele emanações mefíticas, alongando processos obsessivos de longo e tormentoso curso.

Quantos se acostumaram à beleza das emoções superiores escalam os óbices da limitação e atingem excelsas regiões. Aqueles, no entanto, que se fixaram nas paisagens grotescas da animalidade primitiva, acordam envoltos nas paixões que conduziram ao decesso carnal, mais vorazes, mais infelizes, mais atormentados. Não há milagre ante a morte. Não procures os que partiram para a Imortalidade, em dias a eles consagrados, nas tumbas onde se diluíram as impressões da forma, pois que lá não estão. Evita visitá-los nos campos dos despojos carnais, considerando que lá não os encontrarás.

Se foram amorosos e bons, libram acima das conjunturas imediatistas, visitam-te, intercambiam o amor e trabalham, vitoriosos, esperando por ti. Se viveram descuidados, entorpecidos pelo ópio do prazer, dormem o longo sono da consciência aparvalhada, experimentando pesadelos e agonias de difícil tradução para o teu entendimento. Se jornadearam adstritos à impiedade e atados ao erro deste ou daquele teor, sofrem e fazem sofrer, procurando, no próprio lar ou em outras mentes de fora do ninho doméstico, com as quais se afinam, intercâmbio inquietante e enfermiço.

Seja qual for o roteiro por onde transitaram aqueles teus afetos, agora além da carne, ora por eles, pensa neles com bondade e amor.
Transforma as moedas que iriam adquirir flores e luzes frágeis demais para os atingirem — logo mais fanadas e mortas, bruxuleantes e sem lume — em leite e pães para débeis criancinhas esquálidas, em caldo quente e reconfortante para velhinhos esquecidos nas sombras espessas da miséria, em medicamento refazente para enfermos em agonias e dores tormentosas, em agasalhos para corpos em absoluta nudez, em oportunidade de trabalho para pais de família ao desemprego e desassossegados, em meios honrosos para todos aqueles que seguem pelo teu caminho, como homenagem a eles, os teus mortos queridos, que vivem e te bendirão o amor.

O que fizeres em memória deles se transformará em lenitivo às suas aflições, atestado inequívoco de afeição que não passará despercebido por eles. Desobstrui gavetas e armários e passa adiante o que conservas como lembrança deles, fazendo-os apegados a esses valores realmente mortos... Teus mortos vivem! Respeita-os, homenageando-os através da bênção da caridade dirigida a outros. Enquanto a saudade macerava os corações atemorizados dos discípulos, após os sucessos da tarde trágica de Jerusalém, e a inquietação os sobressaltava, pela madrugada do domingo, mulheres piedosas, entre as quais uma ex-cortesã, acorreram ao sepulcro aberto na rocha, para visitar o inumado querido, encontrando, porém, a sepultura violada e vazia.

Procurando informar-se do que sucedera, a jovem de Magdala defrontou-O nimbado de safirina e radiosa luz, enquanto Ele, sorrindo, saúda-a jubiloso: -"Maria!" Diante dos entes queridos, mortos, recorda Maria de Magdala aflita e Jesus triunfante depois da morte, retornando em incomparável manifestação de imortalidade gloriaosa, vencedor das sombras e das dores.

07 - Na era do Espírito - Espíritos Diversos - pág. 123

21. CHICO XAVIER. SOBRE FINADOS

"Em uma de nossas reuniões públicas foi ventilada a questão de nossas homenagens aos irmãos desencarnados. Como se sentem eles com as nossas comemorações e lembranças?
Em tomo dessa pergunta foram entretecidos comentários numerosos. E quando no início de nossas tarefas O Livro dos Espíritos nos deu para estudo a questão n.° 353, que se vincula ao assunto, as explanações dos companheiros presentes foram as mais diversas.
No término da reunião o nosso caro Emmanuel escreveu a página que lhe envio. Ë uma prece que nos sensibilizou e nos fez recordar a todos o Dia de Finados."

NOTA — O problema das comemorações do Dia de Finados, bem como dos funerais e de homenagens prestadas aos mortos, mereceu um tópico especial do capítulo VI de O Livro dos Espíritos. A posição doutrinária, ao contrário do que geralmente se pensa, é favorável a essas homenagens, desde que sinceras e não apenas convencionais. Os Espíritos, respondendo a perguntas de Kardec a respeito, mostraram que os laços de amor existentes entre os que partiram e os que ficaram na Terra justificam esses atos. E declararam que no Dia de Finados os cemitérios ficam repletos de Espíritos que se alegram com a lembrança dos parentes e amigos.


12 - Religião dos Espíritos - Emmanuel - pág. 217

ORAÇÃO NO DIA DOS MORTOS - REUNIÃO PÚBLICA DE 2/11/59 - QUESTÃO N° 823

Senhor Jesus! Enquanto nossos irmãos na Terra se consagram hoje à lembrança dos mortos-vivos que se desenfaixaram da carne, oramos também pelos vivos-mortos que ainda se ajustam à teia física...

Pelos que jazem sepultados em palácios silenciosos fugindo ao trabalho, como quem se cadaveriza, pouco a pouco, para o sepulcro. Pelos que se enrijeceram gradativamente na autoridade convencional, adornando a própria inutilidade com títulos preciosos, à feição de belos epitáfios inúteis.

Pelos que anestesiaram a consciência no vício, transformando as alegrias desvairadas do mundo em portões escancarados para a longa descida às trevas. Pelos que enterraram a própria mente nos cofres da sovinice, enclausurando a existência numa cova de ouro.

Pelos que paralisaram a circulação do próprio sangue, nos excessos da mesa; Pelos que se mumificaram no féretro da preguiça, receando as cruzes redentoras e as calúnias honrosas; Pelos que se imobilizaram no paraíso doméstico, enquistando-se no egoísmo entorpecente, como desmemoriados, descansando no espaço estreito do esquife...

E rogamos-te ainda, Senhor, pelos mortos das penitenciárias que ouviram as sugestões do crime e clamam agora na dor do arrependimento; Pelos mortos dos hospitais e dos manicômios, que gemem, relegados à solidão, na noite da enfermidade; pelos mortos de desânimo, que se renderam, na luta, às punhaladas da ingratidão;

Pelos mortos de desespero, que caíram em suicídio moral, por desertores da renúncia e da paciência; Pelos mortos de saudade, que lamentam a falta dos seres pêlos quais dariam a própria vida; e por esses outros mortos, desconhecidos e pequeninos, que são as crianças entregues à via pública, exterminadas na vala do esquecimento...

Por todos esses nossos irmãos, não ignoramos que choras também como choraste sobre Lázaro morto...E trazendo igualmente hoje a cada um deles a flor da esperança e o lume da oração, sabemos que o teu amor infinito clarear-nos-á o vale da morte, ensinando--nos o caminho da eterna ressurreição.

15 - Vozes do grande além - Espíritos Diversos - pág. 91

NOITE DE FINADOS

Finados. Noite. Em lúgubres acentos,
Passa ululando horrenda ventania,
Cantochão estendendo a névoa fria
Na cidade dos vermes famulentos.
 
Avançam larvas com medonha fúria
Insensíveis ao fausto das legendas
Congestinando o chão aberto em fendas,
No pungente festim da carne espúria.
 
Dormem anjos de pedra sobre as lousas...
Dos mausoléus ao solo miserando,
Choram rosas e goivos, irmanando
A poeira da carne e o pó das cousas.
 
De aprimorados nichos e espelas
Que definem o brio dos coveiros,
Envolvendo ciprestes e salgueiros,
Sai o cheiro de morte que há nas velas.
 
O doloroso pio das corujas,
Como sinal soturno em fim de festa,
Da glória humana é tudo quanto resta
Nos mármores que guardam cinzas sujas.
 
Ao nosso olhar, no quadro em desconforto
Estranhos círios luzem comovidos:
São as preces vazadas nos gemidos
De quem sofre no mundo amargo e morto.
 
São as flores do pranto agro e sem nome
Que a saudade verteu, desfalecida,
Atrelada à esperança de outra vida
Para a vida de angústias que a consome.
 
Aqui, apelos consoladores
Lembram noivas e mães infortunadas...
Mais além, petições desesperadas
Trazem consigo o fel das grandes dores.
 
Desce, porém, do Espaço almo e profundo
A luminosa e bela romaria
Dos mortos que renascem na alegria
Em socorro dos mortos deste mundo.
 
Chamas divinas da Divina Chama,
Entrelaçam-se em torno à Terra obscura,
Despertando os que jazem na amargura
Dos sepulcros carnais de treva e lama.
 
Trazem cantando o lábaro fremente
Do amor universal que tudo aquece,
Clamando para a dor da humana espécie:
-Somos filhos de Deus eternamente.
 
Finados!... Grita a morte estranha e crua
Na química fatal do transformismo.
Mas, transporto o cairei do grande abismo,
Eis que a Vida Infinita continua...


Augusto dos Anjos

16 - FLORAÇÕES EVANGÉLICAS - JOANNA DE ÂNGELIS - PÁG. 241

CULTO AOS MORTOS

Resultante da ignorância, o culto dos mortos entre os povos primitivos se espalhou pelas múltiplas Civilizações da antiguidade, gerando em consequência, lamentáveis processos de desregramento religioso, que derrapavam, quase sempre, em dolorosos conúbios obsessivos. Entidades primárias e viciosas, utilizando-se das paixões vigentes, exigiam selvagens sacrifícios de vidas humanas, que o tempo se encarregou de suprimir...

Os holocaustos desta e daquela natureza foram sofrendo variações por impositivos do progresso, até assumirem conceituação metafísica, transmudando a mecânica da forma para a essência do espírito sacrificial. Concomitantemente, estabeleceu-se o intercâmbio entre os dois mundos: o dos encarnados, e o dos desencarnados, que retornavam com as mesmas características da personalidade desenvolvida antes do túmulo, exteriorizando as emoções e as sensações compatíveis ao estado de evolução de cada um.

Nos santuários dos Templos, nas Escolas de iniciação, nos "Mistérios", os mortos sempre assumiram papel preponderante, traduzindo os desejos dos "deuses" - "deuses" que se faziam crer - conduzindo, não raro, em em consequência, o pensamento humano às nascentes da vida, e elucidando os enigmas do ser, as diretrizes dos destinos e os impositivos da dor...

Filósofos e heróis, conquistadores e reis, magos e sacerdotes do passado mantiveram, dessa forma, longo comércio com o Mundo Espiritual em inolvidáveis diálogos, dos quais ressumavam a essência da vida verdadeira, a imortalidade, a comunicabilidade e a reencarnação do Espírito...

Com Jesus, no entanto, os chamados mortos receberam o necessário respeito, ocupando o devido lugar. Seus encontros com os libertos da carne, mencionados no Evangelho, são memoráveis, inconfundíveis. E a ética decorrente desse convívio, vazada na elevação moral e na renúncia, no amor e na caridade, constitui, ainda hoje, a linha de equilíbrio e base de segurança para a vida.

Depois d'Ele, Allan Kardec, o Missionário francês, de Lyon, foi investido pelo Alto com a inapreciável condição de desvelar a vida além da sepultura, facultando o renascimento do Cristianismo nos espíritos e nos corações, e abrindo nobres ensanchas para o intercâmbio com as Esferas Espirituais.

Os próprios Imortais aquiesceram em elucidar os enigmas humanos com a divina permissão, ampliando enormemente os horizontes do entendimento sobre a vida imperecível, após o decesso orgânico. Porque a Terra necessitasse de inadiável despertamento para as realidades do Espírito, os Embaixadores dos Céus mergulharam no corpo e renasceram nos diversos campos do pensamento e da investigação, colaborando com tirocínio lúcidos e comprovações indubitáveis da continuidade da vida após a morte.

Luminares do Reino mantiveram comunhão com os homens, através da mediunidade dignificada, repetindo a mensagem do Cordeiro de Deus aos corações amargurados e contribuindo com farta cópia de revelações novas. Não mais a morte. Em toda a parte exulta a vida. Ninguém se aniquila na morte. Muda-se de estado vibratório sem que se opere mudança intrínseca naquele que é considerado morto.

Morrer é, também, reviver. Mortos estão, em realidade, aqueles que têm fechados os olhos para a vida e jazem anestesiados na ilusão, deambulando, em hipnose inditosa, entre viciações e engodos. Cada ser é, além do corpo, o que cultivou na indumentária carnal. Nem melhor nem pior do que era. As construções mentais, longamente atendidas, não se apagam dos painéis espirituais ao toque mágico da desencarnação, tampouco o culto da personalidade, os hábitos infelizes, se rompem de imediato, graças ao bisturi miraculoso da morte.

Morrer e viver nas vibrações materiais são contingências que dizem respeito a cada um. Por essa razão, em memória dos teus mortos queridos, que vivem, não lhes açules as paixões subalternas com oferendas de ordem material. Já não necessitam dos mimos enganadores nem das demonstrações exteriores do mundo da forma. Têm agora outro conceito, compreendem melhor o que foram, como poderiam e deveriam ter sido, e lamentam, se não souberam conduzir a experiência pelas nobres linhas da elevação moral.

Respeita-lhes a memória, mas desvincula-os das coisas transitórias. Ama-os, e liberta-os das evocações dolorosas do vaso carnal. Ajuda, através da tua valiosa dádiva de amor, os que se demoram ao teu lado experimentando aflições e desesperos. Transforma as flores débeis que logo fenecem em pães de esperança, que sustentarão vidas em quase extinção.

Apaga os círios de parca luminescência e acende a luz da caridade, pensando neles, para que as lâmpadas de misericórdia que coloques em outras vidas possam transformar-se em claridade sublime nas consciências deles. Mitiga a sede, diminui a fome, alfabetiza, enseja o medicamento, fomenta a concórdia, distribui a esperança, divulga a paz, recordando aqueles a quem amas e que partiram para o mais além, e chuvas de bênçãos cairão sobre eles, abençoando-te também.

Não os pranteies em desesperos, não os exaltes em qualidades que não possuem. Recorda-os na saudade e mantêm-nos na lembrança do carinho, sabendo por antecipação que um dia virá em que jornadearás, também, na direção desse Mundo em que eles se encontram, voltando a estar ao lado deles, sendo feliz outra vez.

E como dispões ainda de tempo para preparar a sua viagem de retorno à Pátria Espiritual, organiza-te emocionalmente, entregando tua vida à Providência Divina e vivendo de tal forma do corpo que, em chegando o momento da desencarnação, não te detenhas atado às mazelas nem às constrições do vasilhame carnal.

"Se alguém guardar a minha palavra, nunca, jamais, provará a morte." - João, 8-52

O respeito que aos mortos se consagra não é a matéria que o inspira; é, pela lembrança, o Espírito ausente quem o infunde. Cap. XXIII, ítem 8.

17 - CANAIS DA VIDA- EMMANUEL - PÁG. 43

PERANTE OS MORTOS

Quando visites o campo convertido em relicário da cinza dos mortos, procurando tatear a lembrança dos seres queridos que o sepulcro recobre, endereça-lhes a própria alma, em forma de amor, porque eles vivem. Pensa neles com o enternecimento de quem reencontra devotados amigos, apartados de ti por temporária separação. Qual se estivessem, involuntariamente, numa parada expectante falam-te, em silêncio, a verdade que o verbo humano não articula. Basta medites para que lhes recolhas a voz...

Poderosos de ontem, que abusavam da autoridade, lamentam na lousa o capacete esbraseado de angústia e remorso que se lhes embutiu nas consciências; déspostas de variados matizes, que zombaram da fraqueza ou da ignorância do próximo, conservam enterradas, no próprio peito, as lâminas repulsivas com que desataram as lágrimas alheias; juízes, que leiloaram a dignidade dos tribunais suportam as consequências do arrazoado precioso com que vestiram sentenças ímpias; intelectuais que encharcaram a pena em lodo mental, assalariando a própria inteligência no artesanato do crime, clamam contra o nevoeiro que lhes entenebrece os pensamentos.

Tribunos, que esconderam propósitos sombrios em frases fulgurantes, ouvem no ádito de si mesmos, as doridas exprobações de quantos lhes caíram na vasa das intenções subalternas; artistas, que injuriaram a natureza, senhoreando-lhe os recursos para suscitarem nos outros a delinquência emotiva, arrastam-se, obsessos e infelizes, nos torvelinhos da insanidade; pessoas dinheirosas, que fizeram do ouro e da prata incenso constante à própria vaidade, buscam, em vão, apagar a mentira das pomposas legendas que lhes marcam os restos...

Junto deles, porém, surge a caravana dos que chegam dos cimos, a entremostrarem o próprio rato por mensagem de luz. São aqueles que sobrenadaram a onda móvel e traiçoeira das ilusões humanas, desvelando os próprios corações por lábaros esplendentes... Ostentavam nomes admirados, mas souberam transfigurar a própria grandeza no trabalho em que se tornavam pessoalmente humildes e pequeninos; foram titulados, na culminância das profissões, entretanto, colocaram o serviço aos semelhantes, acima das honrarias; desempenharam comandos sociais em gabinetes governativos, contudo, transformaram a liderança em exemplo de sinceridade e desinteresse, nas causas justas; eram renomados artífices da idéia e do sentimento, no entanto, manejavam a palavra falada e escrita por enxada solar nas glebas do espírito.

Foram mordomos da finança e da economia, mas converteram a fortuna amoedada em sustentáculos do progresso e em fontes de beneficência fecunda; suaram, valorosos e desvalidos, na condição de heróis anônimos que a Terra desconheceu, todavia, passaram entre os homens, extravasando a própria dor, em cânticos de alegria e esperança, nos quais honorificaram o Eterno Bem...

Recordando os entes amados, que te antecederam no rumo de realidades sublimes, busca a inspiração dos que conheceste retos e bons envolve no bálsamo da prece os que tombaram sob a névoa de clamorosos enganos. Reflete em todos eles, enviando-lhes a simpatia de tua bênção, porquanto as criaturas de quem te despediste na morte, acreditando em aniquilamento, são simplesmente os companheiros desencarnados, componentes da Família Maior, a cujo seio também chegarás.

ANTE OS MORTOS

É verdade que te martirizas, à frente da morte, na Terra, mormente quando a morte surge, a ceifar-te os entes caros. Aflitiva é a contemplação dos que partem do mundo, em nossos braços, quando nos achamos no mundo, muita vez a nos endereçarem angustioso olhar, como a pedir-nos mais vida no corpo físico, sem que nos possamos arredar da impossibilidade de fazê-lo. Profundamente constrangedora é a mágoa de sentir-lhes as mãos desfalecentes em nossas mãos ansiosas, na despedida.

Entretanto, pensa neles, os companheiros que partem, na condição de viajores amados que te deixam provavelmente carregando consigo indagações muito mais agudas do que aquelas que se te estacam no coração. Reflete nisso e não lhes agraves a dor. Muitos deles se afastam marcados por impositivos urgentes de reajuste.

Compelidos a se arrancarem de hábitos longamente estabelecidos, quase sempre oscilam ente os chamamentos da rotina terrestre e as exigências de renovação da Vida Espiritual. E isso lhes custa empeços e problemas para as readaptações necessárias. Mentaliza-os na condição de criaturas queridas, em refazimento para que se afeiçoem, sem maiores delongas, aos encargos novos que os aguardam.

Abençoa-os com as tuas melhores recordações, porque a lembrança ou a palavra alcançam a todos eles, com endereço exato. Compadece-te de sobretaxar-lhes as preocupações com o pranto da angústia. Ao invés disso, dá-lhes a cobertura afetiva, cumprindo, tanto quanto possível, os deveres que estimariam ainda continuar a satisfazer. Eles estão em outras faixas de vivência, mas não irremediavelmente distantes.

São amigos que te antecederam na inevitável viagem para a Vida Maior, a te rogarem auxílio, a fim de se retornarem no próprio equilíbrio, ante o desempenho das novas tarefas que abracem. Não olvides: converte a saudade em oração de esperança e envia-lhes os teus pensamentos de compreensão e de paz. Ampara-os agora para que te amparem depois.