GÊNESE ESPIRITUAL
BIBLIOGRAFIA
01- A agonia das religiões - pág. 39 02 - A caminho da luz - pág. 29, 90
03 - A evolução do Princ.Inteligente - pág. 137 04 - A Gênese - cap. VI, 19 cap. XI,23
05 - A reencarnação - pág. 31, 66, 72 06 - As margens do Eufrates - pág. 59, 67
07 - Auto desobsessão - pág. 13 08 - Da alma humana - pág. 174
09 - Entre a matéria e o Espírito - pág. 190 10 - Justiça Divina - pág. 77
11 - O Consolador - pág. 29, 36 12 - O Livro dos Espíritos - pág. intr. II, VI q. 71, 222
13 - Os Exilados da Capela - pág. 20 14 - Pensamento e vontade - pág. 127
15 - Revista Espírita - 1858, 1860, 1861 pág. 236,213,262

16 - Sobrevivência e comun.dos Espíritos - pág. 164

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GÊNESE ESPIRITUAL – COMPILAÇÃO

01- A agonia das religiões - J. Herculano Pires - pág. 39

CAPÍTULO V - DEUS, ESPÍRITO E MATÉRIA
Para melhor entender-se a expressão Deus, em espírito e matéria, que usei no capítulo anterior, — e melhor entender-se também o problema da experiência de Deus no tempo — julgo necessário tratar dos princípios da cosmogonia espírita, na qual se integra a teoria da gênese e formação do espírito. O contra-senso da afirmação bíblica de que Deus criou o mundo do nada, que tanto trabalho deu aos teólogos, é explicado na revelação espírita pela teoria da Trindade Universal. Deus, o Ser Absoluto, é a fonte de toda a Criação. Existindo essa fonte solitária, é logicamente necessário admitir-se um meio em que ela existia.

Esse meio, que seria o espaço vazio, foi considerado o nada. Para tratar do Absoluto num plano relativo, como o nosso, é preciso usar expressões relativas. A concepção espírita do mundo não admite a existência do nada. O Universo é pleno — é uma plenitude— não havendo nele nenhuma possibilidade de vácuo. Essa teoria espírita da plenitude está hoje sendo confirmada pela pesquisa científica do Cosmos. As regiões siderais que poderíamos julgar vazias mostram-se como campos de forças, carregadas de energias que escapam aos nossos sentidos.

Esse pré-universo energético seria o que Buda definiu como o mundo sempre existente, que nunca foi criado. Pitágoras, em sua filo-sofia matemática, considerou Deus como o número l que desencadeou a década. O UM, número primeiro, existia imóvel e solitário no Inefável (naquilo que para nós seria o nada) e nesse caso o nada seria a imobilidade absoluta. Houve em certo momento cósmico, não se pode saber como nem porquê, um estremecimento do número l, que assim produziu o 2 e a seguir os demais números até o 10.

Completando-se a década, tivemos o Todo, a Criação se fizera por si mesma, o Universo surgira e com ele o tempo. É claro que não dispomos de recursos para investigar as origens primeiras, e essas teorias não passam de tentativas de explicações lógicas, destinadas a nos proporcionar uma base alegórica ou hipotética para uma possível concepção do mistério da Criação.

O Espiritismo sustenta a possibilidade de conhecermos a verdade a respeito, quando houvermos desenvolvido as potencialidades espirituais que nos elevarão acima da condição humana. Enquanto não chegarmos lá, essas hipóteses devem servir para mostrar-nos que dispomos de capacidade para ir além dos limites do pensamento dialético, além do conhecimento indutivo baseado no jogo dos contrastes.

Assim sendo, não podemos aceitar a alegoria bíblica da Criação ao pé da letra, como verdade revelada, nem contestá-la orgulhosamente com a arrogância do materialismo. Na posição do crente temos a ingenuidade e na posição do materialista temos a arrogância do homem, esse pedacinho de fermento pensante, como dizia o Lobo do Mar de Jack London. O espiritualismo simplório e o materialismo atrevido são os dois pólos da estupidez humana. O bom-senso, que é a regra de ouro do Espiritismo, nos livra da estupidez e nos oferece a possibilidade de chegarmos à sabedoria sem muito barulho e disputas inúteis.

Partindo do pressuposto de que o mundo deve ter uma origem e aceitando a idéia de que foi criado por Deus — pois assim o afirmam todos os Espíritos Superiores que se referem ao assunto e que revelam uma sabedoria superior à nossa — o Espiritismo admite que a fonte inicial é uma inteligência cósmica. Mas porque uma inteligência e não apenas um centro de forças casualmente aglutinadas no caos primitivo? Porque o Universo se mostra organizado inteligentemente em todas as suas dimensões, até onde podemos observá-lo.

Seria ilógico, absurdo, supormos que essa inteligência da estrutura universal, que se manifesta em minúcias ainda inacessíveis à pesquisa científica, desde as partículas atômicas até aos genes biológicos e seus códigos admiráveis, seja o resultado de um simples acaso. Nenhuma cabeça bem-pensante poderia admitir isso. A teoria espírita — teoria e não hipótese, pois esta já provou a sua validade através de todas as pesquisas possíveis — pode ser resumida neste axioma doutrinário: Não há efeito inteligente sem causa inteligente, e a grandeza do efeito corresponde à grandeza da causa.

Colocando assim o problema, sua equação se torna clara. O Espiritismo a elabora em termos dialéticos: a fonte inicial, Deus, existindo num meio ao inefável, constituído de matéria dispersa no espaço, emite o seu pensamento criador que aglutina e estrutura a matéria. Temos assim a Trindade Universal que as religiões apresentam de maneira antropomórfica. Essa trindade não é formada de pessoas, mas de substâncias regidas por uma possível Inteligência, constituindo-se assim: Deus, Espírito e Matéria.

O espírito que a constitui não é uma entidade definida, mas o pensamento de Deus que se expande no Cosmos em forma de substância. Essa substância espiritual penetra o oceano de matéria rarefeita, dispersa, e aglutina suas partículas, estruturando-as para a formação das coisas e dos seres. Da tese espiritual e da antítese material resulta a síntese do real, do mundo criado por um poder inteligente.

Qual a razão de ser, o objetivo, a finalidade e o sentido dessa Criação? O Espiritismo admite que não podemos conhecer tudo isso em nosso estágio de desenvolvimento, mas podemos, através da nossa inteligência humana, indagar, perquirir, pesquisar e chegar a resultados logicamente possíveis. Os dados científicos da Geologia, por exemplo, nos mostram a Terra como o resultado de um longo processo de formação, no qual é evidente a intenção de atingir um tipo de perfeição em todas as coisas e todos os seres.

As formas imprecisas e grotescas das primeiras idades do planeta vão se aprimorando ao longo do tempo, numa sucessão nítida de fases de elaboração caprichosa. Os dados da Antropologia nos revelam o aprimoramento do homem nas civilizações sucessivas, a partir das selvas. Os dados da Psicologia nos desvendam os anseios da alma humana, na busca incessante de transcendência, de superação do seu condicionamento orgânico-material. Os dados da Estética revelam-nos o anseio de beleza, perfeição e equilíbrio que rege o desenvolvimento individual e coletivo, o indivíduo e a espécie.

Gustave Geley, em seu livro "Do Inconsciente ao Consciente", propõe-nos uma visão dialética do mundo em que as coisas se transformam em seres e estes avançam em direção à consciência. É a mesma visão da teoria dialética de Hegel. Oliver Lodge considera o homem atual como um processo em desenvolvimento. O Existencialismo, em suas várias escolas, encara o homem como um projecto, um vetor que se lança na existência em busca da transcendência.

Para Sartre, o homem se frustra nessa busca e se nadifica na morte, se reduz a nada. Para Heidegger, o homem se realiza no trajeto existencial e se completa na morte. Para Jaspers, o homem consegue transcender-se em dois sentidos: o horizontal, na relação social, e o vertical, na busca de Deus. Para Léon Denis, todo o processo de transformação se explica por esta frase genial: A alma dorme na pedra, sonha no vegetal, agita-se no animal e acorda no homem. Para Kardec, a transcendência humana nos leva ao plano da angelitude, pois os anjos nada mais são do que espíritos que superaram as condições inferiores da humanidade.

Temos assim o Universo, com a multiplicidade de seus mundos rolantes no espaço sideral, de seus sóis e suas galáxias, como um fluxo permanente de forças em transformação incessante, objetivando a formação dos seres e a elevação destes a condições divinas. Só a hipótese de Sartre admite a inutilidade como finalidade universal.

Os Espíritos Superiores, em suas comunicações, desmentem e rejeitam essa hipótese negativa, sustentando a natureza teleológica do Universo. Consideram a Criação como um gigantesco processo que só pode ser definido como o fiat em sua fase inicial, quando a Mente Suprema emite o seu pensamento para unir essa emanação do seu espírito à matéria dispersa. Depois desse instante criador desencadeia-se o tempo e é nele que o processo criador vai desenvolver-se lentamente através dos milênios.

E a superioridade desses Espíritos não é avaliada por medidas ou métodos místicos, mas por verificações racionais. Os Espíritos Superiores não ensinam apenas através de idéias, mas também de fatos. Provam, através da produção de fenômenos paranormais, que possuem uma ciência muito superior à nossa, um conhecimento do espírito e da matéria que estamos longe de atingir e uma compreensão de Deus que supera de muito as nossas interpretações antropomórficas da Inteligência Criadora. (...)

02 - A caminho da luz - Emmanuel - pág. 29, 90

AS FORMAS INTERMEDIÁRIAS DA NATUREZA
A atmosfera está ainda saturada de umidade e vapores, e a terra sólida está coberta de lodo e pântanos inimagináveis. Todavia, as derradeiras convulsões interiores do orbe localizam os calores centrais do planeta, restringindo a zona das influências telúricas necessárias à manutenção da vida animal.

Esses fenômenos geológicos estabelecem os contornos geográficos do globo, delineando os continentes e fixando a posição dos oceanos, surgindo, desse modo, as grandes extensões de terra firme, aptas a receber as sementes prolíficas da vida. Os primeiros crustáceos terrestres são um prolongamento dos crustáceos marinhos. Seguindo-lhes as pegadas, aparecem os batráquios, que trocam as águas pelas regiões lodosas e firmes.

Nessa fase evolutiva do planeta, todo o globo se veste de vegetação luxuriante, prodigiosa, de cujas florestas opulentas e desmesuradas as minas carboníferas dos tempos modernos são os petrificados vestígios.

OS ENSAIOS ASSOMBROSOS

Nessa altura, os artistas da criação inauguram novos períodos evolutivos, no plano das formas. A Natureza torna-se uma grande oficina de ensaios monstruosos. Após os répteis, surgem os animais horrendos das eras primitivas. Os trabalhadores do Cristo, como os alquimistas que estudam a combinação das substâncias, na retorta de acuradas observações, analisavam, igualmente, a combinação prodigiosa dos complexos celulares, cuja formação eles próprios haviam delineado, executando, com as suas experiências, uma justa aferição de valores, prevendo todas as possibilidades e necessidades do porvir.

Todas as arestas foram eliminadas. Aplainaram-se dificuldades e realizaram-se novas conquistas. A máquina celular foi aperfeiçoada, no limite do possível, em face das leis físicas do globo. Os tipos adequados à Terra foram consumados em todos os reinos da Natureza, eliminando-se os frutos teratológicos e estranhos, do laboratório de suas perseverantes experiências.

A prova da intervenção das forças espirituais, nesse vasto campo de operações, é que, enquanto o escorpião, gêmeo dos crustáceos marinhos, conserva até hoje, de modo geral, a forma primitiva, os animais monstruosos das épocas remotas, que lhe foram posteriores, desapareceram para sempre da fauna terrestre, guardando os museus do mundo as interessantes reminiscências de suas formas atormentadas.

OS ANTEPASSADOS DO HOMEM

O reino animal experimenta as mais estranhas transições no período terciário, sob as influências do meio e em face dos imperativos da lei de seleção. Mas, o nosso raciocínio ansioso procura os legítimos antepassados das criaturas humanas, nessa imensa vastidão do proscênio da evolução anímica.

Onde está Adão com a sua queda do paraíso? Debalde nossos olhos procuram, aflitos, essas figuras legendárias, com o propósito de localizá-las no Espaço e no Tempo. Compreendemos, afinal, que Adão e Eva constituem uma lembrança dos Espíritos degredados na paisagem obscura da Terra, como Caim e Abel são dois símbolos para a personalidade das criaturas .

Examinada, porém, a questão nos seus prismas reais, vamos encontrar os primeiros antepassados do homem sofrendo os processos de aperfeiçoamento da Natureza. No período terciário a que nos reportamos, sob a orientação das esferas espirituais notavam-se algumas raças de antropóides, no Plioceno inferior. Esses antropóides, antepassados do homem terrestre, e os ascendentes dos símios que ainda existem no mundo, tiveram a sua evolução em pontos convergentes, e daí os parentescos sorológicos entre o organismo do homem moderno e o do chimpanzé da atualidade.

Reportando-nos, todavia, aos eminentes naturalistas dos últimos tempos, que examinaram meticulosamente os transcendentes assuntos do evolucionismo, somos compelidos a esclarecer que não houve propriamente uma "descida da árvore", no início da evolução humana.

As forças espirituais que dirigem os fenômenos terrestres, sob a orientação do Cristo, estabeleceram, na época da grande maleabilidade dos elementos materiais, uma linhagem definitiva para todas as espécies, dentro das quais o princípio espiritual encontraria o processo de seu acrisolamento, em marcha para a racionalidade. Os peixes, os répteis, os mamíferos, tiveram suas linhagens fixas de desenvolvimento e o homem não escaparia a essa regra geral.

A GRANDE TRANSIÇÃO

Os antropóides das cavernas espalharam-se, então, aos grupos, pela superfície do globo, no curso vagaroso dos séculos, sofrendo as influências do meio e formando os pródromos das raças futuras em seus tipos diversificados; a realidade, porém, é que as entidades espirituais auxiliaram o homem do sílex, imprimindo-lhe novas expressões biológicas.

Extraordinárias experiências foram realizadas pelos mensageiros do invisível. As pesquisas recentes da Ciência sobre o tipo de Neanderthal, reconhecendo nele uma espécie de homem bestializado, e outras descobertas interessantes da Paleontologia, quanto ao homem fóssil, são um atestado dos experimentos biológicos a que procederam os prepostos de Jesus, até fixarem no "primata" os característicos aproximados do homem futuro.

Os séculos correram o seu velário de experiências penosas sobre a fronte dessas criaturas de braços alongados e de pêlos densos, até que um dia as hostes do invisível operaram uma definitiva transição no corpo perispiritual preexistente, dos homens primitivos, nas regiões siderais e em certos intervalos de suas reencarnações.

Surgem os primeiros selvagens de compleição melhorada, tendendo à elegância dos tempos do porvir. Uma transformação visceral verificara-se na estrutura dos antepassados das raças humanas. Como poderia operar-se semelhante transição? perguntará o vosso critério científico. Muito naturalmente. Também as crianças têm defeitos da infâncias corrigidos pelos pais, que as preparam em face da vida, sem que, na maioridade, elas se lembrem disso. (...)

03 - A evolução do Princípio Inteligente - Durval Ciamponi - pág. 137

15. - GÊNESE ORGÂNICA E GÊNESE ESPIRITUAL
Tenho por orientação básica de raciocínio que no decorrer do tempo, séculos e séculos, os homens vão aprendendo cada vez mais a respeito das leis que governam a vida humana e a vida do Universo: é tudo decorrência da lei do progresso, fazendo surgir a civilização e a cultura. Sei também que os Espíritos, embora sendo a alma dos homens que se foram, sabem um pouco mais, porquanto estão libertos do esquecimento do passado e, como tal, têm maior lembrança dos conhecimentos das vivências passadas. É evidente que falamos dos Espíritos mais elevados, como aqueles que foram os orientadores da Codificação kardequiana.

Citamos como exemplos dois casos: Primeiro: Jesus falou da reencarnação e os homens não entenderam porque pensavam na ressurreição que, para eles, tinha à época significado diferente. Jesus deu a grande coordenada e os homens passaram a procurá-la através do raciocínio. Com Kardec repetiu-se o mesmo critério no que se refere à evolução da alma. Os Espíritos anunciaram o gênero e os homens ficaram com a obrigação de descobrir as espécies. Tudo me parece muito lógico e natural, pois o mundo espiritual não deve dizer ao mundo dos homens o que fazer, mas somente sugerir genericamente.

A revelação, como tal, não nos pode induzir ao erro nem dar informações incorretas. Uma dúvida, entretanto, assalta-me a mente, dado que não foi ainda bem interpretada no verdadeiro sentido do que disseram os Espíritos. Exemplo: Eles disseram, na questão 71 de "O Livro dos Espíritos", que "as plantas vivem e não pensam, não tendo mais que vida orgânica". Repetiram a mesma informação na questão 586. Não é problema de tradução nem de interpretação, pois a frase, em francês, é a mesma na primeira e na segunda edição, não sendo de difícil tradução.

Que as plantas vivem é fácil compreender. Também fácil de entender é que as plantas não pensam, porquanto vivem na fase instintiva de seu processo de desenvolvimento. Fica difícil, entretanto, compreender que elas não têm "mais do que vida orgânica", principalmente quando se interpreta a lição do amplo progresso evolutivo do princípio inteligente que se deduz das linhas gerais da Codificação.

Se as plantas não tivessem mais que vida orgânica não seriam um princípio inteligente em evolução e estariam elas excluídas do processo evolutivo mencionado nas questões 540, 606, 607 e outras de "O Livro dos Espíritos". Se as plantas não tivessem mais que vida orgânica, ávida do ser espiritual iniciar-se-ia no reino dos animais, mais inferiores, como, aliás, foi uma das hipóteses mencionadas por Kardec (LÊ, 613, comentários, e "A Gênese", cap. X, itens 20 a 24, e cap. XI, itens 23 e 29). Se as plantas não tivessem mais que vida orgânica seriam seres puramente materiais, formados nos termos da questão 63, que diz que "a vida é um efeito produzido pela ação de um agente sobre a matéria".

Em síntese, ávida orgânica, sem a vida do princípio inteligente criado por Deus, é simplesmente matéria orgânica, passível de criação em laboratório, como realmente já foi conseguida, conforme disse Oparim "a vida não é mais que uma forma particular de existência da matéria, forma de existência cuja origem e destruição obedecem a leis determinadas".

Depois de expor sua tese do surgimento dos seres vivos a partir dos coacervados e seu desenvolvimento, conclui que "as primeiras gotas coacerváticas eram de estrutura relativamente simples, mas, com o tempo, operaram-se modificações importantes em sua estrutura. Complicaram-se e aperfeiçoaram-se cada vez mais e tornaram-se, finalmente, os primeiros seres vivos, antepassados de tudo o que vive na Terra". Completa seu raciocínio dizendo que "surgiu a célula, formaram-se os organismos unicelulares, e, a seguir, seres pluricelulares que povoaram nosso planeta. A ciência refuta, assim, as lendas religiosas sobre o princípio espiritual da vida e a origem divina dos seres vivos".

De modo geral, o pensamento científico estuda a gênese orgânica, isto é a evolução dos corpos dos seres vivos sem se preocupar com a idéia de um princípio espiritual, conjugado com eles, dirigindo-lhe os movimentos e ações instintivas ou pensadas. Assim escrevem: C. Loring Brace, da Universidade de Michigan, em "Os Estágios da Evolução Humana", da Zahar Editores; G. Ledyard Stebbins, Professor de Genética da Universidade da Califórnia, em seu livro "Processos de Evolução Orgânica", da Editora Polígono; igualmente Paul Amos Moody, Professor de História Natural e Zoologia, da Universidade Vermont, em seu livro "Introdução à Evolução", Editora da Universidade de Brasília; sem falar, naturalmente, de Charles R. Darwin, com seu trabalho sobre "A Origem das Espécies", da Hemus, Livraria Editora Ltda.

Depois de Kardec, Leon Denis, principalmente em "O Problema do Ser, do Destino e da Dor"; Gabriel Delanne, em "A Evolução Anímica"; Camille Flammarion, em "Deus na Natureza", seus companheiros de trabalho, passaram a defender a tese de que os primeiros seres vivos da Terra, as algas monocelulares que surgiram na camada gelatinosa do protoplasma que cobriu o planeta, correspondiam às primeiras manifestações do princípio inteligente, ampliando o conceito deixado na Codificação. Igualmente, André Luiz, Emmanuel e outros Espíritos confirmaram e não restringiram o pensamento destes sábios encarnados, razão porque entendemos que esta é a posição correta do processo evolutivo.

A Biologia divide os seres vivos nos reinos: monera (seres vivos inferiores, que não possuem células com núcleos organizados); protista (seres vivos inferiores, com células de núcleos organizados); metaphita (plantas e árvores em geral) e metazoa (animais pluricelulares), cada grupo guardando certas relações de parentesco entre si. Os autores espíritas e espirituais mencionados ensinam a gênese dos seres vivos, quanto à forma, na mesma base que os cientistas.

"Anotamos, entretanto, de início, duas divergências fundamentais. Primeira, os cientistas terrenos não consideram a existência da alma, eles pensam somente no aspecto material, examinam a matéria, os fatos, e por intermédio destes estudos conseguem demonstrar a cadeia evolutiva do corpo. Ao estudarem a evolução do corpo físico desde sua fase primitiva, monocelular, até a sua complexidade de hoje, procuram mostrar que o surgimento do homem ocorreu nesse processo evolutivo a partir de mutações ou modificações da matéria, adaptando-se ele, corpo, à natureza, em função de uma série de ocorrências climáticas ou de seleção natural, como afirmou Darwin que é confirmado por outros antropólogos atuais.

Dentro dos ensinamentos dos Espíritos, todavia, a evolução do corpo físico, como admitida pelos cientistas por força de mutações ocorridas ao acaso, é subordinada e dirigida pelo princípio inteligente que, em sua evolução, utiliza os diferentes corpos ou filtros de transformismo, como indicou André Luiz. Assim se entendem as duas fases da evolução dos seres vivos. Disse Emmanuel, em "A Caminho da Luz", que os "arquitetos espirituais" interferiram na organização das espécies até que encontraram a forma definitiva. Pergunta-se: onde foi feita esta intervenção? Esta intervenção, como Espíritos que eram, somente poderia ter sido feita no corpo espiritual, já que não havia a espécie humana na Terra.

Sabemos que o perispírito é o elo de ligação entre a alma e o corpo e, que este é reflexo daquele, logo, o que define a espécie não é a mutação, aparente para os homens, mas a modificação realizada no perispírito pelos Espíritos arquitetos. O que é causa de evolução para os homens é efeito para os Espíritos. Associando a gênese espiritual à gênese orgânica, chegamos à complexidade do corpo, à complexidade do conhecimento e à complexidade das conquistas do espírito nos diferentes degraus de sua escalada evolutiva.

Outro ponto interessante a pensar é a diferença existente entre a gênese perispiritual e a gênese orgânica do corpo físico. O perispírito primitivo, como túnica mental do princípio inteligente, também é um corpo moldado pela ação da alma ao longo dos milênios. Este corpo mental, que é reflexo do espírito, modela o corpo espiritual, como corpo de ação utilizado nas esferas extra-físicas, e este, sob o comando da alma, serve de modelo para o corpo físico. Como se vê, este estudo exige criteriosas considerações em sua análise.

Outro fato interessante a ser examinado neste processo evolutivo da gênese orgânica, associada à evolução da alma, está contido na análise das questões 591 e 601 de "O Livro dos Espíritos". Perguntou Kardec: Nos mundos superiores as plantas são, como os outros seres, de natureza mais perfeita? Responderam os Espíritos que "tudo é mais perfeito, mas as plantas são sempre plantas, como os animais são sempre animais e os homens sempre homens". Na questão 601, complementam que os animais, nos mundos superiores, são "servidores inteligentes", embora inferiores e submetidos aos homens.

Como linha geral de um raciocínio genérico, tomamos como base a informação de que a natureza não dá saltos, tudo nela se encadeia e tende à unidade (LÊ, 540, 607, 609 e 611). Nestas condições, é claríssima a informação dos Espíritos. O princípio inteligente, ou mônada celeste, com seu corpo mental desde a criação, inicia sua evolução em mundos extrafisicos, elaborando primeiro sua organização perispiritual de vida lá. Numa segunda fase, ingressa no mundo físico, em mundo primitivo, começando no protoplasma, qual ovo numa chocadeira, para dar início à sua jornada na esfera física, nas fases mais inferiores do reino monera.

Evolui para mundos superiores, ainda como plantas. Quando atingir o grau máximo da fase vegetal nos mundos superiores, certamente estará apta a ingressar na fase animal, mas no seu ponto mínimo, isto é, o grau máximo do princípio inteligente na fase vegetal é inferior ao grau mínimo, como estágio evolutivo, de sua fase animal. Assim, sucessivamente, como animal inicia sua evolução no seu ponto mínimo até atingir seu grau máximo. Quando atingir este ponto máximo da escala animal estará em condições de ascender ao nível hominal, também no seu ponto mínimo.

Isto não quer dizer que não possam conviver num mesmo mundo seres de diferentes níveis de evolução, porquanto eles são solidários entre si. A natureza não dá saltos e é por isso que,como espécies, as plantas são sempre plantas, os animais sempre animais e os homens sempre homens. Da mesma forma, compreende-se porque as plantas, os animais e os homens são mais evoluídos nos mundos superiores.

Hoje nesta 2.a edição, posso dizer que esta afirmação dos Espíritos, constante da questão 591, e um resquício da edição de "O Livro dos Espíritos", de 18/04/1857, dado que lá foi escrito que o homem sempre foi homem e nunca estagiou nos reinos inferiores. No livro "Períspirito e Corpo Mental", Edições FEESP, março/1999, fizemos um estudo comparativo entre l.a e a 2.a edição do LÊ, observando e analisando os porquês de algumas alterações, numa tentativa de demonstrar o grande esforço despendido por Allan Kardec com a sua grande sabedoria, legando-os a codificação básica da manifestação dos Espíritos, como o Consolador Prometido por Jesus.

Sei que não posso provar nada disso, logo não tem valor "científico", diz-se. Considerando, todavia, o conhecimento científico e as informações dos Espíritos, pode-se admitir hipóteses racionais e lógicas que justificam, para o homem, a evolução do princípio inteligente desde os reinos inferiores até os superiores.

Relata Gabriel Delanne que "nos vertebrados, se tomarmos sempre como base o desenvolvimento do sistema nervoso e mais particularmente do cérebro, como criterium da inteligência, veremos, segundo Leuret, que o encéfalo, tomado como unidade, estão em relação ao peso do corpo:
1. Nos peixes: como l está para ...................... 5.668
2. Nos répteis: como l está para ..................... 1.321
3. Nos pássaros: como l está para................... 212
4. Nos mamíferos: como l está para................ 186

Complementa Delanne que há uma "progressão contínua do encéfalo, quando passa de uma ramificação à que lhe é imediatamente superior". No mesmo sentido pode-se examinar o aumento da capacidade craniana dos mamíferos superiores, a partir dos pongídeos. O ingresso do princípio inteligente na fase de humanização deu-se no pleistoceno, provavelmente, embora sem importância para o Espiritismo, com o Australopthecus Africanus, tido por alguns antropólogos como o primeiro ser da espécie humana. Outros consideram o Homo Habilis como o primeiro hominídeo. Segue-se-lhe o Homo Erectus e depois o Homo Sapiens. Fato de singular importância, nesta fase, é examinar a evolução do princípio inteligente e sua gênese orgânica no que tange ao aumento da capacidade craniana. (..)


04 - A Gênese - Allan Kardec - cap. VI, 19 cap. XI,23

A CRIAÇÃO UNIVERSAL
17.- Depois de termos remontado, tanto quanto está na nossa fraqueza, até a fonte oculta de onde emanam os mundos, como as gotas de um rio, consideremos a marcha das criações sucessivas e de seus desenvolvimentos seriados. A matéria cósmica primitiva encerrava os elementos materiais, fluídicos e vitais, de todos os universos que expõem a sua magnificência diante da eternidade; ela é a mãe fecunda de todas as coisas, a primeira avó, e, o que é mais, a geratriz eterna. Ela não desapareceu, essa substância da qual provêm as esferas siderais; não está morta, essa força, porque dá, ainda, incessantemente, a luz a novas criações, e recebe, incessantemente, os princípios reconstituídos dos mundos que se apagam do livro eterno.

A matéria etérea, mais ou menos rarefeita, que permeia os espaços interplanetários; esse fluido cósmico que preenche o mundo, mais ou menos rarefeito nas regiões imensas, ricas em aglomerações de estrelas, mais ou menos condensado ali onde o céu astral não brilha ainda, mais ou menos modificado por diversas combinações segundo as localidades da extensão, não é outra senão a substância
primitiva em que residem as forças universais, de onde a Natureza tirou todas as coisas.

18.- Esse fluido penetra os corpos como um imenso oceano. É nele que reside o princípio vital que dá nascimento à vida dos seres e a perpetua sobre cada globo, segundo sua condição, princípio em estado latente que dorme lá onde a voz de um ser não o chama. Cada criatura, mineral, vegetal, animal ou outra - porque há muitos outros reinos naturais, dos quais não supomos a própria existência -, sabe, em virtude desse princípio vital universal, se apropriar as condições de sua existência e de sua duração. As moléculas dos minerais têm a sua quantidade dessa vida, do mesmo modo que a semente e o embrião, e se agrupam, como no organismo, em figuras simétricas, que constituem os indivíduos.

Importa muito se compenetrar desta noção: de que a matéria cósmica primitiva estava revestida não somente de leis que asseguram a estabilidade dos mundos, mas, ainda, do princípio vital universal que forma as gerações espontâneas sobre cada mundo, à medida que se manifestam as condições da existência sucessiva dos seres, e quando soa a hora de aparição do produto da vida, durante o período criador. Assim se efetua a criação universal. É, pois, verdadeiro dizer que, sendo as operações da Natureza a expressão da vontade divina, Deus criou sempre, criou sem cessar,e criará sempre.

19. - Mas, até aqui, passamos sob silêncio o mundo espiritual, que, ele também, fez parte da criação e cumpriu o seu destino segundo as augustas prescrições do Senhor. Não posso dar senão um ensino muito restrito sobre o modo de criação dos Espíritos, tendo em vista a minha própria ignorância, e devo me calar, ainda, sobre certas questões, embora me seja permitido aprofundá-las.

Àqueles que estão religiosamente desejosos de conhecer, e que são humildes diante de Deus, direi, suplicando-lhes não basear nenhum sistema prematuro sobre as minhas palavras: o Espírito não chega a receber a iluminação divina que lhe dá, ao mesmo tempo que o livre arbítrio e a consciência, a noção de seus altos destinos, sem ter passado pela série, divinamente fatal, dos seres inferiores, entre os quais se elabora, lentamente, a obra da sua individualidade; é somente a partir do dia em que o Senhor imprime sobre a sua fronte o seu augusto tipo, que o Espírito toma lugar entre as humanidades.

Ainda uma vez, não construais sobre as minhas palavras os vossos raciocínios, tão tristemente célebres na história da metafísica; preferiria mil vezes calar-me sobre questões tão elevadas, acima das nossas meditações comuns, antes que vos expor a desnaturarem o sentido do meu ensino, e a vos mergulhar, por falta minha, nos dédalos inextricáveis do deísmo ou do fatalismo.

OS SÓIS E OS PLANETAS

20. - Ora, ocorre que, num ponto do Universo, perdida entre as miríades de mundos, a matéria cósmica se condensa sob a forma de uma imensa nebulosa. Essa nebulosa está animada por leis universais que regem a matéria; em virtude dessas leis, e notadamente da força molecular de atração, ela toma a figura de um esferóide, a única que pode revestir, primitivamente, uma massa de matéria isolada no espaço.

O movimento circular produzido pela gravitação, rigorosamente igual, de todas as zonas moleculares para o centro, logo modifica a esfera primitiva para conduzi-la, de movimento em movimento, para a forma lenticular. - Falamos do conjunto de nebulosa.

21. - Novas forças surgem em consequência desse movimento de rotação: a força centrípeta e a força centrífuga; a primeira tendendo a reunir todas as partes ao centro, a segunda tendendo a distanciá-las dele. Ora, o movimento se acelerando à medida que a nebulosa se condensa, e seu raio aumentando à medida que ela se aproxima da forma lenticular, a força centrífuga, incessantemente desenvolvida pelas suas duas causas, logo predomina sobre a atração central.

Do mesmo modo que um movimento muito rápido da funda parte acorda e deixa escapar, para longe, o projétil, assim a predominância da força centrífuga destaca o centro equatorial da nebulosa, e, desse anel, forma uma nova massa, isolada da primeira, mas, não obstante, submissa ao seu império. Essa massa conservou o seu movimento equatorial que, modificado, torna-se seu movimento de translação ao redor do astro solar. Além do mais, o seu novo estado lhe dá um movimento de rotação ao redor do seu próprio centro.

22. - A nebulosa geratriz, que dá nascimento a esse novo mundo, conservou-se e retoma a forma esférica; mas o calor primitivo, desenvolvido pelos seus movimentos diversos, não se enfraquecendo senão com uma extrema lentidão, o fenômeno que acabamos de descrever se reproduzirá com frequência e durante um longo período, enquanto essa nebulosa não se tornar muito densa, bastante sólida, para opor uma resistência eficaz às modificações de forma, que lhe imprime sucessivamente o seu movimento de rotação.

Ela não terá, pois, dado nascimento a um único astro, mas a centenas de mundos destacados do foco central, resultantes dela pelo modo de formação mencionados mais acima. Ora, cada um desses mundos, revestidos, como o mundo primitivo, de forças naturais que presidem à criação de universos, engendrará, em seguida, novos globos gravitando, doravante, ao redor dele, como ele gravita, concorrentemente com os seus irmãos, ao redor do foco de sua existência e de sua vida. Cada um desses mundos será um sol, centro de um turbilhão de planetas, sucessivamente saídos do seu equador. Esses planetas receberão uma vida especial, particular, embora dependente de seu astro gerador.

23. - Os planetas são, assim, formados de massas de matéria condensada, mas não ainda solidificada, destacadas da massa central pela ação da força centrífuga, e tomando, em virtude das leis do movimento, a forma esferoidal mais ou menos elíptica, segundo o grau de fluidez que conservaram. Um desses planetas será a Terra que, antes de estar resfriada e revestida de uma crosta sólida, dará nascimento à Lua, pelo mesmo modo de formação astral ao qual deve a sua própria existência; a Terra, doravante inscrita no livro da vida, berço de criaturas cuja fraqueza está protegida sob a asa da divina Providência, corda nova na harpa infinita, que deve vibrar, em seu lugar, no concerto universal dos mundos. (..)

CAPÍTULO XI - GÊNESE ESPIRITUAL
PRINCÍPIO ESPIRITUAL
1. - A existência do princípio espiritual é um fato que não tem, por assim dizer, mais necessidade de demonstração que o princípio material; é de alguma sorte uma verdade axiomática: afirma-se por seus efeitos, como a matéria por aqueles que lhe são próprios. Segundo o princípio: "Todo efeito tendo uma causa, todo efeito inteligente deve ter uma causa inteligente," não há ninguém que não faça a diferença entre o movimento mecânico de um sino agitado pelo vento, e o movimento desse mesmo sino destinado a dar um sinal, uma advertência, atestando, por isso mesmo, um pensamento, uma intenção. Ora, como a ninguém pode vir a idéia de atribuir o pensamento à matéria do sino, disso se conclui que está movido por uma inteligência à qual serve de instrumento para se manifestar.

Pela mesma razão, ninguém tem a ideia de atribuir o pensamento ao corpo de um homem morto. Se o homem vivo pensa, é, pois, que há nele alguma coisa que não há mais quando está morto. A diferença que existe entre ele e o sino, é que a inteligência que faz mover este está fora dele, ao passo que a que faz o homem agir está nele mesmo.

2.-O princípio espiritual é o corolário da existência de Deus; sem esse princípio, Deus não teria razão de ser, porque não se poderia mais conceber a soberana inteligência reinando, durante a eternidade, somente sobre a matéria bruta, que um monarca terrestre não reinando, durante toda sua vida, senão sobre pedras. Como não se pode admitir Deus sem os atributos essenciais da Divindade: a justiça e a bondade, essas qualidades seriam inúteis se não devessem se exercer senão sobre a matéria.

3. - Por outro lado, não se poderia conceber um Deus soberanamente justo e bom, criando seres inteligentes e sensíveis, para destiná-los ao nada, depois de alguns dias de sofrimentos sem compensações, repassando sua visão dessa sucessão indefinida de seres que nascem sem o ter pedido, pensam um instante para não conhecerem senão a dor, e se extinguem para sempre depois de uma existência efêmera.

Sem a sobrevivência do ser pensante, os sofrimentos da vida seriam, da parte de Deus, uma crueldade sem objetivo. Eis porque o materialismo e o ateísmo são os corolários um do outro; negando a causa, não podem admitir o efeito; negando o efeito, não podem admitir a causa. O materialismo, portanto, é consequente consigo mesmo, se não o é com a razão.

4. - A idéia da perpetuidade do ser espiritual é inata no homem; nele está no estado de intuição e de aspiração; compreende que só aí está a compensação às misérias da vida: por isso sempre houve, e sempre haverá, mais espiritualistas que materialistas, e mais deístas do que ateus.

À idéia intuitiva e ao poder do raciocínio, o Espiritismo vem acrescentar a sanção dos fatos, a prova material da existência do ser espiritual, de sua sobrevivência, de sua imortalidade e de sua individualidade; ele precisa e define o que este pensamento tinha de vago e de abstrato. Mostra-nos o ser inteligente agindo fora da matéria, seja depois, seja durante a vida do corpo.

5.- O princípio espiritual e o princípio vital são uma só e a mesma coisa? Partindo, como sempre, da observação dos fatos, diremos que, se o princípio vital fosse inseparável do princípio inteligente, não haveria aí qualquer razão para confundi-los; mas, uma vez que se vêem seres que vivem e não pensam, como as plantas; corpos humanos serem ainda animados da vida orgânica, quando neles então que não existe nenhuma manifestação do pensamento; que se produzem no ser vivo movimentos vitais independentes de todo ato de vontade; que durante o sono a vida orgânica está em toda a sua atividade, ao passo que a vida intelectual não se manifesta por nenhum sinal exterior; há lugar para se admitir que a vida orgânica reside num princípio inerente à matéria, independente da vida espiritual que é inerente ao Espírito. Desde então, que a matéria tem uma vitalidade independente do Espírito, e que o Espírito tem uma vitalidade independente da matéria, torna-se evidente que esta dupla vitalidade repousa sobre dois princípios diferentes. (Cap. X, Nss. 16 a 19).

6. - O princípio espiritual teria sua fonte no elemento cósmico universal? Não seria senão uma transformação, um modo de existência desse elemento, como a luz, a eletricidade, o calor, etc.? Se assim fosse, o princípio espiritual sofreria as vicissitudes da matéria; extinguir-se-ia pela desagregação como o princípio vital; o ser inteligente não teria senão uma existência momentânea como o corpo, e na morte reentraria no nada, ou, o que vem a ser o mesmo, no todo universal; isto seria, numa palavra, a sanção das doutrinas materialistas.

As propriedades sui generis que são reconhecidas no princípio espiritual provam que ele tem a sua existência própria, independente, uma vez que, se tivesse a sua origem na matéria, não teria essas propriedades. Uma vez que a inteligência e o pensamento não podem ser atributos da matéria, chega-se a esta conclusão, remontando dos efeitos à causa, que o elemento material e o elemento espiritual são os dois princípios constitutivos do Universo. O elemento espiritual individualizado constitui os seres chamados Espíritos, como o elemento material individualizado constitui os diferentes corpos da Natureza, orgânicos e inorgânicos.

7.-Sendo admitido o ser espiritual, e sua fonte não podendo estar na matéria, qual é a sua origem, o seu ponto de partida?
Aqui, os meios de investigação fazem absolutamente falta, como em tudo o que se prende ao princípio das coisas. O homem não pode constatar senão o que existe; sobre todo o resto, não pode emitir senão hipóteses; e seja que esse conhecimento ultrapasse a capacidade de sua inteligência atual, seja que há para ele inutilidade ou inconveniência em possuí-lo para o momento, Deus não lho dá, mesmo pela revelação.

O que Deus lhe faz dizer, pelos seus mensageiros, e o que, aliás, o homem poderia deduzir, ele mesmo, do princípio da soberana justiça, que é um dos atributos essenciais da Divindade, é que todos têm um mesmo ponto de partida; que todos são criados simples e ignorantes, com uma igual aptidão para progredir pela sua atividade individual; que todos atingirão o grau de perfeição compatível com a criatura pelos seus esforços pessoais; que todos, sendo filhos de um mesmo Pai, são o objeto de uma igual solicitude; que não há nenhum mais favorecido ou melhor dotado que os outros, e dispensado do trabalho que seria imposto a outros para alcançar o objetivo.

8.-Ao mesmo tempo que Deus criou mundos materiais de toda a eternidade, igualmente criou seres espirituais de toda a eternidade; sem isso, os mundos materiais estariam sem objetivo. Conceber-se-ia antes os seres espirituais sem os mundos materiais, que estes últimos sem os seres espirituais. São os mundos materiais que devem fornecer aos seres espirituais os elementos da atividade para o desenvolvimento de sua inteligência.

9. - O progresso é a condição normal dos seres espirituais, e a perfeição relativa o objetivo que devem alcançar; ora, Deus tendo criado de toda a eternidade, e criando sem cessar, de toda a eternidade também terá havido os que alcançaram o ponto culminante da escala.

Antes que a Terra existisse, mundos haviam sucedido os mundos, e quando a Terra saiu do caos dos elementos, o espaço estava povoado de seres espirituais, em todos os graus de adiantamento, desde aqueles que nasciam para a vida, até aqueles que, de toda a eternidade, tomaram lugar entre os puros Espíritos, vulgarmente chamados anjos.

UNIÃO DO PRINCÍPIO ESPIRITUAL E DA MATÉRIA

10. - Devendo a matéria ser o objeto de trabalho do Espírito, para o desenvolvimento de suas faculdades, era necessário que pudesse atuar sobre ela, por isso veio habitá-la, como o lenhador habita a floresta. Devendo ser a matéria, ao mesmo tempo, o objetivo e o instrumento de trabalho, Deus, em lugar de unir o Espírito à pedra rígida, criou, para seu uso, corpos organizados; flexíveis, capazes de receber todos os impulsos de sua vontade, e de se prestar a todos os seus movimentos.

O corpo é, pois, ao mesmo tempo, o envoltório e o , instrumento do Espírito, e à medida que este adquire novas aptidões, ele reveste um envoltório apropriado ao novo gênero de trabalho que deve realizar, como se dá a um obreiro ferramentas menos grosseiras à medida que ele seja capaz de fazer uma obra mais cuidada.

11. — Para ser mais exato, é necessário dizer que é o próprio Espírito que dá forma ao seu envoltório e o apropria as suas novas necessidades; aperfeiçoa-o, desenvolve-o e completa o organismo à medida que sente a necessidade de manifestar novas faculdades; em uma palavra, ele a coloca na estatura de sua inteligência; Deus lhe fornece os materiais: cabe-lhe empregá-los; assim é que as raças avançadas têm um organismo ou, querendo-se, uma aparelhagem cerebral mais aperfeiçoada que as raças primitivas.

Explica-se assim, igualmente, o cunho especial que o caráter do Espírito imprime aos traços da fisionomia e ao comportamento do corpo. (Cap. VIII, no. 7: da Alma da Terra).

12. - Desde que um Espírito nasce na vida espiritual, deve, para o seu adiantamento, fazer uso de suas faculdades, de início, rudimentares; por isso, ele reveste um envoltório corporal apropriado ao seu estado de infância intelectual, envoltório que deixa para revestir um outro à medida que as suas forças aumentam. Ora, como em todos os tempos houve mundos, e que esses mundos deram nascimento a corpos organizados próprios a receberem os Espíritos, de todos os tempos os Espíritos encontraram, qualquer que fosse o seu grau de adiantamento, os elementos necessários à sua vida carnal.

13.-Sendo o corpo exclusivamente material, sofre as influências da matéria. Depois de funcionar algum tempo, ele se desorganiza e se decompõe; o principio vital, não achando mais o elemento de sua atividade, se extingue e o corpo morre. O Espírito, para quem o corpo privado de vida é doravante sem utilidade, deixa-o como se deixa uma casa em ruína ou uma veste fora de serviço.

14. - O corpo não é, pois, senão um envoltório destinado a receber o Espírito; desde então, pouco importam a sua origem e os materiais de que é construído. Que o corpo do homem seja uma criação especial ou não, não deixa de ser formado com os mesmos elementos que o dos animais, animado do mesmo princípio vital, de outro modo dito, aquecido pelo mesmo fogo, como é alumiado pela mesma luz, sujeito às mesmas vicissitudes e às mesmas necessidades: é um ponto sobre o qual não há contestação.

A não considerar senão a matéria, e fazendo abstração do Espírito, o homem não tem, pois, nada que o distingue do animal; mas tudo muda de aspecto fazendo-se uma distinção entre a habitação e o habitante.

Um grande senhor, sob o colmo ou vestido com o burel de um camponês, com isso não se acha menos grande senhor. Ocorre o mesmo com o homem; não é a sua vestimenta de carne que o eleva acima do animal e dele faz um ser à parte, é o seu ser espiritual, o seu Espírito.

HIPÓTESE SOBRE A ORIGEM DOS CORPOS HUMANOS

15.-Da semelhança de formas exteriores que existem entre o corpo do homem e o do macaco, certos fisiologistas concluíram que o primeiro não era senão uma transformação do segundo. Nisso não há nada de impossível, sem que, se assim o for, a dignidade do homem tenha algo a sofrer. Corpos de macacos puderam muito bem servir de vestimenta aos primeiros Espíritos humanos, necessariamente pouco avançados, que vieram se encarnar sobre a Terra, sendo essas vestimentas os meios apropriados às suas necessidades e mais próprios ao exercício de suas faculdades que o corpo de nenhum outro animal. Em lugar de que uma vestimenta especial fosse feita para o Espírito, nele encontrou uma inteiramente pronta.

Deve, pois, ter-se vestido com a pele do macaco, sem deixar de ser Espírito humano, como o homem se reveste, às vezes, com a pele de certos animais, sem deixar de ser homem. Fique bem entendido que não se trata aqui senão de uma hipótese, que de nenhum modo é colocada como princípio, mas dada somente para mostrar que a origem do corpo não prejudica o Espírito, que é o ser principal, e que a semelhança do corpo do homem com o corpo do macaco não implica a paridade entre seu Espírito e o do macaco.

16.-Admitindo essa hipótese, pode-se dizer que, sob a influência e pelo efeito da atividade intelectual de seu novo habitante, o envoltório modificou-se, embelezou-se nos detalhes, conservando em tudo a forma geral do conjunto. Os corpos melhorados, em se procriando, reproduziram-se nas mesmas condições, como ocorre com árvores enxertadas; deram nascimento a uma nova espécie que, pouco a pouco, se distanciou do tipo primitivo, à medida que o Espírito progrediu. O Espírito macaco, que não se exterminou, continuou a procriar corpos de macacos para seu uso, como o fruto da planta brava reproduz planta brava, e o Espírito humano procriou corpos de homens, variantes do primeiro molde em que se estabeleceu. A linhagem se bifurcou; ela produziu um descendente, e esse descendente tgrnou-se linhagem.

Como não há transição brusca na Natureza, é provável que os primeiros homens que apareceram sobre a Terra devem ter pouco diferenciado do macaco pela forma exterior, e, sem dúvida, não muito mais pela inteligência. Há ainda, em nossos dias, selvagens que, pelo comprimento dos braços e dos pés, e a conformação da cabeça, têm de tal modo o comportamento do macaco, que não lhes falta senão serem peludos para completarem a semelhança.

ENCARNAÇÃO DOS ESPÍRITOS

17. - O Espiritismo nos ensina de que maneira se opera a união do Espírito e do corpo na encarnação.
O Espírito, pela sua essência espiritual, é um ser indefinido, abstrato, que não pode ter uma ação direta sobre a matéria, sendo-lhe necessário um intermediário; esse intermediário está no envoltório fluídico que faz, de alguma sorte, parte integrante do Espírito, envoltório semi-material, quer dizer, tendo da matéria por sua origem e da espiritualidade por sua natureza etérea; como toda matéria, ela é haurida no fluido cósmico universal, que sofre, nessa circunstância, uma modificação especial. Esse envoltório, designado sob o nome de perispírito, de um ser abstrato, faz um ser concreto, definido, perceptível pelo pensamento; ele o torna apto para agir sobre a matéria tangível, do mesmo modo que todos os fluidos imponderável, que são, como se sabe, os mais poderosos motores.

O fluido perispiritual é, pois, o traço de união entre o Espírito e a matéria. Durante a sua união com o corpo, é o veiculo de seu pensamento, para transmitir o movimento às diferentes partes do organismo que agem sob o impulso de sua vontade, e para repercutir no Espírito as sensações produzidas pelos agentes exteriores. Ele tem por fio condutor os nervos, como no telégrafo o fluido eletrico tem por condutor o fio metálico.

18. - Quando o Espírito deve se encarnar num corpo humano em vias de formação, um laço fluídico, que não é outra coisa senão uma expansão do seu perispírito, liga-o ao germe para o qual se acha atraído, por uma força irresistível, desde o momento da concepção. À medida que o germe se desenvolve, o laço se aperta; sob a influência do princípio vital material do germe, o perispírito, que possui certas propriedades da matéria, se une, molécula a molécula, com o corpo que se forma: de onde se pode dizer que o Espírito, por intermédio de seu perispírito, toma, de alguma sorte, raiz nesse germe, como uma planta na terra. Quando o germe está inteiramente desenvolvido, a união é completa, e, então, ele nasce para a vida exterior.

Por um efeito contrário, essa união do perispírito e da matéria carnal, que se cumprira sob a influência do princípio vital do germe, quando esse princípio deixa de agir, em consequência da desorganização do corpo, a união, que era mantida por uma força atuante, cessa quando essa força deixa de agir; então o perispírito se desliga, molécula a molécula, como estava unido, e o Espírito se entrega à sua liberdade. Assim, não é a partida do Espírito que causa a morte do corpo, mas a morte do corpo que causa a partida do Espírito.

Desde o instante que se segue à morte, a integridade do Espírito está inteira; que as suas faculdades adquirem mesmo uma penetração maior, ao passo que o princípio de vida está extinto no corpo, é a prova evidente de que o princípio vital e o princípio espiritual são duas coisas distintas.

19.-O Espiritismo nos ensina, pelos fatos que nos faculta observar, os fenômenos que acompanham essa separação; algumas vezes, ela é rápida, fácil, doce e insensível; de outras vezes, é lenta, laboriosa, horrivelmente penosa, segundo o estado moral do Espírito, e pode durar meses inteiros.

20. - Um fenômeno particular, igualmente assinalado pela observação, acompanha sempre a encarnação do Espírito. Desde que este é preso pelo laço fluídico que o liga ao germe, a perturbação se apodera dele; essa perturbação cresce à medida que a laço se aperta, e, nos últimos momentos, o Espírito perde toda a consciência de si mesmo, de sorte que ele nunca é testemunha consciente de seu nascimento. No momento em que a criança respira, o Espírito começa a recobrar as suas faculdades, que se desenvolvem à medida que se formam e se consolidam os órgãos que devem servir para a sua manifestação.

21. - Mas, ao mesmo tempo que o Espírito recobra a consciência de si mesmo, ele perde a lembrança de seu passado, sem perder as faculdades, as qualidades e as aptidões adquiridas anteriormente, aptidões que estavam, momentaneamente, estacionadas em seu estado latente e que, em retomando a sua atiyidade, vão ajudá-lo a fazer mais e melhor do que o fazia precedentemente; ele renasce o que se fez pelo seu trabalho anterior, é, por isso, um novo ponto de partida, um novo degrau a subir.

Aqui ainda se manifesta a bondade do Criador, porque a lembrança de um passado, frequentemente penoso ou humilhante, juntando-se às amarguras de sua nova existência, poderia perturbá-lo ou entravá-lo; ele não se lembra senão daquilo que aprendeu, porque isso lhe é útil. Se, algumas vezes, conserva uma vaga intuição dos acontecimentos passados, é como a lembrança de um sonho fugidio. É, pois, um homem novo, por ancião que seja o seu Espírito, ele se apoia sobre novos hábitos, com a ajuda dos que adquiriu. Quando ele entra na vida espiritual, o seu passado se desenrola aos seus olhos, e julga se empregou bem ou mal o seu tempo. (..)

10 - Justiça Divina - Emmanuel - pág. 77

DIANTE DA LEI - Reunião pública de 15-5-61 lª Parte, cap. III, item 6
O espírito consciente, criado através dos milênios nos domínios inferiores da natureza, chega à condição de humanidade, depois de haver pago os tributos que a evolução lhe reclama. A vista disso, é natural compreendas que o livre-arbítrio estabelece determinada posição para cada alma porquanto cada pessoa deve a si mesma a situação em que se coloca.

Possuis o que deste. Granjearás o que vens dando. Conheces o que aprendeste. Saberás o que estudas. Encontraste o que buscavas. Acharás o que procuras. Obtiveste o que pediste. Alcançarás o que almejas. És hoje o que fizeste contigo ontem. Serás amanhã o que fazes contigo hoje.

Chegamos, no dia claro da razão, simples e ignorantes diante do aprimoramento e do progresso, mas com liberdade interior de escolher o próprio caminho. Todos temos, assim, na vontade a alavanca da vida, com infinitas possibilidades de mentalizar e realizar. O governo do Universo é a justiça que define, em toda parte, a responsabilidade de cada um.

A glória do Universo é a sabedoria, expressando luz nas consciências. O sustento do Universo é o trabalho que situa cada inteligência no lugar que lhe compete. A felicidade do Universo é o amor na forma do bem de todos.

O Criador concede às criaturas, no espaço e no tempo, as experiências que desejem, para que se ajustem, por fim, às leis de bondade e equilíbrio que O manifestam. Eis por que, permanecer na sombra ou na luz, na dor ou na alegria, no mal ou no bem, é ação espiritual que depende de nós.