IDENTIDADE
BIBLIOGRAFIA
01- A alma é imortal - pág. 265, 279 02 - A evolução anímica - pág. 47
03 - Allan Kardec - vol. 3 - pág. 324 04 - Animismo e Espiritismo - vol. 2 - pág. 299
05 - Cristianismo e Espiritismo - pág. 301 06 - Do país da luz - vol. 4- pág. 50
07 - Lázaro redivivo - pág. 156 08 - No invisível - pág. 314
09 - O consolador - pág. 211 10 - O fenômeno Espírita - pág. 205
11 - O Livro dos Espíritos - q 284, 366 12 - O Livro dos Médiuns - cap. XXIV
13 - O que é Espiritismo - pág. 181, 183 14 - Quando os fantasmas se divertem - pág. 158
15 - Região em litígio - pág. 335

16 - Vozes do grande além - pág. 192

17 - Temas da vida e da morte - pág. 147  

LEMBRETE: O NÚMERO DA PÁGINA PODE VARIAR DE ACORDO COM A EDIÇÃO DA OBRA CITADA.

IDENTIDADE – COMPILAÇÃO

01 - A ALMA É IMORTAL - GABRIEL DELANNE - PÁG. 265

Estudo sobre a identidade dos Espíritos: Na sábia e conscienciosa obra que o Sr. Aksakof consagrou à refutação das teorias do filósofo Hartmann, depara-se-nos a conclusão seguinte:"Tendo adquirido por laboriosa senda a convicção de que o princípio individual sobrevive à dissolução do corpo e pode, sob certas condições, manifestar-se de novo por intermédio de um corpo humano, acessível a influências desse gênero, a prova absoluta da identidade do indivíduo resulta impossível." Votamos sincera admiração e profundo respeito ao sábio russo que revelou, na sua obra, espírito tão sagaz, quanto penetrante. Seu livro é uma das mais preciosas coletâneas de fenômenos bem estudados, onde os espíritas encontram armas decisivas para sustentar luta contra seus adversários. Mas, não podemos adotar todas as suas idéias, por se nos afigurar que o seu propósito, de manter-se estritamente nos limites que lhe impunha a sua discussão com Hartmann, o fez restringir demasiadamente o caráter de certeza que ressalta das experiências espíritas. Não haverá contradição entre a primeira e a segunda parte da citação acima? Como se há de adquirir "a convicção de que o principio individual sobrevive", se não se pode estabelecer a Identidade dos seres que se manifestam? Porque, desde que, coletivamente, todos os humanos sobrevivem, impossível será ter-se particular certeza, com relação a um deles? Examinemos os argumentos em que se baseou o Sr. Aksakoí para chegar àquela desoladora conclusão.

Segundo o autor, a presença de uma forma materializada, comprovada pela fotografia, ou nas sessões de materialização, não bastaria para lhe atestar a identidade, como, aliás, também não bastaria o conteúdo intelectual das comunicações. Eis porquê: "Não me resta mais do que formular o último desideratum, relativamente à prova de identidade fornecida pela materialização, e é que essa prova — do mesmo modo que o exigimos no tocante às comunicações intelectuais e à fotografia transcendental — seja dada na ausência de qualquer pessoa que possa reconhecer a figura materializada. Creio que se poderiam encontrar muitos exemplos desse gênero nos anais das materializações. Mas, a questão é esta: dado o fato, poderia ele servir de prova absoluta? Evidentemente, não, porque, admitido que um Espírito se pode manifestar dessa maneira, possível lhe é, e o ipso, prevalecer-se dos atributos de personalidade doutro Espírito e personificá-lo na ausência de quem quer que seja capaz de reconhecê-lo. Tal mascarada seria completamente insípida, visto que absolutamente nenhuma razão de ser teria. Do ponto de vista, porém, da crítica, não poderia ser ilógica a sua possibilidade."

Parece que o Sr. Aksakof admite como demonstrado que um Espírito pode mostrar-se sob qualquer forma, sob a que lhe apraza tomar, a fim de representar uma personagem que é ele. Ora, isso justamente é que seria necessário firmar, por meio de fatos numerosos e precisos. Se consultarmos os milhões de casos em que o Espírito de um vivo se faz visível, verificaremos que o duplo é sempre a reprodução rigorosamente fiel do corpo, atingindo essa identidade todas as partes do organismo, como o prova irrefutavelmente a modelagem do pé fluídico de Eglinton, do qual falamos às págs. 144/5 (cap. I, Segunda Parte). Quando o duplo inteiro de Eglinton se materializa, assemelha-se a tal ponto ao seu corpo físico, que há mister se veja o médium adormecido na sua cadeira, para se ficar persuadido de que ele não está no lugar onde se encontra a aparição. Quando a Sr.a Fay se mostra entre as duas metades da cortina, com suas vestes e o seu rosto, perfeitamente semelhante ao seu corpo físico, com os mesmos traços fisionômicos, cor dos olhos, do cabelo, da pele, faz-se preciso que a corrente elétrica lhe atravesse o organismo carnal, para se ter a certeza de não ser este o que se está vendo.

"Vi, diz o Sr. Brackett — experimentador muito céptico e muito prudente —, centenas de formas materializadas e, em muitos casos, o duplo fluídico do médium assemelhando-se-lhe tanto, que eu teria jurado ser o próprio médium, se não visse o mesmo duplo desmaterializar-se diante de mim e não houvesse, logo após, comprovado que o médium se conservava adormecido." Não acreditamos possa alguém citar um único exemplo de haver um duplo de vivo mudado o seu tipo, exclusivamente por vontade própria. Ao contrário, da observação das aparições espontâneas, tanto quanto das obtidas pela experiência, resulta que, se nenhuma influência exterior for exercida, o Espírito se mostra sempre sob a forma corpórea que lhe caracteriza a personalidade. Dar-se-á tenha ele, depois da morte, um poder que lhe faltava em vida? Poderia o Espírito dar ao seu corpo espiritual forma idêntica à de outro Espírito, de maneira a ser o sósia deste? É o que vamos examinar.

À primeira vista, parece que o fenômeno da transfiguração confirma a opinião de que o Espírito pode mudar de forma. Mas, será mesmo assim? Em realidade, o paciente é inteiramente passivo. Não é, pois, consciente ou voluntariamente que modifica o seu próprio aspecto. Ele sofre uma influência estranha, que substitui pela sua aparência a do médium, pois que, geralmente, este não conhece o Espírito que sobre ele atua. Não se pode, portanto, pretender que o Espírito de um médium seja capaz — eo ipso — de se transformar. Em nenhum caso foi isso ainda demonstrado e a substituição de forma bem se pode atribuir a outro Espírito, visto que, quando o desdobramento se produz de modo espontâneo, a forma do espírito é sempre a do corpo. Estudemos agora os casos em que a aparição é manifestamente diferente do médium e do seu duplo. Porventura já se comprovou que um Espírito, tendo-se mostrado sob uma forma bem definida, haja mudado de aspecto diante dos espectadores, assumindo outra inteiramente diversa da primeira? Jamais semelhante fenômeno se produziu. A única observação, do nosso conhecimento, que tem alguma relação com esse assunto, é a que relata o Sr. Donald Mac Nab, que conseguiu fotografar e tocar, com seis amigos seus, a materialização de uma moça que reproduziu absolutamente um velho desenho datando de vários séculos, desenho que muito impressionara o médium.

Nada, porém, prova, nesse exemplo, que essa aparição não seja a da moça representada no desenho, tendo bastado perfeitamente, para atraí-la, o pensamento simpático do médium. Não está, pois, de modo algum estabelecido que seja essa uma transformação do duplo do médium, nem tampouco uma criação fluídica objetivada pelo seu cérebro. O que algumas vezes se há verificado são modificações no talhe, na coloração do semblante, na expressão da fisionomia da aparição. Pode variar muito o grau da sua materialidade e, sendo esta fraca, não acentuar bastante os detalhes da semelhança; mas, o tipo geral não muda. As modificações são as de um mesmo modelo e não chegam para representar outro ser. Tomemos o exemplo de Katie King. Indubitavelmente, ela não era um desdobramento de Florence Cook, porquanto esta, vígil, conversa durante alguns minutos com Katie e o Sr. Crookes, que as vê a ambas. A independência intelectual do Espírito materializado se revela aí com toda a clareza, nada tendo de duvidoso com relação ao corpo físico, visto que o Sr. Crookes assinalou as diferenças de talhe, de tez, de cabeleira e, o que é mais importante, dos caracteres fisiológicos entre as duas.

"Uma noite, contei as pulsações de Katie. Seu pulso batia regularmente 75, ao passo que o da Srta. Cook, poucos instantes depois, chegava a 90, algarismo habitual. Colando o ouvido ao peito de Katie, ouvi-lhe o coração a bater dentro e os seus batimentos ainda mais regulares eram do que os do coração da Srta. Cook, quando, após a sessão, ela me permitiu a mesma experiência. Auscultados, os pulmões de Katie se revelaram mais sãos do que os do seu médium que, na ocasião em que fiz a minha experiência, estava em tratamento médico para um forte resfriado." Evidentemente, segundo o que se acaba de ler, Katie não era a figura nem do corpo, nem do duplo do médium. Tinha uma individualidade distinta, se bem nem sempre aparecesse por inteiro. Numa sessão com Varley, engenheiro-chefe das linhas telegráficas da Inglaterra, estando a médium fiscalizada eletricamente, Katie só se mostrou materializada a meio, até à cintura apenas, faltando ou conservando-se invisível o resto do corpo. "Apertei a mão àquele ser estranho, diz o célebre engenheiro, e, ao terminar a sessão, mandou Katie que eu fosse despertar a médium. Achei a Srta. Cook em transe, isto é, adormecida, como eu a deixara, e intactos todos os fios de platina. Despertei-a."

Segundo Epes Sargent, nos primeiros tempos, apenas se via o rosto; não havia cabelos, nem coisa alguma acima da fronte. Parecia uma máscara animada. Após cinco ou seis meses de sessões, apareceu a forma completa. Esses seres então se condensam mais facilmente e mudam de cabelos, de vestuário, de cor da tez, à vontade. Mas, note-se bem que é sempre o mesmo tipo, nunca uma outra forma. Neste ponto, faz-se necessário precisemos bastante o que entendemos pelo termo tipo. Quando se comparam fotografias de um indivíduo, tiradas em diversas épocas de sua vida, reconhecem-se grandes diferenças entre as que ele tirou na idade de 15 anos e as que o representam aos 30 anos. Tudo se modificou profundamente. Os cabelos embranqueceram ou rarearam, os traços se acentuaram ou ampliaram; notam-se rugas onde antes só se via plena juvenilidade. Entretanto, com um pouco de atenção, chega-se a perceber que essas divergências não são fundamentais, que se encerram dentro de limites definidos, dentro do que constitui, durante a vida toda, a característica da individualidade: o tipo. Podemos perfeitamente conceber que o perispírito seja capaz de reproduzir uma dessas formas, pois que evolveu através delas neste mundo. Essa faculdade de fazer uma imagem reviva de si mesma assemelha-se a um avivamento de lembranças, o qual evoca uma época passada e a torna presente para a memória. Desde que nada se perde no envoltório fluídico, as formas do ser se fixam nele e podem reaparecer sob o infuso da vontade. (...)

05 - CRISTIANISMO E ESPIRITISMO - LÉON DENIS - ÍTEM 12 - PÁG. 286

ÍTEM. 12 - Os fenômenos espíritas contemporâneos; provas da identidade dos Espíritos: Graças ao espiritualismo experimental, o problema da sobrevivência, cujas consequências morais e filosóficas são incalculáveis, recebeu uma solução definitiva. A alma se tornou objetiva, por vezes tangível; a sua existência se revelou, depois da morte como durante a vida, mediante manifestações de toda ordem. Ao começo não ofereciam os fenômenos físicos mais que uma insuficiente base de argumentação; mas depois os fatos revestiram um caráter inteligente e se acentuaram ao ponto de tornar-se impossível qualquer contestação. Foi mediante provas positivas que a questão da existência da alma e sua imortalidade ficou resolvida, Fotografaram-se as radiações do pensamento; o Espírito, revestido de seu corpo fluídico, do seu invólucro imperecível, aparece na placa sensível. A sua existência se tornou tão evidente como a do corpo físico. A identidade dos Espíritos acha-se estabelecida por inúmeros fatos. Acreditamos dever mencionar alguns deles:

O Sr. Oxon (aliás Stainton Moses), professor da Universidade de Oxford, em seu livro Spirit Identity, refere o caso em que a mesa faz uma longa e circunstanciada narrativa da morte, com a menção da idade, até ao número de meses, e os nomes familiares (quatro quanto a um deles e três quanto a outro), de três criancinhas, filhas de um mesmo pai, que haviam sido subitamente arrebatadas pela morte. "Nenhum de nós tinha conhecimento desses nomes pouco comuns. Elas tinham morrido na Índia, e quando nos foi ditada a comunicação, não dispúnhamos de meio algum aparente de verificação." Essa revelação foi, todavia, verificada e, mais tarde, reconhecida exata pelo testemunho da mãe dessas crianças, que o Sr. Oxon veio a conhecer ulteriormente. O mesmo autor cita o caso de um certo Abraão Florentino, falecido nos Estados Unidos, inteiramente desconhecido dos experimentadores e cuja identidade foi rigorosamente comprovada. A história de Siegwart Lekebusch, jovem alfaiate que morreu esmagado por um trem de ferro, prova ainda que é contrário à verdade afirmar que as personalidades que se manifestam pela mesa são sempre conhecidas dos assistentes. De acordo com Animismo e Espiritismo, de Aksakof, a identidade póstuma dos Espíritos se prova:

1°. Por comunicações da personalidade na língua vernácula, desconhecida do médium (ver, página 538, o caso de Miss Edmonds, do Sr. Turner, de Miss Scongall e da senhora Corvin, que conversa com um assistente por meio de gestos conforme ao alfabeto dos surdos-mudos que no estado de vigília lhe era desconhecido).
2°. Por meio de comunicações dadas no estilo característico do defunto, ou com expressões que lhe eram familiares, recebidas na ausência de pessoas que o tivessem conhecido: - terminação de um romance de Dickens, Edwin Drood, por um jovem operário iletrado, sem que seja possível reconhecer onde termina o manuscrito original e onde começa a comunicação mediúnica. Ver também a história de Luiz XI, escrita pela senhorita Hermance Dufaux, aos catorze anos de idade (Revue Spirite, 1858). Essa história, muito documentada, contém ensinos até então inéditos.
3°. Por fenômenos de escrita em que se reconhece a do defunto: - carta da Sra. Livermore, por ela mesma escrita depois de sua morte. Esse Espírito estabeleceu a sua identidade, mostrando-se, escrevendo e conversando como quando na Terra. Fato notável: o Espírito escreveu mesmo em francês, língua ignorada da médium, Kate Fox; - o caso em que o Sr. Owen obtém uma assinatura de Espírito que foi reconhecida idêntica por um banqueiro (ver Guldenstubbe, A Realidade dos Espíritos); - escrita direta de uma parenta do autor, reconhecida idêntica à sua ortografia durante a vida. (Esses fatos foram muitas vezes obtidos em nosso próprio círculo de experiências.)
4°. Por comunicações que encerram um conjunto de particularidades relativas à vida do defunto e recebidas na ausência de qualquer pessoa que a tivesse conhecido. Com o concurso mediúnico da Sra. Conant, muitos Espíritos desconhecidos do médium foram identificados com pessoas que tinham vivido em diferentes países: o caso do velho Chamberlain, o de Violette, o de Robert Dale Owen, etc.
5°. Pela comunicação de fatos conhecidos unicamente pelo desencarnado e que só ele possa comunicar: o caso do filho do Dr. Davey, envenenado e roubado em pleno mar, fato em seguida reconhecido exato; - descoberta do testemunho do barão Korff; o Espírito Jack, que indica o que deve e o que lhe é devido, etc.
6°. Por comunicações que não são espontâneas, como as que precedem, mas provocadas por chamados diretos ao falecido e recebidas na ausência de pessoas que o tenham conhecido: resposta, por Espíritos, a cartas fechadas (médium Mansfield); - escrita direta dando resposta a uma pergunta ignorada pelo médium, Sr. Watkins.
7°. Por comunicações recebidas na ausência de qualquer pessoa que houvesse conhecido o desencarnado, revelando certos estados psíquicos, ou provocando sensações físicas que lhe eram peculiares ; - o Espírito de uma louca ainda perturbado, no espaço; o caso do Sr. Elias Pond, de Woonsoket, etc. (Esses fenômenos se produziram em número considerável de vezes nas sessões por nós mesmo dirigidas.)
8°.- Pela aparição da forma terrestre do desencarnado. Os Espíritos se têm, às vezes, servido dos defeitos naturais de seu organismo material para fazerem-se reconhecer depois da desencarnação, reproduzindo, por meio de materialização, esses acidentes. Ora é a mão com dois dedos recurvados para a palma, em consequência de uma queimadura, ora o indicador dobrado na segunda falange, etc.
Poderíamos alongar indefinidamente esta lista de identidade de Espíritos, de que um certo número de casos figura também em nosso livro No Invisível, capítulo XXI.

Julgamos dever acrescentar os três seguintes, que nos parecem característicos e são firmados em testemunhos importantes. O primeiro, relatado por Myers em sua obra sobre a Consciência Subliminal, é concernente a uma pessoa muito conhecida do autor, o Sr. Brown, cuja perfeita sinceridade ele garante. Um dia esse senhor encontra um negro em quem reconhece um cafre; fala-lhe na língua do seu país e o convida a visitá-lo. Na ocasião em que esse preto africano se apresenta em sua casa, a família do Sr. Brown fazia experiências espíritas. Introduzido o visitante, indagam se haveria amigos seus presentes à sessão. Imediatamente a filha da família, que de cafre não conhecia nem uma palavra, escreve diversos nomes nessa língua. Lidos ao preto, provocam neste um vivo espanto. Vem depois uma mensagem escrita em língua cafre, cuja leitura ele compreende perfeitamente, com exceção de uma palavra desconhecida para o Sr. Brown. Em vão a pronuncia este de vários modos: o visitante não lhe percebe o sentido. De repente escreve o médium: "Dá um estalo com a língua". Então se recorda prontamente o Sr. Brown do estalo característico de língua que acompanha o som da letra t no alfabeto cafre. Pronuncia desse modo e logo se faz compreender.

Ignorando os cafres a arte de escrever, o Sr. Brown se admira de receber uma mensagem escrita. Foi-lhe respondido que essa mensagem fora ditada, a pedido dos amigos do cafre, por um amigo dele que falava correntemente essa língua. O negro parecia aterrado com o pensamento de que ali estivessem mortos, invisíveis. O segundo caso é relativo à aparição de um Espírito, chamado Nefentes, na sessão realizada em Cristiânia na casa do professor E., servindo de médium a Sra. d'Esperance. O Espírito deu o molde da própria mão em parafina. Levando esse modelo oco a um profissional, para o reproduzir em relevo, causou a sua e a estupefação dos seus operários: bem compreendiam eles que mão humana o não pudera produzir, porque o teria quebrado ao ser retirada, e declararam que era coisa de feitiçaria. Noutra ocasião escreveu Nefentes no canhenho do professor E. uns caracteres gregos. Traduzidos, no dia seguinte, do grego antigo para linguagem moderna, diziam essas palavras: "Eu sou Nefentes, tua amiga. Quando tua alma se sentir opressa por intensa dor, invoca-me, a mim Nefentes, e eu acudirei prontamente a aliviar-te os sofrimentos."

O terceiro caso, finalmente, é atestado como autêntico pelo Sr. Chedo Mijatovitch, ministro plenipotenciário da Sérvia em Londres, e de nenhum modo espírita em 1908, data de sua comunicação ao Light. Solicitado por espíritas húngaros a entrar em relação com um médium, a fim de resolver certa questão relativa a um antigo soberano sérvio, morto em 1350, dirigiu-se ele à residência do Sr. Vango, de quem muito se falava nessa época e que ele jamais vira precedentemente. Adormecido, o médium anunciou a presença de um moço que muito desejava fazer-se ouvir, mas cuja língua não entendia. Acabou, todavia, reproduzindo algumas palavras, com a curiosa particularidade de começar cada uma delas pela última sílaba, para em seguida, a repetir na ordem requerida, voltando à primeira, assim: "lim, molim; te, shite, pishite; liyi, taliyi Nataliyi, etc." Era sérvio, sendo esta a tradução: "Peço-te que escrevas a minha mãe Natália e lhe digas que suplico o seu perdão." O Espírito era o do jovem rei Alexandre. O Sr. Chedo Mijatovitch o pôs tanto menos em dúvida quanto não tardaram novas provas de identidade em vir juntar-se à primeira: descrição de sua aparência, pelo médium, e o seu pesar de não ter atendido a um conselho confidencial que, dois anos antes de seu assassínio, lhe havia dado o diplomata consultante. (Ver, em relação a estes três casos, os Annales dês Sciences Psychiques, l2 e 16 janeiro 1910, pág. 7 e seguintes.)

08 - NO INVISÍVEL - LÉON DENIS - ÍTEM XXI - IDENTIDADE DOS ESPÍRITOS - PÁG. 314

XXI — Identidade dos Espíritos: Acabamos de ver, pela exposição dos fatos espíritas até agora feita, que a sobrevivência está amplamente demonstrada. Nenhuma outra teoria, a não ser a da intervenção dos sobrevivos, seria capaz de explicar o conjunto dos fenômenos, em suas variadas formas. Alf. Russel Wallace o disse: "O Espiritismo está tão bem demonstrado como a lei de gravitação." E W. Crookes repetia: "O Espiritismo está cientificamente demonstrado." No ponto de vista objetivo ou exterior, as provas fornecidas pelas aparições e materializações não podem deixar dúvida alguma. Entretanto, na ordem subjetiva, no que concerne aos outros modos de manifestações, subsiste uma dificuldade: a de obter dos Espíritos, em número suficiente para satisfazer aos cépticos exigentes, provas de identidade, indicações precisas, que os assistentes não conheçam e que sejam mais tarde verificáveis. Objeta-se muitas vezes aos espíritas que as comunicações, em seu conjunto, apresentam um caráter muito vago, são destituídas de indicações, revelações e fatos bem definidos, suscetíveis de estabelecer a identidade dos manifestantes e impor a convicção aos investigadores. Certamente, não é possível desconhecer essas dificuldades. Elas são inerentes à própria natureza das coisas e às diferenças de meio. Os seres que vivem num mesmo plano, como os homens, dotados dos mesmos sentidos, comunicam entre si por diferentes processos, que são outros tantos elementos de certeza.

Esses diferentes modos de observação e verificação utilizáveis no habitat humano, nós o quereríamos tornar extensivos ao domínio do invisível, e exigimos de seus habitantes manifestações assaz probatórias, de uma precisão igual às que asseguram nossa convicção na ordem física. Ora, eis aí uma coisa quase irrealizável. O habitante do plano invisível tem que vencer muitos obstáculos para se comunicar. Os meios de que dispõe para nos esclarecer e persuadir são restritos. Ele não se pode manifestar sem médium, e o médium, inconscientemente, introduz quase sempre uma parte de si mesmo, de sua mentalidade, nas manifestações. O Espírito que quer exprimir seu pensamento, servindo-se de órgãos estranhos, experimenta grande embaço. É semelhante a uma pessoa que conversasse conosco numa situação muito incômoda que a privasse do uso de suas faculdades. É preciso conduzir-se discretamente a seu respeito, formular perguntas claras, mostrar paciência, benevolência, a fim de obter satisfatórios resultados. "Meus caros amigos — dizia George Pelham a Hodeson e Hart— não me considereis com ânimo de críticos. Esforçar-nos por transmitir-vos nossos pensamentos, mediante o organismo de qualquer médium, é como se se tentasse subir pelo tronco de uma árvore oca." Robert Hyslop o repete a seu filho: "Todas as coisas se me apresentam com tanta clareza, e quando venho aqui para exprimir-las, James, não posso!"
O que diziam os Espíritos da Sra. Piper, afirmava-o o Guia do nosso grupo nestes termos: "No Espaço, tudo é para nós amplo, desembaraçado, fácil. Quando baixamos à Terra tudo se restringe, se amesquinha."

Outra objeção é esta: na maior parte dos casos de identidade assinalados, os fatos e as provas, por meio dos quais se conseguiu determinar com certeza a personalidade dos manifestantes, são de natureza comum, às vezes mesmo trivial. Ora, a experiência tem demonstrado que é quase sempre impossível proceder de outro modo. As particularidades, consideradas frívolas e vulgares, parece constituírem precisamente os meios mais seguros para se firmar juízo acerca dos autores dos fenômenos. Com um fim de comparação e de crítica, o professor Hyslop fez estabelecer uma linha telegráfica entre dois dos edifícios da Universidade de Colúmbia, distantes de 500 pés, e postou nas extremidades dois telegrafistas profissionais, por cujo intermédio deviam interlocutores desconhecidos comunicar entre si e estabelecer sua identidade. Nessas condições, que se aproximam das da mediunidade — valendo aí a distância pela diferença de plano —, o professor pôde reconhecer quanto era difícil determinar a identificação de modo probatório. O resultado não era alcançado na maioria das vezes senão mediante as mais vulgares indicações e narrativas sem importância. Os processos empregados pelos comunicantes, constatou o professor, eram absolutamente os mesmos que os adotados pelos Espíritos no caso da Sra. Piper. A propósito das dificuldades encontradas pelos operadores, o Sr. Hyslop assim se exprime :

"Enquanto acompanhava essas experiências, chamou-me a atenção este fato, que se observa igualmente quando apenas dispomos de tempo limitado para comunicar telefonicamente: toda a atenção do comunicante está concentrada no desejo de escolher incidentes bem característicos para a identificação por um amigo particular. E como, para escolher, se vê urgido pelo tempo, em seu espírito se trava um conflito interessante e se produz uma confusão que toda gente pode por si mesma apreciar, desde que se aplique a fazer uma escolha de incidentes com esse fim. Podemos figurar-nos de igual modo a situação de um Espírito desencarnado que só dispõe de alguns minutos para dar sua comunicação, e que luta provavelmente com enormes dificuldades de que não podemos fazer idéia." O professor Hyslop é um observador metódico e solerte. Cumpre, entretanto, assinalar que ele só estudou até agora um caso insulado — o da Sra. Piper. Uma experimentação de trinta anos tem demonstrado que, apesar das dificuldades inerentes a todo gênero de comunicação espírita, as provas de identidade são muito mais abundantes do que geralmente se acredita. Em certas reuniões privadas, são diariamente fornecidas provas da sobrevivência dos que nos foram caros; essas provas, porém, são quase sempre guardadas cuidadosamente, porque se referem à vida íntima dos experimentadores. Entre estes muitos receiam as críticas mordazes e não querem expor às vistas de indiferentes, de cépticos motejadores, os mais sagrados sentimentos, os segredos mais íntimos de seu coração.

Muitas vezes Espíritos desconhecidos dos assistentes vêm dar comunicações dirigidas a seus parentes ainda vivos, comunicações que contêm, não raro, característicos originais, provas irrefutáveis. Essas manifestações, todavia, permanecem ignoradas em sua maior parte. Receiam-se os sarcasmos de sábios superficiais e as prevenções do vulgo, sempre pronto a rejeitar fatos que ultrapassam a órbita dos conhecimentos usuais. Daí resulta que as mais peremptórias manifestações raramente chegam ao conhecimento do público.
No mesmo sentido se nota extrema circunspeção e grande reserva da parte dos Espíritos nas reuniões franqueadas a todos. É principalmente na intimidade da família e de alguns amigos que se reúnem os melhores elementos para obter boas provas. Facilitada pela afeição e harmonia dos pensamentos, a confiança recíproca se estabelece, e com ela a sinceridade e a sem-cerimônia. O Espírito encontra um conjunto de condições fluídicas que asseguram à transmissão de seu pensamento toda a clareza e precisão necessárias para levar a convicção ao ânimo dos assistentes.

Os Espíritos adiantados não se prestam de bom grado às nossas exigências. Suas comunicações têm sempre um caráter moral e impessoal; seu pensamento paira demasiado alto, acima das esferas da individualidade, para que lhes não seja penoso aí baixar. Em sua maioria, tiveram eles na Terra existências de sacrifícios, suportaram vidas dolorosas — condições de sua própria elevação; — não gostam, quando a si mesmo aludem, de ornar-se com seus títulos de merecimento. Para convencer os cépticos, lançam mão de outros recursos; preferem introduzir em nossas sessões Espíritos mais atrasados, individualidades que na Terra conhecemos e que, por sua originalidade, seu modo de falar, de gesticular, de pensar, nos fornecerão provas satisfatórias. Assim procediam os Guias do nosso grupo. Sob sua direção, Espíritos assaz vulgares, mas animados de boas intenções — uma vendedora de legumes, um ferreiro de aldeia, uma velhota tagarela — e outros ainda, falecidos parentes de membros do grupo, se manifestavam, no transe, por sinais característicos e inimitáveis. Sua identidade se estabelecia por considerável variedade de pormenores, de incidentes domésticos; mas, se eram de indubitável interesse para os que os haviam conhecido, seriam considerados fastidiosos por outros e assim não conviria serem trazidos a público. A multiplicidade e repetição cotidiana dos pequeninos fatos de que se compõe uma existência, ainda que impossíveis de reproduzir e analisar, terminam por impressionar os mais refratários e triunfar das mais tenazes dúvidas.

Todos os dias, em muitos grupos se obtêm a revelação de nomes, datas, fatos desconhecidos e mais tarde comprovados; mas não podem ser divulgados, porque interessam pessoas ainda vivas, que não autorizam a sua publicação. Ou são ainda revelações científicas que se obtêm, como as que relata Aksakof, no caso do Sr. Barkas, de Newcastle, revelações muito acima da capacidade do sensitivo. Outras vezes são fenômenos de escrita, como os que assinalou o mesmo autor, e assinaturas autênticas de personalidades que o médium jamais vira, como, por exemplo, as do cura Burnier e do síndico Chaumontet, falecidos havia meio século, obtidas por Helena Smith, de Genebra. O professor Flournoy as atribui a um despertar da subconsciência do sensitivo; é essa, como vimos, uma teoria "ad hoc", muito cômoda para explicar o que se não compreende, ou não se quer compreender. Em "Spirit Identity", Stainton Moses relata notáveis fatos de identidade, obtidos pela mediunidade escrevente e baseados em testemunhos oficiais. Declara ele possuir uns cem casos desse gênero, e muitos experimentadores poderiam dizer outro tanto. Entre esses numerosos fenômenos, pode-se recordar o caso citado pelo "Light", de 27 de maio de 1899, e devido à mediunidade de Mrs. Bessie Russell-Davies, de Londres:
"Um pedido de prova de identidade, formulado por pessoas ligadas à Corte de Viena, havia sido endereçado à aludida senhora. As perguntas estavam encerradas num invólucro lacrado, que se conservou intacto. Depois de alguns dias de investigações, o Guia do médium voltou com cinco Espíritos estranhos, que ditaram uma resposta em idioma desconhecido. Feito o exame, reconheceram os interlocutores que essa língua era o antigo madgiar, idioma unicamente conhecido de alguns eruditos. A resposta estava assinada por cinco personagens que tinham vivido dois séculos antes e eram membros falecidos da família húngara que solicitara esse testemunho." Aqui está outra prova, mais concludente em sua simplicidade que estrepitosas manifestações. É extraída da obra de Watson, publicista americano, "Spiritualism, its phenomenes", Nova Iorque, 1880: "Watson tinha recebido uma comunicação assinada por seu amigo o General Th. Rivers. Segundo o costume inglês, o general apusera as iniciais de seus nomes próprios, entre as quais figurava um W. Ora, nenhum de seus nomes próprios admitia essa inicial. Por escrúpulo e respeito à verdade, Watson havia publicado essa assinatura sem modificação mas a contragosto e não sem alguma desconfiança, que certos pormenores da missiva parecia deverem dissipar. Os contraditores da imprensa não perderam, a ocasião denunciar o erro, metendo a ridículo esse Espírito que não sabia o próprio nome. (...)

11- O LIVRO DOS ESPÍRITOS - ALLAN KARDEC - QUESTÕES: 284, 366

Perg. 284. Como podem os Espíritos, que não têm mais corpo, constatar a própria individualidade e distinguir-se dos outros que os rodeiam? - Constatam a sua individualidade pelo perispírito, que os torna seres distintos uns para os outros, como os corpos entre os homens.
Perg. 366. Que pensar da opinião segundo a qual as diferentes faculdades intelectuais e morais do homem seriam o produto de outros tantos Espíritos diversos, nele encarnados, tendo cada qual uma aptidão especial? — Refletindo-se a respeito, reconhece-se que é absurda. O Espírito deve ter todas as aptidões. Para poder progredir, necessita de uma vontade única. Se o homem fosse um amálgama de Espíritos, essa vontade não existiria e ele não teria individualidade, pois na sua morte todos esses Espíritos seriam como um bando de pássaros escapos da gaiola. O homem se queixa muitas vezes de não compreender algumas coisas, mas é curioso ver-se como ele multiplica as dificuldades, quando tem em mãos uma explicação muito simples e natural. Isso é ainda tomar o efeito pela causa: fazer com o homem o que os pagãos faziam com Deus. Eles criam em tantos deuses quantos os fenômenos do Universo. Mas, mesmo entre eles, as pessoas sensatas não viam nesses fenômeno mais do que efeitos, tendo por causa um Deus único.

O mundo físico e o mundo moral nos oferecem, a respeito, numerosos pontos de comparação. Acreditou-se na multiplicidade da matéria, enquanto o exame se detinha na aparência dos fenômenos; hoje, compreende-se que esses fenômenos tão variados podem não ser mais do que modificações de uma matéria elementar única. As diversas faculdades são manifestações de uma mesma causa que é a alma, ou Espírito encarnado, e não de muitas almas, como os diferentes sons do órgão são produtos de uma mesma espécie de ar, e não de tantas espécies de ar quantos forem os sons. Desse sistema resultaria que, quando um homem perdesse ou adquirisse certas aptidões, certa tendências, isso significaria que outros tantos Espíritos o teriam possuído ou deixado, o que o tornaria um ser múltiplo, sem individualidade e, conseqüentemente, sem responsabilidade. Isto, além do mais, é contraditado pelos tão numerosos exemplos de manifestações em que os Espíritos provam sua personalidade e sua identidade.

INTRODUÇÃO - XII—DA IDENTIFICAÇÃO DOS ESPÍRITOS
Um fato demonstrado pela observação e confirmado pelos próprios Espíritos é que os Espíritos inferiores apresentam-se muitas vezes com nomes conhecidos e respeitados. Quem pode, portanto, assegurar que aqueles que dizem ter sido Sócrates, Júlio César, Carlos Magno, Fénelon, Napoleão, Washington etc. tenham realmente animado esses personagens? Essa dúvida existe entre alguns adeptos bastante fervorosos da Doutrina Espírita.

Admitem a intervenção; e a manifestação dos Espíritos, mas perguntam que controle podemos ter da sua identidade. Esse controle é de fato bastante difícil de realizar, mas se não pode ser feito de maneira tão autêntica como por uma certidão de registro civil, pode sê-lo por presunção, por meio de certos indícios.

Quando se manifesta o Espírito de alguém que pessoalmente conhecemos, de um parente ou de um amigo, sobretudo se morreu há pouco tempo, acontece geralmente que sua linguagem corresponde com perfeição às características que conhecíamos. Isto já e um indício de identidade. Mas a dúvida já não será certamente possível quando esse Espírito fala de coisas particulares, lembra casos familiares que somente o interlocutor conhece. Um filho não se enganará, por certo, com a linguagem de seu pai e de sua mãe, nem os pais com a linguagem do filho. Passam-se algumas vezes, nessas evocações íntimas, coisas impressionantes, capazes de convencer o mais incrédulo. O cético mais endurecido é muitas vezes aterrado com as revelações inesperadas que lhe são feitas.

Outra circunstância bastante característica favorece a identidade. Dissemos que a caligrafia do médium muda geralmente com o Espírito evocado, reproduzindo-se exatamente a mesma, de cada vez que o mesmo Espírito se manifesta. Constatou-se inúmeras vezes que, para pessoas mortas recentemente, a escrita revela semelhança flagrante com a que rinha em vida: têm-se visto assinaturas perfeitamente idênticas. Estamos longe, entretanto, de citar esse fato como uma regra, sobretudo como constante; mencionamo-lo como coisa digna de registro.

Os Espíritos que atingiram certo grau de depuração são os únicos libertos de toda influência corporal; mas quando não estão completa-mente desmaterializados (esta é a expressão de que se servem) conservam a maior parte das idéias, dos pendores e, até mesmo das manias que tinham na Terra, e este é ainda um meio pelo qual podemos reconhecê-los. Mas chegamos ao reconhecimento, sobretudo, por meio de uma multidão de detalhes que somente uma observação atenta e contínua pode revelar. Vêem-se escritores discutirem suas próprias obras ou suas doutrinas, aprovando-as ou condenando certas partes; outros Espíritos lembrarem circunstâncias ignoradas ou pouco conhecidas de suas vidas ou suas mortes; todas as coisas, enfim, que são pelo menos provas morais de identidade, as únicas que se podem invocar tratando-se de coisas abstratas.

Se, pois, a identidade do Espírito evocado pode ser, até certo ponto, estabelecida em alguns casos, não há razão para que ela não o possa ser em outros. E se, para as pessoas de morte mais remota, não temos os mesmos meios de controle, dispomos sempre daqueles que se referem à linguagem e ao caráter. Porque, seguramente, o Espírito de um homem de bem nunca falará como o de um perverso ou imoral. Quanto aos Espíritos que se servem de nomes respeitáveis, logo se traem por sua linguagem e suas máximas. Aquele que se dissesse Fénelon, por exemplo, e ainda que acidentalmente ferisse o bom senso e a moral, mostraria nisso mesmo o seu embuste. Se, ao contrário, os pensamentos que exprime são sempre puros, sem contradições, constantemente à altura do caráter de Fénelon, não haverá motivos para duvidar-se de sua identidade.

Do contrário, teríamos de supor que um Espírito que só prega o bem pode conscientemente empregar a mentira, sem nenhuma utilidade. A experiência nos ensina que os Espíritos do mesmo grau, do mesmo caráter e animados dos mesmos sentimentos, reúnem-se em grupos e em famílias. Ora, o número dos Espíritos é incalculável e estamos longe de conhecê-los a todos; a maioria deles não tem nomes para nós. Um Espírito da categoria de Fénelon pode, portanto, vir em seu lugar, às vezes mesmo com o seu nome, porque é idêntico a ele e pode substituí-lo e porque necessitamos de um nome para fixar as nossas idéias.

Mas que importa, na verdade, que um Espírito seja realmente o de Fénelon? Desde que só diga boas coisas e não fale senão como o faria o próprio Fénelon, é um bom Espírito; o nome sob o qual se apresenta é indiferente e nada mais é, frequentemente, do que um meio para a fixação de nossas idéias. Não se verifica o mesmo nas evocações íntimas, pois nestas, como já dissemos, a identidade pode ser estabelecida por meio de provas que são, de alguma forma, evidentes.

Por fim, é certo que a substituição dos Espíritos pode ocasionar uma porção de enganos, resultar em erros e muitas vezes em mistificações. Esta é uma das dificuldades do Espiritismo prático. Mas jamais dissemos que esta Ciência seja fácil nem que se possa aprendê-la brincando, como também não se dá com qualquer outra Ciência. Nunca será demais repetir que ela exige estudo constante e quase sempre bastante prolongado. Não se podendo provocar os fatos, é necessário esperar que eles se apresentem por si mesmos, e frequentemente eles nos são trazidos pela circunstâncias em que menos pensávamos. Para o observador atento e paciente os fatos se tornam abundantes, porque ele descobre milhares de nuanças características que lhe parecem como raio de luz. O mesmo se dá com referência às ciências comuns; enquanto o homem superficial só vê numa flor a sua forma elegante, o sábio descobre verdadeiras maravilhas para o seu pensamento.

12 - O LIVRO DOS MÉDIUNS - ALLAN KARDEC - CAP. XXIV - IDENTIDADE DOS ESPÍRITOS - PÁG. 293

As provas possíveis de identidade: ÍTEM 255. A questão da identidade dos Espíritos é uma das mais controvertidas, mesmo entre os adeptos do Espiritismo. Porque os Espíritos, de fato, não trazem nenhum documento de identificação e sabe-se com que facilidade alguns deles usam nomes emprestados. Esta é, portanto, depois da obsessão, uma das maiores dificuldades da prática espírita. Mas, em muitos casos, a questão da identidade absoluta é secundária e desprovida de importância real. A mais difícil de se constatar é a identidade de personagens antigas que, muitas vezes, se torna mesmo impossível, reduzindo-se a uma possibilidade de apreciação puramente intelectual. Julgamos os Espíritos, como os homens, pela linguagem. Se um Espírito se apresenta, por exemplo, com o nome de Fénelon, dizendo trivialidades e puerilidades, é evidente que não pode ser ele. Mas, se as coisas que diz são dignas do caráter de Pénelon e não o contradizem, temos uma prova, senão material, pelo menos de grande possibilidade moral de que seja ele. É sobretudo, nesses casos que a identidade real se torna uma questão secundária: desde que o Espírito só diz boas coisas, pouco importa o nome que esteja usando. Há, sem dúvida, a objeção de que um Espírito que tomasse nome suposto, mesmo que só para o bem, não deixaria de cometer uma fraude e por isso não poderia ser bom. É neste ponto que surgem questões delicadas, difíceis de se compreender e que vamos tentar desenvolver.

256. À medida que os Espíritos se purificam e se elevam na hierarquia, as características distintivas de sua personalidade desaparecem, de certa maneira, na uniformidade da perfeição, mas nem por isso deixam eles de conservar a sua individualidade. É o que se verifica com os Espíritos superiores e os Espíritos puros. Nessa posição, o nome que tiveram na Terra, numa das mil existências corporais efêmeras por que passaram, nada mais significa. Notemos, ainda, que os Espíritos se atraem mutuamente pela semelhança de suas qualidades, constituindo grupos ou famílias simpáticas. Se considerarmos, por outro lado, o número imenso de Espíritos que, desde a origem dos tempos, devem haver atingido os planos mais elevados, e se o compararmos ao número tão restrito de homens que deixaram na Terra um grande nome, compreenderemos que, entre os Espíritos superiores que podem comunicar-se, a maioria não deve ter nomes para nós. Mas, como precisamos de nomes para fixar as nossas idéias, eles podem tomar o de um personagem conhecido, cuja natureza mais se identifique com a deles. É assim que os nossos anjos guardiães se fazem conhecer, na maioria das vezes, pelo nome de um santo que veneramos, escolhendo geralmente o do santo de nossa preferência. Dessa maneira, se o anjo guardião de uma pessoa dá o nome de São Pedro, por exemplo, não há nenhuma prova material de tratar-se do apóstolo. Tanto pode ser ele como um Espírito inteiramente desconhecido, pertencente à família de Espíritos a que São Pedro pertence. Acontece ainda que, seja qual for o nome pelo qual se invoque o anjo guardião, ele atenderá ao chamado porque é atraído pelo pensamento e o nome lhe é indiferente.

O mesmo se verifica todas as vezes que um Espírito superior se comunica, usando o nome de um personagem conhecido. Nada prova que seja precisamente o Espírito desse personagem. Mas se ele nada diz, no seu ditado espontâneo, que desminta a elevação espiritual do nome citado, existe a presunção de que seja ele. E em todos esses casos se pode dizer que, se não é ele, deve ser um Espírito do mesmo grau ou talvez mesmo um seu enviado. Em resumo: a questão do nome é secundária, podendo-se considerar o nome como simples indício do lugar que o Espírito ocupa na Escala Espírita. A situação é outra, quando um Espírito de ordem inferior se enfeita com um nome respeitável para se fazer acreditar. E esse caso é tão comum, que não seria demais manter-se em guarda contra esses embustes. Porque é graças a nomes emprestados e, sobretudo, com a ajuda da fascinação, que certos Espíritos sistemáticos, mais orgulhosos do que sábios, procuram impingir as idéias mais ridículas.

Assim, a questão da identidade, como dissemos, é mais ou menos indiferente quando se trata de instruções gerais, desde que os Espíritos mais elevados podem substituir-se mutuamente, sem que isso acarrete consequências. Os Espíritos superiores constituem, por assim dizer, unia coletividade, cujas individualidades nos são, com poucas excessões, completamente desconhecidas. O que nos interessa não são as pessoas, mas o ensino. Ora, se o ensino é bom, pouco importa que venha de Pedro ou de Paulo. Devemos julgá-lo pela qualidade e não pelo nome. Se um vinho é mau, não é a etiqueta que o faz melhor. Mas já é diferente nas comunicações íntimas, porque então é o indivíduo, a sua pessoa que nos interessa. É pois com razão que, nessa circunstância, se procure assegurar de que o Espírito manifestante é realmente o que se deseja.

257. A identidade é muito mais fácil de constatar quando se trata de Espíritos contemporâneos, cujos hábitos e caráter são conhecidos. Porque são precisamente esses hábitos, de que ainda não tiveram tempo de se livrar, que nos permitem reconhecê-los. E digamos logo que são eles um dos sinais mais certos de identidade. O Espírito pode, sem dúvida, dar suas provas através das perguntas que lhe fazem, mas isso quando lhe convém. Em geral o pedido nesse sentido o magoa, pelo que devemos evitar fazê-lo. Deixando o corpo, o Espírito não se despoja da sua susceptibilidade. Toda pergunta para pô-lo à prova o aborrece. Há perguntas que ninguém lhe faria em vida, com medo de faltar às conveniências. Por que tratá-lo com menos con­sideração após a morte? Se um homem se apresenta num salão declinando o seu nome, irá alguém lhe pedir documentos à queima-roupa, sob o pretexto de que há impostores? Esse homem teria o direito de lembrar ao interrogante as regras de civilidade. É o que fazem os Espíritos que não respondem ou que se retiram.

Tomemos um exemplo, para comparação. Suponhamos que o astrónomo Arago, quando vivo, se apresentasse numa casa em que não o conheciam e fosse recebido assim: "— Dizeis que sois Arago, mas como não vos conhecemos, desejamos que o proveis respondendo às nossas perguntas: resolvei este problema de astronomia; dai-nos o vosso nome, prenome e os de vossos filhos; dizei o que fizestes em tal dia, a tal hora, etc." O que ele responderia? Pois bem, como Espírito fará o que faria quando vivo, e os outros Espíritos farão o mesmo.

258. Recusando-se a responder perguntas pueris e absurdas que não lhes fariam quando vivos, os Espíritos, entretanto, frequentemente dão provas espontâneas e irrecusáveis da sua identidade. Isso pela revelação do próprio caráter através da linguagem, pelo emprego de expressões que lhes seriam familiares, pela referência a alguns fatos significativos de particularidades de sua vida, às vezes desconhecidas dos assistentes, cuja veracidade se pode verificar. As provas de identidade ressaltam ainda de muitas circunstâncias imprevistas, que nem sempre surgem no primeiro momento, mas na sequência das manifestações. É conveniente, pois, esperá-las ao invés de as provocar, observando-se cuidadosamente todas as que possam provir da natureza das comunicações.

259. Um meio, às vezes usado com sucesso para assegurar a identidade, quando o Espírito se torna suspeito, é o de fazê-lo afirmar em nome de Deus todo poderoso que é ele mesmo. Acontece muitas vezes que o usurpador recua diante do sacrilégio. Depois de haver começado a escrever: Afirmo em nome de.. . para e risca, encolerizado, traços sem significação ou quebra o lápis. Sendo mais hipócrita, contorna o problema através de uma omissão, escrevendo, por exemplo: Eu vos certifico que digo a verdade; ou ainda: Atesto, em nome de Deus, que sou eu mesmo quem vos falo, etc..Mas, há os que não são assim escrupulosos e juram por tudo o que se quiser. Um deles se comunicava com um médium dizendo-se o próprio Deus e o médium, muito honrado com tão elevada graça, não hesitou em acreditar. Evocado por nós, não ousou sustentar a impostura e disse: — Eu não sou Deus, mas sou seu filho. — Então sois Jesus? Isso não é provável, porque Jesus está muito elevado para empregar subterfúgios. Ousais afirmar, em nome de Deus, que és o Cristo? — Eu não disse que sou Jesus, disse que sou filho de Deus porque sou uma das suas criaturas. Deve-se concluir disso que a recusa de um Espírito em afirmar a sua identidade em nome de Deus, é sempre uma prova de que usa de impostura, mas que a afirmação nos dá apenas uma presunção e não uma prova da identidade.

260. Pode-se também colocar entre as provas de identidade a semelhança de caligrafia e de assinatura. Mas, além de não ser dado a todos os médiuns obter esse resultado, ele nem sempre representa uma garantia suficiente. Há falsarios no mundo dos Espíritos, como no nosso. Essa semelhança não representa mais do que uma presunção de identidade, que só adquire valor dentro das circunstâncias em que se produziu. O mesmo se dá com todos os sinais materiais que alguns dão, como talismãs inimitáveis pelos Espíritos mentirosos. Para aqueles que ousam perjurar em nome de Deus ou imitar uma assinatura, nenhum signo material pode representar obstáculo maior. A melhor de todas as provas de identidade está na linguagem e nas circunstâncias imprevistas.

261. Certamente se dirá que, se um Espírito pode imitar uma assinatura, pode também imitar a linguagem. É verdade. Temos visto os que tomam afrontosamente o nome do Cristo e, para melhor enganar, imitam o estilo evangélico, excedendo-se nas expressões mais conhecidas: Em verdade, em verdade vos digo. Mas quando se estuda o texto sem se dei­xar influenciar, vendo-se ao lado das belas máximas de caridade como recomendações pueris e ridículas, seria preciso que se estivesse fascinado para se enganar. Sim, certos aspectos formais da linguagem podem ser imitados, mas não o pensamento. A ignorância jamais imitará o verdadeiro saber como jamais o vício imitará a verdadeira virtude. Sempre aparecerá de algum lado a ponta da orelha. É, então, que o médium e o evocador devem usar de toda a sua perspicácia e raciocínio para separar a verdade da mentira. Devem persuadir-se de que os Espíritos perversos são capazes de todas as trapaças e de que, quanto mais elevado for o nome usado, mais desconfiança deve provocar. Quantos médiuns têm recebido comunicações apócrifas assinadas por Jesus, Maria ou algum santo venerado!

13 - O QUE É O ESPIRITISMO - ALLAN KARDEC - ÍTEM 87 - PÁG. 181

87. Enquanto o médium imperfeito se orgulha pelos nomes ilustres, frequentemente apócrifos, que assinam as comunicações por ele recebidas e se considera intérprete privilegiado das potências celestes, o bom médium nunca se crê assaz digno de tal favor; ele tem sempre uma salutar desconfiança do merecimento do que recebe e não se fia no seu próprio juízo; não sendo senão instrumento passivo, compreende que o bom resultado não lhe confere mérito pessoal, como nenhuma responsabilidade lhe cabe pelo mau; e que seria ridículo crer na identidade absoluta dos Espíritos que se lhe manifestam. Deixa que terceiros, desinteressados, julguem do seu trabalho, sem que o seu amor-próprio se ofenda por qualquer decisão contrária, do mesmo modo que um ator não se pode dar por ofendido com as censuras feitas à peça de que é intérprete.. O seu caráter distintivo é a simplicidade e a modéstia; julga-se feliz com a faculdade que possui, não por vanglória, mas por lhe ser um meio de tornar-se útil, o que faz de boamente quando se lhe oferece ocasião, sem jamais incomodar-se por não o preferirem aos outros. Os médiuns são os intermediários, os intérpretes dos Espíritos; ao evocador e, mesmo, ao simples observador, cabe apreciar o mérito do instrumento.

88. Como todas as outras faculdades, a mediunidade é um dom de Deus, que se pode empregar tanto para o bem quanto para o mal, e da qual se pode abusar. Seu fim é pôr-nos em relação direta com as almas daqueles que viveram, a fim de recebermos ensinamentos e iniciações da vida futura. Assim como a vista nos põe em relação com o mundo visível, a mediunidade nos liga ao invisível. Aquele que dela se utiliza para o seu adiantamento e o de seus irmãos, desempenha uma verdadeira missão e será recompensado. O que abusa e a emprega em coisas fúteis ou para satisfazer interesses materiais, desvia-a do seu fim providencial, e, tarde ou cedo, será punido, como todo homem que faça mau uso de uma faculdade qualquer.

CHARLATANISMO: 89. Certas manifestações espíritas facilmente se prestam à imitação; porém, apesar de as terem explorado os prestidigitadores e charlatães, do mesmo modo que o fazem com tantos outros fenômenos, é absurdo crer-se que elas não existam e sejam sempre produto do charlatanismo. Quem estudou e conhece as condições normais em que elas se dão, distingue facilmente a imitação da realidade; além disso, aquela nunca pode ser completa e só ilude o ignorante, incapaz de distinguir as diferenciações características do fenômeno verdadeiro.

90. As manifestações que se imitam, com mais facilidade, são as de efeitos físicos e as de efeitos inteligentes vulgares, como movimentos, pancadas, transportes, escrita direta, respostas banais, etc.; não se dá o mesmo, porém, com as comunicações inteligentes de subido alcance; para imitar aquelas, bastam destreza e habilidade; ao passo que, para simular as últimas, se torna necessária, quase sempre, uma instrução pouco comum, uma superioridade intelectiva excepcional, uma faculdade de improvisação universal, se assim nos permitem classificá-la.

91. Os que não conhecem o Espiritismo, são geralmente induzidos a suspeitar da boa-fé dos médiuns; só o estudo e a experiência lhes poderão fornecer os meios de se certificarem da realidade dos fatos; fora disso, a melhor garantia que podem ter está no desinteresse absoluto e na probidade do médium; há pessoas que, por sua posição e caráter, estão acima de qualquer suspeita. Se a tentação do lucro pode excitar à fraude, o bom-senso diz que o charlatanismo não se mostra onde nada tem a ganhar.

92. Entre os adeptos do Espiritismo, encontram-se entusiastas e exaltados, como em todas as coisas; são, em geral, os piores propagadores, porque a facilidade com que, sem exame, aceitam tudo, desperta desconfiança. O espírita esclarecido repele esse entusiasmo cego, observa com frieza e calma, e, assim, evita ser vítima de ilusões e mistificações. Â parte toda a questão de boa-fé, o observador novato deve, antes de tudo, atender à gravidade do caráter daqueles a quem se dirige.

IDENTIDADE DOS ESPÍRITOS: 93. Uma vez que no meio dos Espíritos se encontram todos os caprichos da humanidade, não podem deixar de existir entre eles os ardilosos e os mentirosos; alguns não têm o menor escrúpulo de se apresentar sob os mais respeitáveis nomes, com o fim de inspirarem mais confiança. Devemos, pois, abster-nos de crer de um modo absoluto na autenticidade de todas as assinaturas de Espíritos.
94. A identidade é uma das grandes dificuldades do Espiritismo prático, sendo muitas vezes impossível verificá-la, sobretudo quando se trata de Espíritos superiores, Entre os que se manifestam, muitos não têm nomes para nós; mas, então, para fixar as nossas idéias, eles podem tomar o de um Espírito conhecido, da mesma categoria da sua; de modo que, se um Espírito se comunicar com o nome de S. Pedro, por exemplo, nada nos prova que seja precisamente o apóstolo desse nome; tanto pode ser ele como outro da mesma ordem, como ainda um enviado seu. A questão da identidade é, neste caso, inteiramente secundária e seria pueril atribuir-lhe importância; o que importa é a natureza do ensino, se é bom ou mau, digno ou indigno da personagem que o assina; se esta o subscreveria ou repeliria: eis a questão.

95. A identidade é de mais fácil verificação quando se trata de Espíritos contemporâneos, cujo caráter e hábitos sejam conhecidos, porque é por esses mesmos hábitos e particularidades da vida privada que a identidade se revela mais seguramente e, muitas vezes, de modo incontestável. Quando se evoca, um parente ou um amigo, é a personalidade que interessa, e então é muito natural buscar-se reconhecer a identidade; os meios, porém, que geralmente emprega para isso quem não conhece o Espiritismo, senão imperfeitamente, são insuficientes e podem induzir a erro.
96. O Espírito revela sua identidade por grande número de circunstâncias, patenteadas nas comunicações, nas quais se refletem seus hábitos, caráter, linguagem e até locuções familiares. Ela se revela ainda nos detalhes íntimos em que entra espontaneamente, com as pessoas a quem ama: são as melhores provas; é muito raro, porém, que ele satisfaça às perguntas diretas que lhe são feitas a esse respeito, sobretudo se elas partirem de pessoas que lhe são indiferentes, com intuito de curiosidade ou de prova. O Espírito demonstra a sua identidade como quer e pode, segundo o gênero de faculdade do seu intérprete e, às vezes, essas provas são superabundantes; o erro está em querer que ele as dê, como deseja o evocador; é então que ele recusa sujeitar-se às exigências.

CONTRADIÇÕES: 97. As contradições que frequentemente se notam, na linguagem dos Espíritos, não podem causar admiração senão àqueles que só possuem da ciência espírita um conhecimento incompleto, pois são a consequência da natureza mesma dos Espíritos, que, como já dissemos, não sabem as coisas senão na razão do seu adiantamento, sendo que muitos podem saber menos que certos homens. Sobre grande número de pontos, eles não emitem mais que a sua opinião pessoal, que pode ser mais ou menos acertada, e conservar ainda um reflexo dos prejuízos terrestres de que se não despojaram; outros forjam sistemas seus, sobre aquilo que ainda não conhecem, particularmente no que diz respeito a questões científicas e à origem das coisas. Nada, pois, há de surpreendente, em que nem sempre estejam de acordo.
98. Espantam-se de encontrarem comunicações contraditórias assinadas por um mesmo nome. Somente os Espíritos inferiores mudam de linguagem com as circunstâncias, mas os Espíritos superiores nunca se contradizem. Por pouco que se esteja iniciado nos mistérios do mundo espiritual, sabe-se com que facilidade certos Espíritos adotam nomes diferentes, para dar mais peso às suas palavras; disso com segurança se pode inferir que se duas comunicações, radicalmente contraditórias no fundo, trazem o mesmo nome respeitável, uma delas é necessariamente apócrifa.

17 - TEMAS DA VIDA E DA MORTE - MANOEL P. DE MIRANDA - PÁG. 147

IDENTIFICAÇÃO DOS ESPÍRITOS
Questão grave, a da identificação dos Espíritos, nos fenômenos mediúnicos. Utilizando-se de um equipamento muito complicado, nem todos os comunicantes sabem manipulá-lo como seria de desejar. Além disso, as próprias complexidades e circunstâncias em que ocorre o fenômeno geram desafios aos mais experientes desencarnados, que se vêem a braços com a vontade e o caráter do médium, no momento das comunicações.

Outrossim, deve-se ter em mente que a morte biológica não é igual para todos, sendo o despertar na ultratumba conforme o comportamento vivenciado durante toda a existência corporal. Tomando consciência da realidade na qual ora se encontram, os Espíritos lúcidos passam a experimentar verdadeira revolução conceptual, obrigando-se a reconsiderar opiniões e objetivos aos quais se aferravam antes da libertação.

A surpresa que lhes assinala a consciência ante outros valores, alguns dos quais lhes eram desconhecidos ou não considerados, fá-los reavaliar o comportamento cultural e emocional, direcionando-os a novas ações, algumas bem diversas daquelas a que se habituaram no corpo somático.

Ampliam-se-lhes os horizontes da compreensão humana, e a visão, a respeito do destino, passa a experimentar uma correção de ângulo, que exige acuradas reflexões e largo esforço reeducativo. Embora não se modifiquem as áreas afetivas, as dos interesses antes tão significativos sofrem alterações de magnitude. Os literatos e poetas, romancistas e pertencentes à faina periodística, vêem alterados os fins que antes perseguiam, e as temáticas que lhes eram familiares, carregadas de emoção e paixões específicas, cedem lugar a objetivos bem diversos daqueles que os impeliam às competições, às lutas nas quais disputavam projeção e relevo.

Deixam de lado então, porque sem significado, as láureas e honras humanas, as glórias e homenagens, que os agradavam antes, e vestem o burel da humildade e reformulam opiniões, agora com idealismo diferente. É certo que lhes não esmaece o vigor nem o entusiasmo pela ação promotora do progresso, o desejo sincero de oferecer cultura e beleza.

No entanto, a forma de fazê-lo altera-se, e os modismos envaidecedores, que os caracterizavam, perdem a empatia anterior, o interesse central. Mantêm o estilo, pois que cada ser possui características próprias, tipificadoras, como resultado da soma das suas experiências e conquistas, valores esses que lhes exornam a individualidade eterna.

Desinteressam-se, no entanto, pela grafia e até pela gramática, quando escrevem do Além, embora os mais habilitados no intercâmbio busquem conciliar tais recursos, unindo, ao conteúdo superior de que tratam, a forma elegante e escorreita. Estranham, porém, os críticos do fenômeno mais exigentes, que não encontram, nos seus autores preferidos, quando em mensagens mediúnicas, aquele gênio e aquela grandeza que se acostumaram a admirar. Afirmam até que são menos fecundos e originais, no além-túmulo, do que o foram quando nas lides do proscênio humano.

É destituída de fundamento tal crítica, posto que a diferença dos temas enfocados, dirigidos agora para outro sentido ético e cultural, faz que percam as cores carregadas que antes se encontravam nos escritos fortes e apaixonados, açulando sensações e lutas encarniçadas com direcionamento para o orgulho pessoal, o egocentrismo, os partidos e as facções a que pertenciam e buscavam promover. A morte é a desveladora da vida.

O fenômeno mediúnico é sutil e exige acurada percepção para uma análise adequada, sem as precipitações dos que opinam sem o conhecer, nem as versões dos que se crêem autoridades, e, no entanto, não possuem o necessário senso de análise para correta avaliação do mesmo. A faculdade mediúnica varia de indivíduo para indivíduo, conforme a aptidão pessoal de cada um, apresentando características especiais que lhe facultam melhor percepção para um outro tipo de comunicação, sendo sempre, ele próprio, em Espirito, o intérprete eficiente ou não da mensagem.

O médium, na condição de instrumento, é um condutor, com todas as virtudes e defeitos de qualquer mensageiro. Tome-se como experiência o envio de simples recado a um destinatário exigente: Chamados vários indivíduos, de diferente formação cultural, moral e educativa, participe-se a eles a informacão, pedindo que cada um, a seu turno, transmita a mensagem que ora se lhes entrega. Sem dúvida, cada um dará conta da incumbência, não conforme aconteceu, mas consoante sua capacidade retentiva, sua emoção e lucidez, com variantes tais que produzirão confusão naquele a quem foi endereçada. Temos aí pálida idéia do que ocorre no intercâmbio mediúnico.

O médium côa o pensamento do Espírito e veste-o com os seus recursos, num automatismo que o exercício lhe faculta, decorrente do conhecimento da sua função, da disciplina mental, enfim, de diversos requisitos indispensáveis a um bom desempenho da tarefa. Mesmo nos fenômenos de ectoplasmia, quando ocorrem as materializações, os elementos retirados do médium não ficam em absoluta neutralidade.

O som que se exterioriza de qualquer instrumento, por mais que variem aqueles que o acionam, não excede à sua própria constituição.
A diferença do artista se observará no virtuosismo, no afínamento melódico, na harmonia das notas, sem que seja eliminado, porém, o recurso do aparelho gerador.

Ocorrem, muitas vezes, excelentes ditados mediúnicos, belos quanto corretos, na forma e no fundo, através de pessoas incultas, parecendo invalidar o que afirmamos. Mesmo aí, a transmissão, Espírito a Espírito, é feita psiquicamente, e as conquistas de outras reencarnações, latentes no perispírito do instrumento, se encarregam da exteriorização correta pelo mesmo automatismo já referido.

Da mesma forma, quando se trata de comunicações que procedem de Espíritos que se utilizavam de outros idiomas, esses Espíritos podem expressar-se tanto na língua-mãe, qual ocorre na xenoglossia, quanto no idioma do médium, sendo mais fácil esta última opção, em se considerando que a linguagem dos desencarnados é a do pensamento, que o médium capta e a que dá forma, no inconsciente, através das expressões nacionais, de acordo com a linguagem que lhe é comum...

Não obstante, nas ocorrências da xenoglossia, as comunicações somente se dão exatas quando há matrizes no inconsciente profundo do médium, que terá vivido naquelas regiões onde se falavam aqueles idiomas, em existências pregressas. Não há milagre nas leis que regem a vida, igualmente não o poderia ocorrer nos fenômenos da mediunidade, dilacerando o equilíbrio da ordem geral, assim invalidando os processos naturais, embora paranormais, que lhes permitem a ocorrência.

A princípio, a fim de chamar a atenção dos homens para a imortalidade da alma, materializaram-se os Espíritos, objetivando elevá-los. Agora é o momento de superar os condicionamentos da matéria, espiritualizando-se cada vez mais as criaturas. Ocorrem comunicações nas quais a soma expressiva de fatores probantes, de quem as subscreve, demonstra-Ihes a autenticidade. Não se deseje, porém, reencontrar aqueles que desencarnaram, aferrados, no escrever ou no falar, aos mesmos modismos e interesses antes cultivados, pois que significaria retê-los em indefinido atraso, tenteando com os limites que os aprisionavam ao corpo em deplorável situação "post mortem".

O problema, portanto, da identificação dos Espíritos, é mais de aparência do que de realidade, desde que, qualquer pessoa que ama, não terá dificuldade em descobrir o seu afeto de retorno em mil pequenos ou grandes informes que os tipificam, sem a necessidade mórbida de exigir-lhes minudências e sinais de que eles mesmos se desejam libertar, a fim de avançarem no rumo de outros valores, ricos de paz e alento, que lhes acenam felicidade e união, quando aqueles da retaguarda física, também amados, romperem as algemas da retentivae seguirem ao seu encontro, num mundo que já preparam, para que lhes seja melhor do que este de provas e expiações de onde procedemos.