INCORPORAÇÃO
BIBLIOGRAFIA
01- As margens do Eufrates - pág.199 02 - As potências ocultas do homem - pág. 289
03 - Auto desobsessão - pág. 22 04 - Ciência e Espiritismo - pág. 144
05 - Da alma humana - pág. 110, 130 06 - De Francisco de Assis para você - pág. 74, 129
07 - Desenvolvimento mediúnico - pág.11,33, 49,64 08 - Do país da luz - vol. iii pág. 39
09 - Espírito, perispírito e alma - pág. 118, 121 10 - Estudandoa mediunidade - pág. 51
11 - Hipnotismo e Espiritismo - pág. 249 12 - Mediunidade - pág. 75
13 - Médiuns e mediunidades - pág. 21 14 - Memórias de um suicida - pág. 164
15 - Messe de amor - pág. 31

16 - Missionários da luz - pág. 260

17 - No invisível - pág. 249 18 - O consolador - pág. 220
19 - O espiritismo - pág. 209 20 - O exilado- pág. 102, 139
21 - O fenômeno espírita - pág.105 22 - O solar de Apolo - pág. 241
23 - Resumo da Doutrina Espírita - pág. 49 24 - Técnica da mediunidade - pág. 23, 164

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INCORPORAÇÃO – COMPILAÇÃO

10 - Estudandoa mediunidade - Martins Peralva - pág. 51

Incorporação
Com o sugestivo nome de psicofonia, a mediunidade de incorporacão foi magnificamente estudada em «Nos Domínios da Mediunidade». Que é a incorporação ou psicofonia? É a faculdade que permite aos Espíritos, utilizando os órgãos vocais do encarnado, transmitirem a palavra audível a todos que presentes se encontrem. É a faculdade mais frequente em nosso movimento de intercâmbio com o mundo extracorpóreo.

E' através dela que os desencarnados narram, quando desejam, os seus aflitivos problemas, recebendo dos doutrinadores, em nome da fraternidade cristã, a palavra o esclarecimento e da consolação. Se não houvesse essas reuniões, que possibilitam a incorporação ou comunicação psicofônica, os obreiros da Espiritualidade teriam as suas tarefas aumentadas com o serviço de socorro às entidades que, nas regiões de sofrimento, carpem as aflições do remorso e do rancor.

Entidades superiores teriam que reduzir as próprias vibrações, a fim de se tornarem visíveis ou de se fazerem ouvidas aos irmãos infortunados, etransmitir-lhes o verbo do reconforto, como certamente, ocorria antes do advento do Espiritismo, que trouxe aos homens de boa vontade, através da oportunidade do serviço mediúnico, sublime campo para a exercitaçãodo amor.

Os grupos mediúnicos têm, assim, valioso ensejo de colaboração na obra de esclarecimento dos Espíritos endurecidos, tornando-se legatários da majestosa tarefa que, antes, pertencia exclusivamente aos obreiros desencarnados. Referindo-se aos benefícios recebidos pelos Espíritos nas sessões mediúnicas, é oportuno lembrarmos o que afirmam mentores abalizados.

Léon Denis, por exemplo, acentua que, no Espaço, sem a bênção da incorporação, os seus fluídos, ainda grosseiros, não lhes permitem entrar em relação com Espíritos mais adiantados.

O assistente Ãulus, respondendo a uma indagação de Hilário, o simpático companheiro de André Luiz, explica que «os encarnados que não prestam atenção aos ensinamentos ouvidos», nos variados setores da fé, nos círculos espíritas, católicos ou protestantes, «passam pelos santuários da fé na condição de urnas cerradas. Impermeáveis ao bom aviso, continuam inacessíveis à mudança necessária». «A palavra desempenha significativo papel nas construções do espírito.»O Assistente Âulus, focalizando o assunto, esclarece que eles «trazem ainda a mente em teor vibratório idên­tico ao da existência na carne, respirando na mesma faixa de impressões».

Um pormenor que não pode deixar de ser referido neste livro, é o que se reporta à ação das entidades interessadas em que os encarnados não ouçam os ensinamentos veiculados pelos doutrinadores, nas reuniões. Envolvem os ouvintes em fluidos entorpecedores, conduzindo-os ao sono provocado «pára que se lhes adie a renovação». Esta notícia explica o motivo por que muita gente dorme, pesadamente, nas sessões espíritas.

Temos ouvido, frequentes vezes, exclamações semelhantes a esta: «Não sei o que tinha hoje! os olhos estavam pesados e as pálpebras pareciam de chumbo.» Excetuando-se os poucos casos de esgotamento físico, em virtude de noites perdidas ou de excesso de trabalho, podemos guardar a certeza de que os acompanhantes desencarnados estão operando, magneticamente, no sentido de que tais pessoas, adormecendo, nada vejam, nem ouçam.

Emmanuel, com a sua palavra sempre acatada, salienta a necessidade do serviço de esclarecimento aos desencarnados, uma vez que se conservam, «por algum tempo, incapazes de apreender as vibrações do plano espiritual superior». Evidentemente, embora vazadas em termos diferentes, há perfeita concordância nas três opiniões, o que vem confirmar o que para nós não constitui nenhuma novidade: a universalidade do ensino dos Espíritos Superiores .

No gráfico que ilustra o presente capítulo, tomamos por base uma comunicação grosseira, isto é, de entidade não esclarecida que, incapaz de perceber vibrações mais sutis, necessita da incorporação a fim de ver pêlos olhos do médium, ouvir pêlos ouvidos do médium, falar pela boca do médium...

Se os postulados da Doutrina nos ensinam semelhante verdade, os novos conhecimentos trazidos por André Luiz, inclusive através de «Nos Domínios da Mediunidade», levam-nos a aceitá-la pacificamente. Vejamos como esse Amigo Espiritual descreve a in­corporação de entidade de baixo padrão vibratório:
«Notamos que Eugênia-alma afastou-se do corpo, mantendo-se junto dele, a distância de alguns centímetros, enquanto que, amparado pelos amigos que o assistiam, o visitante sentava-se rente, inclinando-se sobre o equipamento mediúnico ao qual se justapunha, à maneira de alguém a DEBRUÇAR-SE NUMA JANELA.».


A verdade doutrinária não se altera pois, inamovíveis são os fundamentos do Espiritismo: quanto mais materialidade, menos distãncia; quanto mais espiritualidade, menos distância. A circunstância de verificar-se tão acentuada imantação entre Espírito e médium, nas comunicações dessa natureza, aliada ao fato de o medianeiro refletir, em virtude da íntima e profunda associação das duas mentes, os pesares, rancores, aflições, ódios e demais sentimentos do comunicante, com dolorosa repercussão no organismo físico, induz-nos a opinar pelas seguintes abstenções de senhoras médiuns nas tarefas de desobsessões:

a) — A partir do 3." mês de gestação;
b) — Pelo menos uma vez, ao mês, em dia por ela julgado inoportuno à realização de serviços mediúnicos mais pesados.


A abstenção referida na alínea «a» vê, preservar o reencarnante das vibrações pesadas do comunicante, atendendo a que, estando a mente do filhinho
intimamente associada à da futura mamãe, naturalmente se associará, também, à do Espírito, já ligada à do médium consoante demonstração gráfica. Se o médium tivesse sempre a certeza de que a sua faculdade seria utilizada, exclusivamente por Espíritos Superiores, teríamos, evidentemente, suprimido a abstenção da alínea «a».

Na incorporação o médium cede o corpo ao comunicante, mas, de acordo com os seus próprios recursos pode comandar a comunicação, fiscalizando os pensamentos, disciplinando os gestos e controlando vocabulário do Espírito. Reconhecemos — é bom que se diga — haver casos em que o médium não consegue exercer esse controle, por ser a vontade do comunicante mais firme do que a sua; todavia, temos de convir que o médium terá sempre meios de cultivar a sua faculdade, educando-a no sentido de, na própria expressão de Áulus, agir qual se fosse enfermeiro «concordando com os caprichos de um doente, no objetivo de ajudá-lo.

Esse capricho, porém, deve ser limitado, porque, consciente de todas as intenções do companheiro infortunado a quem empresta o seu «carro físico», o médium deve reservar-se «o direito de corrigi-lo em qualquer inconveniência». O pensamento do Espírito, antes de chegar ao cérebro físico do médium, passa pelo cérebro perispirítico, resultando disso a propriedade que tem o medianeiro, EM TESE, de fazer ou não fazer o que a entidade pretende .

A prova desse controle, que o médium desenvolvido exerce, está na revolta demonstrada pelo Espírito, ao completar-se a incorporação:«Vejo! Vejo!... Mas por que encantamento ME PRENDEM AQUI? que ALGEMAS ME AFIVELAM a este móvel pesado?»
A explicação encontra-se na palavra do Assistente: «O sofredor — disse o Assistente, convicto —, ao contacto das forças nervosas da médium, revive os próprios sentidos e deslumbra-se. Queixa-se das cadeias que o prendem, cadeias essas que em cinquenta por cem decorrem da contenção cautelosa de Eugenia.»

Mais adiante, outra exclamação do Espírito:«Quem poderá suportar esta situação? Alguém me hipnotiza? Quem me fiscaliza o pensamento? Valerá restituir-me a visão, manietando-me os braços?«Fixando-o com simpatia fraterna, o Assistente informou-nos :
— «Queixa-se ele do controle a que é submetido pela vontade cuidadosa de Eugenia.»

A conclusão que o fato nos deixa é a de que a entidade, realmente alucinada, desejaria bater à mesa, gritar, expandir-se, etc.; entretanto, a vontade firme da médium a impede de realizar o seu objetivo. A educação mediúnica, aliada à melhoria interior, sob o ponto de vista moral, possibilita, indiscutivelmente, a disciplina do comunicado.

O médium negligente, ainda não suficientemente educado, favorece a turbulência nas comunicações de Espíritos violentos. Sem exigir-se o impossível dos médiuns, porque ninguém se julgará com direito, em sã consciência, a semelhante exigência, é justo lhes seja lembrado que o aprimoramento espiritual, o devotamento, a bondade com todos e o desejo de servir conduzem o medianeiro ao maior controle da própria vontade, assegurando, assim, o êxito da tarefa.

16 - Missionários da luz -André Luiz - pág. 260

Prosseguindo em meus estudos sobre os fenômenos mediúnicos de variada expressão, sempre que meus serviços habituais mo permitiam, regressava à Crosta, aprendendo e cooperando no grupo em que Alexandre funcionava na qualidade de orientador.Minha frequência, porém, em virtude das obrigações por mim assumidas em nossa colônia espiritual, não podia ser assídua, razão por que procurava aproveitar as mínimas oportunidades a fim de enriquecer as minhas experiências.

Numa das reuniões a que compareci, um dos cooperadores de nossa esfera aproximou-se do compassivo instrutor e pediu, humilde:
— Nossos companheiros encarnados, em solicitações sucessivas, insistem pela vinda do irmão Dionísio Fernandes, atualmente recolhido, como sabeis, numa organização de socorro. Alegam que a família se encontra inconsolável, que haveria conveniência na visita dele e que seria interessante ouvir um antigo companheiro de lutas doutrinárias...Enquanto Alexandre ouvia em silêncio, o simpático colaborador prosseguiu, depois de ligeira pausa:

— Estimaríamos receber a devida autorização para trazê-lo... Poderia incorporar-se na organização mediúnica de nossa irmã Otávia e fazer-se ouvir, de algum modo, diante dos amigos e familiares...O mentor pensou durante alguns momentos e redarguiu:— Não tenho qualquer objeção pessoal, em face da providência que você sugere, meu caro Euclides; entretanto, embora se constitua o nosso grupo de cooperadores encarnados de excelentes amigos, não os vejo convenientemente preparados para o integral aproveitamento da experiência. Sobra em quase todos eles, na investigação e no raciocínio, o que lhes falta em sentimento e compreensão.

Colocam a pesquisa muito acima do entendimento e, como você sabe, as organizações mediúnicas não são filtros mecânicos... Além disso, Dionísio conta com reduzido tempo em nossa esfera; ainda não pôde nem mesmo retirar-se do asilo que o acolheu em nosso plano. Adicionemos a esses fatores a intranquilidade da família, pouco observadora da fé viva, a diferença de vibrações da nova esfera a que o nosso amigo procura adaptar-se, presentemente, a profunda emoção dele com essa reaproximação talvez prematura, a instabilidade natural do aparelhamento mediúnico e, possivelmente, concordaremos com a inoportunidade de semelhante medida.

Euclides, o interlocutor, advogando o pedido veemente do círculo, não se desencorajou e insistiu:— Reconheço que a vossa palavra é sempre ponderada e amiga. Concordo em que não alcançaremos o objetivo desejado; todavia, reitero-vos a solicitação. Ainda mesmo que o fato não ultrapasse a feição de simples experiência... É que existem irmãos esforçados aos quais muito devemos aqui, no trabalho do bem diário ao próximo sofredor, e sentiríamos felicidade em demonstrar-lhes o testemunho do nosso reconhecimento e estima sincera...Alexandre sorriu com a generosidade que lhe era característica e observou:

— Só possuo razões para endossar seus pedidos, e, já que você insiste na providência para atender aos companheiros que se sentem igualmente credores de sua confiança e estima, pode avisá-los de que Dionísio virá. Eu mesmo cuidarei de trazê-lo pessoalmente. E como Euclides agradecesse tocado de imensa alegria, Alexandre encerrou a conversação, acrescentando:— Faça a promessa para a noite de amanhã. É sempre mais fácil dar com alegria que receber com acerto. Afastamo-nos. Porque o interrogasse, quanto ao processo fenomênico da incorporação, o benigno instrutor esclareceu de boa vontade:

— Mediunicamente falando, as medidas são as mesmas adotadas nos casos de psicografia comum, acrescentando-se, porém, que necessitaremos proteger, com especial carinho, o centro da linguagem na zona motora, fazendo refletir nosso auxílio magnético sobre todos os músculos da fala, localizados ao longo da boca, da garganta, laringe, tórax e abdômen. Atendendo-me as interpelações, o instrutor relacionou diversas elucidações de ordem moral, alusivas ao assunto, comentando as dificuldades para difundir nos corações terrenos os valores da consolação legítima, em virtude das exigências descabidas da pesquisa intelectual.

Admirava-lhe a sabedoria profunda e a sublime compreensão das fraquezas humanas, quando atingimos a instituição de socorro a que Dionísio se recolhera, em plena região inferior, não muito distante da Crosta Terrestre. Entendendo-se com os Espíritos do Bem, consagrados aos serviços do amor cristão, em zonas semelhantes, conduziu-me à presença do recém-desencarnado, que se mantinha sob forte excitação.— Dionísio — falou-lhe Alexandre, bondoso, após a saudação usual —, lembra-se do nosso grupo de estudos espiritualistas?— Como não? e com que saudades! — suspirou o interlocutor.— Nossos amigos do círculo pedem a sua presença, pelo menos por alguns minutos — prosseguiu o mentor, gentil —, e deliberei conduzi-lo até lá, para que você fale, não somente a eles, mas também aos familiares...

— Que ventura! — exclamou Dionísio, quase chorando de contentamento.— Ouça, porém, meu amigo! — tornou Alexandre, sereno e enérgico — é indispensável que você medite sobre o acontecimento. Lembre-se de que você vai utilizar um aparelho neuro-muscular que lhe não pertence. Nossa amiga Otávia servirá de intermediária. No entanto, você não deve desconhecer as dificuldades de um médium para satisfazer a particularidades técnicas de identificação dos comunicantes, diante das exigências de nossos irmãos encarnados. Compreende bem?

— Sim — replicou Dionísio, algo desapontado —, estou agora no mundo da verdade e não devo faltar a ela. Recordo-me de que muitas vezes recebi as comunicações do plano invisível, através de Otávia, com muitas prevenções, e, não raro, vacilei, acreditando-a vítima de inúmeras mistificações. Alexandre, muito calmo, observou:— Pois bem, agora chegou a sua vez de experimentar. E se, antigamente, era tão fácil para você duvidar dos outros, desculpe a fraqueza dos nossos irmãos encarnados, caso agora duvidem de seu esforço. É possível que não alcancemos o objetivo; entretanto, nossos colaboradores insistem pela sua visita e não devemos impedir a experiência. Antes que Dionísio se internasse em novas considera­ções, o interlocutor rematou:

— Concentre-se, com atenção, sobre o assunto, peça a luz divina em suas orações e espere-me. Conduzi-lo-ei em nossa companhia, deixando-o, na residência da médium, com algumas horas de antecedência, para que você encontre facilidades no serviço de harmonização. Despedimo-nos em seguida, registrando efusivos agradecimentos do interlocutor. O caso interessava-me. Por isso mesmo, roguei a permissão de Alexandre para acompanhá-lo de mais perto. Autorizado a fazê-lo, segui o instrutor que se dirigiu, no dia seguinte, à instituição a que Dionísio se recolhera, amparando-o convenientemente para a visita projetada. Com a gentileza de sempre, Alexandre guiou-nos até à moradia da médium Otávia, onde Euclides, o benevolente amigo da véspera, nos aguardava, cheio de atenções.

O prestimoso mentor despediu-se com delicadeza extrema e, deixando-me em companhia dos novos colegas, acrescentou:— A reunião dos companheiros encarnados terá início às vinte horas; todavia, entre dezoito e dezenove horas, estarei aqui de regresso, a fim de acompanhá-los ao nosso núcleo de serviço. E, fixando-me, concluiu bondosamente:— Aproveite a aproximação de Euclides, meu caro André. Um bom trabalhador tem sempre proveitosas lições a ensinar.Euclides, sorrindo, agradeceu, comovido, e conduziu-nos ao interior doméstico, enquanto Alexandre se afastava noutra direção.

— Nesta parte da casa — explicou-nos o guia acolhedor — a nossa irmã Otávia costuma fazer meditações e preces. A atmosfera reinante, aqui, é, por isso, confortadora, leve e balsâmica. Estejam à vontade. Em vista de ser hoje um dos dias consagrados ao serviço mediúnico, terminará ela os trabalhos da refeição da tarde, mais cedo, a fun de orar e preparar-se. Consultei o mostruário do grande relógio de parede, não longe de nós, que marcava precisamente dezesseis horas, e manifestei o desejo de ver a nossa irmã que aluaria, naquela noite, como intermediária entre os dois planos. Deixando Dionísio no aposento a que me referi, Euclides conduziu-me a pequena cozinha, onde uma senhora idosa se mantinha atenta à preparação de alguns pratos modestos. Tudo limpeza, ordem e harmonia doméstica. Notei-a, porém, algo pálida, abatida...Ouvindo-me a inquirição discreta, o companheiro informou:

— Otávia é uma excelente colaboradora de nossos serviços espirituais, mas, pela força das provas necessárias à redencão, permanece unida a um homem ignorante e quase cruel. Enquanto o companheiro brutal está ausente, nas horas do "ganha-pão", a casa é tranquila e feliz porquanto a nossa amiga não oferece hospedagem às entidades perturbadoras da sombra. Todavia, quando o infeliz Leonardo penetra este pequeno domínio, a situação se modifica, porque o pobre esposo é um legítimo "canteiro espinhoso", no jardim deste lar. Faz-se acompanhar de perigosos elementos das zonas mais baixas...— Não conseguiu ele identificar-se com a missão espiritualizante da esposa? — perguntei, com interesse.

— Não, de modo algum — explicou Euclides, sem titubear. — Não é novo para a compreensão elevada; contudo, é teimoso nos erros que lhe são próprios. Permite que a consorte nos ajude, em vista da insistência de parentes consanguíneos dele, dedicados à nossa causa e que, influenciados por nós, não lhe permitem afastá-la. A tarefa, porém, não é muito fácil, porque, se Otávia é dócil aos Espíritos do Bem, o esposo é obediente aos cultivadores do mal. Basta, às vezes, traçarmos um programa construtivo com a colaboração dela, para que Leonardo, cedendo aos portadores da treva, nos perturbe a ação, criando-nos graves dificuldades.

Percebendo que o abatimento da médium não me passava despercebido, Euclides acrescentou:— Tão logo prometi ontem, alegremente, a vinda de Dionísio, desejoso de incentivar o bom ânimo dos amigos encarnados, contando com o concurso mediúnico de nossa irmã, piorou a situação psíquica do esposo imprevidente. Leonardo amanheceu hoje mais nervoso que de costume, embebedou-se pouco antes do almoço, insultou a companheira humilde e chegou mesmo a infligir-lhe tormentos físicos. Assustada, a bondosa senhora sofreu tremendo choque nervoso que lhe atingiu o fígado, encontrando-se, no momento, sob forte perturbação gastrintestinal.

Por isso, a alimentação dela foi muito deficiente durante o dia e não tem podido manter a harmonia precisa da mente para atender, com exatidão, aos nossos propósitos. Já trouxe diversos recursos de assistência, inclusive a cooperação magnética de competentes enfermeiros espirituais, para levantar-lhe o padrão das energias necessárias, e só por isto é que a pobrezinha ainda não tombou acamada, embora se encontre bastante enfraquecida, apesar de todos os socorros. (...)

17 - No invisível - Léon Denis - pág. 249

XIX — Transe e incorporações
O estado de transe é esse grau de sono magnético que permite ao corpo fluídico exteriorizar-se, desprender-se do corpo carnal, e à alma tornar a viver por um instante sua vida livre e independente. A separação, todavia, nunca é completa; a separação absoluta seria a morte. Um laço invisível continua a prender a alma ao seu invólucro terrestre. Semelhante ao fio telefónico que assegura a transmissão entre dois pontos, esse laço fluídico permite à alma desprendida transmitir suas impressões pelos órgãos do corpo adormecido. No transe, o médium fala, move-se, escreve automaticamente; desses atos, porém, nenhuma lembrança conserva ao despertar.

O estado de transe pode ser provocado, quer pela ação de um magnetizador, quer pela de um Espírito. Sob o influxo magnético, os laços que unem os dois corpos se afrouxam. A alma, com. seu corpo sutil, vai-se emancipando pouco a pouco; recobra o uso de seus poderes ocultos, comprimidos pela matéria. Quanto mais profundo é o sono, mais completo vem a ser o desprendimento. As radiações da psique aumentam e se dilatam; um estado diferente de consciência, faculdades novas se revelam. Um mundo de recordações e conhecimentos, sepultados nas profundezas do "eu", se patenteia.

O médium pode, sob o império de uma vontade superior, reconstituir-se numa de suas passadas existências, revivê-la em todas as suas particularidades, com as atitudes, a linguagem, os atributos, que caracterizam essa existência. Entram ao mesmo tempo em ação os sentidos psíquicos. A visão e audição, a distância, se produzem tanto mais claras e fiéis quanto mais completa é a exteriorização da alma.

No corpo do médium, momentaneamente abandonado, pode dar-se uma substituição de Espírito. É o fenômeno das incorporações. A alma de um desencarnado, mesmo a alma de um vivo adormecido, pode tomar o lugar do médium e servir-se de seu organismo material, para se comunicar pela palavra e pelo gesto com as pessoas presentes.

Sábios eminentes dão testemunho da realidade des­ses fatos. O Dr. Oliver Lodge, em seu discurso na Royal Society, de Londres, em 31 de janeiro de 1902 (168), assim se exprime: "Uma máquina, elaborada como o são os nossos corpos, pode ser empregada, no caso de transe, não só pela Inteligência que, por assim dizer, a fabricou, mas também por outras Inteligências a que dela se permite fazer uso. Isso naturalmente não se realizaria senão por um certo tempo e com bastante dificuldade.

Em sua comunicação transmitida ao Congresso Oficial de Psicologia, de Paris, em 1900 (169), o professor Myers, de Cambridge, era ainda mais afirmativo. Depois de haver enumerado os fenômenos obtidos no estado de transe pelas Sras. Piper e Thompson, fenômenos que ele estuda há 25 anos, assim concluía o professor: "Em sua maioria, os fatos enunciados lembram o caráter e a memória de certas pessoas mortas...Estou convencido de que essa substituição de personalidade, ou mudança de Espírito, ou possessão, é um sensível progresso na evolução da nossa raça."

Durante o transe, o Espírito do médium pouco se afasta; permanece quase sempre confundido no grupo espiritual que cerca o seu invólucro terrestre. Sua influência às vezes se faz ainda sentir sobre o corpo, a que seus próprios hábitos o atraem. Sua ação se torna em tal caso um incômodo, um estorvo para os Espíritos que se comunicam. Quando a força oculta é insuficiente e o transe pouco profundo, o desprendimento é incompleto; as personalidades se confundem. O médium resiste à ação exterior do Espírito, que se esforça por tomar posse de seus órgãos.

Suas radiações psíquicas se mesclam às do manifestante. Daí, em variadas proporções, conforme os casos, duas partes a distinguir na manifestação: a do médium e a do Espírito, operação delicada, que exige profundo conhecimento das personalidades que se apresentam e das condições do fenômeno. O estado de transe facilita a sugestão. Nos fenômenos de escrita e da mesa, o médium se conserva na plena posse do seu "eu", de sua vontade, e poderia repelir as inspirações que recebe. No desprendimento já se não dá o mesmo. A alma se tem retirado, e o cérebro material fica exposto a todas as influências.

Quando está suficientemente protegido, o médium torna-se receptivo, tanto às sugestões de um magnetizador como às dos assistentes, ou às de um Espírito.É o que muitas vezes lança uma certa confusão na interpretação dos fatos e exige, da parte dos experimentadores, extrema prudência. Em tal caso é difícil distinguir a natureza real das influências atuantes. Hudson Tuttle, médium ele próprio, o faz notar em seu livro "Arcana of Spiritualism": "Os grupos espíritas são frequentemente joguete de uma ilusão, enganados por suas próprias forças positivas. Afastam os ditados espíritas, substituindo-os pelo reflexo de seus próprios pensamentos; e então observam contradições e confusões que ingenuamente atribuem à intervenção de Espíritos malévolos."

É preferível, por isso, deixar agirem sozinhos os Espíritos sobre o médium, abstendo-se de toda intervenção magnética humana. Foi sempre o que fizemos, no curso de nossos estudos experimentais. Em raras circunstâncias, quando, faltando-lhes de repente a força psíquica, as Inteligências nos pediam que atuássemos sobre o médium por meio de passes, bastava essa passageira intervenção para fazer crer aos assistentes numa ação sugestiva de nossa parte.

Na maioria das vezes, os fluídos de um magnetizador, por seu estado vibratório particular, contrariam os dos Espíritos, em lugar de auxiliá-los. Têm estes que se entregarem a um trabalho de adaptação, ou purificação, que esgota as forças indispensáveis à manutenção. Um magnetizador, cujos fluidos não sejam puros, que não possua um caráter reto, nem irrepreensível moralidade, pode, mesmo sem o querer, influenciar o sensitivo num sentido muito desfavorável.

Mesmo quando a ação oculta é poderosa e bem determinada, é preciso ter ainda em conta o embaraço do Espírito que se deve comunicar com o auxílio de um organismo estranho, mediante recursos muitas vezes restritos. O estado de harmonia entre as faculdades do Espírito e as do médium raramente existe; o desenvolvimento dos cérebros não é idêntico, e as manifestações são por isso contrariadas.. É o que nos diziam certos Espíritos, no curso de nossas experiências de incorporação: "Estamos acanhadamente encerrados; faltam-nos meios suficientes para exprimir os nossos pensamentos.

As partículas físicas deste cérebro são muito grosseiras, para poderem vibrar sob nossa ação, e as nossas comunicações se tornam por isso consideravelmente enfraquecidas." O Espírito Robert Hyslop o repete a seu filho, o professor Hyslop. Quando penetra na atmosfera terrestre e no organismo do médium, as coisas, diz ele, se lhe amesquinham: "Todas as coisas se me apresentam tão nitidamente, e quando aqui venho para exprimi-las, James, não o posso."

Entretanto, quando se pode dispor de um médium de real valor, quando a possessão é completa e a força suficiente para afastar as influências contrárias, deparam-se fenômenos imponentes. O Espírito se manifesta na plenitude do seu "eu", em toda a sua originalidade. O fenômeno das incorporações se mostra então superior a todos os outros. Indagam certos experimentadores: o Espírito do manifestante se incorpora efetivamente no organismo do médium? ou opera ele antes, a distância, pela sugestão mental e pela transmissão de pensamento, como o pode fazer o Espírito exteriorizado do sensitivo?

Um exame atento dos fatos nos leva a crer que essas duas explicações são igualmente admissíveis, conforme os casos. As citações que acabamos de fazer provam que a incorporação pode ser real e completa. É mesmo algumas vezes inconsciente, quando, por exemplo, certos Espíritos pouco adiantados são conduzidos por uma vontade superior ao corpo de um médium e postos em comunicação conosco, a fim de serem esclarecidos sobre sua verdadeira situação. Esses Espíritos, perturbados pela morte, acreditam ainda, muito tempo depois, pertencerem à vida terrestre.

Não lhes permitindo seus fluidos grosseiros o entrarem em relação com Espíritos mais adiantados, são levados aos grupos de estudo, para serem instruídos acerca de sua nova condição. É difícil às vezes fazer-lhes compreender que abandonaram a vida carnal, e sua estupefação atinge o cômico, quando, convidados a comparar o organismo que momentaneamente animam com o que possuíam na Terra, são obrigados a reconhecer o seu engano. Não se poderia duvidar, em tal caso, na incorporação completa do Espírito.

Noutras circunstâncias, a teoria da transmissão, a distância, parece melhor explicar os fatos. As impressões oriundas de fora são mais ou menos fielmente percebidas e transmitidas pelos órgãos. Ao lado de provas de identidade, que nenhuma hesitação permitem sobre a autenticidade do fenômeno e intervenção dos Espíritos, verificam-se, na linguagem do sensitivo em transe, expressões, construções de frases, um modo de pronunciar que lhe são habituais.

O Espírito parece projetar o pensamento no cérebro do médium, onde adquire, de passagem, formas de linguagem familiares a este. A transmissão se efetua em tal caso no limite dos conhecimentos e aptidões do sensitivo, em termos vulgares ou escolhidos, conforme o seu grau de instrução. Daí também certas incoerências que se devem atribuir à imperfeição do instrumento.

Ao despertar, o Espírito do médium perde toda consciência das impressões recebidas no sentido de liberdade, do mesmo modo que não guardará o menor conhecimento do papel que seu corpo tenha desempenhado durante o transe. Os sentidos psíquicos, de que por um momento haviam readquirido a posse, se extinguem de novo; a matéria estende o seu manto; a noite se produz; toda recordação se desvanece. O médium desperta num estado de perturbação, que lentamente se dissipa.

Às vezes o regresso à carne origina cenas pungitivas, quando o médium, durante a exteriorização, tornou a ver, no Espaço, entes amados, e no instante que precede o despertar ainda conserva essa impressão. O contraste entre a vida livre e luminosa, que acaba de fruir, e o cárcere sombrio a que é obrigado novamente a descer, provoca cenas de lágrimas e lamentos, repugnâncias de reintegrar-se na carne, que se traduzem por lamentos e comovedoras súplicas. Temos sido muitas vezes testemunhas de tais cenas. (...)

18 - O consolador - Emmanuel - pág. 220

397 — Por que razão alguns médiuns parecem sófrer com os fenômenos da incorporação, enquanto outros manifestam o mesmo fenômeno, naturalmente?— Nas expressões de mediunismo existem características inerentes a cada intermediário entre os homens e os desencarnados; entretanto, a falta de naturalidade do aparelho mediúnico, no instante de exercer suas faculdades, é quase sempre resultante da falta de educação psíquica.

398 — É natural que, em plenas reuniões de estudo, os médiuns se deixem influenciar por entidades perturbadoras que costumam quebrar o ritmo de proveitosos e sinceros trabalhos de educação?— Tal interferência não é natural e deve ser muito estranhável para todos os estudiosos de boa-vontade.
Se o médium que se entregou à atuação nociva é insciente dos seus deveres à luz dos ensinamentos doutrinários, trata-se de um obsidiado que requer o máximo de contribuição fraterna; mas, se o acontecimento se verifica através de companheiro portador do conhecimento exato de suas obrigações, no círculo de atividades da Doutrina, é justo responsabilizá-lo pela perturbação, porque o fato, então, será oriundo da sua invigilância e imprevidência, em relação aos deveres sagrados que competem a cada um de nós, no esforço do bem e da verdade.

399 — Quando a opinião irônica ou insultuosa ataca uma expressão da verdade, no campo mediúnico, é justo buscarmos o apoio dos Espíritos amigos para revidar?— Vossa inquietação no mundo costuma conduzir-vos a muitos despautérios.
Semelhante solicitação aos desencarnados seria um deles. Os valores de um campo mediúnico triunfam por si mesmos, pela essência de amor e de verdade, de consolação e de luz que contenham, e seria injustificável convocar os Espíritos para discutir com os homens, quando já se demasiam as polémicas dos estudiosos humanos entre si.
Além do mais, os que não aceitam a palavra sincera e fraternal dos mensageiros do plano superior terão, igualmente, de buscar o túmulo algum dia, e é inútil.

21 - O fenômeno espírita - Gabriel Delanne - pág.105

Incorporação ou encarnação
A mediunidade, pela pena, abrevia e simplifica as comunicações com os Espíritos; porém, há outro modo ainda mais expedito, por meio do qual o Espírito se apodera dos órgãos do médium e conversa por sua boca, como o poderia fazer se ele próprio estivesse encarnado. Os ingleses e norte-americanos dizem que, nesse caso, o médium está em transe.

Essas manifestações são as mais fáceis de dissimular; mas, nesse caso ainda, só convém admitir o fenômeno como real quando o médium dá provas certas de que um ser desencarnado se manifesta por seu intermédio. Essas provas podem ser de diferentes naturezas; vamos referir três exemplos dessa me­diunidade e ver-se-á, por essas narrações, como elas trazem um irresistível cunho de evidência. Eis o que conta o Sr. Sergent Cox, jurisconsulto eminente, escritor distintíssimo, bom juiz, diz Wallace, em matéria de estilo:

Um caixeiro

"Vi um caixeiro, sem educação, sustentar, quando estava em transe, conversação com uma plêiade de filósofos sobre a razão e a presciência, a vontade e a fatalidade, e fazer-lhes frente com vantagem.

"Propus-lhe as mais difíceis questões de psicologia e recebi respostas sempre sensatas, sempre cheias de energia e, invariavelmente, em linguagem escolhida e elegante. Entretanto, um quarto de hora depois, quando ele ficou em seu estado normal, era incapaz de responder às mais simples questões sobre assunto filosófico, e sempre costumava procurar muito para encontrar uma linguagem suficiente a fim de explicar as idéias mais vulgares."

Nessa experiência, a desproporção entre o estado normal e o transe é tão manifesta que, incontestavelmente, há uma ação estranha agindo sobre o sensitivo. Eis um segundo exemplo em que a ação dos Espíritos é ainda mais bem apreciada e absolutamente inegável.
Wallace, referindo-se aos trabalhos do juiz Edmonds sobre o Espiritismo, escreveu:

A filha do juiz Edmonds

"Temos ainda a acrescentar um relatório que será, talvez, para muitas pessoas a prova mais convincente de todas as experiências desse magistrado. Sua própria filha tornou-se médium e pôs-se a falar línguas estrangeiras que lhe eram totalmente desconhecidas. Ele exprime-se do seguinte modo sobre o assunto:

"Ela não dominava outro idioma além do seu, salvo ligeiro conhecimento de francês, aprendido na escola. Não obstante isso, tem conversado frequentemente em nove ou dez línguas diferentes, muitas vezes durante uma hora, com a segurança e a facilidade de uma pessoa falando sua própria língua. Não é raro que estrangeiros se entretenham, por seu intermédio, com seus amigos espirituais e em seu próprio idioma. Cumpre-nos dizer como se passou tal fato em uma dessas circunstâncias.


"Uma noite, em que doze ou catorze pessoas se achavam em meu pequeno salão, o Sr. E.-D. Green, artista desta cidade, foi introduzido em companhia de um cavalheiro que se apresentou como sendo Evan Gelides, natural da Grécia. Pouco depois, um Espírito falou-lhe em língua inglesa, por intermédio de Laura, e tantas coisas lhe disse que ele reconheceu estar por seu intermédio em relação com um amigo que falecera em sua casa, alguns anos antes, mas de quem ninguém tinha ouvido falar.

Nessa ocasião, por intermédio de Laura, o Espírito disse algumas palavras e pronunciou diversas máximas gregas, até que, enfim, o Sr. E. perguntou se ele poderia ser compreendido quando falasse grego? O resto da conversação foi, durante mais de uma hora, da parte do Sr. E., inteiramente em língua grega; Laura também falava em grego e, algumas vezes, em inglês. Em certos momentos, Laura não compreendia a idéia sobre a qual ela ou o Sr. Gelides falavam; mas, em outras ocasiões, a compreendia, posto que falasse em grego e ela própria se servisse de termos gregos.

"Vários outros casos são conhecidos e está averiguado que essa jovem tem falado as línguas espanhola, francesa, grega, italiana, portuguesa, latina, húngara, hindu, assim como outras que eram desconhecidas de todas as pessoas presentes. "Isto não é de forma alguma um caso isolado: apóia-se numa autoridade e em testemunho absolutamente irrecusável. Um pai deve saber ou não se a sua própria filha aprendeu a falar corretamente oito idiomas além da sua língua natal.

"Os que tomaram parte na conversação devem saber se as línguas de que se trata eram faladas ou não; em muitos casos, por exemplo, quando se conversava nos dialetos espanhóis ou indianos, o juiz Edmonds reconhecia-os. O fenômeno produzido faz parte do Espiritismo, porque essas línguas eram faladas em nome e por conta de pessoas falecidas, e porque estava no caráter delas o assunto de que se tratava. Este fenômeno, que há dezesseis anos foi dado à publicidade, deveria merecer uma discussão ou uma explicação por parte daqueles que fazem profissão de esclarecer o público sobre os assuntos espíritas."

Anestesia durante o transe
Eis uma observação médica do Dr. Gibier a respeito do célebre médium Slade: "Tínhamos de operar Slade com o fim de extirpar-lhe um cisto sebáceo do couro cabeludo. Por ser ele muito sensível à dor e, além disso, de uma pusilanimidade excessiva, não podíamos recorrer ao bisturi para operá-lo. Lançamos mão de cáusticos cujo princípio básico era o óxido de potássio. A aplicação do medicamento foi, desde o começo, muito dolorosa para Slade e, depois de alguns minutos, o seu sofrimento pareceu-nos intolerável; o paciente suava excessivamente; todos os seus membros agitavam-se com estremecimento.

Sugerimos-lhe a idéia de chamar Ovasso, o qual não se fez esperar, caindo logo Slade em estado de êxtase, de transe, e, com a voz modificada, entreteve-se alegremente conosco e com o Sr. A. F., que assistia à operação em meu gabinete de trabalho. A dor tinha de tornar-se cada vez mais intensa, pois a potassa mordia as camadas sensíveis do derma, mas Slade não parecia ocupar-se com isso, como se fosse um outro o paciente. No começo da operação, dava o seu pulso oitenta e cinco pulsações por minuto; três minutos depois, tinha esse número baixado a sessenta; a pele, que pouco antes era quente, resfriara quase subitamente, e Slade-Ovasso ria-se e conversava conosco.
"
Beliscamos-lhe com força a parte dorsal da mão, e o paciente, que se sobressalta ao menor contacto, tão grande é a sua hiperestesia no estado normal, nem deu mostras, nesse momento, de aperceber-se da pequena tortura que lhe infligíamos. "Ao cabo de um quarto de hora, tiramos o cáustico; Slade teve uma nova convulsão e tornou ao seu estado normal depois de nos ter apertado a mão e dito, como quem se despede, good-bye. A dor então reapareceu, mas muito suportável, e Slade queixou-se de sofrer principalmente na parte em que o tínhamos beliscado.

"É forçoso confessar que tudo isso é bastante estranho. Objetarão que tudo foi uma simulação? Mas, como explicar as modificações da temperatura e das pulsações do coração? Isso não pode ser simulado."Ainda uma nova observação sobre esse ponto: Dissemos acima que Slade tinha tido dois ataques de hemiplegia, da qual ainda não está curado. Fizemos, sem comunicar-lhe o nosso intento, o exame comparado de sua força no dinamômetro.

Depois de havermos verificado que, em suas mãos, o dinamômetro marcava 27 quilos à direita e 35 à esquerda, aproveitamo-nos de um acesso de transe, que se seguiu, em consequência dos esforços que ele tinha feito, apertando o instrumento, e verificamos, de uma vez, que o dinamômetro marcava à direita 55 em vez de 27 quilos, e à esquerda 60 em vez de 35, e, em outra ocasião, à direita 63 e à esquerda 50.

"Nenhuma das três pessoas presentes pôde fazer chegar à mesma indicação a agulha do dinamoscópio."Como é fácil de verificar, a encarnação ou incorporação é um fenómeno que não se pode simular, se os investigadores souberem tomar as precauções necessárias. Nos casos supramencionados, a intervenção dos Espíritos é absolutamente manifesta.

As objeções

Depois de havermos mostrado que os Espíritos dão, muitas vezes, ensinamentos ignorados por qualquer dos assistentes, mas, em seguida, reconhecidos como escrupulosamente exatos, o leitor talvez julgue que nada se pode objetar a esse fenômeno. Pois bem! Apareceram incrédulos que tentaram demonstrar que a escrita automática era perfeitamente explicável; porém, esqueceram-se de citar os casos embaraçosos; passaram por eles em silêncio e triunfaram facilmente, declarando que também podem obter a escrita automática por meio de indivíduos hipnotizados.

Além disso, os nossos críticos abstêm-se de sair desse terreno tão estreito, circunscrito à escrita automática; tudo o mais deixa para eles de existir. (...)