INQUISIÇÃO
BIBLIOGRAFIA
01- A CAMINHO DA LUZ, pag. 144, 159 02 - A CONSTITUIÇÃO DIVINA, pag. 65
03 - A EVOLUÇÃO DO PRINCÍPIO INTELIGENTE, pag. 59 04 - A MEDIUNIDADE E A LEI, pag. 48
05 - AFINAL, QUEM SOMOS?, pag. 114, 108, 116 06 - ALLAN KARDEC - VOL 3 pag, 206
07 - ALQUIMIA DA MENTE, pag. 268 08 - AS CASAS MAL ASSOMBRADAS,pag. 307
09 - INQUISIÇÃO - A ÉPOCA DAS TREVAS, obra toda 10 -

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INQUISIÇÃO – COMPILAÇÃO

01 - INQUISIÇÃO

O termo Inquisição refere-se a várias instituições dedicadas à supressão da heresia no seio da Igreja Católica. A Inquisição foi criada inicialmente para combater o sincretismo entre alguns grupos religiosos, que praticavam a adoração de plantas e animais e utilizavam mancias.1 A Inquisição medieval, da qual derivam todas as demais, foi fundada em 1184 no Languedoc (sul da França) para combater a heresia dos cátaros ou albigenses. Em 1249, implantou-se também no reino de Aragão, como a primeira Inquisição estatal e, já na Idade Moderna, com a união de Aragão e Castela, transformou-se na Inquisição espanhola (1478 - 1834), sob controle direto da monarquia hispânica, estendendo posteriormente sua atuação à América. A Inquisição portuguesa foi criada em 1536 e existiu até 1821). A Inquisição romana ou "Congregação da Sacra, Romana e Universal Inquisição do Santo Ofício" existiu entre 1542 e 1965.

O condenado era muitas vezes responsabilizado por uma "crise da fé", pestes, terremotos, doenças e miséria social,2 sendo entregue às autoridades do Estado, para que fosse punido. As penas variavam desde confisco de bens e perda de liberdade, até a pena de morte, muitas vezes na fogueira, método que se tornou famoso, embora existissem outras formas de aplicar a pena.

Os tribunais da Inquisição não eram permanentes, sendo instalados quando surgia algum caso de heresia e eram depois desfeitos. Posteriormente tribunais religiosos e outros métodos judiciários de combate à heresia seriam utilizados pelas igrejas protestantes3 (como por exemplo, na Alemanha e Inglaterra4 ). Embora nos países de maioria protestante também tenha havido perseguições - neste caso contra católicos, contra reformadores radicais, como os anabatistas, e contra supostos praticantes de bruxaria, os tribunais se constituíam no marco do poder real ou local, geralmente ad-hoc, e não como uma instituição específica.

O delator que apontava o "herege" para a comunidade, muitas vezes garantia sua fé e status perante a sociedade.5 A caça às bruxas não foi perpetrada pela Inquisição, mas sim por Estados e tribunais civis independentes, sem reais ligações com a Inquisição1 ".

Ao contrário do que é comum pensar, o tribunal do Santo Ofício era uma entidade jurídica e não tinha forma de executar as penas. O resultado da inquisição feita a um réu era entregue ao poder secular.

A instalação desses tribunais era muito comum na Europa a pedido dos poderes régios, pois queriam evitar condenações por mão popular. Diz Oliveira Marques em História de Portugal, tomo I, página 393: «(…) A Inquisição surge como uma instituição muito complexa, com objetivos ideológicos, econômicos e sociais, consciente e inconscientemente expressos. A sua atividade, rigor e coerência variavam consoante a época.»

No século XIX, os tribunais da Inquisição foram suprimidos pelos estados europeus, mas foram mantidos pelo Estado Pontifício. Em 1908, sob o Papa Pio X, a instituição foi renomeada "Sacra Congregação do Santo Ofício". Em 1965, por ocasião do Concílio Vaticano II, durante o pontificado de Paulo VI e em clima de grandes transformações na Igreja após o papado de João XXIII, assumiu seu nome atual - "Congregação para a doutrina da Fé".

Origem e histórico[editar]

Inquisição medieval

A ideia da criação da Inquisição surgiu em 1183, quando delegados enviados pelo Papa averiguaram a crença dos cátaros de Albi, sul de França, também conhecidos como "albigenses", que acreditavam na existência de um deus do Bem e outro do Mal, Cristo seria o deus do bem enviado para salvar as almas humanas e o deus criador do mundo material seria o deus do mal, após a morte as almas boas iriam para o céu, enquanto as más iriam praticar metempsicose.1 Isto foi considerada uma heresia e no ano seguinte, no Concílio de Verona, foi criado o Tribunal da Inquisição.

O Papa Gregório IX, em 20 de Abril de 1233, editou duas bulas que marcam o reinício da Inquisição. Nos séculos seguintes, ela julgou, absolveu ou condenou e entregou ao Estado - para que as penas fossem aplicadas - vários de seus inimigos propagadores de heresias. Nesta etapa, foi confiada à recém-criada ordem dos Pregadores.

Onde quer que os ocorra pregar estais facultados, se os pecadores persistem em defender a heresia apesar das advertências, a privá-los para sempre de seus benefícios espirituais e proceder contra eles e todos os outros, sem apelação, solicitando em caso necessário a ajuda das autoridades seculares e vencendo sua oposição, se isto for necessário, por meio de censuras eclesiásticas inapeláveis.

– A bula Licet ad capiendos, 1233, dirigida aos dominicanos inquisidores

A privação de benefícios espirituais era a não administração de sacramentos aos heréticos, onde, caso houvesse ripostação, deveria ser chamada a intervir a autoridade não religiosa (casos de agressão verbal ou física). Se nem assim a pessoa quisesse arrepender-se eram dadas, conscientemente, como anátema (reconhecimento oficial da excomunhão), "censuras eclesiásticas inapeláveis".

Conforme o Concílio de Viena, de 1311, obrigava-se os inquisidores a recorrerem à tortura apenas mediante aprovação do bispo diocesano e de uma comissão julgadora, em cada caso. A tortura era um meio incluído no interrogatório, sobretudo nos casos de endemoninhados ou de réus suspeitos de mentira.

No entanto, e bem mais tarde, já em pleno século XV, os reis de Castela e Aragão, Isabel e Fernando, solicitam, e obtêm do Papa a autorização para a introdução de uma Inquisição. Tal instituição afigurava-se-lhes necessária para garantir a coesão num país em unificação (foi do casamento destes dois monarcas que resultou a Espanha) e que recentemente conquistara terras aos mouros muçulmanos na Península Ibérica e os judeus sefarditas, por forma a obter «unidade» nacional que até ali nunca existira. A ação do Tribunal do Santo Ofício tratou de mais casos depois da conversão de alguns judeus e mouros que integravam o novo reino. Alguns deles foram obrigados a renegar as suas religiões e a aderir ao cristianismo ou a abandonar o país. A estes é dado o nome de "cristãos-novos". Alguns esqueciam de fato a religião dos seus antepassados, enquanto outros continuavam a praticar secretamente a antiga religião. A esses últimos dá-se o nome de cripto-judeus. Eram frequentes os levantamentos populares e as denúncias de práticas judaizantes aos inquisidores.

Sendo essencialmente um tribunal eclesiástico, desde cedo o reino, o poder régio se apossou da Inquisição, como forma de prosseguir os seus particulares fins econômicos, esquecendo o fundamental inquiridium aos réus por motivos religiosos. Tomado pelo poder régio, o Tribunal da Santa Inquisição, em Espanha, deu azo a uma persistente propaganda por parte dos inimigos da Espanha católica: ao sujeitar o poder da fé ao poder da lei, da coação, e da violência, a Inquisição espanhola tornou-se, no imaginário coletivo, uma das mais tenebrosas realizações da Humanidade.

Mais tarde, em certas regiões da Itália e em Portugal, o Papa autorizou a introdução de instituições similares, em condições diferentes. No caso de Portugal, a recusa do Papa ao pedido, tendo visto os abusos da Espanha, mereceu que o rei tivesse como alternativa ameaçar com a criação de uma "inquisição" régia, que segundo ele era coisa urgente para o reino. De fato, a introdução da Inquisição em Portugal resultou das pressões espanholas que, para além de uma sinceridade zelota, não queriam ver o reino rival beneficiar com os judeus e mouriscos expulsos de Espanha.

Uso do fogo

A utilização de fogueiras como maneira de o braço secular aplicar a pena de morte aos condenados que lhes eram entregues pela Inquisição é o método mais famoso de aplicação da pena capital, embora existissem outros. Seu significado era basicamente religioso - dada a religiosidade que estava impregnada na população daquela época, inclusive entre os monarcas e senhores feudais -, uma vez que o fogo simbolizava a purificação, configurando a ideia de desobediência a Deus (pecado) e ilustrando a imagem do Inferno.

Em muitos casos também queimavam-se em praça pública os livros avaliados pelos inquisidores como símbolos do pecado: " No fim do auto se leo a sentença dos livros proibidos e se mandarão queimar três canastras delles. Maio de 1624".6

Foi por causa da sua obra: Discours pathetéque ou suget des calamités…, publicado em Londres (1756) que o Cavaleiro de Oliveira foi relaxado à justiça secular que o fez queimar em estátua com o livro suspenso ao pescoço - como herege convicto - durante o auto-de-fé realizado em Lisboa no ano de 1761.7

Neste momento, estamos diante da "apropriação penal" dos discursos, ato que justificou por muito tempo a destruição de livros e a condenação dos seus autores, editores ou leitores. Como lembrou Chartier: " A cultura escrita é inseparável dos gestos violentos que a reprimem". Ao enfatizar o conceito de perseguição enquanto o reverso das proteções, privilégios, recompensas e pensões concedidas pelos poderes eclesiásticos e pelos príncipes, este autor retoma os cenários da queima dos livros que, enquanto espetáculo público do castigo, inverte a cena da dedicatória.8

A inquisição espanhola

Inquisição espanhola

A Inquisição espanhola é, entre as demais inquisições, a mais famosa porque mais marcante na lembrança. David Landes, por exemplo, relata-nos: "A perseguição levou a uma interminável caça à bruxa, completa com denunciantes pagos, vizinhos bisbilhoteiros e uma racista "limpieza de sangre". Judeus conversos eram apanhados por intrigas e vestígios de prática mosaica: recusa de porco, toalhas lavadas à sexta-feira, uma prece escutada à soslaia, freqüência irregular à igreja, uma palavra mal ponderada. A higiene em si era uma causa de suspeita e tomar banho era visto como uma prova de apostasia para marranos e muçulmanos. A frase "o acusado era conhecido por tomar banho" é uma frase comum nos registros da Inquisição. Sujidade herdada: as pessoas limpas não têm de se lavar. Em tudo isto, os espanhóis e portugueses rebaixaram-se. A intolerância pode prejudicar o perseguidor (ainda) mais do que a vítima. Deste modo, a Ibéria e na verdade a Europa Mediterrânica como um todo, perdeu o comboio da chamada revolução científica".

Segundo Michael Baigent e Richard Leigh, a 1 de novembro de 1478, uma Bula do Papa Sixto IV autorizava a criação de uma Inquisição Espanhola. Confiou-se então o direito de nomear e demitir aos monarcas espanhóis. O primeiro Auto de fé foi realizado a 6 de fevereiro de 1481, e seis indivíduos foram queimados vivos na estaca. Em Sevilha, só em novembro, 288 pessoas foram queimadas, enquanto setenta e nove foram condenadas à prisão perpétua. Em fevereiro de 1482 o Papa autorizou a nomeação de mais sete dominicanos como Inquisidores, entre eles, Tomás de Torquemada. Este viria a passar à história como a face mais aterrorizante da Inquisição. Em abril de 1482, o próprio Papa emitiu uma bula, na qual concluía: ¨A Inquisição há algum tempo é movida não por zelo pela fé e a salvação das almas, mas pelo desejo de riqueza¨. Após essa conclusão, revogaram-se todos os poderes confiados à Inquisição e o Papa exigiu que os Inquisidores ficassem sobre o controle dos bispos locais. O Rei Fernando ficou indignado e ameaçou o Papa. A 17 de outubro de 1483, uma nova bula estabelecia o Consejo de La Suprema y General Inquisición para funcionar como a autoridade última da Inquisição, sendo criado o cargo de Inquisidor Geral. Seu primeiro ocupante foi Tomás de Torquemada. Até a sua morte em 1498, Torquemada teve poder e influência que rivalizavam com os próprios monarcas Fernando e Isabel. O número de autos-de-fé durante o mandato de Torquemada como inquisidor é muito controverso, mas o número mais aceito é normalmente 2.000.9

Procedimentos

Dois sacerdotes demonstrando uma aplicação de tortura sob a supervisão da Inquisição.
Segundo Michael Baigent e Richard Leigh ao chegar a uma localidade, os Inquisidores proclamavam que todos seriam obrigados a assistir a uma missa especial, e ali ouvir o "édito" da Inquisição lido em público. No fim do sermão, o Inquisidor erguia um crucifixo e exigia-se que os presentes erguessem a mão direita e repetissem um juramento de apoio à Inquisição e seus servos. Após este procedimento lia-se o "édito", que condenava várias heresias, além do Islão e o judaísmo, e mandavam que se apresentassem os culpados de "contaminação". Se confessassem dentro de um "período de graça" poderiam ser aceites de volta à igreja sem penitência, porém teriam que denunciar outras pessoas culpadas que não tivessem se apresentado. Não bastava denunciar-se como herege para alcançar os benefícios do "édito", deveria denunciar os cúmplices. O ônus da justificação ficava com o acusado. Essa denúncia foi usada por muitos como vingança pessoal contra vizinhos e parentes, para eliminar rivais nos negócios ou no comércio. A fim de se adiantarem a uma denúncia de outros, muitas pessoas prestavam falso testemunho contra si mesmas e denunciavam outras. Em Castela, na década de 1480, diz-se [carece de fontes] que mais 1500 vítimas foram queimadas na estaca em consequência de falso testemunho, muitas delas sem identificar a origem da acusação contra elas. Reservava-se a pena de morte, aplicada pelo braço secular (o Estado) basicamente para os hereges não arrependidos, e para os que haviam recaído após conversão nominal ao catolicismo.

A inquisição em Portugal e no Brasil

Inquisição portuguesa

Na História da cultura universal - e, mais especificamente, da cultura portuguesa e brasileira que se viram amordaçadas durante séculos pela atuação da Santa Inquisição -, são múltiplos os exemplos de "caça à literatura sediciosa". Podemos considerar Portugal pioneiro na censura literária e defesa da fé e dos bons costumes. Antes mesmo da instituição da Inquisição em Portugal (1536), observamos por parte do Estado a preocupação em cercear ideias consideradas como perigosas ao regime. Em meados do século XV foi instituída a censura real através de um alvará de Afonso V, de 18 de agosto de 1451, que manda "queimar livros falsos e heréticos". Orientado pelo Conselho, ordenava que os livros de Johannes Wickef, Johannes Hus, Frei Gaudio e de outros fossem queimados e "non fossem mais achados em os nossos reinos".10

A Inquisição foi pedida inicialmente por D. Manuel I, para cumprir o acordo de casamento com Maria de Aragão. A 17 de dezembro de 1531, o Papa Clemente VII, pela bula Cum ad nihil magis a instituiu em Portugal, mas um ano depois anulou a decisão. Em 1533 concedeu a primeira bula de perdão aos cristãos-novos portugueses. D. João III, filho da mesma D. Maria, renovou o pedido e encontrou ouvidos favoráveis no novo Papa Paulo III que cedeu, em parte por pressão de Carlos V de Habsburgo.

Em 23 de maio de 1536, por outra bula em tudo semelhante à primeira, foi instituída a Inquisição em Portugal. Sua primeira sede foi Évora, onde se achava a corte. Tal como nos demais reinos ibéricos, tornou-se um tribunal ao serviço da Coroa.

A bula Cum ad nihil magis foi publicada em Évora, onde então residia a Corte, em 22 de outubro de 1536. Toda a população foi convidada a denunciar os casos de heresia de que tivesse conhecimento. No ano seguinte, o monarca voltou para Lisboa e com ele o novo Tribunal. O primeiro livro de denúncias tomadas na Inquisição, iniciado em Évora, foi continuado em Lisboa, a partir de Janeiro de 1537. Em 1539 o cardeal D. Henrique, irmão de D. João III e depois ele próprio rei, tornou-se inquisidor geral do reino.

Até 1541, data em que foram criados os tribunais de Coimbra, Porto, Lamego e Évora, existia apenas a Inquisição portuguesa que funcionava junto à Corte. Em 1541 foram criados os Tribunais de Coimbra, Porto, Lamego e Tomar. Em 1543-1545 a Inquisição de Évora efectuou diversas visitações à sua área jurisdicional. Mas em 1544 o Papa mandou suspender a execução de sentenças da Inquisição portuguesa e o autos-de-fé sofreram uma interrupção.

Foram, então, redigidas as primeiras instruções para o seu funcionamento, assinadas pelo cardeal D. Henrique, e datadas de Évora, a 5 de Setembro. O primeiro regimento só seria dado em 1552. Em 1613, 1640 e 1774, seriam ordenados novos regimentos por D. Pedro de Castilho, D. Francisco de Castro e pelo Cardeal da Cunha, respectivamente.

De acordo com Henry Charles Lea11 no período entre 1540 e 1794, os tribunais de Lisboa, Porto, Coimbra e Évora resultaram na morte por fogueira de 1,175 pessoas, e na queima de 633 efígies, e em 29,590 outras penas. No entanto a documentação de alguns autos de fé desapareceu12 podendo estes números estar ligeiramente abaixo da realidade.

Segundo o regimento de 1552 deviam ser logo registradas em livro as nomeações, as denúncias, as confissões, as reconciliações, a receita e despesa, as visitas e as provisões enviadas "para fora". A natureza dos documentos dos tribunais de distrito é idêntica, visto que a sua produção era determinada pelos regimentos e pelas ordens recebidas do inquisidor-geral ou do Conselho e obedecia a formulários.

Ao mesmo tempo, diz o livro «D. João III» de Paulo Drumond Braga, página 136, o pontífice emanou sucessivos perdões gerais aos cristãos novos em 1546 e 1547. Em 1547 Paulo III autorizou que o Tribunal português passasse a ter características idênticas aos tribunais de Castela: sigilo no processo e inquisidores gerais designados pelo Rei. No mesmo ano saiu o primeiro rol de livros proibidos e deixaram de funcionar os Tribunais de Coimbra (restaurado em 1565), Porto, Lamego e Tomar.

Em 1552 o Santo Ofício recebeu seu primeiro Regimento, que só seria substituído em 1613. Em 1545 Damião de Góis tinha sido denunciado como luterano. Em 1548 Fernão de Pina, guarda-mor da Torre do Tombo e cronista geral do reino, sofreu idêntica acusação.

Na Torre do Tombo encontra-se abundante documentação. D. Diogo da Silva, primeiro inquisidor-mor, nomeou um conselho para o coadjuvar, composto por quatro membros. Este Conselho, do Santo Ofício de 1536 foi a pré-figuração do Conselho Geral do Santo Ofício criado pelo cardeal D. Henrique em 1569 e que teve regimento em 1570. Entre as suas competências, saliente-se: a visita aos tribunais dos distritos inquisitoriais para verificar a actuação dos inquisidores, promotores e funcionários subalternos, o cumprimento das ordens, a situação dos cárceres. Competia-lhe a apreciação e despacho às diligências dos habilitandos a ministros e "familiares do Santo Ofício",13 julgar a apelação das sentenças proferidas pelos tribunais de distrito, a concessão de perdão e a comutação de penas, a censura literária para impedir que entrassem no país livros heréticos; a publicação de índices expurgatórios; as licenças para impressão.

02 - INQUISIÇÃO

A SANTA INQUISIÇÃO

A Inquisição, ou Santa Inquisição foi uma espécie de tribunal religioso criado na Idade Média para condenar todos aqueles que eram contra os dogmas pregados pela Igreja Católica.

Fundado pelo Papa Gregório IX, o Tribunal do Santo Ofício da Inquisição mandou para a fogueira milhares de pessoas que eram consideradas hereges (praticante de heresias; doutrinas ou práticas contrárias ao que é definido pela Igreja Católica) por praticarem atos considerados bruxaria, heresia ou simplesmente por serem praticantes de outra religião que não o catolicismo.

A verdade é que embora o apogeu da Inquisição tenha se dado no século XVIII, as perseguições aos hereges pelos católicos, têm registros bem mais antigos. No século XII os “albigenses” foram massacrados a mando do Papa Inocêncio III que liderou uma cruzada contra aqueles que eram considerados os “hereges do sul da França” por pregarem a volta da Igreja às suas origens e a rejeição a opulência da Igreja da época.

Em 1252, a situação que já era ruim, piora. O Papa Inocêncio IV publica um documento, o “Ad Exstirpanda”, onde autoriza o uso da tortura como forma de conseguir a conversão. O documento é renovado pelos papas seguintes reforçando o poder da Igreja e a perseguição.

A Inquisição tomou tamanha força que mesmo os soberanos e os nobres temiam a perseguição pelo Tribunal e, por isso, eram obrigados a ser condizentes. Até porque, naquela época, o poder da Igreja estava intimamente ligado ao do estado.

Mais terrível que qualquer episódio da história humana até então, a Inquisição enterrou a Europa sob um milênio de trevas deixando um saldo de incontáveis vítimas de torturas e perseguições que eram condenadas pelos chamados “autos de fé” – ocasião em que é lida a sentença em praça pública.

Galileu Galilei foi um exemplo bastante famoso da insanidade cristã na Idade Média: ele foi perseguido por afirmar através de suas teorias que a terra girava em torno do sol e não o contrário. Mas, para ele o episódio não teve mais implicações. Já outros como Giordano Bruno, o pai da filosofia moderna, e Joana D’Arc, que afirmava ser uma enviada de Deus para libertar a França e utilizava roupas masculinas, foram mortos pelo Tribunal do Santo Ofício.

Uma lista de livros proibidos foi publicada, o ”Index Librorum Prohibitorum” através da qual diversos livros foram queimados ou proibidos pela Igreja.

O Tribunal era bastante rigoroso quanto à condenação. O réu não tinha direito à saber o porquê e nem por quem havia sido condenado, não tinha direito a defesa e bastavam apenas duas testemunhas como prova.

O pior período da Inquisição foi durante a chamada Inquisição Espanhola (Século XV ao Século XIX). De caráter político, alguns historiadores afirmam que a Inquisição Espanhola foi uma forma que Fernando de Aragão encontrou de perseguir seus opositores, conseguir o poder total sobre os reinos de Castela e Aragão (Espanha) e ainda expulsar os judeus e muçulmanos.

03 - INQUISIÇÃO

600 anos de sombras

“Todo pedido de perdão é um grande começo”

Paulo Roberto Viola (Para a Revista ESPÍRITA ALÉM DA VIDA)

O Santo Ofício da Inquisição, o Espiritismo perdoa? Os seis séculos de Inquisição, que tanto abalaram e enegreceram o Planeta, não podem, de sã consciência, ser considerados um libelo contra a prestigiosa instituição Igreja Católica Romana, pois os desvios históricos ocorridos, por mais terríveis que tenham sido, não devem comprometer toda uma organização, mas, sim, os seus efetivos responsáveis, seres humanos frágeis e pecadores, sempre capazes de façanhas inimagináveis... para o bem ou para o mal. Afinal, essa mesma Igreja Católica que viveu as barbaridades da Inquisição praticadas pela Corte indecorosa de Papas perdulários e delinqüentes, como o impiedoso Paulo IV, o anti-Papa Inocêncio 3º, o bon vivan Leão X e mais recentemente o Papa Pio IX, foi a mesma que no curso do Cristianismo acolheu notáveis como os Papas João XXIII e João Paulo 2º e trouxe tantas pegadas luminosas, como as do virtuoso de Assis, do venerável Bento, do eremita Francisco de Paula, da madre Teresa de Calcutá, da carmelita descalça Joanna de Ângelis, de Frei Luis, de Teresa D’Ávila e de tantos outros. Com efeito, não teria sido por outra razão que o ilustre escritor Hermínio Miranda, um dia, chegara a uma “agradável conclusão”: “a Igreja é uma respeitabilíssima Instituição, com tantos virtuosos históricos, que vem varando os séculos. Afinal,todos já integramos, alguma vez, essa grande família, seja na infância, seja em encarnações anteriores” (do livro "Francisco de Paula, o Eremita da Caridade").

O histórico resumido resumido da Inquisição
Como Nasceram as Sombras do “Santo Ofício”.


A legislação contra aqueles que não comungavam com os princípios ortodoxos da Igreja Católica foi se tornando cada vez mais radical através da História. Em 1184, o Papa Lúcio 3º, formula um direito penal para punir indivíduos considerados “hereges” (pessoas que pensavam, ou agiam, de forma conflitante com o que a Igreja apregoava como verdade). Com base nesses postulados, autoridades e leigos, ficaram obrigados a denunciar os hereges sob pena de confisco de suas propriedades. Em 1199, o Papa Inocêncio 3º tipifica a heresia como crime de lesa majestade, ou seja, um delito contra a autoridade do monarca. Durante o pontificado de Inocêncio 3º as trevas predominaram. Com um Exército de cerca de trinta mil soldados, convocados por ele, dentre mercenários e vadios, o sul da França foi invadido, instalando-se ali uma guerra que duraria quatro décadas, morrendo um número inestimável de crianças e inocentes. Seu objetivo era reconhecidamente político e não o de preservar a fé. Considera-se que foi um dos Papas mais corruptos e voltados para os valores mundanos.
Posteriormente, em 1209, a História registra o assassinato de 7.000 pessoas que foram queimadas vivas dentro de uma igreja local, acusadas de heresia, na cidade de Béziers, na França.
Mais adiante, o Papa Gregório IX, o mesmo que canonizou Francisco de Assis, Santo Antonio de Pádua e São Domingos de Gusmão, criou, em 1233, o Santo Ofício da Inquisição, através da Bula Licet ad Capiendos, com o que pretendia reprimir as doutrinas heréticas, ou seja qualquer movimento pensante que fosse considerado afronta à visão oficial do Catolicismo. Mediante essa Bula, Gregório confere aos dominicanos a tarefa de erradicar a heresia. Do temido e sombrio documento, constou: “Onde quer que os ocorra pregar estais facultados, se os pecadores persistem em defender a heresia apesar das advertências, a privá-los para sempre de seus benefícios espirituais e proceder contra eles e todos os outros, sem apelação, solicitando, em caso necessário a ajuda das autoridades seculares e vencendo sua oposição, se isto for necessário, por meio de censuras eclesiásticas inapeláveis".
Nascia ali, de forma institucionalizada e escancarada, séculos de perseguição, interrogatórios e punições cruéis a quem divergisse do pensamento religioso dominante, a temida Inquisição. Nesse mesmo ano de 1233, Roberto el Bougre, designado Inquisidor, promoveu saques e execuções em massa, e, após dois anos, foi promovido a responsável pela Inquisição em toda a França. Em 1252, o Papa Inocêncio IV assinou a Bula "Ad Extirpanda", que consagrou definitivamente o temido Tribunal Eclesiástico da Inquisição, autorizando o uso da tortura e da barbárie. O Poder institucional do Estado era obrigado a colaborar com esse Tribunal da Igreja. Os inquisidores - pessoas encarregadas de investigar e denunciar os hereges – desfrutavam de padrão cultural de excelência, pois eram doutores em Teologia, Direito Canônico e Civil. Caso julgasse necessário, os inquisidores tinham o poder de exigir que as autoridades civis, sob juramento, defendessem a Igreja contra a maldade herética...
O padre Bernardo, jesuíta, foi um nome que muito se destacou nessa ação inquisitorial inicial, por ser, como Inquisidor, na Região francesa de Touluse, implacável com suas vítimas.
No início dos anos 1300, na pequenina aldeia de Montaillon, no sul da França, vivia um povo que se cansava de pagar pesados tributos e multas ao poder dominante da Igreja Católica. Por derradeiro, os padres mais se preocupavam com a colheita de impostos do que outra coisa. Nesse tempo a Igreja era considerada a guardiã da palavra de Deus. Em meio a esse contexto, brotou uma semente reformista de reação, chamada catarismo, ou seja um movimento religioso rebelde que foi imediatamente identificado pela Igreja como herético. (Sobre os Cátaros o escritor espírita Hermínio Miranda escreveu uma obra de grande sucesso editorial, denominado "Os Cátaros e a Igreja Católica" – Editora Lachâtre).
O catarismo se espalhou, a ponto de ameaçar o poder papal e nesse tempo qualquer afronta à Igreja era considerado um ataque ao Governo que, por sua vez, protegia a segurança dos Papas. Em Montaillon ficou muito conhecido um padre que se tornou famoso na História por sua devassidão moral, pois escondia permanentes e múltiplos amores nos recantos sombrios de sua paróquia sacerdotal. Padre Pierre que vivia simpaticamente entre os Cátaros, um dia achou simplesmente, como confidenciaria mais tarde, que estava perdendo seu poder sacerdotal na Região e acabou traindo os habitantes da pequena aldeia, que tanto o estimavam, pois serviu de elo de comunicação para que a impiedosa reação da Inquisição chegasse à Montaillon. Dezenas de famílias foram condenadas e obrigadas a usar a cruz amarela que tanto denegria o usuário condenado.

A ação sombria de Jaques Fournier na França

Em 1318, surge a figura sombria do padre Jacques Fournier, que fora bem educado na Universidade de Paris, onde recebeu doutorado em teologia, mas que, nem por isso, teria qualquer compaixão com quem interpretasse o catolicismo diferente dele. Fournier acabou descobrindo que Montaillon estava literalmente seduzida pelo pensamento herege e lá reabriu a Inquisição. Intimou homens e mulheres aos interrogatórios cruéis. Os escribas anotavam, com rigor, todos os depoimentos dos aldeões. A vida das pessoas era invadida sem qualquer parcimônia. Beatrice, amante do padre Pierre, ficou presa, à pão e água, na Torre da Aldeia.
E note-se que entre os Inquisidores de seu tempo, Fournier foi considerado um dos mais complacentes, pois somente queimou cinco hereges. Em 1327, esse Inquisidor se tornou Cardeal e, sete anos depois, foi eleito Papa, tomando o nome de Bento XII. Sua obra maior: o suntuoso Grand Palais.
Uma das vítimas de Fournier fora um coitado judeu viajante , preso durante a noite sob os berros dos inquisidores: “sejam batizados, ou mataremos imediatamente”. Claro, ele preferiu o batismo. Esse judeu, inteligente e culto, fascinara Fournier, com ele debatendo durante quase dois meses e tudo fazendo para torná-lo cristão, mas o velho judeu preferiu permanecer como pensava. Fournier, então, deu o ultimato. Converter-se, ou morrer, uma terrível palavra de ordem que atravessou os séculos.
Em 1376, o Inquisidor Nicolau Eymerich, formulou o "Directorium Inquisitorum", que era o Manual dos Inquisidores, onde constavam regras inenarráveis sob o ponto de vista de crueldade. O Manual informava ao Inquisidor 50 artimanhas de que se valia o demônio para impedir o ato sexual, provocar impotência ou ensejar praticas abortivas. De lá vieram inspirações as mais draconianas: "És capaz de lembrar da tua confissão ontem, ou anteontem, sob tortura? Então, agora, repete tudo com total liberdade". E a resposta era anotada. Se o acusado não ratificasse a afirmação, era submetido a novas sessões de tortura. As "bruxas", isto é, mulheres que não apresentavam boa aparência, eram costumeiramente acusadas por todos os males que açoitavam a Europa.
Em 1394, os padres já exigiam a conversão dos judeus. No século XV, a comunidade judaica vivia em guetos. Quando “convertidos”, passavam a incomodar os antigos cristãos com seus prósperos negócios. Não havia quem entre os “convertidos” que não fosse tomado de medo, pois temia sofrer qualquer tipo de discriminação e violência.

O Santo Ofício na Espanha

Em 1478, os tempos já eram outros na Ibéria. A Inquisição e suas filhas cruéis, a tortura e a morte, eram uma realidade na Espanha, instituída por Bula do Papa Sixto IV. O terror irradiava por todo canto e a tolerância desaparecera do cenário espanhol. Fernando de Aragão e Isabel haviam se casado e, com isso, reuniram os Reinos de Castella e Aragão. Eles não concordaram que a Inquisição espanhola fosse administrada por Roma, pois nesse País os nomes eram apenas aprovados pelo Papa, mas quem indicava era o monarca espanhol. Assim sendo, em 1483, Sixto IV nomeou o monge dominicano Tomás de Torquemada para as funções de Inquisidor Mor de todos os territórios de Fernando e Isabel. Esse dominicano era de uma crueldade sem limites. Estima-se que ele torturou e condenou à fogueira aproximadamente dez mil pessoas. Torquemada é considerado um dos grandes genocidas da Humanidade. Segundo fontes históricas, o Papa Alexandre VI, pensou em destituí-lo de suas funções, mas teria desistido por exclusiva consideração à corte espanhola.

O calvário da judia Cinta Cacavi e o assassinato de um Inquisidor

A acusada, uma judia, fora denunciada por sete testemunhas. Era considerada uma infiel. E, por isso, o inquisidor determinou sua tortura, que era admitida como forma de obter confissão, desde que prevista pelo Manual da Inquisição. Assim sendo, Cinta Cacavi foi queimada, com os pés amarrados, tendo os inquisidores o cuidado de cobrir o crucifixo para “não assistir” (ou “não ouvir”) os gritos de dor da sentenciada. A tortura foi tão cruel que a Corte acabou ouvindo o que queria: “sou cristã”.
O clima de denuncismo imperava, com parentes e vizinhos se acusando uns aos outros. Quando o fogo era aceso, tinha que arder até que os judeus presentes estivessem todos mortos e não existisse mais ninguém atacado pela “lepra da heresia”. Assim era o pensamento inquisitorial dominante.
Em 1485, o inquisidor Pedro Arbus morreu assassinado, justamente ele que fora declarado santo quatro séculos depois. Pelo assassinato Arbus, depois de buscas e inquéritos implacáveis, mais de sessenta acusados foram condenados e atirados à fogueira.

O caso do Frei dissidente Baldo Lupertino e do Estudante de Pádua
A reação começava a se constituir espontaneamente. O monge alemão Martín Lutero lançaria, mais em seguida, a Reforma Protestante, desafiando o poder que emanava de Roma. O fascínio dos Papas pelos valores transitórios do mundo e pela bonança financeira, indignavam o monge alemão. O padre Baldo Lupertino, que era franciscano, também já demonstrava idéias independentes, que se harmonizavam com os ideais de Lutero, dizendo que o Papa era apenas o Pastor de sua própria Igreja. “Acredito na verdade contida nas Escrituras, mas não na autoridade do Papa, que é um ser humano como outro qualquer”.
Nesse tempo papas, cardeais e bispos viviam cercados de luxo, mais preocupados em questões políticas e financeiras do que nos verdadeiros valores espirituais.
Leão X assumira o seu Pontificado totalmente seduzido pelos prazeres do mundo. “Uma vez que Deus nos conferiu o nosso pontificado, vamos aproveitá-lo”, disse ele sem qualquer escrúpulo. Leão X (1513/1521) dedicava seu tempo às artes, às festas, à caça e ao teatro. Sua corte era abastecida por banquetes regados às melhores bebidas finas. As delícias do mundo anestesiavam incontrolavelmente o poder daquele Pontífice. Uma única preocupação marcaria seu reinado: a reforma da Catedral de São Pedro, o projeto mais ambicioso de Leão X, que levaria a Igreja ao fundo do poço. Para resolver a situação financeira difícil que criou, Leão X passou a vender indulgências (perdão comprado pelos católicos medievais, que ficavam isentos das penas temporais por pecados cometidos contra Deus).
A única providência desse Papa contra Lutero foi simplesmente excomungá-lo, em 1521. Mas toda a devassidão moral que imperava na Corte papal não era compartilhada pelo Bispo Giovanni Pietro Carafa, que fora embaixador do Vaticano na Espanha, onde observou a eficiência da Inquisição contra dissidentes, como Lutero. E passou, em Roma, a sonhar com a mesma coisa. Assim sendo, Carafa passou a liderar um grupo de monges que se voltaria contra Lutero e os inimigos da então mais poderosa Religião da Terra.
Em 1529, a cidade de Veneza já estaria contaminada pela disseminação da heresia protestante. O padre franciscano Baldo Lupertino liderava a conspiração das idéias. Pregava para o público com independência, a reforma, afirmando que ninguém precisava do clero para falar com Deus, pois achava que esse contato deve ser direto. Sobre o sacramento da confissão, dizia: “somente Deus perdoa e sem uma confissão sincera e arrependida a Ele, nenhuma confissão será válida, nem ao Papa”. Por isso, esse prelado dissidente tornou-se o alvo da vingança do Bispo Carafa. Por sua vez, outro reduto de hereges era a Universidade de Pádua, próximo a Veneza, famosa pela liberdade das idéias e por seu primor acadêmico.
Não demorou muito e um participante da comunidade denunciou Frei Lupertino em Roma. Nessa altura o Bispo Carafa já era Cardeal, com grande prestígio no Vaticano. Valendo-se dessa condição, fez a cabeça do Papa Paulo 3º, dizendo que era necessário exterminar a heresia protestante que crescia incontrolavelmente. E seu remédio para salvar Roma e a Península itálica não era outra: a Inquisição. E assim aconteceu com a construção de câmaras de interrogatório e celas de prisão próprias dos processo inquisitorial. Nem mesmo o pai de Carafa seria poupado, caso dele discordasse na fé: “se ele se tornasse um herege, eu armaria a fogueira para dizimá-lo”, dizia, sem escrúpulo, o impiedoso Cardeal. E a Inquisição tomava conta da Península.
Em Veneza, o dissidente Frade Lupertino seria a primeira vítima do Cardeal Carafa. Preso, foi levado ao Tribunal da Inquisição, em 1542, onde manteve as idéias dissidentes que o fizeram réu. O enviado do Papa queria a execução exemplar do acusado, amarrando-o na Praça de San Marco e queimando-o para que suas cinzas fossem atiradas ao mar “pela honra e glória do Cristo”. Mas, para não ensejar repercussão nos negócios da cidade, preferiu-se o aprisionamento de Frei Lupertino por tempo indeterminado, permanecendo ele no cárcere por quatorze anos, até que o Papa Paulo IV - nome que o Cardeal Carafa assumiu ao ser eleito Pontífice – requereu a execução pública do prelado, o que foi vetado pelas autoridades de Veneza, e, em conseqüência, o padre acabou sendo atirado ao mar, às escondidas, na calada da noite, com uma pedra amarrada ao pescoço.

Segundo confessou, “nem seu pai escaparia da fogueira, caso fosse herege”.
Em 1555, o Inquisidor cardeal Carafa é, como dito acima, proclamado Papa, com o nome de Paulo IV. A Universidade de Pádua logo entrou na mira ensandecida do Pontífice, que determinou a expulsão de todos os hereges. Um estudante de Direito, de apenas 24 anos de idade, tornou-se também uma vítima derradeira, que bem ilustra essa investida ação papal. Intimado, o estudante compareceu ao Tribunal, onde manifestou em sua defesa o direito de expressar livremente suas idéias, enquanto estudante universitário de Pádua. “A Igreja se desvia da Verdade”, acusou ele, recusando-se a abjurar. Foi condenado à prisão e, depois, executado publicamente na Piazza Navona, mergulhado num barril de óleo fervendo, piche e água raz, onde sobreviveu por quinze minutos sob sofrimento atroz.

As trevas da Inquisição em Portugal e no Brasil

A Inquisição foi instituída em Portugal no ano de 1536 e somente terminou em 1821. O primeiro auto-de-fé foi assinado em 20 de setembro de 1540 na capital, Lisboa. Aproximadamente 70 mil portugueses foram condenados pelo Tribunal do Santo Ofício. Destes, mais de trinta mil foram "purificados pelo fogo". Os que não eram destinados à fogueira normalmente eram exportados para o Brasil-colônia, onde cumpriam pena.
Informam os historiadores que os Tribunais da Inquisição nunca foram oficialmente instalados em terras brasileiras. Entretanto, afirma-se que o clero detinha poderes inquisitoriais. Os vigários fiscalizavam a população, informando para as autoridades eclesiásticas comportamentos considerados suspeitos de heresia. Por sua vez, os bispos tinham autoridade para determinar prisões, confiscar bens e transferir suspeitos de heresia para julgamento em Lisboa. Segundo a historiadora Anita Novinsky, numa entrevista que concedeu no Rio, “tivemos um Tribunal do Santo Ofício, que atuou no Brasil durante 285 anos, sobre o qual não conhecemos nada”.

A Inquisição na cruel perseguição aos judeus

Durante a atuação impiedosa do ex-cardeal Carafa, depois Papa Paulo IV, considerava-se que “nenhum Tribunal trabalhava melhor pela obra de Deus”, do que a Corte da Inquisição.
Mas o fato é que Paulo IV também fora implacável com os judeus. A Bula papal que esse Pontífice emitiu, em 1555, instalou o desassossego e o pavor entre a comunidade judaica, que passou a ser confinada em guetos, somente podendo sair de lá com permissão especial. Milhares de manuscritos judaicos foram atirados à fogueira. Qualquer livro hebraico estaria proibido. O Talmude (compilação de leis judaicas) passou a ser considerado “livro perigoso”.
Mas como não há mal que não tenha fim, chegou o dia 18 de agosto de 1559. Paulo IV se encontrava em seus últimos momentos no Planeta. À meia-noite ele mandou chamar seus cardeais e a eles confiou o prosseguimento da Santa Inquisição “em nome de Jesus Cristo”. Não obstante, logo após seu último suspiro, a população de Roma invadiu eufórica as ruas da Cidade Eterna para comemorar o fim do martírio imposto por aquele implacável Pontífice. As prisões foram abertas e os condenados soltos.
Mas a sombra de Paulo IV ainda permaneceria viva por muito tempo, pois deixara como seu legado uma lista de livros proibidos, que ficou conhecida como Index Librorum Prohibitorum, (índice dos livros proibidos) criado “para evitar a corrupção dos fiéis”. E por causa disso, os livros somente poderiam ser editados na Itália com aprovação prévia. As idéias e informações eram restritas, mediante controle rígido do pensamento.
Em 1606, quase toda a população de Veneza chegou a ser excomungada pelo Papa, a evidenciar a expansão das doutrinas dissidentes.

Napoleão, o grande adversário da Inquisição

O Imperador francês Napoleão Bonaparte fora, com efeito, o grande adversário dos papados inquisitoriais. Ele era o maior defensor da separação entre a Igreja e o Estado. Ao conquistar o norte da Itália, em 1796, Napoleão baixou atos determinando que os guetos judaicos fossem imediatamente liberados e se tornassem livres. Em Madri, em 1808, Napoleão extinguiu a Inquisição. Libertou homens e mulheres que estavam acorrentadas, onde “só demônios poderiam gerar os instrumentos de tortura encontrados”, como afirmou uma testemunha da época. Os documentos que comprovavam os horrores da perseguição religiosa espanhola viriam a ser examinados e organizados pelo Secretario Geral da Inquisição de Madri, servindo de legítimo embasamento histórico.
Em 1810, os ideais de Napoleão no sentido de submeter o poder papal a degradante humilhação estava próximo de tornar-se realidade. Os documentos da Inquisição foram coletados, com ordem do Imperador de seguir para Paris. Cerca de 3.000 caixotes contendo arquivos, sentenças, pronunciamentos doutrinários e peças de interrogatório foram conduzidos para a capital da França. Tais documentos eram a prova de que necessitava Napoleão para desencantar os italianos diante da Igreja Católica e de seus Papados. Lá estava o julgamento de Galileu com seu argumento impecável: “E se amanhã for comprovado definitivamente que a Terra gira em torno do sol, como ficará a posição atual da Igreja ?”
Mas o fato é que após a derrota de Napoleão veio a reviravolta. Em 1814, na Espanha, quem acompanhou a França durante a ocupação seria executado e os hereges teriam a língua perfurada por uma barra quente de ferro, conforme anunciava a Corte. A vingança oficial grassava. Após a morte de Napoleão, os Estados papais ainda mantiveram os horrores da Inquisição por mais quatro décadas.

O rumoroso caso do menino Edgardo Mortara que precipitou o fim da Inquisição
O garoto Edgardo Mortara pertencia a uma família judia e fora batizado secretamente por uma babá, à revelia dos pais. Os judeus ainda viviam nessa época - a metade do século XIX - em guetos e não lhes era permitido freqüentar universidades, viajar, ou se relacionar com cristãos, tudo segundo as leis do Santo Ofício. Em 24 de agosto de 1858, a polícia do Papa seqüestrou o pequeno Edgardo Mortara porque ele se tornara “propriedade da Igreja” visto que “uma norma papal fora descumprida”, segundo a justificativa do Oficial responsável. O menino foi arrebatado da mão dos pais, passando o Oficial condutor apenas um recibo, sem dizer para onde ele seria conduzido. Nessa época eram comuns os seqüestros de crianças judiais pela polícia papal.
Depois de percorrer, em vão, uma longa via crucis, o pai do menino Momolo Mortara teve seu apelo desesperado atendido pelo Papa Pio IX e pode ver o filho, com restrições. Prometeram ao Sr. Mortara o direito de viver com o filho se ele se “convertesse”. Mas Mortara persistia em seu desespero. E não descansava, ganhando o caso espaço na imprensa eletrônica do mundo, que estava chegando.
O momento era grave para a História da Igreja, pois o movimento pela unificação da Itália ganhava força. O Exercito austríaco, que garantira a segurança do impérios papais durante dois séculos e meio, viu-se obrigado a deixar a Itália. E a segurança de Pio IX e de sua Corte ficou literalmente entregue à própria sorte.
Em 1860, o sacerdote inquisidor, padre Feletti, que fora responsável pelo seqüestro do menino Edgardo Mortara, era preso pela antiga polícia papal, agora fiel ao novo Governo civil. Feletti foi processado por seu ato criminoso de seqüestro, mas, nem assim, o garoto foi devolvido. Pio IX, por sua vez, em carta que endereçara ao jovem, tempos depois, diria, segundo registros históricos: “Eu adquiri você em nome de Jesus Cristo, por um alto preço e ninguém demonstrou preocupação comigo, pai de todos os fiéis...”
Em 1870, o Exercito italiano pôs fim aos reinos papais, restringindo os domínios de Pio IX a 40 hectares de terra, onde estavam os prédios do Vaticano. Não teria sido, pois, em vão que a Santa Sé relutou, até 1929, para reconhecer a Itália como Estado soberano. E derradeiramente o menino Mortara nunca mais voltaria para a família. Ele tentara insistentemente convencer seu pai sobre “as verdades da Igreja”, tornando-se monge de uma abadia belga, onde se entregou durante o resto de sua vida à oração e à contemplação.
Se a Igreja Católica ganhara a batalha do menino que seqüestrou das mãos dos pais, o mesmo não se poderia dizer a respeito da rígida Doutrina que impôs como única e verdadeira do mundo, durante aproximadamente quase 1000 anos. Os tempos novos chegaram e o mundo evoluiu, não mais admitindo reinados religiosos que sejam considerados indevidamente supremos donos da verdade.
E o fato é que o Santo Ofício da Inquisição, que no ano de 1908 foi transformado pela Santa Sé em Congregação para a Doutrina da Fé, não mais ameaçaria a liberdade de crença no mundo, hoje garantida por quase todas as Constituições dos Estados modernos e livres. E, assim sendo, o ex-chefe desse Santo Ofício hoje transformado, como dito, em Congregação da Fé - o atual Papa Bento XVI - se comprometeu a lutar pela união de todos os credos terrestres através do Ecumenismo (união na convergência e respeito na divergência), um princípio sagrado inaugurado pelo saudoso Pontífice João XXIII, o Papa que trouxe luzes sobre as trevas medievais.

E o Papa João Paulo 2º pediu “perdão a Deus e desculpas ao mundo”
No ano de 2000, o falecido Papa João Paulo 2º, falando como soberano Pontífice da Igreja Católica Apostólica Romana, pediu formalmente desculpas ao mundo num evento penitencial solene e sincero. O Pontífice também pediu oficialmente perdão a Deus, “em nome da Santa Igreja”, diante dos pecados cometidos pela Instituição desde a sua fundação há dois mil anos. E, mais adiante, João Paulo 2º pediria, também, desculpas ao mundo pelos “dramas relacionados com a Inquisição e pelas feridas deixadas na memória”, referindo-se à reminiscência coletiva registrada depois daquele funesto e longo período histórico".
O gesto, sem precedentes na História da Igreja Católica, ocorreu na Basílica de São Pedro, em Roma, durante a Missa do primeiro domingo da Quaresma. Segundo a imprensa da época, sete confissões de culpas foram formuladas por sete dignitários da Cúria Romana, seguidas de sete pedidos de perdão pelo próprio Papa. Também se registrou uma confissão geral pelas culpas do passado e um pedido formal de perdão pelos “erros cometidos a serviço da verdade por meio do uso de métodos que não têm relação com a palavra do Senhor"; pela separação dos cristãos; pelas perseguições impiedosas aos judeus; pelo desrespeito às culturas e religiões de todos os povos; e, finalmente, um mea culpa pelas longas e reconhecidas violações dos direitos humanos..
"Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará; 15 se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, tampouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas".(Mateus 6:14-15)

A posição do Espiritismo diante do pedido de perdão do Papa
Entrevista com Jorge Andréa dos Santos: “Todo pedido de perdão é um perdão e um grande começo”. A Revista Além da Vida foi buscar no escritor, cientista e famoso expositor espírita, o médico psiquiatra Jorge Andréa dos Santos, (90 anos) - uma das maiores autoridades morais e intelectuais do Espiritismo - a síntese do que pensa a Religião codificada por Allan Kardec sobre essa longa noite histórica de perseguição religiosa. E Jorge Andréa concedeu a seguinte entrevista:
Revista Além da Vida - Sabemos que o Livro dos Espíritos, o primeiro do chamado pentateuco kardequiano, foi incluído no Index Librorum Prohibitorum”, (índice dos livros proibidos) criado ao tempo da Inquisição, como “obra capaz de corromper os fiéis”. O Espiritismo aceita o pedido de perdão do Papa?
Jorge Andréa - Todo pedido de perdão é um perdão e um grande começo para o equilíbrio das mentes. Este caminho nós não podemos nos furtar e separar. Quem perdoa tem necessidade imensa de cobrir as dificuldades pretéritas. A Doutrina Espírita, pelo seu grande movimento holístico, não poderia deixar de apreciar esse pedido que faz parte da sua estrutura de desenvolvimento pessoal, uma estrutura para o equilíbrio das mentes, para o equilíbrio do homem, para o equilíbrio de uma sociedade. A Doutrina Espírita, que não se posiciona contra qualquer fórmula religiosa, seja de que natureza for, tem naturalmente uma posição de equilíbrio para sentir na comunidade de cada setor desses, de cada formulário religioso, de sentir os seus limites e, mais do que isso, uma necessidade para um grupo que ainda não atingiu o potencial holístico universal que a Doutrina Espírita professa.
“Não importa de onde veio o ser humano e qual as suas paragens. O que temos de considerar é o seu cabedal moral e intelectual”.
Revista Além da Vida - Considerando que os seres humanos são os mesmos em todas as religiões, o senhor acredita que se o Espiritismo tivesse ocupado o lugar da Igreja, há dois mil anos, como Instituição religiosa organizada, estaria isento de qualquer culpa dessa natureza?
Jorge Andréa - É preciso considerar a evolução da sociedade nessas épocas. Conforme o tipo de evolução, o homem poderia ser mais universal, ou menos universal e coibido pelo seu interior, pelas suas necessidades pessoais, que devemos levar em conta no contexto da espécie humana. Tanto isso é verdade, que existe uma multiplicidade de conceitos religiosos pelo mundo, porque o homem é diferente, ainda não atingiu um patamar daquilo que podemos dizer - da estrutura da Doutrina Espírita - de irmandade. Quando seremos irmãos realmente na Terra? Esses rótulos religiosos todos desaparecerão, inclusive o próprio rótulo Espírita, uma vez que, de futuro, teremos uma Religião – porque isso não pode deixar de existir - e que se vai chamar Fraternidade.
"A Religião precisa da Ciência para se estabelecer com equilíbrio”.
Revista Além da Vida - Nossos maiores ídolos Espíritas foram católicos: Francisco de Assis, Vicente de Paulo, Joanna de Angelis, Teresa D'Ávila e por ai em diante. Como o senhor vê essa realidade?
Jorge Andréa – Tudo é uma questão de evolução. Não importa de onde veio o ser humano e qual as suas paragens. O que temos de considerar é o seu cabedal moral e intelectual. Vamos falar de Joanna de Angelis... Ela foi, segundo Hermínio Miranda, com sua grande visão, a Rainha Nefertiti, mulher de Amenofis IV, da 19ª dinastia egípcia. Depois com a vinda do Cristo, retornou como Joanna de Cusa, vivendo as dificuldades que os cristãos da época passaram. Mais tarde, ela reencarna junto com Francisco de Assis, que foi um dos apóstolos do Cristo (João evangelista). E ela volta como Clara. Ela e Francisco sofreram, por assim dizer, um rebuliço intelectual, religioso, afetivo, muito grande. Ela funda as Clarissas e ele a fraternidade dos franciscanos. Depois não tenho mais notícia dele, mas ela volta, agora como Joanna de Ângelis, que marcou presença na época de nossa Independência, na Bahia, quando os portugueses invadiram o seu Convento e ela foi sacrificada por um soldado. Reencarnou, ainda, como Juana de la Cruz, no México, que fez jornadas fantásticas no movimento intelectual. Então, não importa de onde ela veio, assim como não importa de onde veio um Francisco de Assis. Importa que foi um Espírito que se formou não só no intelecto, mas na moral, no amor e no amor através de grandes compromissos dolorosos, com dores físicas. Clara e Francisco não recusaram a vida, mas ficaram distante do processo normal de vida de todo mundo. Na sua característica, na sua formação, vieram de degrau em degrau num processo altamente produtivo e evolutivo. E isso é o que interessa e não a Religião a que pertenceram...
Revista além da Vida - A seu ver, o preconceito religioso ainda prejudica a evolução da Ciência?
Jorge Andréa - Considero que sim, se bem que houve uma abertura muito grande com Einstein, quando disse que a Ciência precisava da religiosidade, ou da religião (ele falava de uma Religião Superior, não rotulada), assim como a religião precisa da ciência para se estabelecer com equilíbrio. E este casamento da ciência com a religião está se dando através da Doutrina Espírita.
Revista Além da Vida - Disse certa vez um político, ironizando, que “a lógica é a pior forma de convencimento”. Na sua avaliação esse princípio se aplica, ainda que a contragosto, no contexto da concepção religiosa, já que as provas científicas de fenômenos espíritas (reencarnação e comunicação) ainda não conquistam as massas mundiais?
Jorge Andréa – O Espiritismo tem apenas 150 anos. Não é nada. Somos a Nação mais Espírita do mundo. Porém, somos apenas 6 milhões, incluindo simpatizantes. Para onde vamos caminhar? Claro que será sempre num processo de evolução. No dia em que a ciência colocar o Espírito dentro das células, como fica isso? Os processos religiosos vão entrar em ritmo de acomodação. Não estranharei se amanhã os grupamentos protestantes e católicos vierem a colocar o processo de reencarnação em substituição ao de ressurreição...

Revista Além da Vida - Qual o papel do Espiritismo no futuro das Religiões?

Jorge Andréa - É de totalidade. O Espiritismo vai dar uma abertura muito grande. Estará presente 24 horas. Só se vai trabalhar para o bem. No mundo, só vai preponderar o amor. Os indivíduos se entenderão. As guerras fratricidas vão desaparecer. Os movimentos telúricos se abrandarão. Quem sabe se esses movimentos telúricos de hoje não tem correlação com a massa imensa de pensamentos negativos. Somos uma tônica vibratória do universo. Cada indivíduo tem sua faixa, mas a comunidade humana tem uma faixa geral de irradiação. 6 bilhões de indivíduos irradiando. 18 bilhões de Espíritos do lado de lá, presos na atmosfera terrestre, irradiando. Como fica isso? No dia em que o homem tiver a irmandade que ele precisa alcançar, tenho a impressão que a vida na Terra abrirá um conceito fantástico da ciência. O trabalho não será mais esta obsessão de hoje. Todo mundo vai trabalhar com calma, com horas de lazer, de música, de literatura. E dentro desse contexto o Espiritismo estará irradiando o tempo todo, em todas as direções religiosas. E nesse sentido dizemos que o Espiritismo não será a Religião do futuro, mas o futuro das Religiões.

Recordar para não repetir nunca mais - A inquisição é um fato histórico, que deve ser considerado antes de seu aspecto religioso. E, por isso, pertence ao mundo, não podendo ser privilégio de arquivos secretos, ou de gavetas privativas, pois faz parte da própria história da humanidade, do homem e de seu aprendizado na trajetória evolutiva do tempo. As páginas da história, se não servem para outra coisa, se bastam pelo que nos ensinam a não fazer e pelo que nos impelem a realizar em prol da construção do homem e do mundo. Recordar é, pois, refletir, para nunca mais repetir.