JUDAS
BIBLIOGRAFIA
01- A reencarnação na Bíblia - pág. 87 02 - Ave luz - pág. 82
03 - Boa nova - pág. 38, 42, 159 04 - Caminho, verdade e vida - pág. 195, 197
05 - De Francisco para você - pág. 111 06 - De Jesus para as crianças - pág. 56
07 - De Mário a Tiradentes - pág. 316 08 - Do país da luz - vol. ii pág. 125
09 - Florações Evangélicas - pág. 174 10 - Jesus no Lar - pág. 63
11 - Lázaro Redivivo - pág. 249 12 - Luz acima - pág. 187
13 - O Consolador - pág. 183 14 - O Redentor - pág. 143
15 - O solar de Apolo - pág. 206

16 - Oferenda - pág. 96

17 - Os milagres de Jesus - XV 18 - Palavras de vida eterna - pág. 37; 62
19 - Parnaso de além túmulo - pág. 398 20 - Pérolas do além - pág. 130
21 - Pontos e Contos - pág. 183 22 - Religião dos Espíritos - pág. 35, 48
23 - Renúncia - pág. 316 24 - Saúde e Espiritismo - pág. 186
25 - Síntese de o Novo Testamento - pág. 180, 192, 195 26 - Vida de Jesus - pág. 100,121
27 - Vida e atos dos apóstolos - pág. 244, 259 28 - Vozes do grande além - pág. 174

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JUDAS – COMPILAÇÃO

01- A reencarnação na Bíblia - Hermínio C. Miranda - pág. 87

DE VOLTA AO APOCALIPSE
Continuemos, porém, já de volta ao Apocalipse, capítulo 19. João anuncia o retorno do Cristo, nestes termos:— Ei-lo que vem sobre as nuvens; todo o olho o verá, até aqueles que o traspassaram, e todas as nações da terra se lamentarão por ele. Como poderão estar presentes para vê-lo com seus olhos, entre todos os demais, aqueles mesmos seres que ajudaram a sacrificá-lo na cruz ?

No rosário de existências vividas desde que Jesus esteve entre nós, é certo que alguns dos que contribuíram, de uma forma ou outra, para a sua condenação e execução, aproveitaram bem as oportunidades concedidas e poderão estar redimidos de seus erros e pacificados quanto aos seus remorsos quando Ele retornar.

Em comunicação mediúnica de fontes insuspeitas — Irmão X a Chico Xavier —, Judas Iscariotes alude a uma série de existências vividas no sofrimento e na angústia, até concluir o resgate de seu espírito numa fogueira ateada pela intolerância religiosa no século 15. Esse é um dos que poderão contemplar em paz a figura majestosa de Jesus, no seu anunciado retorno à terra.

Outros, porém, e talvez sejam maioria, estão ainda envolvidos nos conflitos, nos ódios e nas incompreensões que os levaram a traspassar o coração daquele excelso Espírito, cuja grandeza não conseguiram nem mesmo vislumbrar. Também a estes foram concedidas repetidas oportunidades de reajuste, mas persistiram no erro, reincidiram na prática de desatinos, continuaram a culpar Jesus por suas desarmonias, esquecidos de que não foi Jesus o responsável pelos seus crimes, pelas suas incompreensões e rebeldias.

Para muitos desses, a doutrina do amor tornou-se, de fato, o pomo de discórdia, não pela doutrina em si e nem pelo amor, mas precisamente pela ausência de amor e de paz em seus rudes corações. Esses olhos são tantos que, a quase dois mil anos de distância, João pode vê-los a chorar por toda a terra, lamentando-se, por certo, por não terem sabido aceitar, no tempo devido, o Cristo e a sua doutrina da fraternidade universal.

E, por isso, "todo o olho o verá; até os que o traspassaram", redimidos ou não. Nenhum daqueles seres que lá estavam na Palestina ou em Roma desapareceu ou deixou de existir. Estão por aí mesmo, reencarnados ou no mundo dos Espíritos, pacificados ou ainda afligidos por remorsos e revoltas. Nesse ínterim, viveram outras vidas, tiveram novas oportunidades, exercitaram seu livre arbítrio e livraram-se de suas dores ou as agravaram, tudo estritamente segundo o procedimento que resolveram adotar.

Não ficou dito que a cada um será dado segundo suas obras? Não ficou dito que cada um responde pelos seus próprios erros, não os outros? E que ninguém se livra das agonias enquanto não resgatar o último dos seus crimes ? E que não insistíssemos no pecado porque senão nos aconteceriam coisas ainda piores ? E que aquele que fere com ferro com o mesmo ferro será ferido? E que nos reconciliássemos com os nossos adversários enquanto estivéssemos a caminho com ele? E que nos amássemos uns aos outros tal como Ele nos amou ?

Não faltaram, portanto, advertências, ensinamentos, exemplos e apoio para a prática dos bons propósitos. Multidões inteiras, porém, continuaram a seguir pelas trilhas do desvairamento, rejeitando todas as oportunidades de aprendizado e de reajuste, mergulhando cada vez mais fundo no erro, em vez de emergirem para a luz.

Não se admira, pois, que naquele dia da grande separação, muitos sejam os olhos que estarão a chorar, pois muitos foram os que olharam e não viram e os que não sentiram uma só lágrima deslizar ante o sofrimento alheio que eles próprios causaram. Nessa hora inexorável, todo olho O verá . . .

Não há como fugir agora, nem do resgate, nem de si mesmo e muito menos de Deus.

03 - Boa nova - Humberto de Campos - pág. 38, 42, 159

5. OS DISCÍPULOS
Frequentemente, era nas proximidades de Cafarnaum que o Mestre reunia a grande comunidade dos seus seguidores. Numerosas pessoas o aguardavam ao longo do caminho, ansiosas por lhe ouvirem a palavra instrutiva. Não tardou, porém, que ele compusesse o seu reduzido colégio de discípulos. Depois de uma das suas pregações do novo reino, chamou os doze companheiros que, desde então, seriam os intérpretes de suas ações e de seus ensinos. Eram eles os homens mais humildes e simples do lago de Genesaré.

Pedro, André e Filipe eram filhos de Betsaida, de onde vinham igualmente Tiago e João, descendentes de Zebedeu. Levi, Tadeu e Tiago, filhos de Alfeu e sua esposa Cleofas, parenta de Maria, eram nazarenos e amavam a Jesus desde a infância, sendo muitas vezes chamados "os irmãos do Senhor", à vista de suas profundas afinidades afetivas. Tomé descendia de um antigo pescador de Dalmanuta e Bartolomeu nascera de uma família laboriosa de Caná da Galiléia. Simão, mais tarde denominado "o Zelote", deixara a sua terra de Canaã para dedicar-se à pescaria, e somente um deles, Judas, destoava um pouco desse concerto, pois nascera em Iscariotes e se consagrara ao pequeno comércio em Cafarnaum, onde vendia peixes e quinquilharias.

O reduzido grupo de companheiros do Messias experimentou a princípio certas dificuldades para harmonizar-se. Pequeninas contendas geravam a separatividade entre eles. De vez em quando, o Mestre os surpreendia em discussões inúteis sobre qual deles seria o maior no reino de Deus; de outras vezes, desejavam saber qual, dentre todos, revelava sabedoria maior, no campo do Evangelho.

Levi continuava nos seus trabalhos da coletoria local, enquanto Judas prosseguia nos seus pequenos negócios, embora se reunissem diariamente aos demais companheiros. Os dez outros viviam quase que constantemente com Jesus, junto às águas transparentes do Tiberíades, como se participassem de uma festa incessante de luz. Iniciando-se, entretanto, o período de trabalhos ativos pela difusão da nova doutrina, o Mestre reuniu os doze em casa de Simão Pedro e lhes ministrou as primeiras instruções referentes ao grande apostolado.

De conformidade com a narrativa de Mateus, as recomendações iniciais do Messias aclaravam as normas de ação que os discípulos deviam seguir para as realizações que lhes competiam concretizar.— Amados — entrou Jesus a dizer-lhes, com mansidão extrema —, não tomareis o caminho largo por onde anda toda gente, levada pelos interesses fáceis e inferiores; buscareis a estrada escabrosa e estreita dos sacrifícios pelo bem de todos. Também não penetrareis nos centros de discussões estéreis, à moda dos samaritanos, nos das contendas que nada aproveitam às edificações do verdadeiro reino nos corações com sincero esforço.

Ide antes em busca das ovelhas perdidas da casa de nosso Pai que se encontram em aflição e voluntariamente desterradas de seu divino amor. Reuni convosco todos os que se encontram de coração angustiado e dizei-lhes, de minha parte, que é chegado o reino de Deus. Trabalhai em curar os enfermos, limpar os leprosos, ressuscitar os que estão mortos nas sombras do crime ou das desilusões ingratas do mundo, esclarecei todos os espíritos que se encontram em trevas, dando de graça o que de graça vos é concedido.

Não exibais ouro ou prata em vossas vestimentas, porque o reino do céu reserva os mais belos tesouros para os simples. Não ajunteis o supérfluo em alforjes, túnicas ou alpercatas para o caminho, porque digno é o operário do seu sustento. Em qualquer cidade ou aldeia onde entrardes, buscai saber quem deseje aí os bens do céu, com sinceridade e devotamento a Deus, e reparti as bênçãos do Evangelho com os que sejam dignos, até que vos retireis. Quando penetrardes nalguma casa, saudai-a com amor.

Se essa casa merecer as bênçãos de vossa dedicação, desça sobre ela a vossa paz; se, porém, não for digna, torne essa mesma paz aos vossos corações. Se ninguém vos receber, nem desejar ouvir as vossas instruções, retirai-vos sacudindo o pó de vossos pés, isto é, sem conservardes nenhum rancor e sem vos contaminardes da alheia iniquidade. Em verdade vos digo que dia virá em que menos rigor haverá para os grandes pecadores, do que para quantos procuram a Deus com os lábios da falsa crença, sem a sinceridade do coração.

É por essa razão que vos envio como ovelhas ao antro dos lobos, recomendando-vos a simplicidade das pombas e a prudência das serpentes. Acautelai-vos, pois, dos homens, nossos irmãos, porque sereis entregues aos seus tribunais e sereis açoitados nos seus templos suntuosos, de onde está exilada a idéia de Deus. Sereis conduzidos, como réus, à presença de governadores e reis, de tiranos e descrentes, a fim de testemunhardes a minha causa.

Mas, nos dias dolorosos da humilhação, não vos dê cuidado como haveis de falar, porque minha palavra estará convosco e sereis inspirados, quanto ao que houverdes de dizer. Porque não somos nós que falamos; o espírito amoroso de Nosso Pai é que fala em todos nós. Nesses dias de sombra, em que se lutará no mundo por meu nome, o irmão entregará à morte o próprio irmão, o pai os filhos, espalhando-se nos caminhos o rastro sinistro dos lobos da iniquidade.

Os que me seguirem serão desprezados e odiados por minha causa, mas aquele que perseverar, até o fim, será salvo. Quando, pois, fordes perseguidos numa cidade, transportai-vos para outra, porque em verdade vos afirmo que jamais estareis nos caminhos humanos sem que vos acompanhe o meu pensamento. Se tendes de sofrer, considerai que também eu vim à Terra para dar o testemunho e não é o discípulo mais do que o mestre, nem o servo mais que o seu senhor.

Se o adversário da luz vai reunir contra mim as tentações e as zombarias, o ridículo e a crueldade, que não fará aos meus discípulos?
Todavia, sabeis que acima de tudo está o Nosso Pai e que, portanto, é preciso não temer, pois um dia toda a verdade será revelada e todo o bem triunfará. O que vos ensino em particular, difundi-o publicamente; porque o que agora escutais aos ouvidos será o objeto de vossas pregações de cima dos telhados.

Trabalhai pelo reino de Deus e não temais os que matam o corpo, mas não podem aniquilar a alma; temei antes os sentimentos malignos que mergulham o corpo e a alma no inferno da consciência. Não se vendem dois passarinhos por um ceitil? Entretanto, nenhum deles cai dos seus ninhos sem a vontade do nosso Pai. Até mesmo os cabelos de nossas cabeças estão contados. Não temais, pois, porque um homem vale mais que muitos passarinhos.

Empregai-vos no amor do Evangelho e qualquer de vós que me confessar, diante dos homens, eu o confessarei igualmente diante de meu Pai que está nos céus. As recomendações de Jesus foram ouvidas ainda por algum tempo e, terminada a sua alocução, no semblante de todos perpassava a nota íntima da alegria e da esperança. Os apóstolos criam contemplar o glorioso porvir do Evangelho do Reino e estremeciam do júbilo de seus corações.

Foi quando Judas Iscariotes, como que despertando, antes de todos os companheiros, daquelas profundas emoções de encantamento, se adiantou para o Messias, declarando em termos respeitosos e resolutos:— Senhor, os vossos planos são justos e preciosos; entretanto, é razoável considerarmos que nada poderemos edificar sem a contribuição de algum dinheiro.

Jesus contemplou-o serenamente e redarguiu: — Será que Deus precisou das riquezas precárias para construir as belezas do mundo? Em mãos que saibam dominá-lo, o dinheiro é um instrumento útil, mas nunca será tudo, porque, acima dos tesouros perecíveis, está o amor com os seus infinitos recursos. Em meio da surpresa geral, Jesus, depois de uma pausa, continuou:

— No entanto, Judas, embora eu não tenha qualquer moeda do mundo, não posso desprezar o primeiro alvitre dos que contribuirão comigo para a edificação do reino de meu Pai no espírito das criaturas. Põe em prática a tua lembrança, mas tem cuidado com a tentação das posses materiais. Organiza a tua bolsa de cooperação e guarda-a contigo; nunca, porém, procures o que ultrapasse o necessário.

Ali mesmo, pretextando a necessidade de incentivar os movimentos iniciais da grande causa, o filho de Iscariotes fez a primeira coleta entre os discípulos. Todas as possibilidades eram mínimas, mas alguns pobres denários foram recolhidos com interesse. O Mestre observava a execução daquela primeira providência, com um sorriso cheio de apreensões, enquanto Judas guardava cuidadosamente o fruto modesto de sua lembrança material. Em seguida, apresentando a Jesus a bolsa minúscula, que se perdia nas dobras de sua túnica, exclamou, satisfeito:

— Senhor, a bolsa é pequenina, mas constitui o primeiro passo para que se possa realizar alguma coisa... Jesus fitou-o serenamente e retrucou em tom profético: — Sim, Judas, a bolsa é pequenina; contudo, permita Deus que nunca sucumbas ao seu peso!

24 - A ILUSÃO DO DISCÍPULO
Jesus havia chegado a Jerusalém sob uma chuva de flores. De tarde, após a consagração popular, caminhavam Tiago e Judas, lado a lado, por uma estrada antiga, marginada de oliveiras, que conduzia às casinhas alegres de Betânia. Judas Iscariotes deixava transparecer no semblante íntima inquietação, enquanto no olhar sereno do filho de Zebedeu fulgurava a luz suave e branda que consola o coração das almas crentes.

— Tiago — exclamou Judas, entre ansioso e atormentado —, não achas que o Mestre é demasiado simples e bom para quebrar o jugo tirânico que pesa sobre Israel, abolindo a escravidão que oprime o povo eleito de Deus?— Mas — replicou o interpelado — poderias admitir no Mestre as disposições destruidoras de um guerreiro do mundo?

— Não tanto assim. Contudo, tenho a impressão de que o Messias não considera as oportunidades. Ainda hoje, tive a atenção reclamada por doutores da lei que me fizeram sentir a inutilidade das pregações evangélicas, sempre levadas a efeito entre as pessoas mais ignorantes e desclassificadas. Ora, as reivindicações do nosso povo exigem um condutor enérgico e altivo.

— Israel — retrucou o filho de Zebedeu, de olhar sereno — sempre teve orientadores revolucionários; o Messias, porém, vem efetuar a verdadeira revolução, edificando o seu reino sobre os corações e nas almas!...Judas sorriu, algo irônico, e acrescentou:— Mas, poderemos esperar renovações, sem conseguirmos o interesse e a atenção dos homens poderosos?— E quem haverá mais poderoso do que Deus, de quem o Mestre é o Enviado divino?

Em face dessa invocação, Judas mordeu os lábios, mas prosseguiu:— Não concordo com os princípios de inação e creio que o Evangelho somente poderá vencer com o amparo dos prepostos de César ou das autoridades administrativas de Jerusalém que nos governam o destino. Acompanhando o Mestre nas suas pregações em Cesaréia, em Sebaste, em Corazim e Betsaida, quando das suas ausências de Cafarnaum, jamais o vi interessado em conquistar a atenção dos homens mais altamente colocados na vida.

É certo que de seus lábios divinos sempre brotaram a verdade e o amor, por toda parte; mas só observei leprosos e cegos, pobres e ignorantes, abeirando-se de nossa fonte.— Jesus, porém, já nos esclareceu — obtemperou Tiago com brandura — que o seu reino não é deste mundo. Imprimindo aos olhos inquietos um fulgor estranho, o discípulo impaciente revidou com energia: — Vimos hoje o povo de Jerusalém atapetar o caminho do Senhor com as palmas da sua admiração e do seu carinho; precisamos, todavia, impor a figura do Messias às autoridades da Corte Provincial e do Templo, de modo a aproveitarmos esse surto de simpatia.

Notei que Jesus recebia as homenagens populares sem partilhar do entusiasmo febril de quantos o cercavam, razão por que necessitamos multiplicar esforços, em lugar dele, a fim de que a nossa posição de superioridade seja reconhecida em tempo oportuno.
— Recordo-me, entretanto, de que o Mestre nos asseverou, certa vez, que o maior na comunidade será sempre aquele que se fizer o menor de todos.— Não podemos levar em conta esses excessos de teoria.

Interpelado que vou ser hoje por amigos influentes na política de Jerusalém, farei o possível por estabelecer acordos com os altos funcionários e homens de importância, para imprimirmos novo movimento às idéias do Messias.— Judas! Judas!... — observou-lhe o irmão de apostolado, com doce veemência — vê lá o que fazes! Socorreres-te dos poderes transitórios do mundo, sem um motivo que justifique esse recurso, não será desrespeito à autoridade de Jesus?

Não terá o Mestre visão bastante para sondar e reconhecer os corações? O hábito dos sacerdotes e a toga dos dignitários romanos são roupagens para a Terra... As idéias do Mestre são do Céu e seria sacrilégio misturarmos a sua pureza com as organizações viciadas do mundo!... Além de tudo, não podemos ser mais sábios, nem mais amorosos do que Jesus e ele sabe o melhor caminho e a melhor oportunidade para a conversão dos homens!... As conquistas do mundo são cheias de ciladas para o espírito e, entre elas, é possível que nos transformemos em órgão de escândalo para a verdade que o Mestre representa. Judas silenciou, aflito.

No firmamento, os derradeiros raios de Sol batiam nas nuvens distantes, enquanto os dois discípulos tomavam rumos diferentes. Sem embargo das carinhosas exortações de Tiago, Judas Iscariotes passou a noite tomado de angustiosas inquietações. Não seria melhor apressar o triunfo mundano do Cristianismo? Israel não esperava um Messias que enfeixasse nas mãos todos os poderes? Valendo-se da doutrina do Mestre, poderia tomar para si as rédeas do movimento renovador, enquanto Jesus, na sua bondade e simpleza, ficaria entre todos, como um símbolo vivo da idéia nova.

Recordando suas primeiras conversações com as autoridades do Sinédrio, meditava na execução de seus sombrios desígnios. A madrugada o encontrou decidido, na embriaguez de seus sonhos ilusórios. Entregaria o Mestre aos homens do poder, em troca de sua nomeação oficial para dirigir a atividade dos companheiros. Teria autoridade e privilégios políticos. Satisfaria às suas ambições, aparentemente justas, com o fim de organizar a vitória cristã no seio de seu povo. Depois de atingir o alto cargo com que contava, libertaria Jesus e lhe dirigiria os dons espirituais, de modo a utilizá-los para a conversão de seus amigos e protetores prestigiosos.

O Mestre, a seu ver, era demasiadamente humilde e generoso para vencer sozinho, por entre a maldade e a violência. Ao desabrochar a alvorada, o discípulo imprevidente demandou o centro da cidade e, após horas, era recebido pelo Sinédrio, onde lhe foram hipotecadas as mais relevantes promessas. Apesar de satisfeito com a sua mesquinha gratificação e desvairado no seu espírito ambicioso, Judas amava o Messias e esperava ansiosamente o instante do triunfo para lhe dar a alegria da vitória cristã, através das manobras políticas do mundo.

O prêmio da vaidade, porém, esperava a sua desmedida ambição. Humilhado e escarnecido, seu Mestre bem-amado foi conduzido à cruz da ignomínia, sob vilipêndios e flagelações. Daqueles lábios, que haviam ensinado a verdade e o bem, a simplicidade e o amor, não chegou a escapar-se uma queixa. Martirizado na sua estrada de angústias, o Messias só teve o máximo de perdão para seus algozes.

Observando os acontecimentos, que lhe contrariavam as mais íntimas suposições, Judas Iscariotes se dirigiu a Caifás, reclamando o cumprimento de suas promessas. Os sacerdotes, porém, ouvindo-lhe as palavras tardias, sorriram com sarcasmo. Debalde recorreu às suas prestigiosas relações de amizade: teve de reconhecer a falibilidade das promessas humanas. Atormentado e aflito, buscou os companheiros de fé. Encontrou-os vencidos e humilhados; pareceu-lhe, porém, descobrir em cada olhar a mesma ex-probração silenciosa e dolorida.

Já se havia escoado a hora sexta, em que o Mestre expirara na cruz, implorando perdão para seus verdugos. De longe, Judas contemplou todas as cenas angustiosas e humilhantes do Calvário. Atroz remorso lhe pungia a consciência dilacerada. Lágrimas ardentes lhe rolavam dos olhos tristes e amortecidos. Malgrado à vaidade que o perdera, ele amava intensamente o Messias.

Em breves instantes, o céu da cidade impiedosa se cobriu de nuvens escuras e borrascosas. O mau discípulo, com um oceano de dor na consciência, peregrinou em derredor do casario maldito, acalentando o propósito de desertar do mundo, numa suprema traição aos compromissos mais sagrados de sua vida.

Antes, porém, de executar seus planos tenebrosos, junto à figueira sinistra, ouvia a voz amargurada do seu tremendo remorso. Relâmpagos terríveis rasgavam o firmamento; trovões violentos pareciam lançar sobre a terra criminosa a maldição do céu vilipendiado e esquecido. Mas, sobre todas as vozes confusas da Natureza, o discípulo infeliz escutava a voz do Mestre, consoladora e inesquecível, penetrando-lhe os refolhos mais íntimos da alma: - "Eu sou o Carminho, a Verdade e a Vida. Ninguém pode ir ao pai, senão por mim!..."

04 - Caminho, verdade e vida - Emmanuel - pág. 195, 197

90 - ENSEJO AO BEM
"Jesus, porém, lhe disse: Amigo, a que vieste? — Então, aproximando-se, lançaram mão de Jesus e o prenderam." — (MATEUS, 26:50.)
É significativo observar o otimismo do Mestre, prodigalizando oportunidades ao bem, até ao fim de sua gloriosa missão de verdade e amor, junto dos homens.

Cientificara-se o Cristo, com respeito ao desvio de Judas, comentara amorosamente o assunto, na derradeira reunião mais íntima com os discípulos, não guardava qualquer dúvida relativamente aos suplícios que o esperavam; no entanto, em se aproximando, o cooperador transviado beija-o na face, Identificando-o perante os verdugos, e o Mestre, com sublime serenidade, recebe-lhe a saudação carinhosamente e indaga: Amigo, a que vieste?

Seu coração misericordioso proporcionava ao discípulo inquieto o ensejo ao bem, até ao derradeiro instante. Embora notasse Judas em companhia dos guardas que lhe efetuariam a prisão, dá-lhe o título de amigo. Não lhe retira a confiança do minuto primeiro, não o maldiz, não se entrega a queixas inúteis, não o recomenda à posteridade com acusações ou conceitos menos dignos.

Nesse gesto de inolvidável beleza espiritual, ensinou-nos Jesus que é preciso oferecer portas ao bem, até à última hora das experiências terrestres, ainda que, ao término da derradeira oportunidade, nada mais reste além do caminho para o martírio ou para a cruz dos supremos testemunhos.

91 - CAMPO DE SANGUE ;
"Por isso foi chamado aquele campo, até ao dia de hoje, Campo de Sangue." — (MATEUS, 27:8.)
Desorientado, em vista das terríveis consequências de sua irreflexão, Judas procurou os sacerdotes e restituiu-lhes as trinta moedas, atirando-as, a esmo, no recinto do Templo.

Os mentores do Judaísmo concluíram, então, que o dinheiro constituía preço de sangue e, buscando desfazer-se rapidamente de sua posse, adquiriram um campo destinado ao sepulcro dos estrangeiros, denominado, desde então, Campo de Sangue.

Profunda a expressão simbólica dessa recordação e, com a sua luz, cabe-nos reconhecer que a maioria dos homens continua a irrefletida ação de Judas, permutando o Mestre, inconscientemente, por esperanças injustas, por vantagens materiais, por privilégios passageiros.

Quando podem examinar a extensão dos enganos a que se acolheram, procuram, desesperados, os comparsas de suas ilusões, tentando devolver-lhes quanto lhes coube nos criminosos movimentos em que se comprometeram na luta humana; todavia, com esses frutos amargos apenas conseguem adquirir o campo de sangue das expiações dolorosas e ásperas, para sepulcro dos cadáveres de seus pesadelos delituosos, estranhos ao ideal divino da perfeição em Jesus-Cristo.

Irmão em humanidade, que ainda não pudeste sair do campo milenário das reencarnações, em luta por enterrar os pretéritos crimes que não se coadunam com a Lei Eterna, não troques o Cristo Imperecível por um punhado de cinzas misérrimas, porque, do contrário, continuarás circunscrito à região escura da carne sangrenta.

10 - Jesus no Lar - Néio Lúcio - pág. 63

13 - O revolucionário sincero
No curso das elucidações domésticas, Judas conversava, entusiástico, sobre as anomalias na governança do povo, e, exaltado, dizia das probabilidades de revolução em Jerusalém, quando o Senhor comentou, muito calmo:— Um rei antigo era considerado cruel pelo povo de sua pátria, a tal ponto que o principal dos profetas do reino foi convidado a chefiar uma rebelião de grande alcance, que o arrancasse do Trono.

O profeta não acreditou, de início, nas denúncias populares, mas a multidão insistia. «O rei era duro de coração, era mau senhor, perseguia, usurpava e flagelava os vassalos em todas as direções» — clamava-se desabridamente. Foi assim que o condutor de boa-fé se inflamou, igualmente, e aceitou a idéia de uma revolução por único remédio natural e, por isso, articulou-a em silêncio, com algumas centenas de companheiros decididos e corajosos.

Na véspera do cometimento, contudo, como possuía segura confiança em Deus, subiu ao topo dum monte e rogou a assistência divina com tamanho fervor que um Anjo das Alturas lhe foi enviado para confabulação de espírito a espírito. A frente do emissário sublime, o profeta acusou o soberano, asseverando quanto sabia de oitiva e suplicando aprovação celeste ao plano de revolta renovadora.

O mensageiro anotou-lhe a sinceridade, escutou-o com paciência e esclareceu: — «Em nome do Supremo Senhor, o projeto ficará aprovado, com uma condição. Conviverás com o rei, durante cem dias consecutivos, em seu próprio palácio, na posição de servo humilde e fiel, e, findo esse tempo, se a tua consciência perseverar no mesmo propósito, então lhe destruirás o trono, com o nosso apoio». O chefe honesto aceitou a proposta e cumpriu a determinação.

Simples e sincero, dirigiu-se à casa real, onde sempre havia acesso aos trabalhos de limpeza e situou-se na função de apagado servidor; no entanto, tão logo se colocou a serviço do monarca, reparou que ele nunca dispunha de tempo para as menores obrigações alusivas ao gosto de viver. Levantava-se rodeado de conselheiros e ministros impertinentes, era atormentado por centenas de reclamações de hora em hora.

Na qualidade de pai, era privado da ternura dos filhos; na condição de esposo, vivia distante da companheira. Além disso, era obrigado, frequentemente, a perder o equilíbrio da saúde física, em vista de banquetes e cerimônias, excessivamente repetidos, nos quais era compelido a ouvir toda a sorte de mentiras da boca de súditos bajuladores e ingratos. Nunca dormia, nem se alimentava em horas certas e, onde estivesse, era constrangido a vigiar as próprias palavras, sendo vedada ao seu espírito qualquer expressão mais demorada de vida que não fosse o artifício a sufocar-lhe o coração.

O orientador da massa popular reconheceu que o imperante mais se assemelhava a um escravo, duramente condenado a servir sem repouso, em plena solidão espiritual, porquanto o rei não gozava nem mesmo a facilidade de cultivar a comunhão com Deus, por intermédio da prece comum.

Findo o prazo estabelecido, o profeta, radicalmente transformado, regressou ao monte para atender ao compromisso assumido, e, notando que o Anjo lhe aparecia, no curso das orações, implorou-lhe misericórdia para o rei, de quem ele agora se compadecia sinceramente.

Em seguida, congregou o povo e notificou a todos os companheiros de ideal que o soberano era, talvez, o homem mais torturado em todo o reino e que, ao invés da suspirada insubmissão, competia-Ihes, a cada um, maior entendimento e mais trabalho construtivo, no lugar que lhes era próprio dentro do país, a fim de que o monarca, de si mesmo tão escravizado e tão desditoso, pudesse cumprir sem desastres a elevada missão de que fora investido.

E, assim, a rebeldia foi convertida em compreensão e serviço. Judas, desapontado, parecia ensaiar alguma ponderação irreverente, mas o Mestre Divino antecipou-se a ele, falando, incisivo:

— A revolução é sempre o engano trágico daqueles que desejam arrebatar a outrem o cetro do governo. Quando cada servidor entende o dever que lhe cabe no plano da vida, não há disposição para a indisciplina, nem tempo para a insubmissão.

13 - O Consolador - Emmanuel - pág. 183

Perg. 319 - Quem terá recebido maior soma de misericórdia na justiça divina: -Judas, o discípulo infiel, mas iludido e arrependido, ou o sacerdote maldoso e indiferente, que o induziu à defecção?
- Quem há recebido mais misericórdia, por mais necessitado e indigente, é o mau sacerdote de todos os tempos, que, longe de confundir a lição do Cristo uma só vez, vem praticando a defecção espiritual para com o Divino Mestre, desde muitos séculos.

18 - Palavras de vida eterna - Emmanuel - pág. 37; 62

12. PERANTE JESUS
"Porventura sou eu, Senhor?" - (MATEUS, 26:22.)
Diante da palavra do Mestre, reportando-se ao espírito de leviandade e defecção que o cercava, os discípulos perguntaram afoitos:
— "Porventura sou eu, Senhor?" E quase todos nós, analisando o gesto de Judas, incriminamo-lo em pensamento. Por que teria tido a coragem de vender o Divino Amigo por trinta moedas?

Entretanto, bastará um exame mais profundo em nós mesmos, a fim de que vejamos nossa própria negação à frente do Cristo. Judas teria cedido à paixão política dominante, enganado pelas insinuações de grupos famintos de libertação do jugo romano... Teria imaginado que Jesus, no Sinédrio, avocaria a posição de emancipador da sua terra e da sua gente, exibindo incontestável triunfo humano...

E, apenas depois da desilusão dolorosa e terrível, teria assimilado toda a verdade!... Mas nós? Em quantas existências e situações tê-lo-emos vendido no altar do próprio coração, ao preço mesquinho de nosso desvairamento individual?

Nos prélios da vaidade e do orgulho...
Nas exigências do prazer egoísta...
Na tirania da opinião...
Na crueldade confessa...
Na caça da fortuna material...
Na rebeldia destruidora...
No olvido de nossos deveres...

No aviltamento de nosso próprio trabalho...Na edificação íntima do Reino de Deus, meditemos nossos erros conscientes ou não, definindo nossas responsabilidades e débitos para com a vida, para com a Natureza e para com os semelhantes e, em todos os assuntos que se refiram à deserção perante o Cristo, teremos bastante força para desculpar as faltas do próximo, perguntando, com sinceridade, no âmago do coração:

— "Porventura existirá alguém mais ingrato para contigo do que eu, Senhor?"


24. LIBERDADE EM CRISTO
"Estais pois firmes na liberdade com que o Cristo nos libertou e não vos submetais de novo ao Jugo da escravidão." — Paulo.
(GALATAS, 5:1.)

Meditemos na liberdade com que o Cristo nos libertou das algemas da ignorância e da crueldade. Não lhe enxergamos qualquer traço de rebeldia em momento algum. Através de todas as circunstâncias, sem perder o dinamismo da própria fé, submete-se, valoroso, ao arbítrio de nosso Pai.

Começa a Missão Divina, descendo da Glória Celestial para o estreito recinto da manjedoura desconhecida. Não exibe uma infância destacada no burgo em que se acolhe a sua equipe familiar; respira o ambiente da vida simples, não obstante a Luz Sublime com que supera o nível intelectual dos doutores de sua época.

Inicia o apostolado da Boa Nova, sem constranger as grandes inteligências a lhe aceitarem a doutrina santificante, contentando-se com a adesão dos pescadores de existência singela. Fascinando as multidões com a sua lógica irresistível, não lhes açula qualquer impulso de reivindicação social, ensinando-as a despertar no próprio coração os valores do espírito.

Impondo-se pela grandeza única que lhe assinala a presença, acenam-lhe com uma coroa de rei, que Ele não aceita. Observando o povo jugulado por dominadores estrangeiros, não lhe aconselha qualquer indisciplina, recomendando-lhe, ao invés disso, "dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus".

Sabe que Judas, o companheiro desditoso, surge repentinamente possuído por desvairada ambição política, firmando conchavos com perseguidores da sua Causa Sublime, contudo, não lhe promove a expulsão do círculo mais íntimo. Não ignora que Simão Pedro traz no âmago da alma a fraqueza com que o negará diante do mundo, mas, não se exaspera, por isso, e ajuda-o cada vez mais.

Ele, que limpara leprosos e sarara loucos, que restituíra a visão aos cegos e o movimento aos paralíticos, não se exime à prisão e ao escárnio público, à flagelação e à cruz da morte.

Refutamos, pois, que a liberdade, segundo o Cristo, não é o abuso da faculdade de raciocinar, empreender e fazer, mas sim a felicidade de obedecer a Deus, construindo o bem de todos, ainda mesmo sobre o nosso próprio sacrifício, porque somente nessa base estamos enfim livres para atender aos disígnios do Eterno Pai, sem necessidade de sofrer o escuro domínio das arrasadoras paixões que nos encadeiam o espírito por tempo indeterminado às trevas expiatórias.

22 - Religião dos Espíritos - Emmanuel - pág. 35, 48

Pureza - Reunião pública de 16-2-59 Questão n° 632
«Bem-aventurados os puros, porque verão a Deus.»
Estudando a palavra do Mestre Divino, recordemos que no mundo, até hoje, não existiu ninguém quanto Ele, com tanta pureza na própria alma. Cabe-nos, pois, lembrar como Jesus via no caminho da vida, para reconhecermos com segurança que, embora na Terra, sabia encontrar a Presença Divina em todas as situações e em todas as criaturas.

Para muita gente, a manjedoura era lugar desprezível; entretanto, Ele via Deus na humildade com que a Natureza lhe oferecia materno colo e transformou a estrebaria num poema de excelsa beleza. Para muita gente, Maria de Magdala era mulher sem qualquer valor, pela condição de obsidiada em que se mostrava na vida pública; no entanto, Ele via Deus naquele coração feminino ralado de sofrimento e converteu-a em mensageira da celeste ressurreição.

Para muita gente, Simão Pedro era homem rude e inconstante, indigno de maior consideração; contudo, Ele via Deus no espírito atribulado do pescador semi-analfabeto que o povo menosprezava e transmutou-o em paradigma da fé cristã, para todos os séculos.

Para muita gente, Judas era negociante de expressão suspeita, capaz de astuciosos ardis em louvor de si mesmo; no entanto, Ele via Deus na alma inquieta do companheiro que os outros menoscabavam e estendeu-Ihe braços amigos até ao fim da penosa deserção a que o discípulo distraído se entregou, invigilante.

Para muita gente, Saulo de Tarso era guardião intransigente da Lei Antiga, vaidoso e perverso, na defesa dos próprios caprichos; contudo, Ele via Deus naquele espírito atormentado, e procurou-o pessoalmente, para confiar-lhe embaixada importante.

Se purificares, assim, o coração, identificarás a presença de Deus em toda parte, compreendendo que a esperança do Criador não esmorece em criatura alguma, e perceberás que a maldade e o crime são apenas espinheiro e lama que envolvem o campo da alma — o brilhante divino que virá fatalmente à luz...

E aprendendo e servindo, ajudando e amando passarás, na Terra, por mensagem incessante de amor, ensinando os homens que te rodeiam a converter o charco em berço de pão e a entender que, mesmo nas profundezas do pântano, podem surgir lírios perfumados e puros para exaltar a glória de Deus.


Jesus e humildade - Reunião pública de 9-3-59 Questão n° 937
Estudando a humildade, vejamos como se comportava Jesus no exercício da sublime virtude. Decerto, no tempo em que ao mundo deveria surgir a mensagem da Boa-Nova, poderia permanecer na glória celeste e fazer-se representar entre os homem pela pessoa de mensageiros angélicos, mas proferiu descer, ele mesmo, ao chão da Terra, e experimentar-lhe as vicissitudes.

Indubitavelmente, contava com poder bastante para anular a sentença de Heródes que mandava decepar a cabeça dos recém-natos de sua condição, com o fim de impedir-lhe a presença; entretanto, afastou-se prudentemente para longínquo rincão, até que a descabida exigência fosse necessariamente proscrita.

Dispunha de vastos recursos para se impor em Jerusalém, ao pé dos doutores que lhe negavam autoridade no ensino das novas revelações; contudo, retirou-se sem mágoa em demanda de remota província, a valer-se dos homens rudes que lhe acolhiam a palavra consoladora.

Possuía suficiente virtude para humilhar a filha de Magdala, dominada pela força das sombras; no entanto, silenciou a própria grandeza moral para chamá-la docemente ao reajuste da vida. Atento à própria dignidade, era justo mandasse os discípulos ao encontro dos sofredores para consolá-los na angústia e sarar-lhes a ulceração; todavia, não renunciou ao privilégio de seguir, Ele mesmo, em cada canto de estrada, a fim de ofertar-lhes alívio e esperança, fortaleza e renovação.

Certo, detinha elementos para desfazer-se de Judas, o aprendiz insensato; porém, apesar de tudo, conservou-o até o último dia da luta, entre aqueles que mais amava. Com uma simples palavra, poderia confundir os juizes que o rebaixavam perante Barrabás, autor de crimes confessos; contudo, abraçou a cruz da morte, rogando perdão para os próprios carrascos.

Por fim, poderia condenar Saulo de Tarso, o implacável perseguidor, a penas soezes, pela intransigência perversa com que aniquilava a plantação do Evangelho nascente; mas buscou-o, em pessoa, às portas de Damasco, visitando-lhe o coração, por sabê-lo enganado na direção em que se movia.

Com Jesus, percebemos que a humildade nem sempre surge da pobreza ou da enfermidade que tanta vez somente significam lições regeneradoras, e sim que o talento celeste é atitude da alma que olvida a própria luz para levantar os que se arrastam nas trevas e que procura sacrificar a si própria, nos carreiros empedrados do Mundo, para que os outros aprendam, sem constrangimento ou barulho, a encontrar o caminho para as bênçãos do Céu.


25 - Síntese de o Novo Testamento - Mínimus - pág. 180, 192, 195

JESUS É UNGIDO EM BETÂNIA - (Mat. 26:1; Mar, 14:1 a 9; Luc, 22:1 e 2; Jo, 12:1 a 8)

Seis dias antes da Páscoa foi Jesus a Betânia. Ofereceram-lhe, ali, na casa de Simão, o leproso, uma ceia, na qual servia Marta e onde Lázaro fazia parte dos convivas. Então Maria, trazendo um vaso de alabastro com precioso perfume, aproximou-se de Jesus, ungiu-lhe os pés e lho derramou sobre a cabeça, quando ele estava à mesa.

Judas Iscariotes, um de seus discípulos, aquele que o havia de trair, perguntou: — Porque não se vendeu este perfume por trezentos denários e não se deu aos pobres? — Isto disse ele, não porque se preocupasse com os pobres, mas porque era ladrão e, sendo o portador da bolsa, subtraía o que nela se deitava.

Respondeu Jesus: — "Porque molestais esta mulher? ela me fez uma boa obra. Pois os pobres sempre os tendes convosco e, quando quiserdes, podeis fazer-lhes bem; mas, a mim, nem sempre me tendes; derramando ela este perfume sobre meu corpo, fê-lo para a minha sepultura. Em verdade vos digo que onde quer que, no mundo inteiro, for pregado este Evangelho, narrado também será, em sua memória, o que ela fez".

Tendo acabado de proferir todo este discurso, disse Jesus a seus discípulos: — "Sabeis que de hoje a dois dias se celebrará a Páscoa, a festa dos pães ázimos, e o Filho do homem será entregue para ser crucificado".

A esse tempo reuniram-se os principais sacerdotes, os escribas e os anciãos do povo no pátio da casa do sumo sacerdote, chamado Caifás; e deliberaram prender Jesus à traição e tirar-lhe a vida. Mas diziam: — Durante a festa, não; para que não haja motim entre o povo.

Os sacerdotes se utilizam de Judas. (Mat., 26:14 a 19; Marc., 14:10 a 16; Luc., 22:3 a 13)

Ora, Satanás entrou em Judas Iscariotes, que era , um dos doze; e Judas foi e se entendeu com os principais sacerdotes e os oficiais do templo sobre o modo de lho entregar. Alegraram-se todos e ajustaram em dar-lhe trinta moedas de prata. Ele concordou e procurava ocasião de entregá-lo, sem que a multidão o soubesse.

Chegou o dia dos pães ázimos, em que se devia imolar a Páscoa, e Jesus enviou a Pedro e João, dizendo--Ihes: — "Ide preparar-nos a Páscoa, para que a comamos". Eles lhe perguntaram: — Onde queres que a preparemos? Respondeu-lhes: — "Ao entrardes na cidade, encontrareis um homem carregando um cântaro de água; acompanhai-o até à casa em que ele entrar, e dizei ao dono dela:

O Mestre manda perguntar-te: Onde é o compartimento em que hei de comer a páscoa com meus discípulos? — Ele vos mostrará um amplo cenáculo mobilado; ali fazei os preparativos". — Eles foram e acharam como ele lhes dissera, e prepararam a Páscoa.

A última ceia. Predição da traição. Mat., 26:20 a 30; Mar., 14:17 a 26; Luc., 22:14 a 23; Jo., 13:18 a 32)

À tarde foi Jesus com os doze e, chegada a hora, pôs-se ele à mesa juntamente com os apóstolos e disse: — "Tenho desejado ansiosamente comer convosco esta Páscoa, antes que eu padeça, pois vos declaro que nunca mais hei-de comê-la, até que ela se cumpra no reino de Deus." — Depois de receber o cálice, dando graças, disse:

— "Tomai-o e distribuí-o entre vós; pois vos digo que não tornarei a beber do fruto da videira, até que venha o reino de Deus". Enquanto comiam, declarou Jesus: — "Em verdade vos digo que um de vós me trairá". Eles, profundamente contristados, começaram um a um a perguntar-lhe: — Porventura sou eu, Senhor? — Respondeu ele:

— "A mão daquele que me trai está comigo à mesa. Não falo de todos vós, conheço aqueles que escolhi; mas para que se cumpra a Escritura: Aquele que come o meu pão, levantou contra mim o seu calcanhar".

Estando todos a comer, Jesus pegou do pão e, tendo dado graças, partiu-o e deu aos seus discípulos, dizendo: — "Tomai e comei; isto é o meu corpo que é dado por vós; fazei isto em minha memória".

Terminada a ceia, Jesus, tomando o cálice, rendeu graças, e deu aos discípulos, dizendo: — "Bebei todos; porque isto é o meu sangue da nova aliança, que é derramado por muitos para remissão dos pecados. Mas digo-vos que de agora em diante não mais beberei deste fruto da videira, até ao dia em que o hei-de beber, novo, convosco no reino de meu Pai.

O Filho do homem vai, conforme está escrito a seu respeito, mas ai daquele por quem o Filho do homem é traído! melhor fora para esse homem se não houvesse nascido". — Os discípulos olhavam uns para os outros, sem saber a quem ele se referia. Ora, estava reclinado no seio de Jesus um de seus discípulos, a quem ele amava. A esse fez Simão Pedro um sinal e pediu-lhe perguntasse de quem ele falava. Aquele discípulo, assim reclinado, encostou-se ao peito de Jesus e inquiriu:

— Quem é, Senhor? — Respondeu Jesus: — "E aquele a quem eu der o bocado molhado". — E tendo molhado o pedaço de pão, deu-o a Judas, filho de Simão Iscariotes. Este perguntou: — Porventura sou eu, Mestre? — "Tu o disseste" — replicou Jesus. Após o bocado, entrou nele Satanás. Tornou-lhe Jesus: — "O que fazes, faze-o depressa".

Entretanto, nenhum dos que estavam à mesa percebeu a que propósito lhe dissera isto; pois como Judas guardava a bolsa, alguns pensavam que Jesus lhe dissera: — Compra o que nos é necessário para a festa; ou que desse alguma coisa aos pobres. Logo que Judas tomou o bocado, saiu. Era noite. Depois da saída dele, disse Jesus:

— "Agora é glorificado o Filho do homem e Deus é glorificado nele; se Deus é glorificado nele, também Deus o glorificará em si mesmo, e glorificá-lo-á imediatamente".

A prisão de Jesus. Fuga dos discípulos. (Mat., 26:47 a 56; Mar., 14:43 a 52; Luc., 22:47 a 53; Jo., 18:2 a 12)
Judas, que o traía, também conhecia aquele lugar, porque Jesus ali estivera muitas vezes com seus discípulos; assim, Judas, um dos doze, tendo recebido a coorte e alguns oficiais de justiça dos principais sacerdotes e dos fariseus, chegou a esse lugar com lanternas, archotes e armas. O traidor havia combinado com eles este sinal:

— Aquele a quem eu beijar, esse é que é; prendei-o e levai-o com segurança. Logo que chegou, aproximou-se de Jesus e disse: — Salve, Mestre! — e o beijou. Perguntou-lhe Jesus: — "Amigo, a que vieste? Com um beijo entregas o Filho do homem ?" Adiantou-se Jesus e interrogou-os: — "A quem buscais?" — Responderam eles: A Jesus Nazareno.

Disse-lhes Jesus: — "Sou eu". Logo que lhes disse: Sou eu, recuaram e caíram por terra. Tornou-lhes, pois, a perguntar: — "A quem buscais?" A Jesus Nazareno — repetiram eles. Replicou Jesus: — "Já vos disse que sou eu; se é a mim, pois, que buscais, deixai ir estes." Para se cumprir a palavra que proferira:

Não perdi nenhum dos que me deste. Logo se aproximou a escolta e, pondo as mãos em Jesus, prendeu-o. — Então, Simão Pedro, que tinha espada, desembainhou-a e golpeou a Malco, servo do sumo sacerdote, cortando-Ihe a orelha direita. Jesus, porém, tocando a orelha do servo e curando-o, disse a Pedro:

— "Embainha a tua espada; pois todos os que tomarem a espada, morrerão à espada. Não hei-de beber o cálice que o Pai me deu? Acaso pensas que não posso invocar a meu Pai, e que ele não me dará, neste momento, mais de doze legiões de anjos? Como, pois, se cumpririam as Escrituras que declaram que assim deve acontecer?"

— Disse Jesus à multidão: — "Saístes com espadas e varapaus como contra um salteador? Todos os dias, estando eu convosco no templo, a ensinar, não me prendestes; porém esta é a vossa hora e o poder das trevas". — Então, os discípulos o deixaram e fugiram. — Seguia-o um moço, coberto com uma roupa branca sobre o corpo nu; seguraram-no, mas ele, largando a roupa, fugiu nu.

Arrependimento e suicídio de Judas. (Mat., 27:1 a 10; Mar., 15:1 e Luc., 23:1)
Pela manhã, todos os principais sacerdotes, os anciãos e os escribas se reuniram em conselho contra Jesus, para o entregarem à morte. Depois de o maniatarem, levaram-no e o entregaram ao governador Pilatos.

Então, Judas, que o traíra, vendo que Jesus fora condenado, tocado de remorso, tornou a levar as trinta moedas de prata aos principais sacerdotes e aos anciãos, e disse: — Pequei, traindo sangue inocente. Eles, porém, responderam: — Que nos importa? isso é lá contigo. Judas, após arremessar as moedas de prata no santuário, retirou-se e, indo, enforcou-se. (Enforcando-se, Judas demonstrou o seu arrependimento; todavia, cometeu o crime do suicídio, severamente punido pelas leis divinas).

Os principais sacerdotes, apanhando as moedas, disseram: — Não é lícito deitá-las no tesouro sagrado, porque é preço de sangue. Depois de deliberarem em conselho, compraram com elas o Campo do Oleiro, a fim de servir de cemitério para os forasteiros. (Atos 1:18 narra o fato de forma diferente).

Por isso aquele campo tem sido chamado, até ao dia de hoje — Hacéldama, isto é, Campo de Sangue. Cumpriram-se assim as palavras proferidas pelo profeta Jeremias: — E tomaram as trinta moedas de prata, preço daquele que foi avaliado, a quem alguns dos filhos de Israel apreçaram; e deram-nas pelo Campo do Oleiro, como me ordenou o Senhor.