JUSTIÇA
BIBLIOGRAFIA
01- A constituição divina - pág. 376 02 - À luz da oração - pág. 63
03 - A reencarnação na bíblia - pág. 60 04 - Amizade - pág. 40
05 - Ave luz - pág. 16 06 - Catecismo Espírita - pág. 11
07 - Como vivem os Espíritos - pág. 98 08 - Contos desta e doutra vida - pág. 166
09 - Contos e apólogos - pág. 19, 149 10 - Depois da morte - pág. 132
11 - Espírito e vida - pág.25 12 - Estude e viva - pág.103, 122
13 - Evolução em dois mundos - pág. 181 14 - Gêneses da alma - pág. 111
15 - Grilhões partidos - pág. 209

16 - Jesus no Lar - pág. 51

17 - Justiça Divina - pág. 185 18 - Libertação - pág. 169
19 - Luz acima - pág. 171 20 - O céu e o inferno - pág. 2ª parte, cap. vii
21 - O Evangelho S. o Espiritismo - cap. v, 3 - xxvvv, iv 22 - O Livro dos Espíritos - q. 13, 171, 199, 222, 393
23 - O porquê da vida - pág. 31 24 - Religião dos Espíritos - pág. 197
25 - Síntese de o Novo Testamento - pág. 61 26 - Tambores de Angola - pág. 110
27 - Voltas que a vida dá - pág. 7, 32 28 - Vozes do grande além - pág. 187, 259
29 - Semeador em Tempos Novos - pág. 26  

LEMBRETE: O NÚMERO DA PÁGINA PODE VARIAR DE ACORDO COM A EDIÇÃO DA OBRA CITADA.

JUSTIÇA – COMPILAÇÃO

03 - A reencarnação na bíblia - Herminio C. Miranda - pág. 60

A LIÇÃO DE EZEQUIEL
Seria esta, porém, uma interpretação sofística, artificiosa, forçada, arranjada a posteriori por aqueles que chegaram à certeza das vidas sucessivas ? Negativo. Se alguém tem ainda alguma dúvida, há em Ezequiel todo um capítulo — o de número 18 — para definir e exemplificar com a maior nitidez e detalhamento o conceito da responsabilidade pessoal de cada um, destruindo o mito de que os filhos pagam pela iniquidade dos pais. Vamos transcrevê-lo na íntegra, para que não haja dúvidas, nem seja necessário buscá-lo alhures. Mais uma vez, recorro ao texto da American Bible Society.

— De novo veio a mim a palavra de Jeová, dizendo: Que quereis vós dizer, usando na terra de Israel deste provérbio: Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos estão embotados? Pela minha vida, diz o Senhor Jeová, não tereis mais ocasião de usardes deste provérbio em Israel. Eis que todas as almas são minhas; como o é a alma do pai, assim também a alma do filho é minha: a alma que pecar, essa morrerá. Porém, se um homem for justo, e fizer o que é equidade e justiça, e se não comer sobre os montes, nem levantar os seus olhos para os ídolos da casa de Israel, nem contaminar a mulher do seu próximo, nem se chegar à mulher na sua separação; se não oprimir a ninguém, porém tornar ao devedor o seu penhor, se não tirar nada do alheio por violência, se der do seu pão ao que tem fome e ao nu cobrir com vestido; se não der o seu dinheiro à usura.

Nem receber mais do que o que emprestou, se desviar a sua mão da iniquidade, e fizer verdadeiro juízo entre homem e homem; se andar nos meus estatutos, e guardar os meus juízos, para proceder segundo a verdade; este tal é justo, certamente viverá, diz o Senhor Jeová. Se ele gerar um filho que se torne salteador, que derrame sangue e que faça a seu irmão qualquer destas coisas, e que não cumpra com nenhum destes deveres, porém, coma sobre os montes, e contamine a mulher do seu próximo, oprima o pobre e necessitado, tire de outro com violência, não devolva o penhor, e levante os seus olhos aos ídolos, cometa abominações, dê o seu dinheiro à usura, e receba mais do que emprestou: acaso viverá ele?

Não viverá. Comete todas estas abominações; certamente morrerá, o seu sangue será sobre ele. Eis que se este por sua vez gerar um filho que, vendo todos os pecados cometidos por seu pai, tema e não faça coisas semelhantes, que não coma sobre os montes, nem levante os seus olhos aos ídolos da casa de Israel, que não contamine a mulher do seu próximo, nem oprima a pessoa alguma, que não empreste sobre penhores nem tire de outrem com violência, porém, dê o seu pão ao faminto, e ao nu cubra com vestido, que aparte do pobre a sua mão, que não receba usura nern mais do que emprestou, que execute os meus juízos, e ande nos meus estatutos; este não morrerá por causa da iniquidade de seu pai, certamente viverá. Quanto a seu pai, porque oprimiu cruelmente, tirou de seu irmão com violência, e fez o que não é bom entre o seu povo, eis que ele morrerá na sua iniquidade.

Contudo dizeis: Por que não leva o filho a iniquidade do pai l Quando o filho fizer o que é de equidade e justiça, guardar todos os meus estatutos, e os cumprir, certamente viverá. A alma que peca, essa morrerá; o filho não levará a iniquidade do pai nem o pai levará a iniquidade do filho. A justiça do justo será sobre ele, e a impiedade do ímpio será sobre ele. Mas se o ímpio se converter de todos os seus pecados que cometeu, e guardar todos os meus estatutos, e fizer o que é de equidade e justiça, certamente viverá, não morrerá.

Nenhuma das suas transgressões que cometeu, será lembrada contra ele; na sua justiça que praticou viverá. Acaso tenho eu prazer com a morte do ímpio? diz o Senhor Jeová; não quero eu antes que se converta do seu caminho, e viva? Mas quando o justo se desviar da sua justiça, e cometer iniquidade, e fizer conforme todas as abominações que faz o ímpio, acaso viverá ele ? Não será lembrado nenhum dos seus atos de justiça que praticou; na sua transgressão com que transgrediu, e no seu pecado com que pecou, neles morrerá. Contudo dizeis: O caminho do Senhor não é igual. Ouvi, pois, ó casa de Israel: Acaso não é igual o meu caminho? não são desiguais os vossos caminhos?

Quando o justo se desviar da sua justiça, e cometer a iniquidade, e nela morrer; na sua iniquidade que cometeu morrerá. Outrossim, quando o ímpio se desviar da sua impiedade que cometeu, e fizer o que é de equidade e justiça, conservará este a sua alma em vida. Porquanto considera e se desvia de todas as suas transgressões que cometeu, certamente viverá, não morrerá. Contudo diz a casa de Israel: O caminho do Senhor não é igual. Acaso não são iguais os meus caminhos, ó casa de Israel ?

Portanto vos julgarei, ó casa de Israel, cada um conforme os seus caminhos, diz o Senhor Jeová. Convertei-vos, e desviai-vos de todas as vossas transgressões; assim a iniquidade não vos será pedra de tropeço. Lançai de vós todas as vossas transgressões, com que transgredistes; e fazei-vos um coração novo e um espírito novo. Pois, por que morre­reis, ó casa de Israel ? Porquanto não tenho prazer na morte do que morre, diz o Senhor Jeová; portanto convertei-vos e vivei.

PRELIMINARES A UMA INTERPRETAÇÃO

Vamos, pois, ordenar as idéias expostas nesse longo trecho. Antes, um pouco de preparação que nos garanta o entendimento de certas referências a partir de definição de algumas preliminares. Para os antigos, viver era o supremo bem, enquanto morrer, especialmente em pecado, a tragédia irreparável e definitiva. A seita dos saduceus, mais tarde, nem mesmo acreditaria na sobrevivência da alma; para eles, a morte era o fim. Como já vimos, o prémio que o Decálogo promete àquele que honra pai e mãe não é um paraíso póstumo, mas uma "longa vida sobre a terra que o Senhor teu Deus te dará".

De certa forma, o conceito de que o pecado acarreta a morte do pecador preservou-se da dogmática cristã, dado que o pecado afasta o homem de Deus. ê necessário entender bem que ninguém poderá desligar-se de Deus, simplesmente porque nada existe senão nele, criado e sustentado por ele. "Vivemos e nos movemos em Deus e nele temos o nosso ser", disse Paulo de Tarso. A linguagem bíblica, porém, é rica em simbolismos, que outra coisa não são senão maneiras de expressar verdades ainda transcendentais, de forma que o maior número possível de pessoas possa entendê-las. Como dizer, por exemplo, que o erro nos aliena de Deus, senão dizendo que Deus nos vira o rosto, ou que se aparta de nós e nos deixa entregues à nossa sorte, ou nos castiga, ou nos priva daqueles bens que mais desejamos? Quando se quer, por exemplo, caracterizar a gravidade do erro cometido por Adão e Eva — uma evidente alegoria — o autor do Penta-teuco declara que a primeira providência de Deus foi expulsá-los do Éden, onde viviam na maior felicidade
e inocência.

A "morte da alma" era, pois, a pena máxima. Não que na concepção daqueles povos a alma fosse perecível, porque os justos iam para o "seio de Abraão" e os pecadores para a região de agonias e trevas, o "sheol". Cada povo ou seita tem a sua maneira de figurar esses dois pólos opostos da destinação: os bons, de um lado e os maus de outro. A Doutrina dos Espíritos veio, finalmente, esclarecer que tanto "céu" como "inferno" são estados d'alma, porque o ser humano leva para onde for, aqui ou no mundo espiritual, o seu próprio "céu" ou o seu "inferno" interior.

Outro ponto a destacar, ainda nestas preliminares, é o conceito de justiça. Era considerado justo aquele que cumprisse rigorosamente os preceitos morais contidos na lei divina e nas prescrições posteriores elaboradas principalmente por Moisés. Justo era, portanto, o homem de bem, cumpridor de seus deveres religiosos e sociais; justa a mulher honesta, fiel, de procedimento correto. O prêmio do justo era o mesmo de sempre: viver. O destino do pecador, a morte. No contexto da linguagem moderna, o conceito bíblico de justiça tornou-se um tanto obscuro para a mentalidade atual. Praticar, fazer, exercer justiça hoje é diferente de ser justo tal como o entendiam os antigos judeus. No contexto da Bíblia, o ser humano é justo quando age com justeza e não necessariamente com justiça. Não é nada justo, por exemplo, aquele que resolve "fazer justiça por suas próprias mãos" e matar um inimigo.

Somente assim poderemos entender frases como esta: ele viverá por causa da justiça que praticou. Ou seja: aquele foi um homem justo - bom, caridoso, pacífico, correto — e por isso será premiado por suas virtudes. Tanto é assim que não se emprega jamais a forma negativa em frases como esta: o injusto será castigado, ou morrerá pela sua injustiça. Resta um terceiro e importante aspecto: a conceituação do que era considerado bom procedimento e, reversamente, mau procedimento. Era considerado bom (justo) aquele que cumpria os preceitos da lei. Quais eram ?

Não ser idólatra, não trair a sua mulher com outra, nem o seu amigo, ou irmão, seduzindo-lhes a esposa; não emprestar dinheiro a juros; não ser violento; ser caridoso na ajuda ao pobre; evitar, enfim, o mal e procurar praticar o bem, ainda que certas regrinhas, hoje inexpressivas, também fossem incluídas nas proibições, como "comer nos montes". Era considerado ímpio (em oposição ao justo) aquele que praticasse os erros codificados na lei.

DEFINIÇÃO PRECISA DA RESPONSABILIDADE PESSOAL

Com essas considerações em mente, vamos, pois, ao exame do texto. Segundo se infere, havia uma parábola entre os judeus que se convertera em provérbio, e que, aliás, continha uma inverdade, atribuindo a responsabilidade pelo pecado à alma do inocente e não à do pecador. Vêm a seguir os exemplos. O homem bom (justo) poderá contar sem vacilações com o reconhecimento de sua bondade e retidão — ou seja, sua justiça, ou melhor ainda, sua justeza. Se, porém, seu filho for um mau elemento, responderá pelos seus próprios erros, isto é, "o seu sangue cairá sobre ele". Ele mesmo e não outrem.

Se, por sua vez, este filho mau tiver um filho bom e que, mesmo ante o exemplo maléfico do seu pai, proceder corretamente, o que sucederá ? O pai não se livrará, por isso, dos seus erros, enquanto ele, o filho bom, terá o prémio da sua bondade, nada tendo a responder pelas faltas do pai. Há mais ainda: a culpa não é irremissível, imperdoável, eterna. Desde que o ímpio se corrija e se dedique à prática do bem, ficará recuperado. Na linguagem simbólica do texto, "nenhuma das suas transgressões que cometeu, será lembrada contra ele". Mas, atenção !, o prêmio continua merecido pela "justiça que praticou" ou seja, pelo bem que fez e não pelo mal que deixou de praticar.

Da mesma forma, aquele que sempre foi bom e, de repente, descamba para a prática do mal, é prontamente responsabilizado pelos erros que cometer. Ele próprio e não outra pessoa. Até mesmo o homem bom, que se voltar para a iniquidade, responderá por ela como qualquer ímpio. O que antes fizera de bom não o isenta de tal responsabilidade, porque certifica nele a persistência de tendências más ainda não superadas.

A idéia básica de toda essa longa exposição, portanto, é a de que somos julgados segundo nossos atos: "Portanto, ó casa de Israel, vos julgarei cada um conforme os seus caminhos". Prestaram bem atenção? Cada um de acordo com os seus caminhos ou atos e não pelo que outros tenham feito. O que comeu a uva verde, esse mesmo é que terá seus dentes estragados, não os seus filhos ou netos.
Figuremos, porém, o caso mais comum daqueles que não tiveram o bom senso e a disposição de se utilizar das oportunidades de conversão à prática do bem.

Seja porque se comprazem no erro, seja porque, depois do esforço sobre-humano para serem bons, recaíram na prática do mal ou, ainda, porque tenham praticado crime grave já nos últimos momentos da vida terrena, sem tempo de corrigirem-se. Que fazer dessas multidões de seres em falta ?

Já vimos que Deus está disposto a esquecer os erros daquele que se regenera, desde que ele se confirme na prática do bem. Já vimos também que Deus não deseja a morte do pecador, ou seja, a sua condenação, mas que ele renuncie ao erro. E se Deus não o deseja, hão de ser colocados ao alcance do pecador todos os recursos de que ele necessitar para recuperar-se, deixando para sempre de pecar. Como, porém, entender tais oportunidades de recuperação no contexto de uma só vida na carne ? Como poderia o Pai desejar que o pecador se salve sem propor­cionar-lhe os meios para fazê-lo? Não há, pois, como sofismar ante o esquema básico que se resume a seguir:

• Cada um responde pelos seus erros e tem o mérito de suas virtudes.

• Não há sofrimento inocente, nem recompensa imerecida por herança, contágio, ou por procuração. A cada um segundo suas obras.

• As oportunidades de reajuste são proporcionadas a todos indistintamente.

• O processo evolutivo — uma condição cósmica — exige um mecanismo de reajuste moral que é precisamente o das vidas sucessivas.


08 - Contos desta e doutra vida - Irmão X - pág. 166

35 - Talidomida
Na tela cinematográfica, junto da qual sentíamos a realidade sem distorção, o professor do Plano Espiritual exibiu dois pequenos documentários sobre o assunto que nos fora motivo a longo debate. 1939 -1943 — Surgiu à cena agitada metrópole européia. Em tudo, o clima de guerra. Desfiles militares de pomposa expressão. Na crista dos edifícios mais altos, bocas de fogo levantavam-se em desafio. Nas ruas, destacavam-se milhares de jovens em formações de tropa, ao rufar de tambores, ostentando símbolos e bandeiras.

O povo, triste e apreensivo nas filas de suprimento, parecia desvairar-se de júbilo, nas paradas políticas, ovacionando oradores nas praças públicas. De vez em vez, sirenas sibilavam gritaria de alarme. Aviões sobrevoavam, incessantemente, o casario enorme, lembrando águias metálicas, de atalaia nos céus, para desfechar ataques defensivos contra inimigos que lhes quisessem pilhar o ninho.

Através de informações precisas, registávamos os mínimos tópicos de cada conversação. De súbito, vimo-nos mentalmente jungidos a dilatado recinto, onde centenas de policiais e civis cochichavam na sombra. Articulam-se avisos. Ramifica-se a trama. Camionetas deslizam dentro da noite. Outros agrupamentos se constituem. Mais algum tempo e magotes de transeuntes se agregam num ponto só, formando vasta legião po­pular em operoso bairro de ascendência israelita. São paisanos decididos à rapinagem.

Homens e mulheres de raciocínio maduro combinam o assalto em mira. Madrugada adiante, quando a soldadesca selecionada desce dos veículos com a ordem de apressar famílias inermes, ei-los que invadem as residências judias, agravando o tumulto. Para nós que assistíamos ao espetáculo, transidos de dor, era como se fitássemos corsários da terra, no burburinho do saque. Mãos que retivessem anéis, pulsos que ostentassem adornos, orelhas ornamentadas de brincos e bustos revestidos de jóias sofriam golpes rápidos, muitos deles tombando decepados em torrentes sanguíneas.

Alguém que aparecesse com bastante coragem de investir contra os malfeitores, cuja impunidade se garantia com a indiferença de quantos lhes compartilhavam a copiosa presa, caía para logo de pernas mutiladas, para que não avançasse em socorro das vítimas.E os quadros vivos se repetiam em outros lugares e em outras noites, com personagens diversas, nos mesmos delírios de violência.

1949 -1953 — A tela passa a mostrar escuro vale no Espaço. Examinamos, confrangidos, milhares de seres humanos em condições deploráveis. Arrastam-se em desgoverno. Há quem chore a ausência dos braços, quem lastime a perda dos pés. Possível, no entanto, identificar muitos deles. São os mesmos infelizes de 1939 a 1943, participantes das empresas de furto e morte, à marírem da guerra. Desencarnados, supliciam-se no remorso que se lhes incrusta nas consciências. Carregando a mente vincada pelas atrocidades de que foram autores, plasmaram em si, nos órgãos e membros profundamente sensíveis do corpo espiritual, as deformidades que infligiram aos irmãos israelitas indefesos.

Ainda assim, almas heróicas atravessam o nevoeiro e distribuem consolações. Para que se refaçam, é preciso que reencarnem de novo, em breves períodos de imersão nos fluidos anestsiantes do plano físico. Necessário retomem a organização carnal, à maneira de doentes complicados que exigem regime carcerário para tratamen|o pre­ciso. Ensinamentos prosseguem ao redor do filme.

Sofrerão, sim, mais tarde, as provas regenerativas de que se revelam carecedores, mas, por enquanto, são albergados por braços afetuosos de amigos, que se prontificam a sustentá-los, piedosamente, ou entregues a casais necessitados de filhinhos-problemas, a fim de ressarcirem dívidas do pretérito.

A maioria dos implicados renasce no pais em que se verificou o assombroso delito, e muitos neles, em vários pontos outros do mundo, ressurgem alentados por famílias hospitaleiras ou endividadas, que os aconchegam, para a benemerência do reajuste. Certamente — comentou o instrutor, ao término da película —, certamente que nem todos os casos de malformação congênita podem ser debitados à influência da talidomida sobre a vida fetal.

Em todos os tempos, consoante os princípios de causa e efeito, despontam crianças desfiguradas nos berços terrestres. O estudo, porém, que realizamos pela imagem esclarece com segurança o fenômeno das ocorrências de má-formação que repontaram em massa, entre os homens, nos últimos tempos. Achávamo-nos suficientemente elucidados; no entanto, meu velho amigo Luís Vilas indagou:

— Isso quer dizer então, professor, que a talidomida foi aplicada de acordo com a lei da reencarnação ?— Bem, bem — falou o mentor retratando a benevolência no semblante calmo —, a talidomida e a provação funcionaram em obediência à justiça, mas não será lícito esquecer que o lar e a ciência vigilante dos homens também funcionaram em obediência à Misericórdia Divina, que a tudo previu, a fim de que a administração daquele medicamento não ultrapassasse os limites justos. Compreenderam? Sim, recebêramos a chave para entender o assunto que envolvia dolorosa disciplina expiatória, e, à face da emoção que nos impunha silêncio, a lição foi encerrada.

10 - Depois da morte - Léon Denis - pág. 132

XI — A PLURALIDADE DAS EXISTÊNCIAS
Sob que forma se desenvolve a vida imortal, e que é na realidade a vida da alma? Para responder a tais perguntas, cumpre ir à origem e examinar em seu conjunto o problema das existências. Sabemos que, em nosso globo, a vida aparece primeiramente sob os mais simples, os mais elementares aspectos, para elevar-se, por uma progressão constante, de formas em formas, de espécies em espécies, até ao tipo humano, coroamento da criação terrestre. Pouco a pouco, desenvolvem-se e depuram-se os organismos, aumenta a sensibilidade.

Lentamente, a vida liberta-se dos liames da matéria; o instinto cego dá lugar à inteligência e à razão. Teria cada alma percorrido esse caminho medonho, essa escala de evolução progressiva, cujos primeiros degraus afundam-se num abismo tenebroso? Antes de adquirir a consciência e a liberdade, antes de se possuir na plenitude de sua vontade, teria ela animado os organismos rudimentares, revestido as formas inferiores da vida? Em uma palavra: teria passado pela animalidade? O estudo do caráter humano, ainda com o cunho da bestialidade, leva-nos a supor isso.

O sentimento da justiça absoluta diz-nos também que o animal, tanto quanto o homem, não deve viver e sofrer para o nada. Uma cadeia ascendente e contínua liga todas as criações, o mineral ao vegetal, o vegetal ao animal, e este ao ente humano. Liga-os duplamente, ao material como ao espiritual. Não sendo a vida mais que uma manifestação do espírito, traduzida pelo movimento, essas duas formas de evolução são paralelas e solidárias.

A alma elabora-se no seio dos organismos rudimentares. No animal está apenas em estado embrionário; no homem, adquire o conhecimento, e não mais pode retrogradar. Porém, em todos os graus ela prepara e conforma o seu invólucro. As formas sucessivas que reveste são a expressão do seu valor próprio. A situação que ocupa na escala dos seres está em relação direta com o seu estado de adiantamento. Não se deve acusar Deus por ter criado formas horrendas e desproporcionadas. Os seres não podem ter outras aparências que não sejam as resultantes das suas tendências e dos hábitos contraídos.

Acontece que almas, atingindo o estado humano, escolhem corpos débeis e sofredores para adquirirem as qualidades que devem favorecer a sua elevação; porém, na Natureza inferior nenhuma escolha poderiam praticar e o ser recai forçosamente sob o império das atrações que em si desenvolveu. Essa explicação pode ser verificada por qualquer observador atento. Nos animais domésticos as diferenças de caráter são apreciáveis, e até os de certas espécies parecem mais adiantados que outros. Alguns possuem qualidades que se aproximam sensivelmente das da Humanidade, sendo suscetíveis de afeição e devotamento.

Como a matéria é incapaz de amar e sentir, forçoso é que se admita neles a existência de uma alma em estado embrionário. Nada há aliás maior, mais justo, mais conforme à lei do progresso, do que essa ascensão das almas operando-se por escalas inumeráveis, em cujo percurso elas próprias se formam: pouco a pouco se libertam dos instintos grosseiros e despedaçam a sua couraça de egoísmo para penetrarem nos domínios da razão, do amor, da liberdade. É soberanamente justo que a mesma aprendizagem chegue a todos, e que nenhum ser alcance o estado superior sem ter adquirido aptidões novas.

No dia em que a alma, libertando-se das formas animais e chegando ao estado humano, conquistar a sua autonomia, a sua responsabilidade moral, e compreender o dever, nem por isso atinge o seu fim ou termina a sua evolução. Longe de acabar, agora é que começa a sua obra real; novas tarefas chamam-na. As lutas do passado nada são ao lado das que o futuro lhe reserva. Os seus renascimentos em corpos carnais suceder-se-ão. De cada vez, ela continuará, com órgãos rejuvenescidos, a obra do aperfeiçoamento interrompida pela morte, a fim de prosseguir e mais avançar. Eterna viajora, a alma deve subir, assim, de esfera em esfera, para o Bem, para a Razão infinita, alcançar novos níveis, aprimorar-se sem cessar em ciência, em critério, em virtude.

Cada uma das existências terrestres mais não é que um episódio da vida imortal. Alma nenhuma poderia em tão pouco tempo despir-se de todos os vícios, de todos os erros, de todos os apetites vulgares, que são outros tantos vestígios das suas vidas desaparecidas, outras tantas provas da sua origem. Calculando o tempo que foi preciso à Humanidade, desde a sua aparição no globo, para chegar ao estado da civilização, compreenderemos que, para realizar os seus destinos, para subir de claridades em claridades até ao absoluto, até ao divino, a alma necessita de períodos sem limites, de vidas sempre novas, sempre renascentes.

Só a pluralidade das existências pode explicar a diversidade dos caracteres, a variedade das aptidões, a desproporção das qualidades morais, enfim, todas as desi­gualdades que ferem a nossa vista. Fora dessa lei, indagar-se-ia inutilmente por que certos homens possuem talento, sentimentos nobres, aspirações elevadas, enquanto muitos outros só tiveram em partilha tolice, paixões vis e instintos grosseiros.

Que pensar de um Deus que, estabelecendo uma só vida corporal, nos houvesse dotado tão desigualmente, e, do selvagem ao civilizado, tivesse reservado aos homens bens tão desproporcionados e tão diferente nível moral? Se não fosse a lei das reencarnações, a iniquidade governaria o mundo. A influência dos meios, a hereditariedade, as diferenças de educação não bastam para explicar essas anomalias. Vemos os membros de uma mesma família, semelhantes pela carne e pelo sangue, educados nos mesmos princípios, diferençarem-se em bastantes pontos. Homens excelentes têm tido monstros por filhos.

Marco Aurélio, por exemplo, foi o genitor de Cômodo; personagens célebres e estimadas têm descendido de pais obscuros, destituídos de valor moral. Se para nós tudo começasse com a vida atual, como explicar tanta diversidade nas inteligências, tantos graus na virtude e no vício, tantas variedades nas situações humanas? Um mistério impenetrável pairaria sobre esses gênios precoces, sobre esses Espíritos prodigiosos que, desde a infância, penetram com ardor as veredas da arte e das ciências, ao passo que tantos jovens empalidecem no estudo e ficam medíocres, apesar dos seus esforços.

Todas essas obscuridades se dissipam perante a doutrina das existências múltiplas. Os seres que se distinguem pelo seu poder intelectual ou por suas virtudes têm vivido mais, trabalhado mais, adquirido experiência e aptidões maiores. O progresso e a elevação das almas dependem unicamente de seus trabalhos, da energia por elas desenvolvida no combate da vida. Umas lutam com coragem e rapidamente franqueiam os graus que as separam da vida superior, enquanto outras imobilizam-se durante séculos em existências ociosas e estéreis.

Porém, essas desigualdades, resultantes dos feitos do passado, podem ser resgatadas e niveladas nas vidas futuras. Em resumo, o ser se forma a si próprio pelo desenvolvimento gradual das forças que estão consigo. Inconsciente ao princípio, sua vida vai ganhando inteligência e torna-se consciente logo que chega à condição humana e entra na posse de si mesmo. Aí a sua liberdade ainda é limitada pela ação das leis naturais que intervêm para assegurar a sua conservação. O livre-arbítrio e o fatalismo assim se equilibram e moderam-se um pelo outro.

A liberdade e, por conseguinte, a responsabilidade são sempre proporcionais ao adiantamento do ser. Eis a única solução racional do problema. Através da sucessão dos tempos, na superfície de milhares de mundos, as nossas existências desenrolam-se, passam, renovam-se, e, em cada uma delas, desaparece um pouco do mal que está em nós; as nossas almas fortificam-se, depuram-se, penetram mais intimamente nos caminhos sagrados, até que, livres das encarnações dolorosas, tenham adquirido, por seus méritos, acesso aos círculos superiores, onde eternamente irradiarão em beleza, sabedoria, poder e amor!

12 - Estude e viva - Emmanuel e André Luiz - pág.103, 122

Acidentados da alma
Compadeces-te dos caidos em moléstia ou de­sastre, que apresentam no corpo comovedoras mu­tilações .
Inclina-te, porém, com igual compaixão para aqueles outros que comparecem, diante de ti, por acidentados da alma, cujas lesões dolorosas não aparecem. Além da posição de necessitados, pelas chagas ocultas de que são portadores, quase sem­pre se mostram na feição de companheiros menos atrativos e desejáveis.
Surgem pessoalmente bem-postos, estadeando exigências ou formulando complicações, no entanto bastas vezes trazem o coração sob provas difíceis; espancam-te a sensibilidade com palavras ferinas, contudo, em vários lances da experiência, são fei­xes de nervos destrambelhados que a doença con­some; revelam-se na condição de amigos, supostos ingratos, que nos deixam em abandono, nas horas
de crise, mas, em muitos casos, são enfermos de espírito, que se enviscam, inconscientes, nas tra­mas da obsessão; acolhem-te o carinho com ma­nifestações de aspereza, todavia, estarão provavel­mente agitados pelo fogo do desespero, lembrando árvores benfeitoras quando a praga as dizima; são delinquentes e constrangem-te a profundo desgos­to, pelo comportamento incorreto; no entanto, em múltiplas circunstâncias, são almas nobres tomba­das em tentação, para as quais já existe bastante angústia na cabeça atormentada que o remorso atenaza e a dor suplicia...
Não te digo que aproves o mal, sob a alegação de resguardar a bondade. A retificação permanece na ordem e na segurança da vida, tanto quanto vige o remédio na defesa e sustentação da saúde. Age, porém, diante dos acidentados da alma, com a prudência e a piedade do enfermeiro que socorre a contusão, sem alargar a ferida.
Restaurar sem destruir. Emendar sem pros­crever. Não ignorar que os irmãos transviados se encontram encarcerados em labirintos de sombra, sendo necessário garantir-lhes uma saída adequada.
Em qualquer processo de reajuste, recordemos Jesus que, a ensinar servindo e a corrigir amando, declarou não ter vindo à Terra para curar os sãos.
Aspectos da dor
Os soluços de dor são compreensíveis até o ponto em que não atingem a fermentação da re­volta, porque, depois disso, se convertem todos eles em censura infeliz aos planos do Céu. A enfermidade jamais erra o endereço para as suas visitas. As lágrimas, em verdade, são iguaisàs palavras. Nenhuma existe destituída de significação.

Somente chega a entender a vida quem compreende a dor. A evolução regula também o sofrimento das criaturas e nelas se evidencia mais superficial ou mais profunda, conforme o aprimoramento de cada uma.

Se você pretende vencer, não menospreze a possibilidade de amargar, algumas vezes, a aflição da derrota como lição no caminho para o triunfo. Aprende melhor quem aceita a escola da provação, porquanto, sem ela, os valores da experiência permaneceriam ignorados. A dor não provém de Deus, de vez que, segundo a Lei, ela é uma criação de quem a sofre.

Lugar para ela
Todos nós precisamos da verdade, porque a verdade é a luz do espírito, em torno de situações, pessoas e coisas; fora dela, a fantasia é capaz de suscitar a loucura, sob o patrocínio da ilusão. Entretanto, é necessário que a caridade lhe comande as manifestações para que o esclarecimento não se torne fogo devorador nas plantações daesperança.

Todos nós precisamos da justiça, porque a justiça é a lei, em torno de situações, pessoas e coisas; fora dela, a iniquidade é capaz de premiar o banditismo, em nome do poder. Entretanto, é necessário que a caridade lhe presida as manifestações para quee o direito não se faça intolerância, impedindo a recuperação das vítimas do mal.

Todos nós precisamos da lógica, porque a lógica é a razão em si mesma, em torno de situações, pessoas e coisas; fora dela, a paixão é capaz de gerar o crime, à conta de sentimento. Entretanto, é necessário que a caridade lhe inspire as manifestações, para que o discernimento não se converta em vaidade, obstruindo os serviços da educação.

Todos nós precisamos da ordem, porque a or­dem é a disciplina, em torno de situações, pessoas e coisas; fora dela, o capricho é capaz de estabelecer a revolta destruidora, sob a capa dos bons intentos. Entretanto, é necessário que a caridade lhe oriente as manifestações para que o método não se transforme em orgulho, aniquilando as obras do bem.

Cultivemos a verdade, a justiça, a lógica e a ordem, buscando a caridade e reservando, em todos os nossos atos, um lugar para ela, porquanto a caridade é a força do amor e o amor é a única força com bastante autoridade para sustentar-nos a união fraternal, sob a raiz sublime da vida, que é Deus.

Ê por isso que Allan Kardec, cônscio de que restaurava o Evangelho do Cristo para todos os climas e culturas da Humanidade, inscreveu nos pórticos do Espiritismo a divisa inolvidável, destinada a quantos abraçam as realizações e os princípios: -Fora da caridade não há salvação.

EM TERMOS LÓGICOS
Não há vida sem responsabilidade. Todo ser tem direitos e obrigações.
Não há ação sem testemunha. Somos participantes da Vida Universal.
Não há bem ou mal gerados espontaneamente. Todo ato surge após o autor.

Não há erro com razão. Só a verdade é lógica.
Não há sentimentos incontroláveis. O espírito é o criador da própria emoção.
Não há dificuldade intransponível. Cada aluno recebe lições conforme o entendimento que evidencia.

Não há perfeita alegria que viceje no insulamento. A felicidade é bênção de luz que apenas medra no terreno da solidariedade.
Não há ponto final para o amor. Amor é vida e a vida é eternidade.


13 - Evolução em dois mundos -André Luiz - pág. 181


VI - Justiça na Espiritualidade

— Como atua o mecanismo da Justiça no Plano Espiritual?
— No mundo espiritual, decerto, a autoridade da Justiça funciona com maior segurança, embora saibamos que o mecanismo da regeneração vige, antes de tudo, na consciência do próprio indivíduo.

Ainda assim, existem aqui, como é natural, santuários e tribunais, em que magistrados dignos e imparciais examinam as responsabilidades humanas, sopesando-lhes os méritos e deméritos.

A organização do júri, em numerosos casos, é aqui observada, necessariamente, porém, constituída de Espíritos integrados no conhecimento do Direito, com dilatadas noções de culpa e resgate, erro e corrigenda, psicologia humana e ciências sociais, a fim de que as sentenças ou informações proferidas se atenham à precisa harmonia, perante a Divina Providência, consubstanciada no amor que ilumina e na sabedoria que sustenta.

Há delinquentes tanto no plano terrestre quanto no plano espiritual, e, em razão disso, não apenas os homens recentemente desencarnados são entregues a julgamento específico, sempre que necessário, mas também as entidades desencarnadas que, no cumprimento de determinadas tarefas, se deixan , muitas vezes, arrastar a paixões e caprichos inconfessáveis.

É importante anotar, contudo, que quanto mais baixo é o grau evolutivo dos culpados, mais sumário é o julgamento pelas autoridades cabíveis, e, quanto mais avançados os valores culturais e morais do indivíduo, mais complexo é o exame dos processos de criminalidade em que se emaranham, não só pela influência com que atuam nos destinos alheios, como também porque o Espírito, quando ajustado à consciência dos próprios erros, ansioso de reabilitar-se por si mesmo a sentença punitiva que reconhece indispensável à própria restauração.

14 - Gêneses da alma - Cairbar Schutel - pág. 111

CIÊNCIA E PROGRESSO:
O saber é a melhor fortuna que o homem pode conquistar. É pela aquisição de conhecimentos que a alma se desenvolve e se prepara para os surtos da Vida Imortal. Diz o prolóquio que "o saber não ocupa lugar". Esta proposição é toda falsa. Um Espírito sem sabedoria é semelhante a uma casa sem móveis e desabitada; a ninguém oferece comodidade, e em breve vê a sua própria ruína. Ao passo que uma casa bem mobiliada, com todos os requisitos de boa vivenda, bem iluminada, onde não faltam objetos de repouso para o corpo e repouso para o Espírito, se constitui num| paraíso por todos desejado.

Assim é a nossa alma: deserta de sabedoria e de virtudes, embora pareça grande é como um desses antigos castelos isolados e temidos, teatro fantasmagórico onde se acendem os "fogod fátuos" da superstição e do fanatismo a denunciar a noite da ignorância que o entenebrece.

Na alma do ignorante, macilenta, abatida, magra, perpassam sombras cruéis, espectros vingadores, visões terríficas! "O saber ocupa muito lugar", mas quanto mais sabemos, mais lugar temos para oferecer ao saber, porque a nossa individualidade cresce à medida que crescem em nós os conhecimentos; nossa inteligência se dilata, nosso raciocínio se amplia, nosso sentimento aumenta na razão do nosso aperfeiçoameto, tornando-se as nossas percepções mais nítidas, mais puras, mais espiritualizadas!

Por isso o saber precisa entrar no nosso Espírito gradativamente, iluminando nossos passos na Vida Espiritual, como o Sol que nos acompanha gradualmente desde o nosso nascimento e sob cujos influxos exprimimos os primeiros sorrisos.

A alma não começa no berço, nem termina
no túmulo. O vento sopra onde quer, e não sabemos donde ele vem". Nasce a criança impulsionada pelo principio anímico, e também compreendemos que, como o vento, ela vem de longe. É um Espírito que se envolveu na carne, que renasceu na carne, e que vem de remotas eras, formando sua consciência, engrandecendo a sua individualidade, para, um dia, galgar os cimos da vida superior! Excelsa e admirável Doutrina que não nos compara à matéria bruta!

16 - Jesus no Lar - Néio Lúcio - pág. 51

10. - O JUIZ REFORMADO
Como houvese o Senhor recomendado nas instruções do dia muita cautela no julgar, a conversação em casa de Pedro se desdobrava em derredor do mesmo tema.-É difícil não criticar - comentava Mateus, com lealdade -, porque, a todo instante o homem de mediana educação é compelido a emitir pareceres na atividade comum.

-Sim - concordava André, muito franco - não é fácil agir com acerto, sem analisar detidamente. Depois de vários depoimentos, em torno do direito de observar e corrigir, interferiu Jesus sem afetação: — Inegavelmente, homem algum poderá cumprir o mandato que lhe cabe, no plano divino da vida, sem vigiar no caminho em que se movimenta, sob os princípios da retidão. Todavia, é necessário não inclinar o espírito aos desvarios do sentimento, para não sermos vitimados por nós mesmos. Seremos julgados pela medida que aplicarmos aos outros. O rigor responde ao rigor, a paciência à paciência, a bondade à bondade ...

E, transcorridos alguns instantes, contou:— Quando Israel vivia sob o governo dos grandes juizes, existiu um magistrado austero e violento, em destacada cidade do povo escolhido, que imprimiu o terror e a crueldade em todos os serventuários sob a sua orientação. Abusando dos poderes que a lei lhe conferia, criou ordenações tirânicas para a punição das mínimas faltas. Multiplicou infinitamente o número dos soldados, edificou muitos cárceres e inventou variados instrumentos de flagelação.

O povo, asfixiado por estranhas proibições, devia movimentar-se debaixo de severa fiscalização, qual se fora rebanho de bravios animais. Trabalharia, descansaria e adoraria o Senhor, em horas rigorosamente determinadas pela autoridade, sob pena de sofrer humilhantes castigos, nas prisões, com pesadas multas de toda espécie. Se bem mandava o juiz, melhor agiam os subordinados, cheios de natural malvadez.

Assim foi que, certa feita, dirigindo-se o magistrado, alta noite, à casa de um filho enfermo, foi aprisionado, sem qualquer consideração, por um grupo de guardas bêbedos e inconscientes que o conduziram a escura enxovia que ele mesmo havia inaugurado, semanas antes. Não lhe valeram a apresentação do nome e as honrosas insígnias de que se revestia. Tomado por temível ladrão, foi manietado, despojado dos bens que trazia e espancado sem piedade, afirmando os sentinelas que assim procediam, obedecendo às instruções do grande juiz, que era ele próprio.

Somente no dia imediato foi desfeito o equívoco, quando o infeliz homem público já havia sofrido a aplicação das penas que a sua autoridade estabelecera para os outros. O legislador atribulado reconheceu, então, que era perigoso transmitir o poder a subalternos brutalizados e ignorantes, percebendo que a justiça construtiva e santificante é aquela que retifica ajudando e educando, na preparação do Reinado do Amor entre os homens.

Desde a singular ocorrência, a cidade adquiriu outro modo de ser, porque o juiz reformado, embora prosseguisse atento às funções que lhe competiam, ergueu, sobre o tribunal, a benefício de todos, o coração de pai compreensivo e amoroso. Lá fora, brilhavam estrelas, retratadas nas águas serenas do grande lago. Depois de longa pausa, o Mestre concluiu:
— Somente aquele que aprendeu intensamente com a vida, estudando e servindo, suando e chorando para sustentar o bem, entre os espinhos da renúncia e as flores do amor, estará habilitado a exercer a justiça, em nome do Pai.

17 - Justiça Divina - Emmanuel - pág. 185

NA LUZ DA JUSTIÇA - REUNIÃO PÚBLICA DE 8/12/61 - 1ª PARTE, CAP. VII § 21

A justiça humana, conquanto respeitável, frequentemente julga os fatos que considera puníveis pelos derradeiros lances de superfície, mas a Justiça Divina observa todas as ocorrências, desde os menores impulsos que lhes deram começo. Identificaste os culpados pelas tragédias, minuciosamente descritas na imprensa; no entanto, muitas vezes tudo ignoras acerca das inteligências que as urdiram na sombra.

Viste pais e mães, aparentemente felizes e vigorosos, tombarem na desencarnação prematura, minados por sofrimentos indefiníveis, mas não enxergaste os filhos inconsequentes que lhes exauriram as forças. Anotaste os companheiros que desertaram da construção espiritual, censurando-lhes o esmorecimento e o recuo; todavia, não te apercebestes dos amigos levianos que lhes exterminaram a tenra sementeira de luz, no apontamento escarnecedor.

Reprovaste os que se renderam à perturbação e à loucura, estranhando-lhes a suposta fraqueza; entretanto, não chegaste a conhecer os verdugos risonhos, do campo social e doméstico, que os ficharam no cadastro do manicômio. Acusaste os irmãos que caíram em desdita e falência, classificando-os na lista dos celerados; contudo, nem de leve assinalaste a presença daqueles que os sitiaram no beco da aflição sem remédio.

Não queremos, com isso, consagrar o regime da irresponsabilidade. Todos respiramos, no Universo, ante a luz da Justiça. O autor de uma falta, naturalmente responderá por ela. Nos tribunais da imortalidade, cada espírito devedor resgata as suas próprias contas. No entanto, em todas as circunstâncias, saibamos semear o bem, esparzir o bem, sustentar o bem e cooperar para o bem, de vez que as nossas ações provocam nos outros ações semelhantes, e, se aquele que faz o mal é passível de pena, aquele que organiza o mal, conscientemente, sofrerá pena maior.

29 - SEMEADOR EM TEMPOS NOVOS - EMMANUEL - PÁG. 26

JUSTIÇA EM NÓS MESMOS

Não nos esqueçamos do mundo vasto de nós mesmos, onde a consciência amparada pela razão, nos adverte, serena e incorruptível, quanto às normas que nos cabe esposar, em favor de nossa segurança e alegria. Muitas vezes, recorremos ao parecer dos outros nos assuntos que nos dizem de perto à paz espiritual, com receio do parecer de nossa própria alma e, quase sempre, apelamos para a orientação de muitos encarnados e desencarnados, por nos sentirmos incapazes de escutar os avisos de nosso templo interior, em cujo altar, a Bondade Divina nos concita às obrigações que a vida nos delegou.

Em muitas ocasiões, queixamo-nos dos companheiros que nos partilham a luta, cegos para com a nossa posição reprovável diante deles; declaramo-nos desditosos e perseguidos, sem perceber os calhaus de amargura que lançamos, desassisados, no caminho dos outros e arrojamo-nos, a reivindicações descabidas, sem observar que nós próprios fomos os autores da desconsideração que nos arrasa ou desprestigia...

Em várias circunstâncias, reclamamos o trabalho do próximo sem dar a mínima parte da quota de serviço que lhe devemos, exigimos que a tranquilidade nos favoreça, alimentando a guerra silenciosa e tenaz contra os nossos vizinhos e bradamos contra as perturbações que nos visitam a casa, cultivando a leviandade e a calúnia, a destruição e a maledicência...

Tenhamos, desta maneira, a coragem de examinar a nós mesmos, ouvindo a própria consciência que jamais nos engana quanto ao rumo que nos compete seguir. Decerto, é muito fácil julgar a conduta alheia e repetir a famosa frase: - "Se fosse comigo faria assim". Mas, é sempre difícil atender à justiça em nós mesmos para retificar as próprias atitudes e corrigir os próprios atos.

Acendamos, cada dia, por alguns instantes, a luz da prece em nosso próprio íntimo e roguemos a Jesus nos ensine a ver e a discernir para que, através da oração, possamos aprender e servir sem compromissos escuros nos laços da tentação.