KIRLIANGRAFIA
BIBLIOGRAFIA
01- A MATÉRIA PSI, pag. 68 02 - A NOVA FÍSICA E O ESPÍRITO, pag. 61
03 - CAMINHOS DA DIVULGAÇÃO ESPÍRITA, pag. 119 04 - COMUNICAÇÃO EFICAZ pag. 67
05 - CONVERSANDO SOBRE A MORTE, pag. 65 06 - CORRELAÇÕES ESPÍRITO-MATÉRIA, pag. 27
07 - ENERGÉTICA DO PSIQUISMO, pag. 105 08 - MÃOS DE LUZ, pag. 63

LEMBRETE: O NÚMERO DA PÁGINA PODE VARIAR DE ACORDO COM A EDIÇÃO DA OBRA CITADA.

KIRLIANGRAFIA – COMPILAÇÃO

01 - KIRLIANGRAFIA

A foto Kirlian
Ricardo di Bernardi

«Revista de Espiritismo» nº. 32
Julho-Agosto-Setembro 1996
Federação Espírita Portuguesa

O doutor Ricardo Di Bernardi, médico pediatra e homeopata, interessa-se muito pela investigação do chamado efeito-kirlian. Trata-se de uma energia que rodeia os corpos e que é atribuída por muitos à irradiação da aura dos seres vivos. Em circuito de palestras e seminários no nosso país, no passado mês de Junho, encontrámo-lo no Porto e a entrevista aconteceu.

Este médico não vem a Portugal pela primeira vez: residindo em Florianópolis, Santa Catarina (Brasil), Ricardo Di Bernardi já visitara Portugal e o seu movimento espírita em Março de 1994. Não é, assim, um novato nesta área, bem pelo contrário, pois note-se que, nos seus tempos livres, há alguns anos, participou na fundação do Instituto de Cultura Espírita de Florianópolis, sem esquecer que é o bem-quisto autor de dois livros: «Gestação, Sublime Intercâmbio» e «Reencarnação e Evolução das Espécies». No futuro, acalenta a ideia de fundar um Colégio Espírita e a Associação de Médicos Espíritas da sua cidade.

Em Portugal, palestrou sobre dois temas: Efeito-kirlian - fluido vital, a sua movimentação pela homeopatia e pelo passe com estudos kirliangráficos e Gestação, reencarnação e evolução das espécies. Chegando a Lisboa no dia 15 de Junho, conferenciou em 16 de Junho em Loulé, em Lagos, no Hotel Golfinho, a 18 Junho, um dia depois no Porto (Núcleo Espírita Cristão), no dia 19, em Leiria, dia 21 Viseu e dia 22, no auditório da FEP, ministrou um seminário.

A nossa conversa, contudo, estendeu-se em torno das «fotografias da aura». Lembramos que uma das experiências mais interessantes com esta tecnologia ocorreu quando alguns investigadores - como a doutora Thelma Moss, nos EUA - obtiveram fotos do chamado efeito-fantasma: a reconstituição energética de uma ponta de folha cortada a nível kirliangráfico. E aí residiu o apogeu desta pesquisa.

Em Florianópolis, a equipa de trabalho que Ricardo Di Bernardi integra conta uma média de fotos estudadas difícil de contar: 20 mil.

«Revista de Espiritismo» - A kirliangrafia foi abandonada por vários pesquisadores. Por que é que se interessa por ela?

Dr. Ricardo Di Bernardi - A foto-kirlian, na realidade, é questionável. Há muitos factores que interferem na interpretação, na avaliação dessa foto. Ela mede muito a quantidade de água existente no dedo, a maior ou menor pressão do dedo, que altera a foto, e esta foto também representa muito o momento do indivíduo. A foto-kirlian, é bom que se diga, não é a fotografia da alma, nem do perispírito, ela é uma foto de uma emanação energética que o conjunto indivíduo produz, e nesse conjunto existem n factores a considerar.

Apesar disso, nós temos observado que elas são úteis na avaliação antes e após o passe, na transfusão de energia (ver caixilho na próxima página).

Apesar disso, as fotos às 20h00, antes da sessão mediúnica, e às 22h00, após a sessão mediúnica, ela difere de uma forma significativa. Por exemplo, diminuem as irregularidades da foto, as cores tornam-se mais claras, as fotos ficam mais homogéneas e ganham mais em energia, em campo de vibração. Então, como isso se repete, nós continuamos trabalhando, sabendo embora que esses senões subsistem.

Nós temos feito também trabalhos interessantes, apresentados em congressos médicos, antes da prescrição homeopática e após. Nós fazemos a foto antes de ingerir o medicamento homeopático, 5 minutos, 10, 15 e 30 minutos após a ingestão desse remédio. E nós comprovámos que a aura cresce em energia. O diâmetro da energia aumenta significativamente, demonstrando que movimenta o campo de energia da pessoa. Se é o fluido vital, é questionável, eu até acredito que também seja. Mas o que é importante é que eu consigo observar nessas fotos uma acção do remédio homeopático, inclusive apresentei um trabalho, num congresso, com um placebo e com remédio homeopático. Nós colocámos um frasco com água e álcool e outro frasco com remédio homeopático, nem eu, nem o paciente, nem quem bateu as fotos sabia qual era o frasco do remédio(Licopodyum clavato, a 10 mil dinamizado, uma verdadeira bomba energética) e do placebo. Vinte e um dias depois o paciente voltava e tomava outro frasco B, abria-se os envelopes e verificou-se que, quando ele tomava o placebo, a foto dele permanecia igual; quando ele tomava outro frasco com aquele remédio, as fotos-kirlian demonstravam que havia um ganho de energia importantíssimo, aos 5, 10, 15 e 30 minutos. Quer dizer, não é o efeito psicológico que funciona aqui. Outro detalhe: as fotos foram feitas graciosamente, bem como todos os envolvidos nas experiências. Portanto, a foto- kirlian ainda tem utilidade. Há críticas sérias, por pessoas de alto nível, como Guimarães Andrade, que é uma pessoa respeitabilíssima sob todos os pontos de vista. No entanto, não nos parece que este fenómeno mereça ser abandonado em termos de investigação.

É de evitar o que está a acontecer: pessoas inescrupulosas trabalham com foto-kirlian sem nenhuma responsabilidade, comercializando-a de uma forma absurda, com interpretações igualmente absurdas. Então, com isso nós não compactuamos. Mas não podemos generalizar. É como se um médium fraudasse, enganasse, não poderíamos dizer que a mediunidade é, por isso, um mal.

RE - Como é recebido com exposições sobre o efeito- kirlian em congressos médicos?

RB - Nós apresentámo-los só em congressos homeopáticos: num congresso Brasil-Argentina, em Curitiba, e num congresso em Gramado, no Rio Grande do Sul. Nos dois locais houve uma aceitação muito grande e muita dúvida, mas todos ficaram até entusiasmados com os efeitos. A grande maioria dos colegas desconhece completamente o fenómeno, mas em princípio a documentação apresentada impressionou positivamente.

RE - Pode citar um caso da sua clínica em que o efeito kirlian possa ter ajudado a fazer o diagnóstico?

RB - Nós tivemos uma paciente que apresentava um quadro de distúrbio de conduta emocional e que, além do psicólogo, ela procurou-me como médico homeopata. Então foi feita a foto-kirlian e notou-se (pense num relógio, ponteiros na altura das 2h00 da tarde), uma massa avermelhada, de uma energia que lá de fora e adentrava na parte interior da aura dela, assim como uma imagem de amendoim (alguns consideram complexo de culpa, outros chamam a isso energia intrusa). E realmente, a partir desse momento, nós conversámos com a paciente e observámos que ela tinha um processo obsessivo. Então, não estamos convencidos ainda disso, mas parece repetir-se no caso de obsessão. Ainda está em estudo. Mas nesse caso era evidente o processo, e como ela não era espírita, nós abordámos o assunto como energia intrusa, pensamento, magnetismo, mente, e falámos-lhe da importância de ela mudar a frequência do pensamento dela, para não sintonizar com aquela energia. E então ela dizia mas que energia é essa? Eu disse-lhe Nós podemos conversar sobre isso noutra oportunidade, mas agora, precisa mudar de frequência, etc.. Depois de algum tempo, nós até emprestámos uns livros para ela, adequados para não a assustar com a ideia dos espíritos obsessores. Ela depois veio a entender que aquele processo obsessivo assentava na sua atitude mental.

Entrevistá-la bastava, obter dados anamnésicos, mas se se pode dispor de uma imagem, é mais um dado. Contudo, nós não somos de opinião de se deva usar a foto-kirlian para diagnosticar mediunidade ou obsessão: nós acreditamos que é um dado complementar. É como alguém que pensa Ah, médium agora vai deixar de existir, não vai trabalhar mais « por causa da transcomunicação instrumental » isso é utópico (e há gente que reage à transcomunicação por isso).

A kirliangrafia só por si não vem resolver o problema de ninguém, mas é um dado complementar. Um filho meu esteve com pneumonia e a radiografia estava normal; eu diagnostiquei pneumonia não pela radiografia, mas pelo estado clínico do paciente.

RE - Há quem defenda que a foto-kirlian pode assinalar uma doença antes que ela atinja o corpo físico. Como comenta isso?

RB - Muitos investigadores consideram isso. Na União Soviética foram feitos trabalhos e obtiveram imagens que depois se constataram pragas consequentes, que não tinham ainda fisicamente, mas que já eram assinaladas nas kirliangrafias.

No nosso grupo de trabalho, a pessoa principal, mais estudiosa, é o físico Walter Lange. Ele está convencido de que certas imagens na foto-kirlian parecem representar determinados quadros: por exemplo, depressão tem uma imagem específica, há uma lacuna, um buraco na aura; angústia, tristeza, a aura fica estreitinha, fina; em estafa mental ocorre uma dilatação; no conflito emocional vê-se como se fosse um orifício no centro da aura, e assim por diante.

Portanto, repetem-se muito as imagens e há uma correspondência com os quadros clínicos.

Então, se não estamos, neste grupo, convencidos ainda, estamos propensos a admitir que realmente a imagem energética preexiste à imagem física (mesmo que seja electricidade, electrostática, não interessa).

RE - Ao voltar a visitar algumas associações portuguesas, como comenta o movimento espírita?

RB - Vemos, felizes, o movimento a crescer, até pelos periódicos de imprensa espíritas portugueses.

Parece-me que para o norte existem algumas características um pouco diferentes do sul, mas todas elas compatíveis com a doutrina espírita. O pessoal do sul parece-me mais solto, mais aberto para outros assuntos, mas parece-me que os do norte têm mais receio de fugir das bases kardecistas, e longe de nós recomendarmos que fujam, mas acredito que algumas informações adicionais poderão enriquecer essa base.

Eu lembro aquela frase de Kardec que diz que quando a ciência demonstrar que o espiritismo está errado num ponto, o espiritismo se modificará nesse ponto.

O espírita, hoje, não está ao nível de Kardec, está muito abaixo, eu gostaria que fosse só a metade. Quando a ciência demonstrar que o espírita está certo num ponto, ele que use esse ponto, já estava muito bom. Tão avançado como Kardec, ninguém vai ser.

Eu posso até estar errado sobre essas diferenças entre o norte e o sul...

02 - KIRLIANGRAFIA

KIRLIANGRAFIA - A descoberta

Em 1939, um jovem pesquisador russo foi chamado para consertar certo equipamento de um instituto de pesquisas na região do Kuban, no Sul da Rússia. Aproveitou a oportunidade para assistir a uma demonstração com um novo aparelho de alta freqüência para uso em eletroterapia.

Semyon Davidovich Kirlian (este era o seu nome) observou que, quando o paciente recebeu o choque, apareceu um lampejo luminoso entre o eletrodo e a pele. Nesse mesmo momento, pensou que poderia conseguir fotografar aquela luz, colocando uma chapa fotográfica entre o eletrodo e a pele.

De volta ao seu laboratório, procurou executar seu intento. Providenciou as modificações necessárias, substituindo o tipo de eletrodo. Preparado o experimento, colocada a chapa no local planejado, ligou o aparelho por três segundos e, emocionado e esperançoso, apressou-se em revelar o filme. Constatou então que a chapa revelava estranha marca, uma espécie de luminescência. Acabava de surpreender importante fenômeno que, com certeza, abriria "uma janela para o desconhecido".

Juntamente com Valentine, sua mulher, aperfeiçoou um novo método de fotografia e construiu um aparelho óptico, a fim de observar diretamente o fenômeno em movimento.

O exame da própria mão mostrava milhares de focos luminescentes, como estrelas em noite sem lua; clarões multicolores cintilavam, num verdadeiro espetáculo pirotécnico de cor e luz. Algumas manchas escuras apareciam em algumas regiões.

Essa luminescência não é de natureza elétrica ou eletromagnética: é de natureza desconhecida, na opinião dos cientistas russos.

Certo dia, Kirlian aguardava a visita de dois cientistas de Moscou (visitas de pesquisadores eram constantes, dado o alto interesse despertado pela descoberta) preparava e testava seu equipamento, mas, curiosamente, não conseguia obter fotos de sua mão com a luminescência costumeira. Desmontou e montou o aparelho; repetiu o experimento várias vezes, sem resultado. Só conseguia revelar pontos e manchas escuras.

Ainda procurava solucionar o problema, quando se sentiu mal e perdeu os sentidos; sofria distúrbios vasculares que lhe causavam esse mal de tempos em tempos. Repouso era o remédio. Valentine pôs o marido na cama e providenciou o preparo do equipamento.

Mal terminara essas providências, chegaram os visitantes. Valentine realizou as demonstrações com pleno sucesso. As chapas ficaram excelentes.

Kirlian ficou intrigado. Assim que pôde,levantou-se cambaleante e foi verificar o que havia acontecido com os aparelhos. repetiu a experiência e novamente as fotos ficaram escuras, com pouca luminescência. A seguir, procedeu ao exame em Valentine e o resultado foi ótimo. Revezaram-se e os resultados se repetiram: as mãos da mulher apresentavam nitidamente os clarões característicos e as suas continuavam confusas, borradas, enegrecidas.

Concluíram que não havia defeito: a doença de Kirlian influenciara os resultados. O aparelho havia detectado o mal, antes de haver qualquer sintoma.

Posteriormente, o casal de cientistas verificou modificações evidentes no campo luminescente quando sob o estímulo do álcool, nas emoções, no cansaço e até com a variação do próprio pensamento.

Cientistas da Rússia que se dedicaram ao estudo da kirliangrafia ficaram convencidos que essa técnica revelara o lendário corpo energético, o nosso segundo corpo, isto é, o perispírito, segundo Allan Kardec.

Em 1968, comissão especial, composta por renomados cientistas da URSS, concluiu que realmente existe um corpo energético, a que chamaram corpo bioplasmático ou corpo bioplástico.

Os cépticos, fazendo coro com os materialistas, dirão que Kirlian fotografou o corpo bioenergético dos homens, animais e plantas, não havendo qualquer relação com o perispírito. Não reconhecerão que sua existência havia sido apontada há milênios por religiosos e comprovada pelos estudiosos dos fenômenos espíritas há mais de 14 anos.

Mais uma vez testemunhamos a veracidade do pensamento do cientista da NASA, Robert Jastrow: "O cientista escala a montanha da ignorância e, quando chega próximo à rocha mais alta, prestes a conquistar o cume, é saudado por teólogos que lá estavam sentados ha séculos".

Em concordância com o avanço da Ciência, a matéria a cada vez se torna mais sutil, se desmaterializa. Basta lembrar que há algumas décadas se definia matéria como tudo aquilo que ocupa lugar no espaço. Sabemos hoje que matéria é energia concentrada e que, no conceito atual dos estudiosos do microcosmo, procurar o lugar que um elétron ocupa no espaço é o mesmo que procurar o espaço que ocuparia a tristeza, a angústia ou a alegria.

Kardec dizia que, se algum dia a Ciência negasse, comprovadamente, suas afirmativas, os espíritas deveriam ficar com a Ciência. Já se passaram quase um século e meio e tal ainda não ocorreu; pelo contrário, com o progresso da Ciência e da Tecnologia, a cada dias as afirmativas dos Espíritos, apontadas nas obras da Codificação, se tornam mais evidentes e comprovadas.

03 - KIRLIANGRAFIA

Tenho sido questionado por diversos colegas sobre a relevância empírica das chamadas "fotos Kirlian" no campo da pesquisa psíquica. Descobre-se facilmente que são inúmeras as referências e citações espíritas a esse tipo de fotografia elétrica que fez muito sucesso na década de 80. Diz-se, por exemplo, que esse tipo de fotografia revela a contraparte não física dos seres vivos e, até mesmo, que seria uma maneira de se observar o 'perispírito' (vejam, por exemplo, J. Herculano Pires ou Hernani G. Andrade [1]).

Essas fotos são popularmente conhecidas como sendo da 'aura' (do latim "brisa, sopro, hálito, brilho") do objeto fotografado. É comum associar esse nome à 'manifestação energética' [2] de algo relacionado aos seres vivos. Já discutimos antes o conceito de energia e seu significado no contexto da Física. Isso demonstra a existência de uma ampla variedade de significados associados à palavra 'energia' na literatura espiritualista recente que não corresponde ao seu significado original.

Entretanto, o conceito de 'aura' não existe nos princípios espíritas. Também podemos nos perguntar se a ligação de princípios tais como 'perispírito' a algo como 'aura' pode ser sustentado. Talvez seja possível, por algum processo de associação, vinculá-la a ideia de 'fluido' ou emanações de natureza mais sutil, inobserváveis ordinariamente. Tais emanações podem operar nos processos mediúnicos na forma de subprodutos de processos de metabolismo alterado. Mas, certamente, isso é uma associação indevida, já que o Espiritismo não trata diretamente de questões relacionadas a processo metabólicos, doenças ou bem estar físico que são popularmente creditados aos chamados 'padrões de aura', supostamente observados por meio das fotos Kirlian. A base empírica do Espiritismo concentra-se na questão da mediunidade e reencarnação é ao redor desses conceitos que a maior parte das explicações e previsões são formuladas.

Por isso, fazemos aqui alguns comentários sobre esses conceitos e noções frequentemente mal compreendidas por conta, principalmente, de falhas na definição dos conceitos, falta de clareza na linguagem e dificuldades de compreensão dos diversos objetos de estudo envolvidos.

O que é uma foto Kirlian

O casal Valentina e Semyon Kirlian.

Foi Semyon D. Kirlian (1898-1978), um técnico de eletrônica na extinta União Soviética, quem teve, pela primeira vez em 1939, a ideia de fotografar o efeito corona presente em corpos condutores sujeitos a elevadas tensões elétricas. Para entender o efeito corona, é preciso entender primeiro o que é uma 'descarga elétrica' [3].

Uma descarga elétrica é um caminho luminoso formado pela abertura, no meio transparente (no caso, o ar) de uma via de condução para íons (partículas carregadas). Tais íons são formados e conduzidos pelo campo elétrico presente no ar e imposto por algum gerador (pode ser por separação de cargas na atmosfera durante as tempestades). Esse campo elétrico provoca dissociação de átomos (ou seja, átomos do ar perdem elétrons) e formam, além dos elétrons arrancados, os íons responsáveis pelo transporte da corrente elétrica. O fenômeno é luminoso, pois ocorre recombinação dos íons, o que gera luz. Tanto que, da análise espectral da luz, é possível conhecer a constituição química do ar onde a descarga ocorre. O fenômeno é complexo, pois depende das propriedades do ar ou gás onde ocorre a descarga: assim, há forte dependência com a pressão do ar, por exemplo, além de outros fatores.

Campos elétricos podem existir não somente como tensões estáticas, mas também na forma alternada (chamado campos de corrente alternada), com uma frequência característica (período de oscilação). Portanto, é possível obter o efeito corona tanto com campos estáticos como alternados que se comportam de forma diferente (por conta da oscilação da corrente elétrica) dos campos estáticos. Kirlian trabalhava com geradores de alta tensão com frequências entre 75Khz e 200KHz (tais geradores podem, por exemplo, serem usados na transmissão de rádio). Ao se interpor um objeto 'vivo' entre uma placa condutora energizada e um filme fotográfico, os campos elétricos produzidos pelas descargas na 'interface' entre o objeto e a placa irão produzir o efeito corona que poderá ser registrado em filme. Acontece que os mesmos efeitos (principalmente de cores) também podem ser obtidos com objetos inanimados, contanto que eles sejam condutores. Também aqui há dependência com vários fatores: com a pressão exercida pelo objeto, com a constituição do gás (de que espécie química ele é feita), se for ar, se há presença de oxigênio ou não, se há presença de umidade etc.

A utilização de um vidro transparente condutor (em substituição à placa na Fig. 1) permite a filmagem do efeito corona produzido pela descarga (uma técnica já usada por Kirlian), dispensando o uso de filmes químicos. Esse arranjo é suficiente para demonstrar o desaparecimento das cores, indicando que a obtenção dessas, além da dependência com os gases e pressão exercida pelos dedos, está ligada à presença do filme.

O 'corpo bioplasmático'

Foi Kirlian quem afirmou, pela primeira vez, que os padrões de forma e cor obtidos estavam relacionados com o estado do indivíduo que se submeteu à fotografia. Ele chamou esse de 'efeito psicogalvânico' [4]. Entretanto, ele também forneceu uma explicação bem física para o fenômeno: trata-se de uma manifestação da mudança de condutividade da pele com o estado psicológico. Como dissemos, o resultado dos padrões depende de um conjunto grande de fatores (além do próprio ar e da presença do filme), em especial a condutividade elétrica da pele e, talvez, a emissão de gases na cercanias do corpo - fenômenos relacionados com o estados fisiológicos e psicológicos (todos conhecemos o umedecimento das mãos com o nervosismo).

Entretanto, as imagens foram frequentemente exploradas para revelar aspectos muito sutis da personalidade em um processo suspeito de extrapolação da ideia original de Kirlian. Aspectos comerciais motivaram também a exploração. Assim, estamos diante de um fenômeno que apresenta duas faces: o de realidade e o de extrapolação. É realidade que os padrões de efeito corona, em tese, podem estar fortemente correlacionados com o estado fisiológico dos indivíduos submetidos ao processo da fotografia Kirlian. Entretanto, o 'quão forte' essa correlação pode ser afirmada, ainda está sujeita a exploração teórica e experimental, constituindo um genuíno campo de pesquisa.

Mas é uma extrapolação incorreta assumir qualquer ligação do efeito Kirlian como uma evidência fotográfica de conceitos espíritas tais como o perispírito, mesmo na sua interpretação de 'corpo bioplasmático' [1]. O que seria esse corpo? O 'corpo bioplasmático' pode ser entendido no sentido original dado pelos então soviéticos: como conjunto de propriedades elétricas associadas ao organismo humano e que é alterado por estados psicológicos. Quanto ao perispírito, ele é o corpo que reveste o Espírito e é composto de um tipo de substância muito mais sutil, não evidenciada de forma simples por nenhum tipo de equipamento, por enquanto. São conceitos expressos em doutrinas e linguagens totalmente diferentes, o que torna difícil a absorção apropriada de um no outro.

A que se deve este estado de coisas?

Em um posto anterior, discutimos brevemente doze obstáculos ao estudo científico da sobrevivência e a existência do espírito. Esses obstáculos devem ser entendidos como problemas na compreensão do objeto de estudo dessa nova ciência, que já se batizou de 'ciência espírita'. O obstáculo que numeramos 5 e 6:
•(5) Tentar "detectar" o espírito por meios diretos: há uma quantidade enorme de pessoas que acreditam que manifestações físicas (efeitos físicos) são 'manifestações espirituais'. Outros dizem que, se o Espírito existe, ele necessariamente deve deixar rastros mensuráveis. Aqui, a falha é na compreensão do objeto de estudo: a matéria se deixa apreender por determinados tipos de sinais (cores, sons, formas, gostos etc). O Espírito tem pensamento, vontade e sentimentos, todos atributos inacessíveis do ponto de vista sensorial (ver novamente a referência [5]). Não é difícil perceber que a questão não pode também ser decidida apelando-se para uma amplificação no nível de acuidade ou 'precisão' do equipamento.
•(6) Tentar "mensurar" o espírito: uma variante do erro anterior;

A tentativa de se usar a fotografia Kirlian insere-se nesse problema. Torna-se um obstáculo, pois gera mais uma falsa impressão de que, caso não puder ser resolvido por esses meios de observação 'direta', então as propostas espíritas necessariamente encontrarão dificuldades em se afirmar como verdades. A insistência em querer manter o 'corpo bioplasmático' como um interpretação do perispírito, longe de ajudar, torna menos clara a proposta espírita, inserindo variáveis e dependências que o problema real (do espírito) não tem. Além disso, gera outra falsa impressão em céticos que compreendem bem o significado puramente físico desse 'corpo' proposto pelos então soviéticos.

Assim, os espíritas devem avaliar de forma cuidadosa - o que envolve o contexto dos princípios espíritas - propostas experimentais de se 'medir' coisas que, em tese, não estão sujeitas à apreensão direta, mesmo usando-se aparelhos.

Referências e notas

[1] Para tanto, basta consultar: "Parapsicologia Hoje e Amanhã", Capítulo 9, de J. Herculano Pires (8a Edição, Edicel), onde encontramos a seguinte frase:

"É evidente que a designação de corpo bioplasmático, geralmente simplificada para corpo bioplástico, resultou precisamente das séries de experiências realizadas pelos cientistas para verificar as funções específicas do corpo energético. Essas funções fundamentais correspondem exatamente às do perispírito na teoria espírita."

04 - KIRLIANGRAFIA

Desde a descoberta da foto Kirlian, surgiram muitas especulações sobre a validade da técnica. Muitos dizem que se trata da foto da aura; outros, afirmam que o processo capta apenas uma emanação energética produzida pelo metabolismo do corpo (o campo bioelétrico). Mas, a grande dúvida que ainda permanece é se, além do registro físico, existe também a captação de energias mais sutis.

Nossa intenção não é afirmar e nem negar que a kirliangrafia pode, de alguma forma, comprovar a existência do campo espiritual, mas, apresentarmos fatos e opiniões de estudiosos a respeito. Com a metodologia de análise científica atual ainda não é possível termos uma resposta conclusiva, o que por outro lado, significa descartarmos muitos pontos importantes sobre a existência do espírito que anima a matéria. Como ressalta Allan Kardec no primeiro capítulo de A Gênese: "As descobertas da ciência glorificam Deus, em lugar de o rebaixar, elas não destroem senão o que os homens edificaram sobre idéias falsas que eles fizeram de Deus".
Esse pensamento deixa evidente a importância dos fundamentos científicos, no entanto, nos leva à reflexão de que ciência, filosofia e religião precisam marchar juntas rumo ao progresso, complementando-se na compreensão dos fatos.
No caso da foto Kirlian, apesar do receio sobre as interpretações equivocadas, muitos avanços têm ocorrido na área. Em 1999, o Ministério da Saúde da Rússia reconheceu oficialmente a Kirliangrafia como um estudo científico, capaz de auxiliar médicos e psicólogos na identificação de problemas de saúde. A técnica foi incorporada também ao cronograma de disciplinas curriculares do curso de terapias naturais e holísticas de algumas universidades brasileiras. Além disso, as máquinas de hoje estão muito mais avançadas que os primeiros modelos.
Quanto à invenção da máquina Kirlian, existem divergências de dados. Até pouco tempo atrás, pensava-se que o processo havia sido descoberto acidentalmente pelo eletrotecno soviético Semyon Davidovich Kirlian, quando fazia reparos em um aparelho de eletroterapia e percebeu que objetos próximos ao gerador de alta freqüência produziam uma irradiação luminosa ao seu redor. A partir do ano 2000, o padre e físico brasileiro, Roberto Landell de Moura, foi reconhecido internacionalmente como o inventor da Máquina Bioeletrográfica (nomenclatura atual atribuída a Kirliangrafia), por ter sido o primeiro a realizar pesquisas científicas, em 1904, principalmente na área da saúde. Mas por motivos doutrinários na época, a Igreja Católica não permitiu que ele prosseguisse em suas pesquisas. Tempos depois, o russo Semyon Davidovich Kirlian reinventou o processo, em 1939, e acabou recebendo as glórias do experimento.
Com o passar dos anos o processo evoluiu, principalmente após 1995, com a descoberta do cientista Konstantin Korotkov, que fabricou uma máquina capaz de colocar a imagem diretamente na tela do computador através de um sistema óptico, sem a necessidade de filme fotográfico.

Kirliangrafia e saúde

O professor de física e vice-presidente da UIMBA (União Internacional de Medicina e Bioeletrografia Aplicada), Newton Milhomens, relata que ao energizar a placa metálica da Máquina Kirlian com o dedo polegar, ocorrem dois tipos de descargas elétricas através dos poros digitais. "Conforme seja a composição química desses gases e vapores exalados e ionizados por essas descargas elétricas, surgem as diversas cores e estruturas nas fotos Kirlian", explica. Ele afirma que a Kirlian não é foto da aura nem de corpos sutis, pois diz ser esse termo religioso e prefere acreditar em evidências científicas. Mas acrescenta que o aparelho consegue registrar os gases ou vapores produzidos pelo metabolismo celular. Isso ocorre porque conforme a composição química desses gases que são exalados pelo corpo, registram-se diversas cores e estruturas geométricas, tornando possível verificar o estado de saúde orgânica e psíquica da pessoa. O efeito Kirlian consegue fotografar a ionização dos gases emitidos pelos poros da pele. A escolha do dedo indicador como processo de leitura na foto, de acordo com o físico, baseia-se nos fundamentos da acupuntura chinesa e da reflexologia, que utilizam os dedos dos pés e das mãos como indicadores dos órgãos humanos. As cores e estruturas que aparecem permitem ao profissional capacitado interpretar os possíveis problemas de saúde.

FONTE DE PESQUISA: Revista Cristã de Espiritismo, edição 39.