LIBERDADE
BIBLIOGRAFIA
01- A constitução divina - pág. 109 02 - A mulher na dimensão espírita - pág. 19
03 - A pluralidade dos mundos habitados - pág. 253 04 - Allan Kardec - vol. 2 - pág. 311
05 - Almas que voltam - pág. 63 06 - Antologia do perispírito - ref. 37
07 - Ave luz - pág. 90 08 - Ceifa de luz - pág. 71
09 - Ciência e espiritismo - pág. 122 10 - Convites da vida - pág. 66
11 - Deus na natureza - pág. 280 12 - Do país da luz - vol. 4 - pág. 153, 285
13 - Falando à Terra - pág. 15 14 - Fonte viva - pág. 109
15 - Lázaro redivivo - pág. 43

16 - Na era do Espírito - pág. 90, 93

17 - O gênio céltico e o mundo invisível - pág. 187 18 - O Livro dos Espiritos - q 75, 122,156,...
19 - O porquê da vida - pág. 15 20 - Obras póstumas - pág. 233
21 - Palavras de vida eterna - pág. 69 22 - Pão nosso - pág. 43
23 - Pérolas do além - pág. 139 24 - Vinhas de luz - pág. 269
25 - Intervalos - pág. 68 26 - Mãos unidas - pág. 54
27 - Plantão da paz - pág. 22 28 - Oferenda - pág. 181

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LIBERDADE – COMPILAÇÃO

03 - A PLURALIDADE DOS MUNDOS HABITADOS - CAMILLE FLAMMARION - 5°. LIVRO A HUMANIDADE NO UNIVERSO PÁG. 273

ÍTEM II - A INFERIORIDADE DO HABITANTE DA TERRA - (...)"A lei de morte", dizia Epicteto, "é a lei da natureza material e secundária; não acontece assim na natureza primordial e etérea." Antes de Epicteto, esta condição já havia, sido expressada pelo poeta da Ilíada. Celebrando a vigilant ternura de Vénus por seu filho Enéias, Homero falara nestes termos: "Um vapor etéreo corre no seio dos deuses afortunados; eles não se alimentam dos frutos da terra, e não beber vinho para matar a sede.'" Tais idéias foram freqüentemente expressadas depois, aplicadas aos seres que as religiões e mitologias imaginaram em meio às habitações paradisíacas essas idéias não representam somente as criações ilusórias da Fábula, mas um estado de coisas existente nas esferas superiores, estado em harmonia com o elevado destino de seres que contemplamos do fundo de nosso crepúsculo, e nos quais nós acreditamos encontrar o tipo ideal de nossa perfectibilidade.

Sim, a materialidade de nosso mundo reagiu sobre a constituição física de seus habitantes, nossas tendências instintivas foram por ela influenciadas, nossos apetites trazem o cunho dessa grosseria, e os próprios sentimentos de nossa alma encarnada não puderam se libertar. Não é também apenas em nosso aparelho nutritivo que reconhecemos sinais da inferioridade de nosso mundo; também não apenas em nosso aparelho respiratório; mas todos os órgãos de corpo estão solidariamente ligados entre si, não há sequer uma de nossas funções que não esteja marcada pelo sinal inequívoco de nosso rebaixamento. Material de um lado nosso organismo não poderia ser etéreo de outro; a harmonia subsiste mesmo nas criações inferiores; nós somos indígenas e todo o nosso ser oferece, em todas as suas partes, a característica local de nossa região.

Sobre os mundos onde as disposições amigáveis da natureza prepararam um verdadeiro trono à inteligência humana, e onde o homem não tem uma lealdade fictícia como aqui, mas reina em toda a extensão do domínio que pertence ao espírito, sobre esses mundos uma era de paz e de felicidade mede as idades da humanidade. As formas enganadoras que revestem o vício não surgiram ali; por que motivo seriam vestidas, e para que serviriam? Os elementos da perfídia e da sedução também não nasceram lá, pois o joio não cresce sem o germe. Sobre esses mundos a humanidade chegou a seu período de verdade, porque lá as paixões humanas tendem ao Bem. E, de fato, qualquer mundo onde a humanidade tenha chegado ao ciclo de sua virilidade deve oferecer este caráter distintivo fundamental: que, nele, o exercício pleno da liberdade conduza ao Bem. Entre as fileiras de uma humanidade viril, a liberdade desfraldada em toda a sua plenitude deve ser uma força poderosa estendida rumo à perfeição; está aí a prova da superioridade de um mundo. Lá, todas as paixões, todos os desejos, todos os apetites do homem têm em vista o tipo ideal que imaginamos como modelo e objetivo da natureza humana.

Quanto é necessário que nosso mundo ofereça tal caráter! A liberdade, todo mundo a deseja; ninguém é digno dela. A liberdade, para nós, é a licenciosidade; é a satisfação ter instintos perversos; é a destruição da ordem geral e da segurança. E não falamos particularmente aqui dos cidadãos de nossa bela França, mas da Europa inteira e de todas as raças civilizadas: todos são liberais em teoria, ninguém o é na prática. A liberdade! Em que caos nosso pobre mundo se precipitará se, sem consideração pelas leis convencionais que a sociedade teve de se impor, nem por nossa consciência íntima, que pode mais ou menos nos segurar à beira do abismo, este mundo deixar-se arrastar pela satisfação brutal de seus desejos? Afora algumas exceções, todos os homens sobre a Terra são mais ou menos partidários dessa filosofia pessoal que foi chamada de Filosofia da sensação. Entre todas as escolas, nenhuma conta com tantos discípulos, e esta representa a expressão das tendências freqüentemente inconfessadas, mas dominantes, da maioria dos homens. Essa filosofia, para dizer em poucas palavras, parte do seguinte fato: a sensação agradável ou penosa; procurar a primeira, evitar a segunda.

Ela recorda ao homem que seu primeiro instinto é desejar o prazer, qualquer que seja: prazer físico, prazer intelectual ou prazer moral; ela lhe ensina que o bom entendimento da vida consiste em procurar a maior quantidade de prazer possível durante um certo tempo, seja, a felicidade, e que a sabedoria mais bem compreendida é aquela que nos permite alcançar este objetivo, mesmo ao preço de renúncias passageiras e prudentes sacrifícios. Neste sistema, a felicidade pessoal é o propósito da vida, e interesse, o único motivo de todas as ações. Ora, não é esta a expressão da maneira de pensar maioria dos homens, e não seria a de todos, caso se quebrasse os freios que nos prendem a uma moral mais austera, se nos convidassem a fazer pleno uso da liberdade desejada? E nos perguntaríamos, a esses mesmos que proclamam verbalmente os dogmas de uma filosofia mais elevada, esta maneira de ela não está no fundo de seus pensamentos, não é ela o aguilhão que os empurra incessantemente rumo à tão amada deusa da Fortuna? Se todos os homens se escutassem, ou pudesse escutar-se, Epicuro seria o deus da Terra.

Mas a filosofia da sensação, ou a moral do interesse é um sistema filosófico muito falso, que, como tão bem já demonstrou Victor Cousin, confunde a liberdade com o desejo e com isso anula a liberdade; não faz distinção fundamental entre o bom e o mau; não revela nem a obrigação nem o dever; não admite o direito e não reconhece o mérito e o demérito; pode facilmente — muito facilmente — prescindir de Deus; e, como última consequência, anula os princípios superiores da metafísica, da estética e da moral. Tomai a humanidade em seu conjunto, esta é a estrada sobre a qual ela se precipitaria se vós lhe abrísseis as portas da liberdade tal como ela a compreende, a tal ponto está longe de tender à perfeição ideal. Ainda é essa a estrada seguida secretamente pela maioria dos homens (e seria, para eles, impróprio não segui-la, pois lhes parece melhor encarar o mundo como ele é, modelar a partir dele sua maneira de viver, em vez de consumir-se em vãos esforços para reformá-lo). É este o mundo que se supôs representar sozinho a obra divina! É esta a humanidade supostamente completa em si mesma, abrigada sozinha sob a asa de Deus, e destinada a governar o Universo!


Assim, sob qualquer ponto de vista por que se encare a questão do homem, se reconhecem as provas irrefutáveis da inferioridade de nosso mundo e sente-se a existência de uma superioridade extraterrestre; todos os ensinamentos da filosofia e da moral o testemunham unidos. Dir-se-á agora que nossa humanidade cresce e se aperfeiçoa sem cessar, e que virá o dia em que o homem, chegado ao apogeu de sua grandeza, viverá em paz dias felizes e cheios de glória? Mas, imaginando ainda que toda a perfectibilídade de que a nossa raça é capaz realizar-se-á um dia; adiantando que, com a ajuda da ciência e da indústria, o homem chegará a dominar completamente a matéria, a fazer com as máquinas todo o trabalho físico que ainda é obrigado a fazer hoje em dia com as próprias mãos, e estabelecer, tanto quanto nos seja possível, o reinado do espírito sobre a Terra; vendo mais além de um futuro distante uma era gloriosa tão superior à era presente quanto esta o é com relação ao estado selvagem; mesmo assim não poderíamos mudar as condições fundamentais da existência de nossa espécie, condições intimamente ligadas a nossa estada terrestre, e não poderíamos fazer com que essa estada não portasse sempre o signo indelével de sua inferioridade. (...)

05 - ALMAS QUE VOLTAM - FERNANDO DO Ó - PÁG. 53

(...) Mas os Espíritos atrasados, que por isso mesmo se achavam incapazes de alçar voo além da atmosfera que envolve a Terra, bestializados, também penetravam nos lares, nas casas particulares onde pensamentos impuros ou desejos de vingança os atraíam, pela mesma força poderosa do pensamento. Porque, diga-se de passagem, o pensamento é a linguagem das almas, a força imensa que liga os mundos, as humanidades; que liga a criatura ao Criador; que liga a alma a Deus. Penetrando os lares, ou por maldade ou ignorância, por vingança ou mero divertimento, começam a fazer toda a sorte de diabruras, de distúrbios, ocasionando moléstias de toda a natureza, obsidiando uns, atormentando outros, levando ainda outros ao suicídio ou à prática de atos reprováveis e criminosos, mas sem derrogar, é claro, as leis sábias que norteiam o Livre Arbítrio dos homens. Se estes são arrastados por entidades malévolas à prática de determinados atos, não se conclua, daí, que fosse abolido o livre arbítrio da criatura. Deu-se apenas um fenômeno perfeitamente explicável.

O homem quis o efeito da causa que preparou. Por seu atraso, por sua desídia no cumprimento dos deveres, por seu relaxamento moral, deu margem à aproximação dos Espíritos afins, deu lugar à obsessão. Se nenhuma resistência opôs às solicitações da entidade invisível, é que estava em nível igual ao da criatura obsessora. Por seu atraso entregou-se à entidade invisível, e desta se tornou mero joguete. Assim como não teve força moral para ser bom, não poderia tê-la para repelir as sugestões do Espírito atrasado. Foi para o Mal, como poderia ter ido para o Bem. Do Espírito depende a sua própria sorte. Ele tanto tem a liberdade de fazer o bem quanto a de fazer o mal. Não se trata de defesa da teoria do Livre Arbítrio absoluto, como pretendem os sectários de outras crenças. O livre arbítrio que o Espiritismo prega e defende é eclético. Participa do Determinismo e do Livre Arbítrio propriamente dito. Não se poderia dizer que o homem fosse estranho às solicitações das forças ambientes, somente pelo fato de asseverarmos que cada qual tem o seu livre arbítrio.

Aquilo que o homem pratica, arrastado pelas forças sociais, pela fatalidade biológica da hereditariedade, pela inelutabilidade do meio ambiente, o faz em função do próprio determinismo que o constrange, que o coage, que cerceia, por assim dizer, a sua liberdade moral.
O homem é livre, quando se encara a si mesmo, como ser imortal, e quer pautar a sua conduta pela linha severa da moral evangélica. Quando o homem tem liberdade de fazer, sem constrangimento de ordem biológica ou social, isto ou aquilo, ele se agita dentro das linhas mestras do Livre Arbítrio. Ele é livre para agir sem as solicitações materialistas do meio ambiente, mas em função de uma idéia mais alta da sua destinação espiritual. Quando dissemos que o Espírito tem o seu livre arbítrio, referimo-nos ao ser imortal que está dentro de nós e em cuja existência, inteiramente independente do corpo, a ciência materialista não crê. Encarnado, o Espírito se sujeita, se submete às leis que governam o mundo físico. Não pode, portanto, conservar íntegra, intangível, pairando alto, essa liberdade moral que, na sucessão das vidas, ele vai apurando, melhorando, espiritualizando. O homem materializado, o ser animalizado, bestializado, não tem propriamente, senão de onde em onde, fugaz, passageira, a sua liberdade moral de praticar este ou aquele ato. Ainda assim, não perdeu o senso da sua liberdade.

O seu espírito está integrado de tal forma no meio ambiente que o circunda, que raramente se dá conta de que é capaz de obrar isto ou aquilo. E' um cego moral, ou, melhor, é um indivíduo que moralmente pouco vê. Entretanto, dele depende a própria libertação . Ninguém está, portanto, sujeito somente às leis inflexíveis do Determinismo. O Livre Arbítrio se manifesta cada vez mais completo, em toda a sua plenitude, na Terra, entre os homens, quanto mais elevada espiritualmente é a criatura. Por isso não é de estranhar que criaturas desencarnadas exerçam sobre entes encarnados, mais animalizados, a sua ação nefasta e funesta, deletéria, desagregadora.
Paulo compreendia isso, vendo essas duas humanidades que se mesclavam. Eram dois mundos agindo e reagindo um sobre o outro. Que portento era isso para um estudo completo sobre os dois mundos, sobre as duas esferas da Vida! Percorreu os bairros chiques e os arrabaldes miseráveis da grande cidade. Sempre os contrastes, sempre a Dor, sempre o Sofrimento. Mas o homem continuava sendo mau.

O prazer era tudo para a vida. A ânsia de dominação, a loucura das posições, a febre do dinheiro e do bem-estar material, eis o que via em quase todos os rostos, em quase todos os espíritos. O egoísmo atingira um grau assustador, envolvendo a maioria dos homens. Os pequenos, fracos e desgraçados eram esmagados pelos fortes e poderosos. Os que pretendiam subir em qualquer esfera da atividade encontravam a barreira dos egoístas, das nulidades que os saltos do Destino colocaram no ápice da fama. Todos os maus se congregavam para subjugar os bons, os honestos. A fortuna pública era malbaratada, deixando-se a infância e a velhice desamparadas, uma se pervertendo nos quarteirões do vício e da prostituição, e outra agonizando nos casebres infetos, senão nas ruas e nas sarjetas. Era o espetáculo desolador que contemplava.— Onde pretendes encarnar, Paulo? — falou a voz doce e carinhosa do Guia Espiritual — Escolhe, eis que vieste estudar os quadrantes da Terra, onde as almas se elevam ou tombam.(...)

11- DEUS NA NATUREZA - CAMILLE FLAMMARION - PÁG. 280

(...) Não admitis, com Hume, que o "homem tem consciência, não do princípio de seus atos, mas tão somente dos atos em si, apenas como fenômenos"? Todo o movimento cerebral nos vem do exterior, pelos sentidos e a excitação do cérebro; o pensamento é um fenômeno material, como o próprio pensamento. A vontade é expressão necessária de um estado cerebral produzido por influências exteriores. Não há vontade livre; não há concretização de vontade independente da soma de influências que a todo o instante inspiram o homem e impõem, ainda aos mais poderosos, limites infranqueáveis". Assim falaria, porque assim falam os discípulo de Holbach. No parecer deste, "a liberdade não é mais que a necessidade encerrada dentro de nós. Não há diferença entre o homem que se atira voluntariamente e o que é atirado de uma sacada abaixo, senão que ao primeiro a impulsão lhe vem de dentro, e ao segundo chega de fora do seu maquinismo".

Entretanto, há casos peremptórios, nos quais pensamos poder constatar o livre arbítrio, como, por exemplo, na atitude de um homem que, possuído de grande sede, repele dos lábios o copo dágua, logo que se lhe diga que esta contém veneno. Mas, temos o direito de supor que esse homem assim proceda livremente? A vontade, ou, melhor, o cérebro se encontra em estado comparável à bola que, recebendo um impulso em certa direção, desta se desvia logo que intervenha uma força maior que a primeira. Holbach nos dá uma fórmula aritmética da liberdade: As ações do homem são sempre um misto de energia própria e dos seres que sobre ele atuam e o modificam. Respondemos a essa negação integral da liberdade com uma doutrina que, sem nos investir de um arbítrio absoluto, de vez que as influências exteriores atuam constantemente para atenuar esse absoluto, nem por isso deixa de nos dar uma liberdade real, uma responsabilidade íntima, um livre arbítrio incontestável. O assunto é mais complexo do que parece aos profanos e temos uma permanente manifestação de sua dificuldade na sucessão secular das crenças religiosas, que oscilam entre o fatalismo e a graça divina.

Maomet arvorou o estandarte do fatalismo; Calvino só vê a predestinação, enquanto Lutero consagra o livre arbítrio absoluto. A verdade, pensamos, está entre os extremos. O número de livros teológicos concernentes à graça divina é incontável, e compreende-se que, nesta época, é tempo perdido o que se emprega nestas elucubrações. Contudo, é sempre útil saber o que devemos pensar da liberdade. Nós, pelo menos, assim o consideramos com Spurzheim, quando a respeito escreveu aquelas páginas judiciosas, quando assim pondera o contravertido assunto. A palavra liberdade é empregada num sentido mais ou menos lato. Há filósofos que atribuem ao homem uma liberdade ilimitada. Ao seu ver, o homem cria, por assim dizer, a sua própria natureza, adquire as faculdades que deseja e age independente de qualquer lei. Uma tal liberdade está em contradição com um ser criado. Tudo quanto possam dizer a seu favor não passará de declamações enfáticas, desprovidas de senso e de veridicidade. Outros há que admitem uma liberdade absoluta, em virtude da qual o homem age sem motivo. Isso, porém, é presumir efeito sem causa, é isentar o homem da lei de causalidade. Seria uma liberdade contraditória de si mesma, podendo-se proceder num mesmo caso bem ou mal, mas sempre sem motivo. Inúteis seriam, então, todos os institutos de finalidade beneficente, individual ou coletiva.

De que serviriam as leis, a Religião, as penalidades e recompensas, se nada determinasse o homem? Porque esperar de outrem amizade e fidelidade, antes que ódio e perfídia? Promessas, juramentos, votos, tudo ilusão! Uma tal liberdade nada tem de real, não passa de especulativa e absurda. Precisamos, ao contrário, reconhecer uma liberdade acorde com a natureza humana, liberdade que a legislação pressupõe, liberdade raciocinada. Três são as condições fundamentais da legítima liberdade: em primeiro lugar, é preciso que a criatura possa escolher entre vários motivos. Seguindo o motivo mais forte, ou agindo só por prazer, já se não opera com liberdade. O prazer não é mais que uma falsa aparência de liberdade. A ovelha que mastiga a erva com prazer, não está exercendo um ato livre. Obedecendo a um desejo mais forte, também o animal, quanto o homem, não pratica livremente, tão-pouco. A condição precípua da liberdade é a inteligência, ou a faculdade de conhecer e escolher os motivos. Quanto mais ativa a inteligência, mais ampla a liberdade. Os idiotas natos, as crianças até uma certa idade, têm, às vezes, desejos muito enérgicos, mas ninguém os considera livres, visto não possuírem inteligência bastante para distiguir o falso do verdadeiro. Os homens mais bem educados e os mais inteligentes são os de quem, mais que dos ignorantes, deploramos as faltas.

À medida que se elevam na série das faculdades intelectivas, os animais vão-se tornando mais livres e modificam mais individualmente os seus atos, de acordo com as circunstâncias exteriores e com as lições de sua prévia experiência. Se empregamos a violência para impedir o cão de perseguir a lebre, ele se lembrará das pancadas que o aguardam, e árdego e trêmulo ao império dos próprios desejos, não deixará de ceder. O homem, superior a todos os seus irmãos da escala zoológica, é, por sua mesma natureza, o ser que goza de liberdade no grau mais eminente. Só ele procura encadear efeitos e causas, comparar melhor o presente e o passado, e dai tirar conclusões para o futuro. Pesa as razões, detém-se nas que lhe parecem preferíveis, conhece a tradição. Seu raciocínio decide e perfaz a vontade esclarecida, muitas vezes contrariamente aos seus desejos. Uma última condição da liberdade é a influência da volição sobre os instrumentos que devam operar suas ordens pessoais. O homem não é responsável por desejo ou por faculdades afetivas dele independentes. A responsabilidade individual começa com a reflexão e com a possibilidade de proceder voluntariamente. No estado de saúde os instrumentos operatórios subordinam-se à influência da vontade. A fome é involuntária, mas, se em senti-la, eu me abstiver de comer, exerço a influência da minha vontade sobre os instrumentos do movimento voluntário.

A cólera é involuntária, mas eu não sou forçado a maltratar quem me provoque, só porque a minha vontade influi em meus músculos. Perdido o domínio dessa influência, então, sim, o homem já não é livre. E' o que amiúde sucede com os alienados, que experimentam desejos, reconhecem a sua inconveniência, chegam a maldizê-los, mas não têm a força de restringir os movimentos involuntários, chegando mesmo, algumas vezes, a pedir que lhos embarguem. A liberdade moral é a base mesma da sociedade e se ela não passa de ilusão, todo o gênero humano, tanto as nações incipientes como as mais civilizadas, que cultivam a Ciência e governam a Matéria, bem como os povos remotos, toda a humanidade, - repetimo-lo - ter-se-ia deixado iludir pelo mais colossal dos erros que ainda existiu, depois de enveredar ela senda mais falsa e injusta que possamos imaginar. Mas... que dizemos: — injusta Neste sistema, essa palavra nada significa; e vista que o bem e o mau não existem; visto não haver ordem moral, claro é que todas as palavras concernentes à descrição dessa ordem, todos os pensamentos julgamentos carecem de sentido. E contudo, a ienes que abstraiamos a própria consciência, não podemos anuir a semelhantes conclusões. Quaisquer que sejam as conclusões teóricas a que cheguem os lógicos na questão do livre arbítrio — dizia Samuel Smiles —, todos sentimos que somos pràticamente livres de escolher entre o bem e o mal Não somos o seixo que, lançado na torrente, ajenas pode indicar, seguindo-a, o curso das águas.

Ao contrário, sentimos em nós a força do nadador, que pode escolher a direção convinhável, lutar contra a corrente, ir mais ou menos aonde lhe praza. Nenhum constrangimento absoluto nos empece a vontade. Sentimos e sabemos, no concernente aos nossos atos, que não somos encadeados por qualquer espécie de magia. Todas as nossas aspirações para o bem e para o belo ficariam paralisadas, se pensássemos de modo diverso. Todos os negócios, nossa conduta na vida, regime doméstico, contratos sociais, instituições públicas, tudo, enfim, se baseia na noção prática do livre-arbítrio. E, sem ele, onde estaria a responsabilidade ? De que serviria ensinar, aconselhar, predicar, reprimir punir? Para que leis, se não houvesse uma crença universal como o próprio fato universal, de que dos homens e de sua determinação depende conformar-se ou não ? O homem que melhor evidencia seu valor moral é o que se observa a si mesmo, dirige as suas paixões, vive conforme a regra que se impôs, estuda suas aptidões e suas falhas. (...)

12 - DO PAÍS DA LUZ - ESPÍRITOS DIVERSOS - VOL. 4 - PÁG. 153, 285

ÍTEM LV - visconde D'Ouro Preto.:
Quis ontem falar e responder à pergunta do que pensávamos do atual momento político brasileiro. Não nos deixaram. Não era ocasião asada para o fazer. O que reinava na assembléia não era interesse, era curiosidade. Nem a minha resposta poderia ser agradável aos que a fizeram. O que penso é desagradável. O atual momento político é inquietador. A desordem e a desorganização que se revelam na administração pública do Brasil, não só no governo central, como nas caricaturas de Repúblicas que cada Estado representa, é prenúncio de um estado grave próximo. As finanças estaduais e federais revelam um desequilíbrio assustador; as liberdades públicas, no seu conjunto, são um mito; e, se as encararmos pela sua vida em cada Estado, são uma irrisão. A tão apregoada legenda da República — Liberdade, Igualdade e Fraternidade, e a outra não menos apregoada legenda positivista de Ordem e Progresso, são devaneios poéticos de sonhadores de boa fé, ou burla e mistificação com que audazes aventureiros costumam embair os crédulos. Não há liberdade, não há igualdade, não há fraternidade em parte nenhuma do Brasil. A ordem é uma pilhéria; o progresso um engano. Para se ver a ordem, na parte social do país, é olhar a revolução permanente em que ele se encontra, em manifestações intermitentes, com irrupções súbitas e desgraçadas em todos os Estados.

Só as grandes longitudes do Brasil permitem a sensação de que essas revoluções pertencem a outros países, porque dão uma repercussão fraca na organização geral. Mas todos os dias corre sangue pela desordem, que vive e medra à sombra daquelas palavras bombásticas com que o devaneio enfeitou a heráldica brasileira. Na parte financeira e econômica, haja vista ao estado calamitoso do tesouro público, quer se observe o tesouro federal, quer se observem os tesouros estaduais, ou os dos municípios. Despesas sem conta, impostos sem consciência, empréstimos sem cautela e quantos sem lisura. Tudo em descalabro . Na política, a desorientação é geral. Todos se Supõem grandes homens, havendo uma falência completa, ou quase, de autoridade, não sendo mais rica a de competências. Quanto a caracteres... Hoje, na política brasileira, há só dois fitos a atingir: — mandar, ou enriquecer. Uns procuram reunir os dois, outros, mais modestos, contentam-se com o último.

Do progresso pouco há a falar. O progresso do Brasil é a consequência do progresso que invade todas as partes do mundo. E' uma consequência necessária e inevitável. Provém mais de fatores externos, do que de fatores internos. São os capitais de homens e dinheiros estrangeiros que vieram impelir o País a entrar no concerto universal. Foi a emigração sucessiva, foram os empréstimos sucessivos, ao Estado federal, aos Estados federados e aos municípios que permitiram esse simulacro de progresso oficial que a intermitências se nota aqui e ali. Foram os capitais industriais estrangeiros que, à sombra de uma proteção pautai proibitiva, vieram desenvolver aparentemente uma indústria que, em verdade, se manifesta exótica e raquítica. As grandes fontes de riqueza naturais conservam-se estacionárias, ou em explorações rotineiras. A agricultura, que devia ter aqui o oásis do mundo, quase não existe. Não produz os gastos internos, quando tem condições para ser um dos celeiros do mundo. A cultura do açúcar definha; a criação de gados não abastece os mercados próprios. O café só num ou noutro Estado, por circunstâncias ocasionais e artificiais, se mostra próspero. A borracha, que era o tesouro nortista do Brasil, deixaram-na perder a sua preponderância e o seu valor nos mercados europeus, pretendendo-se agora, em esforços inauditos, insuflar-lhe uma vida nova e artificial.

Que fica do progresso, outra legenda heráldica dos devaneios positivistas? A liberdade é de gozo único dos que mandam; a igualdade ninguém a quer, porque todos querem ser superiores; a fraternidade é uma aspiração permanente e permanentemente irrealizável dos que estão nas classes inferiores sociais, que sonham irmanar-se sempre e só com os que lhes são superiores. A justiça perdeu a austeridade, a seriedade e a confiança. E' uma coisa inominável e perigosa. Com estas premissas é fácil concluir-se que o momento político atual é de desorientação inquietadora. Ninguém sabe para onde se dirige. A grande massa do povo desinteressou-se com-pletamente da vida política. Constitui só matéria tributária e tropo retórico a que se abordam políticos e jornalistas. Se não fossem estes, a cada momento, dizerem que o povo pensa assim, que o povo quer isto e aquilo, que o povo julga assim, que o povo fará aquilo, que representam o povo, que transmitem a opinião do povo, esquecendo de dizerem como lhes veio a representação e onde auscultaram a opinião, não se saberia que havia povo no Brasil. Há, na vida dele, uma ocasião solene e grave em que mostra a sua suprema soberania, a sua realeza republicana, deixe-me empregar esta fórmula, que deve agradar aos instintos autocráticos de todos os liberais modernos.

E' quando tem de ser cidadão e eleger. Mas, aí, ele delega a sua soberania e há então uns representantes mais modestos, que não apregoam que representam a autoridade do povo, a opinião do povo, mas que, de fato, as exercem, fabricando atas e praticando atos, numa benemérita dedicação pelo povo que representam, para o não desviarem das suas labutas e dos seus descansos. Estes são o primeiro alambique em que se destila a salvação pública, na con­fecção dos paredros do país. E se o povo tem assim tanto quem por favor lhe faça as coisas, que necessidade tem ele de aparecer e incomodar-se?Não há ordem, não há progresso efetivo e estável, nascido no Brasil, do Brasil e para o Bra­sil; não há liberdade, não há igualdade, não há fraternidade, não há justiça, não há povo. Que fica desta República que veio para libertar e salvar o Brasil? Ah! ficam os salvadores! Ficam os políticos, que têm posto todo o Brasil na salvação em que se encontra e que andam já em nova desordem, a procurar, em nome da ordem, um novo Salvador, a quem entreguem os destinos da República. E nisto passam a vida. Nesta como em todas as Repúblicas: — a elevarem salvadores e a derrubarem salvadores. Mas, do naufrágio, que tantos salvadores ocasionarão, há-de surgir alguém que recolha os salvados deste grande país, grande na extensão, na glória e na infelicidade.

14 - FONTE VIVA - EMMANUEL - PÁG. 109

ÍTEM 47 AUTOLIBERTAÇÃO - ". . .Nada trouxemos para este mundo e manifesto é que nada podemos levar dele." — Paulo. (I timóteo, 6:7.)
Se desejas emancipar a alma das grilhetas escuras do "eu", começa o teu curso de autolibertação, aprendendo a viver "como possuindo tudo e nada tendo", "com todos e sem ninguém". Se chegaste à Terra na condição de um peregrino necessitado de aconchego e socorro e se sabes que te retirarás dela sozinho, resigna-te a viver contigo mesmo, servindo a todos, em favor do teu crescimento espiritual para a imortalidade. Lembra-te de que, por força das leis que governam os destinos, cada criatura está ou estará em solidão, a seu modo, adquirindo a ciência da autosuperação. Consagra-te ao bem, não só pelo bem de ti mesmo, mas, acima de tudo, por amor ao próprio bem. Realmente grande é aquele que conhece a própria pequenez, ante a vida infinita. Não te imponhas, deliberadamente, afugentando a simpatia; não dispensarás o concurso alheio na execução de tua tarefa. Jamais suponhas que a tua dor seja maior que a do vizinho ou que as situações do teu agrado sejam as que devam agradar aos que te seguem. Aquilo que te encoraja pode espantar a muitos e o material de tua alegria pode ser um veneno para teu irmão.

Sobretudo, combate a tendência ao melindre pessoal com a mesma persistência empregada no serviço de higiene do leito em que repousas. Muita ofensa registrada é peso inútil ao coração. Guardar o sarcasmo ou o insulto dos outros não será o mesmo que cultivar espinhos alheios em nossa casa? Desanuvia a mente, cada manhã, e segue para diante, na certeza de que acertaremos as nossas contas com Quem nos emprestou a vida e não com os homens que a malbaratam. Deixa que a realidade te auxilie a visão e encontrarás a divina felicidade do anjo anónimo, que se confunde na glória do bem comum. Aprende a ser só, para seres mais livre no desempenho do dever que te une a todos, e, de pensamento voltado para o Amigo Celeste, que esposou o caminho estreito da cruz, não nos esqueçamos da advertência de Paulo, quando nos diz que, com alusão a quaisquer patrimônios de ordem material, "nada trouxemos para este mundo e manifesto é que nada podemos levar dele".

16 - NA ERA DO ESPÍRITO - ESPÍRITOS DIVERSOS - PÁG. 90, 93

ÍTEM 15 - Chico Xavier - Em Torno da Liberdade
"Envio-lhe a página que o nosso caro Emmanuel escreveu, em torno da liberdade, em resposta às indagações e aos comentários havidos numa de nossas reuniões públicas. Jovens e adultos se referiam aos assuntos de independência, com as opiniões mais diversas, antes da realização de nossas tarefas. No início das atividades programadas O Livro dos Espíritos nos ofereceu a questão número 825. E o nosso amigo espiritual, na fase terminal da reunião, nos deu as suas impressões na mensagem "Honrarás a liberdade". Crendo possa o tema estudado servir igualmente às nossas reflexões, faço a remessa da página referida ao generoso apoio de suas mãos."


ÍTEM 15 - Emmanuel - Honrarás a Liberdade
Honrarás a liberdade, não para voltar às brumas do passado em cujos desvarios já nos submergimos muitas vezes, e que te impeliram a tomar novo corpo no plano físico, mas, frequentemente para resgastar as consequências infelizes dos atos impensados. Estimarás a liberdade para cultivar a consciência tranquila pelo exato desempenho dos compromissos que esposaste. Muitos companheiros da Humanidade se farão ouvir, diante de ti, alinhando teorias brilhantes em se referindo a independência e progresso, quase sempre para justificar o desgovernado predomínio do instinto sobre a razão, como se progresso e independência constituíssem retorno ao pri-mitivismo e à animalidade. Ouvirás a todos eles com tolerância e bondade, observando, porém, as ciladas que se lhes ocultam sob o luxo verbalístico, à maneira de armadilhas recobertas de flores, e seguirás adiante de coração atento à execução dos encargos que a vida te reservou.

Sabes que a inteligência, quando se propõe desregrar-se no esquecimento dos princípios que lhe ditam comportamento digno, inventa facilmente vocábulos cintilantes, de modo a disfarçar a própria deserção. Aceitarás o trabalho no grupo doméstico ou na equipe de ação edificante aos quais te vinculas, na produção do bem geral, doando o melhor de ti mesmo em abnegação aos companheiros que te compartilham a experiência, na certeza de que unicamente nas lutas e sacrifícios em que somos obrigados a viver e a conviver, uns à frente dos outros, é que conseguiremos a carta de alforria no cativeiro que nos aprisiona aos resultados menos felizes das existências passadas. Orarás e vigiarás, segundo os ensinamentos de Jesus, e honrarás a liberdade qual ele mesmo a dignificou, amando aos semelhantes sem exigir o amor alheio e prestando auxílio sem pensar em recebê-lo. Serás, enfim, livre para obedecer às Leis Divinas e sempre mais livre para ser cada vez mais útil e servir cada vez mais.

ÍTEM 15 - Irmão Saulo - Condições da Liberdade
O princípio da liberdade é um anseio natural do homem e constitui o fundamento de todas as realizações duradouras. Sabemos que o homem é, na Terra, entre os seres visíveis que a povoam, o único realmente dotado de livre arbítrio. Mas a liberdade é condicionada pela responsabilidade, sendo que a responsabilidade, por sua vez, não pode existir sem liberdade. Estamos diante do que poderíamos chamar a dialética da autonomia. Da interação de liberdade e responsabilidade surge a síntese da independência, tanto em plano individual como no coletivo.

A questão 825 de O Livro dos Espíritos é a seguinte: "Pergunta: Há posições no mundo em que o homem possa gabar-se de gozar de liberdade absoluta? — Resposta: Não, porque vós todos necessitais uns dos outros, assim os pequenos como os grandes". Esse problema foi amplamente analisado por Kardec no estudo "Liberdade, Igualdade e Fraternidade", publicado em Obras Póstumas. Ali encontramos esta proposição: "Do ponto de vista do bem social a fraternidade figura em primeira linha, é a base. Sem ela não poderá haver igualdade nem liberdade verdadeiras. A igualdade decorre da fraternidade e a liberdade é uma consequência das duas".

18 - O LIVRO DOS ESPÍRITOS - ALLAN KARDEC - QUESTÕES: 75, 122, 156, 258, 266, 368, 372, 825 A 872

Perg. 75 - É acertado dizer que as faculdades instintivas diminuem, à medida que crescem as intelectuais? - Não. O instinto existe sempre, mas o homem o negligência. O instinto pode também conduizer ao bem; ele nos guia quase sempre, e às vezes mais seguramente que a razão; ele nunca se engana.
Perg. 122 - Como podem os Espíritos, em sua origem, quando ainda não têm a consciência de si mesma, ter a liberdade de escolher entre o bem e o mal? Há neles um princípio, uma tendência qualquer que os leve mais para um lado que para outro? - O livre-arbítrio se desenvolve à medida que o Espírito adquire consciência de si mesmo. Não haveria liberdade, se a escolha fosse provocada por uma causa estranha à vontade do Espírito. A causa não está nele, mas no exterior, nas influências a que ele cede em virtude de sua espontânea vontade. Esta é a grande figura da queda do homem e do pecado original: uns cederam à tentação e outros resistiram.
Perg. 156 - A separação definitiva entre a alma e o corpo pode verificar-se antes da cessação completa da orgânica? - Na agonia, às vezes, a alma já deixou o corpo, que nada mais tem do que a vida orgânica. O homem não tem mais consciência de si mesmo e não obstante ainda lhe resta um sopro de vida. O corpo é uma máquina que o coração põem em movimento. Ele se mantém enquanto o coração lhe fizer circular o sangue pelas veias e, para isso não necessita da alma.

Perg. 258 - No estado errante, antes de nova existência corpórea, o Espírito tem consciência e previsão do que lhe vai acontecer durante a vida? -Ele mesmo escolhe o gênero de provas que deseja sofrer; nisto consiste o seu livre-arbítrio.
Perg. 266. - Não parece natural que os Espíritos escolham as provas menos penosas?— Para vós, sim; para o Espírito, não. Quando ele está liberto da matéria, cessa a ilusão, e a sua maneira de pensar é diferente.
O homem, submetido na Terra à influência das ideias carnais, só vê nas suas provas o lado penoso. É por isso que lhe parece natural
escolher as que, do seu ponto de vista, podem subsistir com os prazeres mal criais. Mas na vida espiritual ele compara os prazeres fugitivos e grosseiros com a felicidade inalterável que entrevê, e então, que lhe importam alguns sofrimentos passageiros? O Espírito pode escolher a prova mais rude e, em consequência, a existência mais penosa, com a esperança de chegar mais depressa a um estado melhor, como o doente escolhe muitas vezes o remédio mais desagradável para se curar mais rapidamente. Aquele que deseja ligar o seu nome à descoberta de um país desconhecido não escolhe um caminho coberto de flores, pois sabe os perigos que corre, mas sabe também a glória que o espera, se for feliz.

A doutrina da liberdade de escolha das nossas existências e das provas que devemos sofrer deixa de parecer estranha, quando considerarmos que os Espíritos, libertos da matéria, apreciam as coisas de maneira diferente da nossa. Eles antevêem o fim, e esse fim lhes parece muito mais importante que os prazeres fugitivos do mundo. Depois de cada existência, vêem o progresso que fizeram e compreendem quanto ainda lhes falta em pureza para o atingirem. Eis porque se submetem voluntariamente a todas as vicissitudes da vida corpórea, pedindo eles mesmos aquelas que podem fazê-los chegar mais depressa. Não há, pois, motivo para nos admirarmos de ver o Espírito não dar preferência à existência mais suave. No seu estado de imperfeição, ele não pode desfrutar uma vida sem amarguras, que apenas entrevê; e é para atingi-la que procura melhorar-se. Não vemos diariamente exemplos de coisas parecidas? O homem que trabalha uma parte de sua vida, sem tréguas nem descanso, a fim do ajuntar o necessário para o seu bem-estar, não desempenha uma tarefa que se impôs, com vistas a um futuro melhor? O militar que se oferece para uma missão perigosa, o viajante que não enfrenta menores perigos, no interesse da Ciência ou de sua própria fortuna, não se habilitem a provas voluntárias, que devem proporcionar-lhes honra e proveito, se as vencerem? A que o homem não se expõe, pelo seu interesse ou pela sua glória? Todos os concursos não são provas voluntárias pura melhorar na carreira escolhida?

Não se chega a nenhuma posição inicial de elevada importância, nas Ciências, nas artes, na indústria, vem passar pela série de posições inferiores, que são outras tantas próvas. A vida humana é assim o decalque da vida espiritual. Nela encontramos em menor escala todas as peripécias daquela. Se na vida terrena escolhemos muitas vezes as provas mais difíceis, com vistas a um fim mais elevado, por que o Espírito, que vê mais longe, e para quem a vida do corpo é apenas um incidente fugitivo, não escolherá uma existência penosa e laboriosa, se ela o deve conduzir a uma felicidade eterna? Aqueles que dizem que se pudessem escolher a sua existência teriam pedido a de príncipes ou milionários, são como os míopes que não vêem o que tocam, ou como as crianças gulosas que respondem, quando perguntamos que profissão preferem: pasteleiros ou confeiteiros. Da mesma maneira, o viajante, no fundo de um vale nevoento, não pode ver a extensão nem os pontos extremos da sua rota; mas, chegando ao cume da montanha, seu olhar abrange o caminho percorrido e o que falta a percorrer, vê o final de sua viagem, os obstáculos que ainda tem de vencer, e pode então escolher com mais segurança os meios de o atingir.

O Espírito encarnado é como o viajante no fundo do vale; desembaraçado dos liames terrestres, é como o que atingiu o cume. Para o viajante, o fim é o repouso após a fadiga; para o Espírito, é a felicidade suprema, após as tribulações e as provas. Todos os Espíritos dizem que, no estado errante, buscam, estudam, observam, para fazerem suas escolhas. Não temos um exemplo disso na vida corpórea? Não buscamos muitas vezes através dos anos a carreira que livremente acabamos por escolher, porque a achamos a mais apropriada aos nossos objetivos? Se fracassamos numa, procuramos outra. Cada carreira que abraçamos é uma fase, um período de vida. Não empregamos cada dia em escolher o que faremos no outro? Ora, o que são as diferentes existências corpóreas, para o Espírito, senão fases, períodos, dias da sua vida espírita, que, como o sabemos, é a vida normal, não sendo a vida corporal mais que transitória, passageira?

Perg. 368 - As faculdades do Espírito se exercem com toda a liberdade, após a sua união com o corpo? - O exercício das faculdades depende dos órgãos que lhes servem de instrumentos, elas são enfraquecidas pela grosseria da matéria.
Perg. 372 - Qual é o objetivo da Providência, ao criar seres desgraçados como os cretinos e os idiotas? - São os Espíritos em punição que vivem em corpos de idiotas. Esses Espíritos sofrem com o constrangimento a que estão sujeitos e pela impossibilidade de manifestar-se por intermédio de órgãos não desenvolvidos ou defeituosos.
Perg. 825. - Há posições no mundo em que o homem possa gabar-se de gozar de uma liberdade absoluta? -Não, porque vós todos necessitais uns dos outros, os pequenos como os grandes.
Perg. 826. - Qual seria a condição em que o homem pudesse gozar de liberdade? -A do eremita no deserto. Desde que haja dois homens juntos, há direitos a respeitar e não terão eles, portanto, liberdade absoluta.
Perg. 827. - A obrigação de respeitar os direitos alheios tira ao homem o direito de ser senhor de si? - Absolutamente, pois esse é um direito que lhe vem da Natureza.
Perg. 828 - Como conciliar as opiniões liberais de certos homens com o seu frequente despotismo no lar e com os seus subordinados? - São os que possuem a compreensão da lei natural balançada pelo orgulho e pelo egoísmo. Sabem o que devem fazer, quando não transformam os seus princípios numa comédia bem calculada, mas não o fazem.
Perg. 828a. Os princípios que professaram nesta vida lhes serão levados em conta na outra? - Quanto mais inteligência tenha o homem para compreender um princípio, menos escusável será de não o aplicar a si mesmo. Na verdade que o homem simples, mas sincero, está mais adiantado no caminho de Deus do que aquele que aparenta o que não é.
Perg. 829 - Há homens naturalmente destinados a ser propriedade de outros homens? — Toda sujeição absoluta de um homem a outro é contrária à lei de Deus. A escravidão é um abuso da força e desaparecerá com o progresso, como pouco a pouco desaparecerão todos os abusos. A lei humana que estabelece a escravidão é uma lei contra a Natureza, pois assemelha o homem ao bruto e o degrada moral e fisicamente.
Perg. 830. - Quando a escravidão pertence aos costumes de um povo, são repreensíveis os que a praticam nada mais fazendo do que seguir um uso que lhes parece natural? — O mal é sempre o mal. Todos os vossos sofismas não farão que uma ação má se torne boa. Mas a responsabilidade do mal é relativa aos meios de que se dispõe para o compreender. Aquele que se serve da lei da escravidão é sempre culpável de uma violação da lei natural; mas nisso, como em todas as coisas, a culpabilidade é relativa. Sendo a escravidão um costume entre certos povos, o homem pode praticá-la de boa-fé, como uma coisa que lhe parece natural. Mas desde que a sua razão, mais desenvolvida e sobretudo esclarecida pelas luzes do Cristianismo, lhe mostrou no escravo um seu igual perante Deus, ele não tem mais desculpas.
Perg. 831. - A desigualdade natural das aptidões não coloca certas raças humanas sob a dependência das raças inteligentes?— Sim, para as elevar, e não para as embrutecer ainda mais na escravidão. Os homens têm considerado, há muito, certas raças humanas como animais domesticáveis, munidos de braços e de mãos, e se julgaram no direito de vender os seus membros como bestas de carga. Consideram-se de sangue mais puro. Insensatos, que não enxergam além da matéria! Não é o sangue que deve ser mais ou menos puro, mas o Espírito.
Perg. 832. - Há homens que tratam os seus escravos com humanidade, que nada lhes deixam faltar e pensam que a liberdade os exporia a mais privações. Que dizer disso?— Digo que compreendem melhor os seus interesses. Eles têm também muito cuidado com os seus bois e os seus cavalos, a fim de tirarem mais proveito no mercado. Não são culpados como os que os maltratam, mas nem por isso deixam de usá-los como mercadorias, privando-os do direito de serem senhores de si mesmos.

19 - O PORQUÊ DA VIDA - LÉON DENIS - PÁG. 15

ÍTEM I — Dever e Liberdade: Qual o homem que, nas horas de silêncio e recolhimento, já deixou de interrogar a Natureza e o seu próprio coração, pedindo-lhes o segredo das coisas, o porquê da vida, a razão de ser do Universo? Onde está esse que não tem procurado conhecer os seus destinos, erguer o véu da morte, saber se Deus é uma ficção ou uma realidade? Não há ser humano, por mais indiferente que seja, que não tenha enfrentado algumas vezes com esses grandes problemas. A dificuldade de resolvê-los, a incoerência e a multiplicidade das teorias que daí se derivam, as deploráveis consequências que decorrem da maior parte dos sistemas conhecidos, todo esse conjunto confuso, fatigando o espírito humano, o tem atirado à indiferença e ao cepticismo. Entretanto, o homem tem necessidade de saber; precisa do esclarecimento, da esperança que consola, da certeza que guia e sustém. Também tem os meios de conhecer, a possibilidade de ver a verdade desprender-se das trevas e inundá-lo com sua luz benéfica. Para isso, deve afastar-se dos sistemas preconcebidos, perscrutar-se a si próprio, escutar essa voz interior que fala a todos e que os sofismas não podem deturpar: a voz da razão, a voz da consciência.

Assim fiz eu. Muito tempo refleti; meditei sobre os problemas da vida e da morte; com perseverança sondei esses abismos profundos. Dirigi à Eterna Sabedoria uma ardente invocação e Ela me atendeu, como atende a todo espírito animado do amor do bem. Provas evidentes, fatos de observação direta vieram confirmar as deduções do meu pensamento, oferecer às minhas convicções uma base sólida, inabalável. Depois de duvidar, acreditei; depois de ter negado, vi. E a paz, a confiança, força moral desceram sobre mim. Eis os bens que, na sinceridade do meu coração, desejoso de ser útil aos meus semelhantes, venho oferecer aos que sofrem e desesperam:
Jamais a necessidade da luz fez sentir-se de um modo mais imperioso. Uma transformação imensa se opera no seio das sociedades humanas. Depois de estarem submetidos durante uma longa série de séculos ao princípio de autoridade, os povos aspiram cada vez mais à liberdade e querem dirigir-se por si próprios.

Ao mesmo tempo que as instituições políticas e sociais se modificam, os cultos são esquecidos. Existe nisso ainda uma das consequências da liberdade em sua aplicação às coisas do pensamento e da consciência. A liberdade, em todos os seus domínios, tende a substituir-se à coaçao e à autoridade, a guiar as nações para horizontes novos. O direito de alguns tornou-se o direito de todos; mas, para que o direito soberano seja conforme com a justiça e produza seus frutos, é necessário que o conhecimento das leis morais tenha que regular o seu exercício. Parãque a liberdade seja fecunda, para que ofereça às obras humanas uma base segura e duradoura, deve ser aureolada pela luz, pela sabedoria, pela verdade. A liberdade, para homens ignorantes e viciosos, não será como arma poderosa entre as mãos de uma criança? A arma, nesse caso, volta-se muitas vezes contra aquele que a traz, e o fere.


21 - PALAVRAS DE VIDA ETERNA - EMMANUEL - ÍTEM 27 - LIBERDADE EM JESUS - PÁG. 69

LIBERDADE EM JESUS: "Para a liberdade Cristo nos libertou; permanecei, pois, firmes e não vos dobreis novamente a um jugo de escravidão." — Paulo. (GALATAS, 5:1.)
Disse o apóstolo Paulo, com indiscutível acerto, que "para a liberdade Cristo nos libertou". E não são poucos aqueles que na opinião terrestre definem o Senhor como sendo um revolucionário comum. Não raro, pintam-no à feição de petroleiro vulgar, ferindo instituições e derrubando princípios. Entretanto, ninguém no mundo foi mais fiel cultor do respeito e da ordem. Através de todas as circunstâncias, vemo-lo interessado, acima de tudo, na lealdade a Deus e no serviço aos homens. Não exige berço dourado para ingressar no mundo.

Aceita de bom grado a infância humilde e laboriosa. Abraça os companheiros de ministério, quais se mostram, sem deles reclamar certidão de heroísmo e de santidade. Nunca se volta contra a autoridade estabelecida. Trabalha na extinção da crueldade e da hipocrisia, do simonismo e da delinquência, mas em momento algum persegue ou golpeia os homens que lhes sofrem o aviltante domínio. Vai ao encontro dos enfermos e dos aflitos para ofertar-lhes o coração. Serve indistintamente. Sofre a incompreensão alheia, procurando compreender para ajudar com mais segurança. Não espera recompensa, nem mesmo aquela que surge em forma de simpatia e entendimento nos círculos afetivos. Padece a ingratidão de beneficiados e seguidores, sem qualquer ideia de revide. Recebe a condenação indébita e submete-se aos tormentos da cruz, sem recorrer à justiça.

E ninguém se fez mais livre que Ele — livre para continuar servindo e amando, através dos séculos renascentes. Ensinou-nos, assim, não a liberdade que explode de nossas paixões indomesticadas, mas a que verte, sublime, do cativeiro consciente às nossas obrigações, diante do Pai Excelso. Nas sombras do "eu", a liberdade do "faço o que quero" frequentemente cria a desordem e favorece a loucura. Na luz do Cristo, a liberdade do "devo servir" gera o progresso e a sublimação. Assimilemos do Mestre o senso da disciplina. Se quisermos ser livres, aprendamos a obedecer. Apenas através do dever retamente cumprido, permaneceremos firmes, sem nos dobrarmos diante da escravidão a que, muitas vezes, somos constrangidos pela inconsequência de nossos próprios desejos.


22 - PÃO NOSSO - EMMANUEL - ÍTEM 16 - A QUEM OBEDECES? - PÁG. 43

ÍTEM 16 - A QUEM OBEDECES?: "E, sendo ele consumado, veio a ser a causa de eterna salvação para todos os que lhe obedecem." — Paulo. (HEBKEUS, 5:9.)
Toda criatura obedece a alguém ou a alguma coisa. Ninguém permanece sem objetivo. A própria rebeldia está submetida às forças cor-retoras da vida. O homem obedece a toda hora. Entretanto, se ainda não pôde definir a própria submissão por virtude construtiva, é que, não raro, atende, antes de tudo, aos impulsos baixos da natureza, resistindo ao serviço de auto-elevação. Quase sempre transforma a obediência que o salva em escravidão que o condena. O Senhor estabeleceu as gradações do caminho, instituiu a lei do próprio esforço, na aquisição dos supremos valores da vida, e determinou que p homem lhe aceitasse os desígnios para ser verdadeiramente livre, mas a criatura preferiu atender à sua condição de inferioridade e organizou o cativeiro. O discípulo necessita examinar atentamente o campo em que desenvolve a própria tarefa. A quem obedeces? Acaso, atendes, em primeiro lugar, às vaidades humanas ou às opiniões alheias, antes de observares o conselho do Mestre Divino? É justo refletir sempre, quanto a isso, porque somente quando atendemos, em tudo, aos ensinamentos vivos de Jesus, é que podemos quebrar a escravidão do mundo em favor da libertação eterna.


24 - VINHAS DE LUZ - EMMANUEL - PÁG. 269

ÍTEM 128 - LIBERDADE: "Não useis, porém, da liberdade para dar ocasião à carne, mas servivos uns aos outros pela caridade." — Paulo. (GALATAS, 5:13.)
Em todos os tempos, a liberdade foi utilizada pelos dominadores da Terra. Em variados setores da evolução humana, os mordomos do mundo aproveitam-na para o exercício da tirania, usam-na os servos em explosões de revolta e descontentamento. Quase todos os habitantes do Planeta pretendem a exoneração de toda e qualquer responsabilidade, para se mergulharem na escravidão aos delitos de toda sorte. Ninguém, contudo, deveria recorrer ao Evangelho para aviltar o sublime princípio. A palavra do apóstolo aos gentios é bastante expressiva. O maior valor da independência relativa de que desfrutamos reside na possibilidade de nos servirmos uns aos outros, glorificando o bem. O homem gozará sempre da liberdade condicional e, dentro dela, pode alterar o curso da própria existência, pelo bom ou mau uso de semelhante faculdade nas relações comuns.

É forçoso reconhecer, porém, que são muito raros os que se decidem à aplicação dignificante dessa virtude superior. Em quase todas as ocasiões, o perseguido, com oportunidade de desculpar, mentaliza represálias violentas; o caluniado, com ensejo de perdão divino, recorre à vingança; o incompreendido, no instante azado de revelar fraternidade e benevolência, reclama reparações. Onde se acham aqueles que se valem do sofrimento, para intensificar o aprendizado com Jesus Cristo? onde os que se sentem suficientemente livres para converter espinhos em bênçãos? No entanto, o Pai concede relativa liberdade a todos os filhos, observando-lhes a conduta. Raríssimas são as criaturas que sabem elevar o sentido da independência a expressões de vôo espiritual para o Infinito. A maioria dos homens cai, desastradamente, na primeira e nova concessão do Céu, transformando, às vezes, elos de veludo em algemas de bronze.

25 - INTERVALOS - EMMANUEL - PÁG. 68 e 95

ESPIRITISMO E LIBERDADE: É indubitável que o Espiritismo, na função de Consolador Prometido pelo Cristo de Deus, veio aos homens, sobretudo, para libertá-los da treva do espírito. Que emancipação, porém, será essa? Surpreenderíamos, acaso, a Nova Revelação procedendo à maneira de um louco que dinamitasse um cais antigo, à frente do mar, sem edificar, antes, um cais novo que o substituísse?

Claro que os princípios espíritas acatam os diques de natureza moral, construídos pelas tradições nobres do mundo, destinados à segurança da alma, conquanto lhes observe a vulnerabilidade de fundo, vulnerabilidade essa sempre suscetível de favorecer os mais fortes contra os mais fracos e de apoiar os astutos em prejuízo dos simples de coração; embora isso, levantam barreiras de proteção, muito mais sólidas, a benefício das criaturas, porquanto nos esculpem, no próprio ser, a responsabilidade de sentir e pensar, falar e agir, diante da vida.

Ninguém se iluda, dessa forma, quanto à independência instalada pela doutrina Espírita nos recessos de cada um de nós, sempre que nos creiamos no falso direito de praticar inconveniências, em regime de impunidade. Muito mais que os preconceitos e tabus, instituídos pelos homens, como frágeis recursos de preservação dos valores espirituais na Terra, o Espiritismo Cristãos nos entrega dispositivos muito seguros e sensatos, na garantia da própria defesa, em vez que não os acena com céus ou infernos exteriores, mas, ao revés disso, nos faz reconhecer que o céu ou o inferno, são criações nossas, funcionando, indiscutivelmente, em nós mesmos.

Enfim, para não nos alongarmos em teorização excessiva, observemos, tão somente, que o espírita é livre, não para realizar indiscriminadamente tudo quanto deseja, e, sim, para fazer aquilo que deve.

LIBERDADE: Na lógica do mundo, encontramos os mais diversos tipos de liberdade, criando, porém, quase sempre deveres tristes e deprimentes. Nas linhas da luta vulgar, o homem possui a liberdade para a consumação do crime, mas adquire a obrigação de submeter-se à pena que lhe venha a ser cominada pela justiça, a esperá-lo na penitenciária e na reclusão.

Dispõe da liberdade de menosprezar a si próprio, fugir ao trabalho e confiar-se ao vício, mas algema-se ao dever de gravar no próprio corpo os sinais da falência a que se empenhou, candidatando-se ao hospital, quando não desce, aturdido, ao vale da loucura e da morte.

Goza a liberdade de ferir os semelhantes, mas, com isso, aprisiona-se no dever de aceitar o retorno das farpas que atira ao coração do próximo, passando a viver entre doenças e males de toda espécie.

Conta com a liberdade de sutrair-se ao estudo, atendendo às sugestões da preguiça, mas encarcera-se na obrigação de suportar a ignorância com todo o seu cortejo de misérias e infortúnios, que acabam coagulando trevas em derredor de seus passos.

Na lógica do Evangelho, porém, encontramos a divina liberdade do espírito. É a liberdade de nos escravizarmos, qual o próprio Jesus, ao dever do sacrifício pelo bem de todos.

Liberdade de converter o tempo em serviço incessante, e de transformar o ódio e a injúria em amor e bênção.

Liberdade de ajudar sem retribuição, de sofrer sem queixar-se, de construir sem atormentar, de fazer o melhor em favor dos outros no silêncio da humildade e da renúncia que nos aproximam do Céu...

Essa é a única liberdade capaz de fazer-nos dignos da liberdade de sermos livres para a sublime ascenção a Deus.

26 - MÃOS UNIDAS - EMMANUEL - PÁG. 54

LIBERDADE ALHEIA: Sempre que exercemos influência sobre alguém que renteia conosco nos caminhos da madureza, seja na condição de pais ou mentores, familiares ou amigos, é muito fácil ultrapassar os limites da conveniência travando naqueles que mais amamos os movimentos com que se dirigem para a liberdade.

Pratiquemos, sim, a beneficência da educação procurando orientar, instruir e corrigir amando sempre, mas sem violentar e sem impor. Costumamos providenciar tudo a benefício dos entes queridos quanto ao aprovisionamento de recursos naturais, esquecendo-nos, porém, bastas vezes, de doar-lhes a oportunidade de serem como devem ser.

Nesse sentido, vasculhemos o próprio espírito e verificaremos quanto estimamos a faculdade de sermos nós próprios, de abraçar as crenças que se nos mostrem mais consentâneas com a capacidade de discernir, de sermos respeitados nas decisões que assumimos, de buscar o tipo de felicidade que mais se nos coadune com a paz de espírito, de escolher os amigos que nos pareçam mais dignos de atenção ou de afeto.

Ainda quando nos enganemos, sabemos aproveitar a lição para subir na escala de nossa adaptação à realidade, debitando-nos os erros e fracassos, com que sejamos defrontados sem razão para nos queixarmos dos outros.

Meçamos a necessidade de emancipação no próximo pelo nosso próprio anseio de independência e sempre que nos caia sob os olhos qualquer estudo em torno da indulgência recordemos a dádiva preciosa que todos os nossos companheiros de experiência esperam de nós em aflitivo silêncio; a permissão de cogitarem do seu próprio aperfeiçoamento na escola permanente da vida tão autênticos e tão livres como Deus os fez.

27 - PLANTÃO DA PAZ - EMMANUEL - PÁG. 22

LIBERDADE

A liberdade é a raiz da vida consciente, no entando, a cada passo urdimos entraves e impedimentos para nós mesmos. Não nos reportamos à clausura de pedra, que funciona à guisa de hospital para as inteligências envenenadas na delinquência, e sim aos grilhões invisíveis a que milhares de criaturas jazem escravizadas.

Prisões sem grades dos elos consanguíneos, em que os adversários de outras eras se defrontam, dia a dia, entre as paredes imponderáveis do tempo, no abraço compulsório da assistência recíproca, em nome dos compromissos familiares. Cubículos de vérmina, limitados pela epiderme, nos quais os desertores do dever expiam culpas sob longa constrição de moléstias irreversíveis no corpo físico...

Ferretes de inibição, geometricamente fixados em certos órgãos e membros do veículo físico, retificando aspirações ou frenando impulsos. Grilhetas de pauperismo, circunscritas aos marcos da condição social, em que se corrigem antigos e festejados malfeitores da fortuna amoedada.

Calabouços de obsessão, em cujo clima de ansiedade se reajustam sentimentos transviados ao peso de estranhos desequilíbrados... Esses obstáculos e masmorras entretanto, são entretecidos simplesmente por nós, sempre que nomeamos o egoísmo e a vaidade, a intemperança e o vício para a função de carcereiros de nossas almas.

Mesmo assim, sobre semelhantes cadeias, a liberdade brilha vitoriosa. E consola-nos reconhecer que todo espírito em cativeiro é intimamente livre para recuperar a própria liberdade, porquanto, no ângulo mais escuro cárcere, todos somos livres no pensamento para refazer o destino, obedecendo à justiça e praticando o bem.

28 - OFERENDA - JOANNA DE ÂNGELIS- PÁG. 181

PRISÃO E LIBERDADE

Não necessariamente entre construções que coaretam os movimentos, encontra-se aprisionado o homem. O grande número de encarcerados está fora dos alcáceres de pedras e grades onde apenas alguns expungem os delitos de ontem ou atuais. Expressiva parcela da Humanidade estagia em processos de regeneração moral, sob injunção carcerária de complexa variedade, não menos padecente do que aqueles que foram alcançados pela humana legislação e arrojados aos calabouços.

Trânsfugas do dever, delinquentes primários ou pertinazes, criminosos diretos ou inspiradores de delitos, que passaram, na Terra, ignorados, ou aqueles que lograram menosprezar os códigos da Justiça, retornam ao proscênio carnal sob rudes penas, recuperando-se para a vida enobrecida, exercitando renovação e aprendendo equilíbrio em prisões não menos coercitivas do que as erguidas pelas leis dos povos.

O remorso é um cárcere impiedoso. A paralisia constitui uma algema vigorosa. A soledade moral e afetiva significa uma cela de austera reeducação. A alienação mental corresponde a uma penitenciária lúgubre.

A bacilose contagiante que exige a segregação do paciente se converte em uma detenção presidiária. A frustração perturbadora caracteriza uma cadeia em sombras.

A limitação teratológica expressa uma rígida muralha que aprisiona. O pessimismo contumaz corresponde a uma alcáçova, que retém o culpado.

A limitação orgânica e psíquica reflete um presídio estreito e constritor. A ignorância pertinaz torna-se uma enxovia onde não há luz e esperança. Prisioneiros são todos os que experimentam essas e equivalentes outras condições, embora muitos deles transitem pelas avenidas e parques do mundo, em aparente liberdade.

Liberdade, porém, é situação íntima defluente das conquistas logradas a penates de sacrifício, de estudo, de realização enobrecida. Ensinou Jesus com vigor, oferecendo um conceito que dispensa qualquer retoque: "Busca a verdade e a verdade te libertará".

Onde quer que te detenhas, no processo evolutivo impostergável, busca a verdade e incorpora-a ao teu cotidiano, a fim de que paires em liberdade, sem qualquer grilhão ou cárcere que te limitem os passos ou os vôos na busca da felicidade.