MEMÓRIA
BIBLIOGRAFIA
01- A crise da morte - pág. 65 02 - A evolução anímica - pág. 123, 135
03 - A loucura sob novo prisma - pág. 18 04 - A reencarnação - pág. 121, 141, 291
05 - A tragédia de Santa Maria - pág. 62 06 - Ação e Reação - pág. 33
07 - Almas em desfile - pág. 185 08 - Alquimia da mente - pág. 60
09 - Análise das coisas - pág. 55 10 - Auto desobsessão - pág. 14
11 - Busca do campo esp. pela ciência - pág. 87 12 - Caridade do verbo - pág. 55, 79
13 - Ciência e Espiritismo - pág. 128 14 - Curso dinâmico de espiritismo - pág. 118
15 - Da alma Humana - pág. 63, 84, 93

16 - Depois da morte - pág. 145

17 - Dramas da obsessão - pág. 41, 57 18 - E a vida continua - pág. 84
19 - Emmanuel - pág. 81, 133 20 - Entre a Terra e o céu - pág. 54, 82
21 - Espírito, perispirito e alma - pág. 90, 115 22 - Estudos Espíritas - pág. 48, 73
23 - Evolução em dois mundos - pág. 68 24 - Falando à Terra - pág. 94
25 - Gênese da alma - pág. 37, 86 26 - Hipnotismo e espiritismo - pág. 30
27 - Joana D'Arc - pág. 213 28 - Na seara do Mestre - pág. 113
29 - O céu e o inferno - pág. 249 30 - O consolador - pág. 41, 81
31 - O espírito do cristianismo - pág.6 32 - O exilado - pág. 132
33 - O homem novo - pág. 103 34 - O que é o espiritismo - pág. 154
35 - Oferenda - pág. 150 36 - Religião dos Espiritos - pág. 21
37 - Saúde e Espiritismo - pág. 99 38 - Universo e vida - pág. 55, 79

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MEMÓRIA – COMPILAÇÃO

02 - A evolução anímica - Gabriel Delanne - pág. 123, 135

CAPITULO IV - A MEMÓRIA E AS PERSONALIDADES MÚLTIPLAS
A antiga e a nova psicologia
No estudo da alma, a velha psicologia servia-se exclusivamente do senso íntimo. Afigurava-se-lhe racional, para conhecê-lo, estudar o ego pensante, em si mesmo, examinar os diferentes atos da vida do espírito, classificá-los segundo a sua natureza e examinar as relações existentes entre eles. Assim remota antiguidade aos nossos dias. Tal método, porém, não basta à explicação de muitos fenômenos intelectuais. Não se pode conciliar, por exemplo, à natureza da alma com a vida intelectual inconsciente, que, no entanto, forma a base do nosso espírito, visto não ser possível presumir estados inconscientes no que é, de si mesmo, consciente.

Os progressos da fisiologia contemporânea evidenciaram a ligação íntima da alma com o corpo. Ficou assentado, extreme de quaisquer dúvidas, que as manifestações do Espírito encarnado são absolutamente dependentes do sistema nervoso. Ela, a fisiologia, demonstrou, com provas e contraprovas, que toda a alteração ou destruição do elemento nervoso acarretava distúrbios e mesmo supressão de manifestações intelectuais. Mais adiante, veremos que a destruição de certas partes do cérebro determina a perda da palavra articulada, do conhecimento da palavra escrita, ou paralisa a audição da palavra falada, conforme a parte do encéfalo lesada.

Essa correlação do estado mórbido do corpo com o desaparecimento de uma fração do intelecto, e, nos casos de cura, o restabelecimento da função coincidindo com a restauração dos tecidos, é a base da doutrina materialista, que faz da alma uma função do cérebro.

Não nos demoraremos no exame e confutação dessa teoria, porque há, em contradita, um fato peremptório, que demonstra haver pensamento sem cérebro, qual o da manifestação do Espírito após a morte. Entretanto, os fisiologistas, com o procurarem as bases físicas do espírito, prestaram-nos um grande serviço.

Já dissemos que o perispírito é o molde do corpo. Estudar, pois, as modificações do sistema nervoso vale por estudar o funcionamento do perispírito, do qual esse sistema nervoso mais não é que uma reprodução material. A força vital que impregna simultaneamente a matéria organizada e o perispírito é o agente intermediário do corpo e da alma. Qualquer modificação na substância física produzirá modificação da força vital, que, por sua vez, modificará o perispírito, nas mesmas condições de variação que sofrerá em si mesma.

E, como esta força vital necessita de um suporte, de um substrato material, é no perispírito que ela o encontra, de sorte que as alterações sobrevindas ao corpo físico poderão ser conservadas, reproduzidas, mau grado às mutações perpétuas das moléculas orgânicas. Em suma: a velha psicologia, fazendo da alma uma substância material, ficava reduzida a uma impotência absoluta para explicar a ação da alma sobre o corpo.

Depois de se haver afadigado em demonstrar que uma e outro nada tinham de comum, não conseguia tornar compreensíveis as reações mútuas e incessantes. Os maiores gênios, os espíritos mais argutos, com Leibniz e Malebranche; fracassaram no tentame, por isso que ignoravam a verdadeira natureza da alma, que o Espiritismo veio revelar-nos.

Os materialistas, a seu turno, negando sistematicamente a realidade da alma e limitando-se a considerá-la não mais que uma emanação, um resultado do sistema nervoso psíquico, não podem fazer compreensível o eu, o que se conhece a si mesmo — fenômeno este transcendente, que lhes escapa, dado que nada se lhe pode comparar em a natureza física. Assim, ficam reduzidos a imaginar teorias inverossímeis, quando pretendem conciliar a perpetuidade da lembrança com o renovamento incessante do organismo, ou ainda, a transformação de uma sensação em percepção.

Podemos, então, desde logo, emparelhá-los com os espiritualistas, visto que nem uns nem outros explicam corretamente os fatos psíquicos, só encarando unilateralmente a questão. Pois o Espiritismo vem conciliar essas doutrinas tão antagônicas. A noção de perispírito — nunca é demais repeti-lo — não é uma inventiva humana, uma concepção filosófica adrede destinada a remover todas as dificuldades, a fim de as extinguir, mas, antes, uma realidade física, um órgão até então ignorado, e que, por sua composição física, tanto quanto pela função que exerce no homem, explica todas as anomalias que as investigações de sábios e filósofos jamais puderam dilucidar.

A indestrutibilidade e a estabilidade constitucional do perispírito fazem dele o conservador das formas orgânicas; graças a ele, compreendemos que os tecidos possam renovar-se, ocupando os novos o lugar exato dos antigos, e daí a manutenção da forma física, tanto interna como externa. Com ele, concebemos perfeitamente que uma alteração interna, como a produzida nas células nervosas pelas sensações do exterior, pode ser conservada e reproduzida, visto que a nova célula se constrói com a modificação registrada no envoltório fluídico.

O princípio vital é o motor do perispírito; é ele que lhe desenvolve as energias latentes e lhe ministra atividade durante a vida. Admitida a sua realidade, compreensível se torna a evolução dos seres: nascimento, crescimento, maturidade, decrepitude, morte. Alma e perispírito não fazem mais que um todo indissolúvel, e, se nós os distinguimos, é porque só a alma é inteligente, quer e sente. O invólucro é a sua parte material, o que vale dizer passiva: é a sede dos estados conscienciais pretéritos, o armazém das lembranças, a retorta em que se processa a memória de fixação, e é nele que o espírito se abastece, quando necessita de cabedais intelectuais para raciocinar, imaginar, comparar, deduzir, etc.

Também receptáculo de imagens mentais, é nele que reside, finalmente, a memória orgânica e inconsciente. O espírito é a forma ativa, o perispírito a passiva, e ambas, em seus aspectos, nos representam todo o princípio pensante. Vamos, tanto quanto possível, pôr em destaque estes caracteres particulares, e, uma vez melhor conhecida a natureza da alma, não mais ficaremos surpresos de ver desaparecerem por matizes insensíveis, pouco a pouco, os fenômenos conscientes, fundindo-se no inconsciente.

Compreender-se-á melhor, então, o mecanismo da memória orgânica, e ninguém se admirará de vê-la assimilada à memória psíquica. Elas são da mesma natureza, possuem o mesmo território, formam-se pelos mesmos processos, adquirem-se e perdem-se de igual maneira.

Sensação e percepção
Neste estudo e no subsequente, recorreremos às investigações dos cientistas contemporâneos, respigando em seus estudos, tão claros e convincentes, mas, precatando-nos para introduzir, na boa medida, o elemento perispírito, tornando, assim, compreensíveis os fenômenos, e dando-lhes uma explicação lógica, que de outra forma lhes faltaria. Distingamos, preliminarmente, a sensação da percepção.

Quando um agente externo impressiona os sentidos, produz-se no aparelho sensorial uma certa alteração a que chamamos sensação. Essa modificação é transmitida ao cérebro pelos nervos sensitivos e, depois de um trajeto mais ou menos longo, chega às camadas corticais. Nesse instante, dois casos podem apresentar-se: ou bem a alma toma conhecimento da alteração sobrevinda ao organismo e dizemos que há percepção, ou bem a alma não é advertida da ocorrência, a sensação registra-se sem embargo, mas fica inconsciente. Como anteriormente observamos, essa transformação da sensação (fenômeno físico) em percepção (fenômeno psíquico) torna-se absolutamente inexplicável desde que se não admita a existência do eu, ou seja, do ser consciente.

Isto posto, examinemos mais atentos os fatos sucessivos que se encadeiam, do choque inicial à percepção. Já sabemos que tudo é movimento na natureza. Os corpos que nos parecem em repouso não o estão nem exteriormente, de vez que participam do movimento da Terra, nem interiormente, de vez que as moléculas são incessantemente agitadas por forças invisíveis, que lhes dão as suas propriedades físicas particulares: estados sólidos, líquidos, gasosos e, para os sólidos, consistência, brilho, cor, etc.

Também os tecidos do corpo estão em movimento, e, durante a longa travessia pelas formas inferiores, vimos como certas partes do corpo se diferenciaram pouco a pouco do conjunto, para engendrar os órgãos dos sentidos. Essas modificações fixadas no perispírito iam cada vez mais encarnando-se na substância, à medida que aumentava o número de passagens pela Terra, e nós verificamos que não foram necessários menos do que milhões de anos para graduar o organismo ao nível em que o vemos hoje.

Qual a natureza das modificações produzidas? Ensaiemos demonstrar que ela reside nos movimentos. Toda sensação — visual, auditiva, tátil ou gustativa — procede, originariamente de um movimento vibratório do aparelho receptor. O raio luminoso que impressiona a retina, o som que faz vibrar o tímpano, a irritação dos nervos periféricos da sensibilidade, tudo isso se traduz por um movimento, diferente, segundo a natureza e a intensidade do excitante.

O abalo propaga-se ao longo dos nervos sensitivos e, depois de um certo percurso no cérebro, chega, conforme a natureza da irritação, a uma zona especial da camada cortical, sendo aí que o movimento origina a percepção. Tocamos, aqui, no ponto obscuro, pois nenhum filósofo, nenhum naturalista pôde jamais explicar o que então ocorre.

Uns, como Luys, dizem que a força exalta-se, espiritualiza-se, o que vale por nada dizer; outros se contentam em dizer que a percepção pertence ao sistema neuropsíquico, quando modificado de certa maneira, o que vale por dotar a matéria das faculdades da alma, sem que nenhuma indução o justifique. A célula nervosa é o elemento que recolhe, armazena e reage.

Operará por vibrações, como a corda tensa que oscila, quando deslocada da posição de equilíbrio? Ou, antes, consistirá o fenômeno numa decomposição química do protoplasma? É questão não resolvida, mas o que há de certo é que uma alteração ocorreu. Desde então, a força vital modificou-se num certo sentido, sofreu um movimento vibratório particular, este se comunicou ao perispírito. É então que se dá o fenômeno da percepção, se a atenção for despertada.

O Espírito não conhece diretamente o mundo exterior. Entaipado num corpo material, não percebe os objetos circundantes senão pelos sentidos, que lhos revelam. Ora, a luz, o som, só lhe chegam sob a forma de vibrações, diferentes segundo a cor, para a vista, e segundo a intensidade, para o som. Ele atribui um nome a tal ou qual natureza de vibrações, mas não conhece intrinsecamente a luz nem o som.

Exemplificando: a luz vermelha tem vibrações diferentes, em número, da luz violeta, e desde a infância nos ensinaram que a tal espécie de vibrações chama-se vermelho, e a tal outra, violeta. Pela mesma razão, tal vibração deverá atribuir-se ao som, aos odores, aos sabores, etc.: de sorte que o espírito não vê, mas sente a vibração correspondente ao vermelho; não sente tal odor, mas percebe a vibração que o determina, e o que lhe dá a impressão de uma nota musical é o número de vibrações perispirituais que, num segundo, correspondem a esse som.

O que dizemos de uma cor aplica-se a todas as cores, de modo que o globo ocular, que recebe milhões de vibrações diferentes, ao contemplar uma paisagem, ao ver uma ópera, transmite ao cérebro milhões de movimentos vibratórios, que se registram em sua substância e no seu perispírito, ao mesmo tempo e de um modo indelével.

Já houve quem comparasse a célula psíquica ao fósforo, que, depois de sofrer a ação da luz, permanece luminoso na obscuridade. Nós, porém, como analogia, preferimos a comparação da placa sensível, que, impressionada pela luz, conserva para sempre, graças a uma reação química, fixo e indelével o traço da excitação luminosa.

Poder-se-á superpor nessa placa uma série de imagens, e qualquer que seja o número destas, em se sobrepondo incessantemente às precedentes, não as apagarão jamais. Haverá sempre uma adição, um amontoamento de imagens e nunca uma destruição, uma extinção das primitivas pelas supervenientes.

Todo mundo está de acordo em que as modificações produzidas nas células são permanentes. Maudsley diz: "Na célula modificada produz-se uma aptidão e com ela uma diferenciação do elemento, ainda que nos não assista razão para acreditar que, originariamente, esse elemento diferisse das células nervosas homólogas."

Delboeuf opina: "Toda impressão deixa um traço inapagável, isto é: uma vez diversamente dispostas e forçadas a vibrar de outro modo, as moléculas jamais retornarão ao estado primitivo." E Richet : "Assim como na natureza não há, jamais, perda de energia cósmica, mas, apenas, transformação incessante, assim também nada se perde do que abala o espírito humano.

"É a lei de conservação da energia, sob um ponto de vista diferente. Os mares ainda se agitam do sulco neles deixado pelas galeras de Pompeu, pois o abalo equóreo não se perdeu e apenas se modificou, difundiu-se, transformou-se em infinidade de pequenas ondas, que, a seu turno, se transmudaram em calor, em ações químicas ou elétricas. Semelhantemente, as sensações que abalaram o meu espírito há 20 ou 30 anos, deixaram-me o seu sulco, ainda que esse sulco seja desconhecido de mim mesmo.

Então, mesmo que não possa evocar a sua lembrança, ignorada e inconsciente em mim, posso afirmar que ela não se extinguiu e que essas velhas sensações, infinitas em número e variedades, exerceram sobre mim uma influência assaz poderosa." É fato averiguado que a repetição de palavras e frases de um idioma acaba por tornar-se uma operação automática para o espírito. Ele não mais procura palavras e frases, que lhe acorrem de si mesmas. É uma verdade incontroversa, máxime em se tratando da língua materna.

A memória consciente se esvanece e perde-se no inconsciente. Pois o que sucede com a linguagem ocorre com qualquer outra aquisição intelectual, seja matemática, física ou química, etc. Em todos nós, a tábua de multiplicação tornou-se automática; e, contudo, começamos por decorá-la conscientemente. Estas afirmativas colocam-nos justo em face do problema que assinalamos — a ressurreição das lembranças prístinas, a despeito da renovação integral e global das células.

Maudsley presume que a rapidez extraordinária das permutas nutritivas do cérebro, parecendo, à primeira vista, uma causa de instabilidade, explica, ao contrário, a fixação das lembranças: "A reparação, efetuando-se sobre o trajeto modificado, serve para registrar a experiência. Não é uma simples integrara-se de um modo especial, o que faz com que a modalidade produzida seja, por assim dizer, incorporada ou encarnada na estrutura do encéfalo."

De acordo, quanto ao resultado. Também acreditamos que os novos movimentos perispirituais, os que houverem sido determinados pela modificação da força vital da célula destruída, imprimem às células que se reformam as mesmas modificações que influenciaram as primeiras. Mas, se não houver perispírito, que será que imprime nas células novas o antigo movimento? É a eterna questão: quem faz a restauração? Poder-se-á presumir não seja a célula inteiramente destruída; que o seu remanescente tomou o novo movimento e que as moléculas substituintes adotem o novo ritmo vibratório.

Vamos supor que assim seja. Mas, em se dando nova permuta, haverá, necessariamente, diminuição de intensidade: 1.° por causa do tempo transcorrido; 2.° por causa da inércia das antigas moléculas a vencer. Renovada inúmeras vezes a operação — o que é tanto mais certo quanto extrema é a rapidez das permutas nutritivas —, o movimento primordial será tão fraco que se poderá dizê-lo quase desaparecido. E o que é verdade para uma célula também o é para um conjunto de células, de sorte que as sensações delas dependentes, e que, por associação, formam uma lembrança, ficarão quase apagadas na velhice do indivíduo. Tais lembranças deveriam, pois, ser as primeiras a desaparecerem.

Ora, o que se verifica é justamente o contrário, de vez que, nas pessoas idosas, as lembranças da infância são as mais persistentes.
Em suma: se adotássemos essa hipótese, nenhuma sensação poderia conservar-se no ser, senão por tempo assaz limitado. Demonstrando-nos a experiência que assim não é, importa procurarmos outra explicação. Quando afirmamos ser no perispírito que reside a conservação do movimento, damos como prova direta a manifestação da alma após a morte.

Ela, a alma, se nos revela dotada de todas as faculdades e lembranças, não apenas de sua última encarnação, mas abrangendo longos períodos pretéritos. Acreditamo-nos, portanto, mais próximos de uma explicação adequada aos fatos do que aqueles que atribuem o pensamento à massa fosfórica de há muito destruída, quando a alma é imortal. (...)

04 - A reencarnação - Gabriel Delanne - pág. 121, 141, 291

CAPÍTULO VI - A MEMÓRIA INTEGRAL
A memória integral
Como terei de estudar os fenômenos que tendem a firmar a realidade das existências anteriores na Humanidade, e como esta demonstração repousa, em parte, na ressurreição das lembranças do passado, parece-me indispensável estabelecer que a memória não é uma faculdade simplesmente orgânica, ligada à substância do cérebro, mas que reside, ao contrário, nessa parte indestrutível, a que os espiritistas chamam perispírito.

Se isto é certo, a alma, reencarnando-se, traz consigo, de forma latente, todas as lembranças de suas vidas anteriores, e, então, ser-lhe-á possível, por vezes e excepcionalmente, ter reminiscências do seu antigo passado. Assim como, em certas pessoas, consegue-se fazer renascer a memória de acontecimentos de sua vida atual, inteiramente desaparecidos da consciência normal, do mesmo modo poder-se-á, por vezes, penetrar até às profundezas desses arquivos ancestrais, que, a justo título, será possível qualificar de memória integral.

Não se trata, de fazer aqui um estudo completo da memória, porque esse trabalho exigiria muito mais espaço de que aquele de que dispõe esta obra. Bastar-me-á assinalar alguns fenômenos importantes, que demonstrarão, segundo penso, com evidência, que tudo o que age sobre o ser humano, nele se grava de maneira indelével; que esta conservação não reside, como ensina a Psicologia oficial, nos centros nervosos, mas nessa parte imperecível do ser, que o individualiza, e do qual é inseparável.

Para que tal afirmação não pareça excessiva, é preciso lembrar que as aparições materializadas, reconstituindo temporariamente o antigo corpo material que tinham na Terra, com todos os seus caracteres anatômicos, provam que elas têm sempre o poder organizador, que dá ao invólucro carnal sua forma e suas propriedades; e todas as faculdades intelectuais são igualmente reconstituídas, quando o Espírito se torna completamente senhor do processo de materialização, porque, muitas vezes, o fantasma fala, escreve, e seu estilo, assim como sua grafia, são idênticos aos que possuía quando vivo.

Assim, pois, a memória e o mecanismo ideomotor da escrita se conservam depois da morte, prestes a manifestar-se de novo, fisicamente, quando as circunstâncias o permitem. Não é somente, portanto, no sistema nervoso, que se registram todas essas aquisições, porque a morte o destrói, e o ser que sobrevive traz consigo suas associações dinâmicas e suas recordações.

O caso de Estela Livermore, que escreveu, sob os olhos do marido, mais de duzentas mensagens, depois de sua morte, mostra, com evidência, não só a conservação de sua personalidade, mas também que as lembranças nada perderam de sua integridade, pois que, apesar de americana, ela conservou, depois da morte, o conhecimento da língua francesa, que possuía em vida, e as mensagens são autógrafos inteiramente idênticos à sua escrita, quando viva.

Este fato é confirmado por muitos outros obtidos, ou por médiuns mecânicos, ou pela escrita direta entre ardósias, de sorte que podemos, nós, espiritistas, afirmar que todas as aquisições espirituais, feitas durante a vida, não estão localizadas no encéfalo, mas no duplo fluídico, que é o verdadeiro corpo da alma. Assim sendo, qual o papel do sistema nervoso, durante a vida?

É incontestável que a integridade da memória está ligada ao bom funcionamento do cérebro, porque muitas moléstias que atingem esse órgão têm como resultado enfraquecer e mesmo suprimir, completamente, a memória dos acontecimentos recentes, em totalidade ou em parte. Parece, pois, evidente, que, durante a vida, o cérebro é uma condição indispensável da memória. Mas aqui intervém uma segunda consideração, que me parece também da mais alta importância.

É que o esquecimento que se verifica durante o curso da vida, ou depois das desordens orgânicas, não é fundamental, irredutível, mas aparente, visto que, por meio de diversos processos, é possível, por vezes, fazer renascerem essas lembranças, que pareciam aniquiladas para sempre. Vamos demonstrá-lo por diversos exemplos. Antes, porém, não é inútil lembrar algumas noções muito gerais, relativas a esse fenômeno misterioso, que ressuscita o passado e no-lo torna, por assim dizer, atual.

Segundo Ribot, a memória compreende, na acepção corrente da palavra: a conservação de certos estados, sua reprodução, sua localização no passado. Isto não é, entretanto, senão uma espécie de memória, a que se pode chamar perfeita. Aqueles três elementos são de valor desigual; os dois primeiros são necessários, indispensáveis; o terceiro, que na linguagem de escola se chama de reconhecimento, completa a memória, mas não a constitui.

O fato me parece tanto mais verdadeiro, quanto a lembrança está ligada, durante a vida, ao bom funcionamento do sistema nervoso. Mas, se a memória parece falha, não quer isto dizer que as lembranças fiquem aniquiladas, senão que o poder de as acordar foi momentaneamente paralisado, e que pode reaparecer quando as causas que o suprimiram cessarem de existir.

O termo geral de memória compreende muitas variedades, e, entre os diversos indivíduos, o poder de renovação das sensações antigas é muito diferente. Uns possuem a memória visual muito desenvolvida, como os pintores Horace Vernet ou Gustave Dor é, que podiam fazer um retrato de memória; em outros é o senso musical que atinge alto grau de perfeição, como Mozart, que escreveu o "Miserere" da Capela Sistina, tendo-o ouvido apenas duas vezes.

Entretanto, para que uma sensação fique registrada em nós, duas condições, pelo menos, são necessárias: a intensidade e a duração.
Eis, segundo Ribot, a importância desses dois fatores: "A intensidade é uma condição de caráter muito variado. Nossos estados de consciência lutam sem cessar para se suplantarem; a vitória pode resultar da força do vencedor ou da fraqueza dos outros lutadores. Sabemos que o mais vivo estado pode decrescer continuamente, até o momento em que cai abaixo do umbral da consciência, isto é, em que uma de suas condições de existência faz falta.

É bem certo dizer que a consciência, em todos os degraus possíveis, por menores que sejam, admite modalidades infinitas — estados a que Maudsley chama subconscientes — mas nada autoriza a dizer que esse decrescimento não tenha limite, posto que ele nos escape.
Não se tem tratado da duração, como condição necessária da consciência. Ela é, entretanto, capital.

Os trabalhos executados há uns 30 anos determinaram o tempo necessário para as diversas percepções. Ainda que os resultados variem segundo os experimentadores, as pessoas, as circunstâncias e a natureza dos estados psíquicos estudados, está, pelo menos, estabelecido que cada ato psíquico requer uma duração apreciável e que a pretendida rapidez infinita do pensamento não passa de uma metáfora.

Isto posto, é claro que toda ação nervosa, cuja duração é inferior à que requer a ação psíquica, não pode despertar a consciência."
Acrescentemos que é preciso, ainda, fazer Intervir a atenção, para que uma sensação se torne consciente. É notório, com efeito, que, se somos absorvidos por um trabalho interessante, não ouviremos mais o som do timbre do pêndulo, que, entretanto, fere sempre o nosso ouvido com a mesma força. Nosso espírito, ocupado alhures, não transforma esta sensação em percepção, isto é, nós não temos dela consciência.

É muito curioso fazer observar que as sensações despercebidas pelo "eu" normal podem reaparecer, colocado o paciente em sono magnético. Eis um exemplo tomado a Desseoir: "X..., absorvido pela leitura, entre amigos que conversavam, teve subitamente sua atenção despertada, ouvindo pronunciar-lhe o nome. Perguntou aos amigos o que tinham dito dele. Não lhe responderam; hipnotizaram-no. No sono, pôde repetir toda a conversa que havia escapado ao seu "eu" acordado. Ainda mais notável é o fato assinalado por Edmond Gurney e outros observadores, o de que o paciente hipnótico pode apanhar o cochicho de seu magnetizador, mesmo quando este está no meio de pessoas que conversam em alta voz."

Nestes exemplos, a duração e a intensidade foram suficientes para gravar no sistema nervoso e no perispírito as palavras pronunciadas; mas, fazendo falta a atenção, não se produziu a memória consciente do estado de vigília, e o indivíduo ignorou o que dele se disse; adormecido magneticamente, esse estado vibratório geral, a que os fisiologistas chamam "cenestesia", aumentou, as vibrações auditivas tornaram-se mais intensas e o paciente pode então delas tomar conhecimento. (...)

16 - Depois da morte - Léon Denis - pág. 145

XIV — OBJEÇÕES
É assim que muitas questões insolúveis para as outras escolas são resolvidas pela doutrina das vidas sucessivas. As fortíssimas objeções com que o cepticismo e o materialismo têm feito brechas no edifício teológico — o mal, a dor, a desigualdade dos méritos e das condições humanas, a injustiça aparente da sorte: todos esses tropeços se desvanecem perante a Doutrina dos Espíritos.

Entretanto, uma dificuldade subsiste, uma forte objeção ergue-se contra ela. Se já vivemos no espaço, dizem, se outras vidas precederam ao nascimento, por que de tal perdemos a recordação? Esta objeção, de aparência irrespondível, é fácil de ser destruída.
A memória das coisas que viveram, dos atos que se cumpriram, não é condição necessária da existência.

Ninguém se lembra do tempo passado no ventre materno ou mesmo no berço. Poucos homens conservam a memória das impressões e dos atos da primeira infância. Entretanto, essas são partes integrantes da nossa existência atual. Pela manhã, ao acordarmos, perdemos a recordação da maior parte de nossos sonhos, embora, no momento, eles nos tenham parecido outras tantas realidades. Só nos restam sensações grosseiras e confusas, que o Espírito experimenta quando recai sob a influência material.

Os dias e as noites são como as nossas vidas terrestres e espirituais, e o sono parece tão inexplicável quanto a morte. O sono e a morte transportam-nos, alternadamente, para meios distintos e para condições diferentes, o que não impede à nossa identidade de manter-se e persistir através desses estados variados.

No sono magnético, o Espírito, desprendido do corpo, recorda-se de coisas que esquecerá ao volver à carne, cujo encadeamento, não obstante, ele tornará a apanhar, recobrando a lucidez. Esse estado de sono provocado desenvolve nos sonâmbulos aptidões especiais que, em vigília, desaparecem, abafadas, aniquiladas pelo invólucro corpóreo.

Nessas diversas condições, o ser físico parece possuir dois estados de consciência, duas fases alternadas de existências que se encadeiam e se envolvem uma na outra. O esquecimento, como espessa cortina, separa o sono do estado de vigília, assim como divide cada vida terrestre das existências anteriores e da vida dos céus.

Se as impressões que a alma sente durante o decurso da vida atual, no estado de desprendimento completo, seja pelo sono natural ou pelo sono provocado, não podem ser transmitidas ao cérebro, deve-se compreender que as recordações de uma vida anterior sê-lo-iam mais dificilmente ainda. O cérebro não pode receber e armazenar senão as impressões comunicadas pela alma em estado de cativeiro na matéria. A memória só saberia reproduzir o que ele tem registrado.

Em cada renascimento, o organismo cerebral constitui para nós uma espécie de livro novo, sobre o qual se gravam as sensações e as imagens. Voltando à carne, a alma perde a memória de quanto viu e executou no estado de liberdade, e só tornará a lembrar-se de tudo quando abandonar de novo a sua prisão temporária.

O esquecimento do passado é a condição indispensável de toda prova e de todo progresso. O nosso passado guarda suas manchas e nódoas. Percorrendo a série dos tempos, atravessando as idades de brutalidade, devemos ter acumulado bastantes faltas, bastantes iniqüidades. Libertos apenas ontem da barbaria, o peso dessas recordações seria acabrunhador para nós. A vida terrestre é, algumas vezes, difícil de suportar; ainda mais o seria se, ao cortejo dos nossos males atuais, acrescesse a memória dos sofrimentos ou das vergonhas passadas.

A recordação de nossas vidas anteriores não estaria também ligada à do passado dos outros? Subindo a cadeia de nossas existências, o entrecho de nossa própria história, encontraríamos o vestígio das ações de nossos semelhantes. As inimizades perpetuar-se-iam; as rivalidades, os ódios e as discórdias agravar-se-iam de vida em vida, de século em século. Os nossos inimigos, as nossas vítimas de outrora, reconhecer-nos-iam e estariam a perseguir-nos com sua vingança.

Bom é que o véu do esquecimento nos oculte uns aos outros, e que, apagando momentaneamente de nossa memória penosas recordações, nos livre de um remorso incessante. O conhecimento das nossas faltas e suas consequências, erguendo-se diante de nós como ameaça medonha e perpétua, paralisaria os nossos esforço tornaria estéril e insuportável a nossa vida.

Sem o esquecimento, os grandes culpados, os criminosos célebres estariam marcados a ferro em brasa por toda a eternidade. Vemos os condenados da justiça humana, depois de sofrida a pena, serem perseguidos pela desconfiança universal, repelidos com horror por uma sociedade que lhes recusa lugar em seu seio, e assim muitas vezes os atira ao exército do mal. Que seria se os crimes do passado longínquo se desenhassem aos olhos de todos?

Quase todos temos necessidade de perdão e de esquecimento. A sombra que oculta as nossas fraquezas e misérias conforta-nos o ser, tornando-nos menos penosa a reparação. Depois de termos bebido as águas do Letes, renascemos mais alegremente para uma vida nova e desvanecem-se os fantasmas do passado. Transportando-se para um meio diferente, despertamos para outras sensações, abrem-se-nos outras influências, abandonamos com mais facilidade os erros e os hábitos que outrora nos retardaram a marcha. Renascendo sob a forma de criança, a alma culpada encontra em torno de si o auxílio e a ternura necessários à sua elevação.

Ninguém cuida em reconhecer nesse ser fraco e encantador o Espírito vicioso que vem resgatar um passado de faltas. Entretanto, para certos homens esse passado não está absolutamente apagado. Um sentimento confuso do que foram jaz no fundo de sua consciência. É a origem das intuições, das idéias inatas, das recordações vagas e dos pressentimentos misteriosos, como eco enfraquecido dos tempos decorridos. Consultando essas impressões, estudando-se a si mesmos com atenção, não seria impossível reconstituir esse passado, se não em suas minúcias, ao menos em seus traços principais.

Porém, no termo de cada existência, essas recordações longínquas ressuscitam em tropel e saem da sombra. Avançamos passo a passo, tateando na vida; vem a morte e tudo se esclarece. O passado explica o presente, e o futuro ilumina-se mais claramente. Cada alma, voltando à vida espiritual, recobra a plenitude das suas faculdades. Para ela começa, então, um período de exame, de repouso, de recolhimento, durante o qual se julga a si mesma e avalia o caminho percorrido. Recebe opiniões e conselhos de Espíritos mais adiantados. Guiada por eles, tomará re­soluções viris, e, na ocasião propícia, escolhendo um meio favorável, baixará a um novo corpo, a fim de se me­lhorar pelo trabalho e pelo sofrimento.

Voltando à carne, a alma perderá ainda a memória das suas vidas anteriores, e bem assim a recordação da vida espiritual, a única verdadeiramente livre e completa, perto da qual a morada terrestre lhe pareceria medonha. Longa será a luta, penosos os esforços necessários para recuperar a consciência de si mesma e as suas potências ocultas; porém, conservará sempre a intuição, o sentimento vago das resoluções tomadas antes de renascer.

19 - Emmanuel - Emmanuel - pág. 81, 133

XIV - A SUBCONSCIÊNCIA NOS FENÓMENOS PSÍQUICOS
Todas as teorias que pretendem elucidar os fenômenos mediúnicos, alheios à Doutrina Espiritista, pecam pela sua insuficiência e falsidade. Em vão, procura-se complicar a questão com termos rebuscados, apresentando-se as hipóteses mais descabidas e absurdas, porquanto os conhecimentos hodiernos da Física, da Fisiologia e da Psicologia não explicam fatos como os de levitação, de materialização, de natureza, afinal, genuinamente espírita.

Para a ciência anquilosada nas concepções dogmáticas de cada escola, a fenomenologia mediúnica não deve constituir objeto de ridículo e de zombaria, mas sim um amontoado de materiais preciosos à sua observação.

Felizmente, se muitos dos pesquisadores criaram os mais complicados sistemas elucidativos, cheios de extravagância nas suas enganadoras ilações, alguns deles, desassombradamente, têm colaborado com a filosofia espiritualista para a consecução dos seus planos grandiosos, que implicam a felicidade humana.

A SUBCONSCIÊNCIA
A subconsciência, tão investigada em vosso tempo, não elucida os problemas dos chamados fenômenos intelectuais. Os estudos levados a efeito sobre essa câmara escura da mente são ainda mal orientados e, apesar disso, muitas teorias apressadas presumem explicar todo o mediunismo com a sua estranha influência sobre o "eu" consciente. De fato, existem os fenômenos subliminais; todavia, a sub­consciência é o acervo de experiências realizadas pelo ser em suas existências passadas.

O Espírito, no labor incessante de suas múltiplas existências, vai ajudando as séries de suas conquistas, de suas possibilidades, de seus trabalhos; no seu cérebro espiritual organiza-se, então, essa consciência profunda, em cujos domínios misteriosos se vão arquivando as recordações, e a alma, em cada etapa da sua vida imortal, renasce para uma nova conquista, objetivando sempre o aperfeiçoamento supremo.

O OLVIDO TEMPORÁRIO

O esquecimento, nessas existências fragmentárias, obedecendo às leis superiores que presidem ao destino, representa a diminuição do estado vibratório do Espírito, em contacto com a matéria. Esse olvido é necessário, e, afastando-se os benefícios espirituais que essa questão implica, à luz das concepções científicas, pode esse problema ser estudado atenciosamente.

Tomando um novo corpo, a alma tem necessidade de adaptar-se a esse instrumento. Precisa abandonar a bagagem dos seus vícios, dos seus defeitos, das suas lembranças nocivas, das suas vicissitudes nos pretéritos tenebrosos. Necessita de nova virgindade; um instrumento virgem lhe é então fornecido. Os neurônios desse novo cérebro fazem a função de aparelhos quebradores da luz; o sensório limita as percepções do Espírito, e, somente assim, pode o ser reconstruir o seu destino. Para que o homem colha benefícios da sua vida temporária, faz-se mister que assim seja.

Sua consciência é apenas a parte emergente da sua consciência espiritual; seus sentidos constituem apenas o necessário à sua evolução no plano terrestre. Daí, a exiguidade das suas percepções visuais e auditivas, em relação ao número inconcebível de vibrações que o cercam.

AS RECORDAÇÕES

Todavia, dentro dessa obscuridade requerida pela sua necessidade de estudo e desenvolvimento, experimenta a alma, às vezes, uma sensação indefinível... é uma vocação inata que a impele para esse ou aquele caminho; é uma saudade vaga e incompreensível, que a persegue nas suas meditações; são os fenômenos introspectivos, que a assediam frequentemente.

Nesses momentos, uma luz vaga da subconsciência atravessa a câmara de sombras, impostas pelas células cerebrais, e, através dessa luz coada, entra o Espírito em vaga relação com o seu passado longínquo; tais fatos são vulgares nos seres evolvidos, sobre quem a carne já não exerce atuação invencível.

Nesses vagos instantes, parece que a alma encarnada ouve o tropel das lembranças que passam em revoada; aversões antigas, amores santificantes, gostos aprimorados, de tudo aparece uma fração no seu mundo consciente; mas, faz-se mister olvidar o passado para que se alcance êxito na luta.

O SANTUÁRIO DA MEMÓRIA
O corpo espiritual não retém somente a prerrogativa de constituir a fonte da misteriosa força plástica da vida, a qual opera a oxidação orgânica; é também ele a sede das faculdades, dos sentimentos, da inteligência e, sobretudo, o santuário da memória, em que o ser encontra os elementos comprobatórios da sua identidade, através de todas as mutações e transformações da matéria.

22 - Estudos Espíritas - Joanna de Ângelis - pág. 48, 73

(...) Formado por trilhões e trilhões de células de variada constituição, apresenta-se como o mais fantástico equipamento de que o homem tem notícia, graças à perfeição dos seus múltiplos órgãos e engrenagens, alguns dos quais, auto-suficientes, como o aparelho circulatório, que elabora até mesmo o de que se faz preciso para o seu funcionamento e produtividade.

Atendido por notáveis complexos elétricos e eletrônicos, é auto-reparador, dispondo dos mais perfeitos arquivos de microfotografia, nos centros da memória, que, se pudessem ser equiparadas a uma construção com as atuais técnicas de miniaturização com que se elaboram os computadores, esses departamentos mnmônicos ocupariam uma área de aproximadamente 160.000 quilômetros cúbicos, tão-somente para os bilhões de informações de uma única encarnação..

Ele pode, no entanto, mediante o perispírito quelhe vitaliza muitas evocações, reter e traduzir programações referentes a incontáveis jornadas pretéritas do Espírito em ascensão para Deus. Aparelhado para as diversas atividades que se lhe fazem mister, dispõe do quanto lhe é imprescindível para as transformações e renovações que o mantém com equipagem em funcionamento harmônico.

Qualquer ultraje que sofra se lhe imprime por processos muitos sutis, incorporando-o aos tecidos constitutivos da sua eficiência em gravames e ofensas que o transtornam, como cobrador honesto junto ao condutor leviano que o dirige em regime inadiável de urgência. (...)

(...) Muitos pensadores medievais adotaram a conceituação das vidas sucessivas, entregando-se às pesquisas mediante as quais não poucas vezes pagaram o atrevimento com a própria vida, em se considerando a intolerância e ignorância então vigentes em torno dos problemas espirituais. Incontáveis pessoas se hão surpreendido em face das lembranças das vidas passadas, em que mergulham inconscientemente, experimentando nas evocações os estados emocionais característicos das personagens que antes animaram.

Da sistemática recordação, com os sucessivos mergulhos nas lembranças do passado, muitos têm sido vítima de distonias de vária ordem, perturbando-se, sem conseguirem estabelecer os limites entre os fatos de uma e de outra existência: a do passado, que retorna vigorosa, e a do presente, que se vai submetendo ao impositivo da outra.

Na vida infantil, porque o espírito ainda se encontra em processo de fixação total nas células, apropriando-se do campo somático, a pouco e pouco, surgem frequentemente nos diversos campos da Arte, da Filosofia, da Ciência e da Religião os que externam precocidade surpreendente, revelando conhecimentos super em que vivem ou recordando os ensin anteriormente.

A memória da aprendizagem e dos fatos não se perde nunca, pois que esta não é patrimônio das células cerebrais, que as traduzem, estando incorporada ao perispírito, que a fixa, acumulando as experiências das múltiplas existências, mediante as quais o Espírito evolute, nas diversas faixas que se lhe fazem necessárias.

Crianças houve que foram capazes de se expressar corretamente em diversos idiomas, desde os dois anos de idade, sem os terem aprendido. Incontáveis crianças também revelaram pendor musical, compondo e interpretando peças clássicas antes que pudessem segurar um violino, ou dispor de mobilidade para uma oitava no teclado de um piano.

Assim também, matemáticos, astrônomos, físicos modernos evocam da última reencarnação quanto aprenderam e agora retornam a ampliar, ainda mais, as suas aquisições para serem aplicadas a serviço da Humanidade. No passado, Jean Baratier, que desencarnou com a idade de dezenove anos, vítima de cansaço cerebral, falava corretamente diversos idiomas, escreveu um dicionário, com larga complexidade etimológica.

William Hamilton, com apenas três anos estudou o hebraico. Mais tarde, aos doze anos, conhecia 12 idiomas que falava corretamente.
Outros — como no caso de Jaques Criston, que conseguia discutir utilizando-se do latim, grego, árabe, hebraico, sobre as mais diversas questões com tranquilidade — fizeram-se célebres.

Henri de Hennecke, com dois anos, expressava-se em três línguas... Volumosa é a literatura sobre o assunto, não somente na xenoglossia como em diversos ramos do Conhecimento. As evocações das vidas passadas independem da idade em que podem ocorrer. Naturalmente que na primeira infância são mais repetidas as lembranças da reencarnação anterior, pela facilidade com que o espírito, não totalmente interprenetrado pelas células físicas, conserva a memória das ocorrências guardadas.

No presente, as experiências de regressão de memória, pela hipnologia, vêm trazendo larga e valiosa contribuição ao estudo da reencarnação, pelas largas possibilidades de comprovação de que se podem dispor, ampliando grandemente o campo das observações e provas. (...)

30 - O consolador - Emmanuel - pág. 41, 81

Perg. 41 - A idéia de evolução, que tem influido na esfera de todas as ciências do mundo, desde as teorias darwinianas, representa agora uma nova etapa de aproximação entre os conhecimentos científicos do homem e as verdades do Espiritismo?
- Todas as teorias evolucionistas no orbe terrestre caminham para a aproximação com as verdades do Espiritismo, no abraço final com a verdade suprema.

Perg. 43 - Estabelecendo a psicologia do mundo como sede da memória, do julgamento e da imaginação, as partes do cérebro humano, cujas funções não são ainda devidamente conhecidas pela Ciência, retardam a solução de um problema que só pode ser satisfeito pelos conhecimentos espiritistas?
- Distante das cogitações de ordem divina, a psicologia terrestre efetua essa procrastinação, até que consiga atingir o profundo estuário da verdade integral.

Perg. 126 - As vibrações relativas ao bem e ao mal, emitidas pela alma encarnadas no seu aprendizado terrestre persistem no Espaço para exame e ponderação do futuro?
- Haveis de convir conosco que existem fenômenos físicos, transcendentes em demasia, para que possamos examiná-los devidamente na pauta exígua dos vossos conhecimentos atuais. Todavia, em se tratando de vibrações emitidas pelo Espírito encarnado, somos compelidos a reconhecer que essas vibrações ficam perenemente gravadas na memória de cada um; e a memória é uma chapa fotográfica, onde as imagens jamais se confundem. Bastará a manifestação da lembrança, para serem levadas a efeito todas as ponderações, mais tarde, no capítulo das expressões do mal e do bem.

36 - Religião dos Espiritos - Emmanuel - pág. 21

Memória além-túmulo - Reunião pública de 16-1-59 Questão n° 220
Automaticamente, por força da lógica, elege o homem na contabilidade uma das forças de base ao próprio caminho. Contas maiores legalizam as relações do comércio, e contas menores regulamentam o equilíbrio do lar.

Débitos pagos melhoram as credenciais de qualquer cidadão, enquanto que os compromissos menosprezados desprestigiam a ficha de qualquer um. Assim também, para lá do sepulcro, surge o registro contábil da memória como elemento de aferição do nosso próprio valor.

A faculdade de recordar é o agente que nos premia ou nos pune, ante os acertos e os desacertos da rota. Dessa forma, se os atos louváveis são recursos de abençoada renovação e profunda alegria nos recessos da alma, as ações infelizes se erguem, além do túmulo, por fantasmas de remorso e aflição no mundo da consciência.

Crimes perpetrados, faltas cometidas, erros deliberados, palavras delituosas e omissões lamentáveis esperam-nos a lembranças, impondo-nos, em reflexos dolorosos, o efeito de nossas quedas e o resultado de nossos desregramentos, quando os sentidos da esfera física não mais nos acalentam as ilusões.

Não olvideis, assim, que, além da morte, a vida nos aguarda em perpetuidade de grandeza e de luz, e que, nessas mesmas dimensões de glorificação e beleza, a memória imperecível é sempre o espelho que nos retrata o passado, a fim de que a sombra, reinante em nós, se dissolva, nas lições do presente impelindo-nos a seguir, desenleados da treva, no encalço da perfeição com que nos acena o futuro.