MISTIFICAÇÕES
BIBLIOGRAFIA
01- A agonia das religiões- pág. 79 02 - A alma é imortal - pág. 277
03 - A renascença da alma - pág. 153 04 - Animismo ou Espiritismo? - pág. 79, 95
05 - Auto desobsessão - pág.25 06 - Chão de flores - pág. 89
07 - Correlações Espírito-matéria - pág. 11 08 - Curso Din. de Espiritismo - pág. 158
09 - Devassando o invisível - pág. 103 10 - Emmanuel - pág. 68
11 - Espírito e vida - pág. 87 12 - História do Espiritismo - pág. 228, 416
13 - Mediunidade - pág. 81, 251 14 - O amor venceu - pág. 188
15 - O consolador - pág. 222

16 - O Livro dos Espíritos- intro III, vi, xii, q.99, 103

17 - O Livo dos Médiuns - questão 303 18 - O que é Espiritismo - pág. 179
19 - Os mensageiros - pág. 55 20 - Pão nosso - pág. 39
21 - Rumos libertadores - pág. 138 22 - Síntese de o novo testamento - pág. 68, 173
23 - Trabalhos Praticos de Espiritismo - pág. 83 24 - Vozes do grande além - pág. 138, 192

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MISTIFICAÇÕES – COMPILAÇÃO

01- A agonia das religiões - José Herculano Pires - pág. 79

CAPÍTULO - X MAGIA E MISTICISMO
O homem primitivo não via o mundo, mas a magia da Natureza. Não tendo ainda o pensamento desenvolvido, o raciocínio metodizado, não podia sequer conceber o mundo. Tinha mais sensações do que emoções e mais emoções do que idéias. Seus sentimentos germinavam no plano larvar dos instintos. E os instintos animais o dominavam, sem dar lugar aos instintos espirituais. Era mais corpo que alma. Kardec assinala dois seres na estrutura humana: o ser do corpo e o ser espiritual. No homem atual esses dois seres se equilibram e a sua psicologia pode ser medida pela predominância de um ou de outro ou pela sua equivalência.

As pessoas em que predomina o ser do corpo estão mais próximas do primitivismo. Aqueles em que os dois seres se equivalem apegam-se mais às coisas materiais e têm dificuldade em conceber a realidade do espírito. As pessoas em que predomina o ser espiritual dão mais importância às questões espirituais. As primeiras estão apegadas ao passado humano, as segundas à pragmática do presente e as terceiras tendem para o futuro. Mas entre uma e outra dessas posições evolutivas existem numerosas variações que podem ser classificadas em fases intermediárias de múltiplas nuanças. A escala espírita de "O Livro dos Espíritos" oferece-nos um quadro psicológico geral dessas talvez inumeráveis variações tipológicas.

A percepção mágica do mundo (restrita ao ambiente tribal ou do clã) levou o homem primitivo às práticas mágicas. Seu pensamento se desenvolvia na experiência, revelando-lhe progressivamente as relações existentes entre as coisas e os seres. Podemos supô-las assim, como simples dados exemplificativos: vida-alimento, bicho-mato, peixe-água, ave-céu, fruta-árvore, flecha-caça-inimigo, homem-mulher-criança, dia-sol, noite-escuro-lua. Essas relações primárias lhe davam a possibilidade de agir com eficiência no meio físico.

Através delas ele começou a agir instintivamente no plano espiritual e nasceu a magia simpática ou simpatética, a arte incipiente de atingir o inimigo através de reproduções de sua figura em barro ou madeira e de evocar as forças benéficas através de símbolos correspondentes a elas. Nascia o feitiço e conseqüentemente o feiticeiro. E de ambos nasceriam mais tarde os ídolos, os sacramentos, os sacerdotes e as religiões com seus rituais. Esses processos rudimentares arrancavam o homem da selva e do gelo e o lançavam na direção da civilização. Um longo caminho a percorrer no aprimoramento dessas técnicas primitivas através dos milênios.

Mas os homens não estavam sós nem abandonados a si mesmos em nenhuma dessas fases. A idéia de Deus pairava obscura sobre o fundo nebuloso de suas experiências filogenéticas e a lei de adoração os levava a reverenciar o mistério da terra, das águas, do céu estrelado, das montanhas coroadas de nuvens. Do fundo escuro das matas surgiam o bem e o mal, as forças e os seres benéficos e maléficos. Muitos desses seres não tinham a consistência das criaturas de carne e osso. Apareciam e desapareciam como as chamas noturnas dos fogos-fátuos.

Uns os auxiliavam e eram considerados deuses benfazejos. Outros os ameaçavam e eram os deuses malfazejos. Espíritos bons velavam pelas tribos e orientavam os seus chefes. Pagés e xanãs tinham o dom de evocá-los e consultá-los. Como nas cidades cósmicas da Grécia arcaica, de que tratou Durkheim, homens e deuses conviviam numa espécie de intermúndio. Essa situação perdurou nas civilizações agrárias, no ciclo das grandes civilizações orientais, no mundo clássico, gerando as religiões mitológicas com seus oráculos e suas pitonisas. No Judaísmo e no Cristianismo temos a sua continuidade, o que se pode verificar pelos textos bíblicos e evangélicos.

Já no Paganismo encontramos as práticas místicas dos chamados Mistérios, com rituais específicos para levar os iniciados à relação direta com o mundo espiritual e especialmente com Deus. No Egito antigo e nas religiões dos impérios americanos dos aztecas, maias e incas havia o emprego de sumos vegetais que originariam as drogas atuais como a mescalina e o ácido-lisérgico, para a produção do estado de êxtase, que é o fenômeno central dessas práticas. Pelo êxtase, provocado ou espontâneo, o místico se desliga de toda a realidade sensível, do mundo material, e mergulha no inteligível, no mundo espiritual.

O Misticismo tem suas origens remotas no êxtase dos pagés, que em meio às selvas procuravam o contato direto com os espíritos protetores das tribos. O pressuposto do misticismo nas eras civilizadas é a possibilidade humana de superação dos sentidos e da razão para obter-se o conhecimento superior nas fontes divinas. Esse pressuposto conduz os homens a uma fuga da realidade. No Espiritismo as práticas místicas são condenadas por dois motivos fundamentais: 1.°) porque o homem está no mundo para viver o mundo com o fim de desenvolver na experiência da vida de relação, as suas potencialidades internas; 2.°) porque a ligação do homem com Deus se faz através do amor ao próximo, na prática da caridade (que é o amor em ação) e de maneira natural, sem a necessidade de práticas rituais ou do emprego de excitantes de qualquer espécie.

As pessoas que consideram o Espiritismo como doutrina mística confundem a fenomenologia mediúnica com as práticas do misticismo. Não sabem que a mediunidade — como hoje está confirmado pelas pesquisas parapsicológicas — é simplesmente uma faculdade humana natural que permite a todos o exercício da percepção extra-sensorial. O misticismo nasceu das manifestações naturais dessa faculdade e da falta de condições culturais para o seu estudo racional. A mística experiência de Deus das religiões dogmáticas depende das práticas místicas e de uma concepção anti-racional do mundo e da vida. Por isso Ranzolli propõe a limitação do termo misticismo às filosofias religiosas, substituindo-o no campo filosófico geral por expressões como irracionalismo e intuicionismo ou sentimentalismo.

O Cristianismo — que os árabes chamaram religião do livro — utilizou-se em sua origem da mediunidade, mas sua posição em face das religiões anteriores foi nitidamente racionalista. Todos os ensinos de Jesus, mesmo quando ele se referia a Deus, chamando-o de Pai, são racionais. Sua condenação constante do irracionalismo judeu foi sempre seguida de explicações racionais, através de exemplos em forma de parábolas tiradas da própria vida diária do povo. Ao tratar do dogma judaico da ressurreição ele se referia claramente ao nascer de novo, usando exemplos históricos como a volta de Elias reendarnado em João Batista.

Suas referências às potencialidades divinas do homem eram exemplificadas pelos fenômenos produzidos por ele mesmo e pelos seus seguidores. Nunca falou da sua ressurreição como um privilégio, mas ligando-a à ressurreição de todos. O Apóstolo Paulo incumbiu-se de formular a teoria racional da ressurreição, não da carne, mas do espírito, explicando que o corpo espiritual do homem, hoje descoberto pelas ciências como corpo-bioplásmico, é o corpo da ressurreição.

Esse racionalismo foi posteriormente prejudicado pelas influências pagãs e judaicas do misticismo, que atingiriam nas igrejas cristãs um refinamento intelectualista paradoxal, opondo o intelecto a si mesmo. Todo o esforço de Jesus no combate à mitologia foi anulado pelos teólogos, que transformaram ele mesmo em novo mito, fazendo de sua natureza humana uma espécie de simples manifestação pragmática da sua divindade.

O Espiritismo retoma a tradição racionalista do Cristianismo primitivo e, da mesma maneira que os antigos cristãos, prova na prática os ensinos teóricos de Jesus através das manifestações espíritas, da prova concreta das materializações e das aparições tangíveis (como a de Jesus para os apóstolos no cenáculo) dos fenômenos de voz-direta (como o da voz que soou no espaço na hora do batismo) e dos casos pesquisáveis de reencarnação, hoje em pauta na pesquisa científica mundial. Nada disso se refere a misticismo, a práticas místicas através de processos mágicos, de excitantes específicos e de tentativas antinaturais de transformar o homem vivo em um morto-vivo que nega o mundo para viver como espírito desencarnado, desligado dos processos necessários da razão.

O homem é deus em potência, não em ato, e não pode querer antecipar a sua atualização fugindo aos compromissos e experiências da vida terrena. Seus deveres estão aqui, neste mundo, por enquanto, e suas possibilidades de evolução, de transcendência, não se encontram na alienação, na fuga, mas na integração consciente em suas tarefas sociais. O tempo das igrejas está chegando ao fim, como chegou o dos Mistérios na Antiguidade. Elas foram necessárias e tanto serviram como desserviram à Humanidade, revelando sua estrutura imperfeita como a de todas as obras humanas.

Em vão se arrogaram investiduras divinas. A mente humana se abre hoje para novas dimensões e as igrejas não têm condições para acompanhá-la nesse avanço. A luta sem tréguas que sustentaram e ainda sustentam contra o Espiritismo e em especial contra a mediunidade provou a sua incapacidade para enfrentar os novos tempos. A dinâmica da concepção espírita se opõe à mecânica ritual das igrejas como a Física moderna se opõe à Física do passado.

Na proporção em que as camadas retrógradas da população terrena vão sendo afastadas do planeta, na sucessão inevitável das gerações, cresce o esvaziamento das igrejas" e os seminários vão sendo fechados por falta de alunos. Foi o que aconteceu com as religiões mitológicas do mundo greco-romano. Para poderem sobreviver, as igrejas têm de desigrejar-se, suprimindo o profissionalismo sacerdotal, as suas dogmáticas absurdas, as liturgias vazias de sentido. Antes que possam pagar esse preço demasiado elevado, as forças da evolução as varrerão da face da Terra.

Isto não é uma profecia espírita, é uma profecia evangélica de Jesus, no episódio com a mulher samaritana. Que ninguém me acuse de responsável por essa previsão que elas mesmas, as igrejas, por dois mil anos fizeram ler no Evangelho em seus cultos sem a entenderem.Também não entenderam a questão das muitas moradas da Casa do Pai, nem a do batismo espiritual, nem a do nascer de novo, nem a condenação das exigências rituais dos fariseus. (..)

02 - A alma é imortal - Gabriel Delanne - pág. 277

Pode demonstrar-se a identidade por meio de provas intelectuais?
Fiel ao seu método, o Sr. Aksakof não acredita que se possa estar certo da identidade de um Espírito, ainda quando ele revela fatos referentes à sua existência terrestre, na ausência de pessoas que conheçam esses fatos, porquanto outro Espírito também poderia conhecê-los. É esta a sua argumentação:"É evidente que essa possibilidade de imitação ou de personificação (de substituição da personalidade) se deve igualmente admitir para os fenômenos de ordem intelectual.


"O conteúdo intelectual da existência terrestre de um Espírito, a que chamaremos A, deve ser muito mais acessível a outro Espírito", que designaremos por B, do que os atributos dessa existência. Tomemos mesmo o caso em que o Espírito se exprima numa língua que o médium desconhece, mas que era a do defunto. É inteiramente possível que o "Espírito" mistificador também conheça precisamente essa língua. Então, só restaria a prova de identidade pela escrita, que não poderia ser imitada. Fato que essa prova fosse dada com uma abundância e uma perfeição excepcionais, como no caso do Sr. Livermore, que também a grafia e, sobretudo, as assinaturas falsificações e imitações.

Assim, depois da substituição de uma personalidade sobre o plano terreno — pela atividade inteligente exterior ao médium inteligente exterior ao médium. Logicamente falando, tal substituição careceria de limites. O quiproquó seria sempre possível e imaginável. O que aqui a lógica nos leva a admitir, em princípio, a prática espírita o prova. O elemento mistificação, no Espiritismo, é fato incontestável, como se reconheceu, desde o seu advento. É claro que, além de certos limites, já não se pode lançar inconsciente, tornando-se ele um argumento a favor extra-mediúnico, supraterrestre."

Toda a argumentação do sábio russo assenta nessa presunção de que o conteúdo intelectual da existência terrena de um Espírito A é perfeitamente acessível a um Espírito B. Temos para nós que essa proposição intelectual da existência terrena de um Espírito A é perfeitamente acessível a um Espírito B. Temos para nós que essa proposição reclama estudo mais acurado. Sabemos que os Espíritos, para se exprimirem, não precisam da linguagem articulada. Eles se compreendem sem o recurso da palavra, pela só transmissão do pensamento, linguagem essa universal que todos apreendem. Resulta, porém, daí que todos os Espíritos vêem todos os pensamentos, uns dos outros? Não, conforme a experiência o demonstra.

Do mesmo modo que o paciente magnético mais ricamente dotado não penetra os pensamentos de todos os os circunstantes, também, no espaço, muitos desencarnados são absolutamente incapazes de apreender os pensamentos dos demais Espíritos, tanto que estes não entram em comunicações com eles. A faculdade da clarividência está em relação com a elevação moral e intelectual do Espírito. Isso ressalta bastante das comunicações que se recebem, porquanto, se o "conteúdo Intelectual" do Espírito de um Newton, de um Vergílio, ou de um Demóstenes estivesse ao alcance de qualquer um, muito menos banalidades se assimilariam em grande número das mensagens que nos chegam do Além.

A verdade é que a morte não confere à alma conhecimentos que ela não adquiriu pelo seu trabalho. Lá, no espaço, o Espírito vai encontrar-se tal qual se fez pelo seu labor pessoal e se, uma ou outra vez, um Espírito se revela, depois da morte, superior ao que parecia ser neste mundo, é que manifesta aquisições anteriores, obnubiladas temporariamente na sua última existência corpórea.
Admitamos, contudo, por um instante, que um Espírito A conheça os acontecimentos da vida terrestre de um Espírito B. Bastará isso para lhe dar o caráter de B e a maneira por que este se exprime? Evidentemente, não.

E, se o Espírito A se encontrar em presença de um observador sagaz que haja conhecido suficientemente B, não custará ser desmascarado. Diz-se: o estilo é o homem. É quase impossível que alguém simule o modo por que se exprime um indivíduo, mesmo que conheça episódios de sua passada existência. Refutamos igualmente em que, se um Espírito A pudesse imprimir ao seu envoltório físico os caracteres exteriores do do Espírito B, podendo ao mesmo tempo dispor do conteúdo intelectual da existência terrena deste último, os dois seriam idênticos e indistinguíveis, o que é impossível, porquanto se A possuísse esse poder, B, C, D... X Espíritos também o teriam.

Existiriam, pois, inumeráveis exemplares do mesmo tipo, sobretudo do de um homem que se houvesse distinguido num ramo qualquer da Ciência, da Arte, ou da Literatura, o que não acontece. Se acontecesse, haveria na erraticidade indescritível confusão que as comunicações recebidas desde há cinquenta anos nunca nos deram a conhecer. Há, decerto, Espíritos vaidosos que, nas suas relações conosco, gostam de pavonear-se com grandes nomes; geralmente, porém, o estilo de que usam faculta sejam para logo classificados no lugar que lhes compete. Entretanto, também se podem imitar mais ou menos habilmente os grandes escritores, de sorte que se torna difícil estabelecer a identidade das personagens históricas.

Mas, o mesmo já não sucede, quando se trata de um parente ou de um amigo a quem conhecemos bem, cujo estilo, agudeza de espírito, modos de ver sobre diferentes assuntos nos são muito familiares. Tem-se aí uma mina rica a explorar. Quando o Espírito responde corretamente a todas as questões que se lhe propõem, reconhecem-se-lhe as expressões favoritas e, então, parece-nos indubitável que a sua identidade resulta tão perfeitamente formada, quanto se poderia desejar.

Pretendeu-se que a consciência sonambúlica do médium pode ler no inconsciente do evocador, de modo a fornecer todas as particularidades que parecem provar a identidade e que, assim, há sempre possibilidade de ilusão. Mas, semelhante fato nunca foi demonstrado rigorosamente e bem longe estão de ser probantes as pesquisas dos Srs. Binet e Janet sobre a personalidade sonambúlica que coexistiria com a personalidade normal. Nas experiências feitas por esses sábios, aquela dupla consciência não se mostra senão quando a ação hipnótica ainda se está exercendo.

O Sr. Pierre Janet quis imitar por sugestão as comunicações automáticas dos médiuns, mas muito vaga é a analogia das suas experiências com o processo dos médiuns escreventes; nunca o seu paciente lhe revela alguma coisa ignorada cuja exatidão ele verifique a propósito de uma pessoa falecida, do mesmo modo que espontaneamente não dará comunicações verificáveis. Os trabalhos dos hipnotizadores modernos absolutamente não demonstram — na nossa opinião — que haja no homem duas individualidades que se ignoram mutuamente. O inconsciente não é mais do que o resíduo do Espírito, isto é, vestígios físicos das sensações, dos pensamentos, das volições fixadas sob a forma de movimentos no invólucro perispirítico e cuja intensidade vibratória não basta para fazê-los aparecer no campo da consciência.

Se, entretanto, pela ação da vontade se intensifica o movimento vibratório desses resíduos, o "eu" torna a percebê-los sob a forma de lembranças. O sonambulismo, desprendendo a alma e dando ao perispirito um novo tônus vibratório, cria condições diferentes para o registro dos pensamentos e das sensações, de sorte que, volvendo ao estado normal, o Espírito já não tem consciência do que se passou durante aquele período. Demais, esse desprendimento facilita o exercício das faculdades superiores do Espírito: telepatia, clarividência, etc... que habitualmente se não exercem durante o estado de vigília. (...)

04 - Animismo ou Espiritismo? - Ernesto Bozzano - pág. 79, 95

(..) Com relação a este ponto, não será ocioso lembrar que, também nas clássicas experiências de transmissão do pensamento por via mediúnica, realizadas com severo critério científico pelo Rev. Newnham ("Proceedings", vol. III, págs. 3-23), e em que a médium era sua própria mulher, se davam às vezes análogas interferências subconscientes, porém de ordem mais que embaraçosa, pois não se tratava de simples erros e sim de verdadeiras e positivas mistificações, análogas em tudo às que se registram nas comunicações com os defuntos, circunstância altamente interessante e instrutiva, que merece recordada.

O Rev. Newnham experimentava com sua própria esposa, sentados ambos no mesmo aposento, ele a oito pés de distância dela, dando-se as costas um ao outro. Ele escrevia uma a uma as perguntas que resolvia transmitir mentalmente à sensitiva, que pousava a mão sobre uma "prancheta", por meio da qual respondia instantaneamente a cada pergunta, antes mesmo que ele tivesse tempo de escrevê-la. As respostas correspondiam sempre às perguntas e se referiam, as mais das vezes, a coisas e assuntos que a sensitiva desconhecia, mas conhecidas do experimentador, exceto uma vez em que a resposta dava uma informação que também ele ignorava.

Nesse caso, porém, era conhecida de outra pessoa presente, que escrevera a pergunta e a dera a ler ao reverendo Newnham. Importante ensinamento a tirar-se das experiências em apreço reside na circunstância de que, quando o experimentador se mostrava demasiado exigente, insistindo por obter respostas muito complexas para a capacidade de percepção subconsciente da sensitiva, surgiam respostas que, conquanto de perfeito acordo com as perguntas, eram de pura invenção. Assim, por exemplo, havendo Newnham, que fazia parte da Maçonaria, pedido à sensitiva que escrevesse a prece maçônica de uso para a promoção a Grão-Mestre, a "prancheta" escreveu instantaneamente uma longa prece nesse sentido, que continha reminiscências maçônicas, mas que no conjunto era uma fantástica invenção.

Ora, essa espécie de mistificações, em experiências de transmissão mediúnica do pensamento, são muito sugestivas e interessantes, pela analogia que apresentam com as correspondentes interferências mistificadoras que frequentemente se dão nas comunicações mediúnicas genuinamente espiríticas. Dir-se-ia que as excessivas insistências do pesquisador, tendo por efeito determinar, nas personalidades mediúnicas, uma demasiada tensão da vontade, com relativa dispersão de fluido mediúnico e consecutivo enfraquecimento do "controle psíquico", abrem passagem à "camada onírica" da subconsciência, a qual, emergindo, continua a seu modo a comunicação em curso, desenvolvendo uma ação de sonho.

De toda maneira, importa tomar nota de que as "mistificações espirítas" guardam analogia com as "mistificações anímicas" que se verificam nas comunicações mediúnicas entre vivos, do que resulta um ensinamento teórico notabilíssimo, porque fundado em processos de análise comparada, aplicada às duas classes de manifestações em foco. E' de tal modo importante o assunto das mistificações mediúnicas desse gênero, que sou levado a sair, por exceção, dos limites do tema das "comunicações mediúnicas entre vivos", para pesquisá-lo ulteriormente e completá-lo com citações tiradas das "comunicações mediúnicas entre vivos conseguidas por intermédio de entidades de defuntos", pois importa assinalar que, se é certo que muitos erros e numerosas mistificações mediúnicas se dão em consequência da imperfeição do instrumento receptor das mensagens, ou, seja, do médium, isso não significa que se haja exaurido o árduo tema vertente sobre a gênese das manifestações mediúnicas.

Quer dizer que também se deve ter muito em conta a circunstância de que podem dar-se, como de fato se dão, erros e mistificações de toda espécie, dependentes das condições precárias em que se produzem as comunicações mediúnicas, mesmo pelo lado extrínseco dos defuntos que se comunicam. Limito-me, portanto, a demonstrá-lo, baseado numa série de experiências recentes, conduzidas com critério rigorosamente científico pelo Sr. Frederick James Craw-ley, Chief Constable of the Newcastle-upon-Tkne City Police, função que o torna sobremodo consciente da importância que revestem os mais minunciosos pormenores nas experiências desta natureza, com respeito às quais ele expõe os fatos revelando o máximo cuidado em corroborá-los mediante tão abundante quão exaustiva documentação, constituída de trechos de cartas pertecentes ao acervo da correspondência trocada pelos dois círculos de experimentação, assim como da citação das datas referentes a todas as mínimas circunstâncias de fato e, ainda, de esclarecimentos e comentários que nada deixam a desejar. Dessa maneira, chegou a realizar uma obra cientificamente importante e teoricamente preciosa. (..)

(..)— Porquê?— Não o perguntes. Provavelmente, porque, se revelássemos tudo, provocaríamos no mundo um revolvimento social por demais violento.— Dize-me ao menos quem te proíbe que fales.— Não o perguntes. ("Annales dês Sciences Psychi-ques", 1909, pág. 201). Como esclarecimento desse diálogo, cumpre informar que o Prof. Ochorowicz chegara a arrancar à "Pequena Stásia" algumas informações vagas acerca do seu ser, segundo as quais ela seria um Espírito que nunca encarnara na Terra e que aguardava a sua vez, se bem que pouco desejosa de renunciar à livre existência de espírito.

Dito isto, assinalo a circunstância nada comum de uma personalidade mediúnica declarar explicitamente que, sã insistissem em saber demais, acabaria pregando mentiras, resposta curiosa e perturbadora, mau grado à manifesta circunspeção das personalidades em jogo, e que põe de prevenção o interrogante contra tudo o que o espera, se não desistir dos seus propósitos excessivamente indagadores. Muitas coisas essa resposta explicaria e dissiparia muitas dúvidas do mediunismo teórico, porquanto reclamaria a seu turno uma explicação, visto que não se compreenderia a necessidade de recorrer a mentiras, quando, em tais circunstâncias, bastaria replicar do modo por que o fez a "Pequena Stásia", isto é, ponderando não lhe ser permitido responder a perguntas indiscretas.

Ao mesmo tempo, a expressão usada pela personalidade mediúnica, de que "não lhe era permitido fazê-lo", implicaria a existência de entidades espirituais superiores, reguladoras dos destinos humanos, a cujos decretos se submeteriam os Espíritos de grau inferior, ainda capazes de se comunicarem mediünicamente com os vivos. Quantos mistérios a desvendar! Dentre eles, destaco este: há entidades espirituais superiores que interdizem aos Espíritos que se comunicam a revelação de certos segredos do Além, para os quais a Humanidade não está preparada, ficando subentendido que as mesmas entidades permitem a esses Espíritos que supram com mentiras a curiosidade dos vivos.

Assim sendo, ter-se-ia de inferir que, em certas contingências, também as mentiras se justificam, no sentido, talvez, de que resultem propícias à evolução ordenada e regular das disciplinas metapsíquicas, por exercerem uma benéfica influência moderadora sobre a difusão dessas disciplinas no seio das massas, influência que de outra forma se não conseguiria, do mesmo modo que a evolução biológico-psíquica das espécies não pode ser conseguida, senão com a intervenção do fator Mal, em perpétuo contraste com o fator Bem.

Quando assim fosse, dever-se-ia dizer que, para as vicissitudes evolutivas da nova Ciência da Alma, também teriam sua razão de ser as mentiras proferidas pelas entidades espirituais inferiores, em circunstâncias especiais, porquanto desorientariam os experimentadores demasiado crédulos, obrigando-os a meditar e a aprofundar ulteriormente o tema, determinando paradas providenciais no progresso das pesquisas psíquicas, obstando às convicções intempestivas, baseadas em fé cega, com grande vantagem para os métodos de pesquisa ciertífica, e, sobretudo, esconjurando o perigo de um "revolvimento social muito violento", como infalivelmente se daria, se a nova orientação do pensamento ético-religioso houvesse de impor-se com perniciosa rapidez às massas não preparadas.

Benvindas são, por conseguinte, as mistificações espiríticas e as fraudes subconscientes e conscientes dos médiuns, quando atuam como freios moderadores sobre a rápida e imprudente corrida a que facilmente se entregariam alguns núcleos, excessivamente impulsivos, do novo exército do Ideal. Como quer que seja, o fato é que as mistificações e as mentiras da natureza indicada se dão frequentemente nas manifestações mediúnicas e, assim sendo nada obsta a que se atribua a gênese de umas e outras às causas assinaladas, isto é, de uma parte aos surtes frequentes do "elemento onírico-subconsciente" nos sensitivos.

E, de outra parte, a mistificações do Além, às vezes produzidas voluntariamente pelas personalidades mediúnicas, com objetivo de disciplina espiritual e para salvaguarda da ordenada evolução espiritual humana, afastando o perigo de uma reforma excessivamente precipitada de instituições religiosas milenárias, reforma que, ao contrário, deve operar-se com muita lentidão, com muita prudência, de forma muito conciliatória, de sorte a preparar-se simultaneamente a reconstrução do novo Templo de Deus. Assim, não será ocioso tomar nota deste outro ensinamento extraído da análise comparada dos fenômenos Anímicos com os fenômenos Espíriticos. (..)

10 - Emmanuel - Emmanuel - pág. 68

Necessidade da exemplificação:
Todos os médiuns, para realizarem dignamente a tarefa a que foram chamados a desempenhar no planeta, necessitam identificar-se com o ideal de Jesus para alicerce de suas vidas o ensinamento evangélico, em sua divina pureza; a eficácia de sua ação depende do seu desprendimento e da sua caridade, necessitando compreender, em toda a amplitude, a verdade contida na afirmação do Mestre: "Dai de graça o que de graça receberdes."

Devendo evitar, na sociedade, os ambientes nocivos e viciosos, podem perfeitamente cumprir seus deveres em qualquer posição social a que forem conduzidos, sendo uma de suas precípuas obrigações melhorar o seu meio ambiente com o exemplo mais puro de verdadeira assimilação da doutrina de que são pregoeiros.

Não deverão encarar a mediunidade como um dom ou como um privilégio, sim como bendita possibilidade de reparar seus erros de antanho, submetendo-se, dessa forma, com humildade, aos alvitres e conselhos da Verdade, cujo ensinamento está, frequentemente, numa inteligência iluminada que se nos dirige, mas que se encontra igualmente numa provação que, humilhando, esclarece ao mesmo tempo o espirito, enchendo-lhe o íntimo com as claridades da experiência.

O PROBLEMA DAS MISTIFICAÇÕES

O problema das mistificações não deve impressionar os que se entregam às tarefas mediúnicas, os quais devem trazer o Evangelho de Jesus no coração. Estais muito longe ainda de solucionar as incógnitas da ciência espírita, e se aos médiuns, às vezes, torna-se preciso semelhante prova, muitas vezes os acontecimentos dessa natureza são também provocados por muitos daqueles que se socorrem das suas possibilidades.

Tende o coração sempre puro. É com a fé, com a pureza de intenções, com o sentimento evangélico, que se podem vencer as arremetidas dos que se comprazem nas trevas persistentes. É preciso esquecer os investigadores cheios do espírito de mercantilismo!... Permanecei na fé, na esperança e na caridade em Jesus-Cristo, jamais olvidando que só pela exemplificação podereis vencer.

APELO AOS MÉDIUNS

Médiuns, ponderai as vossas obrigações sagradas! preferi viver na maior das provações a cairdes na estrada larga das tentações que vos atacam, insistentemente, em vossos pontos vulneráveis.

Recordai-vos de que é preciso vencer, se não quiserdes soterrar a vossa alma na escuridão dos séculos de dor expiatória. Aquele que se apresenta no Espaço como vencedor de si mesmo é maior que qualquer dos generais terrenos, exímio na estratégia e tino militares. O homem que se vence faz o seu corpo espiritual apto a ingressar em outras esferas e, enquanto não colaborardes pela obtenção desse organismo etéreo, através da virtude e do dever cumprido, não saireis do círculo doloroso das reencarnações.

15 - O consolador - Emmanuel - pág. 222

Perg. 401 - A mistificação sofrida por um médium significa ausência de amparo dos mentores do plano espiritual?
-A mistificação experimentada por um médium traz, sempre, uma finalidade útil, que é a de afastá-lo do amor-próprio, da preguiça no estudo de suas necessidades próprias, da vaidade pessoal ou dos excessos de confiança em si mesmo.

Os fatos de mistificação não ocorrem à revelia dos seus mentores mais elevados, que, somente assim, o conduzem à vigilância precisa e às realizações da humildade e da prudência no seu mundo subjetivo.

18 - O que é Espiritismo - Allan Kardec - pág. 179

QUALIDADES DOS MÉDIUNS
79. A faculdade mediúnica é uma propriedade do organismo e não depende das qualidades morais do médium; ela se nos mostra desenvolvida, tanto nos mais dignos, como nos mais indignos. Não se dá, porém, o mesmo com a preferência que os Espíritos bons dão ao médium.

80. Os Espíritos bons se comunicam mais ou menos de boa-vontade por esse ou aquele médium, segundo a simpatia que lhe votam.
A boa ou má qualidade de um médium não deve ser julgada pela facilidade com que ele obtém comunicações, mas por sua aptidão em recebê-las boas e em não ser ludibriado pelos Espíritos levianos e enganadores.

81. Os médiuns menos moralizados recebem também, algumas vezes, excelentes comunicações, que não podem vir senão de bons Espíritos, o que não deve ser motivo de espanto: é muitas vezes no interesse dos médiuns e com o fim de dar-lhes sábios conselhos. Se eles os desprezam, maior será a sua culpa, porque são eles que lavram a sua própria condenação. Deus, cuja bondade é infinita, não pode recusar assistência àqueles que mais necessitam dela. O virtuoso missionário que vai moralizar os criminosos, não faz mais que os bons Espíritos com os médiuns imperfeitos.

De outra sorte, os bons Espíritos, querendo dar um ensino útil a todos, servem-se do instrumento que têm a mão; porém, deixam-no logo que encontram outro que lhes seja mais afim e melhor se aproveite de suas lições. Retirando-se os bons Espíritos, os inferiores, que pouco se importam com as más qualidades morais do médium, acham então o campo livre. Resulta daí que os médiuns imperfeitos, moralmente falando, os que não procuram emendar-se, tarde ou cedo são presas dos maus Espíritos, que, muitas vezes, os conduzem à ruína e às maiores desgraças, mesmo na vida terrena.

Quanto à sua faculdade, tão bela no começo e que assim devia ter sido conservada, perverte-se pelo abandono dos bons Espíritos, e, afinal, desaparece.

82. Os médiuns de mais mérito não estão ao abrigo das mistificações dos Espíritos embusteiros; primeiro, porque não há ainda, entre nós, pessoa assaz perfeita, para não ter algum lado fraco, pelo qual dê acesso aos maus Espíritos; segundo, porque os bons Espíritos permitem mesmo, às vezes, que os maus venham, a fim de exercitarmos a nossa razão, aprendermos a distinguir a verdade do erro e ficarmos de prevenção, não aceitando cegamente e sem exame tudo quanto nos venha dos Espíritos; nunca, porém, um Espírito bom nos virá enganar; o erro, qualquer que seja o nome que o apadrinhe, vem de uma fonte má.

Essas mistificações ainda podem ser uma prova para a paciência e perseverança do espírita, médium ou não; e aqueles que desanimam, com algumas decepções, dão prova aos bons Espíritos de que não são instrumentos com que eles possam contar.

83. Não nos deve admirar ver maus Espíritos obsidiarem pessoas de mérito, quando vemos na Terra homens de bem perseguidos por aqueles que o não são. É digno de nota que, depois da publicação de O Livro dos Médiuns, o número de médiuns obsidiados diminuiu muito; os médiuns, prevenidos, tornam-se vigilantes e espreitam os menores indícios que lhes podem denunciar a presença de mistificadores. A maioria dos que se mostram ainda nesse estado não fizeram o estudo prévio recomendado, ou não deram importância aos conselhos que receberam.

84. O que constitui o médium, propriamente dito, é a faculdade; sob este ponto de vista, pode ser mais ou menos formado, mais ou menos desenvolvido. O médium seguro, aquele que pode ser realmente qualificado de bom médium, é o que aplica a sua faculdade, buscando tornar-se apto a servir de intérprete aos bons Espíritos.

O poder que tem o médium de atrair os bons e re­pelir os maus Espíritos, está na razão da sua superiori­dade moral, da posse do maior número de qualidades que constituem o homem de bem; é por esses dotes que se concilia a simpatia dos bons e se adquire ascendência sobre os maus Espíritos.

85. Pelo mesmo motivo, as imperfeições morais do médium, aproximando-o da natureza dos maus Espíritos, tiram-lhe a influência necessária para afastá-los de si; em vez de se impar, sofre a imposição destes.

Isto não só se aplica aos médiuns, como também a todos indistintamente, visto que ninguém há que não es­teja sujeito à influência dos Espíritos. (Vede acima, nú­meros 74 e 75.)

86. Para impor-se ao médium, os maus Espíritos sabem explorar habilmente todas as suas fraquezas, e,
entre os nossos defeitos, o que lhes dá margem maior é o orgulho, sentimento que se encontra mais dominante na maioria dos médiuns obsidiados e, principalmente, nos fascww&os. É o orgulho que faz se julguem infalíveis e repilam todos os conselhos.
Esse sentimento é infelizmente excitado pêlos elogios de que são objeto; basta que um médium apresente fa­culdade um pouco transcendente, para que o busquem, o adulem, dando lugar a que ele exagere sua importância e se julgue como indispensável, o que vem a perdê-lo.

87. Enquanto o médium imperfeito se orgulha pelos nomes ilustres, frequentemente apócrifos, que assinam as comunicações por ele recebidas e se considera intérprete privilegiado das potências celestes, o bom médium nunca se crê assaz digno de tal favor; ele tem sempre uma salutar desconfiança do merecimento do que recebe e não se fia no seu próprio juízo; não sendo senão instrumento passivo, compreende que o bom resultado não lhe confere mérito pessoal, como nenhuma responsabilidade lhe cabe pelo mau; e que seria ridículo crer na identidade absoluta dos Espíritos que se lhe manifestam.

Deixa que terceiros, desinteressados, julguem do seu trabalho, sem que o seu amor-próprio se ofenda por qualquer decisão contrária, do mesmo modo que um ator não se pode dar por ofendido com as censuras feitas à peça de que é intérprete.. O seu caráter distintivo é a simplicidade e a modéstia; julga-se feliz com a faculdade que possui, não por vanglória, mas por lhe ser um meio de tornar-se útil, o que faz de boamente quando se lhe oferece ocasião, sem jamais incomodar-se por não o preferirem aos outros.
Os médiuns são os intermediários, os intérpretes dos Espíritos; ao evocador e, mesmo, ao simples observador, cabe apreciar o mérito do instrumento.(..)

19 - Os mensageiros - André Luiz - pág. 55

9 - Ouvindo impressões
Deixando Acelino em conversação mais íntima com Otávio, fui levado por Vicente a outro ângulo da sala. Muitos grupos se mantinham em palestra interessante e educativa, observando eu que quase todos comentavam as derrotas sofridas na Terra.— Fiz quanto pude — exclamava uma velhinha simpática para duas companheiras que a escutavam atentamente —; no entanto, os laços de família são muito fortes. Algo se fazia ouvir sempre, com voz muito alta, em meu espírito, compelindo-me ao desempenho da tarefa; mas... e o marido? Âmâncio nunca se conformou. Se os enfermos me procuravam no receituário comum, agravava-se-lhe a neurastenia; se os companheiros de doutrina me convidavam aos estudos evangélicos, revoltava-se, ciumento.

Que pensam vocês? Chegava a mobilizar minhas filhas contra mim. Como seria possível, em tais circunstâncias, atender a obrigações mediúnicas?— Todavia — ponderou uma das senhoras que parecia mais segura de si —, sempre temos recursos e pretextos para fugir às culpas. Encaremos nossos problemas com realismo. Há de convir que, com o socorro da boa vontade, sempre lhe ficariam alguns minutos na semana e algumas pequenas oportunidades para fazer o bem. Talvez pudesse conquistar o entendimento do esposo e a colaboração afetuosa das filhas, se trabalhasse em silêncio, mostrando sincera disposição para o sacrifício.

Nossos atos, Mariana, são muito mais contagiosos que as nossas palavras.— Sim — respondeu a interlocutora, emitindo voz diferente —, concordo com a observação. Em verdade, nunca pude sofrer a incompreensão dos meus, sem reclamar.— Para trabalharmos com eficiência — tornou a companheira, sensata —, é preciso saber calar, antes de tudo. Teríamos atendido perfeitamente aos nossos deveres, se tivéssemos usado todas as receitas de obediência e otimismo que fornecemos aos outros. Aconselhar é sempre útil, mas aconselhar excessivamente pode traduzir esquecimentos de nossas obrigações.

Assim digo, porque meu caso, a bem dizer, é muito semelhante ao seu. Fomos ao círculo carnal para construir com Jesus, mas caímos na tolice de acreditar que andávamos pela Terra para discutir nossos caprichos. Não executei minha tarefa mediúnica, em virtude da irritação que me dominou, dada a indiferença dos meus familiares pelos serviços espirituais. Nossos instrutores, aqui, muito me recomendaram, antes, que para bem ensinar é necessário exemplificar melhor. Entretanto, por minha desventura, tudo esqueci no trabalho temporário da Terra. Se meu marido fazia ponderações, eu criava refutações.

Não suportava qualquer parecer contrário ao meu ponto de vista, em matéria de crença, incapaz de perceber a vaidade e a tolice dos meus gestos. Das irreflexões nasceu minha perda última, na qual agravei, de muito, as responsabilidades. Quase mensalmente, Joaquim e eu nos empenhávamos em discussões e não trocávamos apenas os insultos contundentes, mas também os fluidos venenosos, segregados por nossa mente rebelde e enfermiça. Entre os conflitos e suas consequências, passei o tempo inutilizada para qualquer trabalho de elevação espiritual.

Nesse instante, chamou-me Vicente para apresentar um amigo. Ao nosso lado, outro grupo de senhoras conversava animadamente:
— Afinal, Ernestina — indagava uma delas à mais jovem —, qual foi a causa do seu desastre?— Apenas o medo, minha amiga — explicou-se a interpelada —, tive medo de tudo e de todos. Foi o meu grande mal.— Mas, como tudo isto impressiona! Você foi muitíssimo preparada. Recordo-me ainda das nossas lições em conjunto. As instrutoras do Esclarecimento confiavam extraordinariamente no seu concurso. Seu aproveitamento era um padrão para nós outras.

— Sim, minha querida Benita, suas reminiscências fazem-me sentir, com mais clareza, a extensão da minha bancarrota pessoal. Entretanto, não devo fugir à realidade. Fui a culpada de tudo. Preparei-me o bastante para resgatar antigos débitos e efetuar edificações novas; contudo, não vigiei como se impunha. O chamamento ao serviço ressoou no tempo próprio, orientando-me o raciocínio a melhores esclarecimentos; nossos instrutores me proporcionavam os mais santos incentivos, mas desconfiei dos homens, dos desencarnados e até de mim mesma.

Nos estudiosos do plano físico, enxergava pessoas de má fé; nos irmãos invisíveis, presumia encontrar apenas galhofeiros fantasiados de orientadores, e, em mim mesma, receava as tendências nocivas. Muitos amigos tinham-me em conta de virtuosa, pelo rigorismo das minhas exigências; todavia, no fundo, eu não passava de enferma voluntária, carregada de aflições inúteis.— Foi uma grande infantilidade da sua parte — retrucou a outra —, você olvidou que, na esfera carnal, o maior interesse da alma é a realização de algo útil para o bem de todos, com vistas ao Infinito e à Eternidade.

Nesse mister, é indispensável contar com o assédio de todos os elementos contrários. Ironias da ignorância, ataques da insensatez, sugestões inferiores da nossa própria animalidade surgirão, com certeza, no caminho de todo trabalhador fiel. São circunstâncias lógicas e fatais do serviço, porque não vamos ao mundo físico para descanso injustificável, mas para lutar pela nossa melhoria, a despeito de todo impedimento fortuito.

— Compreendo, agora — disse a outra —; todavia, o receio das mistificações prejudicou minha bela oportunidade.— É, minha amiga — tornou a interlocutora —, é tarde para lamentar. Tanto tememos as mistificações, que acabamos por mistificar os serviços do Cristo. Eu ouvia a palestra, com interesse crescente, mas o companheiro levou-me adiante para novas apresentações. Atendia a esses agradáveis deveres da sociedade de "Nosso Lar", mas, para não perder ensejo de instruir-me, continuava atento às conversações em torno. Alguns cavalheiros mantinham discreta permuta de pareceres.

— Reconheço que fali — dizia um deles em tom grave — e muito já expiei nas regiões inferiores, mas aguardo novos recursos da Providência.— Faltou-lhe, porém, bastante orientação para o caminho? — perguntava um companheiro.— Explico-me — esclareceu o primeiro —, faltou-me o amparo da esposa. Enquanto a tive a meu lado, verificava-se profundo equilíbrio em minhas forças psíquicas. A companhia dela, sem que eu pudesse explicar, compensava-me todo gasto de energia mediúnica. Minha noção de balanço estava nas mãos de minha querida Adélia.

Esqueci-me, porém, de que o bom servo deve estar preparado para o serviço do Senhor, em qualquer circunstância. Não aprendi a ciência da conformação e nem me resignei a percorrer sozinho as estradas humanas. Quando me senti sem a dedicada companheira, arrebatada pela morte, amedrontei-me, por sentir-me em desequilíbrio e, erradamente, procurei substituí-la, e fui acidentado. Extremamente ligada a entidades malfazejas, minha segunda mulher, com os seus desvarios, arrastou-me a perversões sexuais de que nunca me supusera capaz.

Voltei, insensivelmente, ao convívio de criaturas perversas e, tendo começado bem, acabei mal. Meus desastres foram enormes; entretanto, embora reconheça minha deficiência, entendo, ainda hoje, que o triunfo, mesmo no futuro, ser-me-á muito difícil sem a companheira bem-amada. Tornara-se a palestra sumamente interessante. Desejava acompanhar-lhe o curso, mas Vicente chamou-me a atenção para outro assunto e era necessário acompanhá-lo.

20 - Pão nosso - Emmanuel - pág. 39

14 - PÁGINAS
"Mas a sabedoria que vem do alto é primeiramente pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos; sem parcialidade e sem hipocrisia". - (Tiago, 3:17)
Toda página escrita tem alma e o crente necessita auscultar-lhe a natureza. O exame sincero esclarecerá imediatamente a que esfera pertence, no círculo de atividade destruidora no mundo ou no centro dos esforços de edificação para a vida espiritual.

Primeiramente, o leitor amigo da verdade e do bem analisar-lhe-á as linhas, para ajuizar da pureza do seu conteúdo, compreendendo que, se as suas expressões foram nascidas de fontes superiores, aí socorrerá os sinais inequívocos da paz, da moderação, da afabilidade fraternal, da compreensão amorosa e dos bons frutos, enfim.

Mas, se a página reflete os venenos sutis da parcialidade humana, semelhante mensagem do pensamento não procede das esferas mais nobres da vida. Ainda que se origine da ação dos Espíritos desencarnados, supostamente superiores, a folha que não faça benefício em harmonia e construção fraternal é, apenas, reflexo de condições inferiores.

Examina, pois, as páginas de teu contacto com o pensamento alheio, diariamente, e faze companhia àquelas que te desejam elevação. Não precisas das que se te figurem mais brilhantes, mas daquelas que te façam melhor.

22 - Síntese de o novo testamento - Mínimus - pág. 68, 173

OS FALSOS PROFETAS - (mat, 7:15 a 20; Luc, 6:43 a 45)

"Acautelai-vos dos falsos profetas, que vêm ter convosco com vestes de ovelha, mas que, por dentro, são lobos rapinantes. - Conhecê-los-ei pelos seus frutos. Porventura se colhem uvas dos espinheiros, ou figos dos abrolhos? -Assim, toda árvore boa dá bons frutos, não pode dar maus frutos; nem uma árvore má, dar bons frutos. Toda árvore que não dá bom fruto, é cortada e lançada ao fogo. -É, pois, frutos que os conhecereis."

"O homem bom tira o bem do bom tesouro do seu coração, e o homem mau do mau tesouro tira o mal; porquanto a sua boca fala aquilo de que está cheio o coração".

FALSOS CRISTOS. FALSOS PROFETAS - (Mat, 24:33 a 28; Mar, 13:21 a 23)

"Então, se alguém vos disser: Eis aqui o Cristo! ou: Ei-lo ali! - não acrediteis; porque falsos cristos e falsos profetas surgirão e farão tão grandes maravilhas e prodígios que, se fora possível, seduziriam até os escolhidos. Precatai-vos, pois; eis que todas as coisas eu vos tenho predito. -Se, pois, vos disseram: Ei-lo que está no deserto! não saiais; ou Ei-lo no interior da casa! não acrediteis; porque, assim como o relâmpago sai do Oriente e se mostra no Ocidente, assim será a vinda do Filho do homem. Onde estiver o corpo, aí se juntarão as águias".