MORTE
BIBLIOGRAFIA
01- A crise da morte - toda a obra 02 - A gênese - pág. 372
03 - Boa nova - pág. 59 04 - Contos desta e doutras vidas - pág. 53
05 - Coragem - pág. 101 06 - Emmanuel - pág. 129
07 - Depois da morte - pág. 140 08 - Estudos Espíritas - pág. 63
09 - Fonte viva- pág. 375 10 - Há dois mil anos - pág. 12
11 - Justiça Divina - pág. 145, 163 12 - Lampadário Espírita - pág. 57,107
13 - No invisível - pág. 213 14 - O consolador - pág. 91
15 - O fenômeno Espírita - pág.211

16 - O grande enigma- pág. 212

17 - O Livro dos Espíritos - q.68, 149, 422,548,823,941 18 - O que é Espiritismo? - pág. 154,207
19 - Obras Póstumas - pág. 201 20 - Os mensageiros - pág. 104, 248
21 - Pérolas do Além - pág. 163 22 - Saúde e Espiritismo - pág. 369
23 - Síntese de o novo testamento - pág. 199 24 - Vinhas de luz - pág. 321
25 - Voltas que a vida dá - pág. 36 26 - Voltei - toda a obra
27 - Semeador em Tempos Novos - pág. 84 28 - Trevo de idéias - pág. 47
29 - Florações Evangélicas - pág. 61, 93 30 - Oferenda - pág. 17
31 - Temas da vida e da morte - pág. 67, 77, 83 32 - Harmonização - pág. 27
33 - Escrínio de luz - pág. 169 35 - Oferenda

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MORTE – COMPILAÇÃO

A MORTE

03 - Boa nova - Humberto de Campos - pág. 59

BOM ÂNIMO
O apóstolo Bartolomeu foi um dos mais dedicados discípulos do Cristo, desde os primeiros tempos de suas pregações, junto ao Tiberíades. Todas as suas possibilidades eram empregadas em acompanhar o Mestre, na sua tarefa divina. Entretanto, Bartolomeu era triste e, vezes inúmeras, o Senhor o surpreendia em meditações profundas e dolorosas. Foi, talvez, por isso que, uma noite, enquanto Simão Pedro e sua família se entregavam a inadiáveis afazeres domésticos, Jesus aproveitou alguns instantes para lhe falar mais demoradamente ao coração.

Após uma interrogativa afetuosa e fraternal, Bartolomeu deixou falasse o seu espírito sensível.— Mestre — exclamou, timidamente —, não saberia nunca explicar-vos o porquê de minhas tristezas amargurosas. Só sei dizer que o vosso Evangelho me enche de esperanças para o reino de luz que nos espera os corações, além, nas alturas... Quando esclarecestes que o vosso reino não é deste mundo, experimentei uma nova coragem para atravessar as misérias do caminho da Terra, pois, aqui, o selo do mal parece obscurecer as coisas mais puras!... Por toda parte, é a vitória do crime, o jogo das ambições, a colheita dos desenganos!...

A voz do apóstolo se tornara quase abafada pelas lágrimas. Todavia, Jesus fitou-o brandamente e lhe falou, com serenidade:— A nossa doutrina, entretanto, é a do Evangelho ou da Boa Nova e já viste, Bartolomeu, uma boa notícia não produzir alegria? Fazes bem, conservando a tua esperança em face dos novos ensinamentos; mas, não quero senão acender o bom ânimo no espírito dos meus discípulos. Se já tive ocasião de ensinar que o meu reino ainda não é deste mundo, isso não quer dizer que eu desdenhe o trabalho de estendê-lo, um dia, aos corações que mourejam na Terra. Achas, então, que eu teria vindo a este mundo, sem essa certeza confortadora? O Evangelho terá de florescer, primeiramente, na alma das criaturas, antes de frutificar para o espírito dos povos.

Mas, venho de meu Pai, cheio de fortaleza e confiança, e a minha mensagem há de proporcionar grande júbilo a quantos a receberem de coração. Depois de uma pausa, em que o discípulo o contemplava silencioso, o Mestre continuou:— A vida terrestre é uma estrada pedregosa, que conduz aos braços amorosos de Deus. O trabalho é a marcha. A luta comum é a caminhada de cada dia. Os instantes deliciosos da manhã e as horas noturnas de serenidade são os pontos de repouso; mas, ouve-me bem: Na atividade ou no descanso físico, a oportunidade de uma hora, de uma leve ação, de uma palavra humilde, é o convite de Nosso Pai para que semeemos as suas bênçãos sacrossantas.

Em geral, os homens abusam desse ensejo precioso para anteporem a sua vontade imperfeita aos desígnios superiores, perturbando a própria marcha. Daí resultam as mais ásperas jornadas obrigatórias para retificação das faltas cometidas e muitas vezes infrutíferos labores. Em vista destas razões, observamos que os viajores da Terra estão sempre desalentados. Na obcecação de sua vontade própria, ferem a fronte nas pedras da estrada, cerram os ouvidos à realidade espiritual, vendam os olhos com a sombra da rebeldia e passam em lágrimas, em desesperadas imprecações e amargurados gemidos, sem enxergarem a fonte cristalina, a estrela cariciosa do céu, o perfume da flor, a palavra de um amigo, a claridade das experiências que Deus espalhou, para a sua jornada, em todos os aspectos do caminho.


Houve um pequeno intervalo nas considerações afetuosas, depois do que, sem mesmo perceber inteiramente o alcance de suas palavras, Bartolomeu interrogou:— Mestre, os vossos esclarecimentos dissipam os meus pesares; mas o Evangelho exige de nós a fortaleza permanente?— A verdade não exige: transforma. O Evangelho não poderia reclamar estados especiais de seus discípulos; porém, é preciso considerar que a alegria, a coragem e a esperança devem ser traços constantes de suas atividades em cada dia. Por que nos firmarmos no pesadelo de uma hora, se conhecemos a realidade gloriosa da eternidade com o Nosso Pai?

— E quando os negócios do mundo nos são adversos? E quando tudo parece em luta contra nós? — perguntou o pescador, de olhar inquieto. Jesus, todavia, como se percebesse, inteiramente, a finalidade de suas perguntas, esclareceu com bondade:— Qual o melhor negócio do mundo, Bartolomeu? Será a aventura que se efetua a peso de ouro, muita vez amordaçando-se o coração e a consciência, para aumentar as preocupações da vida material, ou a iluminação definitiva da alma para Deus, que se realiza tão-só pela boa-von-tade do homem, que deseje marchar para o seu amor, por entre as urzes do caminho? Não será a adversidade nos negócios do mundo um convite amigo para a criatura semear com mais amor, um apelo indireto que a arranque às Husões da Terra para as verdades do reino de Deus? Bartolomeu guardou aquela resposta no coração, não, todavia, sem experimentar certa estranheza.

E logo, lembrando-se de que sua genitora partira, havia pouco tempo, para a sombra do túmulo, interpelou ainda, ansioso:— Mestre: não será justificável a tristeza quando perdemos um ente amado?— Mas, quem estará perdido, se Deus é o Pai de todos nós?... Se os que estão sepultados no lodo dos crimes hão de vislumbrar, um dia, a alvorada da redenção, por que lamentarmos, em desespero, o amigo que partiu ao chamado do Todo-Poderoso? A morte do corpo abre as portas de um mundo novo para a alma. Ninguém fica verdadeiramente órfão sobre a Terra, como nenhum ser está abandonado, porque tudo é de Deus e todos somos seus filhos. Eis por que todo discípulo do Evangelho tem de ser um semeador de paz e de alegria!...

Jesus entrou em silêncio, como se houvera terminado a sua exposição judiciosa e serena. E, pois que a hora já ia adiantada, Bartolomeu se despediu. O olhar do Mestre oferecia ao seu, naquela noite, uma luz mais doce e mais brilhante; suas mãos lhe tocaram os ombros, levemente, deixando-lhe uma sensação salutar e desconhecida. Embora nascido em Cana da Galiléia, Bartolomeu residia, então, em Dalmanuta, para onde se dirigiu, meditando gravemente nas lições que havia recebido. Á noite pareceu-lhe formosa como nunca. No alto, as estrelas se lhe afiguravam as luzes gloriosas do palácio de Deus à espera das suas criaturas, com hinos de alegria. As águas do Genesaré, aos seus olhos, estavam mais plácidas e felizes. Os ventos brandos lhe sussurravam ao entendimento caridosas inspirações, como um correio delicado que chegasse do céu.


Bartolomeu começou a recordar as razões de suas tristezas intraduzíveis, mas, com surpresa, não mais as encontrou no coração. Lembrava-se de haver perdido a afetuosa genitora; refletiu, porém, com mais amplitude, quanto aos desígnios da Providência Divina. Deus não lhe era pai e mãe nos céus? Recordou os contratempos da vida e ponderou que seus irmãos pelo sangue o aborreciam e caluniavam. Entretanto, Jesus não lhe era um irmão generoso e sincero? Passou em revista os insucessos materiais. Contudo, que eram as suas pescarias ou a avareza dos negociantes de Betsaida e de Cafarnaum, comparados à luz do reino de Deus, que ele trabalhava por edificar no coração?


Chegou a casa pela madrugada. Ao longe, os primeiros clarões do Sol lhe pareciam mensageiros ao conforto celestial. O canto das aves ecoava em seu espírito como notas harmoniosas de profunda alegria. O próprio mugido dos bois apresentava nova tonalidade aos seus ouvidos. Sua alma estava agora clara; o coração, aliviado e feliz. Ao ranger os gonzos da porta, seus irmãos dirigiram-Ihe impropérios, acusando-o de mau filho, de vagabundo e traidor da lei. Bartolomeu, porém, recordou o Evangelho e sentiu que só ele tinha bastante alegria para dar a seus irmãos. Em vez de reagir asperamente, como de outras vezes, sorriu-lhes com a bondade das explicações amigas. Seu velho pai o acusou, igualmente, escorraçando-o. O apóstolo, no entanto, achou natural. Seu pai não conhecia a Jesus e ele o conhecia. Não conseguindo esclarecê-los, guardou os bens do silêncio e achou-se na posse de uma alegria nova.

Depois de repousar alguns momentos, tomou as suas redes velhas e demandou sua barca. Teve para todos os companheiros de serviço uma frase consoladora e amiga. O lago como que estava mais acolhedor e mais belo; seus camaradas de trabalho, mais delicados e acessíveis. De tarde, não questionou com os comerciantes, enchendo-lhes, aliás, o espírito de boas palavras e de atitudes cativantes e educativas. Bartolomeu havia convertido todos os desalentos num cântico de alegria, ao sopro regenerador dos ensinamentos do Cristo; todos o observaram com admiração, exceto Jesus, que conhecia, com júbilo, a nova atitude mental de seu discípulo.

No sábado seguinte, o Mestre demandou as margens do lago, cercado de seus numerosos seguidores. Ali, aglomeravam-se homens e mulheres do povo, judeus e funcionários de Ântipas, a par de grande número de soldados romanos. Jesus começou a pregar a Boa Nova e, a certa altura, contou, conforme a narrativa de Mateus, que — "o reino dos céus é semelhante a um tesouro que, oculto num campo, foi achado e escondido por um homem que, movido de gozo, vendeu tudo o que possuía e comprou aquele campo".

Nesse instante, o olhar do Mestre pousou sobre Bartolomeu que o contemplava, embevecido; a luz branda de seus olhos generosos penetrou fundo no íntimo do apóstolo, pela ternura que evidenciava, e o pescador humilde compreendeu a delicada alusão do ensinamento, experimentando a alma leve e satisfeita, depois de haver alijado todas as vaidades de que ainda se não desfizera, para adquirir o tesouro divino, no campo infinito da vida.

Enviando a Jesus um olhar de amor e reconhecimento, Bartolomeu limpou uma lágrima. Era a primeira vez que chorava de alegria. O pescador de Dalmanuta aderira, para sempre, aos eternos júbilos do Evangelho do Reino.

04 - Contos desta e doutras vidas - Irmão X - pág. 53

11 - APUROS DE UM MORTO
Quando Apolinário Rezende acordou, além da morte, viu-se terrivelmente sacudido por estranha emoção. Ouvia a esposa, Dona Francisca, a chamá-lo em gritos estertorosos. E qual se fôsse transportado a casa por guindaste magnético, reconheceu-se, de chofre, diante dela, que se descabelava, chorosa.
-Ingrato! Ingrato! - era o que a viúva dizia em pensamento, embora apenas tartamudeasse interjeições lamentosas com a boca. Julgando-se no corpo de carne, Rezende, em vão, se fazia sentir. Gritava pela companheira. Pedia explicações Esmurrava a mesa em que a senhora apoiava os cotovelos.

Dona Francina, entretanto, procedia como quem lhe ignorava a presença. O infeliz, no primeiro instante, julgou-se dementado. Acreditava-se em pesadelo e queria retornar à vida comum, despertar... Beliscava-se inutilmente. Nisso, escutou o próprio nome no andar térreo. Despencou-se e encontrou Maria Iza, a copeira que se habituara a estimar como sendo sua própria filha, em conversação discreta com o advogado que lhe fora amigo íntimo. O Dr. Joaquim Curado ouvia, atento, a moça, que lhe confidenciava uma infâmia.

A empregada, que sempre lhe recolhera a melhor atenção, não se pejava de acusá-lo, afirmando que o pequeno Samuel, o menino que lhe nascera, quatro anos antes, do coração de mãe solteira, era filho dele, Rezende. A serviçal, no extremo da calúnia, dramatizava em pranto. Dizia, despudorada, que seu filhinho Samuel não podia privar-se da herança, que ela, em outros tempos, vivia sofrendo injuriosas cenas de ciúme, por parte da patroa, das quais o próprio Dr. Joaquim devia lembrar-se, e que estava agora resolvida a colocar a questão em pratos limpos.

Apolinário cerrou os punhos e dispunha-se a esbofeteá-la, quando o causídico asseverou: "Bem, desde que o Rezende morreu..." O pobre Espírito liberto sofreu tremendo choque. Morrera então? Que significava tudo aquilo? Sentia-se louco... Gritou, desesperado, lembrando fera aguilhoada no circo, mas os dois interlocutores nem de leve lhe perceberam a reação, e o entendimento continuou...
Chorando copiosamente, Apolinário ficou sabendo que o inventário dos seus bens seguia em meio, que Maria Iza alegava-se seduzida por ele e exigia mais de dois milhões de cruzeiros, parte igual ao montante que se reservava a cada um de seus filhos. O Dr. Joaquim falava em exame de sangue e pedia provas.

A moça notificou que Renato, o filho caçula de Dona Francina, fora testemunha da experiência infeliz a que se submetera, em acedendo às tentações que lhe haviam sido movidas pelo morto. Aterrado, Rezende viu seu próprio filho mais novo entrar, a chamado, no parlatório doméstico, apoiando a invencionice. O jovem, que ultrapassara os vinte e dois de idade, preocupava-o sempre, pelo caráter leviano; contudo, não foi sem espanto que passou a escutá-lo, confirmando a denúncia. Perante o advogado, surpreendido, Renato anunciou que, simplesmente tocado pela compaixão, deliberara ajudar Maria Iza, declarando que o pai, pilhado por ele em vários encontros com ela, resolvera confiar-lhe a verdade, salientando que, um dia, quando viesse a falecer, o menino Samuel não devia ser esquecido, de vez que lhe devia a paterternidade.

Rezende, tomado de repugnância, desmentia tudo, até que lhe pareceu ouvir os pensamentos do filho, compreendendo, por fim, que Renato se mancomunara com a copeira, de modo a senhorear metade da importância que a ela fosse atribuída pela Justiça. Entendeu a chantagem. O rapaz pretendia o maior quinhão e, para isso, não vacilava enxovalhar-lhe o nome. Abatido, procurou Reinaldo, o filho mais velho, moço de comportamento exemplar; entretanto, foi achá-lo no gabinete, conformado com a situação. O irmão desfechara habilmente o golpe, e o primogênito preferira perder parte da herança a desrespeitar a memória do pai. Voltou Rezende ao quarto da esposa e debalde quis confortá-la.

Dona Francina ensopara o lenço de lágrimas. Não chorava tanto o dinheiro de que deveria dispor. Lastimava a suposta infidelidade do falecido marido. Recordava todos os dias felizes, em que ambos haviam desfrutado confiança perfeita... Era preciso ser desumano para que lhe mentisse, qual o fizera, dentro do próprio lar. Ansiava conservá-lo puro, na lembrança, viver o resto da existência preparando-se para reencontrá-lo; entretanto ...Esforçava-se Rezende para consolá-la, a procurar em si mesmo a razão por que sofria semelhante prova, quando lhe ocorreu um estalo na consciência .

Via-se recuar, recuar... Sim, sim, Maria Iza recebera dele tão somente considerações respeitosas; contudo, Julieta surgia-Ihe agora!.. Fora-lhe a companheira da juventude, quarenta anos antes... Menina de condição modesta, aguentara-lhe a ingratidão. Cedera aos seus caprichos de moço impulsivo e passara a aguardar-Ihe um filhinho, confiando no casamento. Examinando, porém, as próprias conveniências, obrigara Julieta a sujeitar-se a vergonhoso processo abortivo e, em seguida, ao vê-la frustrada, abandonou-a na vala do meretrício. .

Rezende, atormentado em dolorosas reminiscências, inquiria a si próprio se a calúnia de Maria Iza seria a resposta do destino ao sarcasmo em que lançara Julieta... Onde encontrar a vítima de outra época para rojar-se-lhe aos pés suplicando misericórdia? Por outro lado, ali estava Dona Francina, a reclamar-lhe assistência, e Maria Iza, a quem devia perdoar, a seu turno. Tateava o crânio em fogo. Atravessava o primeiro dia de consciência acordada, depois da morte, e parecia estar no inferno mental, desde muito tempo.Caiu a noite e Rezende permaneceu, aflito, junto da esposa, tentando, em vão, falar-lhe durante o sono...

Manhã cedo, Dona Francina levantou-se, orou à frente da própria imagem dele, na foto de cabeceira, tomou grande ramo de flores e saiu na direção de um templo. Apolinário seguiu-a, reconhecendo, emocionado, que a esposa encomendara um ofício religioso, a benefício da sua felicidade. Findas as preces, Dona Francina tocou para o cemitério. Só então Rezende veio a saber que a leal companheira comemorava o sexto mês de sua partida. Cento e oitenta e três dias de inconsciência na vida espiritual! Assombrado, fitou a esposa, que se ajoelhara à frente do seu próprio túmulo. Entre angustiado e curioso, inclinou-se para a lápide e soletrou, es-pantadiço:

"Aqui jaz Apolinário Rezende." E, em letras menores: "Orai pelo descanso eterno de sua alma."Quando leu as palavras "descanso eterno", Rezende passou a refletir sobre as agonias morais a que era submetido, desde a véspera, e, embora sentindo imenso desejo de chorar, esqueceu a quietude do campo santo e desferiu, em desespero, enorme gargalhada.


05 - Coragem - Espíritos Diversos - pág. 101

32 . VIDA E MORTE

A vida é luz, doação, alegria e movimento. A morte é sombra, egoísmo, desalento e inércia. Analisa as forças vivas que te rodeiam e observarás a natureza a desfazer-se em cânticos de trabalho e de amor, assegurando-te bem-estar. É a árvore a crescer na produção intensiva, o manancial em atividade constante para garantir-te a existência, a atmosfera a refazer sem cessar os elementos com que te preserva a saúde e o equilíbrio.

Mas não longe de ti podes ver igualmente a morte no poço estagnado em que as águas se corrompem, na enxada inútil que a ferrugem devora, no fruto desaproveitado que a corrupção desagrega...Depende de ti acordar e viver, valorizando o tempo que o Senhor te confere, estendendo o dom de ajudar e aprender, amar e servir.


Muitos nascem e renascem no corpo físico,, transitando da infância para a velhice e do túmulo para o berço, à maneira de almas cadaverizadas no egoísmo e na rebelião, na ociosidade ou na delinquência, a que irrefletidamente se acolhem. Absorvem os recursos da Terra sem retribuição, recebem sem dar, exigem concurso alheio sem qualquer impulso de cooperação em favor dos outros e vampirizam as forças que encontram, quais sorvedouros que tudo consomem sem qualquer proveito para o mundo que os agasalha.

Semelhantes companheiros são realmente os mortos dignos de socorro e de piedade, porquanto, à distância da luz que lhes cabe inflamar em si próprios, preferem o mergulho na inutilidade, acomodando-se com as trevas.

Lembra-te dos talentos com que Deus te enobrece o sentimento e o raciocínio, o cérebro e o coração e, fazendo verter a glória do bem, através de teu verbo e de tuas mãos, desperta e vive, para que, das experiências fragmentárias do aprendizado humano, possas, um dia, alçar vôo firme em direção à Vida Eterna.
. EMMANUEL

06 - Emmanuel - Emmanuel - pág. 129

XXIV - O CORPO ESPIRITUAL
De todos os fenômenos da vida, os que se apresentam ao raio visual da ciência humana, mantenedores do seu entretenimento, são os da assimilação e desassimilação; todavia, os que afetam mais particularmente a percepção do homem não são os da atividade vital em si mesma, consubstanciados nas sínteses orgânicas assimiladoras, mas justamente os fenômenos da morte. É um axioma fisiológico a extinção das células que constituem o suporte de todas as manifestações e apenas fazeis geralmente uma idéia da vida por intermédio desses movimentos destruidores.

A VIDA CORPORAL — EXPRESSÃO DA MORTE "
Quando, no homem ou nos irracionais, um gesto se opera, a Natureza determina o desaparecimento de certa percentagem de substância da economia vital; quando a sensibilidade se exterioriza e os pensamentos se manifestam, eis que os nervos se consomem, gastando-se o cérebro em suas atividades funcionais. A vida corporal é bem a expressão da morte, através da qual efetuais as vossas observações e os vossos estudos.

Não dispondes, dentro da exiguidade dos vossos sentidos, senão de elementos constatadores da perda de energia, da luta vital, dos conflitos que se estabelecem para que os seres se mantenham no seu próprio habitat. A vida, em suas causalidades profundas, escapa aos vossos escalpelos e apenas o embriologista observa, no silêncio da penumbra, infinitésima fração do fenômeno assimilatório das criações orgânicas.

INACESSÍVEL AOS PROCESSOS DA INDAGAÇÃO CIENTIFICA

Segundo os dados da vossa fisiologia, a célula primitiva é comum a todos os seres vertebrados e espanta ao embriólogo a lei organogênica que estabelece a idéia diretora do desenvolvimento fetal, desde a união do espermatozoário ao óvulo, especificando os elementos amorfos do protoplasma; nos domínios da vida, essa idéia diretriz conserva-se inacessível até hoje aos vossos processos de indagação e de análise, porquanto esse desenho invisível não está subordinado a nenhuma determinação físico-química, porém, unicamente ao corpo espiritual preexistente, em cujo molde se realizam todas as ações plásticas da organização, e sob cuja influência se efetuam todos os fenômenos endosmóticos.

O organismo fluídico, caracterizado por seus elementos imutáveis, é o assimilador das forças protoplásmicas, o mantenedor da aglutinação molecular que organiza as configurações típicas de cada espécie, incorporando-se, átomo por átomo, à matéria do germe e dirigindo-a, segundo a sua natureza particular.

RESPONDENDO AS OBJEÇÕES
-Algumas objeções científicas têm sido apresentadas à teoria irrefutável do corpo espiritual preexistente, destacando-se entre elas, por mais digna de exame, a hereditariedade, a qual somente deve ser ponderável sob o ponto de vista fisiológico. Todos os tipos do reino mineral, vegetal, animal, incluindo-se o hominal, organizam-se segundo as disposições dos seus precedentes ancestrais, dos quais herdam, naturalmente, pela lei das afinidades, a sua sanidade ou os seus defeitos de origem orgânica, unicamente.

De todos os estudos referentes ao assunto, em vossa época, salienta-se a teoria darwiniana das gêmulas, corpúsculos infinitesimais que se transmitem pela vida seminal aos elementos geradores, contendo na matéria embrionária disposição de todas as moléculas do corpo, as quais se reproduzem dentro de cada espécie.

A maioria das moléstias, inclusive a dipsomania, são transmissíveis; porém, isso não implica um fatalismo biológico que engendre o infortúnio dos seres, porque inúmeros Espíritos, em traçando o mapa do seu destino, buscam, com o escolher determinado instrumento, alargar as suas possibilidades de triunfo sobre a matéria, como um fato decorrente das severas leis morais, que, como no ambiente terrestre, prevalecem no mundo espiritual, o que não nos cabe discutir neste estudo.

Não obstante a preponderância dos fatores físicos nas funções procriadoras, é totalmente inaceitável e descabido o atavismo psicológico, hipótese aventada pelos desconhecedores da profunda independência da individualidade espiritual, hipótese que reveste a matéria de poderes que nunca ela possuiu em sua condição de passividade característica. Reconhecendo-se, pois, a veracidade da argumentação de quantos aceitam a hereditariedade fisiológica nos fenômenos da procriação, representando cada ser o organismo de que provém por filiação, afastemos a hipótese da hereditariedade psicológica, porquanto, espiritualmente, temos a considerar, apenas, ao lado da influência ambiente, a afinidade sentimental. (...)

07 - Depois da morte - Léon Denis - pág. 140


XIII — AS PROVAS E A MORTE
Estabelecido o alvo da existência, mais alto que a fortuna, mais elevado que a felicidade, uma inteira revolução produz-se em nossos intuitos. O Universo é uma arena em que a alma luta pelo seu engrandecimento, e este só é obtido por seus trabalhos, sacrifícios e sofrimentos. A dor, física ou moral, é um meio poderoso de desenvolvimento e de progresso. As provas auxiliam-nos a conhecer, a dominar as nossas paixões e a amarmos realmente os outros.

No curso que fazemos, o que devemos procurar adquirir é a ciência e o amor alternadamente. Quanto mais soubermos, mais amaremos e mais nos elevaremos. A fim de podermos combater e vencer o sofrimento, cumpre estudarmos as causas que o produzem, e, com o conhecimento dos seus efeitos e a submissão às suas leis, despertar em nós uma simpatia profunda para com aqueles que o suportam. A dor é a purificação suprema, é a escola em que se aprendem a paciência, a resignação e todos os deveres austeros. É a fornalha onde se funde o egoísmo, em que se dissolve o orgulho. Algumas vezes, nas horas sombrias, a alma submetida à prova revolta-se, renega a Deus e sua justiça; depois, passada a tormenta, quando se examina a si mesma, vê que esse mal aparente era um bem; reconhece que a dor tornou-a melhor, mais acessível à piedade, mais caritativa para com os desgraçados.

Todos os males da vida concorrem para o nosso aperfeiçoamento. Pela dor, pela prova, pela humilhação, pelas enfermidades, pelos reveses o melhor desprende-se lentamente do pior. Eis por que neste mundo há mais sofrimento que alegria. A prova retempera os caracteres, apura os sentimentos, doma as almas fogosas ou altivas. A dor física também tem sua utilidade; desata quimicamente os laços que prendem o Espírito à carne; liberta-o dos fluidos grosseiros que o retêm nas regiões inferiores e que o envolvem, mesmo depois da morte. Essa ação explica, em certos casos, as curtas existências das crianças mortas com pouca idade.

Essas almas puderam adquirir na Terra o saber e a virtude necessários para subirem mais alto; como um resto de materialidade impedisse ainda o seu voo, elas vieram terminar, pelo sofrimento, a sua completa depuração. Não imitemos esses que maldizem a dor e que, nas suas imprecações contra a vida, recusam admitir que o sofrimento seja um bem. Desejariam levar uma existência a gosto, toda de bem-estar e de repouso, sem compreenderem que o bem adquirido sem esforço não tem nenhum valor e que, para apreciar a felicidade, é necessário saber-se quanto ela custa. O sofrimento é o instrumento de toda elevação, é o único meio de nos arrancarmos à indiferença, à volúpia. É quem esculpe nossa alma, quem lhe dá mais pura forma, beleza mais perfeita.

A prova é um remédio infalível para a nossa inexperiência. A Providência procede para conosco como mãe precavida para com seu filho. Quando resistimos aos seus apelos, quando recusamos seguir-lhe os conselhos, ela deixa-nos sofrer decepções e reveses, sabendo que a adversidade é a melhor escola da prudência. Tal o destino do maior número neste mundo. Debaixo de um céu algumas vezes sulcado de raios, é preciso seguir o caminho árduo, com os pés dilacerados pelas pedras e pelos espinhos. Um Espírito de vestes lutuosas guia os nossos passos; é a dor santa que devemos abençoar, porque só ela sacode e desprende-nos o ser das futilidades com que este gosta de paramentar-se, torna-o apto a sentir o que é verdadeiramente nobre e belo.

Sob o efeito desses ensinos, a que se reduz a idéia da morte? Perde todo o caráter assustador. A morte mais não é que uma transformação necessária e uma renovação, pois nada perece realmente. A morte é só aparente; somente muda a forma exterior; o princípio da vida, a alma, fica em sua unidade permanente, indestrutível. Esta se acha, além do túmulo, na plenitude de suas faculdades, com todas as aquisições com que se enriqueceu durante as suas existências terrestres: luzes, aspirações, virtudes e potências. Eis aí os bens imperecíveis a que se refere o Evangelho, quando diz: "Os vermes e a ferrugem não os consumirão nem os ladrões os furtarão." São as únicas riquezas que poderemos levar conosco e utilizar na vida futura.

A morte e a reencarnação que se lhe segue, em um tempo dado, são duas condições essenciais do progresso. Rompendo os hábitos acanhados que havíamos contraído, elas colocam-nos em meios diferentes; obrigam a adaptarmo-nos às mil faces da ordem social e universal. Quando chega o declínio da vida, quando nossa existência, semelhante à página de um livro, vai voltar-se para dar lugar a uma página branca e nova, aquele que for sensato consulta o seu passado e revê os seus atos.

Feliz quem nessa hora puder dizer: meus dias foram bem preenchidos! Feliz aquele que aceitou as suas provas com resignação e suportou-as com coragem! Esses, macerando a alma, deixaram expelir tudo o que nela havia de amargor e fel. Rememorando na consciência as suas tribulações, bendirão os sofrimentos que suportaram, e, com a paz íntima, verão sem receio aproximar-se o momento da morte.

Digamos adeus às teorias que fazem da morte a porta do nada, ou o prelúdio de castigos intermináveis. Adeus sombrios fantasmas da Teologia, dogmas medonhos, sentenças inexoráveis, suplícios infernais! Chegou a vez da esperança e da vida eterna! Não mais há negrejantes trevas, porém, sim, luz deslumbrante que surge dos túmulos. Já vistes a borboleta de asas multicores despir a informe crisálida, esse invólucro repugnante, no qual, como lagarta, se arrastava pelo solo? Já a vistes solta, livre, voejar ao calor do Sol, no meio do perfume das flores? Não há imagem mais fiel para o fenômeno da morte.

O homem também está numa crisálida que a morte decompõe. O corpo humano, vestimenta de carne, volta ao grande monturo; o nosso despojo miserável entra no laboratório da Natureza; mas, o Espírito, depois de completar a sua obra, lança-se a uma vida mais elevada, para essa vida espiritual que sucede à vida corpórea, como o dia sucede à noite. Assim se distingue cada uma das nossas encarnações. Firmes nestes princípios, não mais temeremos a morte. Como os gauleses, ousaremos encará-la sem terror. Não mais haverá motivo para receio, para lágrimas, cerimônias sinistras e cantos lúgubres. Os nossos funerais tornar-se-ão uma festa pela qual celebraremos a libertação da alma, sua volta à verdadeira pátria.

A morte é uma grande reveladora. Nas horas de provação, quando as sombras nos rodeiam, perguntamos algumas vezes: Por que nasci eu? Por que não íiquei mergulhado lá na profunda noite, onde não se sente, onde não se sofre, onde só se dorme o eterno sono? E, nessas horas de dúvida e de angústia, uma voz vem até nós e diz-nos: Sofre para te engrandeceres, para te depurares! Fica sabendo que teu destino é grande. Esta terra fria não é teu sepulcro.

Os mundos que brilham no âmbito dos céus são tuas moradas futuras, a herança que Deus te reserva. Tu és para sempre cidadão do Universo; pertences aos séculos passados como aos futuros, e, na hora atual, preparas a tua elevação. Suporta, pois, com calma, os males por ti mesmo escolhidos. Semeia na dor e nas lágrimas o grão que reverdecerá em tuas próximas vidas. Semeia também para os outros assim como semearam para ti! Ser imortal, caminha com passo firme sobre a vereda escarpada até às alturas de onde o futuro te aparecerá sem véu! A ascensão é rude, e o suor inundará muitas vezes o teu rosto, mas, no cimo, verás brilhar a grande luz, verás despontar no horizonte o Sol da Verdade e da Justiça!

A voz que assim nos fala é a voz dos mortos, é a voz das almas queridas que nos precederam no país da verdadeira vida. Bem longe de dormirem nos túmulos, elas velam por nós. Do pórtico do invisível vêem-nos e sorriem para nós. Adorável e divino mistério! Comunicam-se conosco e dizem: Basta de dúvidas estéreis; trabalhai e amai. Um dia, preenchida a vossa tarefa, a morte reunir-nos-á.

XIV — OBJEÇÕES

É assim que muitas questões insolúveis para as outras escolas são resolvidas pela doutrina das vidas sucessivas. As fortíssimas objecoes com que o cepticismo e o materialismo têm feito brechas no edifício teológico — o mal, a dor, a desigualdade dos méritos e das condições humanas, a injustiça aparente da sorte: todos esses tropeços se desvanecem perante a Doutrina dos Espíritos.

Entretanto, uma dificuldade subsiste, uma forte objeção ergue-se contra ela. Se já vivemos no espaço, dizem, se outras vidas precederam ao nascimento, por que de tal perdemos a recordação? Esta objeção, de aparência irrespondível, é fácil de ser destruída.
A memória das coisas que viveram, dos atos que se cumpriram, não é condição necessária da existência.

Ninguém se lembra do tempo passado no ventre materno ou mesmo no berço. Poucos homens conservam a memória das impressões e dos atos da primeira infância. Entretanto, essas são partes integrantes da nossa existência atual. Pela manhã, ao acordarmos, perdemos a recordação da maior parte de nossos sonhos, embora, no momento, eles nos tenham parecido outras tantas realidades. Só nos restam sensações grosseiras e confusas, que o Espírito experimenta quando recai sob a influência material.

Os dias e as noites são como as nossas vidas terrestres e espirituais, e o sono parece tão inexplicável quanto a morte. O sono e a morte transportam-nos, alternadamente, para meios distintos e para condições diferentes, o que não impede à nossa identidade de manter-se e persistir através desses estados variados.

No sono magnético, o Espírito, desprendido do corpo, recorda-se de coisas que esquecerá ao volver à carne, cujo encadeamento, não obstante, ele tornará a apanhar, recobrando a lucidez. Esse estado de sono provocado desenvolve nos sonâmbulos aptidões especiais que, em vigilia, desaparecem, abafadas, aniquiladas pelo invólucro corpóreo. (...)

08 - Estudos Espíritas - Joanna de Ângelis- pág. 63

MORRER
CONCEITO
— A problemática da morte é decorrência do desequilíbrio biológico e físico-químico essenciais à manutenção da vida. Fenômeno de transformação, mediante o qual se modificam as estruturas constitutivas dos corpos que sofrem ação de natureza química, física e microbiana determinantes dos processos cadavéricos e abióticos, a morte é o veículo condutor encarregado de transferir a mecânica da vida de uma para outra vibração. No homem representa a libertação dos implementos orgânicos, facultando ao espírito, responsável pela aglutinação das moléculas constitutivas dos órgãos, a livre ação fora da constrição restritiva do seu campo magnético.

Morrer, entretanto, não é consumir-se. Da mesma forma que a matéria se desorganiza sob um aspecto para reassociar-se em outras manifestações, o espírito se ausenta de uma condição — a de encarnado —, para retornar à situação primeira da sua existência — despido do corpo material. A vida carnal é decorrência da existência do princípio espiritual e a vida poderia existir no espírito sem que houvesse aquela.

Morrer ou desencarnar, porém, nem sempre pode ser considerado como libertar-se. A perda do casulo celular somente liberta o espírito que estruturou o seu comportamento, quando no corpo, sem a dependência enlouquecedora deste. Os que se imantaram aos vigorosos condicionamentos materiais, utilizando a vestimenta física como veículo apenas para vaso de luxúria ou de egoísmo, qual instrumento de gozo incessante ou do orgulho, na expressão de castelo de força e de paixões, ante a desencarnação prosseguem vinculados aos vapores entorpecentes das emanações cadavéricas em lamentável e demorado estado de perturbação, sitiados pelas visões torpes da destruição dos tecidos, sofrendo a voragem dos vibriões famélicos, enlouquecidos entre as paredes estreitas da paisagem sepulcral.

A vida começa a perecer desde o momento em que se agregam as células para a mecânica do viver. Vida e morte, pois, são termos da mesma equação do existir. Não morre aquele que aspira ao amor e sonha com o Ideal da Beleza, entregue ao cultivo da virtude, no exercício da retidão. Não se acaba aquele que se entrega à vida, pois que mediante cíclicas mudanças do tono vibratório o espírito se traslada de corpo a corpo, de estágio a estágio evolutivo até alcançar a plenitude da vida na vitória estuante da Imortalidade.

Enquanto os processos abióticos são substituídos por novas atividades bioquímicas, o cadáver passando à fase da desintegração — autólise e putrefação —, o espírito que se educou para os labores de libertação encontra-se indene à participação do desconcertante fenômeno de transformação celular, não ocorrendo o mesmo com aqueles que transformaram o corpo em reduto de prazer ou catre de paixões de qualquer natureza.

DESENVOLVIMENTO
— Porque representava a cessação do movimento externo com a consequente degenerescência da forma, a morte mereceu das Civilizações do passado homenagens e tributos consideráveis. Herdando do homem primitivo o culto de respeito, envolto em mistérios, e complexos rituais com os quais desejavam reverenciar na morte a força disjuntora da vida, essas Civilizações, mediante enganosos conciliábulos através dos quais a personificavam como deidade facilmente subornável, ou mensageira da desgraça que se podia adiar, pensavam consegui-lo por meio desse comércio nefando e irracional.

Milenarmente misteriosa tem prosseguido no seu cortejo, semeando pavor e desconcerto emocional, reinando soberana. Aplacando-lhe a ira e tentando evitar-lhe a visita inexorável celebraram-se nos diversos fastos do pensamento histórico solenidades soberbas, ora trágicas e deprimentes ou exaltadas a ponto de espicaçar o desinteresse pela vida, produzindo suicídios religiosos, em procissões pagãs, nas quais fanáticos cultivadores de aberrações veneravam seus deuses, atirando-se sob rodas denteadas, abismos profundos, fogueiras destruidoras ante o paroxismo da excitação de mentes primárias em exacerbação dos instintos...

Sob outro aspecto, porque se transformasse no umbral para o acesso ao Desconhecido, foi encarada como misterioso país de cujas fronteiras ninguém voltava, envolvendo-se-lhe o culto em absurdas fantasias. O homem do período glaciário de Günz, agindo intuitivamente sob a inspiração dos antepassados, colocava o crânio dos mortos à entrada das cavernas com o objetivo de impedir a incursão naqueles recintos dos inimigos desencarnados...

Os egípcios, conceituando o retorno ao corpo sob a paixão do imediato, transformaram os sepulcros em palácios, colocando tesouros e alimentos para os viandantes do vale das sombras não padeceram necessidades quando da volta...Mausoléus e jazigos imponentes foram erguidos através dos tempos para perpetuarem a memória e a vida dos extintos, gerando quase sempre longos processos de apego e dor aos transitórios recursos materiais por parte dos que desencarnaram.

A Arte e a Literatura, a Poesia e a Religião contribuíram exorbitantemente para tornarem a morte a megera desventurada, portadora da infelicidade e do horror. Com o desenvolvimento das conquistas modernas, em cujo período as luzes da fé já bruxuleantes quase se apagaram, a morte, por significar para os apaniguados do niilismo o fim de tudo, passou a constituir móvel de ridículo, senão a aspiração maior dos frívolos e inconsequentes cultivadores da cómoda filosofia do nada. Assim encontrariam a porta para a deserção, logo fossem colhidos pela responsabilidade ou surpreendidos pela dor...

ESPIRITISMO E MORTE
— Jesus, indubitavelmente, o Senhor do Mundo e o Herói da Sepultura Vazia, foi o mais nobre pregoeiro da vida com excelente realidade a respeito da morte. Circunscrevendo todos os seus ensinos em torno da vida, e da Vida abundante, a Sua mensagem é um hino perene à glória do existir, seja num ou noutro setor de atividade em que se manifestam as expressões eternas do espírito: na carne e além dela.

Em todo o Seu ministério de amor e trabalho Sua palavra é luz e vida, considerando mortos somente aqueles que perderam a visão e obstruíram as percepções da realidade espiritual. Depois dEle coube ao Espiritismo a inapreciável tarefa de interpretar a morte, libertando-a dos infelizes conceitos de vário matiz que foram tecidos multimilenarmente na plenitude da ignorância sobre a sua legítima feição.

Atestando a continuidade da vida após o túmulo, graças ao convívio mantido entre os homens e os Imortais, o Espiritismo libertou a vida do guante da vândala destruidora, exaltando a perenidade do existir em todas as latitudes do Cosmo, na incessante progressão para o Infinito. Vive, portanto, como se estivesse a cada momento preparando-te para renascer além e após o túmulo.

A vida que se leva é a vida que cada um aqui leva enquanto na indumentária carnal. Transpassa-se o pórtico de lama e cinza em que se transformam os implementos materiais com as próprias conquistas morais, construindo as asas de anjo com que se pode ascender à Verdade ou as amarras grosseiras para com a retaguarda, mediante as quais se imantam aos engodos fisiológicos.

ESTUDO E MEDITAÇÃO:
"Por ser exclusivamente material, o corpo sofre as vicissitudes da matéria. Depois de funcionar por algum tempo, ele se desorganiza e decompõe. O princípio vital, não mais encontrando elemento para sua atividade, se extingue e o corpo morre. O Espírito, para quem, este, carente de vida, se torna inútil, deixa-o, como se deixa uma casa em ruínas, ou uma roupa imprestável."
(A Génese, Allan Kardec, cap. XI, item 13.)

"A vida espiritual é, com efeito, a verdadeira vida, é a vida normal do Espírito, sendo-lhe transitória e passageira a existência terrestre, espécie de morte, se comparada ao esplendor e à atividade da outra. O corpo não passa de simples vestimenta grosseira que temporariamente cobre o Espírito, verdadeiro grilhão que o prende à gleba terrena, do qual se sente ele feliz em libertar-se. O respeito que aos mortos se consagra não é a matéria que o inspira; é, pela lembrança, o Espírito ausente quem o infunde."
(O Evangelho Segundo o Espiritismo, Allan Kardec, cap. XXIII, ítem 8)

09 - Fonte viva - Emmanuel - pág. 375

168 - ENTRE O BERÇO E O TÚMULO

"Não atentando nós nas coisas que se vêem, mas nas se não vêem, porque as que se vêem são temporais e as que se não vêem são eternas." - Paulo (II Corintios, 4:18)

A flor que vemos passa breve, mas o perfume que nos escapa enriquece a economia do mundo. O monumento que nos deslumbra soferá insultos do tempo, contudo, o ideal invisível que o inspirou brilha, eterno, na alma do artista.

A Acrópole de Atenas, admirada por milhões de olhos, vai desaparecendo, pouco à pouco, entretanto, a cultura grega que a produziu é imortal na glória terrestre. A cruz que o povo impôs ao Cristo era um instrumento de tortura visto por todos, mas o espírito do Senhor, que ninguém vê, é um sol crescendo cada vez mais na passagem dos séculos.

Não te apegues demasiado à carne transitória. Amanhã, a infância e a mocidade do corpo serão madureza e velhice da forma. A terra que hoje reténs será no futuro inevitavelmente dividida. Adornos de que te orgulhas presentemente serão pó e cinza. O dinheiro que agora te serve passará depois a mãos diferentes das tuas.

Usa aquilo que vês, para entesourar o que ainda não podes ver. Entre o berço e o túmulo, o homem detém o usufruto da terra, com o fim de aperfeiçoar-se.

Não te agarres, pois, à enganosa casca dos seres e das coisas. Aprendendo e lutando, trabalhando e servindo com humildade e paciência na construção do bem, acumularás na tua alma as riquezas da vida eterna.

12 - Lampadário Espírita - Joanna de Ângelis - pág. 57,107

12 - IMORTALIDADE
À noite sombria da morte sucede a madrugada clarificadora da vida espiritual. Em toda a parte estua a vibração miraculosa e pulsante da vida que não cessa. Morre a semente para surgir a planta vitoriosa. Decompõe-se a matéria a fim de nutrir outras formas de vidas.

Gasta-se uma estrutura desta ou daquela natureza para ressurgir, mais além, em manifestações novas e expressivas. A serenidade do cadáver humano é enganosa e utópica. Além das células em transformações incessantes, onde se locupletam vibriões, o espírito desperta.

Nada nem ninguém. Morrer é somente mudar de estado. A paz das necrópoles é pobreza dos sentidos dos que supõem contemplá-la. A perda da indumentária física não confere prosperidade espiritual nem conduz à ruína desesperadora, senão àqueles que as elaboraram antes. Cada ser desperta consoante viveu vinculado ou liberto das paixões. A morte pode ser considerada como o despir da aparência e o despertar para a realidade. Ela não apaga o amor que prossegue em cânticos afetuosos, imanando sentimentos que se alongam além das fronteiras do corpo, nem interrompe o intercâmbio do ódio que expele emanações mefíticas, alongando processos obsessivos de longo e tormentoso curso.

Quantos se acostumaram à beleza das emoções superiores escalam os óbices da limitação e atingem excelsas regiões. Aqueles, no entanto, que se fixaram nas paisagens grotescas da animalidade primitiva, acordam envoltos nas paixões que conduziram ao decesso carnal, mais vorazes, mais infelizes, mais atormentados. Não há milagre ante a morte.. .

Não procures os que partiram para a Imortalidade, em dias a eles consagrados, nas tumbas onde se diluíram as impressões da forma, pois que lá não estão. Evita visitá-los nos campos dos despojos carnais, considerando que lá não os encontrarás. Se foram amorosos e bons, libram acima das conjunturas imediatistas, visitam-te, intercambiam o amor e trabalham, vitoriosos, esperando por ti.

- Se viveram descuidados, entorpecidos pelo ópio do prazer, dormem o longo sono da consciência aparvalhada, experimentando pesadelos e agonias de difícil tradução para o teu entendimento. Se jornadearam adstritos à impiedade e atados ao erro deste ou daquele teor, sofrem e fazem sofrer, procurando, no próprio lar ou em outras mentes de fora do ninho doméstico, com as quais se afinam, intercâmbio inquietante e enfermiço.

Seja qual for o roteiro por onde transitaram aqueles teus afetos, agora além da carne, ora por eles, pensa neles com bondade e amor.
Transforma as moedas que iriam adquirir flores e luzes frágeis demais para os atingirem — logo mais fanadas e mortas, bruxuleantes e sem lume — em leite e pães para débeis criancinhas esquálidas, em caldo quente e reconfortante para velhinhos esquecidos nas sombras espessas da miséria, em medicamento refazente para enfermos em agonias e dores tormentosas, em agasalhos para corpos em absoluta nudez, em oportunidade de trabalho para pais de família ao desemprego e desassossegados, em meios honrosos para todos aqueles que seguem pelo teu caminho, como homenagem a eles, os teus mortos queridos, que vivem e te bendirão o amor.

O que fizeres em memória deles se transformará em lenitivo às suas aflições, atestado inequívoco de afeição que não passará despercebido por eles. Desobstrui gavetas e armários e passa adiante o que conservas como lembrança deles, fazendo-os apegados a esses valores realmente mortos... Teus mortos vivem! Respeita-os, homenageando-os através da bênção da caridade dirigida a outros.

Enquanto a saudade macerava os corações atemorizados dos discípulos, após os sucessos da tarde trágica de Jerusalém, e a inquietação os sobressaltava, pela madrugada do domingo, mulheres piedosas, entre as quais uma ex-cortesã, acorreram ao sepulcro aberto na rocha, para visitar o inumado querido, encontrando, porém, a sepultura violada e vazia.

Procurando informar-se do que sucedera, a jovem de Magdala defrontou-O nimbado de safirina e radiosa luz, enquanto Ele, sorrindo, saúda-a jubiloso: — «Maria» !

Diante dos entes queridos, mortos, recorda Maria de Magdala aflita e Jesus triunfante depois da morte, retornando em incomparável manifestação de imortalidade gloriosa, vencedor das sombras e das dores...

25 - CONSIDERANDO A MORTE
A problemática da "morte" decorre do comportamento de cada criatura durante a vida física. Por mais se alongue a existência corporal, momento chega em que a desassociação dos tecidos liberta a energia vitalizante, concedendo ao espírito encarnado que a movimenta o retorno aos postos da Erraticidade donde proveio.

Morrer é mudar de estado vibratório. Morre cada pessoa conforme vive, ligada às paisagens festivas da esperança ou algemada às paixões fatigantes dos seus desvarios. Reservando somente pequenos «espaços-mentais> para cultivar os pensamentos de ordem superior, ou psiquicamente aclimatado ao amolentamento do caráter, ou educado dentro de padrões comodistas, a morte, para esses, invariavelmente se afigura como fenômeno que propicia o aniquilamento da personalidade, em cujo curso se apagam as luzes da consciência.

Somente em raros espíritos se demoram, na atualidade, as idéias da Justiça Divina padronizada nas limitações dogmáticas e nas instruções literais da Bíblia. No entanto, face ao progresso tecnológico e diante das aspirações tormentosas pela comodidade que faculta prazeres nem sempre nobilitantes, grassam em mentes e corações os postulados materialistas-negativistas em torno da realidade da vida, no além-túmulo, conquanto o estuar do Universo e a glória da existência indestrutível em toda parte.

Embora o comportamento mental de uns e de outros, a vida surpreende, exultante, o viajor imprevidente após a cessação da aparelhagem fisiológica de que se serve. O «complexo eletrônico comandado pela consciência», conceito a que muitos reduzem a vida humana em audaciosos golpes de simplismo, outro não é senão o espírito livre e independente, que permanece sob as vibrações que cultivou, experimentando os contigentes energéticos a que se imantou espontaneamente.

Através do sono fisiológico, revelam-se os estados espirituais dos transeuntes do veículo carnal. No despertar da consciência, após os tratamentos cirúrgicos, expressam-se os estados dalma dos homens. Sob a coacão dos «alucinógenos» desatam-se as expressões de vidas anteriores, algumas das quais esquecidas, que refletem os problemas íntimos dos que se deixam experimentar por tais métodos de liberação da subconsciência.

Impressos a golpes vigorosos da idéia-forma, nas telas sutis da organização perispiritual, desejos e ambições, programas íntimos e roteiros de vida, ao impacto da anestesia profunda para a cirurgia da desencarnação, abrem os depósitos psíquicos do espírito, que libertam os fantasmas cultivados e os delitos praticados, que se corporificam, retomando o comando da imaginação, nessa hora submissa, iniciando longos processos alucinantes e enlouquecedores.

Assim considerando, ante a realidade da «morte» que a todos os «viventes» um dia surpreenderá, cultiva a idéia otimista e estuda as diretrizes que conduzem à vida espiritual.

Como dedicas horas longas aos roteiros humanos que cessam e às tarefas da organização celular que se acabam, considera a problemática da vida espiritual e realiza meditações libertadoras, enviando aos fulcros psíquicos do perispírito as mensagens de alento e equilíbrio, preparando-te para a libertação da argamassa celular, de modo a prosseguires confiante e livre na dircção da vida maior, logo mais.

14 - O consolador - Emmanuel - pág. 91

Perg. 146 - É fatal o instante da morte? - Com exceção do suicídio, todos os casos de deserncarnação são determinados previamente pelas forças espirituais que orientam a atividade do homem sobre a Terra. Esclarecendo-vos quanto a essa exceção, devemos considerar que, se o homem é escravo das condições externas da sua vida no orbe, é livre no mundo íntimo, razão porque, trazendo no seu mapa de provas a tentação de desertar da vida expiatória e retificadora, contrai um débito penoso aquele que se arruína, desmantelando as próprias energias.

A educação e a iluminação do íntimo constituem o amor ao santuário de Deus em nossa alma. Quem as realiza em si, na profundeza da liberdade interior, pode modificar o determinismo das condições materiais de sua existência, alçando-a para a luz e para o bem. Os que eliminam, contudo, as suas energias próprias, atentam contra a luz divina que palpita em si mesmos. Daí o complexo de suas dívidas dolorosas.

E existem ainda os suicídios lentos e gradativos provocados pela ambição ou pela inércia, pelo abuso ou pela inconsideração, tão perigosos para a vida da alma, quanto os que se observam, de modo espetacular, entre as lutas do mundo. Essa a razão pela qual tantas vezes se batem os instrutores dos encarnados, pela necessidade permanente de oração e de vigilância, a fim de que os seus amigos não fracassem nas tentações.

Perg. 147 — Proporciona a morte mudanças inesperadas! e certas modificações rápidas, como será de desejar?
— A morte não prodigaliza estados miraculosos para a nossa consciência. Desencarnar é mudar de plano, como alguém que se transferisse de uma cidade para outra, aí no mundo, sem que o fato lhe altere as enfermidades ou as virtudes com a simples modificação dos aspectos exteriores. Importa observar apenas a ampliação desses aspectos, comparando-se o plano terrestre com a esfera de ação dos desencarnados.

Imaginai um homem que passa de sua aldeia para uma metrópole moderna. Como se haverá, na hipótese de não se encontrar devidamente preparado em face dos imperativos da sua nova vida? A comparação é pobre, mas serve para esclarecer que a morte não é um salto dentro da Natureza. A alma prosseguirá na sua carreira evolutiva, sem milagres prodigiosos.

Os dois planos, visível e invisível, se interpenetram no mundo, e, se a criatura humana é incapaz de perceber o plano da vida imaterial, é que o seu sensório está habilitado somente a certas percepções, sem que lhe seja possível, por enquanto, ultrapassar a janela estreita dos cinco sentidos.

Perg. 148 — Que espera o homem desencarnado, diretamente, nos seus primeiros tempos da vida de além-túmulo?
— A alma desencarnada procura naturalmente as atividades que lhe eram prediletas nos círculos da vida material, obedecendo aos laços afins, tal qual se verifica nas sociedades do vosso mundo. As vossas cidades não se encontram repletas de associações, de grêmios, de classes inteiras que se reúnem e se sindicalizam para determinados fins, conjugando idênticos interesses de vários indivíduos? Aí, não se abraçam os agiotas, os políticos, os comerciantes, os sacerdotes, objetivando cada grupo a defesa dos seus interesses próprios?

O homem desencarnado procura ansiosamente, no Espaço, as aglomerações afins com o seu pensamento, de modo a continuar o mesmo gênero de vida abandonado na Terra, mas, tratando-se de criaturas apaixonadas e viciosas, a sua mente reencontrará as obsessões de materialidade, quais as do dinheiro, do álcool, etc., obsessões que se tornam o seu martírio moral de cada hora, nas esferas mais próximas da Terra.

Daí a necessidade de encararmos todas as nossas atividades no mundo como a tarefa de preparação para a vida espiritual, sendo indispensável à nossa felicidade, além do sepulcro, que tenhamos um coração sempre puro.


Perg. 149 — Logo após a morte, o homem que se desprende do invólucro material pode sentir a companhia dos entes amados que o precederam no além-túmulo?
— Se a sua existência terrestre foi o apostolado do trabalho e do amor a Deus, a transição do plano terrestre para a esfera espiritual será sempre suave. Nessas condições, poderá encontrar imediatamente aqueles que foram objeto de sua afeição no mundo, na hipótese de se encontrarem no mesmo nível de evolução. Uma felicidade doce e uma alegria perene estabelecem-se nesses corações amigos e afetuosos, depois das amarguras da separação e da prolongada ausência.

Entretanto, aqueles que se desprendem da Terra, saturados de obsessões pelas posses efêmeras do mundo e tocados pela sombra das revoltas incompreensíveis, não encontram tão depressa os entes queridos que os antecederam na sepultura. Suas percepções restritas à atmosfera escura dos seus pensamentos e seus valores negativos impossibilitam-lhes as doces venturas do reencontro.

É por isso que observais, tantas vezes, Espíritos sofredores e perturbados fornecendo a impressão de criaturas desamparadas e esquecidas pela esfera da bondade superior, mas, que, de fato, são desamparados por si mesmos, pela sua perseverança no mal, na intenção criminosa e na desobediência aos sagrados desígnios de Deus.

Perg. 150 — É possível que os espiritistas venham a sofrer perturbações depois da morte?
— A morte não apresenta perturbações à consciência reta e ao coração amante da verdade e do amor dos que viveram na Terra tão-somente para o cultivo da prática do bem, nas suas variadas formas e dentro das mais diversas crenças.

Que o espiritista cristão não considere o seu título de aprendiz de Jesus como um simples rótulo, ponderando a exortação evangélica — "muito se pedirá de quem muito recebeu", preparando-se nos conhecimentos e nas obras do bem, dentro das experiências do mundo para a sua vida futura, quando a noite do túmulo houver descerrado aos seus olhos espirituais a visão da verdade, em marcha para as realizações da vida imortal.

Perg. 151 — O Espírito desencarnado pode sofrer com a cremação dos elementos cadavéricos?
— Na cremação, faz-se mister exercer a piedade com os cadáveres, procrastinando por mais horas o ato de destruição das vísceras materiais, pois, de certo modo, existem sempre muitos ecos de sensibilidade entre o Espírito desencarnado e o corpo onde se extinguiu o "tônus vital", nas primeiras horas sequentes ao desenlace, em vista dos fluidos orgânicos que ainda solicitam a alma para as sensações da existência material.

Perg. 152 — A morte violenta proporciona aos desencarnados sensações diversas da chamada "morte natural"?
— A desencarnação por acidentes, os casos fulminantes de desprendimento proporcionam sensações muito dolorosas à alma desencarnada, em vista da situação de surpresa ante os acontecimentos supremos e irremediáveis. Quase sempre, em tais circunstâncias, a criatura não se encontra devidamente preparada e o imprevisto da situação lhe traz emoções amargas e terríveis.
Entretanto, essas surpresas tristes não se verificam para as almas, no caso das enfermidades dolorosas e prolongadas, em que o coração e o raciocínio se tocam.

27 - SEMEADOR EM TEMPOS NOVOS - EMMANUEL - PÁG. 84

NA TRAVESSIA DA MORTE

É na hora solene da morte que todas as recordações da vida sobem à tona da consciência. Descolchetam-se da memória os quadros que o tempo acumulou, em sua passagem, e as figurações do pensamento, as palavras desferidas e os atos endereçados ao caminho terrestre volvem à visão interior da alma em crise, carreando consigo os efeitos que produziram, segundo a própria espécie.

Vozes brandas e austeras se levantam para bendizer ou amaldiçoar, mãos serenas ou crispadas de dor se erguem para auxiliar ou ferir e imagens múltiplas, traduzindo amor e ódio, devotamento ou desprezo, se sucedem irremovíveis no imo da criatura em prostração, compelindo-a a receber o fruto das próprias obras.

A morte é, por isso mesmo, o retrato da vida. Cada atitude nossa entre os homens é uma pincelada na tela do destino a esperar-nos no limiar do sepulcro, em sua justa coloração.

Cada conflito que improvisamos ser-nos-á deplorável tumulto na mente, quanto cada gesto de amor puro erigir-se-nos-á por luz crescente, na travessia do nevoeiro.

Ao invés de temeres a morte, faze da existência a lavoura sublime de bondade e trabalho, auxílio e compreensão, em favor dos que te rodeiam, porque os semelhantes simbolizam tratos do campo que o Senhor nos concede lavrar em socorro de nossas necessidades, na Vida Eterna, e para o lavrador que se vale do dia, na transformação do próprio amor em fartura de bênção e pão, a noite chega sempre por sombra esmaltada de estrelas, acalentando-lhe o sono e garantindo-lhe o despertar.

28 - TREVO DE IDÉIAS - EMMANUEL - PÁG. 47

OURO ALÉM DA MORTE

A influência do ouro não termina no pó do sepulcro, arremessando no caminho daqueles que o possuíram a faixa libertadora da luz ou o rastilho escravizante da sombra. Para os pais amorosos que o dependeram na educação dos filhos, é bênção de alegria, conservando-os em paz; no entanto, para aqueles que o retiveram, em regime de avareza, envenenando a prole com a febre da ambição, é ferrete de injúria, a algemar-lhes o ser na cobiça doméstica sobre a lama do mundo.

Para quem o gastou, amparando a carência, é flama de beleza a indicar-lhe o roteiro para o esplendor solar; todavia, para quem o investiu no prazer vicioso é amarga lembrança, atormentando-lhe as horas.

Para quem o elevou ao socorro espontâneo à criança infeliz e ao doente sem lar, é prece de consolo a exaltar-lhe a esperança; entretanto, para aquele que o exigiu das mãos de viúvas e enfermos, agravando na estrada as dores alheias, transformar-se de chofre em pesadelo plasmando o remorso em que passa a viver.

Todos os bens da vida são pertences do Pai e tudo usufruímos por empréstimos de amor. Não olvides que todos os recursos que hoje nos felicitam constituem talentos da Infinita Bondade, que nos segue, de perto, as decisões e os passos, multiplicando concessões e favores ao nosso impulso firme na direção do bem, mas cobrando-nos sempre, pelas mãos da justiça, a conta de nossos desajustes, quando no abuso pleno da proteção celeste segregamos os tesouros de Deus no azinhavre do orgulho ou nas trevas do mal.

29 - FLORAÇÕES EVANGÉLICAS - JOANNA DE ÂNGELIS - PÁG. 61, 93

EXAMINANDO A DESENCARNAÇÃO

Fatalidade biológica, a morte, ou seja a mudança de uma forma para outra, por impositivo da necessidade de transformações incessantes, começa quando ocorrem as primeiras expressões da vida. No homem, por exemplo, em cada segundo, no seu aparelho circulatório, morrem um milhão de hemácias que são aproveitadas por células especiais no fígado, para a elaboração de outras, graças ao ferro que é delas extraído.

Segundo alguns biólogos, em cada sete anos, o corpo humano se renova quase integralmente, à exceção das células nervosas, graças ao processo de transformação ou morte que ocorre na estrutura somática. Modificações incessantes em que a matéria assume a forma energética e esta se adensa em novas expressões físicas, a morte da aparência é uma constante indispensável à evolução.

Do resfriamento da energia que se condensa em matéria, da dissociação das moléculas para o retorno à energia, no homem, o Espírito que é o modelador da forma, sofre na sua intimidade os diversos fenômenos de aglutinação e desagregação estrutural. Morrer, portanto, ou desencarnar, significa, somente, mudar de estado. A desencarnação tem início de dentro para fora do corpo, nos tecidos sutis do perispírito, que condicionados a vibrações especiais, encarregadas de manterem a vitalidade fisiopsíquica, começam a per­der a sintonia, por cuja exteriorização mantêm nas suas órbita as moléculas constitutivas da matéria.

Mesmo nas ocorrências da desencarnação violenta, por circunstâncias de várias ordens, não obstante a morte fisiológica por interrupção da corrente mantenedora da vitalidade, o processo desencarnatório só a pouco a pouco se consuma, através da liberação dos liames psicossomáticos que se encontram imantados ao corpo. Disso decorrem as sensações violentas, danosas, aflitivas que experimentam os desencarnados, ainda imantados à carne, que são à violência arrancados da estrutura material, sem o correspondente desligamento dos núcleos vitalizadores pelo processo paulatino da dissociação liberativa.

As expressões cadavéricas, em tais casos, transitam em forma de dor ou angústia, dos tecidos em decomposição ao Espírito, mediante a complexa rede de filamentos semimateriais que se fixam nas intimidades celulares, encarregadas do processo aglutinador dos átomos nas realidades das funções e formas fisiológicas. Expressiva a contribuição da mente no processo desencarnatório. Seja o hábito salutar do desprendimento, exercitado pelo Espírito encarnado, seja a lembrança mental dos que se vinculam aos desencarnados, as vibrações se transformam em sensações, produzindo, obviamente, liberação ou cativeiro do Espírito às formas materiais, conquanto muitas vezes reduzidas a resíduos já em fase final de fusão na química inorgânica do subsolo ou nas carneiras em que jazem.

Comumente, após o desaparecimento da forma, as construções mentais, elaboradas em contínuas fixações nos centros da memória espiritual se encarregam de reproduzir nas telas sensíveis do perispírito as formas-pensamento que se transformam em suplício de demorado curso - fantasmas que se corporificam e se atam ao desencarnado, angustiando-o e atemorizando-o -, até que a dor corretiva, por paulatino processo de coercitivo desgate das imagens vitalizadas, desapareça dos painéis mentais.

O mesmo ocorre no campo da organização somática, quando o Espírito sofre a constrição das elaborações mentais, a elas submetendo-se, e experimentando o efeito do seu efeito - círculo vicioso, dominante -, que somente se modifica ao império da renovação interior, através de registros salutares que realizarão o ministério da paz, como resultante das consequências favoráveis que decorrem dessas cau­sas edificantes.

Descontrai-te, liberando-te do medo, das paixões, das limitações e voa na direção das paisagens superiores, a fim de que a desencarnação, cujo processo lento já experimentas sem que o saibas, em se consumando, não te agrilhoe ao mundo das formas de que necessitas desvincular-te. Dia chegará em que o teu processo reencarnatório culminará com a cessação dos ciclos vibratórios no corpo e terás que pairar além e acima das circunstâncias materiais, desencarnado, porém vivo, morto na forma, no entanto, em transformações de dentro para fora, prosseguindo na direção da Vida Abundante.

O que crê em mim, ainda que esteja morto viverá. João: 11-25.

A própria destruição que aos homens parece o termo final de todas as coisas, é apenas um meio de chegar-se, pela transformação, a um estado mais perfeito, visto que tudo morre para renascer e nada sofre o aniquilamento. Cap. III - ítem 19.

RETORNO
Por mais longos sejam os teus dias na Terra, durante a abençoada jornada corpórea, dia luz em que retornarás à Pátria espiritual que é o teu berço de origem e a sagrada morada onde permanecerás nas empresas do porvir. Medita ! Absorvida pela atmosfera, a linfa cantante flutua na nuvem ligeira para retornar ao seio gentil da terra que a conduzirá, logo mais, aos imensos lençóis de água do subsolo, que afloram em correnteza cantante, mais além.

A semente exuberante, enclausurada no fruto que balouça nos dedos da árvore, retorna ao âmago do solo generoso donde proveio. Também o homem. Afastado do círculo donde procede em excursão de lazer ou refazimento, de trabalho ou produtividade, de estudo ou repouso, sente o chamado longínquo dos amores da retaguarda, retornando logo para o labor em que as emoções se renovam e as esperanças se realizam.

Muitos cantam a Pátria com o seu magnetismo e as suas tradições; explicando as evocações e os impulsos heróicos dos homens, seus sonhos de glória e suas lutas de sacrifício. Assim, também, a Pátria do Espírito, sempre presente nos painéis mentais como paisagens etéreas, porém vivas, longíquas, no entanto latejantes, murmurejando salmodias que se transmudam, às vezes, em melancolias longas e tormentosas, ou em excitantes expectativas que exaltam o ser a providências sublimantes...

Considera a lição necessária do retorno. Como organizas equipagem, mimos e lembranças, arquivas roteiros e assinalas fatos para futuras narrações e imediatos aprestos, prepara a bagagem com apuro e justeza, demorando-te em vigília para quando chegue o esperado momento da volta. Retornarás, sim! Vive, pois de tal modo, na laboriosa escola do corpo disciplinado e em equilíbrio, que facultem uma valiosa colheita de bênçãos a se transformarem em luzeiro clarificante para o caminho espiritual por onde retornarás.

Nós sabemos que já passamos da morte para a vida. 1ª Epístola de João: 3-14.

Ao entrar no mundo dos Espíritos, o homem ainda está como o operário que comparece no dia do pagamento. A uns dirá o Senhor: "Aqui tens a paga dos teus dias de trabalho"; a outros, aos venturosos da Terra, aos que hajam vivido na ociosidade, que tiverem feito consistir a sua felicidade nas satisfações do amor-próprio e nos gozos mundanos: "Nada vos toca, pois que recebestes na Terra o vosso salário. Ide e recomeçai a tarefa". Cap. V - ítem 12.

30 - OFERENDA- JOANNA DE ÂNGELIS - PÁG. 17

PASSAPORTE PARA A VIDA

Na pauta das tuas atividades e reflexões diárias, inclui a questão da morte como de primacial importância. Mesmo que tramites num corpo jovem e harmonioso, nenhuma garantia possuis quanto à sua durabilidade. Se a madureza das forças já caracteriza a tua jornada, de menos tempos dispões, desde que encetaste a marcha.

Caminhando com os passos exauridos da senectude, já defrontas o pórtico da imortalidade em triunfo, que a todos aguarda e recebe. Em qualquer condição que te encontres: na saúde, na doença, na juventude, na velhice, convives com a morte do corpo físico, desde que o estado fisiológico, de forma alguma serve de parâmetro para considerar a dimensão da vida.

Os acidentes de várias procedências, revelando-se em forma de infortúnio, chamam, a cada dia, os jovens, deixando os idosos; convocam os sadios, em detrimento dos enfermos, reconduzindo-os ao país da vida-além-da-vida. Morrer é transformar-se molecularmente, abandonar o pesado envoltório material para movimentar-se em diferente faixa vibratória.

A morte é apenas o passaporte para a vida. Incorporando ao cotidiano o programa de preparação para a morte, encontrarás alento as vicissitudes e vencer os impedimentos que, não poucas vezes, repontam pela senda redentora. Sempre defrontarás a morte nos sucessos da vida e descontinarás a vida após o deslinde pela morte.

Aqui, é um filho querido que te precede, ou um irmão a quem tem vinculas pela consaguinidade carnal que se transfere do corpo; ali, é um esposo afeiçoado que rompeu as barreiras da forma somática, ou um genitor extremoso, que foi conduzido à vida nova; acolá, é um amigo que se desvencilhou dos liames fisiológicos ou um conhecido que não esperavas viajasse tão cedo e seguiu no veículo da desencarnação.

A surpresa estará presente no teu dia-a-dia, em relação aos que partem fazendo-te considerar, mesmo que não o queiras, a fragilidade da enfibratura física. Nesse comenos, quiçá, chega o instante em que será a tua vez, o momento de abandonar o escafandro material, a fim de respirares outra atmosfera e habitares noutra faixa de vibração.

Não te deixes atemorizar pela morte nem a desconsideres. Ante alguém querido que rumou para o país da sobrevivência, refugia-te na oração e mergulha o pensamento na confiança irrestrita em Deus. Lene a saudade, que a ausência dele te impõe, através da memória dos momentos felizes que fruíste ao lado desse afeto, hoje fisicamente distante...

Ele receberá a tua mensagem emocional pelo telefonema do pensamento e também se renovará. Sentir-se-á evocado pelo teu carinho e estabelecerá um intercâmbio com que te nutrirá de esperança face ao reencontro que se dará oportunamente.

Colhido pela partida inesperada de um ser amado, não te revoltes, expelindo o ácido do desespero ou atirando espículos de blasfêmias injustificáveis, com ambas as atitudes atormentando-te e mais afligindo aquele que necessita das tuas reservas de forças psíquicas e morais, a fim de renovar-se e prosseguir em paz.

Todos que se encontram no corpo físico, deixá-lo-ão, atravessando a aduana da morte, na direção da imortalidade em plenitude da vida.

31 - TEMAS DA VIDA E DA MORTE - MANOEL P. DE MIRANDA - PÁG. 67, 77, 83

TEMOR DA MORTE:

O temor da morte resulta de vários fatores inerentes à natureza humana e à sua existência corporal. Entre eles ressaltam: a - o instinto de conservação da vida, que lhe constitui força preventiva contra a intemperança, a principitação e o suicídio, não obstante desconsiderados nos momentos de superlativo desgosto, revolta ou desespero; b- a predominância da natureza animal, que nos inferiores comanda as suas aspirações, tendências e necessidades; c) o temporário olvido da vida espiritual donde procede; d) o conteúdo religioso das doutrinas ortodoxas, que oferece uma visão distorcida quão prejudicial do que sucede após a ruptura dos laços materiais, elaborando um mundo de compensações em graça como em castigo, conforme a imaginação dos homens vitimados por fanatismos e alucinações; e) o receio de aniquilamento da vida, por falta de informações corretas a respeito do futuro da alma e daquilo que Jhe está destinado...

Programado o corpo para servir de instrumento para o progresso do Espírito, através de cujo cometimento desenvolve todas as aptidões e valores que nele jazem latentes, o instinto de conservação é-lhe um elemento de alto valor, para que seja preservada a vida e impulsionada para a frente até às últimas resistências. Em face dessa condição, o Espírito se imanta ao corpo e receia perdê-lo, em razão do atavismo ancestral que lhe bloqueia o discernimento a respeito daquilo cujos dados de avaliação não logram impressionar-lhe os sentidos.

O predomínio da natureza animal desenvolve-lhe o egoísmo e exacerba-lhe a paixão violenta, acentuando a sensualidade que se expande engendrando programas de novos gozos, que terminam por exaurir-lhe as energias mantenedoras dos equipamentos de sustentação orgânica. Assim é que um leve aceno de prolongamento da vida moribundo fá-lo sorrir e aspirar pela sua ocorrência, em injustificáveis apego aos despojos que lhe não permitem mais largos logros, embora lhe concedam a permanência física.

A reencarnação promove o transitório esquecimento do passado, que é providencial para poupar ao Espírito a amargura que os seus erros impõem e os seus delitos o afligem. Esse esquecimento constitui motivo de receio da morte, em razão da falta de elementos que estruturem a confiança na sobrevivência, com o retorno ao mundo espiritual. As sensações sobrepõem-se às emoções, fixando-lhe os interesses na vida física, apesar de saber da sua efêmera existência.

O estabelecimento de prêmios e punições de sabor material, nos quais as religiões do passado firmaram estrutura da existência espiritual, tornou-a detestável, e se considerando o medo a uma justiça absurda e impiedosa ou a indiferença por uma felicidade estanque, monótona e perpétua, que tem lugar num céu onde o amor não dispõe de recursos para socorrer o caído, nem a piedade vige em relação aos infelizes...

Por fim, o engodo dos sentidos anestesia a razão, levando-a a concluir que a morte deles representa a destruição da vida, arrolando o cérebro como autor do pensamento e os órgãos na condição de causa da existência do ser. Assim, a desinformação e as concepções erradas sobre a vida futura são responsáveis pelo temor da morte, que leva muitos indivíduos a estados neuróticos lamentáveis, como a comportamentos alucinados, nos quais buscam o esquecimento, fugindo da sua contingência enganosa.

É inata, todavia, em todos os seres, a idéia da sobrevivência do Espírito à disjunção molecular do corpo cadaverizado. A intuição do futuro sempre esteve presente em todos os povos, desde os mais primitivos, estabelecendo de alguma forma, um código ético de comportamento, que previne o homem e o prepara para o encontro com a consciência após o traspasse. Nos indivíduos imediatistas, aferrados aos prazeres físicos, o medo da morte é maior, em face das sensações que o escravizam à matéria, fazendo-o recear a perda dos gozos em que se comprazem.

À medida, porém, que se aclaram os enigmas em torno da realidade "post mortem", em que os fatos demonstram o seu prosseguimento, oferecendo uma visão correta sobre a sua continuação, o temor cede lugar à confiança e as dúvidas são substituídas pela certeza da perenidade do ser, que se sente estimulado a preparar, desde então, esse futuro, no qual a felicidade possui uma dinâmica que fomenta o progresso incessante, em decorrência do esforço empreendido por quem deseja alcançá-lo.

Essa convicção leva o homem a uma mudança de metas, que passa a conquistar, esforçando-se pelo trabalho no presente com os olhos postos no futuro. A saudade dos afetos que o precederam na viagem de volta não mais dilacera, porquanto a certeza do reencontro faz que novos estímulos tomem corpo, executando um programa de promoção para credenciá-lo à convivência ditosa. Graças a esta emulação, todos os esforços aplicados com direcionamento positivo, ensejando coragem para a luta e ânimo para vencer o cansaço ou quaisquer outras dificuldades que intentem obstaculizar-lhe a marcha.

O conhecimento dos objetivos mediatos da vida e a identificação dos valores jacentes no Espírito, mediante a concentração no ser real, fazem que a perda do envolto físico não signifique quase nada em relação à sobrevivência doadora de todas as bênçãos a que se pode aspirar. Enquanto perdura o fenômeno orgânico, as impressões da vida espiritual são fugazes, incompletas. Na razão entretanto, em que diminuem os impositivos da matéria sobre a alma, ampliam-se-lhe as percepções do mundo causal, dando origem a um secreto desejo de despojar-se fardo que pesa, às vezes, com altas cargas de miséria e de dor.

Aqueles que, na vida física apenas, depositam todas as aspirações e necessidades, temem perdê-la, aferrando-se com desespero às suas exigências em prejuízo da libertação, que se lhes torna penosa e demorada. O exercício mental e o natural desapego das ilusões favorece a confiança na sobrevivência, anulando o injustificável medo à morte. Para tanto, faz-se mister o amadurecimento íntimo que decorre da vivência equilibrada e do conhecimento que o estudo e a experiência propiciam, ou que resultam do sofrimento, o grande e oportuno fiador dos que se encontram encarcerados, anelando pela libertação.

O homem deve pensar na morte conforme pensa na vida. Cada dia que passa no calendário terrestre, adicionando-lhe tempo à existência física, é-lhe um a menos que o aproxima do portal da morte. Substituir o medo pela expectativa de como será a vida mais tarde, substituir a incerteza pela conscientização do prosseguimento espiritual, deve ser um programa bem elaborado para ser vivido com tranquilidade, no dia-a-dia que faz parte do seu peregrinar evolutivo.

A vida espiritual assim perde para ele o seu caráter hipotético para tornar-se uma realidade, na qual penetra desde antes da morte, através dos fenômenos mediúnicos que lhe propiciam essa convicção, especialmente com o intercâmbio dos sempre vivos, que o vêm emular na preparação da equipagem para o inevitável processo de retorno, que se dá através do mecanismo da morte biológica.

MORTE E DESENCARNAÇÃO:
Etimologicamente, morte significa "CESSAÇÃO COMPLETA DA VIDA DO HOMEM, DO ANIMAL, DO VEGETAL". Genericamente, porém, morte é "TRANSFORMAÇÃO". MORRER, do ponto de vista espiritual, nem sempre é desencarnar, isto é, liberar-se da matéria e das suas implicações. A desencarnação é o fenômeno de libertação do corpo somático por parte do Espírito, que, por sua vez, se desimanta dos condicionamentos e atavismos materiais, facultando a si mesmo liberdade de ação e de consciência. A morte é o fenômeno biológico, término natural da etapa física, que dá início a novo estado de transformação molecular.

A desencarnação real ocorre depois do processo da morte orgânica, diferindo em tempo e circunstância, de indivíduo para indivíduo. A morte é ocorrência inevitável, em relação ao corpo, que, em face dos acontecimentos de várias ordens, tem interrompidos os veículos de preservação e de sustentação do equilíbrio celular, normalmente em consequência da ruptura do fluxo vital que se origina no ser espiritual, anterior, portanto, à forma física.

A desencarnação pode ser rápida, logo após a morte, ou se alonga em estado de perturbação, conforme as disposições psíquicas e emocionais do ser espiritual. Consoante a lei da entropia, que estabelece a necessidade da energia para a manutenção da vida, a morte é o efeito imediato da carência desse agente, seja a pouco e pouco, pelo envelhecimento dos órgãos, que já não se renovam, ou mediante a violência, de qualquer modalidade, que lhe impede a sustentação das moléculas que se aglutinam sob a sua força de coesão.

Tendo-se em vista que o homem procede do mundo espiritual, a morte é o veículo que o reconduz à origem, onde cada qual ressurge com as características definidoras das suas conquistas. Morrer é, portanto, muito fácil, isto é, interromper o ciclo orgânico, o que, entretanto, não significa deixar de viver, desde que, indestrutível, a vida ressurge sob outro aspecto, sem que haja cessação do seu curso, ou outra qualquer forma de aniquilamento.

Porque a vida se encontre submetida a leis invioláveis na sua estrutura íntima, o próprio ato de morrer, não poucas vezes, é precedido de exames e estudos por parte dos Espíritos encarregados de manutenção da vida, que são os Mentores dos homens, dedicados a auxiliar no desenvolvimento intelecto-moral a que todos somos submetidos como encarnados ou desencarnados.

Na faixa em que se encontram os mais simples espiritualmente, cujas vidas se desenvolvem nas áreas das experiências mais instintivas, quais a alimentação, a reprodução, o repouso e o prazer, a ocorrência da morte se dá através de automatismos previstos pelo processo natural da evolução, num ir-e-vir que facultará condições para que sejam atingidas etapas de maior relevância.

Nas fases em que ao instinto mais dominador sucedem as aspirações do discernimento, dos ideais e compromissos nobres, o livre-arbítrio, comandando muitos dos mecanismos morais, propicia os cuidados dos Instrutores desencarnados que se encarregam de estabelecer os períodos de aprendizagem no corpo, de acordo com os compromissos pretéritos no campo das conquistas e dos prejuízos adquiridos pelo ser em crescimento.

Nas expressões mais relevantes da responsabilidade moral e espiritual dos indivíduos vinculados a tarefas deveras significativas, da mesma forma que a reencarnação exige cuidados e planejamento especiais, a morte e a liberação imediata são conduzidas através de programas mais bem estudados. De acordo com os valores individuais e o efeito que causam suas vidas em outras vidas, a morte pode ser antecipada ou postergada, considerando-se os benefícios que decorrem da interrupção da vilegiatura carnal.

Certamente, nas outras faixas do processo evolutivo, a morte pode ser precipitada tanto quanto retardada, graças ao desgaste ou prolongamento das forças vitais mantenedoras do corpo, como resultado do uso que se permitam as criaturas. No suicídio direto, violento, a morte não liberta, produz, ao contrário, o prolongamento das aflições, aumentadas pelas dores morais e pelos fenômenos decorrentes da imantação do Espírito ao corpo, pelas fixações mentais geradoras de sensações novas e rudes, que enlouquecem, quase sempre, todo aquele que planejou fugir, sendo pela vida surpreendido mais adiante.

Em proporções menores, não, porém, menos dolorosas, dá-se a mesma agonia nos suicídios indiretos, no desgaste exagerado que decorre do abuso das funções do corpo, cuja finalidade específica é a de ensejar o progresso do Espírito que se deve aprimorar, qual aluno aplicado no educandário que frequenta. A desencarnação dá-se, também, noutras circunstâncias, mesmo antes da ocorrência da morte física, quando o ser, voltado para a realidade maior, a causal, começa a transferir as aspirações e anelos para esta, vivendo e agindo no mundo sem que se deixe aprisionar aos seus grilhões.

Nesse sentido, o sofrimento resignado tem papel relevante, porque faculta a superação dos condicionamentos, transformando sensações grosseiras em emoções menos densas que as cargas das paixões primitivas. Em outros casos, a desencarnação se inicia mesmo durante a vida física, através das atitudes idealistas, missionárias, em que a abnegação, a renúncia, o sacrifício e o amor em dimensões mais amplas sutilizam o peso específico da organização material, transformando as correntes de energia que transitam do ser espiritual para o corpo e vice-versa, agindo nos implementos orgânicos de forma menos densa.

Biologicamente, começa-se a morrer desde quando se começa a viver, pois que as transformações celulares se dão incessantemente.
A morte deve merecer estudos e reflexões por parte de todos os homens, mergulhados que estão nas correntes da vida, temporariamente amortecidas a lucidez e as recordações pela indumentária carnal. Assim considerando, em muitos casos, para morrer e logo desencarnar e libertar-se é necessário ter merecimento .

Permanecer num corpo mutilado e dorido, sob os camartelos das aflições morais e físicas, constitui necessidade inadiável, e essa conduta na dor facultará ou não a libertação, conforme seja vivida. Como cada homem tem a vida que precisa, na Terra, para crescer e ser feliz, cada qual tem a morte a que faz jus em razão dos atos praticados.

Nesta proposta - morrer e desencarnar, termos da mesma equação da vida -, o homem de bem opta pela conduta de libertação, graças à qual, tão logo ocorra a interrupção da vida orgânica, ele se desprende dos despojos físicos e de suas implicações escravocratas, ensejando-se-lhe a libertação real, no retorno feliz ao lar que o aguarda após a experiência evolutiva ora concluída.

MORRENDO PARA VIVER:
À tradição espiritualista oriental se atribui o conceito de que os pensamentos finais do moribundo, acalentados por hábito natural, se encarregarão de plasmar o seu futuro corpo, no processo da reencarnação, nele fixando, por aspiração livre, os valores e recursos necessários para o progresso. Certamente, as idéias negativas e deprimentes estabeleceriam comportamentos orgânicos e nervosos em padrões de sofrimento, assim como os anelos nobres dariam gênese a formas e funções harmônicas na vida subsequente, embora sujeitas às imposições cármicas decorrentes das ações praticadas.

Em face dessa crença, fazia-se necessário que o homem aprendesse a morrer, cogitando de reflexionar a respeito da fatalidade biológica em consonância com a harmonia íntima, responsável pelas futuras experiências carnais. Aprender a morrer tornou-se, para a cultura oriental ancestral, uma necessidade ética, filosófica e religiosa, tendo-se em vista a fragilidade e a pequena duração da vida carnal. Alias, segundo a mesma doutrina, aprendendo-se a morrer, está-se aprendendo a viver em níveis superiores de entendimento e ganhos morais, propiciando-se à criatura humana saúde espiritual, plenitude de vida e realização interior.

O apego à sensualidade e aos bens transitórios produz o pavor da morte, redundando em desarmonias internas que de forma alguma impediriam o processo desencamatório, às vezes apressando-o, em face dos elementos destrutivos que a mente elabora e sustenta.
No sentido inverso, a aceitação jubilosa do inevitável faculta a ampliação de tempo nas experiências terrenas, porque o psiquismo compreende que morrer é prosseguir vivendo, apesar da diferença vibratória na qual se expressará a realidade. Ninguém, desse modo, aprenderia a viver, se não fosse lograda a tarefa de aprender a morrer.

De fato, o processo da morte real inicia-se na plenitude das forças, quando a mente se apega e se apaixona por pessoas e coisas, enovelando-se em fixações que pretende permanentes, esquecendo-se da transitoriedade de todas elas enquanto na Terra. Desse modo, o exercício da desimantação e do desprendimento gerará recursos que facilitam o entendimento a respeito da morte, propiciando, além-túmulo, a continuação dos ideais de sabor eterno.

Ajuizando-se a questão sob este ponto de vista, alteram-se as estruturas do comportamento intelecto-moral de homem no mundo. Sem dúvida, apresentam-se-lhe importantes as conquistas do Espaço, a chegada a algum dos planetas do Sistema Solar e até mesmo o intercâmbio com outra Galáxia... Todavia, assume relevância maior o autoconhecimento, a consciente solução dos problemas de comportamento íntimo, as viagens ao cosmo de si mesmo.

Embora as vitórias sobre o transitório sejam valiosas, as que conseguem na transcendência sobre os valores temporais portanto, do mundo físico, são muito mais significativas, porque acompanham o indivíduo eterno em outros esforços de elevação, no sentido vertical do progresso. A indagação máxima que deveria preocupar o homem seria a de descobrir quem ele é, e, por extensão, qual a finalidade da sua vida na Terra, como consequência do saber de onde veio, a fim de postular de forma equilibrada a identificação do lugar para onde vai.

Ao decifrar essas interrogações, ele inicia automaticamente um curso de psiconáutica, pela meditação e reforma moral, encontrando-se no ontem e compreendendo o hoje, e graças a esses contributos poderá produzir eficazmente para o amanhã. As aspirações, os desejos fortes produzem o destino futuro do homem. Conforme desejar, sua vontade será posta em ação, do que resultará conquista ou perda no comércio moral e espiritual da vida. Os apegos de qualquer procedência, durante a vida física, impõem que após a morte prossigam interessando com o mesmo vigor com que foram estruturados antes.

A instabilidade no dever, tanto quanto a fixação nos desejos primários criam aflições e conjunturas amargas, em razão do seu conteúdo pleno de insatisfação e revolta. Somente a visão correta dos valores terrenos proporciona a sua utilização equilibrada, para posteriores avaliações, aceitação ou recusa do seu prosseguimento. O discernimento, por sua vez, clarifica a mente e liberta o sentimento daquilo que é prejudicial, inspirando as atividades perenes do amor sem posse, responsável pela liberdade.

Nos Provérbios, capítulo XXIII, versículo 7, encontra-se registrada essa opção, nos seguintes termos: "O homem é aquilo que pensa no seu coração." Naturalmente que, os últimos pensamentos não irão definir as futuras engrenagens de que o Espírito se utilizará na porvindoura reencarnação. Todavia, contribuirão de forma acentuada, não por serem os finais, senão porque refletem todos os hábitos vividos durante a existência, plasmadores dos envoltórios necessários, para a reeducação e aquisição de novos títulos de enobrecimento para o viajor eterno.

Os pensamentos são os modeladores do ser, porque são os promotores dos atos. Assim como o homem pensa, naturalmente se comporta. Exceção feita às aparências mascaradas pela compostura social, o indivíduo é, em realidade, aquilo que cultiva na mente. A ação do pensamento na vida do homem que o utiliza é tão vital quanto a do Sol nas células, na vida...O fatalismo biológico estabelecido mediante o nascer, viver e morrer ou transformar-se é inexorável.

Aprender a utilizar-lhe o ciclo, a fim de formular e conseguir metas iluminativas para o Espírito eterno, eis o que cumpre realizar, todos aqueles que se empenham na conquista da vida em si mesma, além das conjunturas celulares. Em face dessa circunstância, a morte, não raro detestada, se torna uma bênção, em cuja presença a liberdade abre suas asas para o encarcerado, propondo-lhe vôo auspicioso... Não houvesse tal limite estabelecido pela sabedoria das Leis, e o caos surgiria na Terra, apenas se apresentasse de maior duração a fase humana de vida, considerando-se uso inadequado que ainda se faz da existência corporal.

Todas as épocas, portanto, da trajetória terrestre, são de magnitude para que se considere a morte e se aprenda a morrer, vivendo-se com sabedoria cada momento, despendindo-se dos fatores infelizes e aspirando-se às conquistas ideais do Espírito. De tal forma procedendo o homem, nos momentos finais, o seu pensamento trabalhará a futura morada e talhará a roupagem formosa para uma nova reencarnação, na qual poderá concluir o ciclo dos renascimentos corporais, assim tornando-se um pleno conquistador.

32 - HARMONIZAÇÃO - EMMANUEL - PÁG. 27

PROBLEMAS DA MORTE

Milhares de criaturas regressam do templo da carne, cada dia, no mundo, aos planos da Vida Espiritual. Raras, porém, abandonam a Terra, com o título do trabalhador que atendeu ao cumprimento das próprias obrigações. Quase todas deixam o corpo denso pelo suicídio indireto.

Em todos os lugares do Planeta, vemos quem se envenena, metodicamente, pelos raios desvairados da cólera. Destacamos quem elimine a vida do estômago, superlotando o aparelho gástrico de viandas excitantes ou corrosivas. Reconhecemos quem se confia a vícios multiformes, criando monstruosos vermes mentais que se encarregam de aniquilar as possibilidades orgânicas.

Identificamos quem anestesia as próprias forças, enregelando-se pela ociosidade sistemática. Encontramos quem arme laços fatais aos próprios pés, movimentando ambições inferiores nas quais se conduz na luta de cada hora. Vemos quem se asfixia ao calor das próprias paixões desenfreadas.

Observamos quem se sufoca no pântano dos próprios pensamentos delituosos e escuros. Preservai o corpo, como quem reconhece no santuário da carne, o mais alto tesouro que o mundo é suscetível de oferecer. A experiência na Terra não é conferida em vão. Cada vida possui uma diretriz, um programa, uma finalidade.

Aquele que se ajusta à Divina Vontade incorpora a sua tarefa à obra incessante do Bem Infinito. Se tendes de doar as próprias energias, sem receio da morte, aprendamos com Cristo a ciência do sacrifício pessoal pelo bem de todos. Auxiliar constantemente, velar pelos que sofrem, amparar os que se transviam, extinguir as trevas da ignorância e balsamizar as feridas do próximo constituem esforços de renunciação que nos eleva ao Plano Superior.

Muitos se matam na Terra. Poucos morrem para que outros possam viver dignamente. Não nos esqueçamos de que enquanto Pilatos, com aparente tranquilidade, comprava o remorso que o conduziria ao suicídio direto, através da justiça mal aplicada, Jesus expirava no madeiro, entre a angústia do próprio coração e o sarcasmo dos que o assistiam, adquirindo, porém, a glória da ressurreição que acendeu no mundo a luz da imortalidade para todos os séculos terrestres.

33 - Escrínio de luz - Emmanuel - À frente da morte - pág. 169

Não olvides que, além da morte, continua vivendo e lutando o Espírito amado que partiu ... Tuas lágrimas são gotas de fel em sua taça de esperança.

Tuas aflições são espinhos a se lhe implantarem no coração. Tua mágoa destrutiva é como neve de angústia a congelar-lhe os sonhos. Tua tristeza inerte é sombra a escurecer· lhe a nova senda.

Por mais que a separação te lacere a alma sensível, levanta-te e segue para a frente, honrando-lhe a confiança, com a fiel execução das tarefas que o mundo te reservou. Não vale a deserção do sofrimento, porque a fuga é sempre a dilatação do labirinto em que nos arroja a invigilância, compelindo-nos a despender longo tempo na recuperação do rumo certo.

Recorda que a lei de renovação atinge a todos e ajuda quem te antecedeu na grande viagem, com o valor de tua renúncia e com a fortaleza de tua fé; sem esmorecer no trabalho - nosso invariável caminho para o triunfo. Converte a dor em lição e a saudade em consolo, porque, de outros domínios vibratórios, as afeições inesquecíveis te acompanham os passos, regozijando-se com as tuas vitórias solitárias, portas a dentro de teu mundo interior.

Todas as provas objetivam o aperfeiçoamento do aprendiz e, por enquanto, não passamos de meros aprendizes na Terra, amealhando conhecimento e virtude, em gradativa e laboriosa ascensão para a vida eterna. Deus, a Suprema Sabedoria e a Suprema Bondade, não criaria a inteligência e o amor, a beleza e a vida, para arremessá-los às trevas.

Repara em torno dos próprios passos. A cada noite no mundo segue-se o esplendor do alvorecer. O Inverno áspero é sucedido pela Primavera estuante de renascimento e floração. A lagarta, que hoje se arrasta no solo, amanhã librará em pleno espaço com asas multicolores de borboleta. Nada perece.

Tudo se transforma na direção do Infinito Bem. Compreendendo, assim, a Verdade, entesourando·lhe as bênçãos, aprendamos a encontrar na morte o grande portal da vida e estaremos incorporando, em nosso próprio espírito, a luz inextinguível da gloriosa imortalidade.

34 - O FENOMENO CHAMADO MORTE
Eliseu Rigonatti

A morte não existe no significado de aniquilamento, destruição total, transformação ¡¡ara o nada, separação eterna.
Nosso espírito é indestrutível e por isso é imortal.

Todavia não poderemos permanecer sempre encarnados. Um dia chegará em que teremos de mudar de categoria. A essa mudança é que se dá o nome de morte.
A morte é o fenómeno pelo qual o espírito se desliga completamente do corpo. Ela sobrevêm por doenças ou por acidentes que facilitem o desligamento.

Não devemos, portanto, temer a morte. Ela é a porta pela qual ingres¬saremos no mundo espiritual. E depende unicamente de nós o que lá vamos encontrar: se praticarmos o bem, coisas belas; se praticarmos o mal, o resultado do mal que tivermos cometido.

Se não devemos temer a morte, é-nos proibido procurá-la ou desejá-la, por mais aflitiva que seja nossa situação aqui na terra. 0 corpo humano é uma dádiva sublime de Deus, e só por vontade dele é que poderemos deixá-lo.

No momento de nosso desencarne é que mais necessitaremos do auxílio divino, especialmente se tivermos vivido distanciados do Altíssimo.
A causa que nos distancia de Deus é não cumprirmos nem respeitar¬mos os seus mandamentos, todos eles admiravelmente consubstanciados por Jesus no mandamento maior que é: Amarás a Deus sobre todas as coisas e ao teu próximo como a ti mesmo.

E quando é que nós nos afastamos do Altíssimo e não observamos o grande mandamento?

Quando cultivamos pensamentos impuros, maldosos, egoístas, deso¬nestos. Quando passamos a vida cuidando somente da parte material dela, deixando esquecidas as necessidades da alma; quando desprezamos a lei da fraternidade.

A fraternidade é uma lei cuja observância sempre traz felicidade. Jesus nos ensinou a sermos fraternos assim: "Amai-vos uns aos outros como eu vos amei. Vós sois filhos de um único pai que é Deus, e vós todos sois irmãos".

Uma das principais pedras de tropeço com que se defronta o homem em sua vida, é o orgulho que o isola de Deus.
Realmente o orgulhoso não admite que acima de sua pequenez paire uma Vontade Soberana, à qual deva tudo o que é; e como consequência, o orgulho impossibilita sua regeneração da qual tem necessidade.

Se trabalharmos por livrar-nos destas causas que impedem nossa aproximação de Deus e pautarmos nossos atos pela lei da fraternidade, estaremos incontestavelmente a caminho de gloriosas conquistas espirituais.

No mundo espiritual ocuparemos o lugar que nos será devido pelo progresso que já tivermos realizado.

Uma vez que estamos de passagem pela Terra, é ponto importante para nossa felicidade, quer futura quer presente, a depuração de nossos sentimentos. Depurando-os conquistaremos uma posição dignificante não só como encarnados, como também quando estivermos desencarnados.

Nós estamos sempre apegados a alguma coisa e, principalmente, às nossas preferencias. E aconselhável que nós nos apeguemos à virtude, aos bons pensamentos, às boas palavras, às boas ações, para que gozemos da paz e evitemos desilusões e sofrimentos futuros, porque a morte nos colocará irremediavelmente diante de nossa própria consciência.

35 - PASSAPORTE PARA A VIDA

Na pauta das tuas atividades e reflexões diárias, inclui a questão da morte como de primacial importância.

Mesmo que transites num corpo jovem e harmonioso, nenhuma garantia possuis quanto à sua durabilidade.

Se a madureza das forças já caracteriza a tua jornada, de menos tempo dispões, desde que encetaste a marcha.

Caminhando com os passos exauridos da senectude, já defrontas o pórtico da imortalidade em triunfo, que a todos aguarda e recebe.

Em qualquer condição que te encontres: na saúde, na doença, na juventude, na velhice, convives com a morte do Corpo físico, desde que o estado fisiológico, de forma alguma serve de parâmetro para considerar a dimensão da vida.

Os acidentes de vária procedência, revelando-se em forma de infortúnios, chamam, a cada dia, os jovens, deixando os idosos; convocam os sadios, em detrimento dos enfermos, conduzindo-os ao país da vida-além-da-vida.

Morrer é transformar-se molecularmente, abandonar o pesado envoltório material para movimentar-se em diferente faixa vibratória.

A morte é apenas o passaporte para a vida.

Incorporando ao cotidiano o programa de preparação para a morte, encontrarás alento para enfrentar as vicissitudes e vencer os impedimentos que, não poucas vezes, repontam pela senda redentora.

Sempre defrontarás a morte nos sucessos da vida e descortinarás a vida após o deslinde pela morte.

Aqui, é um filho querido que te precede, ou um irmão a quem te vinculas pela consanguinidade carnal que se transfere do corpo; ali, é um esposo afeiçoado que rompeu as barreiras da forma somática, ou um genitor extremoso, que foi conduzido à vida nova; acolá, é um amigo que se desvencilhou dos liames fisiológicos ou um conhecido que não esperavas viajasse tão cedo e seguiu no veículo da desencarnação...

A surpresa estará presente no teu dia-a-dia, em relação aos que partem fazendo-te considerar, mesmo que não o queiras, a fragilidade da enfibratura física.

Nesse comenos, quiçá, chega o instante em que será a tua vez, o momento de abandonar o escafandro material, a fim de respirares outra atmosfera e habitares noutra faixa de vibração.

*
Não te deixes atemorizar pela morte nem a desconsideres.

Ante alguém querido que rumou para o país da sobrevivência, refugia-te na oração e mergulha o pensamento na confiança irrestrita em Deus.

Lene a saudade, que a ausência dele te impõe, através da memória dos momentos felizes que fruíste ao lado desse afeto, hoje fisicamente distante...

Ele receberá a tua mensagem emocional pelo telefonema do pensamento e também se renovará.

Sentir-se-á evocado pelo teu carinho e estabelecerá um intercâmbio com que te nutrirá de esperança face ao reencontro que se dará oportunamente.

Colhido pela partida inesperada de um ser amado, não te revoltes, expelindo o ácido do desespero ou atirando espículos de blasfêmias injustificáveis, com ambas as atitudes atormentando-te e mais afligindo aquele que necessita das tuas reservas de forças psíquicas e morais, a fim de renovar-se e prosseguir em paz.

Todos que se encontram no corpo físico, deixá-lo-ão, atravessando a aduana da morte, na direção da imortalidade em plenitude de vida.

Joanna de Ângelis