PADRES
BIBLIOGRAFIA
01- A luz da oração - pág. 174 02 - A vingança do judeu - pág. 46
03 - Allan Kardec, vol. 1,2,3 - pág. 104, 56,81 04 - As sessões Práticas do Esp. - pág. 55
05 - Caminho verdade e vida - pág. 185 06 - Confidências de um Inconf. - pág. 35, 43, 47
07 - Depoimentos vivos - pág. 159 08 - Do país da luz - vol. 2 pág. 36, 181
09 - Falando à Terra - pág. 117, 134 10 - Grandes Esp.do Brasil - pág. 87
11 - Hipnotismo e espiritismo - pág. 90, 120 12 - Hipnotismo e mediunidade - pág. 235
13 - Jesus perante a cristandade - pág. 77 14 - Lázaro redivivo - pág. 193
15 - Libertação - pág. 122

16 - Magnetismo espiritual - pág. 96

17 - Memórias de um suicida - pág. 114, 205 18 - Memórias do Pe. Germano - toda a obra
19 - Morte, renascimento, evolução - pág. 98 20 - O que é a morte - pág. 22
21 - O que é o Espiritismo - pág. 122 22 - Obreiros da vida eterna - pág. 12, 45, 86
23 - Os funerais da santa sé - pág. 95, 119, 223 24 - Renúncia - pág.239
25 - Veladores da luz - pág. 113 26 - Vozes do grande além - pág. 84

LEMBRETE: O NÚMERO DA PÁGINA PODE VARIAR DE ACORDO COM A EDIÇÃO DA OBRA CITADA.

PADRES – COMPILAÇÃO

05 - Caminho verdade e vida - Emmanuel - pág. 185

85. TESTEMUNHO
"Respondeu-lhe Jesus: -Dizes isso de ti mesmo ou foram outros que to disseram de mim?"- (joão, 18:34)
A pergunta do Cristo a Pilatos tem significação mais extensiva. Compreendemo-la, aplicada às nossas experiências religiosas. Quando encaramos no Mestre a personalidade do Salvador, por que o afirmamos? estaremos agindo como discos fotográficos, na repetição pura e simples de palavras ouvidas?

É necessário conhecer o motivo pelo qual atribuimos títulos amoráveis e respeitosos ao Senhor. Não basta redizer encantadoras lições dos outros, mas viver substancialmente a experiência íntima na fidelidade ao programa divino.

Quando alguém se refere nominalmente a um homem, esse homem pode indagar quanto às origens da referência. Jesus não é símbolo legendário; é um Mestre Vivo.

As preocupações superficiais do mundo chegam, educam o espírito e passam, mas a experiência religiosa permanece. Nesse capítulo, portanto, é ilógico recorremos, sistematicamente, aos patrimônios alheios.

É útil a todo aprendiz testificar de si mesmo, iluminar o coração com os ensinos do Cristo, observar-lhe a influência excelsa nos dias tranquilos e nos tormentosos.

Reconheçamos, pois, atitude louvável no esforço do homem que se inspira na exemplificação dos discípulos fiéis; contudo, não nos esqueçamos de que é contraproducente repousarmos em edificações que não nos pertencem, olvidando o serviço que no é próprio.

09 - Falando à Terra - Espíritos Diversos - pág. 117, 134

CONTO SIMPLES - PAULO BARRETO
Malaquias Furtado, conhecido libertino, reconhecendo enfim, que mais valia o dever bem cumprido que as aventuras mundanas, rendeu-se à necessidade imperativa de renovação espiritual para a reforma da vida. Para isto, confugiu à inspiração do Padre Elias Gomes, famoso cura de almas imaginando nele o guia ideal.

Recebido cordialmente pelo sacerdote, confessou-lhe as deploráveis experiências em que se emaranhara, obtendo calorosa doutrinação, como o vaso imundo em processo de lavagem na tina de água fervente. Malaquias arrependeu-se do passado e chorou, abatido. Visceralmente transformado, cumulou-se de juras e promessas, que procurou cumprir com sinceridade e rigor.

Quando a tentação lhe assaltava o espírito honesto, voltava a ajoelhar-se aos pés do mentor, suplicando:— Bom amigo, sinto-me perturbado por desejos inferiores... Tenebrosos pensamentos agitam minhalma... Que fazer para encontrar o caminho do Céu? Padre Elias logo respondia, calmo:

— Filho, consagre-se a Deus e olvide Satã. Guarde castidade, cultive humildade, paciência e pobreza. A salvação cabe àqueles que trilham a subida escabrosa da virtude. O convertido voltava à arena cotidiana e sufocava os reclamos da carne indignada, curtindo provações duras que aos poucos lhe burilavam o espírito. Trabalhava, servia sem alarde e procurava suportar toda espécie de infortúnio com inexcedível heroísmo.

Eis, porém, novo dia de mais vivas tribulações, e Malaquias regressava ao orientador, exclamando: — Devotado protetor, tenho sofrido calúnia e ingratidão. A ideia de vingança domina-me. Tenho fogo na alma. Que fazer para sustentar-me no roteiro do Paraíso? O ministro da fé esclarecia, sereno:— Tenha paciência, meu filho, muita paciência. Para consolidarmos em nós a tranquilidade, é imperioso perdoar infinitamente.

Não nos esqueçamos dos velhos ensinamentos. Desculpemos até setenta vezes sete, oremos pelos nossos inimigos e perseguidores... Quem ofende, condena-se; quem exerce a tolerância fraterna, exalta-se. Malaquias aceitava, confiante, as ponderações ouvidas e tornava, confortado, às lides que o Céu lhe reservara.

Devolvia o bem pelo mal e continuava, na condição do discípulo fervoroso, experimentando os conselhos obtidos, disciplinando os seus sentimentos, sorrindo para os algozes, cedendo aos adversários e mantendo inalterável submissão ao que considerava como sendo as imposições divinas.

Ressurgiam, porém, outras ocasiões de conflito para o criterioso aprendiz, e logo se apressava ele em conchegar-se à sabedoria do pastor, clamando, ansiado:— Meu padre, acho-me fatigado, enfermo, sem rumo certo... Familiares, aos quais prestei assistência e socorro em outros tempos, abandonaram-me sem comiseração pelas minhas fraquezas e sofrimentos. Minha esposa, vendo-me quase imprestável, receou o sacrifício que a nossa união lhe impunha e aliou-se aos nossos filhos maiores, hoje casados, contra mim...

Vivo sem ninguém... Por ninharias, antigos credores de minha casa me cercam de ameaças sem termo... Tenho a impressão de que o inferno se instalou dentro de mim. Debalde busco -- claridade da oração, e não mais a encontro. Padre, padre, que fazer para não me desviar da estrada celeste? O guia, na atitude convencional dos grandes inspirados, emitindo a palavra doce e fitando os olhos no céu, respondia, convicto:

— Não se deixe enredar em ciladas e tentações! A fé remove montanhas! quem se sentirá só, depois de encontrar na Humanidade a grande família? Nossos pais e nossos filhos respiram em toda parte. Onde alguém esteja lutando, aí possuímos nosso irmão. Não se perca no desânimo destrutivo. Quem se dirige para Deus não perde os minutos na peregrinação do bem. Se há dificuldades e sofrimentos, a coragem é o sustento do espírito na estrada para o mais alto. Sobretudo, meu filho, não creia na enfermidade.

A doença é alguma coisa que depende de nós. A imaginação superexcitada improvisa monstros para o nosso corpo, mas a alma robusta na confiança, embora viva de pés na Terra, mantém o coração voltado para o Senhor, cada dia servindo mais intensamente na sementeira de luz e de amor. Não se agrilhoe a simples ninharias...O crente leal contemplava o instrutor, como quem se via agraciado pela presença de um plenipotenciário divino. Verteu copiosas lágrimas e indagou, por fim:

— E se eu pautar pensamentos e atitudes nessas linhas, encontrarei a passagem para o Céu?— Como não? — falou o sacerdote, complacente e bem-humorado. E numa definição espetacular: — A virtude é divino passaporte para o Paraíso. Malaquias tornou à luta e aplicou o que aprendera. Olvidou a moléstia e dedicou-se ao trabalho constante; transformou a solidão em serviço a todos e, cultivando a oração e a bondade, acabou seus dias, de consciência tranquila.

Aguardava-o à cabeceira um anjo, que, presto, o arrebatou ao País da Luz. Participando, agora, do séquito de santos anônimos, o antigo devoto era raramente lembrado na Terra. Vivera servindo, não obstante as deploráveis experiências do início, e, por isto, de tempo não dispusera para cuidar da propaganda do seu nome. Era, contudo, um dos príncipes mais felizes da Corte Celestial. Não contava tempo, nem era forçado à contemplação das misérias humanas.

Acontece, porém, que um dia se ouviu entre as estrelas um chamado insistente para ele. Vinha do Inferno, diretamente da moradia de Satanás. Malaquias não se fez rogado. Solicitou permissão e desceu, desceu, desceu... E quando se viu no círculo das trevas infernais, encontrou quem lhe invocava o nome: era justamente o Padre Elias Gomes, que lhe estendia os braços e suplicava:

— Malaquias! Malaquias! Compadeça-se de mim! Ensine-me! Onde encontrarei o caminho para o Céu?!... Acautele-se no mundo quem oriente, quem dirija e quem aconselhe. Quase todos nós, os que sabemos indicar o bom caminho aos pés alheios, esbarramos, além do túmulo, com a mesma surpresa do sacerdote.

20 - O que é a morte - Carlos Imbassahy - pág. 22

Capítulo l - A MORTE
Omnia definitio periculosa est... diziam os latinos. Mas o axioma que eles aplicavam ao direito — in jure — pode estender-se a quaisquer atividades. Se toda a definição é perigosa, no que respeita à morte, onde se nos afiguraria dificílima, é de uma simplicidade admirável: A morte é a extinção da vida. Até o Conselheiro Acácio poderia formulá-la de improviso.

Se quisermos torná-la mais séria, poderemos dizer: É o desaparecimento dos processos vitais. Ou o desaparecimento definitivo dos processos químicos. E se preferirmos o estilo filosófico: É a alteração dos elos da cadeia infinita. Não poderemos afirmar que a morte seja a parada das funções orgânicas, porque é comum o arresto sem que a vida cesse: é o caso da morte aparente, que tem levado tanta gente à sepultura antes do tempo.

Há seres que se diriam mortos e se conservam vivos, como os tomados de síncope, ou em estado cataléptico; há seres que se diriam vivos e estão mortos, como os fantasmas na visão mediúnica. A morte se manifesta pela cessação dos batimentos cardíacos, pela da circulação, pela dilatação da pupila, pela queda do globo ocular, pela palidez característica, pela algidez, pela rigidez cadavérica, pela imobilidade da íris, pela putrefação.

A duração da vida, segundo a Ciência, depende da hereditariedade, do gênero de vida, da profissão, do clima, do dispêndio orgânico, da alimentação, dos vícios, dos excessos. Mas todos já devem trazer os seus dias contados. A falar verdade, cada qual deve ter um relógio invisível, que pára no momento fatal, predestinado. Tomás Ribeiro falava do relógio "que pregado na parede das horas se esqueceu". Mas o relógio do destino não se esquece nunca das horas. Ninguém foge ao supremum diem.

A MORTE FÍSICA

A morte do corpo, ao que parece, não é fácil de ser verificada, e daí haver muita gente enterrada ainda em vida, apesar dos progressos da Medicina. O Dr. Maurice d'Halluin pergunta: "Quando chega a morte? Acompanha ela sempre o último suspiro e o desaparecimento dos sinais da vida? Qual o desfecho? Ou o desastre? Quelle en est l 'échéance? "

A separação entre alma e corpo não se dá quando o coração pára. E entra a citar Brouardel: "Não podemos em medicina legal admitir que a parada do coração seja o momento da morte. Nem há sinais que possam em todos os casos precisar esse momento." Glenard: "A morte quebra a subordinação dos órgãos, porém não destrói a vida." Dastre: "Quando se diz que um homem é morto, estabelece-se um prognóstico, não um diagnóstico. Em suma, os fatos têm mostrado que o homem pode retornar depois de muitas horas do desaparecimento da manifestação da vida."

Isto é desanimador para os morituri. Afrânio Peixoto é otimista quanto ao diagnóstico da morte, que lhe parece seguro, o que já é um consolo para os que temem ser inumados vivos. "A tanatognose — diz ele — serve-se de várias ordens de sinais que se podem averbar de duvidosos, prováveis e certos. Deixemos as duas primeiras e vamos às certas que são: pergaminhamento do derma (pele seca, dura, amarelada); mancha verde abdominal; parada completa e prolongada da circulação.

São fenômenos cadavéricos: a face cadavérica chamada hipocrática. Hipócrates refere-se à fronte enrugada e árida, olhos fundos, nariz afilado, têmporas deprimidas, côncavas, rugosas, orelhas repudiadas para cima, lábios pendentes, maçãs cavas, mento enrugado e duro, pele seca, lívida e cinzenta, vibrissas e cílios semeados de uma poeira esbranquiçada, rosto fortemente contornado e alterado. Há o resfriamento do corpo, a pele pálida, o espasmo cadavérico ou rigidez cataléptica, a putrefação."

Transcrevemos em linhas gerais o que diz respeito aos sintomas da cessação da vida. Há autores mais explícitos e mais extensos, mas paramos por aqui, numa ligeira idéia do caso, porque não é nosso intento apresentar um capítulo sobre medicina legal.

COMO SE ENCARA A MORTE

Para o selvagem há sempre um responsável pela morte de qualquer indivíduo; ela era imputada ao crime de alguém, e ainda hoje costuma cair nas costas largas do demónio. Na Idade Média e ainda pêlos tempos afora, os feiticeiros e ne-cromantes não estavam isentos de suspeita. Houve muita gente perneando nas fogueiras porque alguém morreu mais ou menos misteriosamente.

Não faltavam também as vítimas quando padeciam dúvidas sobre a causa da moléstia, e havia quase sempre alguém para pagar os erros de diagnóstico ou de terapêutica por parte de facultativos, quando não eram os próprios facultativos que iam expiar duramente os seus equívocos.

Alexandre tomou-se de grande furor quando morreu o seu amigo Hepastion, aliás sem culpa nenhuma do médico, cujas prescrições havia desobedecido. Ele não só mandou crucificar o médico como desandou a fazer desatinos e maldades de toda a ordem, como arrasar templos, cidades, tosquiar animais, proibir folguedos, degolar pessoas que não tinham nada com a morte daquele Hepastion, vítima apenas de comezainas e carraspanas.

Não poderemos ainda gabar-nos da ausência de tais atos, posto que a civilização tenha contribuído para que acabassem as injustiças de todos os tempos. A exemplo de Alexandre, o Grande, muita gente costuma invectivar, quando não matar, o médico que não pôde curar o enfermo confiado a seus cuidados. No interior do país não era sem receio que um doutor em medicina assumia o compromisso de prestar assistência médica a parentes de um "coronel" bem fornecido de capangas.

Enfim, já se dizia no Tibete que a morte é nascimento num mundo desconhecido. O recém-morto e o recém-nascido procuram acostumar-se, uns aos órgãos psíquicos, outros aos órgãos sensórios que lhes cabem. A definição da morte não abrange o espírito nem se declara qual a sua situação, extinta a vida. Autor muito entendido no caso acha que a crença em outra vida não é uma verdade de senso comum, mas uma ideia emitida por indução, insuficientemente demonstrada e sempre discutível.

Não é esse o consenso geral e já não é tão grande a insuficiência de demonstrações, no que toca à sobrevivência. Verdade é que muitos filósofos a negam, que os sábios a desconhecem, que a Ciência a repele, que o dogmatismo a anatematiza, e que homens eminentes, por mostrarem superioridade, timbram em assegurar-nos que o que nos espera é o nada ou nada nos espera, o que vem a dar no mesmo.

Conta-nos, entretanto, um manuscrito de 1730, conservado na Biblioteca do Arsenal de Paris, que havia sineta necromântica com a qual se chamavam os mortos. Gabriel Mareei afirma-nos que já o homem primitivo tinha medo dos mortos e vivia em luta com as sombras. Se usasse dochette nécromancienne seria para afastá-los.

As solenidades fúnebres, os ritos, os cultos, o cerimonial concorrem para tornar a morte mais assustadora. Os frades trapistas da Tebaida tinham uma divisa — memento mori. Era uma ordem religiosa fundada em 1140. Viviam tristes, silenciosamente. Quando se encontravam, um dizia para o outro — lembra-te que vais morrer — memento mori — e isto com a voz mais lúgubre possível. E continuavam a caminhar, sem olhar para os lados, sem mover os lábios, como se fossem múmias ambulantes.

Esses frades representavam a morte com o seu mais terrível aspecto. Ao saírem das celas, ou a caminharem em filas, mãos no peito, cabeça baixa, poder-se-ia dizer que eram a morte em marcha. E deixaram-na como o fim das alegrias, o fim da vida, o fim de tudo. Os materialistas, com o nada, deles pouco diferiam.

O paganismo não era tão tristonho. A deusa dos funerais em Roma era Libitina. No seu templo os parentes dos mortos não vinham chorar. Quando muito, deixavam já uma espór­tula. O dinheiro é que nunca deixou de existir em qualquer parte do mundo. Nunca se esclareceu o que era morte. Razão tinha Ribeiro Costa em sua quadra: Quem volta ao cemitério, alma em luta, dolorida, volta envolto no mistério que deixa a morte na vida.

Muito contribui para o medo da morte a descrença da imortalidade, que eméritos escritores timbram em propagar. E assim dizia-nos de Puchesse: "O homem, declinando de hora a hora à sepultura, não pode sem horror encarar o terrível desconhecido que está além. Apavora-o o pressenti­mento do nada. Não tem movimento de espírito nem fibra de coração que impugne tal idéia."

Feuerbach escreveu um livro com o propósito de "tirar-nos a ilusão de uma segunda existência". Vejamos estes seus trechos: "Conhecendo mal a verdadeira índole da morte e assombrados com seus estragos cotidianos, lançamo-nos infantilmente nos braços da ilusão de urna segunda existência de além-túmulo, de uma imortalidade individual." E robustece a sua tese com esta outra tirada:

"Assim, senhores teístas e espiritualistas cristãos, ou concedeis como verdade inconcussa aos germanos antigos o seu Walhala, aos gregos o seu Olimpo, aos índios da América do Norte o seu País do Grande Espírito, ou declareis estar errado alçar o grito imprecando contra quem — no vosso dizer — ousa com mão cruel tirar às almas simples o doce conforto, a delícia em perspectiva do Outro Mundo."
Em síntese: Ou o Walhala, o Olimpo, o País do Grande Espírito ou o vazio. Resta-nos a esperança de poder abalar com provas estas alegações improváveis.

Fiquemos com Eakhovsky, quando nos lança uma grande verdade: "A morte não é triste e dolorosa separação para a qual nos preparam de toda a eternidade as religiões e as filosofias. É, pelo contrário, a metamorfose final, a esplêndida libertação de nossa alma, que abandona o sofrimento e a prisão corpórea para ascender à felicidade eterna." "Nossos últimos momentos transcorrem em suavidade e serenidade. (Aussi nos derniers moments se passentils dans l 'apaissement et Ia sérénité.)"

E nós, como La Bruyère, não compreendemos que uma alma possa ser aniquilada. Outro erro dos credos é a repetição de que somos pó e ao pó retornaremos. E isto apesar do ensino religioso da sobrevivência. Mas vemos no corpo todo o nosso ser, e a importância que se lhe dá é de tal ordem que, segundo o dogma, ele acompanha a alma no juízo final.

Um sintoma desse materialismo inconsciente são as sentenças que se conservam através dos tempos e pelas quais nos vivem a lembrar que somos pó: — "Não passas de terra e cinzas." Nas portas dos cemitérios lá está: — Memento homo, quiapulvis est et inpulverem reverteris. E no Gênese'. "Porque barro és e ao barro voltarás." E no Eclesiastes: De terra facta sunt et in terram pariter revertuntur.

Não admira que o padre Vieira visse também em nós o pó em que nos tornaremos: "Os vivos são pó levantado, os mortos, pó caído." Mas é engano: O que é pó e volta à terra é o corpo; mas o eu, o ser espiritual não é pó nem vai ao pó. Ele se liberta do pó e feliz será se ao pó não voltar mais. Mais certo andava Horácio quando dizia que éramos pó e sombra. Pó em vida, sombra na morte. Sombra é como os antigos denominavam as almas, as quais como sombra lhes passavam diante dos olhos.

É preciso tirar ao homem o medo da morte que, para ele, dadas as noções que lhe fornecem, é o eterno desconhecido. Um irlandês, já às portas do túmulo, não se conformava com sua situação fatal. Diz-lhe um amigo para consolá-lo: — Olha, só se morre uma vez. Pois nisto — respondeu ele— é que está o meu aborrecimento. Se eu pudesse morrer uma dúzia de vezes não me incomodaria.

Se, entretanto, tivesse outros conhecimentos, saberia que, de fato, morremos muitas dúzias de vezes. E talvez fosse melhor morrer uma só. Por sábia disposição da natureza, a certeza da morte faz-nos muitas vezes esperá-la com calma E no auge da paixão, religiosa, política, social, ou qualquer que seja, desaparece o receio da extinção: daí os heróis e os mártires.

"O medo da morte — dizia Mac Kena — é o mais débil dos temores — cede diante da glória, do dever, da religião. Sei-o de fonte segura, que o homem ou mulher, ao avizinhar-se a hora, a enfrentam com calma." Alguns autores têm certa idéia desse fenômeno, sem precisá-lo exatamente. G. Barbaim ensinava que o homem pressente com horror o momento de expirar, ruas acostuma-se à idéia e quando surge a Parca a angústia desaparece.

Não é tanto uma questão de acostumar-se. O indivíduo perde a angústia diante do que vê, do que sente, do que se abre ao seu entendimento espiritual; diante do instinto, ou da memória recôndita que lhe está a segredar que a morte não existe. Dizia Heine, salvo de uma queda: "Quando caí, imaginei que iria esfacelar-me; percebi quando me choquei contra os rochedos, ouvi o ruído do corpo de encontro à neve que os cobria. No momento não senti dores. Diante de meus olhos perpassou toda a minha vida, iluminada por um esplendor celeste, sem angústia, sem sofrimento nenhum."

É de fato muito interessante o que se passa no momento da morte — a chamada visão panorâmica, de cuja existência sabemos seguramente pêlos informes daqueles que tiveram a vida por um fio, os que puseram um pé ligeiramente nos umbrais do outro mundo. É uma espécie de visão da cons­ciência ou pós-visão, como a indicar-nos que não ficou esquecido na memória do tempo nenhum de nossos atos; que eles não se perdem e temos que responder por eles.

Assim, às portas da morte, o indivíduo revê toda a vida que se vai extinguir. Aquela visão desdobrar-se-á mais tarde com as suas devidas consequências. O almirante Beaufort caiu de um navio na baía de Portsmouth. Desapareceu na água. À angústia do primeiro momento sucedeu um período de calma e sentiu-se bem que não teve nenhuma vontade de que o socorressem.

Nenhum sofrimento, antes uma sensação de bem-estar, a que precede o sono devido à fadiga. Entretanto, havia grande atividade cerebral: o acidente, sua causa, o tumulto que se seguiria, a dor de seu pai... Depois vieram as lembranças do passado. Em breve, o fluxo completo de sua vida, em seus por­menores; toda a sua existência se lhe desfilou diante da memória, numa revista panorâmica. (...)


23 - Os funerais da santa sé - Espírito Guerra Junqueiro - pág. 95, 119, 223

AOS PADRES
Ó mercenários dos cerrados batalhões de águias infernais, de tigres, de leões, - fantasmas de batina entrincheirados para inumar sob a lama a explêndida seara; deixar os troncos nus em vez da sombra amiga; fazer a Humanidade, a sórdida mendiga, lamber os pés ao papa; enfim, lançar o mundo - esse balão eterno - ao charco mais imundo; chafurdar na peçonha ignóbil das serpentes a face virginal das almas inocentes!

Vós fazeis da Maldade a tétrica bandeira, misérrima, que empunha a loba carneceira - a Igreja! E dum montão de chãs velhacarias de coxas tradições e velhas fantasias tentais formar o monstro — o espetral sandeu, — que diga ao mundo inteiro: o imperador sou eu! Quereis acorrentar a Consciência, ainda, à jaula do terror e da miséria infinda? Ah! loucos recolhei às fauces dilatadas essas línguas que são de raiva saturadas; calai-vos! nada serve o rouquejar insano que visa amedrontar o pensamento humano!

Espantalhos sem vida, as gesticulações não só vêm abalar as articulações mas alterar, também, o sistema nervoso. A quem obedeceis? — a um lobo virtuoso que vive contemplando o seu real tesouro. . . — Bendito sejas tu, ó vil bezerro de ouro!.. . Palhaços, recuai, mais uma vez ordeno! No olhar inquisidor trazeis mortal veneno. Mas temos o remédio a ministrar aos crentes, que os há de preservar da sânie das serpentes. Com todo esse furor sois vítimas, decerto, da própria hediondez. Ó sombras do deserto, pregais a castidade imaculada, eterna, e ides procurar em torno da caverna — onde reside o Vício — as sensações impuras, que têm levado a alma às sórdidas loucuras. . .

Pregais o celibato a olhar para as donzelas, despindo-as com a vista, na ânsia de mordê-las, — eis toda a realidade! Irmãos, eu vejo o fundo do vosso pensamento, e um tremedal profundo encontro dentro em vós. Dizei que calunio; bradai que quanto digo é falso, eu desafio!. . .

Na inspiração que Deus já me concede agora, eu bebo novo alento, alguém duvide embora! Carrascos, não é crime azorragar dragões. Vamos iniciar evangelizações; é necessário o punho forte e a mão segura para domar leões; e um raio de brandura brilhará logo após esse ideal castigo, e o domador será o mais fiel amigo dos que assim subjugar.

Atentai, escolásticos: Querer desenterrar esses dogmas fantásticos do negro poeiral que os vai já soterrando; querer que o homem vá dobrar-se ao vosso mando, como fazia outrora a miserável gente, — é doida criação de um cérebro doente; são nuvens de ilusiva e singular quimera. . .

— O desengano atroz, sabeis, já vos espera! As brumas vão fugindo e a Verdade surge! Urge a reparação dos vossos crimes, urge. Apressai-vos, despi a capa lutulenta; buscai no Evangelho a fonte de água benta, e lavai e banhai a alma enodoada nesse manancial que nasce da alvorada!

Compreendei, sim, que sois os gastos instrumentos — autômatos, febris — dos ímpios elementos.De todo esse furor, as vítimas, repito,
sois vós; no turbilhão do uníssono conflito, andais de terra em terra expectorando abusos. Fazeis o grã-papel de velhos parafusos tentando entrar à força, e obstinadamente, na idéia varonil dessa moderna gente: quereis meter o Erro onde ele mais não cabe!

Se acompanhais um corpo ao termo-sepultura, estipulais o preço ao ato de. . . bravura! De graça, que valia a caridade imensa com que acobertais o sol da vossa crença já meio envolto, assim, em nuvens tenebrosas?! A Evolução cavou as fendas horrorosas, e caís, e rolais o escuro sorvedouro por entre o rebentar de formidando estouro. . .

Mineiros do Porvir, hercúleas entidades, vamos banir da gleba o caos de iniquidades. É necessário agir, pôr termo a esses abusos; limpemos a ferrugem aos velhos parafusos; façamos rebrilhai a todas as criaturas as luzes que nos Têm das célicas alturas! Esse erro que vos veio da vossa ignorância (vampiros que julgais sei doutos, eruditos), fez germinar em vossas almas a arrogância, sapos que pretendeis voar aos infinitos, acobertar a Alva e enodoar o mundo para impedir que siga em marcha acelerada buscando esse ideal, seráfico, profundo, de conquistar de todo a perfeição sonhada.

Que desejais, pigmeus, de há muito nós sabemos, fazer ressuscitar o monstro do poder. . . Por isso, com ardor lutamos, combatemos, para que o mal não venha os homens abater! A vossa glória é morta em cinerárias urnas, lá onde também jazem restos do dragão maldoso, que afundava outrora às negras furnas para enterrar no lodo o senso e a Razão.

Rebentais num estouro a própria consciência, rugindo como estais, de ódio e de ambição; mas tende muita calma e mui formal paciência, assisti ao enterro e olhai com atenção: Não vedes como vão os bispos, cabisbaixos, aqueles que, a pisar a mísera ralé, faziam dos cristãos os tímidos capachos onde escarravam lama e limpavam o pé?!

Atentai para aquela multidão de freiras envoltas pelo manto ignóbil da indigência forçada, e vede como espalham, traiçoeiras, em fluidos que enodoam, vil concupiscência! A essas vós chamais — esposas de Jesus, — fantasmas que inda levam fogo da luxúria, queimando sem cessar os peitos sempre crus, na vertigem cruel de insaciável fúria?!

Se procurassem elas o almo paraíso de um lar, e, obedecendo à lei da Natureza, abrissem a flor da alma ao plácido sorriso que é nos berços — amor e virginal pureza, iriam encontrar na sempiterna vida a grinalda de luz que um ser puro e divino tecera, como prêmio à sua mãe querida!

É triste relembrar um tempo que se escoa por entre o esperdiçar de dolorosas queixas. . . As almas que perderam rosas da coroa contentam-se, meu Deus! em modular endeixas. Às vezes escutais a alguém cantar, mas quando procurais sufocar as sensações doridas, sentis que em vossa face o pranto vai rolando. . . São as setas que ferem harpas bipartidas, que tocam através desse descante alado, que tem a vibração de irresistíveis falas. Ouvindo-o, chora e freme o peito mais gelado: as grandes comoções quem. ousa sufocá-las?!. . .

É que na voz que vibra há seres mil cantando, talvez para esquecer as dolorosas chagas, que procuram fugir do tremedal nefando adormecendo a idéia ao som das vozes magas. . . Ministros, que sois vós perante o olhar supremo que sabe perscrutar a consciência humana?. . . À miséria moral em tos chega ao extremo. Rendei-vos à Teidade excelsa e soberana!. . .

VOZES DOS NEGROS JESUÍTAS
Não temos dó deste malvado,
deste traidor, deste ladrão!
Ele devia ser queimado
nas chamas da Revolução.

O ódio, o ódio é o que merece,
- ardente e eterno, abrasador!
A maldição, em vez da prece,
lançai-lhe ó servos do Senhor!

Quando rompia ao longe a aurora,
sem crer na pura realidade,
inda tentou, naquela hora,
lançar um bote à Humanidade:

desceu do trono, olhou em volta,
mas quando erguia a mão feroz,
os brados vivos da Revolta,
lhe estrangularam toda a voz!

E o soberano da impostura
quis se ocultar no Vaticano,
para abafar da enorme altura
a voz do pensamento humano.

E grande força do Invisível
atou o mostro impertinente,
perante o olhar inflexível
da turbamulta dissolvente!

Em vão chamou os seus criados:
em vão lançou a excomunhão!
Pelos espaços carregados
soprava um negro furacão...

E nós, que fomos os caixeiros
desse armazém comercial,
somos, talvez, mais verdadeiros
que o padre santo - o industrial.

Mas, nem assim, nos poupa a sorte,
fomos forçados a sair
desse passado negro e forte
pelas janelas do Porvir!

Quando nos vimos despojados
de tudo que a oração nos dava,
ficamos tão desconsolados
que até mandamos Deus à...fava!

Andamos sujos, remendados,
cabeça ao vento e pés no chão;
além da carga dos pecados,
mais o terror da Evolução!

Esses clamores incontidos,
esse furor de onda bravia,
põe-nos assim estarrecidos,
sujeitos a uma apoplexia...

Por piedade - aventureiros
que dais o pão em vez de altar
e os elementos verdadeiros
para o bom senso alimentar.

- deixai-nos ir, pelos escuros
das prisões eras já esquecidas,
medir a altura desses muros
que nos serviram a investidas...

Deixai-nos ir - morno descanso -
lembrar o que nos pertenceu,
desde o Missal que sabe a ranço,
aos ornamentos do Sandeu.

Sandeu! ninguém se espante disto!
Sandeu é o nome do animal
que tinha a cruz de Jesus-Cristo
sobre o erário colossal...

Ele guardava com usura
lindas relíquias fulgurantes;
e em vez de orar fitando a Altura,
rezava olhando os seus diamantes...

Todos se agarram às riquezas,
ninguém procura os infinitos.
Tende piedade das fraquezas
de pobres, míseros proscritos.

Se nós andássemos na estrada
cumprindo os santos mandamentos,
talvez que a grei apiedada
nos desse a nós bons vencimentos.

Estamos todos manietados
pelas correntes do Porvir,
como animais enjaulados
que servem para divertir!

Ah! se pudéssemos a dentes
partir as tramas desta malha!
mas as diabólicas correntes
se tornam sólida muralha.

Assim, sabemos que é escusado
lutar para sair do caos...
Ao vendaval desenfreado
nos vão lançar os homens maus.

Silêncio! A nossa vozeria
tem atraído a multidão...
Valha-nos Deus! Ave-Maria!
-Bendita seja a Evolução!...