PAIXÕES
BIBLIOGRAFIA
01- A pluralidade dos mundos habitados - pág. 211 02 - A reencarnação na Bíblia - pág. 92
03 - Agenda cristã - pág. 115 04 - Alerta - pág. 60
05 - Após a tempestade - pág. 27 06 - Boa Nova - pág. 101 (15)
07 - Caminho, verdade e vida- pág. 179 08 - Dramas da obsessão - pág. 23
09 - Entre a Terra e o céu - pág. 100 10 - Evolução em dois mundos - pág. 217
11 - Fonte Viva - pág. 187 12 - Forças sexuais da alma - pág. 151
13 - Nas pegadas do Mestre - pág. 101 14 - Nosso lar - pág. 36
15 - O exilado - pág. 26

16 - O Livro dos Espíritos - q 97, 131, 182, ...

17 - Pão nosso - pág. 167 18 - Passes e radiações - pág. 62
19 - Pérolas do além - pág. 182 20 - Renovar-se e viver- pág. 103
21 - Socialismo e Espiritismo - pág. 80 22 - Trabalhos práticos de Espiritismo - pág. 28
23 - Vida e sexo - toda a obra 24 - Vinhas de luz - pág. 327

LEMBRETE: O NÚMERO DA PÁGINA PODE VARIAR DE ACORDO COM A EDIÇÃO DA OBRA CITADA.

PAIXÕES – COMPILAÇÃO

01 - A PLURALIDADE DOS MUNDOS HABITADOS - CAMILLE FLAMARION - PÁG. 211

..."Os anéis proporcionam um outono fresco às regiões equatoriais do planeta. Este outono é uma estação em que o tempo fica coberto, a saber: no meio do dia para os países próximos de uma das bordas da sombra; à tarde e de manhã para os que ficam na borda oposta da sombra; todo o dia para os outros; mas não à noite, e a grande espessura da atmosfera basta para conservar nessas regiões uma temperatura branda. Além disso, a sombra dos anéis deve modificar profundamente o sistema dos ventos alísios do planeta, fazendo descer, desde esta latitude, das altas regiões para as mais baixas, as colunas de ar aquecidas na região que tem o sol a pino. Quanto aos anéis, os habitantes do anel interior devem desfrutar de um singular espetáculo quando vêm se colocar na parte de sua residência que dá para o planeta: vêem-no como um imenso globo imóvel no zênite, enchendo o céu até a um terço, aproximadamente, da distância angular entre o zênite e o plano horizontal; ao mesmo tempo, o horizonte real do anel deve lhes oferecer, para o sul e para o norte, depressões notáveis, e, ao contrário, para o leste e para o oeste, devem ver, o seu anel erguer-se como duas montanhas, que vão se perder atrás do globo do planeta. Caminhando rumo ao plano do anel, vêem essas duas montanhas distantes se inclinar para o sul ou para o norte, até desaparecerem sob o plano horizontal, que então oculta a metade do disco do planeta.

"Poder-se-ia imaginar as correspondências telegráficas entre os habitantes dos anéis e os do planeta, de onde resultaria uma utilidade considerável. Mas temendo sermos acusados de fantasiosos, vamos nos limitar a mencionar um serviço singular que os anéis de Saturno poderiam prestar aos habitantes do planeta: o de ter-lhes ensinado cedo a redondeza de seu globo. De fato, os que estão na estação do verão vêem cada dia a sombra do planeta sobre o plano do anel. E é assim, é assim, madame", acrescenta o cosmósofo, "que se quereis, sem embaraços, ver como vossos cabelos estão arranjados atrás de vossa cabeça, sabeis colocar-vos um pouco de perfil entre uma lâmpada e um muro, sobre o qual contemplais de soslaio a silhueta de vossa cabeça. Nós, gente da Terra, poderíamos, como os de Saturno, ver a sombra de nosso globo, e reconhecer, sem outro obstáculo, que a Terra é redonda; mas o que os saturninos vêem todas as tardes e manhãs, só vemos nos eclipses da Lua." Os filósofos não se contentaram em determinar a partir daqui o espetáculo da Natureza para os habitantes dos outros mundos — esta determinação pode ser, até certo ponto, baseada em dados científicos —, mas ainda tentaram descobrir o modo de vida, o grau de civilização, até mesmo o tamanho desses homens desconhecidos. No começo do século passado, Christian Wolff deu com aproximação de uma polegada o tamanho dos habitantes de Júpiter. Se se tem curiosidade de conhecer o método que seguiu para chegar a este resultado, ei-lo aqui:

"Ensina-se em óptica", diz ele, "que a retina do olho é dilatada por uma luz fraca e contraída por uma luz intensa. A luz do Sol sendo muito menos forte para os habitantes de Júpiter do que para nós, em virtude de seu maior afastamento deste astro, segue-se que estes homens têm a retina muito maior e mais dilatada que a nossa. Ora, observa-se que a retina está constantemente em proporção com o globo do olho, e o olho com o resto do corpo, de modo que quanto mais a retina está desenvolvida num animal, maior é seu olho e maior é seu corpo. Para determinar o tamanho dos habitantes de Júpiter, é preciso considerar que a distância de Júpiter ao Sol está para a distância da Terra como vinte e seis está para cinco, e que, por conseguinte, a luz do Sol, em relação a Júpiter, está para esta luz, em relação à Terra, na razão do dobro de cinco para vinte e seis. Por outro lado, a experiência nos ensina que a dilatação da retina é sempre mais que proporcional ao crescimento da intensidade da luz; por outro lado, um corpo colocado a uma grande distância pareceria tão claramente delimitado quanto um outro colocado mais perto. O diâmetro da retina dos habitantes de Júpiter está pois, para o diâmetro da nossa, numa proporção maior que cinco para vinte e seis. Suponhamos de dez para vinte e seis, ou de cinco para treze. A altura ordinária dos habitantes da Terra sendo de cinco pés e quatro polegadas em média, conclui-se que a altura comum dos habitantes de Júpiter deve ser de catorze pés e dois terços.

Este tamanho", acrescenta benevolamente o inventor, "era mais ou menos a de Og, rei de Bazan, cujo leito, segundo o relato de Moisés, tinha nove côvados de comprimento e quatro de largura." Que responderia Wolff hoje se fosse convidado a aplicar seus princípios ao planeta Netuno, que recebe novecentas vezes menos luz que nós? Esta teoria bizarra não tem, de resto, nenhum fundamento fisiológico; sem falar do erro de Wolff, que atribui à própria retina sua contração e sua dilatação aparentes, ao passo que estes movimentos pertencem, em realidade, ao fechamento diafragmático da membrana coróide, à íris, e qualquer um pode observar, contrariando a sua hipótese, que a pupila está longe de estar sempre em relação com o tamanho da órbita, e esta com o resto do corpo. Lembramos que Biot, em seu curso de física da Sorbonne, contava muitas vezes que em sua viagem à ilha de Formentera com Arago, em 1808, encontrou por meio da sonda, a um quilômetro de profundidade, no mar, arraias cujos olhos eram de um tamanho monstruoso e desmesurado; estes olhos eram protegidos por ossos de grande dureza. Com o auxílio destes órgãos, as arraias em questão viviam no fundo do mar, e tinham condições de viver, malgrado a noite espessa do Oceano; mas seu tamanho não sofrera nenhuma modificação. Ao redor de nós, ademais, as coisas se passam diversamente da teoria do filósofo alemão. Sabemos que a coruja tem os olhos maiores do que em proporção aos olhos do homem; que a toupeira tem um olho menor que o da abelha; que a baleia e o elefante têm olhos muito pequenos, relativamente a seu tamanho, etc.

Todas estas teorias, como vemos, pecam por sua base. Malgrado a ressonância que tiveram e o número de seus adeptos, as mais recentes do célebre Fourier parecem infelizmente poder ser assimiladas às precedentes. Para ele, as espécies vivas (humana, animais ou vegetais) que habitam os diferentes globos são o resultado da fecundação dos planetas; pois, no dizer do filósofo, os planetas são seres animados e apaixonados, que são andróginos e se fecundam mutuamente, por cordões aromáticos que escapam de seus pólos magnéticos. Os produtos destas fecundações são os primeiros pais de cada humanidade, conforme os mundos, como os primeiros casais de cada espécie, tanto animal quanto vegetal. Cada planeta possuindo uma alma, qualidades e paixões de caráter próprio, segue-se que a população de cada planeta está em relação com este caráter. O homem está longe de ser superior ao mundo que ele habita; ao contrário, é a alma deste mundo que domina a do homem, que estabelece uma ligação entre ele e o Criador, que age por sua vontade própria, dirigindo sua humanidade pelos caminhos que ela escolheu. E os mundos formam assim uma hierarquia celeste, segundo os grupos ou os universos de que são membros; e esta hierarquia forma o que o próprio Fourier chama os biniversos, triniversos, quadriniversos, quintuniversos etc. Os planetas vivem e morrem como os outros seres; quando nosso planeta morrer, sua alma levará consigo todas as almas humanas e as levará com ele, para começar nova carreira num globo novo, num cometa, por exemplo, que será implanado e concentrado (termos falansterianos).

O homem, quaisquer que sejam seu gênio e sua grandeza, não pode progredir individualmente senão seguindo o caminho da humanidade à qual pertence; ele só pode se elevar e habitar outras terras depois da morte de seu planeta. . . Fourier vai um pouco longe em suas especulações; muitas vezes ele divaga por um mundo puramente imaginário. O que há de mais estranho, é que seus discípulos não temeram ir mais longe ainda por esses territórios inóspitos. Há aqueles que hoje pretendem que a humanidade de Saturno é muito avançada, que temos uma prova disto pela auréola resplandecente que brilha em torno deste astro, e que mesmo o nosso globo assumirá uma coroa semelhante, em sinal de júbilo, quando sua humanidade atingir seu período de harmonia. Vemos bem o quanto Fourier se deixou enganar por uma falsa analogia, estendendo para o reino do espírito as leis do reino material. Quem nos diz que não há duas ordens de criações completamente distintas, dois mundos radicalmente separados em sua base? Sua doutrina, admirável no que se relaciona com a solidariedade humana, desviou como a do sr. Pierre Lerous, que restringe à Terra as existências sucessivas da alma. Eles foram muito ousados por um lado, e muito tímidos do outro; muito ousados avançando assim tão longe no arbitrário, no conjetural, tomando a utopia pelo progresso; demasiado tímidos, pois a solidariedade humana terrestre é apenas parte da verdade. Quem quer que sejamos sobre a Terra, qualquer que seja o degrau da escada em que estejamos colocados, cada um de nós tem sua personalidade distinta; a humanidade à qual pertencemos é um ramo da árvore imensa; o mundo que habitamos é uma estação do arquipélago infinito, e caminhamos todos, na solidariedade universal, rumo a uma perfeição infinita.


Nunca conseguiríamos esposar, provavelmente, as idéias que um descendente de Fourier emitiu sobre a origem dos seres planetários. A analogia é um excelente método para proceder do conhecido ao desconhecido; mas a analogia passional não nos parece ter toda a importância que este autor lhe atribui. Sem dúvida, a lei que rege o mundo, a atração, poderia ser chamada Amor dos Corpos, assim como a lei que rege as almas poderia ser chamada Atração das Almas; sem dúvida, o grau de atividade de toda criatura é constituída pela Paixão, e a rigor, poder-se-ia estender esta expressão ao reino inorgânico e dizer que a Afinidade Molecular é ainda o amor, a paixão. Mas não é neste sentido metafórico que os partidários desta teoria entendem a palavra paixão: para eles, não há mundo inorgânico, tudo está animado de um espírito individual, tudo pensa, tudo está apaixonado, do grão de areia até o Sol. Eis onde nos parece estar o erro: afirmamos que a hipótese do seixo pensante nada tem a ver conosco, e professamos a doutrina oposta, sem levar em conta as seguintes palavras do autor em questão: "No Bureau dês Longitudes não se tem o hábito de julgar os astros por seus frutos; a paixão é o princípio do movimento pivotal da mecânica celeste, e os que o suprimiram são vândalos que nada entenderam da ciência". O mesmo teórico enunciou os seguintes aforismos, em seu tratado de ciência passional (se nos estendermos um pouco sobre este assunto, é porque suas alegações singulares não são sustentadas por um só, mas por toda uma escola).— A suprema felicidade dos astros, como a de todos os seres animados, é produzir e manifestar seu poder criador; e sem esta necessidade imperiosa de criar e de amar, os mundos morreriam.— Os planetas, que são seres superiores ao homem, são andróginos, quer dizer, têm a faculdade de criar, pela simples fusão de seus próprios aromas. Eles têm grandes deveres a cumprir, como cidadãos de um turbilhão de início, como mães de família, a seguir. (...)

04 - ALERTA - JOANNA DE ÂNGELIS - PÁG. 60

18. HÁBITO DA SOLIDARIEDADE:
Por mais te encontres cansado não te eximas de ser solidário com alguém.
Talvez o problema do outro, aquele que te procura, seja menor do que o teu.
Para ele, no entanto, por que se afigura muito grave, assim se faz.
As tuas experiências de fé dão-te real dimensão de inúmeras ocorrências, e por isto podes ajudar mais com menos desgaste de forças e emoções.
Quem percorre um trecho de estrada tem condições de apresentar notícias daquele caminho.
Experiência é rota que cada qual deverá vencer mesmo que a grande esforço.
A solidariedade, por isso mesmo, é pão de empréstimo, de que sempre o doador necessitará.
Ninguém a pode prescindir, por mais que se pretenda isolar do convívio com o seu próximo.
Na vida de todas as criaturas um momento surge em que a solidariedade se faz imperiosa, como socorro salvador.
Fazer ou deixar de fazer o bem é efeito natural da fé que se mantém, definindo-lhe a qualidade, cuja ação se transforma em hábito, que se incorpora à natureza, à personalidade de cada um.
Quem se não acostuma a doar, nunca dispõe de oportunidade para auxiliar, encontrando motivos injustificáveis para recusar-se.
Aquele que se aclimata ao trabalho solidário, sempre dispõe de tempo e recursos para fazê-lo.
Os desocupados e indiferentes estão sempre muito cheios de horas vazias para tentar preencher algum espaço, por isso não dispõem de tempo para nada.
Vivem extenuados pela inutilidade e pessimismo.
Apura a tua percepção e verificarás que os lamentos demasiados nem sempre decorrem da enfermidade ou do problema que se tem, mas da necessidade de chamar a atenção, requerendo apoio e amizade.
Há muita carência, no mundo, sendo, entretanto, a mais grave e urgente, a de afeto, de interesse humano. . .
A questão assume tão grave proporção que, não raro, quando alguém se preocupa com outrem e dá-lhe assistência, os sentimentos de um ou de ambos perturbam-se, dando origem a desvios da fraternidade, tombando-se em delíquios morais, que mais agravam as circunstâncias e as dificuldades.
Mantém o hábito da solidariedade sem exigência ou solicitação alguma.
Ajuda, portanto, sem vinculação servil, a fim de permaneceres livre, no amor e na ação solidária, crescendo para Deus ao lado do teu próximo necessitado, necessitados que somos quase todos, da divina solidariedade.

06 - BOA NOVA - HUMBERTO DE CAMPOS - PÁG. 101

ÍTEM 15 - JOANA DE CUSA
Entre a multidão que invariavelmente acompanhava a Jesus nas pregações do lago, achava-se sempre uma mulher de rara dedicação e nobre caráter, das mais altamente colocadas na sociedade de Cafarnaum. Tratava-se de Joana, consorte de Cusa, intendente de Ântipas, na cidade onde se conjugavam interesses vitais de comerciantes e de pescadores. Joana possuía verdadeira fé; contudo, não conseguiu forrar-se às amarguras domésticas, porque seu companheiro de lutas não aceitava as claridades do Evangelho. Considerando seus dissabores íntimos, a nobre dama procurou o Messias, numa ocasião em que ele descansava em casa de Simão, e lhe expôs a longa série de suas contrariedades e padecimentos. O esposo não tolerava a doutrina do Mestre. Alto funcionário de Herodes, em perene contacto com os representantes do Império, repartia as suas preferências religiosas, ora com os interesses da comunidade judaica, ora com os deuses romanos, o que lhe permitia viver em tranquilidade fácil e rendosa. Joana confessou ao Mestre os seus temores, suas lutas e desgostos no ambiente doméstico, expondo suas amarguras em face das divergências religiosas existentes entre ela e o companheiro.


Após ouvir-lhe a longa exposição, Jesus lhe ponderou:— Joana, só há um Deus, que é o Nosso Pai, e só existe uma fé para as nossas relações com o seu amor. Certas manifestações religiosas, no mundo, muitas vezes não passam de vícios populares nos hábitos exteriores. Todos os templos da Terra são de pedra; eu venho, em nome de Deus, abrir o templo da fé viva no coração dos homens. Entre o sincero discípulo do Evangelho e os erros milenários do mundo, começa a travar-se o combate sem sangue da redenção espiritual. Agradece ao Pai o haver-te julgado digna do bom trabalho, desde agora. Teu esposo não te compreende a alma sensível? Compreender-te-á um dia. É leviano e indiferente? Ama-o, mesmo assim. Não te acharias ligada a ele se não houvesse para isso razão justa. Servindo-o com amorosa dedicação, estarás cumprindo a vontade de Deus. Falas-me de teus receios e de tuas dúvidas. Deves, pelo Evangelho, amá-lo ainda mais. Os sãos não precisam de médico. Além disso, não poderemos colher uvas nos abrolhos, mas podemos amanhar o solo que produziu cardos envenenados, a fim de cultivarmos nele mesmo a videira maravilhosa do amor e da vida.
Joana deixava entrever no brilho suave dos olhos a íntima satisfação que aqueles esclarecimentos lhe causavam; mas, patenteando todo o seu estado dalma, interrogou:


— Mestre, vossa palavra me alivia o espírito atormentado; entretanto, sinto dificuldade extrema para um entendimento recíproco no ambiente do meu lar. Não julgais acertado que lute por impor os vossos princípios? Agindo assim, não estarei reformando o meu esposo para o céu e para o vosso reino? O Cristo sorriu serenamente e retrucou:— Quem sentirá mais dificuldade em estender as mãos fraternas, será o que atingiu as margens seguras do conhecimento com o Pai, ou aquele que ainda se debate entre as ondas da ignorância ou da desolação, da inconstância ou da indolência do espírito? Quanto à imposição das idéias — continuou Jesus, acentuando a importância de suas palavras —, por que motivo Deus não impõe a sua verdade e o seu amor aos tiranos da Terra? Por que não fulmina com um raio o conquistador desalmado que espalha a miséria e a destruição, com as forças sinistras da guerra? A sabedoria celeste não extermina as paixões: transforma-as. Aquele que semeou o mundo de cadáveres desperta, às vezes, para Deus, apenas com uma lágrima. O Pai não impõe a reforma a seus filhos: esclarece-os no momento oportuno. Joana, o apostolado do Evangelho é o de colaboração com o céu, nos grandes princípios da redenção. Sê fiel a Deus, amando o teu companheiro do mundo, como se fora teu filho. Não percas tempo em discutir o que não seja razoável.

Deus não trava contendas com as suas criaturas e trabalha em silêncio, por toda a Criação. Vai!... Esforça-te também no silêncio e, quando convocada ao esclarecimento, fala o verbo doce ou enérgico da salvação, segundo as circunstâncias! Volta ao lar e ama o teu companheiro como o material divino que o céu colocou em tuas mãos para que talhes uma obra de vida, sabedoria e amor!...Joana de Cusa experimentava um brando alívio no coração. Enviando a Jesus um olhar de carinhoso agradecimento, ainda lhe ouviu as últimas palavras:— Vai, filha!... Sê fiel! Desde esse dia, memorável para a sua existência, a mulher de Cusa experimentou na alma a claridade constante de uma resignação sempre pronta ao bom trabalho e sempre ativa para a compreensão de Deus. Como se o ensinamento do Mestre estivesse agora gravado indelevelmente em sua alma, considerou que, antes de ser esposa na Terra, já era filha daquele Pai que, do Céu, lhe conhecia a generosidade e os sacrifícios. Seu espírito divisou em todos os labores uma luz sagrada e oculta. Procurou esquecer todas as características inferiores do companheiro, para observar somente o que possuía ele de bom, desenvolvendo, nas menores oportunidades, o embrião vacilante de suas virtudes eternas. Mais tarde, o céu lhe enviou um filhinho, que veio duplicar os seus trabalhos; ela, porém, sem olvidar as recomendações de fidelidade que Jesus lhe havia feito, transformava suas dores num hino de triunfo silencioso em cada dia.


Os anos passaram e o esforço perseverante lhe multiplicou os bens da fé, na marcha laboriosa do conhecimento e da vida. As perseguições políticas desabaram sobre a existência do seu companheiro. Joana, contudo, se mantinha firme. Torturado pelas idéias odiosas de vingança, pelas dívidas insolváveis, pelas vaidades feridas, pelas moléstias que lhe verminaram o corpo, o ex-intendente de Ântipas voltou ao plano espiritual, numa noite de sombras tempestuosas. Sua esposa, todavia, suportou os dissabores mais amargos, fiel aos seus ideais divinos edificados na confiança sincera. Premida pelas necessidades mais duras, a nobre dama de Cafarnaum procurou trabalho para se manter com o filhinho que Deus lhe confiara. Algumas amigas lhe chamaram a atenção, tomadas de respeito humano. Joana, no entanto, buscou esclarecê-las, alegando que Jesus igualmente havia trabalhado, calejando as mãos nos serrotes de modesta carpintaria e que, submetendo-se ela a uma situação de subalternidade no mundo, se dedicara primeiramente ao Cristo, de quem se havia feito escrava devotada. Cheia de alegria sincera, a viúva de Cusa esqueceu o conforto da nobreza material, dedicou-se aos filhos de outras mães, ocupou-se com os mais subalternos afazeres domésticos para que seu filhinho tivesse pão. Mais tarde, Suando a neve tal experiências do mundo lhe alvejou os Simeíos anéis da fronte, uma galera romana a conduzia em seu bojo, na qualidade de serva humilde.


No ano 68, quando as perseguições ao Cristianismo iam intensas, vamos encontrar, num dos espetáculos sucessivos do circo, uma velha discípula do Senhor amarrada ao poste do martírio, ao lado de um homem novo, que era seu filho. Ante o vozerio do povo, foram ordenadas as primeiras flagelações.— Abjura!... — exclama um executor das ordens imperiais, de olhar cruel e sombrio. A antiga discípula do Senhor contempla o céu, sem uma palavra de negação ou de queixa. Então o açoite vibra sobre o rapaz seminu, que exclama, entre lágrimas: — "Repudia a Jesus, minha mãe!... Não vês que nos perdemos?! Abjura!... por mim, que sou teu filho!...Pela primeira vez, dos olhos da mártir corre a fonte abundante das lágrimas. As rogativas do filho são espadas de angústia que lhe retalham o coração. — Abjura!... Abjura! Joana ouve aqueles gritos, recordando a existência inteira. O lar risonho e festivo, as horas de ventura, os desqostos domésticos, as emoções maternais, os fracassos do esposo, sua desesperação e sua morte, a viuvez a desolação e as necessidades mais duras... Em seguida, ante os apelos desesperados do filhinho, recordou que Maria também fora mãe e, vendo o seu Jesus crucificado no madeiro da infâmia, soubera conformar-se com os desígnios divinos. Acima de todas as recordações, como alegria suprema de sua vida, pareceu-lhe ouvir ainda o Mestre, em casa de Pedro, a lhe dizer: — "Vai filha! Sê fiel!" Então, possuída de força sobrehumana, a viúva de Cusa contemplou a primeira vítima ensanguentada e, fixando no jovem um olhar profundo e inexprimível, na sua dor e na sua ternura, exclamou firmemente:


— Cala-te, meu filho! Jesus era puro e não desdenhou o sacrifício. Saibamos sofrer na hora dolorosa, porque, acima de todas as felicidades transitórias do mundo, é preciso ser fiel a Deus! A esse tempo, com os aplausos delirantes do povo, os verdugos lhe incendiavam, em derredor, achas de lenha embebidas em resina inflamável. Em poucos instantes, as labaredas lamberam-lhe o corpo envelhecido. Joana de Cusa contemplou com serenidade a massa de povo que lhe não entendia o sacrifício. Os gemidos de dor lhe morriam abafados no peito opresso. Os algozes da mártir cercaram-lhe de impropérios a fogueira:— O teu Cristo soube apenas ensinar-te a morrer? — perguntou um dos verdugos. A velha discípula, concentrando a sua capacidade de resistência, teve ainda forças para murmurar:— Não apenas a morrer, mas também a vos amar!...Nesse instante, sentiu que a mão consoladora do Mestre lhe tocava suavemente os ombros, e lhe escutou a voz carinhosa e inesquecível:— Joana, tem bom ânimo!... Eu aqui estou!...

16 -O LIVRO DOS ESPÍRITOS - ALLAN KARDEC - QUESTÕES: 97,131, 182, 191, 222, 257, 265,363, 469, 883, 907, 972

Perg. 97 - Há um número determinado de ordens ou de graus de perfeição entre os Espíritos? - É ilimitado o número dessas ordens, pois não há entre elas uma linha de demarcação, traçada como barreira, de maneira que se pode multiplicar ou restringir as divisões, à vontade. Não obstante, se considerarmos os caracteres gerais, poderemos reduzí-las a três ordens principais. Na primeira ordem, podemos colocar os que já chegaram à perfeição: os Espíritos Puros. Na segunda, estão os que chegaram ao meio da escala: o desejo do bem é a sua preocupação. Na terceira, os que estão ainda na base da escala: os Espíritos imperfeitos, que se caracterizam pela ignorância, o desejo do mal e todas as más paixões que lhes retardam o desenvolvimento.
Perg. 131. Há demônios, no sentido que se dá a essa palavra?— Se houvesse demônios, eles seriam obra de Deus. E Deus seria justo e bom, criando seres infelizes, eternamente voltados ao mal? Se há demônios, é no teu mundo inferior e em outros semelhantes que eles residem: são esses homens hipócritas que fazem de um Deus justo um Deus mau e vingativo, e que pensam lhe ser agradáveis pelas abominações que cometem em seu nome.

A palavra demônio não implica a idéia de Espírito mau, a não ser na sua acepção moderna, porque o termo grego daimon, de que ela deriva, significa gênio, inteligência, e se aplicou aos seres incorpóreos, bons ou maus, sem distinção. Os demônios, segundo a significação vulgar do termo, seriam entidades essencialmente malfazejas; e seriam, como todas as coisas, criação de Deus. Mas Deus, que é eternamente justo e bom, não pode ter criado seres predispostos ao mal, por sua própria natureza, e condenados pela eternidade. Se não fossem obra de Deus, seriam eternos como ele, e nesse caso haveria muitas potências soberanas. A primeira condição de toda doutrina é a de ser lógica; ora, a dos demônios, no seu sentido absoluto, falha neste ponto essencial. Que na crença dos povos atrasados, que não conheciam os atributos de Deus, admitindo divindades malfazejas, também se admitissem os demônios, é concebível; mas para quem quer que faça da bondade de Deus um atributo por excelência é ilógico e contraditório supor que ele tenha criado seres voltados ao mal e destinados a praticá-lo perpetuamente, porque isso negaria a sua bondade. Os partidários do demônio se apoiam nas palavras do Cristo, e não seremos nós que iremos contestar a autoridade dos seus ensinos, que desejamos ver mais no coração do que na boca dos homens; mas estariam bem certos do sentido que ele atribuía à palavra demônio? Não se sabe que a forma alegórica é uma das características da sua linguagem? Tudo o que o Evangelho contém deve ser tomado ao pé da letra? Não queremos outra prova, além desta passagem:

"Logo após esses dias de aflição, o sol se obscurecerá e a lua não dará mais a sua luz, as estrelas cairão do céu e as potências celestes serão abaladas. Em verdade vos digo que esta geração não passará, antes que todas essas coisas se cumpram". Não vimos a forma do texto bíblico contraditada pela Ciência, no que se refere à criação e ao movimento da Terra? Não pode acontecer o mesmo com certas figuras empregadas pelo Cristo, que devia falar de acordo com o tempo e a região em que se achava? O Cristo não poderia ter dito conscientemente uma falsidade. Se, portanto, nessas palavras há coisas que parecem chocar a razão, é que não as compreendemos ou que as interpretamos mal.
Perg. 182. - Podemos conhecer exatamente o estado físico e moral dos diferentes mundos?— Nós, Espíritos, não podemos responder senão na medida do vosso grau de evolução. Quer dizer que não devemos revelar estas coisas a todos, porque nem todos estão em condições de compreendê-las, e elas os perturbariam.
A medida que o Espírito se purifica, o corpo que o reveste aproxima-se igualmente da natureza espírita. A matéria se torna menos densa, ele já não se arrasta penosamente pelo solo, suas necessidades físicas são menos grosseiras, os seres vivos não têm mais necessidade de se destruírem para se alimentar. O Espírito é mais livre, e tem, para as coisas distanciadas, percepções que desconhecemos: vê pelos olhos do corpo aquilo que só vemos pelo pensamento. A purificação dos Espíritos reflete-se na perfeição moral dos seres em que estão encarnados. As paixões animais se enfraquecem, o egoísmo dá lugar ao sentimento fraternal. E assim que, nos mundos superiores ao nosso, as guerras são desconhecidas, os ódios e as discórdias não têm motivo, porque ninguém pensa em prejudicar o seu semelhante. A intuição do futuro, a segurança que lhes dá uma consciência isenta de remorsos fazem que a morte não lhes cause nenhuma apreensão: eles a recebem sem medo e como uma simples transformação.

A duração da vida, nos diferentes mundos, parece proporcional ao seu grau de superioridade física e moral, e isso é perfeitamente racional. Quanto menos material é o corpo, menos sujeito está às vicissitudes que o desorganizam; quanto mais puro é o Espírito, menos sujeito às paixões que o enfraquecem. Este é ainda um auxílio da Providência, que deseja assim abreviar os sofrimentos.
Perg. 183. - Pensando de um mundo para outro, o Espírito passa por nova infância?— A infância é por toda parte uma transição necessária, mas não é sempre tão ingênua como entre vós.
Perg. 184- O Espírito pode escolher o novo mundo em que vai habitar?— Nem sempre; mas pode pedir e obter o que deseja, se o merecer. Porque os mundos só são acessíveis aos Espíritos de acordo com o grau de sua elevação.
Perg. 184-a. -Se o Espírito nada pede, o que determina o mundo onde irá reencarnar-se?— O seu grau de elevação.
Perg. 185. - O estado físico e moral dos seres vivos é perpetuamente o mesmo, em cada globo?— Não; os mundos também estão submetidos à lei do progresso. Todos começaram como o vosso, por um estado inferior, e a Terra mesma sofrerá, uma transformação semelhante, tornando-se um paraíso terrestre, quando os homens se fizerem bons. Assim, as raças que atualmente povoam a Terra desaparecerão um dia e serão substituídas por seres mais e mais perfeitos. Essas raças transformadas sucederão à atual, como esta sucedeu a outras que eram mais grosseiras.
Perg. 191 - As almas dos nossos selvagens estão no estado de infância? - Infância relativa; pois são almas já desenvolvidas. Dotada de paixões.
Perg. 265 - Se alguns Espíritos escolhem o contato com o vício, como prova há os que o escolhem por simpatia e pelo desejo de viver num meio adequado aos seus gostos, ou para poderem entregar-se livremente às suas inclinações materiais? - Há por certo, mas só entre aqueles cujo senso moral é ainda pouco desenvolvido; a prova decorre disso, e eles a sofrem por tempo mais longo. Cedo ou tarde compreenderão que a satisfação das paixões brutais tem para eles consequências deploráveis, que terão de sofrer durante um tempo que lhes parecerá eterno. Deus poderá deixá-los nesse estado até que eles tenham compreendido suas faltas, pedindo por si mesmos o meio de resgatá-los em provas proveitosas.
Perg. 363 - Os Espíritos têm paixões estranhas à humanidade? - Não, se assim fosse, vós também as teríeis.
Perg. 469 - Por que meio se pode neutralizar a influência dos maus Espíritos? - Fazendo o bem e colocando toda a vossa confiança em Deus, repelis a influência dos Espíritos inferiores e destruís o império que desejam ter sobre vós. Guardai-vos de escutar as sugestões dos Espíritos que suscitam em vós maus pensamentos, que insuflam a discórdia e excitam em vós todas as más paixões. Desconfiai sobretudo dos que exaltam o vosso orgulho, porque eles atacam na vossa fraqueza. Eis por que Jesus vos fez dizer na oração dominical: "Senhor, não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal".
Perg. 883 - O desejo de possuir é natural?- Sim, mas quando o homem só deseja para si e para sua satisfação pessoal é egoísmo.
Perg. 883a - Entretanto não será legítimo o desejo de possuir, pois aquele que tem com o que viver não se torna carga para ninguém?- Há homens insaciáveis, que acumulam sem proveito para ninguém ou apenas para satisfazer as suas paixões. Acreditas que isso seja aprovado por Deus? Aquele que ajunta pelo seu trabalho, com a intenção de auxiliar o semelhante, pratica a lei de amor e caridade e seu trabalho é abençoado por Deus.
DAS PAIXÕES
Perg. 907. - O princípio das paixões sendo natural, é mau em si mesmo?. — Não. A paixão está no excesso provocado pela vontade, pois o princípio foi dado ao homem para o bem e as paixões podem conduzi-lo a grandes coisas. O abuso a que ele se entrega é que causa o mal.
Perg. 908. - Como definir o limite em que as paixões deixam de ser boas ou más?— As paixões são como um cavalo que é útil quando governado e perigoso quando governa. Reconhecei, pois, que uma paixão se torna perniciosa no momento em que a deixais de governar e quando resulta num prejuízo qualquer para vós ou para outro. As paixões são alavancas que decuplicam as forças do homem e o ajudam a cumprir os desígnios da Providência. Mas, se em vez de as dirigir, o homem se deixa dirigir por elas, cai no excesso e a própria força, que em suas mãos poderia fazer o bem, recai sobre ele e o esmaga. Todas as paixões têm seu princípio num sentimento ou necessidade de natureza. O princípio das paixões não é portanto um mal, pois repousa sobre uma das condições providenciais de nossa existência. A paixão propriamente dita é o exagero de uma necessidade ou de um sentimento; está no excesso e não na causa; e esse excesso se torna mau quando tem por consequência algum mal. Toda paixão que aproxima o homem da Natureza animal o afasta da Natureza espiritual. Todo sentimento que eleva o homem acima da Natureza animal anuncia o predomínio do Espírito sobre a matéria e o aproxima da perfeição.
Perg. 909. - O homem poderia sempre vencer as suas más tendências pelos seus próprios esforços?— Sim, e às vezes com pouco esforço; o que lhe falta é a vontade. Ah, como são poucos os que se esforçam!
Perg. 910. - O homem pode encontrar nos Espíritos uma ajuda eficaz para superar as paixões? — Se orar a Deus e ao seu bom gênio com sinceridade, os bons Espíritos virão certamente em seu auxílio, porque essa é a sua missão.
Perg. 911. - Não existem paixões de tal maneira vivas e irresistíveis que a vontade seja impotente para as superar?— Há muitas pessoas que dizem: "Eu quero!" mas a vontade está somente em seus lábios. Elas querem, mas estão muito satisfeitas de que assim não seja. Quando o homem julga que não pode superar suas paixões' que o seu Espírito nelas se compraz, como consequência de sua própria interioridade. Aquele que procura reprimi-las compreende a sua natureza espiritual; vencê-las é para ele um triunfo do Espírito sobre a matéria.
Perg. 912. - Qual o meio mais eficaz de se combater a predominância da natureza— Abnegar-se.
Perg. 972. - Como procedem os maus Espíritos para tentar os outros Espíritos, se não dispõem do auxílio das paixões?— Se as paixões não existem materialmente, existem, entretanto, no pensamento dos Espíritos atrasados. Os maus entretém esses pensamentos, arrastando suas vítimas aos lugares onde deparam com essas paixões e com tudo o que as possa excitar.
Perg. 972-a. Mas para que servem essas paixões, se lhes falta o objeto real?— Assim é precisamente para o seu suplício: o avarento vê o ouro que não pode possuir; o devasso, as orgias de que não pode participar; o orgulhoso, as honras que inveja e de que não pode gozar.
Perg. 973. - Quais os maiores sofrimentos a que os maus Espíritos se verão sujeitos?— Não há descrição possível das torturas morais que constituem a punição de certos crimes. Os próprios Espíritos que as sofrem teriam dificuldades em vos dar uma idéia. Mas seguramente a mais horrível é o pensamento de serem condenados para sempre.

17 - PÃO NOSSO - EMMANUEL - PÁG. 167

ÍTEM 78 - SEGUNDO A CARNE
"Porque, se viverdes segundo a carne, morrereis." — Paulo. (ROMA­NOS, 8:13.)
Para quem vive segundo a carne, isto é, de conformidade com os impulsos inferiores, a estação de luta terrestre não é mais que uma série de acontecimentos vazios. Em todos os momentos, a limitação ser-lhe-á fantasma incessante. Cérebro esmagado pelas noções negativas, encontrar-se-á com a morte, a cada passo. Para a consciência que teve a infelicidade de esposar concepções tão escuras não passará a existência humana de comédia infeliz. No sofrimento, identifica uma casa adequada ao desespero. No trabalho destinado à purificação espiritual, sente o clima da revolta. Não pode contar com a bênção do amor, porquanto, em face da apreciação que lhe é própria, os laços afetivos são meros acidentes no mecanismo dos desejos eventuais. A dor, benfeitora e conservadora do mundo, é-lhe intolerável, a disciplina constitui-lhe angustioso cárcere e o serviço aos semelhantes representa pesada humilhação.

Nunca perdoa, não sabe renunciar, dói-lhe ceder em favor de alguém e, quando ajuda, exige do beneficiado a subserviência do escravo. Desditoso o homem que vive, respira e age, segundo a carne! Os conflitos da posse atormentam-lhe o coração, por tempo indeterminado, com o mesmo calor da vida selvagem. Ai dele, todavia, porque a hora renovadora soará sempre! E, se fugiu à atmosfera da imortalidade, se asfixiou as melhores aspirações da própria alma, se escapou ao exercício salutar do sofrimento, se fez questão de aumentar apetites e prazeres pela absoluta integração com o "lado inferior da vida", que poderá esperar do fim do corpo, senão sepulcro, sombra e impossibilidade, dentro da noite cruel?

18 - PASSES E RADIAÇÕES - EDGARD ARMOND - PÁG. 62

Defeitos morais e paixões
A batalha moral contra os defeitos e as paixões deve ser igualmente encetada pelos espíritas sem vacilações e temores, sendo certo que desde os primeiros passos, serão fortemente apoiados pelos benfeitores espirituais, que sempre estão atentos, aguardando que tão salutares e imperiosas resoluções surjam e tomem consistência no espírito dos seus protegidos, entes amados que eles, os benfeitores, assumiram o compromisso de assistir e proteger durante a encarnação.
Antes de encetar a luta contra os defeitos e as paixões tão comuns ao homem inferior, como sejam, o orgulho, o egoísmo, a sensualidade, a hipocrisia, a avareza, a crueldade, e outros — é necessário que cada um faça um programa individual de ação, examine a influência que cada defeito ou paixão exerce sobre si mesmo e em seguida inicie a repressão com confiança e disposição de lutar sem desfalecimentos, até o fim; assim procedendo, logo aos primeiros passos, verá que o apoio recebido do Alto é muito importante e que a vitória está desde o princípio, em suas próprias mãos.

21 - SOCIALISMO E ESPIRITISMO - LÉON DENIS - PÁG. 80

ÍTEM IV - A rivalidade entre os partidos desperta, por vezes, paixões bastante violentas para obscurecer as mais altas inteligências e falsear os melhores julgamentos. Assim, convém não tocar as questões sociais senão com grande seriedade. É preciso aproximar-se do término de uma longa carreira, ter adquirido uma madura experiência dos homens e das coisas, ter se afastado por antecipação das contingências terrestres para disso falar com uma serena imparcialidade. É um pouco o meu caso, é porque me propus a abordar essas questões com inteira franqueza. Recebi sobre esse assunto um certo número de cartas que apresentam as nuances mais variadas de opinião desde as aprovações mais calorosas até as críticas mais amargas. Não podendo responder a todas; envio aos seus autores, indistintamente amigos e adversários, aprovadores ou críticos, uma radiação do coração, um pensamento igualmente simpático. Eu, apenas, pediria a meus contraditores que prestassem muita atenção na Finalidade dos artigos que escrevo antes de julgar-me e de condenar-me.

Em todos os tempos, em todos os meios, a questão social foi objeto de preocupações de pensadores, filósofos, de homens políticos; deu nascimento a uma multidão de teorias e sistemas; caos confuso onde o pesquisador encontra dificilmente o fio de Ariadne que os impedirá de se desgarrarem. Hoje, ainda os socialistas dividem-se em escolas diversas. Os alemães em número importante, prendem-se às teorias de Karl Marx, que se inspiram no materialismo brutal, preconizam as lutas de classes e sua conclusão, logicamente, desemboca em uma ditadura do proletariado, isto é, no bolchevismo. Ora, sabe-se o que este regime proporcionou à Rússia. Voltaremos mais tarde a tratar deste assunto. Depois do sucesso das forças armadas alemãs em Sadova, logo após em Sedan, as teorias marxistas ganharam uma grande extensão. A "Sozial Demokratie" tinha se tornado bastante poderosa para impedir a grande guerra mas, apesar da promessa feita a Jaurès, ela não apenas votou os créditos militares, pedidos pelo Imperador em vista dessa Guerra, como tomou nela uma parte pérfida e cruel. Por este fato ela assumiu, diante da história, uma pesada e terrível responsabilidade.


Os socialistas franceses adotaram de preferência as doutrinas de Fourier e de Proudhon. Seu fim comum é a supressão do salariado em proveito de um novo regime de propriedade em sentido coletivo com a socialização dos meios de produção e de troca. Mas, desde o começo, vê-se passar nos modos de aplicação, tanto entre os unificados como em outros agrupamentos, divergências de opinião que se revelam e contradições que aparecem. É aí, sobretudo, que lhe falta um ideal superior que religasse todos os esforços e vantagens e se fizessem sentir; pois não é o materialismo em voga nestes meios que é susceptível de inspirá-lo. Pelo contrário, os apetites se fazem à luz e o socialismo muitas vezes serve de trampolim a ambiciosos destituídos de brio que o utilizam para chegar a seus fins políticos, sem cuidar dos engajamentos tomados, o que muitas vezes contribui para o desacreditar na opinião geral. Estamos, pois, em presença de duas grandes correntes opostas, uma germânica e russa, outra ocidedada socialista. São próprias do homem "Doze Paixões": o gosto, o tato, a vista, o ouvido, o olfato, a amizade, a ambição, o amor, o familiarismo, o sentimento de fraternidade, a cabala ou paixão pela intriga, a paixão por "mar/posar" ou tendência à adversidade. Os moralistas somente haviam denunciado a depravação da natureza humana e exortavam afogar as paixões. Na realidade declara Fourier, é o regime social que está viciado. O homem é substancialmente bom. Trata-se de criar uma sociedade que favoreça a plena satisfação das paixões humanas, seu desenvolvimento e seu florescimento.


A partir destas premissas, Fourier esboça o quadro da ordem social futura, cuja célula fundamental é a falange, composta de "diferentes séries de produção". Todos os membros da falange têm direito ao trabalho. De bom grado oferecendo as suas paixões, enrolam-se nos diferentes grupos de produção. O trabalho é considerado na falange uma necessidade, uma fonte de gozo. A ausência de especialização estreita, que mutila o homem sob o regime burguês, contribui para isto. No curso da jornada, cada membro da falange muda de ocupação várias vezes. Assim, se satisfaz a necessidade de mariposar, a necessidade de variedade própria do homem. Fourier dizia dos homens do porvir que sua altiva Intrepidez venceria todos os obstáculos; que para eles a palavra impossível, não existiria. Na sociedade futura, os interesses do Indivíduo coincidirão com a sociedade. Chegar-se-á a uma abundância de bens materiais, como resultado de um trabalho criador e altamente produtivo. A distribuição na falange se faz, essencialmente, de acordo com o trabalho e o talento: 5/12 das entradas para o trabalho e 3/12 para o talento. Sob uma forma rudimentar, Fourier expressa a Idéia da supressão da oposição entre o trabalho Intelectual e manual, entre a cidade e o campo. O socialismo de Fourier tem um Caráter utópico. Fourier se opunha à revolução violenta. Desencantado, pensava organizar a sociedade socialista do porvir, graças à propaganda pacifica de suas idéias. Acreditava na possibilidade de criar falanges no capitalismo. Fourier se dirigia aos ricos, a quem confiava seus projetos na esperança de obter subvenções para executá-los.

A fim de atrair os capitalistas, Fourier lhes prometia os quatro doze avos restantes das entradas. Igual aos demais socialistas utópicos, ignorava a missão histórica do proletariado. Fourier, Saint-Simon, Owen eram socialistas solitários a quem as massas não seguiam. O socialismo não podia contar com uma salda eficaz para libertar a humanidade da escravidão capitalista. Fourier exerceu uma grande Influência no desenvolvimento das idéias socialistas. Marx o designava como um dos "patriarcas do socialismo". Junto ao de Saint-SImon e ao de Owen, o de Fourier constitui importante fonte teórica do comunismo científico. Obras principais: "Teoria dos quatro movimentos e dos destinos gerais" (1808), "Teoria da unidade universal" (1822), e "Novo mundo industrial e societário" (1829). Proudhon, Pierre Joseph (1809 -1865) — Literato, economista e sociólogo francês; um dos precursores do anarquismo contemporâneo. Sonhava com a perpetuação da propriedade privada e criticava a propriedade capitalista do ponto de vista pequeno burguês. No "Manifesto do Partido Comunista", Marx e Engels fazem notar o encarniçamento de Proufhon em conservar"...

24 - VINHAS DE LUZ - EMMANUEL - PÁG. 327

ÍTEM 156 - O VASO: "Que cada um de vós saiba possuir o seu vaso em santificação e honra." — Paulo. (I tessalonicenses, 4:4.)
A recomendação de Paulo de Tarso aos tessalo-nicenses ainda se reveste de plena atualidade. O vaso da criatura é o corpo que lhe foi confiado. O homem comum, em sua falsa visão do caminho evolutivo, inadvertidamente procura saturá-lo de enfermidade, lama e sombras e, em toda parte, observam-se consequências funestas de semelhantes desvios. Aqui, aparecem abusos da alimentação; além, surgem excessos inconfessáveis. Existências numerosas esbarram no túmulo, à maneira de veículos preciosos atropelados ou esmagados pela imprevidência. Entretanto, não faltam recursos da Bondade Divina para que o patrimônio se mantenha íntegro, nas mãos do beneficiário que é a nossa alma imortal. A higiene, a temperança, a medicina preventiva, a disciplina jamais deverão ser esquecidas.

O Pai Compassivo não se despreocupa das necessidades dos filhos, mas sim os próprios filhos é que menoscabam os valores que a Sabedoria Infinita lhes empresta por amor. Alguns superlotam o vaso sagrado com bebidas tóxicas e estonteantes, transformam-no outros em máquina da gula carniceira, quando o não despedaçam nos choques do prazer delituoso. Em obedecer aos impositivos de equilíbrio, na Lei Divina, reside a magnífica prova para todos os filhos da inteligência e da razão. Raros saem dela integralmente vitoriosos. A maioria espera milagres para exonerar-se dos compromissos assumidos, olvidando que o problema do resgate e do reajustamento compete a cada um. O melhor pai terrestre não conseguirá preservar o vaso dos filhos, senão transmitindo-lhes as diretrizes do reto proceder. Fora, pois, da lição da palavra e do exemplo, é imprescindível reconhecer que cada criatura deve saber possuir o próprio vaso em santificação e honra para Deus.