PANTEÍSMO
BIBLIOGRAFIA
01- Análise das coisas - pág. 65 02 - Auto desobsessão - pág. 7, 8
03 - Ciência e espiritismo - pág. 44, 78 04 - Deus na Natureza - pág. 298, 299, 397
05 - Estudos Espíritas - pág. 20 06 - Hipnotismo e espiritismo - pág. 172
07 - Jesus nem Deus nem homem - pág. 54 08 - O céu e o inferno - pág. 16, 74
09 - O espírito e o tempo - pág. 161 10 - O Livro dos Espíritos - questão 14
11 - O ser subconsciente - pág. 48 12 - Obras Póstumas - pág. 196
13 - Palingênese, a grande lei - pág. 65 14 - Pensamento e vontade - pág. 123, 137
15 - Pureza Doutrinária - pág. 47

16 - Alternativas da Humanidade - pág. 35

LEMBRETE: O NÚMERO DA PÁGINA PODE VARIAR DE ACORDO COM A EDIÇÃO DA OBRA CITADA.

PANTEÍSMO – COMPILAÇÃO

04 - Deus na Natureza - Camille Flammarion - pág. 298, 299, 397

(...) Chegamos mesmo a nos perguntar como podem os adversários conciliar as duas proposições, quando, no fundo, imaginam que a alma não existe e os pensamentos não passam de produtos da substância cerebral, variáveis com as impressões recebidas. Eis ao que se reduz o homem! Abstraindo de todas as provas precedentemente acumuladas, a testificação da nossa liberdade viria, enfim, depor a favor da força pensante que nos anima.

— O panteísmo, fazendo da alma uma partícula da substância divina, a escraviza e arrasta, inevitavelmente, ao fatalismo absoluto. — O ateísmo, negando a existência do espírito, faz da alma a escrava da matéria e conduz, por outra via, ao mesmo fatalismo. Poderíamos, portanto, proceder por eliminação, e demonstrando a inanidade dessas doutrinas, forçar o acolhimento da nossa, como a única que concilia os diversos imperativos de nossa consciência.

Assim, permitiu a sorte fossem os adversários batidos em todos os quadrantes, e que a negação da personalidade ficasse presa ao pelourinho por todos os elementos de nossa convicção. Concluindo o arrazoado sobre a existência da alma, afirmamos: a dignidade humana não permite um semelhante atentado ao que constitui o seu supremo fanal, antes protesta contra essas tendências exageradas.

As influências exageradas atuam mais ou menos em nós, conforme a nossa sensibilidade nervosa; mas, tanto quanto a composição química do cérebro, elas não constituem o nosso valor moral e intelectual. Para arrasar essa hipótese, bem como a precedente, basta considerar a potenciali­dade da nossa força mental. Só com ela podemos afrontar todas essas influências e seguir desdenho­sos, de fronte erguida, por entre essas ações e reações ambientes.

Quando a alma se acabrunha ao peso de uma dor profunda, pouco nos preocupamos com o estado do céu, que chova ou vente. Quando nos abandonamos a um enlevo de alegrías íntimas, pouco se nos dá o dia e o mês em que estamos. Quando sérios estudos nos absorvem a atenção, esquecemo-nos de jantar e até de dormir. Quardo o som das fanfarras atroa os ares e a cidade em alvoroço festeja a liberdade, não ocorre sabei se estamos em Julho ou Fevereiro.

Quando a pátria periclita, o pavilhão francês não se preocupa com a data e o barômetro. A vontade suserana não cogita dessas pretensas causas. As profundas emoções do coração desprezam bagatelas. Se a saúde é excelente condição para bem pensar e sentir, não quer dizer que ela só por si promova o estido da alma. Há, na vida, horas mais deliciosas que as dos mais opíparos banquetes, e nas quais se es [uecem as iguarias deleitosas aos paladares insacáveis; horas que eclipsam câmaras suntuosas, peles caras, jóias brilhantes, todos os regalos do mune o, enfim, para só nos absorvermos em gozos mais íntimos e mais vivazes...

Quantos, na Terra, fruíram esses momentos de felicidade, sabem que acima da esfera material existe uma região inacessível aos tormentos inferiores, onde as almas idea­listas se encontram em comunhão com a Beleza espiritual e incriada.

(..)A progênie dos que mutuamente se incendiaram nos tempos de João Huss e de Miguel Cervet, a nossa concepção há de parecer herética. Eles nos inquinarão de PANTEISTA, sem querer compreender que não identificamos a personalidade divina com as transformações da matéria. Hão de declarar que pretendemos que tudo é Deus e que todo o mundo se governa por si mesmo. Outros, terão a fantasia de nos qualificar de ateu e corruptor da moral evangélica, incapazes, que são, de compreender a adoração a outro Deus que não o seu.

Uma terceira categoria, ainda mais radicalista e exagerada, tratará de malfeitores a quantos se deixarem levar pela idéia acima formulada. Mas, aonde iríamos parar se houvéssemos de revidar a toda essa gente? Na realidade, toda essa atoarda só significa uma coisa: que estamos caminhando para a frente.

Nesta, como nas obras precedentes, os leitores poderão notar a voluntária ausência de nomenclaturas escolásticas. Houve quem nos chamasse dinamista e quem fosse além, dizendo-nos duo-dinamista. Reconhecem-nos, uns, tendências para o mais evidente animismo, enquanto outros nos rotulam de organicista. Eis, agora, o vitálismo, que nos convida a declarar francamente se a ele temos aderido. A maioria acusa-nos de ecletismo. Deixamos de parte os títulos de panteísta e teísta em contradição aos de materialista e ateu, que nos foram irrogados de campos opostos.

A posição de um Espírito que busca unicamente a verdade, só pode ser a de um grande isolado. Ele expõe-se a ser tratado como protestante pelos católicos, e como romancista pelos reformados; os cristãos tacham-no de herético e os filósofos averbam-no de cristão. Ao critério de cada qual, ele não pode deixar de pertencer a um sistema, a uma seita, a uma escola. Ora, francamente declaramos; a ninguém pertencemos .

Porque nos privarmos de recolher o bom e combater o mau onde quer que os encontremos? Porque nos convidarem a respeitar o erro pela só razão de sua antiguidade? Porque pretender encerrar-nos num círculo de antemão preconcebido? Que significam barreiras, dogmas, bandeiras que tais? Ilusão e nada mais. Sistemas? — jamais. Apenas, e só apenas, independência absoluta na investigação e culto da verdade.

O que tem prejudicado a um grande número de Espíritos é essa propensão ou essa condenação para encarrilar-se numa senda. Certo, há necessidade de seguir um método pessoal, apoiar-se em verdades tradicionalmente reconhecidas, conhecer o objeto positivo dos nossos estudos e trabalhar sem esmorecimentos na conquista do saber. Nós, porém, não nos revestimos de ouropéis fictícios, nem ocultamos o nosso céu sob uma bandeira.

Estudamos pouco a pouco a Natureza, através de todas as suas formas, em todos os seus aspectos, exprimindo com sinceridade o resultado do nosso estudo, sem nos preocuparmos com as palavras em disputa de pontos e vírgulas. A andorinha que volta aos penates na estação própria, singra livremente a amplidão do Espaço... Que sucederia se a obrigássemos a torcer as asas, a baixar os olhos, a levar na pata um galhardete e a rebocar consigo uma fileira de balões?

A doutrina aqui professada pode considerar-se um ateísmo ontológico, o esforço do homem para conhecer o Ente absoluto. E' uma forma necessária, imposta pelo teísmo racional. O argumento extraído da Teologia prova um Deus universal, autor de todas as coisas e o argumento da Ontologia prova a infinidade de Deus. Não podemos admitir um sem outro, quaisquer que sejam as dificuldades para conciliar as respectivas conclusões.

Essas dificuldades decorrem da grandeza do assunto, e ainda que não podendo ir além do alcance da nossa vista, não é razão para fechar os olhos ao que se torna evidente. Trocando o vocábulo panteísmo por teísmo, confessamos, com um pastor anglicano, que o "teísmo" é, por toda parte, reconhecido como teologia da razão, razão que poderá ser impotente, mas, em definitiva, é a única que possuímos.(..)

05 - Estudos Espíritas - Joanna de Ângelis - pág. 20

1 - DEUS - CONCEITO — Toda e qualquer tentativa para elucidar questão da Divindade redunda sempre inócua, infrutífera, traduzindo esse desejo a vã presunção humana, na incessante faina de tudo definir e entender. Acostumado ao imediatismo da vida física e suas manifestações, o homem ambiciona tudo submeter ao capricho da sua lógica débil, para reduzir à sua ínfima capacidade intelectual a estrutura causal do Universo, bem assim as fontes originárias do Criador.

Desde tempos imemoriais, a interpretação da Divindade lem recebido os mais preciosos investimentos intelectivos que se possam imaginar. Originariamente confundido com a Sua Obra, mereceu temido pelos povos primitivos que legaram às Culturas posteriores a sedimentação supersticiosa das crendices em que fundamentavam tributo de adoração, transitando mais tarde para a humanização da Divindade mesma, eivada pelos sentimentos e paixões transferidos da própria mesquinhez do homem.

À medida, porém, que os conceitos éticos e filosóficos evoluíram, a compreensão da Sua natureza igualmente experimentou consideráveis alterações. Desde a manifestação feroz à dimensão transcendental, o conceito do Ser Supremo recebeu de pensadores e escolas de pensamento as mais diversas proposições, justificando ou negando-Lhe a realidade.

Insuficientes todos os arremedos filosóficos e cultu­rais, quanto científicos, posteriormente, para uma perfeita elucidação do tema, concluiu-se pela legitimidade da Sua existência, graças a quatro grupos de considerações, capazes de demonstra-Lo de forma irretorquível e definitiva, a saber: a) cosmológicas, que O explicam como a Causa Única da sua própria causalidade, portanto real, sendo necessariamente possuidor das condições essenciais para preexistir antes da Criação e sobreexistir ao sem-fim dos tempos e do Universo; b) ontológicas, que O apresentam perfeito em todos os Seus atributos e na própria essência, explicando, por isso mesmo, a Sua existência, que, não sendo real, não justificaria sequer a hipótese do conceito, deixando, então, de ser perfeito.

Procedem tais argumentações desde Santo Anselmo, dos primeiros a formulá-las, enquanto que as de ordem cosmológica foram aplicadas inicialmente por Aristóteles, que O considerava o "Primeiro motor, o motor não movido, o Ato puro", consideração posteriormente reformulada por Santo Tomás de Aquino, que nela fundamentou a quase totalidade da Teologia Católica; c) teleológicas, mediante as quais o pensamento humano, penetrando na estrutura e ordem do Universo, não encontra outra resposta além daquela que procede da existência de um Criador.

Ante a harmonia cósmica e a beleza, quanto à grandeza matemática e estrutural das galáxias e da vida, uma resultante única surge: tal efeito procede de uma Causa perfeita e harmónica, sábia e infinita; d) morais, defendidas por Emanuel Kant, inimigo acérrimo das demais, que, no entanto, eram apoiadas por Spinoza, Bossuet, Descartes e outros gênios da fé e da razão. Deus está presente no homem, mediante a sua responsabilidade moral e a sua própria liberdade, que lhe conferem títulos positivos e negativos, conforme o uso que delas faça, do que decorrem as linhas mestras do dever e da autoridade.

Essa presença na inteligência humana, intuitiva, persistente, universal, faz que todos os homens de responsabilidade moral sejam conscientemente responsáveis, atestando, assim, inequivocamente, a realidade de um Legislador Absoluto, Suprema Razão da Vida.
Olhai o firmamento e vede a Obra das Suas mãos, proclama o Salmista Davi, no Canto 19, verso primeiro, conduzindo a mente humana à interpretação teleológica, cosmológica e cosmogônica, para entender Deus.

Examina a estrutura de uma molécula e o seu finalismo, especialmente diante do ADN, do ARN de recente investigação pela Ciência, que somente a pouco e pouco penetra na essência constitutiva da forma, na vida animal, e a própria indagação responde silogisticamente de maneira a conduzir o inquiridor à causa essencial de tudo: Deus! Outros grupos de estudiosos classificam os múltiplos argumentos em ordens diferentes: metafísicos, morais, históricos e físicos, abrangendo toda a gama do existente e do concebível.

Desenvolvimento
— Diversas escolas filosóficas do século passado desejaram padronizar as determinações divinas e a própria Divindade em linhas de fácil assimilação, na pretensão de limitarem o Ilimitado. Outras correntes de pesquisadores aferrados a cruento materialismo, na condição de herdeiros diretos do Atomísmo greco-romano, do pretérito, descendentes, a seu turno, de Lord Bacon, como dos sensualistas e cépticos dos séculos XVIII e XIX, zombando da fé ingênua e primitiva, escravizada nos dogmas ultramontanos dos religiosos do pássado, tentaram aniquilar histórica e emocionalmente a existência de Deus, por incompatível com a razão, conforme apregoavam, mediante sistemas sofistas e conclusões científicas apressadas, como se a própria razão não fosse perfeitamente confluente com o sentimento de fé, inato em todo homem, como o demonstram os multifários períodos da História.

Sócrates já nominava Deus como "A Razão Perfeita", enquanto Platão O designava por "Idéia do Bem". O neoplatonismo, com Plotino, propôs o renascimento do Panteísmo, fazendo "Deus, o Uno Supremo", que reviverá em Spinoza, não obstante algumas discussões na forma de Monismo, que supera na época o Dualismo cartesiano. O monismo recebe entusiástico apoio de Fichte, Hegel, Schelling e outros, enquanto larga faixa de pensadores e místicos religiosos empenhava-se na sobrevivência do Dualismo.

Mais de uma vez alardeou-se que "Deus havia morrido", proclamando-se a desnecessidade da fé como da Sua paternidade, para, imediatamente, reiteradas vezes, com a mesma precipitação, voltarem esses negadores a aceitar a Sua realidade. A personagem concebida por Nietzsche, que sai à rua difundindo haver "matado Deus", chamando a atenção dos passantes, após o primeiro choque produzido nos círculos literários e intelectuais do mundo, no passado, estimulou outras mentes à negação sistemática.

Fenômeno idêntico acontecera no século anterior, quando os convencionais franceses, supondo destruir Deus, expulsaram os religiosos de Paris e posteriormente de todo o país, entronizando a jovem Candeille, atormentada bailarina do Ópera, como a Deusa Razão, que deveria dirigir os destinos do pensamento intelectual de então, ante Robespierre e outros, em Notre-Dame. Logo, porém, depois de múltiplas vicissitudes, o curto período da Razão fez que Deus retornasse à França, e muitos dos seus opositores a Ele se renderam, declarando haver voltado ao Seu regaço, cabisbaixos, arrependidos, melancólicos.

Deus vencia, mais uma vez, a prosápia utopista da ignorância humana! Repetida a experiência no último quartel do "século das luzes", tornou a ser exilado da Filosofia e da Ciência por uns e reconduzido galhardamente por outros expoentes culturais da Humanidade.
Novamente, ante o passo avançado da tecnologia moderna, através da multiplicidade das ciências atuais, pretende-se um Cristianismo sem Deus, uma Teologia não teísta, fundamentada em cogitações apressadas, que pretendem levar o homem à "busca das suas origens", como desejando reconduzi-lo à furna, em vez de situá-lo em a Natureza, mante-lo selvagem por incapacidade de fazê-lo sublime.

Tal fenômeno reflete a apressada decadência histórica e moral das velhas Instituições, na Terra de hoje, inaugurando uma Nova Era...
As construções sociais e econômicas em falência, as arquiteturas religiosas em soçobro, as aferições dos valores psicológicos e psicotécnicos negativamente surpreendentes, o descrédito inspirado pelos dominadores, em si mesmos dominados, pelos vencedores lamentavelmente vencidos pela inferioridade das paixões em que se consomem, precipitaram o agoniado espírito humano na "busca do nada", das formas primeiras, rompendo com tudo, como se fora possível abandonar a herança divina inata indistintamente em todas as criaturas, para tentar esquecer, apagar e confundir a inteligência com os impulsos dos instintos, num contumaz e malsinado esforço de contraditório retorno às experiências primitivistas da forma, quando ainda nas fases longevas de formações e reformações biodinâmicas. ..

Concomitantemente, porém, surgem figurações morais, espirituais, místicas e científicas, sofrendo os embates que a dúvida e o cepticismo impõem, resistindo, todavia, estoicamente, na afirmação da existência de Deus, apoiadas pela Filosofia e Ética espíritas, que são as novas ma­trizes da Religião do Amor, pregada e vivida por Nosso Senhor Jesus-Cristo.

Conclusão — "Deus é Amor", afirmava João.
"Meu Pai", dizia reiteradamente Jesus, conceituando-O da forma mais vigorosa e perfeita que se possa imaginar. E Allan Kardec, mergulhando as nobres inquirições filosóficas nas fontes sublimes da Espiritualidade Superior, recolheu através dos Imortais que "Deus é a Inteligência suprema, causa primária de todas as coisas", em admirável síntese, das mais felizes, completando a argumentação com a asserção de que o homem deve estudar "as próprias imperfeições a fim de libertar-se delas, o que será mais útil do que pretender penetrar no que é impenetrável", concordante com o ensino do Cristo, em João: "Deus é Espírito, e importa que os que O adoram, O adorem em espírito e verdade."


ESTUDO E MEDITAÇÃO:
"Onde se pode encontrar a prova da existência de Deus ? "Num axioma que aplicais às vossas ciências. Não há efeito sem causa. Procurai a causa de tudo o que não é obra do homem e a vossa razão responderá." Para crer-se em Deus, basta se lance o olhar sobre as obras da Criação. O Universo existe, logo tem uma causa. Duvidar da existência de Deus é negar que todo efeito tem uma causa e avançar que o nada pôde fazer alguma coisa. (O Livro dos Espíritos, Allan Kardec, questão 4.)

"A existência de Deus é, pois, uma realidade comprovada não só pela revelação, como pela evidência material dos fatos. Os povos selvagens nenhuma revelação tiveram; entretanto, crêem instintivamente na existência de um poder sobre-humano. Eles vêem coisas que estão acima das possibilidades do homem e deduzem que essas coisas provêm de um ente superior à Humanidade. Não demonstram raciocinar com mais lógica do que os que pretendem que tais coisas se fizeram a si mesmas?"
(A Gênese, Allan Kardec, cap. H, item 7.)

10 - O Livro dos Espíritos - Allan Kardec - questão 14

Perg. 14 - Deus é um ser distinto, ou seria, segundo a opinião de alguns, o resultante de todas as forças e de todas as inteligências do Universo reunidas?
-Se assim fosse, Deus não existiria, porque seria efeito e não causa. Ele não pode ser, ao mesmo tempo, uma coisa e outra. Deus existe, não o podeis duvidar, e isso é o essencial.Acreditai no que vos digo e não queirais ir além. Não vos percais num labirinto, de onde não poderíeis sair. Isso não vos tornaria melhores,mas talvez um pouco mais orgulhosos, porque acreditaríeis saber, quando na realidade nada saberíeis. Deixai, pois, de lado, todos esses sistemas, tendes de vos desembaraçar de muitas coisas que vos tocam mais diretamente. Isto vos seria mais útil do que querer o que é impenetrável.

Perg. 15 - Que pensar da opinião segundo a qual todos os corpos da natureza, todos os seres, todos os globos do Universo seriam partes da Divindade e constituiriam, pelo seu conjunto, a própria Divindade, ou seja, que pensar da doutrina panteísta?
- Não podendo ser Deus, o homem quer pelo menos ser uma parte de Deus.

Perg. 16 - Os que professam esta doutrina pretendem nela encontrar a demonstração de alguns dos atributos de Deus. Sendo os mundos infinitos, Deus é, por isso mesmo, infinito; o vácuo ou o nada não existindo em parte alguma, Deus está em toda parte, Deus estando em toda a parte, pois que tudo é parte integrante de Deus, dá a todos os fenômenos da Natureza uma razão de ser inteligente. O que se pode opor a este raciocínio?
- A razão. Refleti maduramente e não vos será difícil reconhecer-lhe o absurdo.

Esta doutrina faz de Deus um ser material que, embora dotado de inteligência suprema, seria em ponto grande aquilo que somos em ponto pequeno. Ora, a matéria se transformando sem cessar, Deus, nesse caso, não teria nenhuma estabilidade e estaria sujeito a todas as vicissitudes e mesmo a todas as necessidades da humanidade; faltar-lhe-ia um dos atributos essenciais da Divindade: a imutabilidade. As propriedades da matéria não podem ligar-se à idéia de Deus, sem que o rebaixemos em nosso pensamento, e todas as sutilezas do sofisma não conseguirão resolver o problema da sua natureza íntima. Não sabemos tudo o que ele é, mas sabemos aquilo que não pode ser, e este sistema está em contradição com as suas propriedades mais essenciais, pois confunde o Criador com a criatura, precisamente como se quiséssemos que uma máquina engenhosa fosse parte integrante do mecânico que a concebeu.
A inteligência de Deus se revela nas suas obras, como a do pintor no seu quadro; mas as obras de Deus não são o próprio como o quadro não é o pintor que o concebeu e executou.

12 - Obras Póstumas - Allan Kardec - pág. 196

2° - DOUTRINA PANTEÍSTA

O princípio inteligente (alma), independente da matéria, está espalhando por todo o universo, mais individualiza-se em cada ser durante a vida, e volta, pela morte, à massa comum, como voltam ao oceano as águas da chuva. Consequeências: Sem individualidade e sem consciência de si mesmo, o ser é como se não existisse. As consequências morais desta doutrina são exatamente as mesmas do materialismo. Observação: Um determinado número de panteístas admite que a alma, aspirada, ao nascer, do todo universal, conserva a sua individualidade por tempo indefinido, não voltando à massa geral senão depois de ter alcançado o último grau de perfeição. As consequências desta variedade de crenças são absolutamente as mesmas que as da doutrina panteísta, propriamente dita, porque é completamente inútil todo o trabalho para adquirir conhecimentos, dos quais se perderá a consciência, aniquilando-se a alma depois de um tempo relativamente curto. Se o espírito recusa a concepção panteísta em geral, sobe de ponto a repugnância em a admitir, quando se vem dizer que, ao alcançar a ciência a perfeição suprema, perde ele o resultado do seu esforço e desaparece a individualidade.

16 - Alternativas da Humanidade - Durval Ciamponi - pág. 35

PANTEÍSMO OU IMORTALIDADE?
O Espiritualismo, como generalidade, é a concepção filosófica daqueles que admitem existir em si alguma coisa além da matéria. Há todavia, entre eles diferentes interpretações quanto à finalidade da vida espiritual; para uns este "algo" existente em nós, enquanto vivos, retorna ao Todo depois da morte, perdendo sua individualidade; para outros este "algo", designado de alma ou princípio inteligente, mantém sua individualidade sobrevivendo depois da morte independente da existência do Todo. Têm-se, assim:

HOMEM
ESPIRITUALISMO
SOBREVIVÊNCIA DA ALMA?
PANTEÍSMO?
MATERIALISMO
FILOSÓFICO (nada existe além da matéria)
PSCOLÓGICO (apego a bens materiais)

Examinaremos os diversos matizes para descobrir quais as diferenças e semelhanças entre estes dois galhos da árvore espiritualista, segundo as alternativas da humanidade encarnada. O homem visualiza Deus de múltiplas maneiras e, consequentemente, comporta-se de acordo com suas perspectivas em relação ao mundo espiritual.

Panteísmo
A palavra panteísmo tem sua origem no grego; vem de Paní (tudo, todo) e Theos (Deus), significando pois Deus em tudo ou tudo em Deus. Diz o Aurélio no verbete panteísmo: "Doutrina; segundo a qual só Deus é real e o mundo é um conjunto de manifestações ou emanações", ou "Doutrina segundo a qual só o mundo é real, sendo Deus a soma de tudo quanto existe".

Mostra ainda outros verbetes com significados semelhantes: Pantiteísmo: "Sistema filosófico, que considera e vê Deus em tudo" ou Panenteísmo: "Sistema filosófico que vê todos os seres em Deus. Forma particular que deu ao panteísmo o filósofo alemão Krause (1871 a 1832)".

Registra o "Dicionário Prático", da Bíblia Sagrada, Edição Barsa, que panteísmo é "opinião filosófica segundo a qual Deus e o mundo são uma coisa só, isto é, tudo que existe ou é parte de Deus ou é o mesmo Deus. Esta Doutrina remonta à antiga filosofia indiana; o nome, porém, surgiu em 1709, tendo sido condenada por Pio IX e pelo Concílio do Vaticano. O panteísmo nega diferença infinita entre o Criador e as criaturas." (Concílio Vaticano I, 1869/.1870, que também declarou a infalibilidade papal).

Diz Herculano Pires que "segundo a etimologia, e de acorde com o emprego tradicional do termo, panteísmo é uma concepção monista do mundo, que pode ser traduzida na expressão: tudo Deus. Espinosa foi o sistematizador filosófico dessa concepção.! Deus é a realidade única, da qual todas as coisas não são mais dç que emanações".

Herculano fala também do chamado panteísmo materialista! segundo D'Holbach, para quem "a realidade primária é o Mundo»! e Deus é a suma do Mundo, ou seja, o resultado do conjunto dê leis universais".
Há entre os panteístas, pois, diferentes correntes de pensamento:

a) Uma única inteligência:
Admitem estes existir apenas um único Princípio Inteligente, uma única divindade, Deus. Cada indivíduo, ao nascer, absorve uma porção dessa divindade para sustentar-lhe as ações durante a vida, mas que, ao morrer, esta centelha anímica retorna à alma universal, perdendo sua individualidade.
Diz Kardec, "segundo estes, não haveria em todo o Universo senão uma única alma, distribuindo fagulhas para os diversos seres inteligentes durante a vida; após a morte cada fagulha volta à fonte comum..." Complementa em que esta idéia de alma mostra-se incompatível com o Espiritismo, pois ela reentrando "no Todo Universal donde saiu, e havendo progredido durante a vida, leva-lhe um elemento mais perfeito. Daí se infere que esse todo se encontraria, pela continuação profundamente modificado e melhorado".

b) Deus é a soma de tudo o que existe:
Esta questão está ligada ao LÊ ("O Livro dos Espíritos"), 15, segundo a qual todos os corpos da Natureza, todos os seres, todos os globos do Universo, seriam partes da Divindade e constituiriam pelo seu conjunto, a própria Divindade. Os Espíritos disseram que o homem não podendo ser Deus, quer pelo menos ser uma parle de Deus. Em díz Kardec que se assim fosse "cada indivíduo, sendo uma parte do todo, é Deus ele próprio; nenhum ser superior e independente rege o conjunto".

c) Deus é resultante das inteligências reunidas:
E a questão LÊ, 14, para a qual os Espíritos responderam, "se assim fosse, Deus não existiria, porque seria efeito e não causa..."
Alegam alguns estudiosos que Espinosa (1632/1677) era panteísta, por afirmar que Deus é a única verdadeira substância, que fora de Deus nada pode existir, ou que tudo existe em Deus. Herculano Pires, todavia, ao examinar o pensamento deste autor (LE 615 - Nota) discorda ser ele panteísta, por afirmar como Paulo: "Tudo o que existe, existe em Deus, e nada pode existir nem ser concebido sem Deus". Paulo disse (Atos, 17:28): "Nele vivemos e nos movemos e existimos".

d) Panteísmo reencarnacionista:
Certo número de panteístas, entrementes, admitem que esta centelha anímica sobreviva à morte, conservando "sua individualidade" por um tempo indefinido, numa pluralidade de existências até despojar-se das impurezas da matéria, desejos e paixões, conquistando a plena sabedoria ou iluminação, quando chegar no último grau da perfeição, perdendo sua "aparente" individualidade ou a ilusão de ser "algo" permanente. É o pensamento dos rosa-cruzes e dos budistas, por exemplo. (...)