PARTÍCULA
BIBLIOGRAFIA
01- A NOVA FÍSICA E O ESPÍRITO, pag. 49 02 - COMUNICAÇÃO EFICAZ, pag. 83
03 - MÃOS DE LUZ, pag. 46 04 - PSIQUIATRIA E MEDIUNISMO, pag. 113
05 - PSIQUISMO: FONTE DA VIDA, pag. 155 06 -

LEMBRETE: O NÚMERO DA PÁGINA PODE VARIAR DE ACORDO COM A EDIÇÃO DA OBRA CITADA.

PARTÍCULA – COMPILAÇÃO

01 - PARTÍCULA

A Física Quântica em Busca da Partícula Divina
Luís de Almeida

(Este artigo de Luís de Almeida foi originalmente publicado na Revista Internacional de Espiritismo de Janeiro de 2002)

"Confesso que, após cuidadosa e atenta leitura deste trabalho, conclui que foi um dos melhores artigos que já tive o prazer de ler. Ele se me afigura o mais erudito e informativo trabalho acerca da relação entre a Física e o Espiritismo, até agora escrito em idioma português. Se traduzido para o inglês será, sem dúvida, apreciadíssimo, inclusive pelos físicos mais modernos que, atualmente, divulgam obras acerca do relacionamento entre a Consciência e o Universo, vislumbrado sob a óptica das Físicas Quântica e Relativística. Menciono, como exemplos, os livros de Michio Kaku (Hiperespaço, ed. Rocco, Rio de Janeiro, RJ) e de Amit Goswami (O Universo Autoconsciente, edit. Rosa dos Tempos, Rio de Janeiro)."
Dr. Hernani Guimarães Andrade

A Física continua a dar ao Espiritismo, ainda que os físicos de tal não se apercebam, ou melhor, não queiram por enquanto se aperceber, uma contribuição gigantesca na confirmação dos postulados espíritas, que de maneira nenhuma nós, os espíritas, poderemos subestimar. Existe uma ciência espírita, com uma metodologia de ciência, assentada nas questões espirituais, mais do que possamos imaginar, e a prova disso é O Livro dos Espíritos - uma obra actual - um manancial para a Física Moderna. Trazendo-nos um novo conceito básico sobre a visão macro e microcósmica de Deus (ao defini-Lo como "a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas") do Espírito e da Matéria propriamente dita.

A Física Moderna leva-nos ao encontro do Espírito e de Deus
A física quântica pode constituir uma ponte entre a ciência e o mundo espiritual, pois segundo ela, pode-se "reduzir" a matéria, de forma subjectiva e no domínio do abstracto, até à consciência - causa da "intelectualidade" da matéria. A consciência transforma as possibilidades da matéria em realidade, transformando as possibilidades quânticas em factos reais. Essa consciência deve apresentar uma unidade e transcender o tempo, espaço e matéria. Não é algo material, na realidade, é a base de todos os seres.

Recordemos o professor de Lyon In O Livro dos Espíritos (9):

23. Que é o Espírito?
- "O princípio inteligente do Universo".

a) - Qual a natureza íntima do Espírito?
- "Não é fácil analisar o Espírito com a vossa linguagem. Para vós, ele nada é, por não ser palpável. Para nós, entretanto, é alguma coisa."

Tanto é assim, que os físicos teóricos postulam a existência de uma "partícula", que seria a partícula "fundamental", que ainda não foi encontrada, mas a qual o Prémio Nobel da física, Leon Lederman, denomina a "partícula divina". Partícula essa decisiva pois é ela que determina a massa das restantes, bem como a coesão dada pela gravidade dos 90% do universo ainda desconhecido.

Leiamos Kardec In O Livro dos Espíritos (9):

25. O Espírito independe da matéria, ou é apenas uma propriedade desta, como as cores o são da luz e o som o é do ar?
- "São distintos uma do outro; mas, a união do Espírito e da matéria é necessária para intelectualizar a matéria."

26. Poder-se-á conceber o Espírito sem a matéria e a matéria sem o Espírito?
- "Pode-se, é fora de dúvida, pelo pensamento."

Cabe lembrar que os físicos, a partir das pesquisas do norte-americno Murray Gel Mann nos aceleradores de partícula, já admitem a existência de um domínio externo ao mundo cósmico dito material onde provavelmente existam agentes activos também chamados frameworkers, capazes de actuar sobre a energia do Universo, modulando-a e dando-lhe formas de partícula atómica, ou seja por outras palavras - o espírito, chamado também "Agente Estruturador"por vários físicos teóricos.

Retomemos novamente o mestre lionês In O Livro dos Espíritos (9):

76. Que definição se pode dar dos Espíritos?
- "Pode dizer-se que os Espíritos são os seres inteligentes da criação. Povoam o Universo, fora do mundo material."

536. São devidos a causas fortuitas, ou, ao contrário, têm todos um fim providencial, os grandes fenómenos da Natureza, os que se consideram como perturbação dos elementos?
- '"Tudo tem uma razão de ser e nada acontece sem a permissão de Deus."

b) - Concebemos perfeitamente que a vontade de Deus seja a causa primária, nisto como em tudo; porém, sabendo que os Espíritos exercem acção sobre a matéria e que são os agentes da vontade de Deus, perguntamos se alguns dentre eles não exercerão certa influência sobre os elementos para os agitar, acalmar ou dirigir?
- "Mas evidentemente. Nem poderia ser de outro modo. Deus não exerce acção directa sobre a matéria. Ele encontra agentes dedicados em todos os graus da escala dos mundos."

A Teoria das Supercordas e a Dimensão Psi
Outra teoria quântica, que vem de encontro a existência de uma "partícula divina consciêncial" no final da escala das partículas subatómicas, é a teoria das supercordas. Essa teoria foi melhorada e é defendida por um dos físicos teóricos mais respeitados da actualidade Edward Witten, professor do Institute for Advanced Study em Princeton, EUA. De maneira bastante simples e resumida, a teoria das supercordas postula que os quarks, mais ínfima partícula subatómica conhecida até o momento, estariam ligados entre si por "supercordas" que, de acordo com sua vibração, dariam a "tonalidade" específica ao núcleo atómico a que pertencem, dando assim as qualidades físico-químicas da partícula em questão.

Querer imaginá-las é como tentar conceber um ponto matemático: é impossível, por enquanto. Além disso, são inimaginavelmente pequenas. Para termos uma ideia: o planeta Terra é dez a vinte ordens grandeza mais pequeno do que o universo, e o núcleo atómico é dez a vinte ordens de grandeza mais pequeno do que a Terra. Pois bem, uma supercorda é dez a vinte ordens mais pequena do que o núcleo atómico.

O professor Rivail, esclarece In O Livro dos Espíritos (9):

30. A matéria é formada de um só ou de muitos elementos?
- "De um só elemento primitivo. Os corpos que considerais simples não são verdadeiros elementos, são transformações da matéria primitiva."

Ou seja, é a vibração dessas infinitesimais "cordinhas" que seria responsável pelas características do átomo a que pertencem. Conforme vibrem essas "cordinhas" dariam origem a um átomo de hidrogénio, hélio e assim por diante, que por sua vez, agregados em moléculas, dão origem a compostos específicos e cada vez mais complexos, levando-nos a pelo menos 11 dimensões.

Corrobora Allan Kardec In O Livro dos Espíritos (9):

79. Pois que há dois elementos gerais no Universo: o elemento inteligente e o elemento material, poder-se-á dizer que os Espíritos são formados do elemento inteligente, como os corpos inertes o são do elemento material?
- "Evidentemente. Os Espíritos são a individualização do princípio inteligente, como os corpos são a individualização do princípio material.."

64. Vimos que o Espírito e a matéria são dois elementos constitutivos do Universo. O princípio vital será um terceiro?
- "É, sem dúvida, um dos elementos necessários à constituição do Universo, mas que também tem sua origem na matéria universal modificada. É, para vós, um elemento, como o oxigénio e o hidrogénio, que, entretanto, não são elementos primitivos, pois que tudo isso deriva de um só princípio."

Essa teoria traz a ilação de que tal tonalidade vibratória fundamenta é dada por algo ou alguém, de onde abstraímos a ?consciência? como factor propulsor dessas cordas quânticas. Assim sendo, isso ainda mais nos faz pensar numa unidade consciencial vibrando a partir de cada objecto, de cada ser.

Complementa Kardec In O Livro dos Espíritos (9):

615. É eterna a lei de Deus?
- "Eterna e imutável como o próprio Deus."

621. Onde está escrita a lei de Deus?
- "Na consciência."

Seguindo esta teoria e embarcando na ideia lançada por André Luiz In Evolução em Dois Mundos (11), onde somos co-criadores dessa consciência universal, e cada vez mais responsáveis por gerir o estado vibracional das nossas próprias "cordinhas" - a chamada dimensão Psi por vários investigadores espiritas -, à medida que delas nos conscientizemos, chegaremos a harmonia perfeita quando realmente entrarmos em sintonia com a consciência geradora que está em nós, e também no todo, vulgarmente conhecida por Deus, ou como alguns físicos teóricos sustentam "O Supremo Agente Estruturador".

Leiamos o Codificador In O Livro dos Espíritos (9):

5. Que dedução se pode tirar do sentimento instintivo, que todos os homens trazem em si, da existência de Deus?
- "A de que Deus existe; pois, donde lhes viria esse sentimento, se não tivesse uma base? É ainda uma consequência do princípio - não há efeito sem causa."

7. Poder-se-ia achar nas propriedades íntimas da matéria a causa primária da formação das coisas?
- "Mas, então, qual seria a causa dessas propriedades? É indispensável sempre uma causa primária."

Interpretemos Allan Kardec In A Génese (10) Cap. II - A Providência:

20. - A providência é a solicitude de Deus para com as suas criaturas. Ele está em toda parte, tudo vê, a tudo preside, mesmo às coisas mais mínimas. É nisto que consiste a acção providencial.
«Como pode Deus, tão grande, tão poderoso, tão superior a tudo, imiscuir-se em pormenores ínfimos, preocupar-se com os menores actos e os menores pensamentos de cada indivíduo?» Esta a interrogação que a si mesmo dirige o incrédulo, concluindo por dizer que, admitida a existência de Deus, só se pode admitir, quanto à sua acção, que ela se exerça sobre as leis gerais do Universo; que este funcione de toda a eternidade em virtude dessas leis, às quais toda criatura se acha submetida na esfera de suas actividades, sem que haja mister a intervenção incessante da Providência.

Esta consciência única do raciocínio quântico, transforma-se em dois elementos: um objectivo e outro subjectivo. O subjectivo chamamos de ser quântico, universal, indivisível. A individualização desse ser é consequência de um condicionamento. Esse ser quântico é a maneira como pensamos em Deus, que é o ser criador dentro de nós.

Voltemos ao génio de Lyon In A Génese (10) Cap. II - A Providência:

34. - Sendo Deus a essência divina por excelência, unicamente os Espíritos que atingiram o mais alto grau de desmaterialização o podem perceber. Pelo facto de não o verem, não se segue que os Espíritos imperfeitos estejam mais distantes dele do que os outros; esses Espíritos, como os demais, como todos os seres da Natureza, se encontram mergulhados no fluido divino, do mesmo modo que nós o estamos na luz.

Geralmente, nós interpretamos Deus como algo unicamente externo. Pensamos em Deus como um ser separado de nós. Isso é a causa dos conflitos. Se Deus também está dentro de nós, podemos mudar por nossa própria vontade. Mas se acreditamos que Deus está exclusivamente do lado de fora, então supomos que só Ele pode nos mudar e não nos transformamos pela nossa própria vontade. Não podemos excluir a nossa vontade, dizendo que tudo ocorre pela vontade de Deus. Temos de reconhecer o deus que há em nós, como afirmou o Doce Amigo há 2000 anos. Então seremos livres.

Allan Kardec atesta In A Génese (10) Cap. II - A Providência:

24. - (...) Achamo-nos então, constantemente, em presença da Divindade; nenhuma das nossas acções lhe podemos subtrair ao olhar; o nosso pensamento está em contacto ininterrupto com o seu pensamento, havendo, pois, razão para dizer-se que Deus vê os mais profundos refolhos do nosso coração. Estamos nele, como ele está em nós, segundo a palavra do Cristo.

Para estender a sua solicitude a todas as criaturas, não precisa Deus lançar o olhar do Alto da imensidade. As nossas preces, para que ele as ouça, não precisam transpor o espaço, nem ser ditas com voz retumbante, pois que, estando de contínuo ao nosso lado, os nossos pensamentos repercutem nele.

O Livro dos Espíritos: uma obra actual e de referência
A Física continua a dar ao Espiritismo, ainda que os físicos de tal não se apercebam, ou melhor, não queiram por enquanto se aperceber, uma contribuição gigantesca na confirmação dos postulados espíritas, que de maneira nenhuma nós, os espíritas, poderemos subestimar. Existe uma ciência espírita, com uma metodologia de ciência, assentada nas questões espirituais, mais do que possamos imaginar, e a prova disso é O Livro dos Espíritos (9) - uma obra actual - um manancial para a Física Moderna. Trazendo-nos um novo conceito básico sobre a visão macro e microcósmica de Deus (ao defini-Lo como "a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas") do Espírito e da Matéria propriamente dita.

Concluímos com Allan Kardec In O Livro dos Espíritos (9) resumindo toda esta teoria da Física Moderna de forma magistral, simplesmente espantoso, acreditem...:

27. Há então dois elementos gerais do Universo: a matéria e o Espírito?
- "Sim e acima de tudo Deus, o criador, o pai de todas as coisas. Deus, espírito e matéria constituem o princípio de tudo o que existe, a trindade universal. Mas ao elemento material se tem que juntar o fluido universal, que desempenha o papel de intermediário entre o Espírito e a matéria propriamente dita, por demais grosseira para que o Espírito possa exercer acção sobre ela. Embora, de certo ponto de vista, seja lícito classificá-lo com o elemento material, ele se distingue deste por propriedades especiais. Se o fluido universal fosse positivamente matéria, razão não haveria para que também o Espírito não o fosse. Está colocado entre o Espírito e a matéria; é fluido, como a matéria, e susceptível, pelas suas inumeráveis combinações com esta e sob a acção do Espírito, de produzir a infinita variedade das coisas de que apenas conheceis uma parte mínima. Esse fluido universal, ou primitivo, ou elementar, sendo o agente de que o Espírito se utiliza, é o princípio sem o qual a matéria estaria em perpétuo estado de divisão e nunca adquiriria as qualidades que a gravidade lhe dá."

Luís de Almeida é Dirigente do Centro Espírita Caridade por Amor, da cidade do Porto, com pagina na Internet http://www.terravista.pt/PortoSanto/1391
Email: electronico ceca@sapo.pt

Bibliografia:
(1) Dyson, Freeman em INFINITO EM TODAS AS DIRECÇÕES - Edições Gradiva - 1990 - Portugal.
(2) Greene, Brian em O UNIVERSO ELEGANTE - Edições Gradiva - 2000 - Portugal.
(3) Hawking, Stephen em BREVE HISTÓRIA DO TEMPO (Edição actualizada e aumentada, comemorativa do 1º Aniversário) - Edições Gradiva - 2000 - Portugal.
(4) Hawking, Stephen em O FIM DA FÍSICA - Edições Gradiva - 1994 - Portugal.
(5) Homepage, CERN - ORGANISATION EUROPEENNE POUR LA RECHERCHE NUCLEAIRE -http://www.cern.ch/
(6) Homepage, ESA - EUROPEAN SPACE AGENCY - http://www.esa.int/
(7) Homepage, FERMILAB - FERMI NATIONAL ACCELERATOR LABORATORY - http://www.fnal.gov/
(8) Homepage, NASA - NATIONAL AERONAUTICS & SPACE ADMINISTRATION -http://www.nasa.gov/
(9) Kardec, Allan em O LIVRO DOS ESPÍRITOS - Edições FEB 76ª edição
(10) Kardec, Allan em A GÉNESE - Edições FEB 36ª edição.
(11) Luiz, André em EVOLUÇÃO EM DOIS MUNDOS - Edições FEB 12ª edição
(12) Reeves, Hubert em O PRIMEIRO SEGUNDO - Edições Gradiva - 1996 - Portugal.
(13) Sagan, Carl em UM MUNDO INFESTADO DE DEMÓNIOS - Edições Gradiva - 1997 - Portugal.

(Publicado no Boletim GEAE Número 430 )

02 - PARTÍCULA

Física Quântica e Espiritismo II: Comentando Alguns Paradoxos
Alexandre Fontes da Fonseca

Os fenômenos ao nível quântico apresentam características completamente diferentes das que observamos no nosso cotidiano. No entanto, é prematuro crer que eles sejam causados por agentes de ordem divinos ou espirituais.

Na matéria anterior[¹], apresentamos um alerta a respeito de algumas afirmativas envolvendo idéias da Física Quântica e idéias espíritas ou espiritualistas. Pretendemos aqui comentar por que os paradoxos oriundos dos fenômenos quânticos geram a idéia de que Deus ou algo espiritual sejam a causa ou a origem de tais fenômenos. Pretendemos, também, discutir a respeito de uma proposta espiritualista feita pelo professor de Física Quântica, Prof. Dr. Amit Goswami, em seu livro “O Universo Auto-Consciente”[²], para solucionar esses paradoxos. O Prof. Goswami foi um dos convidados internacionais no IV Congresso Nacional da Associação Médico Espírita do Brasil ocorrido em São Paulo, entre os dias 19 e 20 de junho de 2003.

Um dos fenômenos de natureza quântica que desperta exclamação nas pessoas leigas em geral é o chamado Salto Quântico, onde uma partícula “desaparece” da posição (ou estado) em que está e “aparece” em outra posição (ou estado) sem viajar através das posições (ou estados) intermediários entre o ponto (estado) inicial e final. Esse fenômeno sugere o pensamento de que a partícula se desmaterializa na posição inicial e se materializa, em seguida, na posição final. Assim, surge a idéia de se comparar esse fenômeno com o que a Doutrina Espírita descreve como sendo o efeito físico de materialização de objetos. O erro ocorre, primeiramente, porque partículas isoladas não são comparáveis a objetos macroscópicos. Pensar que “a partícula é desmaterializada aqui e materializada ali” é uma forma “clássica” de se pensar, isto é, é uma forma de pensar de acordo com o nosso costume de analisar os movimentos dos objetos macroscópicos. Não existe suficiente informação para concluir se o fenômeno de materialização ou desmaterialização de objetos macroscópicos ocorre da mesma forma como descrito com um salto quântico. Vale lembrar que os mecanismos do salto quântico são ainda uma incógnita para a Ciência.

Outra característica interessante é a chamada dualidade onda-partícula onde um objeto quântico, apresenta características ora de partícula, ora de onda, dependendo de como “olhamos” para ela, isto é, de como o experimento é feito para detectá-la. O aspecto que chama a atenção é o caráter subjetivo do resultado do experimento: ele depende da nossa escolha. Voltaremos a esse ponto adiante.

Existe um postulado da Mecânica Quântica chamado colapso da função de onda. Por função de onda, entende-se uma função matemática associada às propriedades físicas de uma dada partícula ou sistema formado por um conjunto delas. Segundo a Mecância Quântica, o estado de uma partícula, antes de se fazer uma medida, é representado por uma superposição de todas as situações possíveis. Apenas após a medição é que algum dentre os possíveis valores de uma dada grandeza física se manifesta. É dito, então, que a função de onda colapsou para o estado representado pelo valor da grandeza medida. A partir daí, dependendo da propriedade física, se não houverem interferências externas, a partícula se caracterizará por possuir o mesmo valor que foi medido para a tal propriedade. Aqui, como no caso da dualidade onda-partícula, o observador tem um papel decisivo na caracterização das propriedades das partículas.

Um outro fenômeno que foi constatado experimentalmente é o chamado fenômeno de não-localidade. Num arranjo experimental conhecido como “experiência de Einstein-Podolsky-Rosen” verificou-se ser possível o envio de uma informação de modo instantâneo de um ponto a outro do espaço. O salto quântico e o colapso da função de onda seriam, também, exemplos de fenômenos não-locais.

Não é preciso citar outros exemplos para percebermos que esses fenômenos que acontecem com as partículas da matéria são completamente diferentes daquilo que vemos ao nível macroscópico. Esse caráter estranho e misterioso que tais fenômenos apresentam têm levado alguns irmãos nossos do movimento espírita a formularem extrapolações de ordem espiritualista para explicá-los. Apesar da intenção nobre de verificar o acordo entre o Espiritismo e os avanços da Ciência, tais estudos precisam ser feitos com um rigor ainda maior do que aquele que caracteriza um trabalho usual de pesquisa científica, pois a responsabilidade de divulgar uma idéia espírita ligada à Ciência é muito grande. Imagine o leitor o que pensará um cientista ao ler alguma interpretação errada de algum conceito científico. Poderemos afastar o seu interesse no Espiritismo por causa de uma idéia ou colocação errada.

Desejamos comentar algo a respeito do trabalho do Prof. Dr. Amit Goswami que propõe a chamada Filosofia Idealista como solução para os paradoxos que apresentamos anteriormente. Segundo Goswami[²] uma solução seria postular-se a existência de uma consciência maior ou consciência cósmica que seria onipresente (para resolver o problema da não-localidade) e estaria ligada a cada ser humano (para resolver o problema do colapso da função de onda).

Esta proposta é interessante do ponto de vista espiritualista e, ao nosso ver, se constitui na primeira proposta espiritualista mais séria envolvendo questões de ordem científica. Note que utilizamos a palavra espiritualista e não espírita. A razão para isso é que, em nossa análise, apesar da proposta do Prof. Goswami introduzir a existência de uma consciência que poderia ser considerada, em princípio, como o Criador, ela não resolve o problema do Espírito. Segundo a sua proposta, a nossa consciência individual não existiria de forma independente do corpo físico. Isso está em franco desacordo com a Doutrina Espírita que afirma que somos a “individualização do princípio inteligen-te”[³] (questão 79 de O Livro dos Espíritos), e que o princípio inteligente independe da matéria.

Como o Prof. Goswami foi um convidado especial no MEDINESP 2003, é preciso reafirmar o alerta que fizemos na matéria anterior[¹] de modo a orientar o leitor a receber as suas idéias e opiniões com precaução. Faço minhas as palavras do espírito de Erasto (Revista Espírita [4]): é preferível “rejeitar 10 verdades do que aceitar uma só mentira”(grifos nossos).

Aproveitamos, ainda, esta oportunidade para convidar o leitor amigo ao exercício da ponderação quando ler ou ouvir dizer, mesmo dentro do movimento espírita, que disciplinas científicas como a Física, a Química ou a Biologia estão provando as idéias espíritas. Devemos ter cuidado com o material divulgado que leva o adjetivo de espírita. Mesmo as pesquisas mais sérias, como é o caso da proposta do Prof. Goswami, não podem ser tomadas como verdades resolvidas. Seria interessante consultar vários profissionais da área de Física, Química ou Biologia antes de se dar crédito a essa ou aquela proposta ou teoria. Seria de grande importância que os autores e escritores que divulgam trabalhos espíritas nesses campos que publiquem a explicação completa dos mecanismos de suas propostas. Isso nos ajuda a fazer uma análise crítica de cada idéia. Uma afirmativa não tem valor científico só porque está ligada a um tema científico. Mesmo autores que são profissionais em Ciência devem ser questionados já que isso não é garantia de que suas idéias são verdadeiras.

Ainda sobre os paradoxos da Mecânica Quântica, vale lembrar que para a comunidade científica eles ainda não foram completamente pesquisados e esclarecidos. A atitude mais prudente é esperar pelo desenvolvimento dessas pesquisas de modo a termos mais certezas e seguranças sobre o assunto.

Como físico, posso dizer que, apesar de não conhecermos ainda os seus mecanismos mais profundos, os fenômenos descobertos pela Física Moderna não estão em desacordo com os princípios básicos da Doutrina Espírita. E o que considero, particularmente, importantíssimo: eles (os fenômenos da Física Moderna) não sugerem que ela (a Doutrina Espírita) precise ser atualizada.

Referências
[¹] A. F. da Fonseca, Jornal Alavanca n. 485, p. 5, (2003) & Boletim Geae Número 465 de 4 de Novembro de 2003.

[²] A. Goswami, O Universo Autoconsciente, Editora Rosa dos Tempos, 4a. Edição (2001).

[³] A. Kardec, O Livro dos Espíritos, FEB, 76a. Edição (1995).

[4] A. Kardec, Revista Espírita 8, p.257, (1861).

Alexandre Fontes da Fonseca – afonseca@rutchem.rutgers.edu

Department of Chemistry, Rutgers, The State University of New Jersey, Piscataway, New Jersey, 08854-8087, USA

Instituto de Física da Universidade de São Paulo, São Paulo, S.P.

(Publicado no Boletim GEAE Número 465 )

03 - PARTÍCULA

A FÍSICA NO ESPIRITISMO
Érika de Carvalho Bastone
INTRODUÇÃO
Todos aqueles que passaram por uma casa espírita já ouviram falar dos três aspectos do espiritismo: científico, filosófico e moral. Neste trabalho vamos falar um pouco do espiritismo como ciência, em particular, na Física, uma ciência exata.
Para começar, vamos rever dois trechos do primeiro artigo da Revista Espírita, de janeiro de 1858, nos quais Kardec explicita o papel da ciência no espiritismo.
... a força que se revela no fenômeno das manifestações, qualquer que seja a sua causa, está na natureza... . O que é preciso fazer é observá-la, estudar-lhe todas as fases para, delas, deduzir as leis que a regem. Se for um erro, uma ilusão, o tempo lhe fará justiça; se for a verdade, a verdade é como o vapor: quanto mais se comprime, maior é a sua força de expansão.
...talvez nos contestem a qualificação de ciência que damos ao espiritismo. Ele não poderia, sem dúvida, em alguns casos, ter os caracteres de uma ciência exata, e está precisamente aí o erro daqueles que pretendem julgá-lo como uma análise química, como um problema matemático: já é muito que tenha o de uma ciência filosófica. Toda ciência deve estar baseada sobre fatos, mas só fatos não constituem a ciência; a ciência nasce da coordenação e da dedução lógica dos fatos; é o conjunto de leis que os regem. O espiritismo chegou ao estado de ciência? .... mas as observações são bastante numerosas para se poder, pelo menos, deduzir os princípios gerais, e é aí que começa a ciência.
Desde o advento do espiritismo a física tem sido empregada na explicação de fenômenos, sendo comum o uso de termos próprios desta ciência na literatura espírita. Mesmo no Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, termos como fluido elétrico ou fluido magnético, atuais para a época, aparecem nas respostas dadas pelos espíritos a Kardec.
Muitos cientistas, espíritas ou não, nos primeiros anos da história do espiritismo, dedicaram parte de seu tempo estudando os ditos fenômenos espíritas. Podemos citar, como exemplo, William Crookes, Alexandre Aksakof, Friedrich Zöllner, Camille Flammarion e Ernesto Bozzano, entre outros. O que chega até nós de seus trabalhos é apenas uma exposição, uma coletânea de observações, bem preparadas, de apresentações mediúnicas. Eles observavam, anotavam, comparavam e analisavam, sempre aplicando o método científico, mas pouco mais podiam fazer. Nesta época o átomo ainda era uma partícula fundamental (indivisível), Maxwell estava formulando suas equações que dariam origem à teoria eletromagnética e a mecânica newtoniana ainda reinava absoluta.
A física evoluiu. Vieram novas teorias, uma nova maneira de ver o mundo. Suas descobertas influenciaram todas as áreas do conhecimento humano.
O espiritismo, com um corpo doutrinário amplo, abrangendo todas as áreas do conhecimento, ficou, a meu ver, por fora desta evolução. Mesmo fundamentado como ciência, não conseguiu, ao longo dos anos, apesar dos esforços de alguns poucos cientistas, ser considerado, no meio acadêmico, como uma ciência. Não conseguiu nem mesmo despertar a curiosidade científica sobre alguns fenômenos
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físicos. Podemos culpar a comunidade acadêmica por tal desinteresse, mas a comunidade espírita também tem a sua parcela de culpa. Estamos sempre esperando que a ciência descubra indícios da vida espiritual, que um dia a ciência confirme o que nós, espíritas, já sabemos.
Na década de 50, André Luiz, sob o intermédio dos médiuns Francisco Cândido Xavier e Valdo Vieira, nos trouxe duas obras, Evolução em Dois Mundos, de 1958, e Mecanismos da Mediunidade, de 1959, em que conceitos de física são altamente explorados.
No presente trabalho faço uma análise destes dois volumes no que se refere à física. Comparo os conceitos e definições utilizadas pelo autor com a física vigente na época em que foram escritos. Para isto, apresento antes um breve resumo de como andava a física nestes tempos.
Por último, levanto a discussão a respeito da formação de uma comunidade científica espírita, interessada na elaboração de procedimentos factíveis, amparada no método científico, para o estudo da física sob a ótica espírita.
A FÍSICA NOS SÉCULOS XIX E XX
A partir do século XVII, com o sucesso da mecânica, surgiu uma tendência para uma mecanização geral da física. Assim, o calor foi associado ao movimento de um fluido calórico, a eletricidade à existência de um ou dois fluidos elétricos, a luz seria associada à teoria corpuscular de Newton e, na química, surgiu uma espécie de fluido, o flogístico.
A idéia do flogístico começou a entrar em declínio já no século XVIII, quando Priestley, em 1774, mostrou a existência do oxigênio, e com Lavoisier, em 1777, quando decompôs a água em oxigênio e hidrogênio, embora no início do século XIX ainda restassem alguns poucos adeptos.
Durante o século XIX, a física avançou a uma velocidade cada vez mais acelerada, embora a necessidade de um meio mecânico, o éter, com propriedades essencialmente diferentes das dos meios elásticos comuns, como repositório de energia no espaço, só tenha sido definitivamente abandonada na passagem do século XIX para o século XX.
Assuntos que eram antes matérias distintas começaram a convergir. Vamos analisar separadamente as seções – calor, eletricidade e luz – e vejamos como suas relações evoluíram no século XIX, dando origem à física atômica. Veremos também como se deu a passagem da física clássica para a física quântica1.
Como em nenhum momento André Luiz se refere à conceitos de física estatística e de relatividade, não achei necessário incluí-los neste resumo.
CALOR
No fim do século XVIII, quando defendia uma teoria vibratória para explicar o calor gerado quando se perfurava um canhão, o conde Rumford observou que o suprimento de calor parecia inexaurível, e se tornou claro que o calor não poderia, simplesmente, ser um fluido imponderável.
Depois da pesquisa de Rumford, Carnot fez uma análise permanente e penetrante de máquinas que produziam força mecânica com o calor. Declarou que o motor realiza trabalho mecânico devido à mudança de temperatura e não à perda de
1 A física clássica é baseada em processos contínuos, como, por exemplo, planetas girando em torno do sol ou ondas propagando-se na água. A nossa percepção do mundo é baseada em fenômenos que evoluem continuamente no espaço e no tempo. O mundo sub-microscópico, no entanto, é muito diferente: um mundo de processos descontínuos, um mundo que exibe comportamentos que contrariam frontalmente nosso amado bom senso. Somos protegidos dessa realidade pela nossa própria cegueira sensorial.
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calor. Morreu em 1832, aos 36 anos, sendo que seus textos póstumos permaneceram dispersos por cerca de meio século. Neles Carnot chegava a conclusão de que o calor nada mais é do que uma força eletromotriz, ou uma força que mudou de forma, começando a trabalhar nos fundamentos de uma teoria cinética do calor. Suas notas guardavam a maior parte do trabalho fundamental que viria a ser chamada a primeira lei da termodinâmica. Coube a Joule, Kelvin e Clausius, nas décadas de 40 e 50 (século XIX), desenvolver a moderna teoria do calor, a termodinâmica, tornando claro que o calor não era nenhum misterioso fluido sem peso, mas sim uma forma de energia, tal como acontecia com o trabalho mecânico. Também se tornou evidente que nenhuma forma de energia podia ser destruída, embora uma pudesse ser convertida em outra. Dessa constatação, chegou-se ao princípio da conservação de energia.
ELETRICIDADE
A eletricidade, tal como o calor, também era concebida como um fluido imponderável. A questão principal, em 1800, era saber se seria um fluido ou se seriam dois.
No entanto, nesse ponto, o quadro deveria mudar devido a pesquisas mais extensas e profundas, sendo que evidências posteriores foram obtidas graças a estudos sobre a passagem da eletricidade ao longo dos fios.
Ohm, entre 1821 e 1827, fez vários experimentos, e concluiu que a eletricidade se movia em um fio passando de partícula em partícula.
Ao mesmo tempo Oersted e Ampère conseguiram provar experimentalmente, em 1829, que, quando uma corrente elétrica passava ao longo de um fio, havia um campo magnético associado a ela. De 1821 a 1825 Ampère esclareceu os efeitos de correntes sobre imãs, assim como o efeito oposto, a ação de um imã sobre correntes elétricas.
A eletrodinâmica de Ampère, posteriormente mais desenvolvida por Weber, era uma teoria que imitava o modelo newtoniano, isto é, tudo deveria seguir um modelo desenvolvido por Newton (1687) na sua mecânica, baseando-se nas interações entre pontos materiais. Assim, sua teoria se revelou inadequada para explicar os fenômenos eletromagnéticos, sendo logo substituída pelo novo conceito de campo.
A partir de 1833, Faraday argumentou, e conseguiu provar experimentalmente que, se a eletricidade que corria por um fio produzia efeitos magnéticos, como Ampère havia mostrado, o inverso deveria ser verdadeiro – um efeito magnético deveria produzir uma corrente elétrica.
Seguiram-se outras experiências, verificando que uma espiral de fio induziria uma corrente elétrica em si mesma nos momentos em que uma corrente fosse ligada ou desligada, fenômeno da auto-indução. Essas experiências conduziram a toda espécie de resultados práticos, do desenvolvimento dos motores e geradores elétricos ao telégrafo elétrico e à eletricidade pública. Principalmente, levantaram um problema teórico, que não era novo, embora, à sua luz, tenha se tornado um sério desafio. Era a questão relativa ao modo como a eletricidade e o magnetismo podiam afetar um ao outro no espaço vazio, o problema da ação à distância.
Faraday propôs a útil e produtiva idéia de um campo. Imaginou que existiam linhas de força magnética e que estas ficavam tanto próximas quanto mais forte fosse o campo magnético. Em 1837 introduziu o conceito paralelo de linhas de força elétrica e, no ano seguinte, estava em condições de elaborar uma teoria da eletricidade.
Afirmou, ao discutir a eletricidade e as linhas de força, que o espaço devia estar cheio de tais linhas e que, talvez, a luz e o calor radiante fossem vibrações que viajavam ao longo delas. Mas essa idéia necessitava de uma análise matemática
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completa que lhe desse precisão, se pretendesse que ela se tornasse algo mais que uma afirmação interessante.
O homem que aceitou esse desafio foi o escocês Maxwell. Começou sua análise em 1855, tentando encontrar uma explicação matematicamente correta das linhas de força que circundavam um imã, isto é, o campo magnético de Faraday. Em 1861 estava em condições de colocar correntes elétricas, cargas elétricas e magnetismo em um esquema abrangente, pressupondo um éter para explicar como as correntes elétricas e seus variados campos magnéticos estavam sempre interagindo. Maxwell fez o relacionamento do campo com o éter, de forma natural, pois mostrou que as ondas eletromagnéticas2 se propagam com a velocidade da luz, e o éter era tido como o suporte das vibrações luminosas. Em 1864 publicou seu trabalho, com todos os detalhes matemáticos.
As implicações de seus resultados matemáticos eram impressionantes. As equações a que Maxwell tinha chegado para expressar o comportamento de uma corrente elétrica e de seu campo elétrico associado eram semelhantes, em todos os aspectos, às já determinadas para expressar o comportamento das ondas de luz (uma teoria ondulatória da luz já fora aceita por essa época). Assim, o que Maxwell mostrou foi que a luz devia ser uma onda eletromagnética de alguma espécie e, inversamente, que as ondas eletromagnéticas deviam ser passíveis de reflexão, refração e todos os efeitos que as ondas de luz sofrem. Seus resultados mostravam que deviam existir radiações de menores e maiores comprimentos de onda do que a luz. Em 1888, Hertz descobriu as ondas de rádio, que são ondas eletromagnéticas com comprimento de onda maiores que as da luz.
Mas na realidade o éter estava atrapalhando o desenvolvimento da teoria do campo. Pensava-se que o éter era necessário porque se achava que a energia só podia ser contida na matéria. Se havia uma energia no campo eletromagnético, então deveria haver uma certa matéria que contivesse essa energia.
Em 1887, Michelson e Morley inventaram um aparelho, o interferômetro, com o objetivo de se confirmar a existência do éter. Mas o resultado do experimento foi justamente o contrário, a não existência do mesmo.
Maxwell teve dificuldades em se desembaraçar totalmente dos modelos mecânicos, e uma concepção mais moderna do campo só foi atingida por Lorentz em 1892, depois da teoria dos elétrons, que admitia uma localização direta da energia eletromagnética no espaço, sem qualquer meio mecânico de suporte. Depois da teoria da relatividade restrita de Eisntein, em 1905, foi então definitivamente abandonada a idéia de um éter.
LUZ
A teoria de Newton sobre a luz, que a considerava como um fluxo de corpúsculos, manteve-se inalterada até o princípio do século XIX, quando uma nova concepção foi adotada por Thomas Young.
Young questionava, por exemplo, se a luz se devia a corpúsculos lançados de um corpo, porque eles viajavam sempre a mesma velocidade, quer viessem de uma centelha produzida em uma lareira, quer dos raios do sol? Ou, ainda, se a luz era uma fileira de corpúsculos, porque apenas alguns seriam refratados através de uma lente e outros refletidos? Para resolver estes problemas resultantes da teoria corpuscular, supôs que o espaço estava cheio de um éter luminoso e que a luz era um distúrbio de onda em tal éter, conseguindo explicar todos os efeitos usuais de reflexão e refração. Foi dele também o princípio da interferência da luz.
2 As equações de Maxwell para o eletromagnetismo podem ser combinadas para dar uma equação de onda para os vetores do campo elétrico e do campo magnético. Essas ondas eletromagnéticas são provocadas por cargas elétricas aceleradas. Foram produzidas pela primeira vez em laboratório por Hertz.
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O problema da difração, em que a luz se espalha após passar por uma minúscula abertura, era mais difícil de resolver. A teoria corpuscular considerava que o efeito da difração era causado pela atração gravitacional dos corpúsculos quando eles passavam muito perto de um corpo, mas não era uma explicação satisfatória. Em 1793 Young declarou que a difração era causada pela interferência das bordas de um corpo, com que ainda se concorda, mas sua explicação de como isso acontecia não foi convincente. E tinha mais um obstáculo para sua teoria, a dupla refração da luz que ocorria em certos cristais.
Em 1808 Laplace declarou que essa divisão da luz em dois raios podia ser explicada pela teoria corpuscular, supondo-se que os corpúsculos eram divididos em dois raios, cada qual com uma velocidade diferente.
A Académie des Sciences ofereceu um prêmio, em 1810, a quem explicasse o fenômeno da dupla refração, que foi ganho por Malus. No inicio de sua pesquisa surgiu um novo efeito, que ele chamou de polarização. Malus se julgou capaz de explicá-lo com a teoria corpuscular. Os partidários da teoria corpuscular se sentiram triunfantes.
A Academie ofereceu outro prêmio, essa vez para uma explicação da difração, que foi ganho por Fresnel em 1815, que apresentou resultados que conduziram à derrubada da teoria corpuscular.
Nos anos que se seguiram, novos experimentos foram realizados, agora com Young e Fresnel trabalhando juntos. A teoria corpuscular foi se tornando insustentável, embora a polarização continuasse a ser um problema. Em 1817 Young resolveu a questão, imaginando que as ondas de luz no éter eram realmente transversas, como as ondas do mar, e não longitudinais. A partir daí qualquer resultado experimental podia ser explicado.
Outra questão da luz que surgiu no século XIX foi a verdadeira natureza do seu espectro. Newton provara que a luz solar era composta de todas as cores. Em 1802, Wollaston, na esperança de separar as cores umas das outras, construiu um aparelho, o espectroscópio, mas ao contrário de suas expectativas nenhuma separação das cores foi conseguida. O que ele viu foi que o espectro era cortado por uma série de linhas pretas. Doze anos depois Fraunhofer, estudando o espectro solar, mapeou 576 linhas pretas e finas que conseguiu ver.
Paralelamente, as observações dos astrônomos Herschel e Talbot mostravam que, quando certas substancias químicas eram aquecidas e suas chamas examinadas em um espectroscópio, cada elemento apresentava suas próprias linhas características.
Em 1833 as experiências de Miller comprovaram que, se a luz solar fosse passada através de vários gases no laboratório, apareceriam linhas escuras adicionais, e a partir disso tornou-se geral a convicção de que as linhas de Fraunhofer podiam ser devidas a gases existentes no sol.
Finalmente, em 1858, Stewart demonstrou que, se um corpo emitia radiação em comprimentos de onda específicos, então também absorvia melhor a radiação nesse comprimento de onda. Esta descoberta foi feita simultaneamente por Kirchhoff. Estes dois cientistas conseguiram traçar um conjunto de três leis que regiam os vários tipos e espectros observados em laboratório. Em 1860 a questão estava clara, e a técnica de espectroscopia possibilitou detectar a presença até mesmo dos menores traços de uma substância.
Finalmente, em 1864, Maxwell mostrou que a luz devia ser uma onda eletromagnética.
Observação: O breve resumo apresentado acima, a respeito da física no século XIX, nos permite visualizar como estava a física na época em que Kardec fazia seus estudos sobre o espiritismo.
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FÍSICA ATÔMICA E A TEORIA QUÂNTICA
O próximo passo para um entendimento mais profundo da natureza dos próprios átomos resultou na prática de se fazer passar eletricidade através de gases rarefeitos, pois assim os gases brilhavam e podiam ser examinados pela espectroscopia. Observou-se que a espécie de descarga que ocorria dependia da qualidade do vácuo obtido no tubo. Em particular, estavam interessados em um brilho nas paredes de vidro do tubo, que parecia ser causado por alguma coisa procedente de um dos pinos de metal, ou eletrodos, da extremidade do tubo. William Crookes, de 1879 a 1880, tentou explicar esses raios catódicos afirmando que se deviam às poucas moléculas de gás ainda remanescentes no tubo, as quais se eletrizavam, sendo então repelidas pelo catodo (elétrodo negativo). Em 1895, contudo, uma descoberta acidental levou não só a rejeição da explicação de Crookes, como também ao início de uma completa revolução nas idéias sobre o átomo.
Röntgen estava usando um tubo ligado a uma bomba de vácuo quando notou que uma folha de papel coberta com uma fina camada de platinocianido, que estava sobre um banco, começou a brilhar; o brilho cessou tão logo o tubo foi desligado. Evidentemente, alguns raios vindos do tubo atingiam a folha. Não podiam ser partículas, pois os raios não eram defletidos por um campo magnético ou elétrico. Se fossem raios, devia haver algo curioso com eles, pois não eram refratados por uma lente. Röntgen chamou-os de “raios X”.
Thomson e seu aluno de doutorado, Rutherford, começaram a estudar os novos raios. Enquanto Rutherford investigava os raios X, Thomson voltou sua atenção para os próprios raios catódicos. Thomson mediu sua velocidade e declarou que eram 1600 vezes mais lentos que a luz, adotando assim o ponto de vista de que eram partículas e não radiação eletromagnética. Seria necessário conhecer a carga elétrica das partículas e sua massa, mas Thomson só realizou experimentos para definir a proporção entre estas duas quantidades, e não seus valores isolados. Seus resultados eram idênticos em todos os gases, levando-o a concluir que estava lidando com alguma coisa menor do que um átomo. Assim, ao findar o século (1897), a existência do elétron, como ficou conhecida esta partícula, estava estabelecida3.
Em 1896 Becquerel, trabalhando com os raios catódicos, descobriu que o urânio emitia raios que, como os raios X, faziam com que um gás conduzisse eletricidade. Marie e Pierre Curie decidiram descobrir se este era o único elemento com o mesmo comportamento. Em 1898 descobriram novos elementos que se comportavam assim, o polônio e o rádio, e observaram que esta radiação devia ser causada por alguma propriedade dos próprios átomos.
Rutherford, estudando a radioatividade, descobriu, em 1898, que eram emitidos dois tipos de raios, que ele chamou de alfa e beta. Em 1907 viu-se que os raios alfa eram, na verdade, núcleos do átomo de hélio e que os raios beta eram elétrons com alta velocidade. Além destas partículas emitidas, Villard descobriu que também era emitida radiação, cujos raios foram denominados raios gama.
Em 1910, Bragg confirmou a existência dos raios gama e observou que os raios X ora se comportavam como ondas eletromagnéticas, ora como partículas, e foi obrigado a concluir que pareciam ambas as coisas.
3 Em 1919 o núcleo do nitrogênio foi desintegrado, e os produtos dessa desintegração eram partículas carregadas positivamente, chamadas prótons. Em 1932 descobriu-se o nêutron, com carga elétrica nula, e o pósitron, partícula de massa igual a do elétron mas com carga positiva. Muitas outras partículas foram surgindo.
Hoje, as partículas consideradas fundamentais são os léptons (elétron, muon, taon e neutrinos), os quarks (são os constituintes de outras partículas como o prótron e o nêutron, sendo que seus nomes são extremamente criativos – estranho, charmoso, up, down, top e bottom) e as partículas responsáveis pelas interações: eletromagnética (fóton), forte (glúon), fraca (W e Z) e gravitacional (supõe-se a existência do gráviton).
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Rutherford, em 1911, propôs um modelo atômico em que cada átomo teria um núcleo central, com carga positiva e a maior parte de massa do átomo. Os elétrons, com carga negativa, estavam ao redor do núcleo.
Um novo modelo atômico foi proposto por Bohr, em 1913, em substituição ao modelo de Rutherford, combinando elementos de física clássica com a natureza intrinsecamente descontínua do mundo quântico. Consistia em um núcleo com carga positiva, em torno do qual orbitavam elétrons, mas apenas em órbitas específicas, tal como os planetas ao redor do sol. Quando um elétron recebe energia, ele salta para uma órbita de maior raio. Ao voltar para sua órbita de origem, o elétron emite radiação eletromagnética. O comprimento de onda da radiação emitida depende do número de órbitas saltadas e da proximidade das órbitas em relação ao núcleo. Assim, o comprimento de onda pode abranger todo o espectro da radiação eletromagnética, desde os raios gama e X, na extremidade dos raios de comprimento de onda muito pequenos, passando pelo espectro visível, até os raios infravermelhos e as ondas de rádio, na extremidade dos comprimentos de onda muito longos.
O modelo atômico de Bohr baseou-se nos trabalhos de Planck (1900) e Einstein (1905). Planck, estudando a radiação do corpo negro (radiação emitida por um pequeno orifício em uma caixa fechada), chegou à conclusão de que a radiação não se dava de uma forma contínua, mas em pacotes de energia (quanta de energia). Sua teoria foi confirmada por Einstein, ao analisar o efeito fotoelétrico (emissão de elétrons quando um feixe de luz atinge uma placa de metal). Einstein sugeriu que a luz de uma determinada freqüência ocorria em múltiplo de pequenos pacotes, cada um com energia proporcional à freqüência, estendendo o tratamento atomístico da matéria à própria luz. Esses “átomos de luz” foram chamados de fótons. Estava evidente que a luz, e toda radiação eletromagnética deviam ser consideradas ao mesmo tempo como ondas e partículas.
As previsões de Bohr eram extremamente eficientes quando comparadas com experimentos, principalmente com o hidrogênio, primeiro elemento da tabela periódica. Mas tinha suas limitações. Não conseguia explicar o comportamento do próximo átomo na tabela, o hélio. O que sobreviveu da idéia original de Bohr foi seu componente mais revolucionário, a quantização das órbitas eletrônicas. Todo o resto, os componentes clássicos de seu modelo, como a idealização do elétron e do núcleo como pequenas bolas de bilhar em um sistema solar em miniatura, teve de ser abandonado.
Uma partícula é um objeto pequeno, bem localizado no espaço, enquanto uma onda é algo que se dispersa pelo espaço. Essa é a dualidade onda-partícula da luz; a luz pode se comportar como onda ou como partícula, dependendo da natureza do experimento. Se o experimento testar suas propriedades ondulatórias, a luz se manifestará como onda; e se o experimento testar suas propriedades de partícula, a luz se comportara como partícula. A luz não é onda ou partícula, mas, de certa forma, ambas. Tudo depende de como nós resolvemos investigar suas propriedades.
O observador não tem um papel passivo na descrição dos fenômenos naturais, e não podemos mais separar o observador do observado.
Em 1924, Louis de Broglie sugeriu que a dualidade onda-partícula não era uma peculiaridade da luz, mas sim de toda a matéria. Elétrons e prótons também eram tanto onda quanto matéria, dependendo de como decidimos testar suas propriedades.
No intervalo de dois anos, uma teoria quântica completamente nova foi proposta, a chamada mecânica quântica. Em 1925, Heisenberg apresentou sua mecânica matricial, que não incluía partículas ou órbitas, apenas números descrevendo transições de elétrons em átomos. Representava um modo completamente novo de descrever fenômenos físicos, uma liberação das limitações impostas por imagens inspiradas pelo mundo clássico.
Em 1926, um método aparentemente diferente de se estudar o comportamento dos átomos apareceu, a chamada mecânica ondulatória, proposta por Schrödinger, que provou ser compatível com a mecânica de Heisenberg.
A solução da equação proposta por Schrödinger em sua mecânica ondulatória é conhecida como função de onda. Inicialmente, ele pensou que ela era uma expressão matemática que descrevia a onda associada ao próprio elétron. Isso estava de acordo com as noções clássicas de como as ondas evoluem no tempo; se conhecermos sua posição e velocidade iniciais, podemos usar suas equações de movimento para prever seu comportamento futuro. No entanto, rapidamente ficou claro que essa interpretação da função de onda não podia estar correta. Em 1927 Heisenberg havia mostrado que a física quântica obedece a um principio fundamental que expõe claramente as diferenças entre o mundo clássico e o mundo quântico. O princípio da incerteza diz que alguns pares de variáveis que constantemente afetam uma à outra, tais como tempo e energia ou posição e velocidade, não podem ser determinadas com precisão absoluta. Quanto maior a precisão em uma, menor a precisão na outra. Trata-se de um princípio com as mais profundas implicações filosóficas.
No mundo do muito pequeno, até o conceito de trajetória se torna vago. Se a função de onda não descrevia o movimento do elétron, o que estava descrevendo? Max Born deu a resposta. A mecânica ondulatória de Schrödinger não descreve a evolução do elétron, mas a probabilidade de o elétron ser encontrado numa certa posição. O mesmo experimento, repetido várias vezes sob as mesmas condições, dará resultados diferentes. O que podemos prever com a mecânica quântica é a probabilidade de obter um determinado resultado.
A interpretação de Born demoliu por completo a noção clássica de uma descrição da natureza. A certeza é substituída pela incerteza, o determinismo, pela probabilidade, os processos contínuos, pelo salto quântico.