PECADO ORIGINAL
BIBLIOGRAFIA
01- A reencarnação na Biblia - pág. 27 02 - Curso dinâmico de Espiritismo - pág. 70, 73
03 - Expiação - toda a obra 04 - Espiritismo para crianças - pág. 31
05 - Nas pegadas do Mestre - pág. 35, 37 06 - O batismo - pág. 27
07 - O céu e o inferno - 1ª parte, cap. vi, 25 08 - O Evangelho S.o Espiritismo - 381, cap. xxviii,19
09 - O Livro dos Espíritos - q. 122, 1019 10 - Resumo da Doutrina Espírita - pág. 91
11 - Revista Espírita 1867 - pág. 356 12 - Revista Espírita 1868 - pág. 330

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PECADO ORIGINAL – COMPILAÇÃO

09 - O Livro dos Espíritos - Allan Kardec - questões: 122, 1019

Perg. 122 - Como podem os Espíritos, em sua origem quando ainda não têm a consciência de si mesmo, ter a liberdade de escolher entre o bem e o mal? Há neles um princípio, uma tendência qualquer que os levemais para um lado que para outro?
- O livre-arbítrio se desenvolve à medida que o Espírito adquire consciência de si mesmo. Não haveria liberdade, se a escolha fosse provocada por uma causa estranha à vontade do Espírito. A causa não está nele, mas no exterior, nas influências a que ele cede em virtude de sua espontânea vontade. Esta é a grande figura da queda do homem e do pecado original: uns cederam à tentação e outros resistiram.

Perg. 1019 - O reino do bem poderá um dia realizar-se na Terra?
- O bem reinará na Terra quando, entre os Espíritos que a vêm habitar, os bons superarem os maus. Então eles farão reinar o amor e a justiça, que são a fonte do bem e da felicidade. É pelo progresso moral e pela prática das leis de Deus que o homem atrairá para para a Terra os bons Espíritos e afastará os maus. Mas os maus só a deixarão quando o homem tiver banido daqui o orgulho e o egoísmo.

A transformação da Humanidade foi predita e chegais a esse momento em que todos os homens progressistas estão se apressando. Ela se realizará pela encarnação de Espíritos melhores que constituirão sobre a Terra uma nova geração. Então os Espíritos dos maus, que a morte ceifa diariamente, e todos os que tentem deter a marcha das coisas serão excluídos, porque estariam deslocados entre os homens de bem, cuja felicidade perturbariam. Irão para mundos novos, menos adiantados, cumprir missões penosas, nas quais poderão trabalhar pelo seu próprio adiantamento ao mesmo tempo que trabalharão para o adiantamento de seus irmãos ainda mais atrasados. Não vêdes na sua exclusão da Terra transformada a sublime figura do Paraíso Perdido? E no homem que veio à Terra em condições semelhantes, trazendo em si os germens de suas paixões e os traços de sua inferioridade primitiva, a figura não menos sublime do pecado original? Considerado dessa maneira, o pecado original se refere à natureza ainda imperfeita do homem que só é responsável por si mesmo e por suas próprias faltas, e não pelas de seus pais.

Vós todos, homens de fé e de boa vontade, trabalhai portanto com zelo e coragem na grande obra da regeneração, porque colhereis centuplicado o grão que tiverdes semeado. Infelizes dos que fecham o olhos à luz, pois preparam para si mesmos longos séculos de trevas e de decepções. Infelizes dos que colocam todas as suas alegrias nos bens deste mundo, pois sofrerão mais privações do que os gozos que destrutaram. Infelizes sobretudo os egoístas, porque não encontrarão ninguém para os ajudar a carregar o fardo das suas misérias. São Luís

11 - Revista Espírita 1867 - Allan Kardec - pág. 356

(..) "Se, ao contrário, abdicando a soberaneidade que é chamado a exercer sobre o corpo, cede ao arrastamento dos sentidos, se aceita suas condições de prazeres terrestres como único objetivo de suas aspirações, falseia a razão de ser de sua existência, longe de realizar os seus destinos, fica estacionário; ligado esta vida terrestre que, entretanto, não deveria ter sido ele senão uma condição acessória, desde que não poderia ser seu fim, o Espírito, de chefe que era, torna-se subordinado; como insensato, aceita a felicidade terrena que os sentidos lhe faz experimentar e que lhe propõem satifazer, assim nele abafado a intuição da felicidade verdadeira que lhe está reservada. Eis a sua primeira punição."

No capítulo VII, do inferno, pág. 99, encontramos esta notável apreciação da morte e dos flagelos destruidores: "Seria enumerando os flagelos que passeiam sobre a terra o terror e o espanto, o sofrimento e a morte, que acreditariam poder dar a prova das manifestações da cólera divina? "Sabei, pois, ó temerários evocadores das vinganças celestes, que os cataclismos que assinalais, longe de ter o caráter exclusivo de um castigo à humanidade, são, ao contrário, um ato da misericórdia divina, que fecha a esta o abismo onde a precipitavam suas desordens, e lhe abre as vias do progresso, que a devem levar ao caminho que deve seguir para assegurar a sua regeneração.

"Que são esses cataclismos, senão uma nova fase na existência do homem, uma era feliz, marcando para os povos e a humanidade inteira o ponto providencial de seu adiantamento? "Sabei, pois, que a morte não é um mal. Farol da existência do Espírito, ela é sempre, quando vem de Deus, o sinal de sua misericórdia e de sua assistência benevolente. A morte não é senão o fim do corpo, o termo de uma incarnação, e nas mãos de Deus, é o aniquilamento de um meio corruptor e vicioso, a interrupção de uma corrente funesta, à qual, num momento solene, a Providência arranca o homem e os povos.

"A morte não é senão um tempo de parada na prova terrestre. Longe de prejudicar o homem, ou antes, ao Espírito, ela o chama a se recolher no mundo invisível, quer para reconhecer suas faltas e as lamentar, quer para se esclarecer e se preparar, por firmes e salutares resoluções, para retomar a prova da vida terrestre. "A morte não gela o homem de pavor porque, muito identificado à terra, não tem fé em seu augusto destino, do qual a terra não é senão a dolorosa oficina onde se deve realizar a sua depuração.

"Cessai, pois, de crer que a morte seja um instrumento de cólera e de vingança nas mãos de Deus; sabei, ao contrário, que ela é ao mesmo tempo a expressão de sua misericórdia e de sua justiça, seja detendo o mau na via da iniquidade, quer abreviando o tempo de provas ou de exílio do justo sobre a terra. "E vós, ministros do Cristo, que do alto da cátedra de verdade proclamais a cólera e a vingança de Deus, e pareceis, por vossas eloquentes descrições da fantástica fornalha, atiçar as sua chamas inextinguíveis para devorar o infeliz pecador; vós qua de vossos lábios tão autorizados, deixais cair esta aterrador epígrafe: "Jamais! — Sempre!" então esquecestes as instruções de vosso divino Mestre?"

Citaremos, ainda, as passagens seguintes, extraídas do capítulo sobre o pecado original. "Em vez de criar a alma perfeita, quis Deus que não fôsse senão por longos e constantes esforços que ela chega a se desprender deste estado de inferioridade nativa, e gravitar para se augustos destinos.

"Para chegar a esses fins, tem ela, pois, que romper os laços que a prendem à matéria, resistir ao arrastamento dos sentido com a alternativa de sua supremacia sobre o corpo, ou da obsessão
exercida sobre ela pelos instintos animais. "São destes laços terrestres que lhe importa libertar-se, que nela constituem as condições mesmas de sua inferioridade. Eles não são outros senão o pretendido pecado original, o alvéolo que cobre a sua essência divina.

O pecado original constitui assim, o ascendente primitivo que os instintos animais de ter exercido, de início, sobre as aspirações da alma. Tal é o estado do homem que a Gênese quis representar sob a figura simples da árvore da ciência do bem e do mal. A intervenção da serpente tentadora não é outra coisa senão os desejos da carne e a solicitação dos sentidos; o cristianismo consagrou esta alegoria como um fato real, ligando-se à existência do primeiro ano. E é sobre este fato que baseou o dogma da redenção."

"Colocado neste ponto de vista, é preciso reconhecê-lo, o pecado original deve ter sido, e com efeito foi, o de toda a posterioridade do primeiro homem, e assim o será durante uma longa série de séculos, até a libertação completa do Espírito abraços da matéria, libertação que, sem dúvida, tende a realizar, mas que ainda não se fez em nossos dias. "Numa palavra, o pecado original constitui as condições da natureza humana levando os primeiros elementos de existência, com todos os vícios que ela gerou.

"O pecado original é o egoísmo, é o orgulho que presidem a todos os atos da vida do homem; "É o demônio da inveja e do ciúme, que roem o seu coração; "É a ambição, que não pode saciar a avidez de lucro; "É o amor e a sede de ouro, este elemento indispensável para dar satisfação a todas as exigências do luxo, do conforto, do bem-estar, que persegue o século com tanto ardor.

"Eis o pecado original proclamado pela Gênese, e que o homem sempre ocultou em si; ele não será apagado senão no dia em que, compenetrado de seus altos destinos, o homem abandonar, conforme a lição do bom La Fontaine, a sombra pela presa; no dia em que renunciar à miragem da felicidade terrena, para voltar todas as suas aspirações para a felicidade real, que lhe está reservada.

"Que o homem aprenda, pois, a se tornar digno de seu título de chefe entre todos os seres criados, e da essência etérea emanada do próprio seio de seu criador e de que está cheio. Que seja forte para lutar contra as tendências de seu envoltório terreno, cujos instintos são estranhos às suas aspirações divinas e não poderiam constituir sua personalidade espiritual; que seu objetivo único seja sempre gravitar para a perfeição de seu ultimo fim, e o pecado original não existirá mais para ele."

O sr. Bonnamy já é conhecido de nossos leitores, que puderam apreciar a firmeza, a sua independência de caráter e a elevação de seus sentimentos, pela notável carta que publicamos na Remita de março de 1866, no artigo intitulado: O Espiritismo e a Magistratura. Ele vem hoje, por um trabalho de alto alcance, prestar resolutamente o apoio e a autoridade de seu nome a uma causa que, na sua consciência, considera como a da humanidade.

Entre os adeptos, já numerosos, que o Espiritismo conta na magistratura, o sr. Jaubert, vice-presidente do tribunal de Carcassone, e o sr. Bonnamy, juiz de instrução em Villeneuvesur Lot, são os primeiros que abertamente arvoraram a bandeira, o fizeram, não no dia seguinte à vitória, mas no momento luta, quando a doutrina está exposta aos ataques de seus adversários e quando seus aderentes ainda estão sob o golpe da perseguição. Os Espíritas atuais e os do futuro saberão apreciá-lo e não o esquecerão. Quando uma doutrina recebe os sufrágios de homens tão justamente considerados, é a melhor resposta as diatribes de que ela pode ser objeto.

A obra do sr. Bonnamy marcará nos anais do Espiritismo, não só como primeira em data no seu gênero, mas sobretudo por sua importância filosófica. O autor aí examina a doutrina em si-mesma, discute os seus princípios, dos quais tira a Quintessência, fazendo abstração completa de toda personalidade, o que exclui qualquer pensamento de camarilha. (...)

12 - Revista Espírita 1868 - Allan Kardec - pág. 201, 330

(..) A criatura é espiritualista desde que não é materialista, isto é, desde que admite um princípio espiritual distinto da matéria, seja qual for a idéia que faça de sua natureza e de seu destino. Os católicos, os gregos, os protestantes, os judeus, os muçulmanos, os deístas são espiritualistas, mau grado as diferenças essenciais de dogmas que os dividem.

Os Espíritas fazem da alma uma idéia mais clara e mais precisa; não é um ser vago e abstrato, mas um ser definido, que reveste uma forma concreta, limitada, circunscrita. Independentemente da inteligência, que é a sua essência, ela tem atributos e efeitos especiais, que constituem os princípios fundamentais de sua doutrina.

Admitem: o corpo fluídico ou perispírito; o progresso indefinido da alma; a reencarnação ou pluralidade de existências, como necessidade do progresso; a pluralidade dos mundos habitados; a presença no meio de nós, das almas ou Espíritos que viveram na Terra e a continuação de sua solicitude pelos vivos; a perpetuidade das afeições; a solidariedade universal, que liga os vivos e os mortos; os Espíritos de todos os mundos e, em consequência, a eficácia da prece; a possibilidade de comunicação com os Espíritos dos que não vivem mais; no homem, a visão espiritual ou psíquica, que é um efeito da alma.

Repelem o dogma das penas eternas, irremissíveis, como inconciliável com a justiça de Deus; mas admitem que a alma, depois da morte, sofra e suporte as consequências de todo o mal que praticou durante a vida, de todo o bem que poderia ter feito e não fez. Os sofrimentos são a conseqüência natural de seus atos; duram enquanto durar a perversidade ou a inferioridade moral do Espírito; diminuem à medida que ele se melhora e cessam pela reparação do mal. Esta reparação se dá nas existências corporais sucessivas

Tendo sempre a sua liberdade de ação, o Espírito é, assim o próprio artífice de sua felicidade e de sua desgraça, neste mundo e no outro. O homem não é levado nem ao bem nem ao mal; realiza um e outro por sua vontade e se aperfeiçoa pela experiência. Em consequência deste princípio, os Espíritas nem admitem os demônios, predestinados ao mal, nem a criação especial de anjos, predestinados à felicidade infinita, sem terem tido o trabalho de a merecer. Os demônios são Espíritos humanos ainda imperfeitos, mas que melhorarão com o tempo; os anjos, Espíritos chegados à perfeição, depois de haverem passado, como os outros, por todos os graus da inferioridade.

O Espiritismo não admite para cada um senão a responsabilidade de seus próprios atos; segundo ele, o pecado original é pessoal; consiste nas imperfeições que cada indivíduo trás ao nascer, porque ainda não se despojou delas em suas existências precedentes, e cujas consequências manifestam-se naturalmente na existência atual.


Também não admite, como suprema recompensa final, a inútil e beata contemplação dos eleitos durante a eternidade; mas, ao contrário, uma incessante atividade de alto a baixo da escala dos seres, em que cada um tem atribuições proporcionais no seu grau de adiantamento.

Tal é, em resumo muito certo, a base das crenças espíritas. A gente é Espírita desde o momento em que se entra nesta ordem de idéias, ainda mesmo quando não se admitissem todos os pontos da doutrina na sua integridade ou em todas as suas consequências. Por não ser Espírita completo não se é menos Espírita, o que faz que por vezes se o seja sem saber, algumas vezes sem o querer confessar e que, entre os seguidores de diferentes religiões, muitos sejam Espíritas de fato, se não se tem o nome.

A crença comum para os espiritualistas é acreditar num Deus criador, e admitir que, após a morte, a alma continue a existir, sob a forma de puro Espírito, completamente destacado de toda a matéria e, também, que ela poderá com ou sem a ressurreição de seu corpo material, gozar de uma existência eterna, feliz ou infeliz.

Os materialistas, ao contrário, crêem que a força é inseparável da matéria e não pode existir sem ela; assim, Deus não é para eles senão uma hipótese gratuita, a menos que seja a própria matéria; os materialistas negam com toda a sua força a concepção de uma alma essencialmente espiritual e da de uma personalidade sobrevivente à morte. (..)

DO PECADO ORIGINAL SEGUNDO O JUDAÍSMO

Deve ser interessante, para os que o ignoram, conhecer a doutrina dos Judeus relativa ao pecado original. Tiramos a explicação seguinte do jornal israelita La Fnmille de Jncob que se publica em Avignon, sob a direção do grande rabinc Benjarrún Massé; número de julho de 1868.

"O dogma do pecado original está longe de se achar nc número dos princípios do Judaísmo. A lenda profunda que relata o Talmud (Nida XXXI, 2) e que representa os anjos fazendo a alma humana, no momento em que vai se encarnar num corpo terrestre, prestar o juramento de se manter pura durante sua estada neste planeta, a fim retornar pura ao Criador, é uma poética afirmação de nossa inocência nativa e de nossa independência moral da falta de nossos primeiros pais. Essa afirmação, contida nos nossos livros tradicionais, é conforme ao verdadeiro espírito do Judaísmo.

"Para definir o dogma do pecado original, bastar-nos-à dizer que se toma ao pé da letra o relato da Gênese, cujo caráter lendário se desconhece, e que, partindo desse ponto de vista errado, aceitam-se cegamente todas as conseqüências daí decorrentes, sem se preocupar com a sua incompatibilidade com a natureza humana e com os atributos necessários e eternos que a razão confere à natureza divina.

"Escravos da letra, afirmam que a primeira mulher seduzida pela serpente, que comeu um fruto proibido Deus, que fez o seu esposo comê-lo, e que, por esse ato revolta aberta contra a vontade divina, o primeiro homem e a primeira mulher incorreram na maldição do céu, não para si, mas para os seus filhos, mas para a sua raça, para a humanidade inteira, para a humanidade cúmplice em qualquer distância no tempo em que se encontre dos culpados, cúmplice de seu crime, do qual é, por consequência, responsável em todos os seus membros presentes e futuros.

"Segundo essa doutrina, a queda e a condenação nossos primeiros pais foram uma queda e uma condenação para a sua posteridade. Daí, para o gênero humano, males inumeráveis, que teriam sido sem fim, sem a mediação de um Redentor, tão incompreensível quanto o crime e a condenação que o chamam. Assim como o pecado de um só foi cometido por todos, a expiação de um só será a expiação de todos. Perdida por um só, a humanidade será salva por um só. A redenção é a consequência inevitável do pecado original.

"Compreende-se que não discutamos essas premissas com suas consequências, que para nós não são mais aceitáveis, do ponto de vista dogmático, do que do ponto de vista moral. "Nossa razão e nossa consciência jamais se acomodarão a uma doutrina que apaga a personalidade humana e a justiça divina e que, para explicar as suas pretensões, nos faz viver todos juntos na alma como no corpo do primeiro homem, ensinando-nos que, por mais numerosos que sejamos no curso das idades, fazemos parte de Adão em espírito e em matéria, que tomamos parte em seu crime, e que devemos ter nossa parte na sua condenação.

"O sentimento profundo de nossa liberdade moral se recusa a essa assimilação fatal, que tiraria a nossa iniciativa, que nos acorrentaria, mau grado nosso, num pecado distante, misterioso, do qual não temos consciência, e que nos faria sofrer um castigo ineficaz, pois que, aos nossos olhos, não seria merecido.

"A idéia indefectível e universal, que temos da justiça do Criador, se recusa ainda muito mais energicamente a crer no comprometimento, com a falta de um só, dos seres livres criados sucessivamente por Deus na continuação dos séculos."Se Adão e Eva pecaram, só a eles pertence a responsabilidade de seu erro; só a eles a proscrição, a sua expiação, a sua redenção por meio de esforços pessoais para reconquistar a sua nobreza.

Mas nós, que vimos após eles, que, como eles, fomos objeto de um ato idêntico da parte do poder criador, e que devemos, a esse título, ter um preço igual ao de nosso primeiro pai aos olhos do nosso Criador, nascemos com a nossa pureza e a nossa inocência, de que somos os únicos donos, os únicos depositários, e cuja perda ou conservação não dependem absolutamente senão de nossa vontade e das determinações do nosso livre-arbítrio.

"Tal é, sobre esse ponto, a doutrina do Judaísmo, que nada poderia admitir que não fosse conforme à nossa consciência esclarecida pela razão."
B. M.

LEMBRETE:

1° - "O livre-arbítrio se desenvolve à medida que o Espírito adquire a consciência de si mesmo. Já não haveria liberdade, desde que a escolha fosse determinada por uma causa independente da vontade do Espírito. A causa não está nele, está fora dele, nas influências a que cede em virtude da sua livre vontade. É o que se contém na grande figura emblemática da queda do homem e do pecado original; uns cederam à tentação, outros resistiram. Allan Kardec

2° - O pecado original (..) não é o que faz objeto de ensino dogmático da igreja: significa a culpa inicial do Espírito, tomado, por isso, passível de expiação por encarnações sucessivas. Leopoldo Cirne

3° - (...) a culpa de que o homem tem a responsabilidade, é a de suas anteriores existências que lhe cumpre extinguir por seus méritos resignação e intrepidez nas provações. Léon Denis

4° - (...) A criança não nasce contaminada pelo pecado original, simplesmente porque não existe o pecado original. Na perspectiva espírita, não existe nem mesmo o pecado. A criança é um espírito reencarnado que representa um projeto esperançoso de renovação traçado por Deus. Nós não precisamos salvar a ninguém, todos estamos salvos, pois somos destinados à perfeição e teremos tantas oportunidades reencarnatórias, quantas forem necessárias, para atingirmos essa meta e, dependendo do esforço que estejamos empreendendo na direção adequada, poderemos atingí-la mais ou menos rapidamente,com mais ou menos sofrimento. A predisposição é para o desenvolvimento desse potencial positivo que trazemos, quando despertamos no mundo para mais uma experiência encarnatória. Dalva Silva Souza

Paraíso Perdido
De tempos em tempos, os Espíritos superiores trazem à Terra revelações divinas que, gradualmente, revelam ao homem aspectos da realidade espiritual. Em função do estágio evolutivo da Humanidade, toda revelação divina reveste-se necessariamente de um duplo aspecto: o aspecto divino propriamente dito, imaterial e eterno, e o aspecto humano, que interpreta o caráter divino, necessário para que a Humanidade possa recebê-la; foi o que aconteceu com o mito de Adão e Eva e o paraíso perdido, pois embora encerrando uma verdade, foi interpretado de acordo com a época.

A perda do paraíso entrou para a consciência da Humanidade e aí perdurou, porque ela encerra uma verdade: quando um mundo chega ao término de sua evolução, irá desaparecer para dar lugar a inúmeros outros que se destacam da Matéria Cósmica. Os habitantes que alcançaram seu progresso total, ascendem a mundos superiores; os que se atrasaram no seu aperfeiçoamento, irão para mundos novos, menos adiantados, cumprir missões penosas, nas quais poderão trabalhar pelo seu próprio adiantamento, ao mesmo tempo que trabalharão para o adiantamento de seus irmãos ainda mais atrasados (LÊ, 1019).

Assim, a expulsão de Adão e Eva do paraíso, segundo o relato bíblico, nada mais foi do que a queda de uma raça superior aos terráqueos, exilada para a Terra, mundo ainda de expiação. De acordo ainda com este mito, a origem de todo o mal que assola a Terra está no dogma do pecado original, herdado de Adão e Eva. Na Terceira Revelação que os Espíritos trouxeram à Humanidade, já há o esclarecimento de que o mal tem suas raízes na desobediência às leis divinas de cada criatura, em razão do livre-arbítrio.

Considerado dessa maneira, o pecado original se refere à natureza ainda imperfeita do homem que só é responsável por si mesmo e por suas próprias faltas, e não pelas faltas dos seus pais (LÊ, 1019). Convém lembrar que até mesmo na Bíblia há referências sobre a origem do mal, quando o profeta Ezequiel diz: "... nem o pai responde pelo filho, nem o filho pelo pai, senão cada um por suas próprias obras" (Ez 18:20).

Quando Jesus disse "Meu reino não é deste mundo "estava querendo dizer, em sentido figurado, que este existe só nos corações puros e desinteressados dos valores mundanos e que, portanto, poderá estar em todos os lugares onde haja o amor e a fraternidade. Mas, enquanto os homens não alcançarem a maturidade espiritual, as verdades eternas terão o véu humano a encobrir o seu verdadeiro significado.

Contudo, conceitos como céu, inferno, purgatório e paraíso perdido são concepções que já tiveram seu tempo e sua validade, e não mais satisfazem almas lúcidas, que se utilizam da Ciência, da Filosofia e da Moral para galgarem os degraus do saber e da virtude.

Assim, enquanto algumas religiões, ao revelarem a eternidade do mal, impõem o selo da inalterabilidade aos seus postulados, já a Doutrina Espírita proclama a progressividade dos ensinos divinos e levanta o véu que descerra a verdade sobre as vidas sucessivas. Vós todos, homens de fé e de boa vontade, trabalhai portanto com zelo e com coragem na grande obra da regeneração, porque colhereis centuplicado o grão que tiverdes semeado (LÊ, 1019). Bibliografia: LÊ, 1011 a 1019 - Grupo de Estudos

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