PECADO
BIBLIOGRAFIA
01- A reencarnação na Bíblia - pág. 71 02 - Boa Nova- pág. 87
03 - O alvorecer da espiritualidade - pág. 125. 199 04 - O exilado - pág. 45
05 - O Livro dos Espíritos - q.764, 918, 941 06 - O ser e a serenidade - pág. 10
07 - Os funerais da Santa Sé - pág. 110 08 - Renúncia - pág. 329
09 - Senzala - pág. 180 10 - Pão Nosso- pág. 255

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PECADO – COMPILAÇÃO

 

01- A reencarnação na Bíblia - Herminio C.Miranda - pág. 71

QUEM PECOU?
Vejamos, porém, de volta ao Novo Testamento, outros pontos em que a doutrina das vidas sucessivas, ainda que não explicitamente mencionada, é logicamente inferida e sem ela pouco ou nenhum sentido teria o texto.
Este, por exemplo, em João 9:1-14:
— Jesus, ao passar, viu um homem cego de nascença. Perguntaram-lhe seus discípulos: Mestre, quem pecou para que este homem nascesse cego, ele ou seus pais ? Respondeu Jesus: Nem ele pecou nem seus pais, mas isto se deu para que as obras de Deus nele sejam manifestas.
Mais uma vez observamos que a doutrina das vidas sucessivas era perfeitamente familiar aos discípulos, o que se evidencia na própria maneira de formular a pergunta "Foi ele quem pecou ou foram seus pais ?". Se não acreditassem numa responsabilidade preexistente, como iriam perguntar por que um cego de nascença estava sendo castigado ? Segundo o falso conceito de que para cada nascimento na carne Deus cria uma alma, como explicar que fosse punido aquele que, nascendo cego, não tivera a mínima oportunidade de pecar?

Havia outra opção: estaria o cego respondendo pelos pecados de seus pais ?
O entendimento da explicação dada pelo Cristo exige nítida compreensão do contexto em que foi formulada a pergunta. Vejamos o quadro. Ali estava um homem que nunca vira a luz do dia. Nascera cego e mendigava pelas ruas e praças de Jerusalém. Era uma figura popular, conhecida, pois se tratava de uma cidade relativamente pequena ante os padrões modernos — não mais de 100 mil habitantes, se tanto. Aliás, não é preciso imaginar ou fantasiar isso, pois o texto mesmo esclarece. "Não é este o que se assentava para mendigar?", perguntam alguns. "É ele mesmo", respondem outros. "Não é, informavam outros, mas é parecido com ele". O mendigo confirmou que era ele mesmo. A definição da sua identidade ainda ficou mais precisa quando ele se apresentou aos fariseus, indignados porque o Cristo havia curado o homem num sábado, coisa gravíssima perante a lei.

Mandaram chamar os pais do ex-cego, que assim falaram cautelosamente: "Sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego, mas como agora vê, não sabemos. Interrogai-o, já tem idade; ele mesmo falará por si". Foi o que fizeram os fariseus. Uma convicção pode ser aqui inferida, portanto, com toda tranquilidade: o mendigo cego era razoavelmente conhecido. Jerusalém não era uma metrópole de milhões de habitantes; muitos se conheciam desde a infância até à velhice. Era sabido que aquele infeliz levara a sua vida a tatear pelas sombras e a mendigar escassas moedas que lhe garantissem um mínimo de pão e uma túnica pobre. Não tivera, sequer, oportunidade de pecar tão gravemente contra a lei divina, pelo menos naquela existência áspera e trevosa. Mas, pecado certamente havia. Jesus é claro em mais de uma passagem ao identificar o sofrimento com a culpa, a punição com o pecado. Ao curar, por exemplo, o enfermo à beira da piscina que fica junto à Porta das Ovelhas, advertiu: "Olha, estás curado; não peques mais, para que não te suceda coisa pior".

Admitamos, porém, que no caso deste último não tenha ficado claramente estabelecido se ele pecou ou não naquela vida para merecer tão penosa provação. Poderia tê-lo feito, ainda que não seja comum resgatarmos numa vida os crimes cometidos naquela mesma vida. Mesmo assim, fica o conceito do erro ligado ao do sofrimento, o resgate como fatalidade ante o pecado cometido. Quanto ao cego de nascença, contudo, não há como sofismar: não era conhecido nenhum crime ou erro que justificasse a dolorosa punição da cegueira, pois já nascera cego, sem ter tido ocasião de pecar. Não era, portanto, ele — o cego daquela vida — o pecador. Muito menos seus pais, doutrina que Jesus repele enfaticamente.

Em suma, a questão se coloca dentro do seguinte esquema:
• O sofrimento decorre sempre do erro praticado. Não há sofrimento inocente, injusto, indevido.
• Aquele homem nascera cego e não tivera oportunidade de pecar naquela vida como cego.
• Ninguém responde pelos pecados alheios. O pecado que ele resgatava com a sua cegueira não era de seus pais, mesmo porque seria injusto inocentar pais criminosos através do sofrimento do filho tido por inocente.

Uma única opção é deixada livre e esta é a que Jesus ensina: manifestava-se no episódio daquela cegueira aparentemente inexplicável em termos humanos, o mecanismo inexorável das leis divinas. Aquele espírito cometera anteriormente àquela existência, numa vida anterior e não na presente, como cego, algum erro gravíssimo que a lei divina lhe cobrava agora, a fim de levá-lo ao entendimento de que as consequências do pecado se voltam implacavelmente sobre nós mesmos, como está dito alhures no Antigo e no Novo Testamento. E não nos libertamos dos nossos erros enquanto não estiver pago o último centavo, como ficou dito em Lucas 12:59.

Embora os textos sobreviventes tenham conservado apenas as sumárias observações de Jesus, é bem provável que na intimidade do grupo de discípulos mais chegados, tenha ele aprofundado o tema, explicando-o com minúcias, dado que não há registro de contestação ou pedido de explicações por parte dos apóstolos. Entendimento exatamente igual ao que foi dado ao caso do cego deve ser aplicado ao do paralítico, também de nascença, que Pedro curou nas vizinhanças da Porta Formosa, após a partida de Jesus para o Mundo Espiritual.

Este episódio, de uma beleza transcendental, vem narrado no Capítulo 39 dos Atos. O mendigo pedira apenas uma esmola. A resposta de Pedro, um grande e querido emotivo, é antológica:— Não tenho prata nem ouro — disse ele — mas o que tenho te dou: Em nome de Jesus Cristo, levanta-te e anda ! Que pecado cometera este homem? Estaria resgatando erros de seus pais? Cabe, por conseguinte,a mesma explicação dada pelo Cristo anteriormente no caso do cego de nascença: manifestava-se nele o mecanismo das leis divinas.

02 - Boa Nova- Humberto de Campos - pág. 87

PECADO E PUNIÇÃO
Jesus havia terminado uma de suas pregações na praça pública, quando percebeu que a multidão se movimentava em alvoroço. Alguns populares mais exaltados prorrompiam em gritos, enquanto uma mulher ofegante, cabelos desgrenhados e faces macilentas, se aproximava dele, com uma súplica de proteção a lhe sair dos olhos tristes. Os muitos judeus ali aglomerados excitavam o ânimo geral, reclamando o apedrejamento da pecadora, na conformidade das antigas tradições. Solicitado, então, a se constituir juiz dos costumes do povo, o Mestre exclamou com serenidade e desassombro, causando estupefação aos que o ouviram:

— Aquele que estiver sem pecado atire a primeira pedra! Por toda a assembléia se fez sentir uma surpresa inquietante. As acusações morreram nos lábios mais exaltados. A multidão ensimesmava-se, para compreender a sua própria situação. Enquanto isso, o Mestre pôs-se a escrever no solo despreocupadamente. Aos poucos, o local ficara quase deserto. Apenas Jesus e alguns discípulos lá se conservavam, tendo ao lado a mulher a ocultar as faces com as mãos. Em dado instante, o Mestre Divino ergueu a fronte e perguntou à infeliz: — Mulher, onde estão os teus juizes?

Observando que a pecadora lhe respondia apenas com o olhar reconhecido, onde as lágrimas aljofravam num misto de agradecimento e alegria, Jesus continuou:— Ninguém te condenou? Também eu não te condeno. Vai, e não peques mais. A infeliz criatura retirou-se, experimentando uma sensação nova no espírito. A generosidade do Messias lhe iluminava o coração, em claridades vivas que lhe banhavam a alma toda. Mas, enquanto a pecadora se retirava, presa de intensa alegria, os poucos discípulos que se encontravam junto do Senhor não conseguiam ocultar a estranheza que lhes causara o seu gesto. Por que não condenara ele aquela mulher de vida censurável aos olhos de todos? Não se tratava de uma adúltera? Nesse ínterim, João se aproximou e interrogou:

— Mestre, por que não condenastes a meretriz de vida infame? Jesus fixou no discípulo o olhar calmo e bondoso e redarguiu: — Quais as razões que aduzes em favor dessa condenação? Sabes o motivo por que essa pobre mulher se prostituiu? Terás sofrido alguma vez a dureza das vicissitudes que ela atravessou em sua vida? Ignoras o vulto das necessidades e das tentações que a fizeram sucumbir a meio do caminho. Não sabes quantas vezes tem sido ela objeto do escárnio dos pais, dos filhos e dos irmãos das mulheres mais felizes. Não seria justo agravar-lhe os pa­decimentos infernais da consciência pesarosa e sem rumo. — Entretanto — exclamou João, defendendo os princípios da lei antiga —, ela pecou e fez jus à punição. Não está escrito que os homens pagarão, ceitil por ceitil, os seus próprios erros?

O Mestre sorriu sem se perturbar e esclareceu: — Ninguém pode contestar que ela tenha pecado; quem estará irrepreensível na face da Terra? Há sacerdotes da lei, magistrados e filósofos, que prostituíram suas almas por mais baixo preço; contudo, ainda não lhes vi os acusadores. A hipocrisia costuma campear impune, enquanto se atiram pedras ao sofrimento. João, o mundo está cheio de túmulos caiados. Deus, porém, é o Pai de Bondade Infinita que aguarda os filhos pródigos em sua casa. Poder-se-ia desejar para a pecadora humilde tormento maior do que aquele a que ela própria se condenou por tempo indeterminado? Quantas vezes lhe tem faltado pão à boca faminta ou a manifestação de um carinho sincero à alma angustiada? Raras dores no mundo serão idênticas às agonias de suas noites silenciosas e tristes. Esse o seu doloroso inferno, sua aflitiva condenação. Ê que, em todos os planos da vida, o instituto da justiça divina funciona, naturalmente, com seus princípios de compensação.

Cada ser traz consigo a fagulha sagrada do Criador e erige, dentro de si, o santuário de sua presença ou a muralha sombria da negação; mas, só a luz e o bem são eternos e, um dia, todos os redutos do mal cairão, para que Deus resplandeça no espírito de seus filhos. Não é para ensinar outra coisa que está escrito na lei — "Vós sois deuses!" Porventura, não sabes que a herança de um pai se divide entre os filhos em partes iguais? As criaturas transviadas são as que não souberam entrar na posse de seu quinhão divino, permutando-o pela satisfação de seus caprichos no desregramento ou no abuso, na egolatria ou no crime, pagando alto preço pelas suas decisões voluntárias. Examinada a situação por esse prisma, temos de reconhecer no mundo uma vasta escola de regeneração, onde todas as criaturas se reabilitam da traição aos seus próprios deveres. A Terra, portanto, pode ser tida como um grande hospital, onde o pecado é a doença de todos; o Evangelho, no entanto, traz ao homem enfermo o remédio eficaz, para que todas as estradas se transformem em suave caminho de redenção.

É por isso que não condeno o pecador para afastar o pecado e, em todas as situações, prefiro acreditar sempre no bem. Quando observares, João, os seres mais tristes e miseráveis, arrastando-se numa noite pejada de sombra e desolação, lembra-te da semente grosseira que encerra um gérmen divino e que um dia se elevará do seio da terra para o beijo de luz do Sol. Terminada a explicação do Mestre, o filho de Zebedeu, deixando transparecer na luz do olhar a sua profunda admiração, pôs-se a meditar nos ensinamentos recebidos. Muito tempo ainda não transcorrera depois desse acontecimento, quando Jesus subiu de Cafarnaum para Jerusalém, acompanhado por alguns de seus discípulos. Celebravam-se festas tradicionais entre os judeus. O Messias chegou num sábado, sob a fiscalização severa dos espíritos rigoristas de sua época.

Não foram poucos os paralíticos que o cercaram, ansiosos pelo benefício de sua virtude salvadora. Escandalizando os fanáticos, o Mestre curava e consolava, na sua jornada de gloriosa redenção. Explicando que o sábado fora feito para o homem e não o homem para o sábado, enfrentava sorridente as preocupações dos mais exigentes. Vendo tantos cegos e aleijados aglomerados à passagem, Tiago o interpelou:— Mestre, sendo Deus tão misericordioso, por que pune seus filhos com defeitos e moléstias tão horríveis?...— Acreditas, Tiago — respondeu Jesus —, que Deus desça de sua sabedoria e de seu amor para punir seus próprios filhos? O Pai tem o seu plano determinado com respeito à criação inteira; mas, dentro desse plano, a cada criatura cabe uma parte na edificação, pela qual terá de responder. Abandonando o trabalho divino, para viver ao sabor dos caprichos próprios, a alma cria para si a si­tuação correspondente, trabalhando para reintegrar-se no plano divino, depois de se haver deixado levar pelas sugestões funestas, contrárias à sua própria paz.

João compreendeu que a Palavra do Messias era a confirmação dos ensinamentos que já ouvira de seus lábios, na tarde em que a multidão exigia o apedrejamento da pecadora. Afastaram-se, em seguida, do Tanque de Betsaida cujas águas eram tidas, em Jerusalém, na conta de miraculosas e onde o Mestre fizera andar paralíticos, dera vista a cegos e limpara leprosos. Na companhia de Tiago e João, o Senhor encaminhou-se para o templo, onde um dos paralíticos que ele havia curado relatava o acontecido, cheio de sincera alegria. Jesus aproximou-se dele e, deixando entrever aos seus discípulos que desejava confirmar os ensinamentos sobre pecado e punição, falou-lhe abertamente, como se lê no texto evangélico de João: — "Eis que estás são. Não peques mais, para que te não suceda coisa pior."

Desde que esses ensinos foram dados, novas idéias de fraternidade povoaram o mundo, com respeito aos transviados, aos criminosos e aos inimigos, atingindo a própria organização política dos Estados. O Império Romano vulgarizara os mais nefandos processos de regeneração ou de vingança. Escravos ignorantes eram pasto das feras, nos divertimentos públicos, pelas faltas mais insignificantes nas casas dos patrícios. Só de uma vez, trinta mil desses servos, a quem se negava qualquer bem do espírito, foram crucificados numa festa, próximo aos soberbos aquedutos da Via Ápia. Os açoites humilhantes eram castigo suave.

Entretanto, desde a tarde em que Jesus se encontrou com a pecadora em frente da multidão, um pensamento novo entrou a dominar aos poucos o espírito do mundo. A substância evangélica do ensino inolvidável penetrou o aparelho judiciário de todos os povos. A sociedade começou a compreender suas obrigações e procurou segregar o criminoso, como se isola um doente, buscando auxiliar-lhe a reforma definitiva, por todos os meios ao seu alcance.

Os menores deliquentes foram amparados pelas numerosas escolas de regeneração. Todo o sistema da justiça humana evolveu para os princípios da magnanimidade, e os juízes modernos, lavrando suas sentenças, sem nunca haverem manuseado o Novo Testamento, talvez ignorem que procedem assim por ter sido Jesus o grande reformador da criminologia.

08 - Renúncia - Emmanuel - pág. 329

(...) A reduzida assembléia não podia ocultar a enorme expressão de assombro. Os Davenport estavam longe de presumir, naquela jovem de atitudes tão tímidas, tais provas de conhecimento espiritual. Pela primeira vez, Cirilo ouvia um argumento que o satisfazia plenamente. Com estupefação geral, Beatriz quebrou o silêncio, dirigindo-se ao avô nestes termos:
— Não te disse, vovô, que ela sabe muita coisa nova sobre Jesus?
— Não diga isso, Beatriz — murmurou Alcíone toda humilde —, eu sou apenas uma curiosa das lições evangélicas. Como tínhamos em Ávila a nossa pequena igreja doméstica, a funcionar quase todas as noites, familiarizei-me com o assunto.
— Sem dúvida — replicou Cirilo, impressionado — as tuas explicações, Alcíone, falam profundamente à alma. Os negócios materiais da minha vida sempre me criaram certa atmosfera de incompreensão para as lições do Cristo. Sempre considerei o lar fortaleza da nossa felicidade na Terra, mas nunca como base para enriquecimento de dons espirituais.

— Isso é natural — prosseguiu a moça enternecida —, as forças que nos encarceram o coração nas grades de uns tantos problemas temporais, costumam ser violentas e rudes. Entretanto, Deus não se cansa de nos atrair aos seus braços misericordiosos. As circunstâncias mínimas da existência humana induzem a pensar nisso. Logo que abrimos os olhos neste mundo, encontramos pais carinhosos que nos encaminham para o bem; nossa infância, quase sempre, está cercada de sábias advertências dos preceptores, que nos orientam para a verdade. Uma idéia lógica surge, fatalmente, em nosso cérebro: tantos mensageiros de bondade viriam à nossa estrada, tão só para informar-nos o coração, sem utilidades práticas para a nossa própria edificação? Muita gente, nos mais variados credos, depõe nas mãos de seus ministros o que lhes cumpre fazer, mas isso é um erro grave. Deus nos chama pela maneira como Jesus procurou os discípulos. Para realizar a união divina é preciso marchar, na "terra" de nós mesmos, não obstante os maus dias e as noites tenebrosas!...

Cirilo não podia disfarçar a admiração. Agora, sentia descortinar-se aos olhos d'alma um mundo deslumbrante, que até então não conseguira surpreender. As palavras da jovem modificavam-lhe, num minuto, todas as presunções exegéticas. Começava a sentir que a vida, sob qualquer de seus aspectos, revestia-se da mais profunda significação. No seu conceito, o homem deixava de ser um exilado em míseras trevas, que se encontraria mais tarde com Deus, ou com a punição eterna. A Terra figurava-se-lhe escola, onde cada homem recebia uma divina oportunidade, entre milhões de possibilidades sublimes e infinitas. — No templo de pregações públicas — concluía a filha de Madalena, sem afetação — poderemos receber as inspirações externas, ao passo que no culto íntimo entramos em contato com o próprio eu, recebendo divinas mensagens na consciência. Os diversos ministros religiosos têm fórmulas convencionais; nós, como sacerdotes da pró-pria iluminação, temos as expressões espontâneas da vida.

Jaques engolfara-se em prolongado silêncio, como se estivesse chegando a um mundo novo de preciosas revelações. E Susana, vendo o compa­nheiro quase extático, considerou, eminentemente comovida :— Em verdade, Alcíone, teus raciocínios abrem novos horizontes ao nosso espírito. Sempre estudamos o Evangelho, mas, de minha parte, devo confessar a dificuldade em me adaptar aos ensinamentos. .. Sinto-me tão pecadora, tão humana, que cada lição me soa como rigorosa censura. Por que experimento, assim, as santas narrativas como dilacerantes acusações ? A jovem fitou-a com olhos muito lúcidos e esclareceu: — Tais impressões devem ser passageiras. O Evangelho é mensagem de salvação, nunca de tormento. Na realidade, conhecemos a extensão da nossa indigência e o grau das nossas fraquezas; mas a misericórdia divina restaria imota sem as nossas quedas e dolorosas necessidades. O Cristianismo jamais será doutrina de regras implacáveis, mas sim a história e a exemplificação das almas transformadas com Jesus, para glória de Deus.

Se as lições do Mestre apenas nos oferecessem motivos de condenação, onde estariam as grandes figuras evangélicas de Maria Madalena, Paulo de Tarso e tantas outras? No entanto, a pecadora transformada foi a mensageira da ressurreição; o inflexível e cruel perseguidor convertido recebeu de Jesus a missão de iluminar o gentilismo. Susana seguia a exposição, de olhos muito brilhantes. Nunca sentira tamanha impressão de bem-estar, no trato das leituras santas. Nas confissões, que nunca chegara a conjugar com a grande falta da sua vida, nada recebia dos sacerdotes, senão amargas recriminações. Os padres lhe ministravam penitências, mas nunca lhe -ofereciam roteiro seguro. Sempre dera ao altar valiosas monetárias, mas agora chegava à era indispensável cooperar, com tôas espirituais, para o próprio aperfeiçoamento.

— Tuas interpretações — asseverou a senhora Davenport — são altamente consoladoras. De uns tempos para cá, venho refletindo amargurada na inutilidade de muitos ensinamentos recebidos na minha infância. Por que terei aprendido a virtude e não a cultivo a rigor? E, com tais passo a analisar as criaturas com profundo pessimismo, chegando a crer que a geral, vive negando Jesus a cada momento. Alcíone, que prestava especial aos conceitos expendidos, obtemperou:

— Por infelicidade nossa é, a bagagem das nossas fraquezas nes se o Pai não desanimou e nos ensejo de nos levantarmos para o sei|i haveremos de viver em descrença sem esperança é o pior de todos os nos preocupamos sinceramente com espiritual, compreendemos a signifii: as coisas. A própria miséria lugar e a sua expressão educativa, é essencial refletirmos na extensão do Mestre. Lembremos que Pedro vezes, na hora mais cruel; que da sua sabedoria e misericordioso um nem outro foi jamais expulso presença. O mundo tem inúmeros ploradores, ociosos e devassos, mas ser examinado por um prisma difi cado é moléstia do espírito. No mentação, na falta de higiene, no dos sentidos, o corpo sofre desequilíbrios ser fatais. O mesmo se dá com a não sabemos nortear os desejos, rações, vigiar os pensamentos, que as enfermidades dessa natureza perigosas, porque exigem remédio de mais dolorosa aplicação.(...)

10 - Pão Nosso- Emmanuel - pág. 255

122 PECADO E PECADOR
"Amado, não sigas o mal, mas o bem. Quem faz o bem, é de Deus; mas quem faz o mal, não tem visto a Deus." — (III JoAo, 11.)
A sociedade humana não deveria operar a divisão de si própria, como sendo um campo em que se separam bons e maus, mas sim viver qual grande família em que se integram os espíritos que começam a compreender o Pai e os que ainda não conseguiram pressenti-Lo.

Claro que as palavras "maldade" e "perversidade" ainda comparecerão, por vastíssimos anos, no dicionário terrestre, definindo certas atitudes mentais inferiores; todavia, é forçoso convir que a questão do mal vai obtendo novas interpretações na inteligência humana. O evangelista apresenta conceito justo. João não nos diz que o perverso está exilado de nosso Pai, nem que se conserva ausente da Criação. Apenas afirma que "não tem visto a Deus".

Isto não significa que devamos cruzar os braços, ante as ervas venenosas e zonas pestilenciais do caminho; todavia, obriga-nos a recordar que um lavrador não retira espinheiros e detritos do solo, fim de convertê-lo em precipícios. Muita gente acredita que o "homem caído" alguém que deve ser aniquilado. Jesus, no entanto não adotou essa diretriz. Dirigindo-se, amorosamente ao pecador, sabia-se, antes de tudo, defrontado por enfermo infeliz, a quem não se poderia subtrair as características de eternidade.

Lute-se contra o crime, mas ampare-se a criatura que se lhe enredou nas malhas tenebrosas. O Mestre indicou o combate constante contra mal, contudo, aguarda a fraternidade legítima entre os homens por marco sublime do Reino Celeste.

LEMBRETE: Deus que é eterno, é imutável, é imaterial, é único, é todo-poderoso, é soberanamente justo e bom criou as Leis da Natureza ou Leis Divinas, consideramos por PECADO quando transgredimos (ou nos desviamos) estas leis. Jesus disse: "Quem matar pela espada, perecerá pela espada", segundo os Espíritos nos ensinam que a todo momento Deus nos aplica a Pena de talião, seremos punidos naquilo em que pecamos nesta vida ou numa noutra. Aquele que fez sofrer o seu semelhante estará numa situação em que sofrerá o mesmo. Jesus também nos disse: "Perdoai os vossos inimigos" e a pedir a Deus que perdoe as nossas ofensas de maneira que perdoemos, ou seja, na mesma proporção em que houverdes perdoado.

Em suma: só teremos uma elevação quando todos os nossos atos de nossa vida corpórea constituirem a prática da Lei de Deus e compreendermos por antecipação a vida espiritual.

Arrependimento, expiação e reparação constituem fases pelas quais o espírito passa, para apagar faltas e suportar as consequências de atos menos felizes praticados. O ARREPENDIMENTO conduz à EXPIAÇÃO. A esperança dá forças para a REABILITAÇÃO, mas somente a REPARAÇÃO elimina a causa e pode anular o efeito de todo o mal.

Edivaldo