PENAS
BIBLIOGRAFIA
01- Almas em desfile - pág. 84 02 - Espiritismo para crianças - pág. 29
03 - Manual e Dic. B.do Espiritismo - pág. 83 04 - Memórias de um suicida - pág. 227
05 - O Céu e o Inferno - pág. 68, 86, 344 06 - O Consolador - pág. 146
07 - O Evangelho S.o Espiritismo - Cap. XXVII,21 08 - O Livro dos Espíritos - 4ª.parte, cap. I
09 - O pensamento de Emmanuel - pág. 227 10 - O ser subconsciente - pág. 34
11 - Revista Espirita 1860 - pág. 57 12 -

LEMBRETE: O NÚMERO DA PÁGINA PODE VARIAR DE ACORDO COM A EDIÇÃO DA OBRA CITADA.

PENAS – COMPILAÇÃO

05 - O Céu e o Inferno - Allan Kardec - pág. 68, 86, 344

CAPITULO VI - DOUTRINA DAS PENAS ETERNAS
Origem da Doutrina das Penas Eternas
1 — A crença na eternidade das penas perde terreno cada dia, de tal maneira que, mesmo não sendo profeta, podemos prever o seu fim próximo. Ela tem sido combatida por argumentos tão poderosos e decisivos, que parece quase supérfluo ocuparmo-nos dela hoje, bastando que a deixássemos extinguir-se por si mesma. Não se pode, entretanto, esquecer que, por mais caduca que ela pareça, ainda permanece como o centro de resistência dos adversários das idéias novas, o ponto que eles defendem com mais ardor porque é um dos seus flancos mais vulneráveis, e porque prevêem as consequências da sua queda.
Nesse sentido, a questão merece um exame sério.

2 — A doutrina das penas eternas, como a do inferno material, teve a sua razão de ser quando podia servir de freio para os homens intelectual e moralmente pouco desenvolvidos. Da mesma maneira que eles não podiam impressionar-se muito com a idéia de penas espirituais, também não se impressionariam com penalidades temporais. Não compreenderiam mesmo a justiça das penas graduais e proporcionais, porque não estavam aptos a apreender as nuanças quase sempre sutis entre o bem e o mal, nem o valor relativo das circunstâncias atenuantes ou agravantes.

3 — Quanto mais próximos do estado primitivo, mais materializados são os homens. O senso moral é o que se desenvolve mais tardiamente. Por isso mesmo só podem fazer uma idéia muito imperfeita de Deus e de seus atributos, e uma idéia igualmente vaga da vida futura. Assemelham Deus à sua própria natureza, figurando-o como um soberano absoluto, tanto mais temível quanto é invisível, como um déspota que, oculto no seu palácio, jamais se mostra ao povo.

Deus só é então poderoso pela força material, porque eles não compreendem o poder espiritual. Só o concebem armado com o raio, em meio aos clarões da tempestade, semeando à sua passagem a ruina e a desolação à maneira dos conquistadores invencíveis. Um Deus de mansuetude e de misericórdia não seria Deus, mas um ser débil que não poderia fazer-se obedecer. A vingança implacável, os castigos terríveis, eternos, nada tinham de contrário à idéia que faziam de Deus, nada que lhes repugnasse a razão. Implacáveis eles mesmos nas suas lutas, cruéis para os inimigos, piedosos para com os vencidos, Deus, que lhes era superior devia ser ainda mais terrível do que eles.

Para esses homens eram necessárias crenças religiosas adequadas à sua natureza ainda rude. Uma religião inteiramente espiritual, feita de amor e caridade, não poderia harmonizar-se com a brutalidade dos seus costumes e das suas paixões. Não acusemos pois Moisés por sua legislação draconiana, que era apenas suficiente para conter um povo indócil, nem de haver feito de Deus um ser vingativo. Era o necessário para a época. A suave doutrina de Jesus não poderia encontrar eco e se mostraria impotente.

4 — À medida que o Espírito se desenvolveu, o véu material foi-se dissipando aos poucos e os homens se tornaram mais aptos a compreender as questões espirituais. Mas tudo isso teve de se fazer gradualmente. Quando Jesus veio já pode anunciar um Deus clemente, falar do seu reino que não era deste mundo e dizer aos homens: amai-vos uns aos outros, fazei o bom aos que vos odeiam, enquanto os antigos diziam: olho por olho e dente por dente.

Mas quais eram os homens que viviam no tempo de Jesus? Seriam almas novas, criadas para ali se encarnarem? Se assim fosse, Deus teria criado no tempo de Jesus almas mais adiantadas que as do tempo de Moisés e nesse caso, em que se tornariam estas últimas? Teriam elas adormecido no embrutecimento pela eternidade? O simples bom senso repele esta suposição. Não. Eram as mesmas almas que após terem vivido sob o domínio da lei Mosaica, haviam adquirido através de muitas existências o desenvolvimento suficiente para compreenderem uma doutrina mais elevada, e que atualmente mostram-se ainda mais adiantadas, podendo receber um ensino mais completo.

5 — Apesar disso, o Cristo não pode revelar aos seus contemporâneos todos os mistérios do futuro. Ele mesmo disse: tenho ainda muitas coisas para vos dizer, mas não as podereis compreender, é por isso que vos falo em parábolas. Quanto aos problemas morais, aos deveres das relações humanas, Ele foi bastante preciso, porque, tocando a corda sensível dos interesses materiais podia fazer-se compreender. Quanto aos outros pontos Ele se limitou a semear, sob forma alegórica, os germes que deveriam desenvolver-se mais tarde.

A doutrina das penas e das recompensas futuras estava neste caso. Particularmente no tocante às penas Ele não podia romper abrutamente as concepções tradicionais. Vinha revelar aos homens novos deveres: a caridade e o amor do próximo substituindo o ódio e a vingança; a abnegação em lugar do egoísmo. Isto já era muito. Ele não podia conscientemente atenuar o medo aos castigos reservados aos prevaricadores sem enfraquecer, ao mesmo tempo, o princípio do dever.

Jesus prometia o reino dos céus aos bons. Esse reino estava portanto interditado aos maus. Para onde iriam estes? Era necessária uma contraparte capaz de impressionar as inteligências demasiado materiais para compreenderem a vida espiritual. Não se deve esquecer que Jesus se dirigia ao povo, à parte menos esclarecida da população, para a qual tinha de usar imagens de certa maneira palpáveis e não idéias abstratas. Eis porque não podia entrar em detalhes supérfluos nesse terreno: bastava-lhe opor uma punição à recompensa sendo isto o suficiente naquela época.

6 — Se Jesus ameaçou os culpados com o fogo eterno, também os ameaçou de serem lançados na Geena. Mas o que era a Geena? Um lugar nas cercanias de Jerusalém, o depósito de lixo da cidade. Seria possível tomar-se isso ao pé da letra? Era apenas uma dessas imagens fortes de que se servia para impressionar as massas. Acontecia o mesmo com o fogo eterno. Se não fosse esse o seu pensamento, Ele estaria em contradição consigo mesmo ao exaltar a clemência e a misericórdia de Deus, porque a clemência e a inexorabilidade se negam reciprocamente. Seria pois nos enganarmos estranhamente sobre o sentido das palavras de Jesus, vermos nela a sanção do dogma das penas eternas, quando todo o seu ensino proclama a bondade do criador.

Na oração dominical nos ensinou a dizer: Senhor, perdoai as nossas ofensas como perdoamos os nossos ofensores. Se o culpado não pudesse esperar nenhum perdão, seria inútil pedi-lo. Mas há condições para esse perdão? É ele uma graça, uma anulação pura e simples da pena em que se incorreu? Não. A medida desse perdão está subordinada à maneira porque perdoamos, ou seja, se não perdoamos não seremos perdoados. Fazendo do esquecimento das ofensas uma condição absoluta, Deus não podia exigir que o homem frágil fizesse o que Ele, todo-poderoso, não faria. A oração dominical é uma negação da vingança eterna de Deus.

7 — Para os homens que só tinham uma noção confusa da espiritualidade da alma a idéia do fogo material não era chocante, tanto mais que ela se encontra na crença popular proveniente do inferno pagão e quase universalmente difundida. A eternidade das penas nada tinha de repugnante para criaturas submetidas desde séculos à legislação do terrível Jeová. No pensamento de Jesus o fogo eterno só podia ser uma figura. Pouco lhe importava que essa figura fosse tomada ao pé da letra, desde que devia servir de freio. Ele sabia muito bem que o tempo e o progresso se encarregariam de esclarecer o sentido alegórico, sobretudo quando, segundo a sua predição, o Espírito da Verdade viesse esclarecer todas as coisas aos homens.

A consequência essencial das penas irrevogáveis é a ineficácia do arrependimento. Mas Jesus nunca disse que o arrependimento fosse inútil perante Deus. Em todas as ocasiões, pelo contrário, apresentou um Deus clemente, misericordioso, pronto a receber o filho pródigo de volta para o lar paterno. Só o mostrou inflexível para o pecador endurecido. Mas assim mesmo, se tinha o castigo numa das mãos, tinha sempre o perdão na outra, pronto a dispensá-lo ao culpado, desde que esse voltasse sinceramente a Ele. Não é verdadeira, pois, a imagem de um Deus impiedoso. Deve­mos observar também que Jesus não pronunciou contra ninguém, mesmo contra os maiores culpados, a condenação irremissível.

8 — Todas as religiões primitivas, de acordo com a natureza dos povos tiveram deuses guerreiros que combatiam à frente dos exércitos. O Jeová dos Hebreus lhes proporcionava todos os meios necessários para que exterminassem os seus inimigos, e os recompensava pela vitória ou os punia pela derrota. Segundo a idéia que faziam de Deus, acreditavam honrá-lo ou apaziguá-lo com o sangue dos animais ou dos homens. Vêm daí os sacrifícios sangrentos que tiveram papel tão considerável em todas as religiões antigas.

Os Judeus haviam abolido os sacrifícios humanos. Os cristãos, apesar dos ensinos do Cristo, acreditavam por muito tempo honrar ao criador entregando ao fogo e às torturas milhares daqueles que chamavam de hereges. Eram, sob outra forma, verdadeiros sacrifícios humanos, desde que o faziam para a maior glória de Deus e com a realização de cerimônias religiosas. Ainda hoje continuam invocando o Deus dos Exércitos antes dos combates e o glorificam após a vitória, e isso frequentemente pelas causas mais injustas e mais anticristãs.

9 — Como o homem custa a se livrar de seus prejuízos, dos seus hábitos, das suas idéias primitivas! Quarenta séculos nos separam de Moisés e nossa geração cristã ainda conserva os traços de antigas usanças bárbaras consagradas ou pelo menos aprovadas pela religião atual! Foi necessária a pressão da opinião dos não-ortodoxos, dos que são olhados como heréticos, para se pôr fim às fogueiras e fazer compreender a verdadeira grandeza de Deus. Mas, na falta das fogueiras as perseguições materiais e morais continuaram em vigor, de tal maneira a idéia de um Deus cruel está enraizada no homem. Alimentado pelos sentimentos que lhes são inculcados na infância, poderia o homem estranhar que um Deus que lhe apresentaram honrado por atos bárbaros condene à torturas eternas, vendo sem piedade o sofrimento dos condenados?

Foram os filósofos, os ímpios, segundo alguns, que se escandalizaram de ver o nome de Deus profanado por atos indignos dele. Foram estes que o mostraram aos homens em toda a sua grandeza, despojando-o das paixões e da mesquinhez humana que lhe havia atribuído uma crença cega. A religião ganhou com isso em dignidade aquilo que havia perdido em prestígio exterior, porque se há menos homens apegados a ela pela forma, é maior o número dos que são mais sinceramente religiosos, pelo coração e pelos sentimentos.

Mas ao lado desses, quantos foram levados, por ficarem apenas nas aparências, à negação da Providência! Por não haverem feito que as crenças religiosas acompanhassem o progresso da razão humana, os responsáveis por isso levaram uns ao deísmo, outros à incredulidade absoluta, outros ao panteísmo, o que vale dizer que o homem se fez Deus a si mesmo na falta de outro mais perfeito.
Argumentos a favor das penas eternas

10 —Voltemos ao dogma da eternidade das penas. O principal argumento que se invoca em seu favor é o seguinte. Admite-se entre os homens que a gravidade da ofensa está na razão da qualidade do ofendido. Aquela que se comete contra um soberano é considerada mais grave do que a cometida contra um simples cidadão e punida com maior severidade. Ora, Deus é mais que um soberano, pois é infinito e por isso mesmo a ofensa a ele também se torna infinita, merecendo um castigo da mesma natureza, ou seja: eterno.

Refutação —Toda a refutação é um raciocínio que deve ter o seu ponto de partida, uma base em que se apoiar, premissas, numa palavra. Encontramos essas premissas nos próprios atributos de Deus. Deus é único, eterno, imutável, imaterial, todo-poderoso, soberanamente justo e bom, infinito em todas as suas perfeições. Não se pode conceber Deus sem o infinito das suas perfeições, pois sem isso ele não seria Deus, desde que poderíamos conceber um ser que possuísse o que lhe falta. Para que ele seja o único acima de todas os seres é necessário que nenhum o possa superar ou igualar seja no que for. Portanto, é necessário que ele seja infinito em todos os sentidos.

Os atributos de Deus, sendo infinitos, não podem aumentar nem diminuir. Sem isso, eles não seriam infinitos e Deus não seria perfeito. Se tirássemos a Deus a mínima parcela de um só de seus atributos, não mais teríamos Deus, pois seria possível a existência de um ser mais perfeito.

O infinito de uma qualidade exclue a possibilidade de existir uma qualidade contrária que a anulasse ou diminuísse. Um ser infinitamente bom não pode ter a menor parcela de maldade, e um ser infinitamente mau não pode ter a menor parcela de bondade. Isso da mesma maneira que um objeto não poderia ser absolutamente negro com a mais leve nuança de branco, nem absolutamente branco com a mínima mancha negra. Colocado esse ponto, podemos opor ao argumento acima o seguinte raciocínio:

11 —Somente um ser infinito pode criar o infinito. O homem, limitado em suas virtudes, nos seus conhecimentos, nos seus poderes, nas suas aptidões, na sua própria existência terrena, só pode produzir coisas limitadas. Se o homem pudesse ser infinito no mal que pratica, também o poderia ser no bem que faz, e ele seria igual a Deus. Mas, se o homem fosse infinito no tocante ao bem, não faria nenhum mal, porque o bem absoluto é a exclusão de todo o mal.

Admitindo-se que uma ofensa temporária praticada contra a divindade pudesse ser infinita, Deus, vingando-a por um castigo infinito seria infinitamente vingativo. E se ele o for, não pode ser infinitamente bom e misericordioso, pois um dos seus atributos é a limitação do outro. Se ele não for infinitamente bom não é perfeito, e se não for perfeito não é Deus.

Se Deus for inexorável para o culpado arrependido, não é misericordioso, e se não é misericordioso, não é infinitamente bom.
Porque daria Deus ao homem a lei do perdão, se ele mesmo não devesse perdoar? Disso resultaria que o homem que perdoa os seus inimigos, retribuindo-lhes o mal com o bem, seria melhor que Deus que permanece surdo ao arrependimento do seu ofensor e lhe recusa, pela eternidade, a mais leve atenuação da pena.

Deus, que está em toda a parte e tudo vê, tem de ver as torturas dos condenados. Se ele for insensível aos seus clamores pela eternidade, será eternamente impiedoso, e se for impiedoso não é infinitamente bom.

12 — A isto, respondem que o pecador que se arrepende antes de morrer obtém a misericórdia de Deus e que o maior culpado pode se beneficiar com a sua graça. Não pode haver dúvida quanto a isto. Concebe-se que Deus somente perdoe aos arrependidos e seja inflexível para os espíritos endurecidos. Mas se ele se mostra cheio de misericórdia para a alma que se arrepende antes de deixar o corpo, porque não faria o mesmo para aquela que se arrepende depois da morte? Qual a razão do arrependimento só ser eficaz durante a vida, representa apenas um instante e não o ser durante a eternidade? Se a bondade e a misericórdia de Deus ficam circunscritas a um determinado tempo, não são infinitas e Deus não é infinitamente bom.

13 — Deus é soberanamente justo. A soberana justiça não é a mais inexorável nem a que deixa impunes todas as faltas, mas a que considera da maneira mais rigorosa o bem e o mal, recompensando um e punindo o outro com perfeita equidade, sem jamais se enganar.Se por uma falta passageira que resulta quase sempre da natureza imperfeita do homem, e muitas vezes decorre do meio em que ele só encontra, a alma pode ser punida eternamente, sem esperanças do abrandamento e nem de perdão, não existe nenhuma proporção entro a falta e a punição. Portanto, não há justiça.

Se o culpado se volta para Deus, arrependendo-se e pedindo para reparar o mal cometido, isso equivale a um retorno ao bem, aos bons sentimentos. Se o castigo for irrevogável, esse retorno ao bem não produz efeito, desde que Deus não leva em conta o bem e não pratica a justiça. Entre os homens, o condenado que se emenda vê a sua pena comutada e às vezes perdoada. Haveria, pois, na justiça humana mais equidade que na justiça Divina!

Se a condenação é irrevogável, o arrependimento é inútil. Nada podendo esperar do seu retorno ao bem, o culpado persiste no mal, de maneira que Deus não somente o condena a sofrer eternamente mas também a permanecer no mal por toda a eternidade. Não há nisso nem justiça, nem bondade.

14 — Sendo infinito em todas as coisas, Deus deve conhecer tudo no passado e no futuro. Deve saber, no momento da criação de uma alma, só ela vai falir de maneira grave para ser condenada eternamente. Se não o sabe, seu saber não é infinito e nesse caso Ele não é Deus. Se o sabe, cria voluntariamente um ser condenado, desde à sua formação, às torturas sem fim, e nesse caso não é bom.

Se Deus, tocado pelo arrependimento de um condenado, pode estender a ele a sua misericórdia e o retirar do inferno, não existe penas eternas e o julgamento feito pelos homens está revogado.

15 — A doutrina das penas eternas, aceita de maneira absoluta, leva-nos forçosamente à negação ou a diminuição, de alguns atributos de Deus. Ela é, por conseguinte, inconciliável com a perfeição infinita, pelo que chegamos à esta conclusão: Se Deus é perfeito, a condenação eterna não existe; se ela existe, Deus não é perfeito.

16 — Invoca-se ainda em favor do dogma da eternidade das penas o seguinte argumento: A recompensa concedida aos bons sendo eterna, deve ter como contraparte uma punição eterna. É justo proporcionar a punição à recompensa.

Refutação — Deus teria criado a alma com o fim de fazê-la feliz ou infeliz. É evidente que a felicidade das criaturas deve ser o objetivo de sua criação, pois de outra maneira Deus não seria bom. Ela atinge a felicidade pelo próprio mérito. Conquistado o mérito, ela não pode perder o seu fruto, porque então degeneraria. A eternidade da felicidade é pois uma consequência da sua natureza imortal.

Mas antes de chegar à perfeição, ela terá lutas a sustentar, combates a travar com as más paixões. Não a tendo criado perfeita, mas capaz de se aperfeiçoar , afim de que tenha o mérito de suas obras, ela pode falir. Suas quedas decorrem de sua fraqueza natural. Se ela tivesse de ser condenada eternamente por uma queda, poderíamos perguntar porque Deus não a criou mais forte.

A punição sofrida pela alma é uma advertência de que ela fez o mal. Deve ter como resultado reconduzi-la ao bom caminho. Mas se a pena fosse irremissível, seu desejo de se corrigir seria inútil. Assim, o fim providencial da criação não poderia ser atingido, porque haveria seres predestinados à felicidade e outros à desgraça. Se uma alma culpada se arrepende, pode tornar-se boa; podendo tornar-se boa, pode aspirar à felicidade. Deus seria justo só lhe recusasse esses meios?

Sendo o bem o objetivo final da criação, a felicidade, que é o seu prêmio, deve ser eterna. Ao mesmo tempo, o castigo que é um meio de levar ao bem deve ser temporário. A mais vulgar noção de justiça, mesmo entre os homens, diz que não se pode castigar perpetuamente aquele que tem o desejo do bem e se dispõe a praticá-lo.

17 — Um último argumento em favor da eternidade das penas é o seguinte:
O temor de um castigo eterno é o freio. Se o eliminarmos, nada mais tendo a temer, o homem se entregará a todos os desregramentos.

Refutação — Esse raciocínio seria justo se ao eliminarmos a eternidade das penas suprimíssemos toda e qualquer sanção penal. A situação feliz ou infeliz na vida futura decorre de uma rigorosa consequência da justiça de Deus, enquanto uma identidade de situação entre o homem bom negação dessa justiça. Pelo fato de não ser eterno, o ser menos penoso. Ele se torna tanto mais temível, quanto mais se pode aceitá-lo, e tanto mais aceitável, quanto mais racional. Uma penalidade em que não se pode crer não é um freio, e a eternidade das penas está nesse caso.

A crença nas penas eternas, como já dissemos, teve a sua utilidade e a sua razão de ser em certa época. Hoje, não somente ela deixou de assustar, como acabou por semear a incredulidade. Antes de colocá-la como urna necessidade, seria necessário demonstrara sua realidade. Conviria, sobretudo que se pudesse ver a sua eficácia no exemplo daqueles que a preconizam e se esforçam para a demonstrar. Infelizmente, entre eles, são bom poucos os que provam pelos seus atos que realmente estão atemorizados. Se essa crença é impotente para reprimir o mal entre aqueles quo dizem acreditar nela, que domínio poderia ter sobre os que não acreditam?(.)


06 - O Consolador - Emmanuel - pág. 146

Perg. 244 - Existem lugares de penitência no plano espiritual? E acaso poderá haver sofrimento eterno para os Espíritos inveterados no erro e na rebeldia? - Considerando a penitência em sua feição expiatória, existem numerosos lugares de provações na esfera para vós invisível, destinados à regeneração e preparo de entidades perversas ou renitentes no crime, a fim de conhecerem as primeiras manifestações do remorso e do arrependimento, etapas iniciais da obra de redenção. Quanto à idéia do sofrimento eterno, se houvesse Espíritos eternamente inveterados no crime, haveria para eles um sofrimento continuado, como seu próprio erro. O Pastor, porém, não quer se perca uma só de suas ovelhas. Dia virá em que a consciência mais denegrida experimentará, no íntimo, a luz radiosa da alvorada de Seu amor.

07 - O Evangelho S.o Espiritismo - Allan Kardec - Cap. XXVII,21

Segundo o dogma da eternidade absoluta das penas, nem os remorsos e o arrependimento são considerados a favor do culpado. Para ele, todo o desejo de melhorar é inútil; está condenado a permanecer eternamente no mal. Se foi condenado, entretanto, por um determinado tempo, a pena cessará no fim do prazo. Mas quem pode afirmar que ele terá então melhorado os seus sentimentos? Quem dirá que, a exemplo de muitos condenados da Terra, ao sair da prisão, ele não será tão mau quanto antes?

No primeiro caso, seria manter sob a dor do castigo um homem que se tornara bom, no segundo, seria agraciar aquele que continua culpado. A lei de Deus é mais previdente: sempre justa, equitativa e misericordiosa, não fixa nenhuma duração para a pena, qualquer que seja. Ela se resume assim:

21. "O homem sofre sempre a consequência das suas faltas; não há uma única infração à lei de Deus, que não tenha a sua punição". "A severidade do castigo é proporcional à gravidade da falta". "A duração do castigo, para qualquer falta, é indeterminada, pois fica subordinada ao arrependimento do culpado e ao seu retorno ao bem; assim, a pena dura tanto quanto a obstinação no mal; seria perpétua, se a obstinação o fosse; é de curta duração, se o arrependimento vier logo".

Desde que o culpado chame por misericórdia, Deus o ouve e lhe concede a esperança. Mas o simples remorso não basta: é necessária a reparação da falta. É por isso que o culpado se vê submetido a novas provas, nas quais ele pode, sempre pela sua própria vontade, fazer o bem para a reparação anteriormente praticado".

"O homem é assim o árbitro constante da sua própria sorte. Ele pode abreviar o seu suplício ou prolongá-lo indefinidamente. Sua felicidade ou sua desgraça dependem da sua vontade de fazer o bem". Essa é a lei imutável e conforme a bondade e a justiça de Deus.

O Espírito culpado e infeliz, dessa maneira, pode sempre salvar-se a si mesmo: a lei de Deus lhe diz sob quais condições ele pode fazê-lo. O que geralmente lhe falta é a vontade, a força e a coragem. Se, pelas nossas preces, lhe inspiramos essa vontade, se o amparamos e encorajamos; se, pelos nossos conselhos, lhe damos as luzes que lhe faltam, em vez de solicitarmos a Deus que derrogue a sua lei, tornamo-nos instrumentos da execução dessa lei de amor e caridade, da qual ele assim nos permite participar, para darmos nós mesmos uma prova de caridade.

08 - O Livro dos Espíritos - Allan Kardec - 4ª.parte, cap. I

III - INTERVENÇÃO DE DEUS NAS PENAS E RECOMPENSAS
Perg. 963 - Deus se ocupa pessoalmente de cada homem? Não é ele demasiadamente grande e nós muito pequenos, para que cada indivíduo em particular tenha aos seus olhos alguma importância?
- Deus se ocupa de todos os seres que criou, por menores que sejam; nada é demasiado pequeno para a sua bondade.

Perg. 964. Deus tem necessidade de se ocupar de cada um dos nossos atos, para nos recompensar ou punir? A maioria desses atos não são para Ele insignificantes?
— Deus tem as suas leis, que regulam todas as vossas ações. Se as violardes, a culpa é vossa. Sem dúvida, quando um homem comete um excesso, Deus não expende um julgamento contra ele, dizendo-lhe, por exemplo: tu és um glutão e eu te vou punir. Mas Ele traçou um limite: as doenças e, por vezes, a morte são consequências dos excessos. Eis a punição: ela resulta da infração da lei. Assim se passa em tudo.

Todas as nossas ações são submetidas às leis de Deus; não há nenhuma delas, por mais insignificante que nos pareça, que não possa ser uma violação dessas leis. Se sofremos as consequências dessa violação, não nos devemos queixar senão de nós mesmos, que nos fazemos assim os artífices de nossa felicidade ou de nossa infelicidade futura.

Essa verdade se torna sensível pelo seguinte apólogo:"Um pai dá ao filho a educação e a instrução, ou seja, os meios para saber conduzir-se. Cede-lhe um campo para cultivar e lhe diz: Eis a regra a seguir e todos os instrumentos necessários para tornar fértil o campo e assegurar a tua existência. Dei-te a instrução para compreenderes essa regra. Se a seguires, o campo produzirá bastante e te proporcionará o repouso na velhice; se não a seguires, nada produzirá e morrerás de fome. Dito isso, deixa-o agir à vontade".

Não é verdade que o campo produzirá na razão dos cuidados que se dispensar à cultura e que toda negligência redundará em prejuízo da colheita? O filho será, portanto, na velhice, feliz ou infeliz, segundo tenha seguido ou negligenciado a regra traçada pelo pai. Deus é ainda mais previdente, porque nos adverte a cada instante, se fazemos o bem ou o mal. Envia-nos Espíritos que nos inspiram, mas não os escutamos. Há ainda outra diferença e é que Deus dá ao homem um recurso, por meio das novas existências, para reparar os seus erros do passado, ao passo que o filho de que falamos não o terá, se empregar mal o seu tempo.

IV—NATUREZA DAS PENAS E DOS GOZOS FUTUROS
Perg. 965 - As penas e os gozos da alma após a morte têm alguma coisa de material?
— Não podem ser materiais, desde que a alma não é de matéria. O próprio bom senso o diz. Essas penas e esses gozos nada têm de carnal e, por isso mesmo, são mil vezes mais vivos do que os da Terra. O Espírito, uma vez desprendido, é mais impressionável: a matéria não mais lhe enfraquece as sensações. (Ver itens 237 a 257.)

Perg. 966. Por que o homem faz idéias tão grosseiras e absurdas das penas e dos gozos da vida futura?
— Inteligência ainda não suficientemente desenvolvida. A criança compreende da mesma maneira que o adulto? Aliás, isso depende também do que se tenha ensinado; é nesse ponto que há necessidade de uma reforma. Vossa linguagem é muito imperfeita para exprimir o que existe além do vosso alcance. Por isso foi necessário fazer comparações, sendo essas imagens e figuras tomadas como a própria realidade. Mas à medida que o homem se esclarece, seu pensamento compreende as coisas que a que a sua linguagem não pode traduzir.

Perg. 967. Em que consiste a felicidade dos bons Espíritos?
— Em conhecer todas as coisas; não ter ódio, nem ciúme, nem inveja, nem ambição, nem qualquer das paixões que fazem a infelicidade dos homens. O amor que os une é para eles a fonte de uma suprema felicidade. Não experimentam nem as necessidades, nem os sofrimentos, nem as angústias da vida material. São felizes com o bem que fazem. De resto, a felicidade dos Espíritos é sempre proporcional à sua elevação.

Somente os Espíritos puros gozam, na verdade, da felicidade suprema, mas nem por isso os demais são infelizes. Entre os maus e os perfeitos há uma infinidade de graus, nos quais os gozos são relativos ao estado moral. Os que são bastante adiantados compreendem a felicidade dos que avançaram mais que eles e a ela aspiram, mas isso é para eles motivo de emulação e não de inveja. Sabem que deles depende alcançá-la e trabalham com esse fito, mas com a calma da consciência pura. Sentem-se felizes de não ter de sofrer o que sofrem os maus.

Perg. 968. Contais a ausência das necessidades materiais entre as condições de felicidade para os Espíritos. Mas a satisfação dessas mesmas necessidades não é para o homem uma fonte de gozos?
— Sim, de gozos animais. E quando não podes satisfazer essas necessidades, isso é uma tortura.

Perg. 969. O que se deve entender quando se diz que os Espíritos puros estão reunidos no seio de Deus e ocupados em lhe cantar louvores?
— E uma alegoria para dar idéia da compreensão que eles têm das perfeições de Deus, pois o vêem e compreendem; mas, como tantas outras, não se deve tomá-la ao pé da letra. Tudo na Natureza, desde o grão de areia, canta, ou seja, proclama o poder, a sabedoria e a bondade de Deus. Mas não penseis que os Espíritos bem-aventurados estejam em contemplação na eternidade. Isso seria uma felicidade estúpida e monótona e, mais ainda, a felicidade do egoísta, pois a sua existência seria uma inutilidade sem fim. Eles não sofrem mais as tribulações da existência corpórea: isso já é um gozo; depois, como já dissemos, conhecem e sabem todas as coisas e empregam proveitosamente a inteligência adquirida, para auxiliar o progresso dos outros Espíritos; essa é a sua ocupação e ao mesmo tempo um gozo.

Perg. 970. Em que consistem os sofrimentos dos Espíritos inferiores?
— São tão variados quanto as causas que os produzem, e proporcionais ao grau de inferioridade, como os gozos são proporcionais ao grau de superioridade. Podemos resumi-los assim: cobiçar tudo o que lhes falta para serem felizes; mas não poder obtê-lo; ver a felicidade e não poder atingi-la; mágoa, ciúme, raiva, desespero, decorrentes de tudo o que os impede de ser felizes; remorsos e uma ansiedade moral indefinível. Desejam todos os gozos e não podem satisfazê-los. É isso o que os tortura.

Perg. 971. A influência que os Espíritos exercem uns sobre os outros é sempre boa?
— Sempre boa de parte dos bons Espíritos, é claro. Mas os Espíritos perversos procuram desviar do caminho do bem e do arrependimento os que consideram suscetíveis de ser arrastados, e que muitas vezes eles levaram para o mal durante a vida terrena.
97l-a. Então a morte não nos livra da tentação?
— Não; mas a ação dos maus Espíritos é muito menor sobre outros Espíritos do que sobre os homens, pois aqueles não estão sujeitos às paixões materiais. (Ver item 996.)

972. Como procedem os maus Espíritos para tentar os outros Espíritos, se não dispõem do auxílio das paixões ?
— Se as paixões não existem materialmente, existem, entretanto, no pensamento dos Espíritos atrasados. Os maus entretém esses pensamento, arrastando suas vítimas aos lugares onde deparam com essas paixões e com tudo o que as possa excitar.
972a - Mas para que servem essas paixões, se lhes falta o objeto real?
— Assim é precisamente para o seu suplício: o avarento vê o ouro não pode possuir; o devasso, as orgias de que não pode participar, etc..

973. Quais os maiores sofrimentos a que os maus Espíritos se verão sujeitos!
— Não há descrição possível das torturas morais que constituem a punição de certos crimes. Os próprios Espíritos que as sofrem teriam dificuldades em vos dar uma idéia. Mas seguramente a mais horrível é o pensamento de serem condenados para sempre.

O homem tem das penas e dos gozos da alma após a morte uma idéia mais ou menos elevada, segundo o estado de sua inteligência. Quanto mais ele se desenvolve, mais essa idéia se depura e se desprende da matéria; compreende as coisas de maneira mais racional e deixa de tomar ao pé da letra as imagens de uma linguagem figurada. A rarão mais esclarecida nos ensina que a alma é um ser inteiramente espiritual e por isso mesmo não pode ser afetada pelas impressões que agem apenas sobre a matéria. Mas disso não se segue que esteja livre de sofrimentos, nem que não seja punida pelas suas faltas. (Ver item 237.)

As comunicações espíritas têm por fim mostrar-nos o estado futuro da alma, não mais como uma teoria mas como uma realidade. Colocam sob os nossos olhos as vicissitudes da vida de além-túmulo, mas ao mesmo tempo no-las apresentam como consequências perfeitamente lógicas da vida terrena. E embora destituídas do aparato fantástico criado pela imaginação dos homens, nem por isso são menos penosas para os que fizeram mau uso de suas faculdades. A diversidade dessas consequências é infinita, mas pode-se dizer de maneira geral: cada um é punido naquilo em que pecou. Assim é que uns o são pela incessante visão do mal que fizeram; outros pelos remorsos, o medo, a vergonha, a dúvida, o isolamento, as trevas, a separação dos seres que lhes são caros etc. (...)

V - PENAS TEMPORAIS:
Perg. 983 - O Espírito que expia as suas culpas numa nova existência, não passa por sofrimentos materiais? Assim, não é exato que após a morte a alma só tem sofrimentos morais?
- É bem verdade que, reencarnada, a alma encontra nas tribulações da vida o seu sofrimento; mas apenas o corpo sofre materialmente. Dizeis em geral que o morto já não sofre mais, mas isso nem sempre é verdade. Como Espírito, não sofre mais as dores físicas, mas segundo as faltas que tenha cometido a todas as privações da miséria; o orgulhoso, a todas as humilhações; aquele que abusa de sua autoridade e trata os seus subordinados com desprezo e dureza será forçado a obedecer a um senhor mais duro do que ele tenha sido.
Todas as penas e tribulações da vida são expiações de faltas de outra existência, quando não se trata de consequências das faltas da existência atual. Ao sairdes daqui compreendereis bem. O homem que se crê feliz na Terra porque pode satisfazer suas paixões é o que faz menos esforços para se melhorar. Em geral ele começa a expiar essa felicidade efêmera na própria vida que leva, mas certamente a expiará numa outra existência tão material como essa.

Perg. 984- As vicissitudes da vida são sempre a punição das faltas atuais?
— Não. Já o dissemos: são provas impostas por Deus, ou escolhida por vós mesmos quando no estado de Espírito e antes da vossa reencarnação, para expiar as faltas cometidas numa outra existência. Porque jamais a infração das leis de Deus, e sobretudo da lei da justiça, fica impune; se a punição não é feita nesta vida, o será necessariamente em outra. E por isso que aquele que é justo aos vossos olhos, vê-se frequentemente atingido pelo seu passado. (Ver item 393.)

Perg. 985. A reencarnação da alma num mundo menos grosseiro é uma recompensa?
-E' a consequência de sua purificação. Porque à medida que os Espíritos se purificam vão se encarnando em mundos mais e mais perfeitos, até que se tenham despojado de toda matéria e lavado de todas as manchas, para gozarem eternamente da felicidade dos Espíritos puros, no seio de Deus.

Nos mundos em que a existência é menos material do que neste, as necessidades são menos grosseiras e todos os sofrimentos físicos são menos vivos. Os homens não mais conhecem as más paixões que, nos mundos inferiores, os fazem inimigos uns dos outros. Não tendo nenhum motivo de ódio ou de ciúme, vivem em paz porque praticam a lei de justiça, amor e caridade. Não conhecem os aborrecimentos e os cuidados que nascem da inveja, do orgulho e do egoísmo e que constituem o tormento de nossa existência terrena. (Ver itens 172 e 182.)

Perg. 986. O Espírito que progrediu na sua existência terrena pode, às vezes reencamar no mesmo mundo?
— Sim, se não pôde cumprir a sua missão e ele mesmo pedir para completá-la numa nova existência. Mas isso não será mais, para ele, uma expiação. (Ver item 173.)

Perg. 987.O que acontece com o homem que, sem praticar o mal, nada fez para se libertar da influência da matéria?
— Desde que não deu nenhum passo na direção da perfeição, deve recomeçar uma existência semelhante à que deixou. Fica estacionário e é assim que pode prolongar os sofrimentos de sua expiação. (...)

09 - O pensamento de Emmanuel - Martins Peralva - pág. 227

38 - ESPIRITISMO E PENAS FUTURAS
Perg. — Em que se baseia a duração dos sofrimentos do culpado?
Resp. — No tempo necessário a que se melhore. Sendo o estado de sofrimento ou de felicidade proporcionado ao grau de purificação do Espírito, a duração e a natureza de seus sofrimentos dependem do tempo que ele gaste em melhorar-se. Item 1.004
Em matéria, pois, de castigos, depois da morte, refutamos, sim, na justiça da Lei que determina realmente seja dado a cada um conforme as próprias obras. Emmanuel

Estudaram os Espíritos minuciosamente, com Allan Kardec, o insigne e valoroso missionário da codificação, o tema "Das penas e gozos futuros". Surgiu, assim, com o advento do Espiritismo, numa época de intenso materialismo e de profundas transformações sociais, nova era para a humanidade estonteada. Era de esperanças e consolações.

Consolações e esperanças que nenhuma outra doutrina, além do Cristianismo, por ele revivido, conseguira trazer à face planetária. Com a Doutrina dos Espíritos, que desde o século passado brilha na consciência e no coração humanos, não mais a terrível concepção de um inferno absurdamente eterno, nem, os horrores de impiedoso purgatório.

E Emmanuel completa: "o Céu começará sempre em nós mesmos e o inferno tem o tamanho da rebeldia de cada um". Com o Espiritismo, o Amor de Deus passou a nova e sublime dimensão, alicerçada na magnanimidade. Cada um de nós se tornou responsável pelos próprios atos.

Mensageiros de Mais Alto vieram nos falar de situações transitórias, nos círculos espirituais inferiores, destinadas aos processos de auto-retificação. É possível — sinceramente o admitimos — que o ensino do inferno e do purgatório haja cumprido, nos idos da Humanidade, sua tarefa de reprimir, pelo temor, os abusos do homem, o que, no entanto, não mais se justifica, em nossos dias, quando somos convidados pela razão consciente a refletir, e, refletindo, darmos rumo ao nosso próprio destino.

Muito devemos a André Luiz no tocante a esclarecimentos sobre a vida além da morte, bem assim a outros autores, desencarnados e encarnados, cabendo-nos realçar a excelente monografia "A Crise da Morte", de Ernesto Bozzano. O ex-médico brasileiro, no entanto, vem transmitindo — de "Nosso Lar" a "Libertação" — farta literatura (seis notáveis livros) em que fornece segura orientação aos encarnados, que, antes, perguntavam, angustiados:

Como será a vida do Espírito, após a morte? Para onde iremos e como iremos? O que nos estará reservado? O que faremos lá e o que de nós será feito? Haverá céu? e inferno? Com o advento do Espiritismo — o Consolador prometido —, dissiparam-se, inteiramente, as dúvidas. Monografias de notáveis escritores focalizam o assunto.

Os Espíritos, atentos à argúcia filosófica de Allan Kardec, respondem às indagações, em todos os seus detalhes. Emmanuel estuda as diversas conceituações de inferno, referindo-se ao que, sobre ele, pensam hindus e chineses, egípcios e gregos, hebreus e persas, romanos e escandinavos, muçulmanos e vários setores da atividade cristã.

E, ao estudar tão velho quanto palpitante tema, o esclarecido Instrutor acentua: "Disse-nos o Cristo: O Reino de Deus está dentro de vós, ao que, de acordo com ele mesmo, ousamos acrescentar: e o inferno também." André Luiz, especialmente, servindo-se da missionária mediunidade de Francisco Cândido Xavier, tornaria mais claros, ainda, os ensinos. Que não há penas eternas, di-lo a Codificação.

Duvidamos, mesmo, que a idéia das penas eternas, mesmo nos círculos não-espíritas, tenha, na atualidade, sólida e convicta aceitação. Cremos nós que entre os divulgadores das penas eternas exista, já, para uso interno, a certeza de sua irrealidade. As leis humanas tendem a modificar-se e vão-se modificando sempre, com o objetivo, indisfarçável, de amparar o culpado.

De dar ao criminoso oportunidade não "de sofrer", mas de "regenerar-se", a fim de que, recuperado moral e espiritualmente, seja reintegrado na sociedade. Teriam de ser as leis divinas, criadas para tornar o homem feliz, inexoráveis, punitivas, cruéis, impiedosas, contrastando com a tolerante flexibilidade das leis dos homens ?!...

Em regiões sombrias do mundo espiritual, próximas à crosta terráquea, localizam-se, efetivamente, Espíritos culpados — criminosos, suicidas, hipócritas, devassos, etc. — mas "pelo tempo necessário a que se melhorem", pois que Deus nunca "obra caprichosamente". De dias, semanas, meses e anos pode ser, para o culpado, o tempo de sofrimento, segundo a natureza das faltas cometidas.

Tão logo surja, porém, a bênção do arrependimento sincero, começa o Espírito a preparar-se para a etapa seguinte: a da reparação dos males que haja praticado. Criadas pela vontade do culpado as condições de reabilitação, na Espiritualidade ou na Terra, encontram os Mensageiros de Deus recursos para instilar, em sua mente arrependida, já tocada pelo desejo de felicidade e de fuga ao desespero, elevados princípios que o levarão a soerguer-se, confiante, do báratro escuro para a renovação luminosa.

É profundamente humana a mensagem que o Espiritismo trouxe à Humanidade. Confortador é o ensino por ele trazido a todos os homens que lhe dediquem alguns momentos de atenção, buscando conhecer-lhe as sublimes verdades. Nada, portanto, de inferno, nem de purgatório, com suas penas eternas e seus terríveis efeitos.

A Doutrina Espírita preconiza, como realidade espiritual depois da morte, regiões de sofrimento transitório, criadas pelas mentes culpadas, cuja duração estará na razão inversa do esforço do culpado para readaptar-se ao Bem, jamais condicionada ao cruel arbítrio de inexoráveis leis que o banissem das planícies da alegria e da esperança renovadora, para lançá-lo nos ignescentes labirintos do eterno desespero...