PERCEPÇÃO
BIBLIOGRAFIA
01- A crise da morte - pág. 57, 88 02 - A evolução anímica - pág. 126
03 - Allan Kardec - vol. 2 pág. 163 04 - Análise das coisas - pág. 108
05 - Antologia do Perispírito - ref. 946 06 - As aves feridas na Terra voam - pág. 23
07 - Como melhorar sua comunicação - pág. 24 08 - Desenvolvimento mediúnico - pág. 25
09 - Magnetismo espiritual - pág. 82 10 - Manual e Dic. Básico do Esp. - pág. 84
11 - Mãos de luz - pág. 24, 29, 118 12 - O consolador - pág. 103
13 - O Livro dos Espíritos - q. 82, 95, 182, 216, 237, 422,587 14 - O mestre na educação - pág. 41
15 - Parapsicologia hoje e amanhã - pág. 33

16 - Pérolas do além - pág. 190

17 - Psi quântico - pág. 95 18 - Pureza Doutrinária - pág. 38

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PERCEPÇÃO – COMPILAÇÃO

02 - A evolução anímica - Gabriel Delanne - pág. 126

No estudo da alma, a velha psicologia servia-se exclusivamente do senso íntimo. Afigurava-se-lhe racional, para conhecê-lo, estudar o ego pensante, em si mesmo, examinar os diferentes atos da vida do espírito, classificá-los segundo a sua natureza e examinar as relações existentes entre eles. Assim procederam todos os filósofos, da mais remota antiguidade aos nossos dias. Tal método, porém, não basta à explicação de muitos fenômenos intelectuais. Não se pode conciliar, por exemplo, a natureza da alma com a vida intelectual inconsciente, que, no entanto, forma a base do nosso espírito, visto não ser possível presumir estados inconscientes no que é, de si mesmo, consciente.

Os progressos da fisiologia contemporânea evidenciaram a ligação íntima da alma com o corpo. Ficou assentado, extreme de quaisquer dúvidas, que as manifestações do Espírito encarnado são absolutamente dependentes do sistema nervoso. Ela, a fisiologia, demonstrou, com provas e contraprovas, que toda a alteração ou destruição do elemento nervoso acarretava distúrbios e mesmo supressão de manifestações intelectuais. Mais adiante, veremos que a destruição de certas partes do cérebro determina a perda da palavra articulada, do conhecimento da palavra escrita, ou paralisa a audição da palavra falada, conforme a parte do encéfalo lesada.
Essa correlação do estado mórbido do corpo com o desaparecimento de uma fração do intelecto, e, nos casos de cura, o restabelecimento da função coincidindo com a restauração dos tecidos, é a base da doutrina materialista, que faz da alma uma função do cérebro.

Não nos demoraremos no exame e confutação dessa teoria, porque há, em contradita, um fato peremptório, que demonstra haver pensamento sem cérebro, qual o da manifestação do Espírito após a morte. Entretanto, os fisiologistas, com o procurarem as bases físicas do espírito, prestaram-nos um grande serviço. Já dissemos que o perispírito é o molde do corpo. Estudar, pois, as modificações do sistema nervoso vale por estudar o funcionamento do perispírito, do qual esse sistema nervoso mais não é que uma reprodução material.

A força vital que impregna simultaneamente a matéria organizada e o perispírito é o agente intermediário do corpo e da alma. Qualquer modificação na substância física produzirá modificação da força vital, que, por sua vez, modificará o perispírito, nas mesmas condições de variação que sofrerá em si mesma. E, como esta força vital necessita de um suporte, de um substrato material, é no perispírito que ela o encontra, de sorte que as alterações sobrevindas ao corpo físico poderão ser conservadas, reproduzidas, mau grado às mutações perpétuas das moléculas orgânicas.

Em suma: a velha psicologia, fazendo da alma uma substância material, ficava reduzida a uma impotência absoluta para explicar a ação da alma sobre o corpo. Depois de se haver afadigado em demonstrar que uma e outro nada tinham de comum, não conseguia tornar compreensíveis as reações mútuas e incessantes. Os maiores gênios, os espíritos mais argutos, com Leibniz e Malebranchej fracassaram no tentame, por isso que ignoravam a verdadeira natureza da alma, que o Espiritismo veio revelar-nos.

Os materialistas, a seu turno, negando sistematicamente a realidade da alma e limitando-se a considerá-la não mais que uma emanação, um resultado do sistema nervoso psíquico, não podem fazer compreensível o eu, o que se conhece a si mesmo — fenômeno este transcendente, que lhes escapa, dado que nada se lhe pode comparar em a natureza física. Assim, ficam reduzidos a imaginar teorias inverossímeis, quando pretendem conciliar a perpetuidade da lembrança com o renovamento incessante do organismo, ou ainda, a transformação de uma sensação em percepção.

Podemos, então, desde logo, emparelhá-los com os espiritualistas, visto que nem uns nem outros explicam corretamente os fatos psíquicos, só encarando unilateralmente a questão. Pois o Espiritismo vem conciliar essas doutrinas tão antagónicas. A noção de perispírito — nunca é demais repeti-lo — não é uma inventiva humana, uma concepção filosófica adrede destinada a remover todas as dificuldades, a fim de as extinguir, mas, antes, uma realidade física, um órgão até então ignorado, e que, por sua composição física, tanto quanto pela função que exerce no homem, explica todas as anomalias que as investigações de sábios e -filósofos jamais puderam dilucidar.

A indestrutibilidade e a estabilidade constitucional do perispírito fazem dele o conservador das formas orgânicas; graças a ele, compreendemos que os tecidos possam renovar-se, ocupando os novos o lugar exato dos antigos, e daí a manutenção da forma física, tanto interna como externa. Com ele, concebemos perfeitamente que uma alteração interna, como a produzida nas células nervosas pelas sensações do exterior, pode ser conservada e reproduzida, visto que a nova célula se constrói com a modificação registrada no envoltório fluídico.

O princípio vital é o motor do perispírito; é ele que lhe desenvolve as energias latentes e lhe ministra atividade durante a vida. Admitida a sua realidade, compreensível se torna a evolução dos seres: nascimento, crescimento, maturidade, decrepitude, morte. Alma e perispírito não fazem mais que um todo indissolúvel, e, se nós os distinguimos, é porque só a alma é inteligente, quer e sente. O invólucro é a sua parte material, o que vale dizer passiva: é a sede dos estados conscienciais pretéritos, o armazém das lembranças, a retorta em que se processa a memória de fixação, e é nele que o espírito se abastece, quando necessita de cabedais intelectuais para raciocinar, imaginar, comparar, deduzir, etc. Também receptáculo de imagens mentais, é nele que reside, finalmente, a memória orgânica e inconsciente.

O espírito é a forma ativa, o perispírito a passiva, e ambas, em seus aspectos, nos representam todo o princípio pensante. Vamos, tanto quanto possível, pôr em destaque estes caracteres particulares, e, uma vez melhor conhecida a natureza da alma, não mais ficaremos surpresos de ver desaparecerem por matizes insensíveis, pouco a pouco, os fenómenos conscientes, fundindo-se no inconsciente. Compreender-se-á melhor, então, o mecanismo da memória orgânica, e ninguém se admirará de vê-la assimilada à memória psíquica. Elas são da mesma natureza, possuem o mesmo território, formam-se pêlos mesmos processos, adquirem-se e perdem-se de igual maneira.

Sensação e percepção
Neste estudo e no subsequente, recorreremos às investigações dos cientistas contemporâneos, respigando em seus estudos, tão claros e convincentes, mas, precatando-nos para introduzir, na boa medida, o elemento perispírito, tornando, assim, compreensíveis os fenômenos, e dando-lhes uma explicação lógica, que de outra forma lhes faltaria. Distingamos, preliminarmente, a sensação da percepção. Quando um agente externo impressiona os sentidos, produz-se no aparelho sensorial uma certa alteração a que chamamos sensação. Essa modificação é transmitida ao cérebro pelos nervos sensitivos e, depois de um trajeto mais ou menos longo, chega às camadas corticais.

Nesse instante, dois casos podem apresentar-se: ou bem a alma toma conhecimento da alteração sobrevinda ao organismo e dizemos que há percepção, ou bem a alma não é advertida da ocorrência, a sensação registra-se sem embargo, mas fica inconsciente. Como anteriormente observamos, essa transformação da sensação (fenômeno físico) em percepção (fenômeno psíquico) torna-se absolutamente inexplicável desde que se não admita a existência do eu, ou seja, do ser consciente. Isto posto, examinemos mais atentos os fatos sucessivos que se encadeiam, do choque inicial à percepção.

Já sabemos que tudo é movimento na natureza. Os corpos que nos parecem em repouso não o estão nem exteriormente, de vez que participam do movimento da Terra, nem interiormente, de vez que as moléculas são incessantemente agitadas por forças invisíveis, que lhes dão as suas propriedades físicas particulares: estados sólidos, líquidos, gasosos e, para os sólidos, consistência, brilho, cor, etc. Também os tecidos do corpo estão em movimento, e, durante a longa travessia pelas formas inferiores, vimos como certas partes do corpo se diferenciaram pouco a pouco do conjunto, para engendrar os órgãos dos sentidos.

Essas modificações fixadas no perispírito iam cada vez mais encarnando-se na substância, à medida que aumentava o número de passagens pela Terra, e nós verificamos que não foram necessários menos do que milhões de anos para graduar o organismo ao nível em que o vemos hoje. Qual a natureza das modificações produzidas? Ensaiemos demonstrar que ela reside nos movimentos. Toda sensação — visual, auditiva, tátil ou gustativa — procede, originariamente de um movimento vibratório do aparelho receptor.

O raio luminoso que impressiona a retina, o som que faz vibrar o tímpano, a irritação dos nervos periféricos da sensibilidade, tudo isso se traduz por um movimento, diferente, segundo a natureza e a intensidade do excitante. O abalo propaga-se ao longo dos nervos sensitivos e, depois de um certo percurso no cérebro, chega, conforme a natureza da irritação, a uma zona especial da camada cortical, sendo aí que o movimento origina a percepção. Tocamos, aqui, no ponto obscuro, pois nenhum filósofo, nenhum naturalista pôde jamais explicar o que então ocorre.

Uns, como Luys, dizem que a força exalta-se, espiritualiza-se, o que vale por nada dizer; outros se contentam em dizer que a percepção pertence ao sistema neuropsíquico, quando modificado de certa maneira, o que vale por dotar a matéria das faculdades da alma, sem que nenhuma indução o justifique. A célula nervosa é o elemento que recolhe, armazena e reage. Operará por vibrações, como a corda tensa que oscila, quando deslocada da posição de equilíbrio? Ou, antes, consistirá o fenômeno numa decomposição química do protoplasma?

É questão não resolvida, mas o que há de certo é que uma alteração ocorreu. Desde então, a força vital modificou-se num certo sentido, sofreu um movimento vibratório particular, este se comunicou ao perispírito. É então que se dá o fenômeno da percepção, se a atenção for despertada. O Espírito não conhece diretamente o mundo exterior. Entaipado num corpo material, não percebe os objetos circundantes senão pelos sentidos, que lhos revelam. Ora, a luz, o som, só lhe chegam sob a forma de vibrações, diferentes segundo a cor, para a vista, e segundo a intensidade, para o som. Ele atribui um nome a tal ou qual natureza de vibrações, mas não conhece intrinsecamente a luz nem o som.

Exemplificando: a luz vermelha tem vibrações diferentes, em número, da luz violeta, e desde a infância nos ensinaram que a tal espécie de vibrações chama-se vermelho, e a tal outra, violeta. Pela mesma razão, tal vibração deverá atribuir-se ao som, aos odores, aos sabores, etc.: de sorte que o espírito não vê, mas sente a vibração correspondente ao vermelho; não sente tal odor, mas percebe a vibração que o determina, e o que lhe dá a impressão de uma nota musical é o número de vibrações perispirituais que, num segundo, correspondem a esse som.

O que dizemos de uma cor aplica-se a todas as cores, de modo que o globo ocular, que recebe milhões de vibrações diferentes, ao contemplar uma paisagem, ao ver uma ópera, transmite ao cérebro milhões de movimentos vibratórios, que se registram em sua substância e no seu perispírito, ao mesmo tempo e de um modo indelével. Já houve quem comparasse a célula psíquica ao fósforo, que, depois de sofrer a ação da luz, permanece luminoso na obscuridade. Nós, porém, como analogia, preferimos a comparação da placa sensível, que, impressionada pela luz, conserva para sempre, graças a uma reação química, fixo e indelével o traço da excitação luminosa.

Poder-se-á superpor nessa placa uma série de imagens, e qualquer que seja o número destas, em se sobrepondo incessantemente às precedentes, não as apagarão jamais. Haverá sempre uma adição, um amontoamento de imagens e nunca uma destruição, uma extinção das primitivas pelas supervenientes. Todo mundo está de acordo em que as modificações produzidas nas células são permanentes. Maudsley diz: "Na célula modificada produz-se uma aptidão e com ela uma diferenciação do elemento, ainda que nos não assista razão para acreditar que, originariamente, esse elemento diferisse das células nervosas homólogas."

Delboeuf opina: "Toda impressão deixa um traço inapagável, isto é: uma vez diversamente dispostas e forçadas a vibrar de outro modo, as moléculas jamais retornarão ao estado primitivo."E Richet: "Assim como na natureza não há, jamais, perda de energia cósmica, mas, apenas, transformação incessante, assim também nada se perde do que abala o espírito humano. "É a lei de conservação da energia, sob um ponto de vista diferente. Os mares ainda se agitam do sulco neles deixado pelas galeras de Pompeu, pois o abalo equóreo não se perdeu e apenas se modificou, difundiu-se, transformou-se em infinidade de pequenas ondas, que, a seu turno, se transmudaram em calor, em ações químicas ou elétricas.

Semelhantemente, as sensações que abalaram o meu espírito há 20 ou 30 anos, deixaram-me o seu sulco, ainda que esse sulco seja desconhecido de mim mesmo. Então, mesmo que não possa evocar a sua lembrança, ignorada e inconsciente em mim, posso afirmar que ela não se extinguiu e que essas velhas sensações, infinitas em número e variedades, exerceram sobre mim uma influência assaz poderosa." É fato averiguado que a repetição de palavras e frases de um idioma acaba por tornar-se uma operação automática para o espírito. Ele não mais procura palavras e frases, que lhe acorrem de si mesmas.

É uma verdade incontroversa, máxime em se tratando da língua materna. A memória consciente se esvanece e perde-se no inconsciente. Pois o que sucede com a linguagem ocorre com qualquer outra aquisição intelectual, seja matemática, física ou química, etc. Em todos nós, a tábua de multiplicação tornou-se automática; e, contudo, começamos por decorá-la conscientemente.
Estas afirmativas colocam-nos justo em face do problema que assinalamos — a ressurreição das lembranças prístinas, a despeito da renovação integral e global das células. Maudsley presume que a rapidez extraordinária das permutas nutritivas do cérebro, parecendo, à primeira vista, uma causa de instabilidade, explica, ao contrário, a fixação das lembranças:

"A reparação, efetuando-se sobre o trajeto modificado, serve para registrar a experiência. Não é uma simples integracão o que se dá, e sim uma reintegração. A substância restaura-se de um modo especial, o que faz com que a modalidade produzida seja, por assim dizer, incorporada ou encarnada na estrutura do encéfalo." De acordo, quanto ao resultado. Também acreditamos que os novos movimentos perispirituais, os que houverem sido determinados pela modificação da força vital da célula destruída, imprimem às células que se reformam as mesmas modificações que influenciaram as primeiras.

Mas, se não houver perispírito, que será que imprime nas células novas o antigo movimento? É a eterna questão: quem faz a restauração? Poder-se-á presumir não seja a célula inteiramente destruída; que o seu remanescente tomou o novo movimento e que as moléculas substituintes adotem o novo ritmo vibratório. Vamos supor que assim seja. Mas, em se dando nova permuta, haverá, necessariamente, diminuição de intensidade: 1.° por causa do tempo transcorrido; 2.° por causa da inércia das antigas moléculas a vencer. Renovada inúmeras vezes a operação — o que é tanto mais certo quanto extrema é a rapidez das permutas nutritivas —, o movimento primordial será tão fraco que se poderá dizê-lo quase desaparecido. E o que é verdade para uma célula também o é para um conjunto de células, de sorte que as sensações delas dependentes, e que, por associação, formam uma lembrança, ficarão quase apagadas na velhice do indivíduo.

Tais lembranças deveriam, pois, ser as primeiras a desaparecerem. Ora, o que se verifica é justamente o contrário, de vez que, nas pessoas idosas, as lembranças da infância são as mais persistentes. Em suma: se adotássemos essa hipótese, nenhuma sensação poderia conservar-se no ser, senão por tempo assaz limitado. Demonstrando-nos a experiência que assim não é, importa procurarmos outra explicação. Quando afirmamos ser no perispírito que reside a conservação do movimento, damos como prova direta a manifestação da alma após a morte.

Ela, a alma, se nos revela dotada de todas as faculdades e lembranças, não apenas de sua última encarnação, mas abrangendo longos períodos pretéritos. Acreditamo-nos, portanto, mais próximos de uma explicação adequada aos fatos do que aqueles que atribuem o pensamento à massa fosfórica de há muito destruída, quando a alma é imortal.

Condições da percepção
Para que uma sensação seja percebida, ou por outra, para que se torne um estado consciencial, há que notar duas condições indispensáveis, a saber: a intensidade e a duração.
1.° — A intensidade é condição de tipo assaz variável, mas faz-se preciso um mínimo para que se verifique a percepção. Nós não ouvimos os sons muito brandos, nem temos sabores de somenos. Temos logrado meios de diminuir, graduar a intensidade, graças ao invento de aparelhos que nos aumentam os sentidos, quais o microscópio, o telescópio, o telefone, etc. É por não guardarem intensidade constante que as percepções diminuem insensivelmente, até não mais poderem ficar presentes ao espírito, caindo, assim, "abaixo dos domínios da consciência".

2.° — A duração — O tempo necessário para que uma sensação seja percebida, ou por outra, para que o espírito tome conhecimento do movimento perispiritual, foi determinado há uma trintena de anos para as diversas percepções.
A do som faz-se ao fim de 0",16 a 0",14; a do tato em 0",21 a 0",18; a da luz em 0",20 a 0",22.
Para o mais simples ato de discernimento, o mais próximo do reflexo, temos 0",02 a 0",04.

Se bem que os resultados variem conforme os experimentadores, as pessoas, as circunstâncias e a natureza dos atos psíquicos estudados, ficou, pelo menos, estabelecido que cada ato psíquico requer uma duração apreciável, e que a pretensa velocidade infinita do pensamento não passa de metáfora. Isto posto, é claro que toda ação nervosa, cuja duração seja inferior à requerida pela ação psíquica, não pode despertar a consciência. Para que uma sensação se torne consciente é imprescindível que o movimento perispiritual tenha uma certa duração, sem o que se fará o registro sem que a alma tenha dele conhecimento.

Tal como o fazemos em relação à intensidade, notaremos que um ato inicialmente dificultoso, e que demanda um certo tempo, torna-se mais fácil e mais rápido, quanto mais repetido. Ao fim de muitas repetições, o tempo exigido será tão curto que o eu não mais o percebe e ele se torna, então, inconsciente.

O inconsciente psíquico
Gravam-se, portanto, no perispírito as sensações, com uma certa durabilidade. Há que observar, contudo, que elas não permanecem no campo da consciência. Desaparecem, momentaneamente, para dar lugar a outras, e tornam-se, por assim dizer — inconscientes. A mesma coisa dá-se em relação a tudo que temos visto, lido e aprendido. Por conseguinte, desde o nascimento, nossa alma cria uma reserva imensa de sensações, volições, idéias, de vez que, como veremos, o mecanismo mediante o qual a alma atua sobre a matéria é igualmente mantido no invólucro fluídico.

Cada painel contemplado, cada leitura que fazemos, deixa em nós um traço. As idéias ligam-se e entrosam-se por lei de associação, que também prevalece para as sensações e percepções. O território em que se escalonam esses materiais, copiosos e multifários, é o perispírito. É nele que coabitam essas aquisições todas, sem riscos de baralhamento. Delas poder-se-ia dizer que constituem a biblioteca de cada ser pensante. É esse tesouro que denominamos — o inconsciente. Tem, portanto, o Espírito o seu armazém de idéias e sensações.

Podemos compará-lo a um sábio, cujos conhecimentos estivessem escritos em livros separados, mas dispostos em ordem imutável e religando-se uns aos outros, ao mesmo tempo que representando, cada qual, uma fração de cérebro e de perispírito, por isso que um e outro são inseparáveis durante a encarnação.

Quer o sábio estudar a física, por exemplo? Basta abrir — na figura da nossa comparação — o livro em que estiver inscrito o que reteve sobre essa ciência. Na realidade, o que ele faz é despertar, voluntariamente, os conhecimentos que em si jazem no estado passivo, isto é, sob a forma de ínfimos movimentos vibratórios. Faz com que voltem ao estado ativo, ou por outra: - eles revertem do inconsciente ao consciente, por um aumento de vibratilidade perispiritual, e, consequentemente, das células em que estão registrados. É uma revivscência que ocorre normalmente, mas que também pode apresentar lacunas, conforme a idade e o estado de saúde do recorrente. (...)


13 - O Livro dos Espíritos - Allan Kardec - questões:. 82, 95, 182, 216, 237, 422, 587

Perg. 82 - É certo dizer que os Espíritos são imateriais?
- Como podemos definir uma coisa, quando não dispomos de termos de comparação e usamos uma linguagem insuficiente? Um cego de nascença pode definir a luz? Imaterial não é o termo apropriado; incorpóreo seria mais exato, pois deves compreender que, sendo uma criação, o Espírito deve ser alguma coisa. É uma matéria quintessenciada, para a qual não dispondes de analogia, é tão eterizada, que não pode ser percebida pelos vossos sentidos.

Perg. 95 - O envoltório semi-material do Espírito tem formas determinadas e pode ser perceptível?
- Sim, uma forma ao arbítrio do Espírito; e é assim que ele vos aparece algumas vezes, seja nos sonhos, seja no estado de vigilia, podendo tomar uma forma visível e mesmo palpável.

Perg. 182 - Podemos conhecer exatamente o estado físico e moral dos diferentes mundos?
- Nós, Espíritos, não podemos responder senão na medida do vosso grau de evolução. Quer dizer que não devemos revelar estas coisas a todos, porque nem todos estão em condições de compreendê-las, e elas os perturbariam.

Perg. 216 - O homem conserva, em suas novas existências, os traços do caráter moral das existências anteriores?
- Sim, isso pode acontecer. Mas ao melhorar-se, ele se modifica. Sua posição social também pode não ser a mesma. Se de penhor ele se torna escravo, suas inclinações serão muito diferente e teríeis dificuldades em reconhecê-lo. O Espírito sendo o mesmo, nas diversas encarnações, suas manifestações podem ter, de uma para outra, certas semelhanças. Estas, entretanto, serão modificadas pelos costumes da nova posição, até que um aperfeiçoamento notável venha a mudar completamente o seu caráter, pois de orgulhoso e mau pode tornar-se humilde e humano, desde que se haja arrependido.

Perg. 237 - A alma, uma vez no mundo dos Espíritos, tem ainda as percepções que tinha nesta vida?
- Sim, e outras que não possuía, porque o seu corpo era como um véu que a obscurecia. A inteligência é um atributo do Espírito, mas se manifesta mais livremente quando não tem entraves.

Perg. 422 - Os letárgicos e os catalépticos vêem e ouvem geralmente o que se passa em torno deles, mas não podem manifestá-lo; é pelos olhos e os ouvidos do corpo que o fazem?
- Não, é pelo Espírito; o Espírito está consciente, mas não pode comunicar-se.

Perg. 422a - Por que não pode comunicar-se?
- O estado do corpo se opõe a isso. Esse estado particular dos órgãos vos dá a prova de que existe no homem alguma coisa além do corpo, pois este não está funcionando e o Espírito continua a agir.

Perg. 587 - As plantas têm sensações? Sofrem quando mutiladas?
- As plantas são fisicamente afetadas por ações sobre a matéria, mas não têm percepções; por conseguinte, não têm a sensação de dor.