PERSONALIDADE
BIBLIOGRAFIA
01- A evolução anímica- pág. 123, 152 02 - Alquimia da mente - pág. 34, 98
03 - Antologia do Perispírito - ref. 580, 738 04 - Convites da vida - pág. 157
05 - Correlações espírito matéria - pág. 13 06 - Deus na Natureza - pág. 224
07 - Dinâmica Psi - pág. 138 08 - Do país da luz - vol. 1 pág. 110
09 - E a vida continua - pág. 85 10 - Forças sexuais da alma - pág. 13
11 - Hipnotismo e espiritismo - pág. 35 12 - Magnetismo espiritual - pág. 182
13 - Mediunidade - pág. 111 14 - Mensagens de além túmulo - pág. 85
15 - No limiar do infinito - pág. 29

16 - O consolador - pág. 72, 127

17 - O homem novo - pág. 107 18 - O Livro dos Espíritos - q. 119, 188, 366
19 - O ser subconsciente - pág. 61, 78 20 - Palingênese, a grande lei - pág. 106
21 - Pérolas do além - pág. 192 22 - Ressurreição e vida - pág. 214
23 - Resumo da Doutrina Espírita - pág. 183 24 -

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PERSONALIDADE – COMPILAÇÃO

01- A evolução anímica - Gabriel Delanne - pág. 123, 152

A personalidade
Já vimos que a memória é uma condição quase indispensável à personalidade, pois ela é que liga o estado de atualidade aos estados anteriores, e nos afirma sermos hoje o mesmo indivíduo de há vinte anos. É a memória que constitui a identidade, porquanto, ao mesmo passo que persistem as sensações presentes, surgem, por ela evocadas, as imagens antigas, que são, senão idênticas, ao menos muito análogas. Uma árvore, por exemplo, vista agora — imagem presente, atual —, desperta em nosso espírito meia dúzia de lembranças quase idênticas, embora estejamos contemplando uma outra árvore. Do mesmo modo, um barco suscitará outra meia dúzia de imagens que serão ainda idênticas, seja qual for o barco entrevisto.

Ainda em consequência da associação e complexão das idéias, não será preciso avistar um barco para reviver essas lembranças, que poderão aflorar da contemplação de uma praia, de um rio, de um objeto qualquer que lembre, ainda que longínqua, a idéia de barco.
Nossa consciência está, por conseguinte, sempre presente a um certo e limitado número de imagens remotas, e sempre as mesmas, mais ou menos. Essas imagens, iterativamente reconduzidas ao mesmo ego, constituirão a personalidade do indivíduo, que se tornou estável, pela comunidade das mesmas.

Se, em consequência de um estado psíquico qualquer, as imagens ordinárias e comumente presentes à consciência, se obliterarem de chofre, e se, por outro lado, aparecerem imagens até então desconhecidas, segue-se que o mesmo eu não mais se reconhece, julga-se outro e é todo um novo estado conscièncial que emerge. Emerge, porém, na mesma individualidade. Os sonâmbulos apresentam, quase sempre, esse caráter, esquecendo-se, ao despertarem, do que se passou no sono. Mas, o que prova a integridade individual é que o segundo aspecto da personalidade, isto é, o personagem sonambúlico, conhece a pessoa normal, como veremos dentro em breve.

Essa falta de ligação, essa descontinuidade entre dois períodos da mesma existência psíquica, explica todos os fenômenos, desde que se tenha em vista um segundo fator da personalidade, que é o sentimento da vida. Todos temos a noção de vivermos corporalmente, como bem o demonstrou Louis Pisse em contradita à doutrina de Jouffroy, que afirmava não conhecermos o corpo senão de um modo objetivo, tal como con: pano, um móvel, etc.

O médico filósofo responde: "Será mesmo verdade que absolutamente não tenhamos consciência do exercício das funções orgânicas? Se com isso quisermos dizer que se trata de uma consciência clara, distinta, de locação determinável, qual a proveniente das impressões exteriores, é evidente que a não temos; mas, isso não obsta a que tenhamos uma consciência surda inaudível, obscura e, por assim dizer, latente e análoga, por exemplo, a que provoca e acompanha os movimentos respiratórios, sensçações que, apesar de incessantemente repetidas, passam por despercebidas.

"Não poderíamos, então, considerar como ressonância longínqua, fraca e confusa do trabalho vital; esse notório sentimento que, sem descontinuidade nem remissão, nos adverte da existência e atualidade do corpo? "O caso é que, as mais das vezes sem razão, se tem confundido esse sentimento com as impressões acidentais ou locais, que, na vigília, despertam, estimulam e entretém o jogo da sensibilidade.

"Estas sensações, ainda que incessantes, não fazem senão aparições fugazes e transitórias no teatro da consciência, ao passo que o sentimento em apreço dura e persiste, abaixo do cenário móbil. Condillac chamava-lhe com muita propriedade, o sentimento fundamental da vida, e Maine de Biran - o sentimento da existência sensitiva. É por ele que o corpo se figura ao eu como propriedade sua, e que o Espírito se reconhece, de qualquer modo existente e íntegro, na extensão do seu organismo. Monitor perpétuo e indefectível, ele fornece à consciência, incessantemente, o controle do corpo, manifestando assim, da maneira mais íntima, o laço indissolúvel da vida psíquica e da vida fisiológica.

"No estado normal de equilíbrio que caracteriza a saúde perfeita, esse sentimento é, qual dizíamos, contínuo, uniforme, sempre igual, o que lhe impede chegar ao eu no estado de sensação distinta, especial e local. Para que se torne distintamente notado, faz-se-lhe preciso adquirir uma certa intensidade. "Nesse caso, traduz-se por uma vaga sensação de bem-estar ou de indisposição geral, indicando, no primeiro caso, uma simples exaltação do ato vital fisiológico, e, no segundo a perversão patológica do mesmo ato. Mas, neste caso, também não tarda a localizar-se a forma de sensação particular.

"Vezes há em que também se revela de maneira mais indi-reta, e, no entanto, bem mais evidente, que é quando vem a falhar em dada região do organismo, como, por exemplo, num mpmbro atingido de paralisia. Tal membro prende-se ainda materialmente ao agregado vivo, mas desprende-se da esfera do eu orgânico, se assim nos permitem dizer. Ele deixa de ser percebido pelo eu como propriedade sua, e o fato dessa separação, ainda que negativo, traduz-se por uma sensação positiva, particular, conhecida de quem quer que tenha experimentado o entorpecimento completo de um membro, seja pela friagem, ou por compressão nervosa.

"Essa sensação não é mais que a expressão da espécie de falha, ou queda, que sofreu o sentimento universal da vida corpórea, e prova que o estado vital do membro era real, ainda que obscuramente sentido, constituindo um dos elementos parciais do sentimento geral da vida do todo orgânico."Assim, o ruído monótono da carruagem que nos conduz acaba por se tornar despercebido, mas, se a carruagem pára de súbito, logo perceberemos a cessação do ruído.

"Esta analogia pode facilitar a compreensão da natureza e do modo existencial do sentimento básico da vida orgânica, que não seria, nesta hipótese, mais que uma resultante, in confuso, das impressões produzidas, em todos os pontos vivos, pelo movimento intrínseco das funções, trazido diretamente ao cérebro pelos nervos cerebro-espinais, ou, mediatamente, pelos nervos do sistema ganglionar."

O que precisamos reter é que a individualidade constitui-se sobre a qual as sensações virão enxertar-se e servir-lhe de laço. O perispírito animado pela força vital é que dá à alma o sentimento intimo e profundo do eu. Sejam quais forem, mais tarde, as variações do estado consciente, sempre restará esse sentimento para reatar entre si os diferentes processos da vida mental, desde que as condições associativas de alma e corpo se mantenham invariáveis.

Há uma certa tonicidade geral do sistema nervoso, mediante a qual as sensações se registram. Se essa tonicidade alterar-se, variam os mínimos de intensidade e durabilidade indispensáveis à percepção. Sem embargo, o registro faz-se, mas a alma não tem dele consciência quando retorna à tonicidade normal. Com alguns exemplos, far-nos-emos compreender melhor.

As alterações da memória pela enfermidade

Um doente foi, em pleno consultório, acometido de ataque epiléptico. Breve recobrou os sentidos, mas esquecido de haver pago de antemão a consulta médica.

Outro epiléptico, caindo numa loja, levantou-se presto, e fugiu, deixando chapéu e carteira. "Só voltei a mim — dizia —, depois de percorrer um quilômetro; procurava o chapéu em todas as lojas, mas, na verdade, sem noção do que fazia. Esta, a bem dizer, só me veio uns 10 minutos depois, quando chegava à estação do caminho de ferro."

Um empregado de escritório foi, em plena atividade, e sem outro qualquer distúrbio, assaltado de idéias confusas. Lembrava-se, apenas, de haver jantado no restaurante, e depois disso nada lhe ocorria. Voltou ao restaurante e lá lhe disseram que jantara, pagara e saíra bem disposto, como se nada sentisse. A obnubilação durara três quartos de hora, mais ou menos.(..)

06 - Deus na Natureza - Camille Flammarion- pág. 224

II - A PERSONALIDADE HUMANA

Felizmente para as grandes e respeitáveis verdades de ordem moral, não estamos reduzidos a curvar a cabeça diante de tão grosseira conclusão. Como nos dias decantados pelo célebre autor latino das Metamorfoses, temos nascido para ficar de pé e contemplar o céu.
Certo, poderíamos invocar aqui o testemunho imponente dos sentimentos mais profundos da natureza humana; poderíamos evidenciar, à luz meridiana, que, nestas doutrinas perniciosas não há mais lugar para a esperança, moral para a consciência, luz para os pendores do coração; bondade natural, justiça na ordem universal, consolação para o aflito e mais — que a população do globo não mais tem à sua frente nenhuma finalidade, nenhuma claridade, nenhuma lei intelectual.

Rolando, por aí além, turbilhonante, levada no espaço obscuro pela rotação e translação rápidas-do globo e renovando-se a cada instante pelo nascimento e morte de seus membros, ela — a Humanidade — não passa, à superfície desse globo, de bolorento parasita cegamente desabrochado e perpetuado por forças químicas. Sim. Poderíamos, invocando o testemunho dos corações que ainda pulsam, e das almas que ainda crêem, dispor em linha de batalha os argumentos ainda vivazes da Filosofia, da Psicologia e derribar o adversário, constrangendo-o a confessar-se vencido. Todavia, como preferimos combater no mesmo terreno e com as mesmas armas, pretendendo refutá-los só em nome da Ciência de que se dizem intérpretes, apraz-nos permanecer no campo exclusivamente científico e desdenhar, qual o fazem eles, os silogismos da Psicologia.

Deixamos, assim, sem resposta as seguintes proposições adversas e os comentários com que as esticam: — "As leis da Natureza são forças bárbaras, inflexíveis; não conhecem, a moral nem a benevolência." (Vogt). "À Natureza não ouve as queixas nem as preces do homem, antes as repele inexoravelmente em si mesma." (Fuerbach). "Sabemos, por experiências próprias, que Deus absolutamente não se imiscui, de qualquer forma, nesta vida terrestre." (Lutero).

Aí temos conceitos bem consoladores, não é assim ? Mas, repetimos: o sentimento não é cabedal científico e por isso não entraremos nesse capítulo. Esta abstenção não nos impede, bem entendido, de convidar o leitor a meditar e decidir para que lado lhe pendem o coração e a razão. Mas, apenas do ponto de vista da observação científica e deixando de lado os pendores do coração e os imperativos da consciência — que não deixam de algo ser na história da alma — dizemos que fatos há, nos domínios da observação pura, completamente inexplicáveis na hipótese materialista.

No precedente capítulo, o leitor ainda pode ficar suspenso entre as duas hipóteses, porquanto apresentamos fatos mutuamente oscilantes, que deixam o espírito indeciso, quanto ao centro de gravidade. Agora, porém, o centro de gravidade vai passar ao corpo das doutrinas espiritualistas, e os que o não seguirem muito se arriscarão a desequilibrar-se e a cair, rápido, no mais vazio dos vácuos.
Exponhamos, em primeiro lugar, as afirmativas materialistas contra a existência da alma, e, para não falar só dos estranhos e fazer ao mesmo tempo o histórico do materialismo em nosso país, escutemos Broussais, cuja obra foi o primeiro toque de reunir dos nossos modernos epicuristas e inaugurou, em nosso século, a primeira fase desse curso pouco luminoso.

Para Broussais, como para Cabanis, Locke e Condillàc, o homem é, simplesmente, o conjunto de órgãos em função. O eu, a personalidade humana não é um ser sui generis, é um fato , é um resultado, é um produto imputável a tal ou qual disposição da matéria. Inteligência e sensibilidade são funções do aparelho nervoso, mais ou menos como a transformação dos alimentos em quilo e sangue é função do aparelho digestivo, ou respiratório. A existência da alma não é mais que uma hipótese que se não funda em observação qualquer, que nenhum raciocínio autoriza, por gratuita e até mesmo destituída de senso. Reconhecer no homem mais que um sistema orgânico, é cair nos absurdos da Ontologia.

Cabanis, no seu livro bem conhecido, e Destutt de Tracy, na sua análise racional das relações do físico com o moral, emitem as mesmas opiniões, mas, sob forma menos explícita. Segundo os exagerados defensores da doutrina da sensação, a pessoa humana confunde-se nas funções orgânicas. Na realidade, não existe. Todos os homens, em todos os tempos e por toda a parte, acreditaram na existência pessoal, sentiram-se viventes e pensantes; todas as línguas enunciaram, nas primeiras páginas dos anais humanos, a existência do pensamento individual, a alma, a inteligência, o espírito, não importa sob que nome (poderíamos encher uma página de nomes primitivos, arianos, sânscritos, gregos, latinos, celtas, etc., mas, uma tal nomenclatura não se faz necessária, e nossos leitores certo sabem da existência desses vocábulos). O bom senso popular, tanto quanto o génio filosófico, espontaneamente acreditaram, desde que o mundo é mundo e há seres racionais na Terra, que existe em nosso corpo algo mais que a matéria, uma consciência própria, sem a qual não existiríamos e que se comprova a si mesma, pelo só fato da certeza íntima.

Enfim, todos sentiram que o corpo, nem tão-pouco o mundo exterior, constituem a entidade pensante. Entretanto, a Humanidade do passado, como do presente, parece que não leva em conta a opinião dos materialistas. Felizmente para nós, eles aí estão a esclarecer-nos de ora em diante, convidando-nos a reconsiderar a ingenuidade das nossas crenças. Como bem o disse um fino espiritualista (o duque de Broglie, nos Êcrits et Discours, t. I). "Até aqui, caros amigos, dizem eles, acreditastes que existíeis e tínheis um corpo; mas, desenganai-vos, porque não eocistis e é o corpo que vos possui. Só existis na aparência, o que chamais o eu, não passa de simples vocábulo, um não sei quê, destituído de realidade e consistência; e o que realmente existe, no fundo de tudo isso, é alguma coisa de que não tendes consciência, nem ela tão-pouco a tem de vós."

No parecer de Broussais com os seus colegas e discípulos, o eu é o cérebro. O pensamento, todos os fenômenos inteligentes, são excitações da matéria cerebral ou, para usar a mesma linguagem do Autor — condensações da mesma matéria. E, seja de que natureza for, toda a percepção mental está neste caso. Dor, alegria, saudade, julgamento, comparação, determinação, entusiasmo, desejo, tudo é condensação. Se houver fenômenos complexos nesse laboratório do pensamento, quais uma série de raciocínios sucessivos partidos de uma impressão inicial, mesmo do exterior e culminando em ato voluntário, serão ainda condensação de condensações. Estas são o próprio pensamento, que não passa de consequência, de resultante, condensação mesma das fibras do encéfalo..." Meu Deus! Que bela coisa é a Ciência e como o Sr. Broussais possuía uma imaginação bem condensada!

Sentir-se sentir, eis a fórmula e o único fato consciencial admitido por Broussais. Ora, qual o órgão que sente no organismo humano? Incontestàvelmente, o cérebro. Logo, ele é o eu e todas as percepções do pensamento não passam de excitações da substância cerebral. Coisa que parece simples, mas desafia um ligeiro reparo. Temos visto que o cérebro é massa carnosa, pesando três libras mais ou menos e composta de medula, fibras brancas ou pardas, gordura fosforada, água, albumina, etc. Ora, entre essas substâncias, qual a pensante? A água? o fósforo? a albumina? o oxigênio?

Se a faculdade de pensar está ligada a uma simples molécula, a um átomo real, não tendes o direito de negar a imortalidade da alma, pois, neste caso a faculdade de pensar participaria do destino do átomo indestrutível. Seria preciso, pois, admitir que esse átomo se libertou, desde logo, do movimento, para ficar imóvel, talvez no fundo da glândula pineal. Admitindo-se, agora, seja cada molécula capaz de sentir em conformidade com a natureza das sensações, esse pretenso eu já não estará no singular, mas no plural, haverá tantos eus (!) quantas moléculas cerebrais. Os léxicos não conheciam esse vocábulo e, doravante, deverão perfilhá-lo.

O homem jamais suspeitara que continha em si diversas personalidades, pois os próprios gregos, com as suas múltiplas designações possíveis, não tinham visto nisso senão faculdades várias e diversas maneiras de ser de uma única e mesma alma. Mas, cada molécula é, por sua vez, um agregado de átomos, de corpos simples, diversos e diversamente combinados. Teremos, então, cada átomo a pensar agora? Eis-nos caídos na mais absurda e inimaginável das hipóteses. Essa contradição entre a unidade inconteste do ser pensante e a multiplicidade, não menos inconteste, dos elementos cerebrais, reduz a zero a pretensão de fazer da consciência pessoal uma propriedade do encéfalo.

Nota curiosa: esses senhores não se precatam de que assim racionando regridem aos arqueus de Van Helmont, a pretexto de progresso. Não lhes falta mais que os espíritos animais, dos tempos de Descartes e Malebranche, para nos vermos recuados a mais de dois séculos, anteriores à origem da própria Fisiologia.

Não temos no âmago da consciência a certeza da nossa unidade? Percebe-se o pensamento qual mecanismo composto de várias peças, ou como um ser simples? Todos os fenómenos ativos de nossa alma depõem a favor dessa unidade pessoal, visto como, na sua variedade e multiplicidade, estão grupados em torno de uma percepção íntima, de um julgamento e de uma faculdade de generalizações únicas. Sentimos, em nós mesmos, essa unidade pessoal, sem a qual pensamentos e atos não mais se ligariam por qualquer laço e nenhum valor teriam as nossas determinações.

E' esse um fato tão firmemente enraizado na consciência e tão inatacável, que as contradições aparentes que se lhe podem opor redundam, em definitivo, a seu favor. Se, por exemplo, certa faculdade de nossa alma em suas apreciações, parece poder concluir-se que há complexidade na maneira operatória do espírito. (...)

16 - O consolador - Emmanuel - pág. 72, 127

Perg. 211 - Como compreender a noção de personalidade?
- A compreensão da personalidade, no mundo, vem sendo muito desviada de seus legítimos valores, pelos espíritos excêntricos, altamente preocupados em se destacarem no vasto mundo das letras. Entendem muitos que "ter personalidade" é possuir espírito de rebeldia e de contradição na palavra sempre pronta a criticar os outros, no esquecimento de sua própria situação. Outros entendem que o "homem de personalidade" deve sair mundo a fora, buscando posições de notoriedade em falsos triunfos, porquanto exigem o olvido pleno dos mais sagrados deveres do coração.
Poucos se lembraram dos bens da humildade e da renúncia, para a verdadeira edificação pessoal do homem, porque, para a esfera da espiritualidade pura, a conquista da iluminação íntima vale tudo, considerando que todas as expressões da personalidade prejudicial e inquieta do homem terrestre passarão com o tempo, quando a morte implacável houver descerrado a visão real da criatura.

Perg. 212 - O homem sem grandes possibilidades intelectuais é sempre um homem medíocre?
- O conceito de mediocridade modifica-se no plano de nossas conquistas universalistas, depois das transições da morte. Aí no mundo, costumais entronizar o escritor que enganou o público, o político que ultrajou o direito, o capitalista que se enriqueceu sem escrúpulos de consciência, colocados na galeria dos homens superiores, capitalista que se enriqueceu sem escrúpulos de consciência, colocados na galeria dos homens superiores. Exaltando-lhes os méritos individuais com extravagâncias louvaminheiras, muito falais em "mediocridade", em "rebanho", em "rotina", em "personalidade superior".
Para nós, a virtude da resignação dos pais de família, criteriosos e abnegados, no extenso rebanho de atividades rotineiras da existência terrestre, não se compara em grandeza com os dotes de espírito do intelectual que gesticula desesperado de uma tribuna, sem qualquer edificação séria, ou que se emaranha em confusões palavrosas na esfera literária, sem a preocupação sincera de aprender com os exemplos da vida.
O trabalhador que passa a vida inteira trabalhando ao Sol no amanho da terra, fabricando o pão saboroso da vida, tem mais valor para Deus que os artistas de inteligência viciada, que outra coisa não fazem senão perturbar a marcha divina das suas leis.
Vede, portanto, que a expressão de intelectualidade vale muito, mas não pode prescindir dos valores do sentimento em sua essência sublime, compreendendo-se, afinal, que o "homem medíocre" não é o trabalhador das lides terrestres, amoroso de suas realizações do lar e do sagrado cumprimento de seus deveres, sobre cuja abnegação erigiu-se a organização maravilhosa do patrimônio mundano.

Perg. 213 — Devemos acalentar a preocupação de adquirir os elementos do chamado magnetismo pessoal?
— Essa preocupação é muito nobre, mas ninguém suponha realizá-la tão-só com a experiência da leitura de livros pertinentes ao assunto. Não são poucos os que buscam essa literatura, desejosos de fórmulas mágicas no caminho do menor esforço.
Todavia, o que é indispensável salientar é que nenhum estudioso pode conquistar simpatia sem que haja transformado a coração em manancial de bondade espon
tânea e sincera. Na vida não basta saber. É imprescindível compreender. Os livros ensinam, mas só o esforço próprio aperfeiçoa a alma para a grande e abençoada compreensão. Esquecei a conquista fácil, a operação mecânica, injustificáveis nas edificações espirituais, e volvei a atenção e o pensamento para o vosso próprio mundo interior. Muita coisa aí se tem a fazer e, nesse bom trabalho, a alma se ilumina, naturalmente, aclarando o caminho de seus irmãos.

Perg. 214 — Como interpretar os impulsos daqueles que acreditam na influência dos chamados talismãs da felicidade pessoal?
— Criaturas há que, para manter sua energia espiritual sempre ativa, precisam concentrar a atenção em algum objeto tangível, visando os estados sugestivos indispensáveis às suas realizações, como esses crentes que não prescindem de imagens e símbolos materiais para admitir a eficácia de suas preces. Ficai certos, porém, de que o talismã para a felicidade pessoal, definitiva, se constitui de um bom coração sempre afeito à harmonia, à humildade e ao amor,no integral cumprimento dos desígnios de Deus.

Perg. 215 — Os chamados "homens de sorte" são guiados pêlos Espíritos amigos?
— Aquilo que convencionastes apelidar "sorte" representa uma situação natural no mapa de serviços do Espírito reencarnado, sem que haja necessidade de admitirdes a intervenção do plano invisível na execução das experiências pessoais. A "sorte" é também uma prova de responsabilidade no mecanismo da vida, exigindo muita compreensão da criatura que a recebe, no que se refere à misericórdia divina, a fim de não desbaratar o patrimônio de possibilidades sagradas que lhe foi conferido. (...)

18 - O Livro dos Espíritos - Allan Kardec - questões: 119, 188, 366, 505 783, 917, concl. III, VII

Perg. 119 - Deus pode livrar os Espíritos das provas que devem sofrer para chegar à primeira ordem?
- Se eles tivessem sido criados perfeitos, não teriam merecimento para gozar dos benefícios dessa perfeição. Onde estaria o mérito, sem a luta? De outro lado, a desigualdade existente entre eles é necessária à sua personalidade; e a missão que lhes cabe, nos diferentes graus, está nos desígnios da Providência, com vistas à harmonia do Universo.

Perg. 188 - Os Espíritos puros habitam mundos especiais, ou encontram-se no espaço universal, sem estar ligados especialmente a um globo? - Os Espíritos puros habitam determinados mundos, mas não estão confinados a eles como os homens à Terra; eles podem, melhor que os outros, estar em toda a parte.

Perg. 366 - Que pensar da opinião segundo a qual as diferentes faculdades intelectuais e morais do homem seriam o produto de outros tanto Espíritos diversos nele encarnados, tendo cada qual uma aptidão especial?
- Refletindo-se a respeito, reconhece-se que é absurda. O Espírito deve ter todas as aptidões. Para poder progredir, necessita de uma vontade única. Se o homem fosse um amálgama de Espíritos, essa vontade não existiria e ele não teria individualidade, pois na sua morte todos esses Espíritos seriam como um bando de pássaros escapos da gaiola. O homem se queixa muitas vezes de não compreender algumas coisas, mas é curioso ver-se como ele multiplica as dificuldades, quando tem em mãos uma explicação muito simples e natural. Isso é ainda toma o efeito pela causa: fazer com o homem o que os pagãos faziam com Deus. Eles criam em tantos deuses quantos os fenômenos do Universo. Mas, mesmo entre eles, as pessoas sensatas não viam nesses fenômeno mais do que efeitos, tendo por causa um Deus único.

Perg. 505 - Os Espíritos protetores que tomam nomes comuns são sempre os de pessoas que tiveram esses nomes?
- Não, mas de Espíritos que lhes são simpáticos, e muitas vezes vêm por ordem destes. Necessitais de um nome; então, eles tomam um que vos inspire confiança. Quando não podeis cumprir pessoalmente uma missão, enviais alguém de vossa confiança, que age em vosso nome.

Perg.783 - O aperfeiçoamento da Humanidade segue sempre uma marcha progressiva e lenta?
- Há o progresso regular e lento que resulta da força das circunstâncias; mas quando um povo não avança bastante rápido, Deus lhe provoca, de tempos a tempos, um abalo físico ou moral que os transforma.

Perg. 917 - Qual é o meio de se destruir o egoísmo?
- De todas as imperfeições humanas, a mais difícil e desraizar é o egoísmo, porque se liga à influência da matéria, da qual o homem, ainda muito próximo da sua origem, não pode libertar-se. Tudo concorre para entreter essa influência; suas leis, sua organização social, sua educação. O egoísmo se enfraquecerá com a predominância da vida moral sobre a vida material, e sobretudo com a compreensão que o Espiritismo vos dá quanto ao vosso estado futuro real e não desfigurado pelas ficções alegóricas. (...)

Quereis, segundo dizeis, curar o vosso século de uma mania que ameaça invadir o mundo. Gostaríeis que o mundo fosse invadido pela incredulidade, que procurais propagar? Não é à ausência de qualquer crença que temos de atribuir o relaxamento dos laços de família e a maioria das desordens que minam a sociedade? Demonstrando a existência e a imortalidade da alma, o Espiritismo reaviva a fé no futuro, reergue os ânimos abatidos, faz suportar com resignação as vicissitudes da vida. Ousareis chamar a isso um mal? Duas doutrinas se enfrentam: uma, que nega o futuro, outra, que o proclama e o prova; uma, que nada explica, outra, que tudo explica e por isso mesmo se dirige à razão. Uma é sanção do egoísmo, a outra oferece uma base à justiça, à caridade e ao amor do próximo. A primeira não mostra mais do que o presente e aniquila toda a esperança, a segunda consola e mostra o vasto campo do futuro. Qual a mais preciosa?
Certas pessoas, e entre as mais céticas, fazem-se apóstolos da fraternidade e do progresso. Mas a fraternidade supõe o desinteresse, a abnegação da personalidade; o orgulho é uma anomalia para a verdadeira fraternidade. Com que direito imporeis um sacrifício àquele mesmo a quem dizeis que com a morte tudo se acabará para ele, e que amanhã talvez nada mais seja do que uma velha máquina desarranjada e atirada fora? Que razão terá ele para se impor alguma privação? Não é muito mais natural que nos curtos instantes que lhe concedeis ele procure viver o melhor possível? Vem disso o desejo de possuir bastante para melhor gozar. Desse desejo nasce a inveja dos que possuem mais e dessa inveja ao desejo de tomar o que eles possuem vai apenas um passo. Que é o que o retém? A lei? Mas a lei não abrange todos os casos. Direis que é a consciência, o sentimento do dever? Mas em que se baseia o sentimento do dever? Esse sentimento encontra uma razão de ser na crença de que tudo acaba com a vida? Com essa crença uma única máxima é racional: cada um por si. As idéias de fraternidade, de consciência, de dever, de humanidade e mesmo de progresso não são mais do que palavras vãs. Oh, vós que proclamais semelhantes doutrinas não sabeis todo o mal que fazeis à sociedade, nem de quantos crimes assumis a responsabilidade! Mas por que falo de responsabilidade? Para o cético ela não existe; ele só presta homenagem à matéria.

LEMBRETE:

1° - Sabemos presentemente que a nossa consciência interior (individual) e a nossa consciência exterior (sensorial) são duas coisas distintas; que a nossa personalidade que é o resultado da consciência exterior, não pode ser identificada com o "eu", que pertence à consciência interior, ou, em outros tempos, o que chamamos a nossa consciência não é igual do nosso "eu". É preciso, pois, distinguir entre a personalidade e a individualidade. A pessoa é o resultado do organismo, e o organismo é o resultado temporário do princípio individual transcendente (...) Alexandre Aksakof

2° - Nossa consciência está (...) sempre presente a um certo e limitado número de imagens remotas, e sempre as mesmas, mais ou menos. Essas imagens, iterativamente reconduzidas ao mesmo ego, constituirão a personalidade do indivíduo, que se tornou estável, pela comunidade das mesmas. Gabriel Delanne

3° - A nossa personalidade é um fulcro de forças vivas, emitindo raios espirituais, em todas as direções. Francisco C. Xavier

4° - Entre as Teorias que advogam a causa dos fatores inconscientes, destaca-se a Psicologia Analítica de Jung, com a hipótese do inconsciente Coletivo e seus Arquétipos. A Posição Espírita vai além, ao advogar também a existência de elementos inconscientes localizados no corpo espiritual, com todo o repositório das experiências e vivências das encarnações pretéritas, além é claro, das vividas no plano espiritual. De acordo com ela, as forças dinâmicas oriundas do inconsciente espiritual tanto podem ser de natureza positiva, saudável, tais como tendências, idéias ou habilidades inatas, como de natureza morbígena. Os gênios precoces, como Wolfgang a Mozart, seriam um exemplo de vidas pregressas altamente evoluídas. Crianças portadoras de distúrbios, tais como autismo infantil, psicoses infantis, etc.. podem representar o segundo grupo (...) As Teorias da Personalidade empregam o conceito de "SELF" em sentidos diversos. Da perspectiva espírita, esse é o mais importante dos conceitos psicológicos, pois se trata da própria alma. Leopoldo Balduino

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