PLATÃO
BIBLIOGRAFIA
01- Agonia das religiões - pág. 31 02 - A alma é imortal - 31
03 - A caminho da luz - pág. 95 04 - A levitação - pág. 123
05 - As margens do Eufrates - pág. 170 06 - Ciência e Espiritismo - pág. 76
07 - Cristianismo e Espiritismo - pág. 238 08 - Enfoques Científicos da D.E. - pág. 142
09 - Entre a matéria e o Espírito - pág. 16 10 - Estudos Espíritas - pág. 71
11 - Kardec, Jesus e a filosofia Espírita - 30, 41, 67 12 - Mediunidade - pág. 72
13 - O alvorecer da espiritualidade- pág. 170 14 - O desconhecido e os probls. psíquicos - pág. 20
15 - O Evangelho Segundo o Espiritismo - Intr. IV

16 - O exilado - 221

17 - O Livro dos Espíritos - q 1009, prolegômenos 17° 18 - O que é a morte - pág. 53, 57
19 - Revista espírita - 1858, 1859, 1859, 1865 20 - Vida de Jesus - pág. 118
21- Enciclopédia Barsa - vol. 11, pág. 77  

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PLATÃO – COMPILAÇÃO

01 - AGONIA DAS RELIGIÕES- J. HERCULANO PIRES - PÁG. 31

CAPÍTULO IV - EXPERIÊNCIA NO TEMPO
O homem realiza a experiência de Deus no tempo, ao longo de sua evolução natural. Não se pode ter uma experiência artificial de Deus em alguns minutos ou algumas horas de meditação. Essa experiência é natural — e de natureza vital — faz parte integrante da vida e da existência humana. Podemos lembrar a expressão de Descartes: A idéia de Deus no homem é a marca do obreiro na sua obra. Descartes foi o precursor de Kardec, como João Batista o foi do Cristo. Temos, assim, uma curiosa correlação histórica entre o advento do Cristianismo e o advento do Espiritismo, que se completa em numerosos outros aspectos.

Lembrando a teoria da reminiscência em Platão, em que as almas nascem na Terra marcadas pela recordação do mundo das idéias, compreenderemos mais facilmente a existência da idéia inata de Deus no homem. Essa idéia inata não é apenas marca, mas também o marco inicial e o pivô em torno do qual se processa todo o desenvolvimento espiritual da criatura humana. Podemos acompanhar esse processo desde a adoração dos elementos naturais pelo homem primitivo (a partir da litolatria, adoração da pedra e de outras formações minerais) até à eclosão do monoteísmo, com a idéia do Deus Único, que Kant considerou o mais elevado conceito formulado pela mente humana. E vemos então que a idéia de Deus representa, histórica e antropologicamente, uma espécie de marca-passo de toda a evolução do homem.

No episódio do Cogito, da cogitação de Descartes sobre a realidade ou não da existência, temos o momento em que ele descobre, no mais profundo de si mesmo, uma idéia estranha, que é a da existência de um Ser Absoluto e portanto absolutamente perfeito. Essa idéia não podia ter sido originada pelas suas experiências de ser relativo e imperfeito. Descartes a considerou estranha porque só poderia vir de fora dele, da existência real desse Ser Absoluto. Descobria assim que tivera uma experiência de Deus, inteiramente independente de todas as suas experiências terrenas.

A importância desses fatos históricos e culturais foi negligenciada pela cultura leiga que se desenvolveu na Renascença e deu forma ao mundo moderno. O predomínio crescente das conquistas materiais da Civilização Ocidental asfixiou essas conquistas do espírito. O homem se esqueceu do significado desses fatos, desses episódios culminantes da cultura humana, e as religiões dogmáticas transformaram a idéia de Deus em simples crença desprovida de raízes experimentais. Coube ao Espiritismo restabelecer a verdade e colocar a experiência de Deus no seu devido lugar, no vasto panorama da evolução da Humanidade. Trata-se da mais importante e profunda experiência do homem, uma experiência vital que deverá levá-lo à compreensão da sua verdadeira natureza e do seu verdadeiro destino.

Impossível reduzi-la a uma conquista particular e eventual de algumas criaturas que hoje se entregam a práticas de meditação. Claro que com isso não pretendo negar nem diminuir o valor da meditação como disciplina mental e como recurso de elevação espiritual. Sustento apenas que a meditação é o produto e não a produtora da experiência de Deus, pois essa experiência já marcava o homem muito antes que ele houvesse adquirido o poder do pensamento abstrato e pudesse meditar. A vivência religiosa, pelo simples fato de ser vivência e não reflexão, é inerente ao homem desde o seu aparecimento no planeta. Essa é uma questão que hoje se coloca de maneira evidente.

A concepção espírita vai mais longe e mais fundo, negando ao homem atual o direito de isolar-se do mundo para buscar a Deus, e portanto de buscar a Deus ou aos poderes espirituais através de processos artificiais. O meio natural de evolução, para o homem e para todas as coisas e todos os seres, é a relação. Se nos afastamos do relacionamento social e cultural para nos elevarmos, estamos nos colocando em posição errada e tomando um caminho ilusório. A busca solitária de Deus é um ato egocêntrico e preferencial.

O místico vulgar não mergulha em si mesmo para encontrar em Deus a relação com o mundo, como o fez Descartes, mas, pelo contrário, para desligar-se do mundo e ligar-se isoladamente a Deus. Não é guiado pelo amor à Humanidade, mas pelo amor a si mesmo. Prefere elevar-se acima dos outros para encontrar em Deus o refúgio e a fortaleza em que poderá construir e usufruir sozinho a sua felicidade particular. Prefere a fuga ao mundo, em termos de superioridade pessoal e portanto egoísta, anti-religiosa, à ligação com o mundo e com Deus para a realização da unidade global que é o objetivo da religião.

02 - A ALMA É IMORTAL - GABRIEL DELANNE - PÁG. 31

A escola neoplatônica
A escola neoplatônica de Alexandria foi notável de mais de um ponto de vista. Tentou a fusão dos filósofos do Oriente com a dos gregos e, dos trabalhos de Proclo, Plotino, Porfírio, Jâmblico, idéias novas surgiram sobre grande número de questões. Sem dúvida, a esses pesquisadores se pode reprochar uma tendência por demais excessiva para a misticidade; entretanto, mais do que quaisquer outros eles se aproximaram da verdade que hoje experimentalmente conhecemos.

As vidas sucessivas e o perispírito faziam parte do ensino deles. Em Plotino, como em Platão, à separação da alma e do corpo se achava ligada a idéia da metempsicose, ou metensomatose (pluralidade das vidas corpóreas). "Perguntamos: qual é, nos animais, o princípio que os anima? Se é verdade, como dizem, que os corpos dos animais encerram almas humanas que pecaram, a parte dessas almas suscetivel de separar-se não pertence intrinsecamente a tais corpos; assistindo-as, essa parte, a bem dizer, não lhes está presente. Neles, a sensação é comum à imagem da alma e ao corpo, mas, ao corpo, enquanto organizado e modelado pela imagem da alma. Quanto aos animais em cujos corpos não se haja introduzido uma alma humana, esses são engendrados por uma iluminação da alma universal."

À passagem da alma humana pelos corpos dos seres inferiores é aqui apresentada sob forma dubitativa. Sabemos agora que nenhum recuo é possivel na senda eterna do tornar-se, porquanto nenhum progresso seria real, se pudéssemos perder o que tenhamos adquirido pelo nosso esforço pessoal. A alma que chegou a vencer um vicio, dele se libertou para sempre; é isso o que assegura a perfectibilidade do espirito e garante a felicidade futura para o ser que soube libertar-se das más paixões Inerentes ao seu estado Inferior. Plotino afirma claramente a reencarnação, isto é, a passagem da alma de um corpo humano para outros corpos.

"A crença universalmente admitida que a alma comete faltas, que as expia, que sofre punição nos infernos e passa em seguida por novos corpos. "Quando nos achamos na multiplicidade que o Universo encerra, somos punidos pelo nosso próprio desvio e pela sequência de uma sorte menos feliz."Os deuses dão a cada um a sorte que lhe convém, de harmonia com seus antecedentes, em suas sucessivas existências."

Profundamente justo e verdadeiro é isto, porquanto, em nossas múltiplas vidas, defrontamos com dificuldades que temos de transpor, para chegarmos ao nosso melhoramento moral ou intelectual. Falso, porém, seria esse principio, se o aplicássemos às condições sociais, porque, então, o rico teria merecido sê-lo e o pobre se acharia aqui em punição, o que é contrário ao que se observa cotidianamente, pois podemos comprovar que a virtude não constitui apanágio especial de nenhuma classe da sociedade.

"Há, para a alma, duas maneiras de ser em um corpo: verifica-se uma delas quando a alma, já se encontrando num corpo celeste, sofre uma metamorfose, isto é, quando passa de um corpo aéreo ou Ígneo a um corpo terrestre, migração a que de ordinário se chama metensomatose, porque não se vê donde vem a alma; a outra maneira se verifica quando a alma passa do estado incorpóreo a um corpo, seja qual for, e entra assim, pela primeira vez, em comunhão com o corpo. As almas descem do mundo inteligível ao primeiro céu; aí, tomam um corpo (espiritual) e, em virtude mesmo desse corpo, passam para corpos terrestres, segundo se distanciam mais ou menos do mundo inteligível."

Esta doutrina Porfírio a desenvolveu longamente em sua Teoria dos Inteligíveis, onde assim se exprime:"Quando a alma sai do corpo sólido, não se separa do espírito que recebeu das esferas celestes."A mesma idéia se nos depara nos escritos de Proclo, que chama a esse espírito o veículo da alma.

De um estudo atento dessas doutrinas resulta que os neo-platônicos sentiram a necessidade de um invólucro sutil para a alma, em o qual se registram, se incorporam os estados do espírito. É, com efeito, indispensável que o espírito, através de suas vidas sucessivas, conserve os progressos que realizou, sem o que, a cada encarnação, ele se acharia como na primeira e recomeçaria perpetuamente a mesma vida.

14 - O DESCONHECIDO E OS PROBLEMAS PSÍQUICOS - CAMILLE FLAMMARION - PÁG. 21

OS INCRÉDULOS - Crer que tudo se sabe é um erro profundo: O horizonte tomar por limites do mundo. LEMIERRE.
Um grande número de homens sofrem de verdadeira miopia intelectual e, segundo a imagem precisa de Lemierre, tomam o seu horizonte pelos limites do mundo. Os fatos novos, as idéias novas os ofuscam, os horripilam. Não querem ver mudança alguma na marcha costumeira das coisas. A história do progresso dos conhecimentos humanos é para eles letra morta.

A audácia dos pesquisadores, dos inventores, dos revolucionários, parece-lhes criminosa. Afigura-se-lhes, aos seus olhos, que a humanidade tenha sido sempre o que é hoje, e eles não se lembram nem da idade da pedra, nem da invenção do fogo ou das casas, das carruagens e dos caminhos de ferro, nem das conquistas do espírito, nem das descobertas da Ciência. Neles ainda se encontram alguns traços da herança dos peixes e quiçá dos moluscos.

Comodamente assentados, de resto, em suas largas poltronas, esses admiráveis burgueses se conservam imperturbavelmente satisfeitos. São absolutamente incapazes de admitir o que não compreendem e nem sequer desconfiam de que nem tudo compreendem. Ignoram que no fundo da explicação de todos os fenômenos da natureza está o desconhecido, e contentam-se com simples mudanças de palavras. Por que razão cai uma pedra? "Porque a Terra a atrai." Uma resposta assim tão clara basta à sua ambição. Acreditam eles compreender. Uma fraseologia clássica os seduz, como no tempo de Molière: "ossábandtis, nequeis, nequer, potarinum quipsa miZws... eis aí justamente o que faz com que vossa filha seja muda", dizia Sganarelo.

Em todos os séculos, quaisquer que sejam os graus de civilização, encontram-se desses homens simples, tranquilos, nem sempre desprovidos de vaidade, que negam candidamente as coisas inexplicáveis e que pretendem julgar a insondável organização do Universo. Tais como duas formigas, em um jardim, entretendo-se a trocar idéias sobre a história da França ou sobre a distância a que nos encontramos do Sol.

Percorramos a História e edifiquemo-nos com alguns desses exemplos. A escola de Pitágoras, libertando-se das idéias comuns sobre a natureza, elevara-se até à noção do movimento diurno do nosso planeta, que poupa ao céu imenso e sem limites a obrigação absurda de girar em vinte e quatro horas em torno de um ponto insignificante. Que o sufrágio universal se revolte contra esta idéia genial, ainda se tolera: não se pode pedir a um elefante que voe até o ninho das águias. Mas a força dos prejuízos vulgares é tal que, mesmo espíritos superiores como o próprio Platão e Arquimedes, essas duas brilhantes inteligências, sentiram-se na impossibilidade de elevar-se a esta concepção, recusada até pelos astrônomos Hipparcho e Ptolomeu.

Este não pôde conter-se de rir a bandeiras despregadas de uma tal chocarrice. Qualifica ele a teoria do movimento da Terra de "completamente ridícula". A expressão é sobremodo pitoresca. Como que se vê o ventre de um bom monge, a sacudir-se e rebolar-se todo, diante de um gracejo desta força, panu guëldwtaton! Deus do céu, como isto é divertido! A Terra a girar! Estão doidos os pitagóricos: a cabeça deles é que gira.

Sócrates bebe a cicuta por se ter libertado das superstições de seu tempo. Anaxágoras é perseguido por ter ousado ensinar que o Sol é maior que o Peloponeso. Dois mil anos mais tarde, Galileu é perseguido, a seu turno, por afirmar a grandeza do sistema do mundo e a insignificância do nosso planeta.

A passos lentos avança a pesquisa da verdade, mas as paixões humanas e os cegos interesses dominadores permanecem inalteráveis.
E a dúvida ainda perdura, apesar das provas acumuladas por toda a moderna astronomia. Não possuímos nós, em nossas bibliotecas, uma obra publicada em 1806 expressamente contra o movimento da Terra e na qual seu autor declara que jamais poderá admitir esteja ela a girar como um capão assado ao espeto?

Esse intrépido capão era um homem, aliás, de bastante espírito (o que não exclui a ignorância); era um membro do Instituto, ostentando o nome de Mercier, mais conhecido por seu Tábleau de Paris e que se poderia supor dotado de um critério mais elevado e mais firme. Assistia eu, certo dia, a uma sessão da Academia das Ciências, dia esse de hilariante recordação, em que o físico Du Moncel apresentou o fonógrafo de Edison à douta assembleia. Feita a apresentação, pôs-se o aparelho docilmente a recitar a frase registrada em seu respectivo cilindro.

Viu-se então um acadêmico de idade madura, de espírito penetrado, saturado mesmo das tradições de sua cultura clássica, nobremente revoltar-se contra a audácia do inovador, precipitar-se sobre o representante de Edison e agarrá-lo pelo pescoço, gritando: "Miserável! nós não seremos ludibriados por um ventríloquo!" Senhor Bouillaud chamava-se este membro do Instituto. Foi isso a 11 de Março de 1878. Mais curioso ainda, é que seis meses após, a 30 de Setembro, em uma sessão análoga, sentiu-se ele muito satisfeito em declarar que, após maduro exame, não constatara no caso mais do que simples ventriloquia, mesmo porque "não se pode admitir que um vil metal possa substituir o nobre aparelho da fonação humana". Segundo esse acadêmico, o fonógrafo não era mais do que uma ilusão de acústica. (...)

17 - O LIVRO DOS ESPÍRITOS - ALLAN KARDEC - PROLEGÔMENOS, QUESTÃO 1009

Perg. 1008 - A duração das penas depende da vontade do Espírito, não existindo as que lhe são impostas por um tempo determinado? - Sim, há penas que lhe podem ser impostas por determinado tempo, mas Deus, que não deseja senão o bem de sua criatura, aceita sempre o arrependimento, e o desejo de se melhorar nunca é estéril.
Perg. 1009 - Segundo isso, as penas impostas jamais seriam eternas?

- Gravitar para a unidade divina, esse é o objetivo da Humanidade. Para atingi-lo, três coisas lhe são necessárias: a justiça, o amor e a ciência; três coisas lhe são opostas e contrárias: a ignorância, o ódio e a injustiça. Pois bem: em verdade vos digo que mentis a esses princípios fundamentais ao comprometer a idéia de Deus com o exagero de sua severidade, e duplamente a comprometeis, deixando penetrar no Espírito da criatura o pensamento de que ela possui mais clemência, mansuetude, amor e verdadeira justiça do que costumais atribuir ao Ser Infinito.

Destruís mesmo a idéia de Inferno, tornando-a ridícula e inadmissível às vossas crenças, como o é para os vossos corações o horrendo espetáculo das execuções, das fogueiras e das torturas da Idade Média. Mas como? É quando a era das represálias cegas já foi superada pelas legislações humanas, que esperais mantê-la numa forma ideal? Oh! Crede-me, crede-me irmãos em Deus e em Jesus Cristo, crede-me ou resignai-vos a deixar perecer nas vossas mãos todos os vossos dogmas, para não permitir a sua alteração, ou então vivificai-os, abrindo-os aos benéficos eflúvios que os bons Espíritos derramam neste momento sobre eles.

A idéia do Inferno com suas fornalhas ardentes, com suas caldeiras ferventes pode ser tolerada ou admissível num século mitológico; mas no século dezenove não passa de vão fantasma que serve apenas para amedrontar as criancinhas e no qual estas mesmas já não acreditam, quando se tornam um pouco maiores. Persistindo nessa mitologia apavorante, engendrais a incredulidade, origem de toda a desorganização social; eis por que tremo ao ver toda uma ordem social abalada e a ruir sobre as próprias bases, por falta de sanção penal.

Homens de fé ardente e viva, vanguardeiros do dia da luz, ao trahalho, pois! Não para manter velhas fábulas atualmente desacreditadas, mas para reavivar e revitalizar a verdadeira sanção penal sob formas que correspondam aos vossos costumes, aos vossos sentimentos e as luzes da vossa época.

Quem é, com efeito, o culpado? E aquele que por um extravio, por um falso impulso da alma se afasta do objetivo da Criação, que consiste noo culto harmonioso do belo e do bem idealizados pelo arquétipo humano, pelo homem-deus, por Jesus Cristo. Qual é o castigo? É a consequência natural decorrente desse falso Impulso; uma quantidade de dores necessárias para fazê-lo aborrecer da sua deformação, pela prova do sofrimento. O castigo é o aguilhão que excita a alma pela amargura a voltar-se para si mesma, a retornar ao caminho da salvação.

O objetivo do castigo não é outro senão a reabilitação. Querer que o castigo seja eterno, por uma falta que não é eterna, é negar-Ihe toda a razão de ser. Oh! Em verdade vos digo, cessai, cessai de pôr em paralelo, na eternidade, o Bem, essência do Criador, com o Mal, essência da criatura; pois seria criar uma penalidade injustificável. Afirmai, ao contrário, o abrandamento gradual dos castigos e das penas pelas transmigrações e consagrareis, pela razão ligada ao sentimento, a unidade divina.

21 - ENCICLOPÉDIA BARSA - VOL. 11 - PÁG. 77

A - PLATÃO (427?-347?A.C.). Um dos maiores pensadores gregos, além de aristocrata abastado. Sua família, de ambos os lados, era das mais ilustres de Atenas. Do lado materno remontava, dizem, ao legislador Sólon. Era jovem quando Atenas foi derrotada. Atribuiu esse fato à democracia. Sua teoria política posterior foi a defesa de uma aristocracia que não era nem hereditária, nem nobiliárquica, mas intelectual.

"Os sábios", dizia, "deverão dirigir e governar, e os ignorantes deverão segui-los." Sua primeira ambição, nos diz na Epistola VII, foi a política. Provavelmente o seu pendor pela oposição o levou até Sócrates que, apesar de apolítico, atraía a simpatia dos opositores do governo do "Terror" que se apoderara de Atenas em 404 A.C. O encontro com o velho sábio grego foi algo de decisivo em sua vida. "Dava graças aos deuses por três coisas: primeiro, por ter nascido homem e não mulher, grego e não bárbaro, mas, sobretudo, por ter nascido no tempo de Sócrates."

Nessa época, era um jovem corpulento e desportivo: ganhara dois prêmios nos jogos ístmicos. Sua vida tomou rumo inteiramente novo depois da condenação de Sócrates (399). Achou, então, que não havia mais lugar para uma consciência honesta na política. Como amigo de Sócrates e tendo feito tudo para salvá-lo, depois de sua morte passou a ser julgado como suspeito. Preferiu, por isto, exilar-se com outros amigos em Megara. Viajou então por várias regiões, detendo-se com mais vagar no Egito, na Itália e na Sicília, estas últimas, na época, colônias gregas.

Estranhou a grosseira materialidade de vida existente na região. Já inteiramente dedicado ao estudo da Filosofia, volta em 387 para Atenas, onde funda sua célebre Academia, assim chamada por estar situada nos jardins do herói Academo. Essa notável instituição destinava-se à pesquisa e ao estudo sistemático da Filosofia e das Ciências. Presidiu-a até sua morte, aos 80 anos de idade. No campo científico ficou conhecido pelo interesse que tinha pela Matemática. Diz-se que havia escrito em sua entrada: "Aqui só entram os geômetras."

O fato é que os mais importantes trabalhos matemáticos do séc. IV A.C. foram realizados por amigos ou discípulos de Platão. Teéteto, o fundador da Geometria sólida, era membro da Academia, como o eram também os primeiros estudiosos das secções cônicas. Teéteto aparece como um jovem matemático no diálogo de Platão que leva o seu nome. Eudoxo de Cnido, autor da teoria das proporções, exposta nos Elementos, de Euclides, e inventor do método de achar áreas e volumes de figuras curvilíneas, transferiu sua escola de Cyzicus para Atenas, a fim de estabelecer melhor cooperação com Platão. A Academia, ao mesmo tempo que desenvolvia a Matemática, foi a um laço de união entre o movimento matemático iniciado por Pitágoras e o dos grandes geômetras e aritméticos de Alexandria.

B - Ciências. As outras ciências também foram cultivadas na Academia, embora sem o êxito alcançado na Filosofia e na Matemática. Achavam, por exemplo, os seus estudiosos que a finalidade dos intestinos era impedir a gula, conservando em seu interior os alimentos. Espeusipo, sobrinho e sucessor de Platão na Academia, foi um copioso escritor de siderado o Nous (a inteligência) da Academia. Os poetas cômicos encontravam assunto para sátiras no interesse aí reinante pela classificação botânica.

A célebre instituição não desprezou igualmente a jurisprudência e a legislação prática. Mandou três de seus melhores alunos pesquisar a legislação, até então não estudada, da Arcádia, de Elis e de Pirra. Aristóteles, no tempo em que ainda pertencia à Academia de Platão, escrevera leis para Cnido e Estagira, sua terra natal. Alexandre — conta Plutarco — ao pedir a Xenócrates informações sobre a natureza da realeza, o homem que lhe enviaram foi Délio de Éfeso, ligado intimamente a Platão e a sua instituição. A criação da Academia, como sociedade permanente para a consecução de um ideal de estudos das ciências exatas e humanas, foi a primeira concretização daquilo que se chamaria rnais tarde de Universidade.

C - Sócrates e Platão. A mais importante influência filosófica que Platão teve foi, certamente, a de Sócrates, personagem quase obrigatório nos seus diálogos. Contudo, a influência do sábio foi mais uma inspiração do que uma força didática na vida de Platão. Deve-se considerar que, possuído de um ideal político, na época em que com ele conviveu, Platão não estaria interessado, provavelmente, em fazer parte do círculo dos discípulos de Sócrates, nem teria sido, talvez, considerado por aquele como um discípulo. Sócrates era amigo de vários membros preeminentes de sua família.

Na Epístola VII, fala dele não como de um mestre, mas como de um "velho amigo", por cuja pessoa tinha uma profunda admiração. Foi, pois, o exemplo de sua vida, o abalo de sua morte e o subsequente exílio que o aproximaram da Filosofia.

D - A Obra de Platão. É uma das mais vastas da Antiguidade e, contando com as Epístolas, chega ao número de 36 trabalhos, dos quais 25 são diálogos e dois, tratados políticos, a República e as Leis. Dono de um dos melhores estilos da Grécia, Platão revela seu pensamento através de expressões e imagens perfeitas. Pelo uso do diálogo, muitos deles de grande beleza, consegue dar maior interesse dramático e vivacidade dialética aos temas de que trata. A influência de seu principal personagem, Sócrates, pode ser sentida principalmente em seus diálogos juvenis: Apologia, Críton e Eutifon.

Em sua idade madura, os trabalhos mais importantes são: o Protágoras, o Górgias, o Eutidemo, sobre os sofistas; o Fédon, sobre a imortalidade da alma; o Banquete, sobre a teoria da alma e o problema do amor. Seguem-se-lhes Teêteto, Sofista, Político e Parmênides, este último dos mais importantes. Em Leis deixou uma nova exposição sobre a teoria do Estado. De suas 13 cartas, a mais interessante é a sétima, aos amigos de Díon, tratando das relações que manteve com Dionísio de Siracusa.

A medula do pensamento filosófico de Platão está na sua teoria das idéias, poetizada e obscurecida pelo uso da linguagem mítica. A idéia de uma coisa pode ser a "idéia geral" da classe a que a coisa pertence (a idéia de Antônio, Cláudio ou Manuel é a de homem); ou pode ser a lei ou leis de acordo com a qual ou com as quais a coisa procede (a idéia de Antônio seria a redução de toda a sua conduta a "leis naturais"); ou pode, ainda, ser o perfeito fim ou perfeito ideal para o qual possam tender a coisa e a sua classe (a idéia de João seria João idealizado). Provavelmente, para ele, a idéia é tudo - idéia, lei e ideal.

Além da contingência dos fenômenos e das coisas particulares que impressionam nossos sentidos ficam as generalizações, a regularidade e a direção do evoluir, não percebidos como sensações, mas concebidos pela razão e pelo pensamento. Estas idéias, leis e ideais são mais permanentes e, por conseguinte, mais "reais" do que as coisas particulares percebidas pelos sentidos, que são mortais e contingentes. "Homem" é mais permanente que Antônio, Cláudio ou Manuel. O círculo produzido pelo movimento do lápis desaparece com o passar de uma borracha, por exemplo; mas a concepção de círculo perdura para sempre.

Esta árvore está de pé e aquela cai, mas as leis que determinam que os corpos caiam, e o quando e o como caiam, não tiveram começo nem terão fim. Existe, pois, um mundo de coisas perceptíveis pelos sentidos e um mundo de leis inferidas pelo pensamento. Não vemos a lei da razão inversa dos quadrados das distâncias, mas esta lei se manifesta em toda parte. Existia antes que alguma coisa material existisse e sobreviverá depois que o mundo das coisas materiais sucumbir à sua singularidade. Os sentidos, por exemplo, percebem milhares de sacos de cimento e de toneladas de ferro, mas só o engenheiro vê naquilo uma ponte.

Com o olhar do espírito percebe a ousada e delicada adequação daquele volume de material às leis da Mecânica, da Matemática e da Engenharia, leis estas de acordo com as quais todas as boas pontes devem ser feitas. Se elas forem violadas, a ponte cairá. Há, pois, conclui Platão, o mundo das idéias e o mundo das aparências. Quem não percebe aquelas vive como que numa caverna, onde o conhecimento se faz por meio de sombras. Afirma a existência de um mundo espiritual das idéias. Estas devem ter certo grau de realidade. Conclui, com a teoria de Sócrates, que aprender é recordar.

A alma, antes de encarnar, já havia, de certo modo travado conhecimento com este mundo das idéias. Quando, no decurso da vida, percebe coisas distintas, como, por exemplo, vários tipos de árvores, reconhece nelas aquilo que têm de comum, através da recordação avivada pela "idéia" preexistente. Esta teoria de Platão, encontra-se exposta no livro sétimo da República, onde narra o mito da caverna.

Platão acreditava na metempsicose. Os homens covardes ou maus serão, na outra vida, mulheres. Os inocentes e simplórios, que pensam que se pode aprender Astronomia apenas olhando as estrelas, sem conhecimento das Matemáticas, serão aves. Aqueles que não possuem filosofia se tornarão animais terrestres. Os mais estúpidos se transformarão em peixes. O difícil, contudo, em Platão, é esclarecer as relações entre os mitos e os conceitos filosóficos que pretendem figurar.

O trabalho mais importante de Platão é a República. Nela expõe suas idéias políticas, filosóficas, estéticas, éticas e jurídicas. O livro tem três partes. A primeira é a exposição de uma comunidade ideal (utópica), governada por filósofos. Na segunda parte, apresenta sua filosofia e, na terceira, expõe as várias constituições e formas de governo existentes, decidindo-se pela aristocracia como a melhor delas. Para se criar uma comunidade ideal, o primeiro problema é o cuidado com a educação. Esta se divide em duas partes: música e ginástica. Música possuía, então, um significado tão amplo como hoje tem cultura, e ginástica, um sentido mais extenso que o de atletismo.

Sua filosofia culmina em sua ética. A idéia do Bem é, no seu modo de ver, a idéia suprema. Para sua realização deve tender todo proceder humano. O bem é um imperativo moral para todos. Para ele, há tipos fundamentais de virtude: a sabedoria ou prudência, própria da parte racional da alma; a coragem, virtude da vontade; a temperança, própria da sensibilidade; a quarta é a justiça, nascida do equilíbrio que se deve estabelecer entre todas as disposições éticas e sociais. A influência de Platão no pensamento ocidental foi muito grande. O Cristianismo primitivo abeberou-se sobretudo no Platonismo e no Neoplatonismo de Plotino.