PLURALIDADE DAS EXISTÊNCIAS
BIBLIOGRAFIA
01- A loucura sob novo prisma - pág. 74 02 - A pluralidade dos mundos habitados - pág. 287
03 - Análise das coisas - pág. 42 04 - Depois da morte - pág. 132
05 - Emmanuel - pág. 88, 144 06 - Evolução em dois mundos - pág. 96
07 - Expiação - toda a obra 08 - Há dois mil anos - pág. 13
09 - O consolador - pág. 56 10 - O Livro dos Espíritos - q. 166, 222,1010
11 - Obras póstumas - pág. 187 12 - Obreiros da vida eterna - pág. 50
13 - Parábolas e Ensinos de Jesus - pág. 197 14 - Roma e o Evangelho - pág. 56

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PLURALIDADE DAS EXISTÊNCIAS – COMPILAÇÃO

02 - A pluralidade dos mundos habitados - Camille Flammarion - pág. 287

III - A Humanidade Coletiva
As humanidades dos outros mundos e a humanidade da Terra são uma só humanidade. — O homem é o cidadão do céu. — A família humana se estende, para além de nosso globo, às terras celestes. — Parentesco universal.— Pluralidade dos Mundos e pluralidade das existências.— A eternidade futura não é outra que a eternidade atual.

Nós estudamos o Universo sob seu duplo aspecto: o aspecto físico, na grandeza dos objetos e na harmonia das leis que os regem; o aspecto moral, na vida intelectual dos seres que o habitam. Os mundos percorreram sob nossos olhos o ciclo de suas revoluções imensas; eles não se apresentaram a nós em seu estado real, com os elementos que constituem sua individualidade, com as riquezas variadas que os distinguem. Em sua superfície nós reconhecemos a existência de humanidades de diferentes ordens, segundo o mundo ao qual elas pertencem.

Nesse duplo quadro, a vida nos pareceu circular por toda parte, turbilhão invisível animando cada átomo de matéria. O espaço infinito que se estende acima de nossas cabeças não é mais vazio, silencioso, deserto para nós; ele não nos é mais indiferente. Ele é a arena onde se travam os pacíficos combates da Vida eterna; ele é o campo onde germinam as espigas de ouro, onde desabrocham as flores brilhantes desta vida sem fim, cuja força fecunda tem qualquer coisa de infinito, de eterno como seu Autor. Nosso espírito se engrandeceu à medida que se desenvolveu a esfera de nossas investigações, e nossos pensamentos, libertando suas asas dos laços que as prendianr à terrestre morada, voaram rumo ao céu, onde se enriqueceram com novos conhecimentos, resultado das conquistas de seu ardente progresso.

Nosso coração mesmo não ficou estranho a essas buscas, e mais de uma vez a sublimidade do espetáculo da natureza o tocou com uma emoção salutar. Contudo nosso espírito e nosso coração ainda não estão satisfeitos. O grande trabalho ao qual nos entregamos nos instruiu na ciência do mundo; ele nos esclareceu quanto ao valor real de nossa Terra e quanto ao de seus habitantes; ele nos isolou como tantos seres insignificantes perdidos na universalidade dos mundos; ele nos mostrou nossa miséria e nossa inferioridade. Está bem. — Mas a obra estaria inacabada se parasse aí.

Não queremos estar isolados do resto do mundo; não queremos estar sentados com indiferença em meio ao vazio, e nos sentirmos estrangeiros nesta imensa cidade da criação. Nossos direitos de cidadãos estão inscritos no fundo de nossas almas e sobre nossas frontes de homens; não podemos nem queremos nos subtrair a sua voz. Aspirações legítimas se manifestam em nós: nós queremos sentir os laços desconhecidos que nos ligam à universal vida das almas. Está aí a prece invocadora que se eleva do fundo de nosso ser rumo ao céu das estrelas.

Sim, vós nos aparecestes em vossa vestimenta esplêndida, astros magníficos que cintilam no éter! Nós subirmos até as regiões longínquas que percorreis nos céus; nós seguirmos as linhas sinuosas de vossas vastas órbitas; não observamos as transformações que as leis da luz e do calor operam em vossa superfície; nós assistimos aos quadros que a sábia mão da natureza faz surgir sobre vossos campos e romper o dia, no ocaso do astro-reí, ou durante vossas noites estreladas. Vimos essas coisas; compreendemos o quanto nossa habitação é pouco digna de ser comparada às vossas; julgamos melhor que intervalo nos distancia de vós, astros sublimes! Nós sentimos melhor a distância que separa nossa humanidade primitiva das humanidades gloriosas das quais sois a morada. . .

Mas vós sois para nós tão estrangeiros como nós pensamos, "longínquas humanidades que seguis conosco os caminhos variados do céu! Não percorreis vós um ciclo de destinos semelhante àquele que percorremos aqui embaixo; não sois vós arrastadas ao mesmo objetivo; não vamos nós, juntos, ao mesmo fim? Respondei, "populações desconhecidas, sabeis vós se não existem outros laços de relação entre nós além desses raios luminosos que se enviam mutuamente nossas moradas? sabeis se a unidade e a solidariedade da criação não nos tocam, a cada um de nós, átomos pensantes, e se nós não devemos nos encontrar algum dia e nos reconhecermos?

Aprendestes vós se nossos primeiros pais não eram irmãos antes de descerem sobre cada uma de nossas pátrias, e de nelas criar o berço de tantas famílias humanas? Dizeis-nos para que ponto somos todos levados, planetas e sóis; que lugar de repouso procuramos através dos espaços, e qual é a última morada em que devemos nos reunir? Ah, não! Vós não sois estrangeiras, brancas estrelas que cintilais docemente na noite profunda! Toda alma que se deixou absorver em vossa contemplação não pôde se defender do sentimento de simpatia que desce de vosso mágico olhar.

Sobretudo agora que as regiões da imortalidade se tornaram mais visíveis, desde a aurora sagrada em que a mão de Urânia afastou o véu que as cobria; agora que o céu nos apareceu em sua grandeza e sua verdade; nós nos tornamos grandes quebrando o círculo estreito dos dogmas antigos, e nossa visão se alargou subitamente, abarcando a extensão do Universo. Vós viestes a nós, ó loiras filhas do céu! Vós espalhastes sobre nossas cabeças a inspiração que as musas de outro tempo não podem mais nos dar; vós nos envolvestes! de luz, e nós compreendemos vosso ensinamento sublime.!

Ó noite majestosa! como teu esplendor é ainda maior ante nossos olhos desde que entrevimos a vida sob tua morte aparente! Como tuas harmonias se tornaram deliciosas! Como teu espetáculo se transfigurou diante de nossas almas! Outrora, eu me comprazi em vos contemplar no silêncio da meia-noite, ó Plêiades longínquas cuja claridade difusa nos leva para tão longe da Terra! Eu me comprazi em ver repousar sobre vós o enxame de meus pensamentos, porque vós sois uma estação brilhante do infinito dos céus. Mas hoje, que vejo em vossa múltipla irradiação tantos lares onde famílias humanas estão reunidas; hoje que nessa irradiação tão calma eu creio reconhecer os olhares de irmãos desconhecidos, o olhar talvez de seres queridos que amei tanto, e que a Morte inexorável levou para longe de mim, desse ser, sobretudo, que se foi com um sorriso nos lábios para não me deixar adivinhar seus sofrimentos, e que agora está aí, sonhando talvez ainda em algum ponto obscuro de uma terra desconhecida, lembrando com uma tristeza inexplicável nossos amores destruídos, e procurando como eu por olhares perdidos no céu...

Oh! Agora eu vos amo, deslumbrantes Plêiades; eu vos amo, maravilhosas Estrelas; eu vos amo como o peregrino ama as cidades de sua peregrinação, como ele ama o altar aonde se dirigem seus votos, e onde depositará um dia o beijo de suas aspirações mais caras!
Tudo é grande agora, tudo é divino para nós. A natureza não é apenas o trono exterior da magnificência divina, ela é também a expressão visível do poder infinito, a imagem da grandeza suprema. Outrora nós consideramos a Terra que habitamos como única na natureza, e pensamos que, sendo a única expressão da vontade criadora, ela era o único objeto da complacência e do amor de seu Autor. Nossas crenças rei igiosas fundaram-se sobre esse sistema egoísta e mesquinho.

Nós julgávamos então nossa humanidade importante o suficiente para ser o alvo de uma criação que dependia inteiramente de nossos destinos; para nós, o começo da Terra foi o começo do mundo; igualmente, o fim da Terra representava para nós o fim de todas as coisas. A história de nossa humanidade era a própria história de Deus; tal era o fundamento de nossa fé. Quando nosso olhar procurava sondar as regiões de nossa imortalidade futura, nós assistíamos ao fim do mundo, e o momento em que o último homem devesse desaparecer da Terra decrépita e gelada nos parecia dever marcar ao mesmo tempo a extinção do Universo atual e uma revolução geral na obra divina. Hoje, tais ideias falsas estão afastadas de nossos espíritos mais esclarecidos; nós conhecemos melhor nosso estado real.

Nós sabemos que a Terra não é mais que um astro obscuro, e que seu habitante é apenas um membro da imensa família que povoa a criação inteira. Nós sabemos que astros resplandecentes se apagam solitariamente um dia ou outro, e que o mundo não muda por um acontecimento tão insignificante como a morte de um sol, quanto mais pela morte de um pequeno planeta como o nosso. Nossa humanidade inteira seria destruída esta noite por um sopro mortal, e nada seria percebido nos outros mundos, nada pareceria na marcha cotidiana do Universo.

Desde então as Terras que se balançam no espaço têm sido consideradas por nós como estações do céu e como as regiões futuras de nossa imortalidade. Lá está a Casa celeste de muitas moradas, e lá onde entrevemos o lugar de onde vieram nossos pais, reconhecemos aquele que habitaremos um dia. Toda crença, para ser verdadeira, deve concordar com os fatos da natureza. O espetáculo do mundo nos ensina que a imortalidade de amanhã é aquela de ontem e de hoje, que a eternidade futura não é senão a eternidade presente; eis aí nossa fé. Nosso paraíso, é o infinito dos mundos.

Por isso reconhecemos com uma felicidade infinita na alma quão grande é o Deus de nossa adoração, e o quanto está elevado acima das criações do espírito humano. Do alto dos cumes eternos aonde nos levou a contemplação dos céus, a vaidade da Terra e das coisas terrestres nos aparece em seu estado real. E os povos que se degolam pela posse de um grão de poeira, os homens ambiciosos que rastejam por um pouco de ouro ou de glória, as belezas passageiras que cativam nossos corações e nos arrebatam os mais belos dias, todo interesse, toda afeição terrestre perdeu seu primeiro prestígio por nos aparecer em sua pequenez relativa.

Enquanto cada uma das criaturas vinha assim a ocupar diante de nossos olhos a categoria a que pertencem, o Criador, em meio a sua profunda majestade, tornava-se maior à medida que nossas concepções se desenvolviam. Também cremos, sob a inspiração da verdade, entender melhor o esplendor divino ao não defini-lo, ao não lhe atribuir forma, ao adorar simplesmente sua presença eterna, em vez de rebaixá-lo a nossas concepções grosseiras pretendendo representá-lo sob as miseráveis imagens que nos são acessíveis.

O destino moral dos seres parece-nos ser do tipo intimamente ligado à ordem física do mundo, pois o sistema do mundo físico é como que a base e o vigamento do sistema do mundo moral. São duas ordens de criações necessariamente solidárias. Devemos ver todos os seres que compõem o Universo ligados entre si pela lei de unidade e solidariedade, tanto material como espiritual, que é uma das primeiras leis da natureza. Devemos saber que nada nos é estranho no mundo, e que não somos estranhos a nenhuma criatura, porque um parentesco universal nos reúne a todos.

Não é mais apenas a atração física dos mundos o que constitui sua unidade; não são mais apenas esses raios de luz, de calor, de magnetismo, o que estreita todos os globos do espaço em uma só rede; não são mais apenas os princípios universais da verdade que estabelecem laços indissolúveis entre as humanidades estelares; é uma lei maior que as precedentes, é a lei divina da família. Somos todos irmãos; a verdadeira pátria dos homens é o Universo infinito, ao qual todas as línguas, por um maravilhoso acordo, deram o nome de Céu — céu físico e céu espiritual. Não afirmamos com Voltaire que o habitante do sistema de Sírius ri do vermezinho de Saturno, como este ri por sua vez do animálculo da Terra.

Não dizemos, com Diderot: "Que se dane o melhor dos mundos, se eu não estou lá". Rendamos justiça ao plano da natureza, reconheçamos o lugar em que estamos: que a imensa solidariedade que reúne todos os mundos deixe em nós a impressão de sua grandeza. É bem verdade que o espetáculo da noite se transfigurou perante nossas almas desde que reconhecemos nessa imortalidade sem limites o teatro futuro de nossa imortalidade. O céu que admiramos, o verdadeiro céu, não nos conta apenas da glória de Deus, ele nos mostra a própria obra divina sendo executada em nossa presença.

A tocha da Astronomia ilumina essas regiões misteriosas, que ameaçavam nos permanecer desconhecidas, apesar dos esforços de outras ciências menos poderosas; nossas aspirações, cortadas em sua seiva pela Morte, proclamava altivamente nossa imortalidade sem nos descobrir o campo onde ela devia se estender; hoje esse campo nos está descoberto; ao infinito de nossas aspirações a Astronomia dá o infinito do Universo, e nós podemos desde agora contemplar o céu onde nossos destinos nos esperam. Eis aí a Humanidade coletiva. Os seres desconhecidos que habitam todos esses mundos do espaço, são homens partilhando um destino semelhante ao nosso. E esses homens não são estrangeiros: nós os conhecemos ou deveremos conhecê-los algum dia.

Eles são da nossa imensa família humana; pertencem à nossa humanidade. Ó magos da eterna verdade, apóstolos do sacrifício, pais da sabedoria, você Sócrates, que tomou a cicuta, você seu aluno, ó Platão — vocês, Fídias e Praxíteles, escultores da beleza — vocês,
discípulos do Evangelho, João, Paulo, Agostinho — vocês, apóstolos da ciência, Galileu, Kepler, Newton, Descartes, Pascal — e vocês, Rafael e Michelangelo, cujas concepções serão sempre nossos modelos — e vocês, cantores divinos, Hesíodo, Dante, Milton, Racine; Pergolese, Mozart, Beethoven, seriam vocês imobilizados num paraíso imaginário; teriam vocês mudado de natureza; não seriam mais vocês os homens que conhecemos e admiramos, e dormiriam agora, verdadeiras múmias, eternamente assentados em seu derradeiro lugar?

Não, a imortalidade não seria mais que uma sombra sem atividade, e nós gostaríamos tanto da tumba quanto do Nirvana sonhado pelos budistas. É a vida eterna que queremos, não a morte eterna. A vida eterna, vocês a conquistaram, almas ilustres, não pelo trabalho de uma única existência, mas por numerosas vidas continuando uma após a outra; vocês a conquistaram não como um campo de repouso aonde se vai dormir após a batalha, mas como uma terra prometida na qual vocês entraram e onde realizam agora as obras de uma existência gloriosa.

Vocês desenvolvem agora as faculdades brilhantes das quais a Terra não conheceu mais que o germe, e que exigiram, para desabrochar, outros sóis mais fecundos que o nosso; vocês dão livre curso às aspirações sublimes que apenas se adivinharam nesta terra onde nenhum objeto era realmente digno de atraí-los, onde nenhuma força era capaz de sustentá-los; vocês prosseguem, enfim, na atividade incessante de seu espírito, o objetivo mais caro a cada um de vocês. É aí que vocês estão, neste céu calmo que nos domina, em meio às luzes inalteráveis que constelam o éter.

Nós os contemplamos daqui nessas longínquas moradas, e sentimos com amor que esses mundos silenciosos não nos são estrangeiros, como os julgamos outrora. Mais felizes que nós, que ainda somos sacudidos pelas ondas da incerteza, vocês levantaram os véus do Universo; talvez vocês percebem lá do alto nosso pequeno Sol, e distingam a pequena mancha que se chama a Terra e que reconhecem como sua antiga moradia. Talvez coloquem em ação as forças do pensamento e conheçam suas leis, e talvez escutem de seu lar a prece cheia de admiração daqueles que os veneram!

Seja como for, e apesar da obscuridade que nos envolve ainda quando tentamos visitar em espírito esse mundo misterioso, devemos, discípulos fiéis da filosofia natural, nos esforçar por compreender em sua simplicidade e grandeza o ensinamento sempre unânime da natureza. Pluralidade dos mundos, pluralidade das existências: eis dois termos que se completam e iluminam um ao outro. Nós poderíamos tratar de descobrir agora se o segundo não é tão racional, tão admissível, tão sedutor mesmo quanto o primeiro; mas nós atingimos o objetivo desta obra demonstrando este.

Cabe ao leitor interrogar sua consciência na sinceridade das indagações de boa-fé; cabe a ele libertar sua alma de todo entrave que poderia ainda se opor à inteira manifestação de sua liberdade; cabe a ele confiar-se ao voo instintivo desta alma, que se conduzirá ela mesma às regiões luminosas da verdade.

A doutrina da Pluralidade dos Mundos nos conduziu às portas de uma crença religiosa erigida sobre o verdadeiro sistema do mundo; a missão deste livro não é entrar na arena e discutir os elementos desta crença; mas então pararemos aqui, felizes e satisfeitos por termos vindo ao domínio religioso e ter-lhe aberto as portas. A Astronomia tem nas mãos as chaves deste domínio; ela assentou os fundamentos da filosofia do futuro: nós o reconhecemos com entusiasmo, e agradecemos à Ciência do Universo o ter-nos conduzido até lá. Mas não cabe a esta Ciência construir as cidades da metafísica; vieram já filósofos que se impuseram o cumprimento desta empreitada, outros virão em breve que continuarão a obra e expulsarão as últimas trevas que pesam ai nda sobre as verdadeiras ciências da teologia e da psicologia. (..)

04 - Depois da morte - Léon Denis - pág. 132

XI — A PLURALIDADE DAS EXISTÊNCIAS
Sob que forma se desenvolve a vida imortal, e que é na realidade a vida da alma? Para responder a tais perguntas, cumpre ir à origem e examinar em seu conjunto o problema das existências. Sabemos que, em nosso globo, a vida aparece primeiramente sob os mais simples, os mais elementares aspectos, para elevar-se, por uma progressão constante, de formas em formas, de espécies em espécies, até ao tipo humano, coroamento da criação terrestre. Pouco a pouco, desenvolvem-se e depuram-se os organismos, aumenta a sensibilidade. Lentamente, a vida liberta-se dos liames da matéria; o instinto cego dá lugar à inteligência e à razão.

Teria cada alma percorrido esse caminho medonho, essa escala de evolução progressiva, cujos primeiros degraus afundam-se num abismo tenebroso? Antes de adquirir a consciência e a liberdade, antes de se possuir na plenitude de sua vontade, teria ela animado os organismos rudimentares, revestido as formas inferiores da vida? Em uma palavra: teria passado pela animalidade? O estudo do caráter humano, ainda com o cunho da bestialidade, leva-nos a supor isso.

O sentimento da justiça absoluta diz-nos também que o animal, tanto quanto o homem, não deve viver e sofrer para o nada. Uma cadeia ascendente e contínua liga todas as criações, o mineral ao vegetal, o vegetal ao animal, e este ao ente humano. Liga-os duplamente, ao material como ao espiritual. Não sendo a vida mais que uma manifestação do espírito, traduzida pelo movimento, essas duas formas de evolução são paralelas e solidárias.

A alma elabora-se no seio dos organismos rudimentares. No animal está apenas em estado embrionário; no homem, adquire o conhecimento, e não mais pode retrogradar. Porém, em todos os graus ela prepara e conforma o seu invólucro. As formas sucessivas que reveste são a expressão do seu valor próprio. A situação que ocupa na escala dos seres está em relação direta com o seu estado de adiantamento. Não se deve acusar Deus por ter criado formas horrendas e desproporcionadas. Os seres não podem ter outras aparências que não sejam as resultantes das suas tendências e dos hábitos contraídos.

Acontece que almas, atingindo o estado humano, escolhem corpos débeis e sofredores para adquirirem as qualidades que devem favorecer a sua elevação; porém, na Natureza inferior nenhuma escolha poderiam praticar e o ser recai forçosamente sob o império das atrações que em si desenvolveu.

Essa explicação pode ser verificada por qualquer observador atento. Nos animais domésticos as diferenças de caráter são apreciáveis, e até os de certas espécies parecem mais adiantados que outros. Alguns possuem qualidades que se aproximam sensivelmente das da Humanidade, sendo suscetíveis de afeição e devotamento. Como a matéria é incapaz de amar e sentir, forçoso é que se admita neles a existência de uma alma em estado embrionário.

Nada há aliás maior, mais justo, mais conforme à lei do progresso, do que essa ascensão das almas operando-se por escalas inumeráveis, em cujo percurso elas próprias se formam: pouco a pouco se libertam dos instintos grosseiros e despedaçam a sua couraça de egoísmo para penetrarem nos domínios da razão, do amor, da liberdade. É soberanamente justo que a mesma aprendi-zagem chegue a todos, e que nenhum ser alcance o estado superior sem ter adquirido aptidões novas.

No dia em que a alma, libertando-se das formas animais e chegando ao estado humano, conquistar a sua autonomia, a sua responsabilidade moral, e compreender o dever, nem por isso atinge o seu fim ou termina a sua evolução. Longe de acabar, agora é que começa a sua obra real; novas tarefas chamam-na. As lutas do passado nada são ao lado das que o futuro lhe reserva. Os seus renascimentos em corpos carnais suceder-se-ão. De cada vez, ela continuará, com órgãos rejuvenescidos, a obra do aperfeiçoamento interrompida pela morte, a fim de prosseguir e mais avançar.

Eterna viajora, a alma deve subir, assim, de esfera em esfera, para o Bem, para a Razão infinita, alcançar novos níveis, aprimorar-se sem cessar em ciência, em critério, em virtude. Cada uma das existências terrestres mais não é que um episódio da vida imortal. Alma nenhuma poderia em tão pouco tempo despir-se de todos os vícios, de todos os erros, de todos os apetites vulgares, que são outros tantos vestígios das suas vidas desaparecidas, outras tantas provas da sua origem.

Calculando o tempo que foi preciso à Humanidade, desde a sua aparição no globo, para chegar ao estado da civilização, compreenderemos que, para realizar os seus destinos, para subir de claridades em claridades até ao absoluto, até ao divino, a alma necessita de períodos sem limites, de vidas sempre novas, sempre renascentes. Só a pluralidade das existências pode explicar a diversidade dos caracteres, a variedade das aptidões, a desproporção das qualidades morais, enfim, todas as desigualdades que ferem a nossa vista.

Fora dessa lei, indagar-se-ia inutilmente por que certos homens possuem talento, sentimentos nobres, aspirações elevadas, enquanto muitos outros só tiveram em partilha tolice, paixões vis e instintos grosseiros. Que pensar de um Deus que, estabelecendo uma só vida corporal, nos houvesse dotado tão desigualmente, e, do selvagem ao civilizado, tivesse reservado aos homens bens tão desproporcionados e tão diferente nível moral? Se não fosse a lei das reencarnações, a iniquidade governaria o mundo.

A influência dos meios, a hereditariedade, as diferenças de educação não bastam para explicar essas anomalias. Vemos os membros de uma mesma família, semelhantes pela carne e pelo sangue, educados nos mesmos princípios, diferençarem-se em bastantes pontos. Homens excelentes têm tido monstros por filhos. Marco Aurélio, por exemplo, foi o genitor de Cômodo; personagens célebres e estimadas têm descendido de pais obscuros, destituídos de valor moral.

Se para nós tudo começasse com a vida atual, como explicar tanta diversidade nas inteligências, tantos graus na virtude e no vício, tantas variedades nas situações humanas? Um mistério impenetrável pairaria sobre esses gênios precoces, sobre esses Espíritos prodigiosos que, desde a infância, penetram com ardor as veredas da arte e das ciências, ao passo que tantos jovens empalidecem no estudo e ficam medíocres, apesar dos seus esforços.

Todas essas obscuridades se dissipam perante a doutrina das existências múltiplas. Os seres que se distinguem pelo seu poder intelectual ou por suas virtudes têm vivido mais, trabalhado mais, adquirido experiência e aptidões maiores. O progresso e a elevação das almas dependem unicamente de seus trabalhos, da energia por elas desenvolvida no combate da vida. Umas lutam com coragem e rapidamente franqueiam os graus que as separam da vida superior, enquanto outras imobilizam-se durante séculos em existências ociosas e estéreis.

Porém, essas desigualdades, resultantes dos feitos do passado, podem ser resgatadas e niveladas nas vidas futuras. Em resumo, o ser se forma a si próprio pelo desenvolvimento gradual das forças que estão consigo. Inconsciente ao princípio, sua vida vai ganhando inteligência e torna-se consciente logo que chega à condição humana e entra na posse de si mesmo. Aí a sua liberdade ainda é limitada pela ação das leis naturais que intervêm para assegurar a sua conservação. O livre-arbítrio e o fatalismo assim se equilibram e moderam-se um pelo outro.

A liberdade e, por conseguinte, a responsabilidade são sempre proporcionais ao adiantamento do ser. Eis a única solução racional do problema. Através da sucessão dos tempos, na superfície de milhares de mundos, as nossas existências desenrolam-se, passam, renovam-se, e, em cada uma delas, desaparece um pouco do mal que está em nós; as nossas almas fortificam-se, depuram-se, penetram mais intimamente nos caminhos sagrados, até que, livres das encarnações dolorosas, tenham adquirido, por seus méritos, acesso aos círculos superiores, onde eternamente irradiarão em beleza, sabedoria, poder e amor!


05 - Emmanuel - Emmanuel - pág. 88, 144

XVI - AS VIDAS SUCESSIVAS E OS MUNDOS HABITADOS
Alguns estudiosos, há muitos séculos, guardam as verdadeiras concepções do Universo, o qual não se encontra circunscrito ao minúsculo orbe terreno e é representado pelo infinito dos mundos, dentro do infinito de Deus. Não obstante as teorias do sistema geocêntrico, que encarava a Terra como o centro do grupo de planetas em que vos encontrais, a idéia da multiplicidade dos sóis vinha, de há muito, animando o cérebro dos pensadores da antiguidade.

Apesar da objetiva dos vossos telescópios, que descortinam, na imensidade, "as terras do céu", julga-se erradamente que apenas o vosso mundo oferece condições de habitabilidade e somente nele se verifica o florescimento da vida. Infelizmente, são inúmeros os que duvidam dessa realidade inconteste, aprisionados em escolas filosóficas que pecam pelo seu caráter obsoleto e incompatível com a evolução da Humanidade, em geral.

É que não reconhecem que a Terra minúscula é apenas um ponto obscuro e opaco, no concerto sideral, e nada de singular existe nela que lhe outorgue, com exclusividade, o privilégio da vida; em contraposição aos assertos dos negadores, podeis notar, cientificamente, que é mesmo, em vosso plano, o local do Universo onde a vida encontra mais dificuldade para se estabelecer.

ESPONTANEIDADE IMPOSSÍVEL

Grande é a tortura dos seres racionais que, no mundo terráqueo, buscam guarda para as suas aspirações de progresso, porquanto, do berço ao túmulo, suas existências representam grande soma de esforços combatendo com a Natureza inconstante, com as mais diversas condições climatéricas, arrasadoras da saúde e causas de um combate acérrimo da parte do homem, porque não lhe é possível viver em afinidade perfeita com a natureza submetida às mais bruscas mutações, sendo obrigado a criar a sua moradia, organizar a sua habitação, que representa, de fato, a sua escravidão primeira, impedindo-lhe uma existência cheia de harmonia e espontaneidade.

O vosso mundo vos obriga a uma vida artificial, já que sois obrigados a buscar, cotidianamente, o sustento do corpo que se gasta e consome nessa batalha sem tréguas. Nele, as mais belas faculdades espirituais são frequentemente sufocadas, em virtude das mais imperiosas necessidades da matéria.

HÁ MUNDOS INCONTÁVEIS

Que se calem os que puderem descobrir a vida apenas em vossa obscura penitência de náufragos morais. Por que razão a Vontade Divina colocaria na amplidão essas plagas longínquas? Enxergar nesses mundos distantes somente objetos de estudo da vossa Astronomia é um erro; eles estão, às vezes, regulados por forças mais ou menos idênticas às que controlam a vossa vida. Em sua superfície observam-se os fenômenos atmosféricos e outros, cuja explicação é inacessível ao vosso entendimento.

Por que os formaria o Criador para o ermo do silêncio e do deserto? Podereis conceber cidades bem construídas, abarrotadas de tesouros e magnificências, apodrecendo sem habitantes? Há mundos incontáveis e muitos deles formados de fluidos rarefeitos, inatingidos, na atualidade, pelos vossos instrumentos de ótica.

MUNDO DE EXÍLIO E ESCOLA REGENERADORA

A Terra não representa senão um detalhe obscuro no ilimitado da Vida, região da amargura, da provação e do exílio; constituindo, porém, uma plaga de sombras, varrida, muitas vezes, pelos cataclismos do infortúnio e da destruição, deve representar, para todos quantos a habitam, uma abençoada escola, onde se regenera o Espírito culpado e onde ele se prepara, demandando glorioso porvir.

Significa um dever de todo homem o trabalho próprio, no sentido de atenuar as más condições do seu meio ambiente, aplainando todas as dificuldades de ordem material e moral, porquanto a evolução depende de todos os esforços individuais no conjunto das coletividades.

Forças ocultas, leis desconhecidas, esperam que a alma humana delas se utilize e, à medida que se espalhe o progresso moral, mais os homens se beneficiarão na fonte bendita do conhecimento.

O ESTÍMULO DO CONHECIMENTOS

Para a Humanidade terrestre a revelação de outras pátrias do firmamento, fragmentos da Pátria Universal, não deve constituir uma razão para desânimo de quantos se entregam aos labores profícuos do estudo. Os desequilíbrios que se verificam no orbe terreno obedecem a uma lei de justiça, acima de todas as coisas transitórias; e, além disso, a primeira obrigação de todo homem é colaborar, em todos os minutos de sua passageira existência, em prol da melhoria do seu próximo, consciente de que trabalhar a benefício de outrem é engrandecer-se.

O conhecimento das condições perfeitas da vida, em outros mundos, não deve trazer abatimento aos extremistas do ideal. Semelhante verdade deve encher o coração humano de sagrados estímulos. Saudai, pois, o concerto da vida, do seio dos vossos combates salvadores!...

Sóis portentosos, luzes policrômicas, mundos maravilhosos, existem embalados pelas harmonias que a perfeição eleva à Entidade Suprema!... Além do Grande Cão, da Ursa, de Hércules, outras constelações atestam a grandeza divina. Os firmamentos sucedem-se ininterruptamente nas amplidões etéreas, mas a Humanidade, para Deus, é uma só e o laço do seu amor reúne todos os seres.

08 - HÁ DOIS MIL ANOS - EMMANUEL - PÁG. 13

De outras vezes, Emmanuel ensinava aos seus companheiros encarnados a necessidade de nossa ligação espiritual com Jesus, no desempenho de todos os trabalhos. No dia 4 de janeiro de 1939, grafafa ele esta prece, ainda com respeito às suas memórias do passado remoto: -"Jesus, Cordeiro Misericordioso do Pai de todas as graças, são passados dois mil anos e minha pobre alma ainda revive os seus dias amargurados e tristes!...

Que são dois milênios, Senhor, no relógio da Eternidade? Sinto que a tua misericórdia nos responde em suas ignotas profundezas...Sim, o tempo é o grande tesouro do homem e vinte séculos, como vinte existências diversas, podem ser vinte dias de provas, de experiências e de lutas redentoras.

Só a tua bondade é infinita! Somente tua misericórdia pode abranger todos os séculos e todos os seres, porque em Ti vive a gloriosa síntese de toda a evolução terrestre, fermento divino de todas as culturas, alma sublime de todos os pensamentos. Diante de meus pobres olhos, desenha-se a velha Roma dos meus pesares e das minhas quedas dolorosas... Sinto-me ainda envolto na miséria de minhas fraquezas e contemplo os monumentos das vaidades humanas... Expressões políticas, variando nas suas características de liberdade e de força, detentores da autoridade e do poder, senhores da fortuna e da inteligência, grandezas efémeras que perduram apenas por um dia fugaz!...

Tronos e púrpuras, mantos preciosos das honrarias terrestres, togas da falha justiça humana, parlamentos e decretos supostos irrevogáveis!... Em silêncio, Senhor, viste a confusão que se estabelecera entre os homens inquietos e, com o mesmo desvelado amor, salvaste sempre as criaturas no instante doloroso das ruínas supremas... Deste a mão misericordiosa e imaculada aos povos mais humildes e mais frágeis, confundiste a ciência mentirosa de todos os tempos, humilhaste os que se consideravam grandes e poderosos!. ..

Sob o teu olhar compassivo, a morte abriu suas portas de sombra e as falsas glórias do mundo foram derruídas no torvelinho das ambições, reduzindo-se todas as vaidades a um acervo de cinzas!... Ante minhalma surgem as reminiscências das construções elegantes das colinas célebres; vejo o Tibre que passa, recolhendo os detritos da grande Babilônia imperial, os aquedutos, os mármores preciosos, as termas que pareciam indestrutíveis... Vejo não as ruas movimentadas, onde uma plebe miserável espera as graças dos grandes senhores, as esmolas de trigo, os fragmentos de pano para resguardarem do frio a nudez da carne.

Regurgitam os circos... Há uma aristocracia do patriciado observando as provas elegantes do Campo de Marte e, em tudo, das vias mais humildes até os palácios mais suntuosos, fala-se de César, o Augusto!...

Dentro dessas recordações, eu passo, Senhor, entre farraparias e esplendores, com o meu orgulho miserável! Dos véus espessos de minhas sombras, também eu não te podia ver, no Alto, onde guardas o teu sólio de graças inesgotáveis... Enquanto o grande Império se desfazia em suas lutas inquietantes, trazias o teu coração no silêncio e, como os outros, eu não percebia que vigiavas!

Permitiste que a Babel romana se levantasse muito alto, mas, quando viste que se ameaçava a própria estabilidade da vida no planeta, disseste: — "Basta! São vindos os tempos de operar-se na seara da Verdade!" E os grandes monumentos, com as estátuas dos deuses antigos, rolaram de seus pedestais maravilhosos! Um sopro de morte varreu as regiões infestadas pelo vírus da ambição e do egoísmo desenfreado, despovoando-se, então, a grande metrópole do pecado. Ruíram os circos formidandos, caíram os palácios, enegreceram--se os mármores luxuosos...

Bastou uma palavra tua, Senhor, para que os grandes senhores voltassem às margens do Tibre, como escravos misérrimos!... Perambulámos, assim, dentro da nossa noite, até o dia em que nova luz brotara em nossa consciência. Foi preciso que os séculos passassem, para aprendermos as primeiras letras de tua ciência infinita, de perdão e de amor! (...)

10 - O Livro dos Espíritos - Allan Kardec - questões: 166, 222, 1010

Perg. 166 - A alma que não atingiu a perfeição durante a vida corpórea, como acaba de depurar-se?
- Submetendo-se à provade uma nova existência.
Perg. 166a - Como se realiza ela essa nova existência? Pela sua transformação como Espírito?
- Ao se depurar, a alma sofre sem dúvida uma transformação, mas para isso necessita da prova da vida corpórea.
Perg. 166b - A alma tem muitas existências corpóreas?
- Sim, todos nós temos muitas existências. Os que dizem o contrário querem manter-vos na ignorância em que eles mesmos se encontram; esse é o seu desejo.
Perg. 166c - Parece resultar, desse princípio, que, após ter deixado o corpo, a alma toma outro. Dito de outra maneira, que ela se reencarna em novo corpo. É assim que se deve entender?
- É evidente.

Perg. 167 - Qual é a finalidade da reencarnação?
- Expiação, melhoramento progressivo da humanidade. Sem isto, onde estaria a justiça?
Perg. 168 - O número das existências corpóreas é limitado, ou o Espírito se reencarna perpetuamente?
- A cada nova existência, o Espírito dá um passo na senda do progresso; quando se despoja de todas as impurezas, não precisa mais das provas da vida corpórea.

Perg. 169 - O numéro das encarnações é o mesmo para todos os Espíritos?
- Não. Aquele que avança rapidamente poupa-se das provas. Não obstante, as encarnações sucessivas são sempre muito numerosas, porque o progresso é quase infinito.
Perg. 170 - Em que se transforma o Espírito, depois da sua última encarnação?
- Espírito bem-aventurado; um Espírito puro.

Capítulo—V - CONSIDERAÇÕES SOBRE A PLURALIDADE DAS EXISTÊNCIAS
222. O dogma da reencarnação, dizem algumas pessoas, não é novo; foi ressuscitado de Pitágoras. Mas jamais dissemos que a Doutrina Espírita fosse uma invenção moderna. O Espiritismo deve ter existido desde a origem dos tempos, pois decorre da própria Natureza. Temos sempre procurado provar que se encontram os seus traços desde a mais alta Antiguidade. Pitágoras, como se sabe, não é o criador do sistema da metempsicose, que tomou dos filósofos indianos e dos meios egípcios, onde ela existia desde épocas imemoriais.

A idéia da transmigração das almas era, portanto, uma crença comum, admitida pelos homens mais eminentes. Por que maneira chegou até eles? Pela revelação, ou por intuição? Não o sabemos. Mas, seja como for, uma idéia não atravessa as idades e não é aceita pelas inteligências mais adiantadas, se não tiver um aspecto sério. A antiguidade desta doutrina, portanto, em vez de ser uma objeção, devia ser antes uma prova a seu favor. Há, porém, como igualmente se sabe, entre a metempsicose dos antigos e a moderna doutrina da reencarnação, a grande diferença de que os Espíritos rejeitam, da maneira mais absoluta, a transmigração do homem nos animais e vice-versa.

Os Espíritos, ensinando o dogma da pluralidade das existências corpóreas, renovam uma doutrina que nasceu nos primeiros tempos do mundo e que se conservou até os nossos dias, no pensamento íntimo de muitas pessoas. Apresentam-na, porém, de um ponto de vista mais racional, mais conforme com as leis progressivas da Natureza e mais em harmonia com a sabedoria do Criador, ao despojá-la de todos os acréscimos da superstição. Uma circunstância digna de nota é que não foi apenas neste livro que eles a ensinaram, nos últimos tempos: desde antes da sua publicação, numerosas comunicações da mesma natureza foram obtidas, em diversas regiões, e multiplicaram-se consideravelmente depois. Seria o caso, talvez, de examinar-se, porque todos os Espíritos não parecem de acordo sobre este ponto.

Examinemos o assunto por outro ângulo, fazendo abstração da intervenção dos Espíritos.. Deixemo-los de lado por um instante. Suponhamos que esta teoria nunca foi dada por eles; suponhamos mesmo que nunca se tenha cogitado disto com os Espíritos. Coloquemo-nos momentaneamente numa posição neutra, admitindo o mesmo grau de probabilidade para uma hipótese e outra, a saber: a da pluralidade e a da unicidade das existências corpóreas, e vejamos.para que lado nos levam a razão e o nosso próprio interesse.

Certas pessoas repelem a idéia da reencarnação pelo único motivo de que ela não lhes convém, dizendo que lhes basta uma existência e não desejam iniciar outra semelhante. Conhecemos pessoas que, à simples idéia de voltar à Terra, ficam endurecidas. Só temos a lhes perguntar se Deus devia pedir-lhes conselho e consultar os seus gostos, para ordenar o Universo. De duas uma: a reencarnação existe ou não existe. Se existe, é inútil opor-se a ela, pois terão de sofrê-la, sem que Deus lhes peça permissão para isso. Parece-nos ouvir um doente dizer: Já sofri hoje demais e não quero tornar a sofrer amanhã. Qualquer que seja a sua má vontade, isso não o fará sofrer menos amanhã e nos dias seguintes, até que consiga curar-se.

Da mesma maneira, se essas pessoas devem reviver corporalmente, reviverão, tornarão a encarnar-se; perderão o tempo a protestar, o tino uma criança que não quer ir a escola ou um condenado à prisão, pois terão de passar por ela. Objeções dessa espécie são demasiado pueris para merecerem exame mais sério. Diremos, entretanto, a essas pessoas, para tranquilizá-las, que a doutrina espírita sobre a reencarnação não é tão terrível como pensam, e que se a estudassem a fundo não teriam do que se assustar. Saberiam que a situação dessa nova existência depende delas mesmas: será feliz ou desgraçada, segundo o que tiverem feito neste plano, e podem desde já elevar-se tão alto, que não mais deverão temer nova queda no lodaçal.

Supomos falar a pessoas que acreditam num futuro qualquer após a morte, e não às que só têm o nada como perspectiva, ou que desejam mergulhar a sua alma no Todo Universal, sem conservar a individualidade como as gotas de chuva no oceano, o que vem a ser mais ou menos a mesma coisa, Se acreditais num futuro qualquer, por certo não admitireis que ele seja o mesmo para todos, pois qual seria a utilidade do bem? Por que reprimir-se, por que não satisfazer a todas as paixões, a todos os desejos, mesmo à custa dos outros, se isso não teria consequência?

Acreditai, pelo contrário, que esse futuro será mais ou menos feliz ou desgraçado, segundo o que tivermos feito durante a vida, e tereis o desejo de que ele seja o mais feliz possível, pois deverá durar pela eternidade. Teríeis a pretensão de ser uma das criaturas mais perfeitas que já passaram pela Terra, tendo assim o direito imediato à felicidade dos eleitos? Não. Admitis, então, que há criaturas que valem mais do que vós e têm direito a uma situação melhor, sem por isso vos considerardes entre os réprobos. Pois bem: colocai-vos por um instante, pelo pensamento, nessa situação intermediária, que será a vossa, como o admitis, e suponde que alguém venha dizer-vos:

"Sofreis, não sois tão felizes como poderíeis ser, enquanto tendes diante de vós os que gozam de uma felicidade perfeita: quereis trocar a vossa posição com a deles ?" — "Sem dúvida!" responderíeis, "mas o que devo fazer?"— "Quase nada: recomeçar o que fizestes mal e tratar de fazê-lo melhor." — Hesitaríeis em aceitar, mesmo que fosse ao preço de muitas existências de provas? Façamos uma comparação mais prosaica. Se a um homem que, sem estar na miséria extrema, passa pelas privações decorrentes da sua precariedade de recursos, viessem dizer: "Eis uma imensa fortuna que podereis gozar, sendo porém necessário trabalhar rudemente durante um minuto".

Fosse ele o maior preguiçoso da Terra, e diria sem hesitar: "Trabalhemos um minuto, dois minutos, uma hora, um dia, se for preciso! O que será isso, para acabar a minha vida na abundância?" Ora, o que é a duração da vida corporal em relação à eternidade? Menos que um minuto, menos que um segundo. Ouvimos algumas vezes este raciocínio: Deus, que é soberanamente bom, não pode impor ao homem o reinicio de uma série de misérias e tribulações. Acharão, por acaso, que há mais bondade em condenar o homem a um sofrimento perpétuo, por alguns momentos de erro, do que em lhe conceder os meios de reparar as sua faltas?

"Dois fabricantes tinham, cada qual, um operário que podia aspirar a se tomar sócio da firma. Ora, aconteceu que esses dois operários empregaram mal, certa vez, o seu dia de trabalho, e mereceram ser despedidos. Um dos fabricantes despediu o seu empregado, apesar de suas súplicas, e este, não mais encontrando emprego, morreu na miséria. O outro disse ao seu empregado: Perdeste um dia e me deves uma compensação; fizeste mal o trabalho e me deves a reparação; eu te permito recomeçar; trata de fazê-lo bem, e eu te conservarei e poderás continuar aspirando à posição superior que te prometi".

Seria necessário perguntar qual dos dois fabricantes foi mais humano? Deus, que é a própria clemência, seria mais inexorável que um homem? O pensamento de que a nossa sorte está para sempre fixada em alguns anos de prova, ainda mesmo quando nem sempre dependesse de nós atingir a perfeição sobre a Terra, tem qualquer coisa de pungente, enquanto a idéia contrária é eminentemente consoladora, pois não nos tira a esperança. Assim, sem nos pronunciarmos pró ou contra a pluralidade das existências, sem admitir uma hipótese mais do que a outra, diremos que, se pudéssemos escolher, ninguém preferiria um julgamento sem apelo. Um filósofo disse que, se Deus não existisse, seria necessário inventá-lo para a felicidade do gênero humano; o mesmo se poderia dizer da pluralidade das existências.

Mas, como dissemos, Deus não nos pede licença, não consulta as nossas preferências; as coisas são ou não são. Vejamos de que lado estão as probabilidades, e tomemos o problema sob outro ponto de vista, fazendo sempre abstração do ensinamento dos Espíritos e unicamente, portanto, como estudo filosófico. Se não há reencarnação, não há mais do que uma existência corporal, isso é evidente. Se nossa existência corporal é a única, a alma de cada criatura foi criada por ocasião do nascimento, a menos que admitamos a anterioridade da alma. Mas, neste caso, perguntaríamos o que era a alma antes do nascimento, e se o seu estado não constituiria uma existência, sob qualquer forma.

Não há, pois, meio-termo: ou a alma existia ou não existia antes do corpo. Se ela existia, qual era a sua situação? Tinha ou não consciência de si mesma? Se não a tinha, era mais ou menos como se nSo existisse; se a tinha, sua individualidade era progressiva ou estacionária? Num e noutro caso, qual a sua situação ao tomar o corpo? Admitindo-se, de acordo com a crença vulgar, que a alma nasce com o corpo, ou o que dá no mesmo, que antes da encarnação só tinha faculdades negativas, formulemos as seguintes questões:

l. Por que a alma revela aptidões tão diversas e independentes das idéias adquiridas pela educação?

2. De onde vem a aptidão extranormal de algumas crianças de pouca idade para esta ou aquela ciência, enquanto outras permanecem inferiores ou medíocres por toda a vida?

3. De onde vêm, para uns, as idéias inatas ou intuitivas, que não existem para outros?

4. De onde vêm, para certas crianças, os impulsos precoces de vícios ou virtudes, esses sentimentos inatos de dignidade ou de baixeza, que contrastam com o meio em que nasceram?

5. Por que alguns homens, independentemente da educação, são mais adiantados que outros?

6. Por que há selvagens e homens civilizados? Se tomarmos um criança hotentote, de peito, e a educarmos, enviando-a depois aos mais renomados liceus, faremos dela um Laplace ou um Newton?

Perguntamos qual a Filosofia ou a Teosofia"' que pode resolver esses problemas. Ou as almas são iguais ao nascer, ou não são: quanto a isso não há duvida. Se são iguais, por que essas tamanhas diferenças de aptidões? Dirão que dependem do organismo. Mas, nesse caso, teríamos a doutrina mais monstruosa e mais imoral. O homem não seria mais que uma máquina, joguete da matéria; não teria a responsabilidade dos seus atos; tudo poderia atribuir às suas imperfeições físicas. Se as almas são desiguais, foi Deus quem as criou assim. Então, por que essa superioridade inata, conferida a alguns? Essa parcialidade estaria conforme à sua justiça e ao amor que dedica por igual a todas as criaturas?

Admitamos, ao contrário, uma sucessão de existências anteriores e progressivas, e tudo se explicará. Os homens trazem, ao nascer, a intuição do que já haviam adquirido. São mais ou menos adiantados, segundo o número de existências por que passaram ou conforme estejam mais ou menos distanciados do ponto de partida: precisamente como, numa reunião de pessoas de todas as idades, cada uma terá um desenvolvimento de acordo vom o número de anos vividos. Para a vida da alma, as existências sucessivas serão o que os anos são para a vida do corpo.

Reuni um dia mil indivíduos de um até oitenta anos; suponde que um véu tenha sido lançado sobre todos os dias anteriores, e que, na vossa ignorância, julgais todos eles nascidos no mesmo dia: perguntareis, naturalmente, por que uns são grandes e outros pequenos, uns velhos e outros jovens, uns instruídos e outros ainda ignorantes. Mas, se a nuvem que vos oculta o passado for afastada, se compreenderdes que todos viveram por mais ou menos tempo, tudo estará explicado. Deus, na sua justiça, não podia ter criado almas mais perfeitas e outras menos perfeitas.

Mas, com a pluralidade das existências, a desigualdade que vemos nada tem de contrário à mais rigorosa equidade. É porque só vemos o presente e não o passado, que não o compreendemos. Este raciocínio repousa sobre algum sistema, alguma suposição gratuita? Não, pois partimos de um fato patente, incontestável: a desigualdade de aptidões e do desenvolvimento intelectual e moral. E verificamos que esse fato é inexplicável por todas as teorias correntes, enquanto a explicação é simples, natural, lógica, por uma nova teoria. Seria racional preferirmos aquela que nada explica à outra que tudo explica?

No tocante à sexta pergunta, dirão sem dúvida que o hotentote é de uma raça inferior. Então perguntaremos se o hotentote é ou não humano. Se é humano, por que teria Deus, a ele e a toda a sua raça, deserdado dos privilégios concedidos à raça caucásica? Se o não é, por que procurar fazê-lo cristão? A Doutrina Espírita é mais ampla que tudo isso. Para ela, não há muitas espécies de homens, mas apenas homens, seres humanos cujos espíritos são mais ou menos atrasados, mas sempre susceptíveis de progredir. Isto não está mais conforme à Justiça de Deus?

Vimos a alma no seu passado e no seu presente. Se a considerarmos quanto ao futuro, encontraremos as mesmas dificuldades.

1. Se a existência presente deve ser decisiva para a sorte futura, qual é, na vida futura, respectivamente, a posição do selvagem e a do homem civilizado? Estarão no mesmo nível ou estarão distanciados no tocante à felicidade eterna?

2. O homem que trabalhou toda a vida para melhorar-se estará no mesmo plano daquele que permaneceu inferior, não por sua culpa, mas porque não teve o tempo nem a possibilidade de melhorar?

3. O homem que praticou o mal, por não ter podido esclarecer-se, é culpado por um estado de coisas que dele em nada dependeu?

4. Trabalha-se para esclarecer os homens, para os moralizar e civilizar. Mas, para um que se esclarece, há milhões que morrem cada dia, antes que a luz consiga atingí-los.

5. Qual é a sorte destes? Serão tratados como répobros? Caso contrário, o que fizeram eles, para merecerem estar no mesmo plano que os outros? (...)