PLURALIDADE DO MUNDOS
BIBLIOGRAFIA
01- Agonia das religiões - pág. 34 02 - A mulher na dimensão espírita - pág. 27, 40
03 - A plural.dos mundos habitados - toda a obra 04 - Análise das coisas - pág. 41
05 - Boa nova - pág. 169 06 - Catecismo espírita - pág. 35, 16ª lição
07 - Coragem - pág. 19 08 - Cristo espera por ti - pág. 310
09 - Curso dinâmico de Espiritismo - pág. 86 10 - Depois da morte - pág. 50, 58, 221
11 - Devassando o invisível - pág. 9 12 - Emmanuel - pág. 89
13 - Entre a matéria e o Espírito - pág.173 14 - Livro da esperança - pág. 29
15 - Mensagens além túmulo - pág. 70

16 - O consolador - pág. 55

17 - O exilado - pág. 175 18 - O Livro dos Espíritos - q 55, 1011
19 - O pensamento de Emmanuel - pág. 23 20 - O que é o espiritismo? - pág. 193
21 - O solar de Apolo - pág. 19, 100 22 - Os exilados de Capela - pág. 11
23 - Religião dos Espíritos - pág. 219 24 - Síntese de o novo testamento - pág. 77, 164

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PLURALIDADE DOS MUNDOS – COMPILAÇÃO

01 - Agonia das religiões - J. Herculano Pires - pág. 34

CAPÍTULO - IV EXPERIÊNCIA NO TEMPO
O homem realiza a experiência de Deus no tempo, ao longo de sua evolução natural. Não se pode ter uma experiência artificial de Deus em alguns minutos ou algumas horas de meditação. Essa experiência é natural — e de natureza vital — faz parte integrante da vida e da existência humana. Podemos lembrar a expressão de Descartes: A idéia de Deus no homem é a marca do obreiro na sua obra. Descartes foi o precursor de Kardec, como João Batista o foi do Cristo. Temos, assim, uma curiosa correlação histórica entre o advento do Cristianismo e o advento do Espiritismo, que se completa em numerosos outros aspectos.

Lembrando a teoria da reminiscência em Platão, em que as almas nascem na Terra marcadas pela recordação do mundo das idéias, compreenderemos mais facilmente a existência da idéia inata de Deus no homem. Essa idéia inata não é apenas marca, mas também o marco inicial e o pivô em torno do qual se processa todo o desenvolvimento espiritual da criatura humana. Podemos acompanhar esse processo desde a adoração dos elementos naturais pelo homem primitivo (a partir da litolatria, adoração da pedra e de outras formações minerais) até à eclosão do monoteísmo, com a ideia do Deus Único, que Kant considerou o mais elevado conceito formulado pela mente humana.

E vemos então que a idéia de Deus representa, histórica e antropologicamente, uma espécie de marca-passo de toda a evolução do homem. No episódio do Cogito, da cogitação de Descartes sobre a realidade ou não da existência, temos o momento em que ele descobre, no mais profundo de si mesmo, uma idéia estranha, que é a da existência de um Ser Absoluto e portanto absolutamente perfeito. Essa idéia não podia ter sido originada pelas suas experiências de ser relativo e imperfeito. Descartes a considerou estranha porque só poderia vir de fora dele, da existência real desse Ser Absoluto. Descobria assim que tivera uma experiência de Deus, inteiramente independente de todas as suas experiências terrenas.

A importância desses fatos históricos e culturais foi negligenciada pela cultura leiga que se desenvolveu na Renascença e deu forma ao mundo moderno. O predomínio crescente das conquistas materiais da Civilização Ocidental asfixiou essas conquistas do espírito. O homem se esqueceu do significado desses fatos, desses episódios culminantes da cultura humana, e as religiões dogmáticas transformaram a ideia de Deus em simples crença desprovida de raízes experimentais. Coube ao Espiritismo restabelecer a verdade e colocar a experiência de Deus no seu devido lugar, no vasto panorama da evolução da Humanidade.

Trata-se da mais importante e profunda experiência do homem, uma experiência vital que deverá levá-lo à compreensão da sua verdadeira natureza e do seu verdadeiro destino. Impossível reduzi-la a uma conquista particular e eventual de algumas criaturas que hoje se entregam a práticas de meditação. Claro que com isso não pretendo negar nem diminuir o valor da meditação como disciplina mental e como recurso de elevação espiritual. Sustento apenas que a meditação é o produto e não a produtora da experiência de Deus, pois essa experiência já marcava o homem muito antes que ele houvesse adquirido o poder do pensamento abstraio e pudesse meditar. A vivência religiosa, pelo simples fato de ser vivência e não reflexão, é inerente ao homem desde o seu aparecimento no planeta. Essa é uma questão que hoje se coloca de maneira evidente.

A concepção espírita vai mais longe e mais fundo, negando ao homem atual o direito de isolar-se do mundo para buscar a Deus, e portanto de buscar a Deus ou aos poderes espirituais através de processos artificiais. O meio natural de evolução, para o homem e para todas as coisas e todos os seres, é a relação. Se nos afastamos do relacionamento social e cultural para nos elevarmos, estamos nos colocando em posição errada e tomando um caminho ilusório. A busca solitária de Deus é um ato egocêntrico e preferencial. O místico vulgar não mergulha em si mesmo para encontrar em Deus a relação com o mundo, como o fez Descartes, mas, pelo contrário, para desligar-se do mundo e ligar-se isoladamente a Deus.

Não é guiado pelo amor à Humanidade, mas pelo amor a si mesmo. Prefere elevar-se acima dos outros para encontrar em Deus o refúgio e a fortaleza em que poderá construir e usufruir sozinho a sua felicidade particular. Prefere a fuga ao mundo, em termos de superioridade pessoal e portanto egoísta, anti-religiosa, à ligação com o mundo e com Deus para a realização da unidade global que é o objetivo da religião.

A diferença absoluta entre a posição do Cristo e a posição do Buda e das chamadas religiões orientais é precisamente essa. Enquanto o Buda abandona o mundo para buscar a Deus na solidão, o Cristo mergulha no mundo para religar os homens a Deus. A ação do Buda é subjetiva e contrária à experiência do mundo, enquanto a ação do Cristo é objetiva, considerando a experiência do mundo como necessária ao desenvolvimento da experiência de Deus no homem. Meio milhão de pessoas entregues à meditação para tentar a ligação pessoal de cada uma delas com Deus não representa um esforço coletivo de unidade — uma ação religosa — mas a simples coincidência de esforços particulares e isolados, como vemos na busca do ouro nas regiões auríferas. Não se trata, pois, de uma ação coletiva e sim de milhares de ações individuais e egoístas.

Não quero de maneira alguma negar o valor espiritual do Buda, cuja posição correspondia à necessidade de orientação de uma comunidade de almas estranhas à Terra, exiladas em nosso planeta, que tinham por objetivo a volta aos seus mundos de origem. Nesse caso, a negação individual do mundo (do nosso mundo) tornava-se coletiva em virtude do objetivo comum do retorno ao paraíso perdido. A teoria espírita da migração entre os mundos — apoiada na teoria cristã das muitas moradas da Casa do Pai — é a chave indispensável à compreensão desse problema.

A evolução de cada mundo atinge o momento em que a sua população se divide em dois campos bem diferenciados, como vemos hoje na Terra. Um deles evoluiu o suficiente para integrar uma humanidade planetária superior, o outro continua em estado inferior. A população desse campo inferior precisa ser transferida para outro mundo que esteja no seu nível evolutivo, a fim de que as criaturas refaçam ali o tempo perdido. Quando essa população atingir ali, no outro planeta o nível de evolução necessário, voltará ao seu mundo de origem. Nessa situação, a vivência isolada nas práticas solitárias da meditação constitui uma recapitulação de aprendizado. Era a essas almas emigradas que o Buda dirigia a sua mensagem superior, como outros haviam feito antes dele.

Em nossa humanidade terrena somente a ação do Cristo — vencendo o mundo, segundo suas próprias palavras — impulsionou-nos ao aceleramento evolutivo que vem transformando a Terra não só nas áreas cristãs, mas em toda a sua extensão. O Cristianismo institucional, igrejeiro, absorvendo elementos espirituais das religiões orientais, que se opunham aos princípios de entrega ao mundo das religiões mitológicas, mergulhou no ascetismo das ordens monásticas do Oriente e no isolacionismo da concepção sócio-cêntrica de Israel.

As seitas cristãs fecharam-se em si mesmas, desde a comunidade apostólica do Livro de Atos dos Apóstolos, estabelecendo uma divisão arbitrária entre os escolhidos de Deus e os abandonados por Ele. A prática do batismo do espírito, do tempo de Jesus, que dava à criatura a experiência direta da realidade espiritual, converteu-se nas formas de evocação ritual e privilegiada do Espírito Santo, que dá ao crente a ilusão de uma separatividade conferida pela graça. As igrejas cristãs transformaram-se em ilhas de santidade e pureza em meio à impureza do mundo, como a Israel antiga no mundo mitológico. A experiência de Deus, pessoal e intransferível, substituiu a experiência de Deus no mundo, a vivência universal do ensino e do exemplo de Jesus.

É por isso que os cristãos de hoje se formalizam em grupos sócio-cêntricos fechados. Ao contrário disso, a revelação espírita considera a graça simplesmente como a força que Deus concede ao homem de boa-vontade para vencer as suas imperfeições, seja ele desta ou daquela religião ou de nenhuma delas. O batismo exclusivista e sectário é substituído pelo antigo batismo do espírito, acessível a todos, não segundo o cristério eclesiástico mas segundo o critério de Deus. (...)

05 - Boa nova - Humberto de Campos - pág. 169

25 - A ÚLTIMA CEIA
Reunidos os discípulos em companhia de Jesus, no primeiro dia das festas da Páscoa, como de outras vezes, o Mestre partiu o pão com a costumeira ternura. Seu olhar, contudo, embora sem trair a serenidade de todos os momentos, apresentava misterioso fulgor, como se sua alma, naquele instante, vibrasse ainda mais com os altos planos do invisível. Os companheiros comentavam com simplicidade e alegria os sentimentos do povo, enquanto o Mestre meditava, silencioso.

Em dado instante, tendo-se feito longa pausa entre os amigos palradores, o Messias acentuou com firmeza impressionante:— Amados: é chegada a hora em que se cumprirá a profecia da Escritura. Humilhado e ferido, terei de ensinar em Jerusalém a necessidade do sacrifício próprio, para que não triunfe apenas uma espécie de vitória, tão passageira quanto as edificações do egoísmo ou do orgulho humanos. Os homens têm aplaudido, em todos os tempos, as tribunas douradas, as marchas retumbantes dos exércitos que se glorificaram com despojos sangrentos, os grandes ambiciosos que dominaram à força o espírito inquieto das multidões; entretanto, eu vim de meu Pai para ensinar como triunfam os que tombam no mundo, cumprindo um sagrado dever de amor, como mensageiros de um mundo melhor, onde reinam o bem e a verdade. Minha vitória é a dos que sabem ser derrotados entre os homens, para triunfarem com Deus, na divina construção de suas obras, imolando-se, com alegria, para glória de uma vida maior.

Ante a resolução expressa naquelas palavras firmes, os companheiros se entreolharam, ansiosos. O Messias continuou:— Não vos perturbeis com as minhas afirmativas, porque, em verdade, um de vós outros me há de trair!... As mãos, que eu acariciei, voltam-se agora contra mim. Todavia, minhalma está pronta para execução dos desígnios de meu Pai. A pequena assembléia fez-se lívida. Com exceção de Judas, que entabulara negociações particulares com os doutores do Templo, faltando apenas o ato do beijo, a fim de consumar-se a sua defecção, ninguém poderia contar com as palavras amargas do Messias. Penosa sensação de mal-estar se estabelecera entre todos. O filho de Iscariotes fazia o possível por dissimular as suas dolorosas impressões, quando os companheiros se dirigiam ao Cristo com perguntas angustiadas:

— Quem será o traidor? — disse Filipe, com estranho brilho nos olhos.— Serei eu? — indagou André ingenuamente.— Mas, afinal — objetou Tiago, filho de Alfeu, em voz alta—, onde está Deus que não conjura semelhante perigo? Jesus, que se mantivera em silêncio ante as primeiras interrogações, ergueu o olhar para o filho de Cleofas e advertiu:— Tiago, faze calar a voz de tua pouca confiança na sabedoria que nos rege os destinos. Uma das maiores virtudes do discípulo do Evangelho é a de estar sempre pronto ao chamado da Providência Divina. Não importa onde e como seja o testemunho de nossa fé.

O essencial é revelarmos a nossa união com Deus, em todas as circunstâncias. É indispensável não esquecer a nossa condição de servos de Deus, para bem lhe atendermos ao chamado, nas horas de tranquilidade ou de sofrimento. A esse tempo, havendo-se calado novamente o Messias, João interveio, perguntando:— Senhor, compreendo a vossa exortação e rogo ao Pai a necessária fortaleza de ânimo; mas, por que motivo será justamente um dos vossos discípulos o traidor de vossa causa? Já nos ensinastes que, para se eliminarem do mundo os escândalos, outros escândalos se tornam necessários; contudo, ainda não pude atinar com a razão de um possível traidor em nosso próprio colégio de edificação e de amizade.

Jesus pousou no interlocutor os olhos serenos e acentuou:— Em verdade, cumpre-me afirmar que não me será possível dizer-vos tudo agora; entretanto, mais tarde enviarei o Consolador, que vos esclarecerá em meu nome, como agora vos falo em nome de meu Pai. E, detendo-se um pouco a refletir, continuou para o discípulo em particular:— Ouve, João: os desígnios de Deus, se são insondáveis, também são invariavelmente justos e sábios. O escândalo desabrochará em nosso próprio círculo bem-amado, mas servirá de lição a todos aqueles que vierem depois de nossos passos, no divino serviço do Evangelho. Eles compreenderão que para atingirem a porta estreita da renúncia redentora hão de encontrar, muitas vezes, o abandono, a ingratidão e o desentendimento dos seres mais queridos.

Isso revelará a necessidade de cada qual firmar-se no seu caminho para Deus, por mais espinhoso e sombrio que ele seja. O apóstolo impressionara-se vivamente com as derradeiras palavras do Mestre e passou a meditar sobre seus ensinos. As sensações de estranheza perduravam em toda a assembléia. Jesus, então, levantou-se e, oferecendo a cada companheiro um pedaço de pão, exclamou: — Tomai e comei! Este é o meu corpo. Em seguida, servindo a todos de uma pequena bilha de vinho, acrescentou:— Bebei! Porque este é o meu sangue, dentro do Novo Testamento, a confirmar as verdades de Deus.

Os discípulos lhe acolheram a suave recomendação, naturalmente surpreendidos, e Simão Pedro, sem dissimular a sua incompreensão do símbolo, interrogou:— Mestre, que vem a ser isso?— Amados — disse Jesus, com emoção —, está muito próximo o nosso último instante de trabalho em conjunto e quero reiterar-vos as minhas recomendações de amor, feitas desde o primeiro dia do apostolado. Este pão significa o do banquete do Evangelho; este vinho é o sinal do espírito renovador dos meus ensinamentos. Constituirão o símbolo de nossa comunhão perene, no sagrado idealismo do amor, com que operaremos no mundo até o último dia. Todos os que partilharem conosco, através do tempo, desse pão eterno e desse vinho sagrado da alma, terão o espírito fecundado pela luz gloriosa do Reino de Deus, que representa o objetivo santo dos nossos destinos.

Ponderando a intensidade do esforço a ser empregado e aludindo às multidões espirituais que se conservam sob a sua amorosa direção, fora dos círculos da carne, nas esferas mais próximas da Terra, o Cristo acrescentou:— Imenso é o trabalho da redenção, mesmo porque tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; mas o Reino nos espera com sua eternidade luminosa!...Altamente tocados pelas suas exortações solenes, porém, maravilhados ainda mais com as promessas daquele reinado venturoso e sem-fim, que ainda não podiam compreender claramente, a maioria dos discípulos começou a discutir as aspirações e conquistas do futuro.

Enquanto Jesus se entretinha com João, em observações afetuosas, os filhos de Alfeu examinavam com Tiago as possíveis realizações dos tempos vindouros, antecipando opiniões sobre qual dos companheiros poderia ser o maior de todos, quando chegasse o Reino com as suas inauditas grandiosidades. Filipe afirmava a Simão Pedro que, depois do triunfo, todos deviam entrar em Nazaré para revelar aos doutores e aos ricos da cidade a sua superioridade espiritual. Levi dirigia-se a Tomé e lhe fazia sentir que, verificada a vitória, se lhes constituía uma obrigação a marcha para o Templo ilustre, onde exibiriam seus poderes supremos. Tadeu esclarecia que o seu intento era dominar os mais fortes e impenitentes do mundo, para que aceitassem, de qualquer modo, a lição de Jesus.

O Mestre interrompera a sua palestra íntima com João, e os observava. As discussões iam acirradas. As palavras "maior de todos" soavam insistentemente aos seus ouvidos. Parecia que os componentes do sagrado colégio estavam na véspera da divisão de uma conquista material e, como os triunfadores do mundo, cada qual desejava a maior parte da presa. Com exceção de Judas, que se fechava num silêncio sombrio, quase todos discutiam com veemência. Sentindo-lhes a incompreensão, o Mestre pareceu contemplá-los com entristecida piedade.

Nesse instante, os apóstolos observaram que ele se erguia. Com espanto de todos, despiu a túnica singela e cingiu-se com uma toalha em torno dos rins, à moda dos escravos mais íntimos, a serviço dos seus senhores. E como se fossem dispensáveis as palavras, naquela hora decisiva de exemplificação, tomou de um vaso de água perfumada e, ajoelhando-se, começou a lavar os pés dos discípulos. Ante o protesto geral em face daquele ato de suprema humildade, Jesus repetiu o seu imorredouro ensinamento:

— Vós me chamais Mestre e Senhor e dizeis bem, porque eu o sou. Se eu, Senhor e Mestre, vos lavo os pés, deveis igualmente lavar os pés uns dos outros no caminho da vida, porque no Reino do Bem e da Verdade o maior será sempre aquele que se fez sinceramente o menor de todos.

07 - Coragem - Espiritos Diversos - pág. 19

4. TUAS DIFICULDADES
Imagina como seria difícil de suportar um educandário em que os alunos tão-somente soubessem chorar na hora do ensino. Reportamo-nos à imagem para considerar que sendo a Terra nossa escola multi-milenária, urge receber-lhe as dificuldades por lições aceitando-lhe a utilidade e o objetivo.

Diante dos obstáculos, ninguém precisa fixar-se no lado escuro que apresentem. Um náufrago, faminto de estabilidade, ao sabor das ondas, não se lembrará de examinar o lodo no fundo das águas, mas refletirá no melhor meio de alcançar a terra firme. Todo minuto de queixa é minuto perdido, arruinando potencialidades preciosas para a solução dos problemas, sobre os quais estejamos deitando lamentação.

Toda prova, seja qual for, aparece na estrada, a fim de elastecer-nos a força e aperfeiçoar-nos a experiência. Em síntese, quase toda dificuldade implica sofrimento e todo sofrimento, notadamente aqueles que não provocamos, redunda em renovação e auxílio para nós mesmos, lembrando a treva noturna, em cujo ápice começa a alvorada nova.

Saibamos arrostar os impedimentos da vida, sem receá-los. Cada qual deles é portador de mensagem determinada. Esse é um desafio a que entesoures paciência, aquele outro te impele à sublimação da capacidade de amar no cadinho da provação. Aprendamos, sobretudo, a decifrar os enigmas da existência, na oficina do Bem Eterno.

Serve e compreende. Serve e suporta. Serve e constrói. Serve e beneficia.

Tuas dificuldades - tuas bênçãos. Nelas e por elas, encontrarás o estímulo necessário para que não te precipites nos despenhadeiros do orgulho, e nem te encarceres nas armadilhas do marasmo, prosseguindo, passo a passo, degrau a degrau, em tua jornada de burilamento e ascensão. Emmanuel

10 - Depois da morte - Léon Denis - pág. 50, 58, 221

"A essência em si escapa ao homem, dizia a doutrina pitagórica, pois ele só pode conhecer as coisas deste mundo, em que o finito se combina com o infinito. Como conhecê-las? Há entre ele e as coisas uma harmonia, uma relação, um princípio comum, e esse princípio é dado a tudo pelo Uno que, com a essência, fornece também a sua medida e inteligibilidade. "Vosso ser, vossa alma é um pequeno universo, mas está cheio de tempestades e de discórdias. Trata-se de realizar aí a unidade na harmonia. Somente então descerá Deus até vossa consciência, participareis assim do seu poder, e da vossa vontade fareis a pedra da ladeira, o altar de Hestia, o trono de Júpiter."

Os pitagóricos chamavam espírito ou inteligência à parte ativa e imortal do ser humano. A alma era para eles o Espírito envolvido em seu corpo fluídico e etéreo. O destino da Psique, a alma humana, sua queda e cativeiro na carne, seus sofrimentos e lutas, sua reascensão gradual, seu triunfo sobre as paixões e sua volta final à luz, tudo isto constituía o drama da vida, representado nos Mistérios de Elêusis como sendo o ensino por excelência. Segundo Pitágoras, a evolução material dos mundos e a evolução espiritual das almas são paralelas, concordantes, e explicam-se uma pela outra. A grande alma, espalhada na Natureza, anima a substância que vibra sob seu impulso, e produz todas as formas e todos os seres.

Os seres conscientes, por seus longos esforços, desprendem-se da matéria, que dominam e governam a seu turno, libertam-se e aperfeiçoam-se através de existências inumeráveis. Assim, o invisível explica o visível, e o desenvolvimento das criações materiais é a manifestação do Espírito Divino. Procurando-se nos tratados de Física dos antigos a opinião deles sobre a estrutura do Universo, enfrentam-se dados grosseiros e atrasados; esses não são, porém, mais que alegorias. O ensino secreto dava, sobre as leis do Universo, noções muito mais elevadas. Diz-nos Aristóteles que os pitagóricos conheciam o movimento da Terra em torno do Sol.

A idéia da rotação terrestre veio a Copérnico pela leitura de uma passagem de Cícero, que lhe ensinou ter Hicetas, discípulo de Pitágoras, falado do movimento diurno do globo. No terceiro grau de iniciação aprendia-se o duplo movimento da Terra. Como os sacerdotes do Egito, seus mestres, Pitágoras sabia que os planetas nasceram do Sol, em torno do qual giram, e que cada estrela é um sol iluminando outros mundos, e que compõe, com seu cortejo de esferas, outros tantos sistemas siderais, outros tantos universos regidos pelas mesmas leis que o nosso. Essas noções, porém, jamais eram confiadas ao papel; constituíam o ensino oral comunicado sob sigilo. O vulgo não as compreenderia; considerá-las-ia como contrárias à mitologia, e, por conseguinte, sacrílegas.

A ciência secreta também ensinava que um fluido imponderável se estende por toda parte, e tudo penetra. Agente sutil, sob a ação da vontade ele se modifica, se transforma, se rarefaz e se condensa segundo a potência e elevação das almas que o empregam, tecendo com essa substância o seu vestuário astral. É o traço de união entre o Espírito e a matéria, tudo gravando-se nele, refletindo-se como imagens em um espelho, seja pensamentos ou acontecimentos. Pelas propriedades deste fluido, pela ação que a vontade sobre ele exerce, explicam-se os fenômenos da sugestão e da transmissão do pensamento. Os antigos chamavam-lhe, por alegoria, véu misterioso de Isis ou manto de Cibele, que envolve tudo o que existe. Esse mesmo fluido serve de veículo de comunicação entre o visível e o invisível, entre os homens e as almas desencarnadas (...)

V — A GALIA

A Gália conheceu a grande doutrina; possuiu-a sob uma forma poderosa e original; soube dela tirar consequências que escaparam aos outros países. "Há três unidades primitivas, diziam os druidas, Deus, a Luz, e a Liberdade." Quando a índia já andava dividida em castas estacionárias, em limites infranqueáveis, as instituições gaulesas tinham por bases a igualdade de todos, a comunidade de bens e o direito eleitoral. Nenhum dos outros povos da Europa teve, no mesmo grau, o sentimento profundo da imortalidade, da justiça e da liberdade.

É com veneração que devemos estudar as tendências filosóficas da Gália, porque aí encontraremos, fortemente denunciadas, todas as qualidades e também todos os defeitos de uma grande raça. Nada é mais digno de atenção e de respeito do que a doutrina dos druidas, os quais não eram bárbaros como se acreditou erradamente durante séculos.

Por muito tempo, só conhecemos os gauleses pelos autores latinos e pelos escritores católicos. Mas, essas fontes devem, a justo título, ser suspeitas, pois esses autores tinham interesse direto em desacreditá-los e em desfigurar suas crenças. César escreveu os Comentários com evidente intenção de se exaltar aos olhos da posteridade. Folião e Suetônio confessam que nessa obra abundam inexatidões e erros voluntários. Os cristãos só vêem nos druidas homens sanguinários e supersticiosos; em seu culto somente encontram práticas grosseiras. Entretanto, certos padres da Igreja — Cirilo, Clemente de Alexandria e Orígenes distinguem com cuidado os druidas da multidão dos idólatras, e conferem-lhes o título de filósofos. Entre os autores antigos, Lucano, Horácio e Plorus consideravam a raça gaulesa como depositária dos mistérios do nascimento e da morte.

Os progressos dos estudos célticos, a publicação das Tríades e dos cânticos bárdicos permitem-nos encontrar, em fontes seguras, uma justa apreciação de tais crenças. A filosofia dos druidas, reconstituída em toda a sua amplidão, conforma-se com a doutrina secreta do Oriente e com as aspirações dos espiritualistas modernos, pois, como estes, também afirma as existências progressivas da alma na escala dos mundos. Essa doutrina viril inspirava aos gauleses uma coragem indomável, uma intrepidez tal que eles caminhavam para a morte como para uma festa. Enquanto os romanos se cobriam de bronze e ferro, os gauleses despiam as vestes e combatiam a peito nu. Orgulhavam-se das suas feridas, e consideravam cobardia usar-se de astúcia na guerra.

Daí os seus repetidos reveses e a sua queda final. Tão grande era a certeza das vidas futuras que emprestavam dinheiro na expectativa de que seriam reembolsados em outros mundos. Os despojos dos guerreiros mortos, diziam, não são mais que invólucros gastos. Como indignos de atenção, eles os abandonavam no campo da batalha, o que era uma grande surpresa para os seus inimigos.
Os gauleses não conheciam o inferno, e, por isso, Lucano, no canto primeiro da Farsália, os louva com os seguintes termos:"Para nós, as almas não se sepultam nos sombrios reinos do Érebo, mas sim voam a animar outros corpos em novos mundos. A morte não é senão o termo de uma vida. Felizes esses povos que não se arreceiam no momento supremo da vida; daí o seu heroísmo no meio de sangrentos combates, e o seu desprezo pela morte."

Os gauleses eram castos, hospitaleiros e fiéis à fé jurada. Na instituição dos druidas encontraremos a mais alta expressão do gênio da Gália. Os druidas não constituíam um corpo sacerdotal, pois seus títulos equivaliam ao sábio, sapiente. Aqueles que os possuíam tinham a liberdade de escolher a sua tarefa. Alguns, sob o nome de eubages, presidiam às cerimônias do culto, porém, o maior número consagrava-se à educação da mocidade, ao exercício da justiça, ao estudo das ciências e da poesia. A influência política dos druidas era grande e tendia a realizar a unidade da Gália. No pais dos Carnutos haviam instituído uma assembléia anual, em que se reuniam os deputados das repúblicas gaulesas, e em que se discutiam as questões importantes, os graves interesses da pátria. Os druidas eram escolhidos por eleição e tinham de passar por um preparo de iniciação que exigia vinte anos de estudos.

Praticava-se o culto debaixo da copa dos bosques. Os símbolos eram todos tomados da Natureza. O templo era a floresta secular de colunas inumeráveis, e sob zimbórios de verdura, onde os raios de sol penetravam com suas flechas de ouro, para irem derramar-se sobre a relva em mil tons de sombra e luz. Os murmúrios do vento, o frêmito das folhas, produziam em tudo acentos misteriosos, que impressionavam a alma e a levavam à meditação. A árvore sagrada, o carvalho, era o emblema do poder divino; o visco, sempre verde, era o da imortalidade. Por altar, tinham montões de pedra bruta. "Toda pedra lavrada é pedra profanada", diziam esses austeros pensadores. Em seus santuários jamais se encontrava objeto algum saído da mão dos homens. Tinham horror aos ídolos e às formas pueris do culto romano.

A fim de que os seus princípios não fossem desnaturados ou materializados por imagens, os druidas proibiam as artes plásticas e mesmo o ensino escrito. Confiavam somente à memória dos bardos e dos iniciados o segredo da sua doutrina. Daí resultou a penúria de documentos relativos a tal época. (...)Esses sóis, que aparecem aos homens como simples lampadários, o Espírito os contempla em sua real e colossal grandeza; vê-los mais poderosos que o luminar do nosso planeta; reconhece a força de atração que os prende, e distingue ainda, em longínquas profundezas, os astros maravilhosos que presidem as evoluções.

Todos esses fachos gigantescos, ele os vê em movimento, gravitando, prosseguindo seu curso vagabundo, entrecruzando-se, como globos de fogo lançados no vácuo pela mão de um invisível jogador. Nós, perturbados sem cessar por vãos rumores, pelo confuso sussurro da colméia humana, não podemos conceber a calma solene, o majestoso silêncio dos espaços, que enche a alma de um sentimento augusto, de um assombro que toca as ralas do pavor. Mas o Espírito puro e bom é inacessível ao temor. Esse infinito, frio e silencioso para os Espíritos inferiores, anima-se logo para ele e o faz ouvir sua voz poderosa.

Livre da matéria, a alma percebe, aos poucos, as vibrações melodiosas do éter, as delicadas harmonias que descem das regiões celestes e compreende o ritmo imponente das esferas. Esse cântico dos mundos, essas vozes do infinito que soam no silêncio ela os saboreia até se sentir arrebatar. Recolhida, inebriada, cheia de um sentimento grave e religioso, banha-se nas ondas do éter, contempla as profundezas siderais, as legiões de Espíritos, sombras ligeiras que flutuam e se agitam em esteiras de luz. Assiste à génese dos mundos, vê a vida despertar-se e crescer na sua superfície, segue o desenvolvimento das humanidades que os povoam e, nesse grande espetáculo, verifica que em toda parte do Universo a atividade, o movimento e a vida ligam-se à ordem.

Qualquer que seja seu adiantamento, o Espírito que acaba de deixar a Terra não pode aspirar a viver indefinidamente dessa vida superior. Adstrito à reencarnação, essa vida não lhe é senão um tempo de repouso: uma compensação aos seus males, uma recompensa aos seus méritos. Apenas aí vai retemperar-se e fortificar-se para as lutas futuras. Porém, nas vidas que o esperam não terá mais as angústias e os cuidados da existência terrestre. O Espírito elevado é destinado a renascer em planetas mais bem dotados que o nosso. A escala grandiosa dos mundos tem inúmeros graus, dispostos para a ascensão progressiva das almas, que os devem transpor cada um por sua vez.

Nas esferas superiores à Terra o império da matéria é menor. Os males por esta originados atenuam-se, à medida que o ser se eleva e acabam por desaparecer. Lá, o ser humano não mais se arrasta penosamente sob a ação de pesada atmosfera; desloca-se de um lugar para outro com muita facilidade. As necessidades corpóreas são quase nulas e os trabalhos rudes, desconhecidos. Mais longa que a nossa, a existência aí se passa no estudo, na participação das obras de uma civilização aperfeiçoada, tendo por base a mais pura moral, o respeito aos direitos de todos, a amizade e a fraternidade. As guerras, as epidemias e os flagelos não têm acesso e os grosseiros interesses, causa das nossas ambições, não mais dividem os povos.

Esses dados sobre as condições de habitabilidade dos mundos são confirmados pela Ciência. Pela espectroscopia já se conseguiu analisar os seus elementos constitutivos; já se pesou a sua massa, calculando seu poder de atração. A Astronomia nos mostra as estações do ano, variando de duração e intensidade, segundo a inclinação dos globos sobre sua órbita, e ensina-nos que Saturno tem a densidade do pau "bordo", Júpiter quase a da água, e que sobre Marte o peso dos corpos é menos de metade que na Terra. Ora, sendo a organização dos seres vivos a resultante das forças em ação sobre cada mundo, vemos que variedades de formas se originam desses fatos, que diferenças devem produzir-se nas manifestações da vida sobre os campos inumeráveis do espaço. (...)

12 - Emmanuel - Emmanuel - pág. 88, 144

XVI - AS VIDAS SUCESSIVAS E OS MUNDOS HABITADOS
Alguns estudiosos, há muitos séculos, guardam as verdadeiras concepções do Universo, o qual não se encontra circunscrito ao minúsculo orbe terreno e é representado pelo infinito dos mundos, dentro do infinito de Deus. Não obstante as teorias do sistema geocêntrico, que encarava a Terra como o centro do grupo de planetas em que vos encontrais, a idéia da multiplicidade dos sóis vinha, de há muito, animando o cérebro dos pensadores da antiguidade.

Apesar da objetiva dos vossos telescópios, que descortinam, na imensidade, "as terras do céu", julga-se erradamente que apenas o vosso mundo oferece condições de habitabilidade e somente nele se verifica o florescimento da vida. Infelizmente, são inúmeros os que duvidam dessa realidade inconteste, aprisionados em escolas filosóficas que pecam pelo seu caráter obsoleto e incompatível com a evolução da Humanidade, em geral.

É que não reconhecem que a Terra minúscula é apenas um ponto obscuro e opaco, no concerto sideral, e nada de singular existe nela que lhe outorgue, com exclusividade, o privilégio da vida; em contraposição aos assertos dos negadores, podeis notar, cientificamente, que é mesmo, em vosso plano, o local do Universo onde a vida encontra mais dificuldade para se estabelecer.

ESPONTANEIDADE IMPOSSÍVEL

Grande é a tortura dos seres racionais que, no mundo terráqueo, buscam guarda para as suas aspirações de progresso, porquanto, do berço ao túmulo, suas existências representam grande soma de esforços combatendo com a Natureza inconstante, com as mais diversas condições climatéricas, arrasadoras da saúde e causas de um combate acérrimo da parte do homem, porque não lhe é possível viver em afinidade perfeita com a natureza submetida às mais bruscas mutações, sendo obrigado a criar a sua moradia, organizar a sua habitação, que representa, de fato, a sua escravidão primeira, impedindo-lhe uma existência cheia de harmonia e espontaneidade.

O vosso mundo vos obriga a uma vida artificial, já que sois obrigados a buscar, cotidianamente, o sustento do corpo que se gasta e consome nessa batalha sem tréguas. Nele, as mais belas faculdades espirituais são frequentemente sufocadas, em virtude das mais imperiosas necessidades da matéria.

HÁ MUNDOS INCONTÁVEIS

Que se calem os que puderem descobrir a vida apenas em vossa obscura penitência de náufragos morais. Por que razão a Vontade Divina colocaria na amplidão essas plagas longínquas? Enxergar nesses mundos distantes somente objetos de estudo da vossa Astronomia é um erro; eles estão, às vezes, regulados por forças mais ou menos idênticas às que controlam a vossa vida. Em sua superfície observam-se os fenômenos atmosféricos e outros, cuja explicação é inacessível ao vosso entendimento.

Por que os formaria o Criador para o ermo do silêncio e do deserto? Podereis conceber cidades bem construídas, abarrotadas de tesouros e magnificências, apodrecendo sem habitantes? Há mundos incontáveis e muitos deles formados de fluidos rarefeitos, inatingidos, na atualidade, pelos vossos instrumentos de ótica.

MUNDO DE EXÍLIO E ESCOLA REGENERADORA

A Terra não representa senão um detalhe obscuro no ilimitado da Vida, região da amargura, da provação e do exílio; constituindo, porém, uma plaga de sombras, varrida, muitas vezes, pelos cataclismos do infortúnio e da destruição, deve representar, para todos quantos a habitam, uma abençoada escola, onde se regenera o Espírito culpado e onde ele se prepara, demandando glorioso porvir.

Significa um dever de todo homem o trabalho próprio, no sentido de atenuar as más condições do seu meio ambiente, aplainando todas as dificuldades de ordem material e moral, porquanto a evolução depende de todos os esforços individuais no conjunto das coletividades.

Forças ocultas, leis desconhecidas, esperam que a alma humana delas se utilize e, à medida que se espalhe o progresso moral, mais os homens se beneficiarão na fonte bendita do conhecimento.

O ESTÍMULO DO CONHECIMENTOS

Para a Humanidade terrestre a revelação de outras pátrias do firmamento, fragmentos da Pátria Universal, não deve constituir uma razão para desânimo de quantos se entregam aos labores profícuos do estudo. Os desequilíbrios que se verificam no orbe terreno obedecem a uma lei de justiça, acima de todas as coisas transitórias; e, além disso, a primeira obrigação de todo homem é colaborar, em todos os minutos de sua passageira existência, em prol da melhoria do seu próximo, consciente de que trabalhar a benefício de outrem é engrandecer-se.

O conhecimento das condições perfeitas da vida, em outros mundos, não deve trazer abatimento aos extremistas do ideal. Semelhante verdade deve encher o coração humano de sagrados estímulos. Saudai, pois, o concerto da vida, do seio dos vossos combates salvadores!...

Sóis portentosos, luzes policrômicas, mundos maravilhosos, existem embalados pelas harmonias que a perfeição eleva à Entidade Suprema!... Além do Grande Cão, da Ursa, de Hércules, outras constelações atestam a grandeza divina. Os firmamentos sucedem-se ininterruptamente nas amplidões etéreas, mas a Humanidade, para Deus, é uma só e o laço do seu amor reúne todos os seres.

16 - O consolador - Emmanuel - pág. 55

Perg. 71 - Como julgar a posição da Terra em relação aos outros mundos?
- A grandeza do plano sideral, onde se agita a comunidade dos sistemas, é demasiado profunda para que possamos assinar-lhe a definição com os mesquinhos formulários da Terra. No turbilhão do Infinito, o sistema planetário centralizado pelo nosso Sol é excessivamente singelo, constituindo um aspecto muito pobre da Criação. Basta lembrar que Capela, um dos nossos vizinhos mais próximos, é um sol 5.800 vezes maior que o nosso astro do dia, sem esquecermos que a Terra é 1.300.000 vezes menor que o nosso Sol. Nessas cifras grandiosas, compreendemos a extensão da nossa humildade no Universo, apiedando-nos sinceramente da situação dos conquistadores humanos de todos os matizes, os quais, no afã de açambarcarem patrimônios materiais, nos dão a impressão de ridículos e vaidosos polichinelos da vida.

Perg. 72 — Existem planetas de condições piores que as da Terra?
— Existem orbes que oferecem piores perspectivas de existência que o vosso e, no que se refere a perspectivas, a Terra é um plano alegre e formoso, de aprendizado. O único elemento que aí destoa da Natureza é justamente o homem, avassalado pelo egoísmo.
Conhecemos planetas onde os seres que os povoam são obrigados a um esforço contínuo e penoso para aliciar os elementos essenciais à vida; outros, ainda, onde numerosas criaturas se encontram em doloroso degredo. Entretanto, no vosso, sem que haja qualquer sacrifício de vossa parte, tendes gratuitamente céu azul, fontes fartas, abundância de oxigênio, árvores amigas, frutos e flores, cor e luz, em santas possibilidades de trabalho, que o homem há renegado em todos os tempos.

Perg. 73 — A humanidade terrestre é idêntica à doutros orbes?
— Nas expressões físicas, semelhante analogia é impossível, em face das leis substanciais que regem cada plano evolutivo; mas, procuremos entender por humanidade a família espiritual de todas as criaturas de Deus que povoam o Universo e, examinada a questão sob esse prisma, veremos a comunidade terrestre identificada com a coletividade universal.

Perg. 74 — O homem científico poderá encarar com êxito as possibilidades de uma viagem interplanetária?
— Pelo menos, enquanto perdurar a sua atitude de confusão, de egoísmo e rebeldia, a humanidade terrestre não deve alimentar qualquer projeto de viagem interplanetária.
Que dizermos do homem que, sem dispor a ordem na sua própria casa, quisesse invadir a residência dos vizinhos? Se tantas vezes as criaturas terrestres têm menosprezado os bens que a Providência Divina lhes colocou nas mãos, não seria justo circunscrevê-las ao seu âmbito acanhado e mesquinho?
O insulamento da Terra é um bem inapreciável.
Observemos as expressões do progresso humano, movimentadas para a guerra e para a destruição, nos triunfos da força, e rendamos louvores ao Pai Celestial por não haver dilatado no orbe terreno os processos de observação das suas vaidosas criaturas.

Perg. 75 — Na diversidade de suas experiências, é o Espírito obrigado a adaptar-se às condições fluídicas de cada orbe?
— Esse é um imperativo para aquisição de seus valores evolutivos dentro das leis do aperfeiçoamento.

Perg. 76 — Poderão os fenómenos da meteorologia ser controlados, mais tarde, pêlos homens?
— Os fenômenos meteorológicos, incontroláveis pelas criaturas humanas, não o são pelos prepostos de Jesus, que buscam dispô-los de acordo com os ascendentes espirituais a serem observados em todos os processos evolutivos.
Não olvidemos, contudo, que a Terra é uma escola.

23 - Religião dos Espíritos - Emmanuel - pág. 219

Pluralidade dos mundos habitados
Reunião pública de 6-11-59 Questão n° 55
Enquanto o homem se encaminha para a Lua, estudando-a de perto, comove-nos pensar que a Doutrina Espírita se referia à pluralidade dos mundos habitados, precisamente há mais de um século. Acresce notar, ainda, que os veneráveis orientadores da Nova Revelação, guiando o pensamento de Allan Kardec, fizeram-no escrever a sábia declaração: «Deus povoou de seres vivos todos os mundos, concorrendo esses seres ao objetivo final da Providência.»

Sabemos hoje que moramos na Via-Láctea — a galáxia comparável a imensa cidade nos domínios universais. Essa cidade possui mais de duzentos milhões de sóis, transportando consigo planetas, asteróides, cometas, meteoros, aluviões de poeira e toda uma infinidade de turbilhões energéticos. Entre esses sóis está o nosso, modestíssimo foco de luz, considerando-se que Sírius, um de seus vizinhos, apresenta brilho quarenta vezes maior. E, acompanhando-o, a nossa Terra, com todo o cortejo de suas orgulhosas nações, tem a importância de uma «casa nos fundos», visto que, se a Lua é satélite nosso, o Globo que nos asila é satélite pequenino desse mesmo Sol que nos sustenta.

Viajando a luz com a velocidade de trezentos mil quilômetros por segundo, gasta milhares de anos para atravessar, de um ponto a outro, o continente galáctico em que residimos. Mas os espelhos telescópicos do homem já conseguem assinalar a existência de milhões e milhões de outras galáxias, mais ou menos semelhantes à nossa, a se espraiarem na vastidão do Universo.

Até agora, neste breve lembrete, nos reportamos simplesmente ao campo físico observável pelos homens encarnados, atreitos, como é natural, ao raio reduzido da percepção que lhes é própria, sem nos referirmos às esferas espirituais mais complexas que rodeiam cada planeta, quanto cada sistema.

Nesse critério, vamos facilmente encontrar, em todos os círculos cósmicos, os seres vivos da asserção de Kardec, embora a instrumentação do homem não os divise a todos. Eles se desenvolvem através de inimagináveis graus evolutivos, cabendo-nos reconhecer que, em aludindo à pluralidade dos mundos habitados, não se deverá olvidar a gama infinita das vibrações e os estados múltiplos da matéria.

Temos, assim, no Espaço Incomensurável, mundos-berços e mundos-experiências, mundos-universidades e mundos-templos, mundos-oficinas e mundos-reformatórios, mundos-hospitais e mundos-prisões. Saudamos, pois, o advento da nova era, em que o homem físico, valendo-se principalmente do rádio e do radar, do foguete e do cérebro eletrônico, pode incursionar além da Lua, auscultando, em regime de limitação. compreensível, as faixas de matéria em que psiquicamente se entrosa.

E desejando-lhe paz, a fim de que prossiga em suas arrojadas e preciosas perquirições, podemos assegurar que em todos os planos a consciência acordada à luz da razão e da responsabilidade surpreenderá sempre, por base de todo aperfeiçoamento moral, o preceito do Cristo que coloca «o amor a Deus e ao próximo» como sendo o coração da vida, pulsando, invariável, no peito da Justiça Divina que manda, em toda parte, conferir a cada um segundo as próprias obras.