PRECESSÃO DOS EQUINÓCIOS
BIBLIOGRAFIA
01- A Gênese - cap. V, 11, IX, 6 02 - A pluralidade dos M. Habitados - pág. 221
03 - Análise das coisas - pág. 29 04 - As margens do Eufrates - pág. 64, 171
05 - Deus na Natureza - pág. 50 06 - O Espiritismo - pág. 56
07 - O fim do mundo - pág. 189 08 -

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PRECESSÃO DOS EQUINÓCIOS – COMPILAÇÃO

01- A Gênese - Allan Kardec - cap. V, 11, IX, 6

9. - Entretanto, uma opinião geralmente difundida nas teogonias pagãs colocava nos lugares baixos, ou seja, nas profundezas da Terra, ou abaixo, não se sabia mais, a morada dos condenados, chamada inferno, quer dizer, lugares inferiores, e, nos lugares altos, além da região das estrelas, a morada dos felizes. A palavra inferno se conserva até os nossos dias, embora tenha perdido o seu significado etimológico, desde que a geologia desalojou o lugar dos suplícios eternos das entranhas da Terra, e que a astronomia demonstrou que não há nem alto e nem baixo no espaço infinito.

10. - Sob o céu limpo da Caldéia, da Índia e do Egito, berço das mais antigas civilizações, pôde-se observar o movimento dos astros com tanta precisão quanto o permitia a ausência de instrumentos especiais. Viu-se, primeiro, que certas estrelas tinham um movimento próprio, independente da massa, o que não permitia mais supor que estivessem pregadas na abóbada; foram chamadas de estrelas errantes ou planetas para distingui-las das estrelas fixas. Calcula-se o seu movimento e os seus retornos periódicos.

No movimento diurno da abóbada estrelada, nota-se a imobilidade da estrela polar, ao redor da qual as outras descreviam, em vinte e quatro horas, círculos oblíquos paralelos, mais ou menos grandes, segundo a sua distância da estrela central; esse foi o primeiro passo para o conhecimento da obliqüidade do eixo do mundo. As viagens mais longas permitiram observar a diferença dos aspectos do céu, segundo as latitudes, as estações; a elevação da estrela polar, acima do horizonte, variando com a latitude, pôs sobre o caminho da redondeza da Terra; foi assim que, pouco a pouco, se fez uma idéia mais justa do sistema do mundo.

Cerca de 600 antes de J.C., Thales, de Mileto (Ásia Menor), descobre a esfericidade da Terra, a obliqüidade da eclíptica e a causa dos eclipses. Um século mais tarde, Pitágoras, de Samos, descobre o movimento diurno da Terra sobre o seu eixo, seu movimento anual ao redor do Sol, e liga os planetas e os cometas ao sistema solar. 160 anos antes de Jesus Cristo, Hiparco, de Alexandria (Egito), inventa o astrolábio, calcula e prediz os eclipses, observa as manchas solares, determina o ano trópico, a duração das revoluções da Lua.

Por preciosas que fossem essas descobertas para o progresso da ciência, necessitaram quase 2000 anos para se popularizarem. As idéias novas, não tendo, então, para se propagarem, senão raros manuscritos, permaneceram o quinhão de alguns filósofos, que as ensinavam aos discípulos privilegiados; as massas, que ninguém cuidava de esclarecer, delas nada aproveitaram, e continuaram a nutrir-se das velhas crenças.

11.- Perto do ano 140, da era cristã, Ptolomeu, um dos homens mais ilustres da escola de Alexandria, combinando as suas próprias idéias com as crenças vulgares e algumas das mais recentes descobertas astronômicas, compõe um sistema que se pode chamar misto, que leva o seu nome, e que, durante quase quinze séculos, foi o único adotado no mundo civilizado. ;

Segundo o sistema de Ptolomeu, a Terra é uma esfera no centro do Universo; ela se compõe de quatro elementos: a terra, a água, o ar e o fogo. Era a primeira região, dita elementar. A segunda região, dita etérea, compreendia onze céus ou esferas concêntricas, girando ao redor da Terra, a saber: o céu da Lua, o de Mercúrio, de Vênus, do Sol, de Marte, de Júpiter, de Saturno, das estrelas fixas, do primeiro cristalino, esfera sólida transparente; do segundo cristalino, e, enfim, do primeiro móvel que dá o movimento a todos os céus inferiores, e os leva a fazerem uma revolução em vinte e quatro horas. Além dos onze céus, estava o Empíreo, morada dos felizes, assim chamada do grego PYR que significa fogo, porque se acreditava essa região resplandecente de luz como o fogo.

A crença em vários céus superpostos prevaleceu por longo tempo; mas, variava-se sobre o número; o sétimo era, geralmente, considerado o mais elevado; daí, a expressão: Ser arrebatado ao sétimo céu. São Paulo disse que tinha sido elevado ao terceiro céu.
Independentemente do movimento comum, os astros tinham, segundo Ptolomeu, movimentos próprios, mais ou menos consideráveis, segundo a sua distância do centro. As estrelas fixas faziam uma revolução em 25.816 anos. Esta última avaliação denota o conhecimento da precisão dos equinócios, que se realiza, com efeito, em 25.860. (...)

REVOLUÇÕES PERIÓDICAS

B. - Além do seu movimento anual, ao redor do Sol, que produz as estações, o seu movimento de rotação sobre si mesma em 24 horas, que produz o dia e a noite, a Terra tem um terceiro movimento que se cumpre em 25.000 anos mais ou menos (mais exatamente 25.868 anos), e produz o fenômeno designado em astronomia sob o nome de precessão dos equinócios (cap. V, n° 11).
Esse movimento, que seria impossível explicar em algumas palavras, sem figuras e sem uma demonstração geométrica, consiste numa espécie de balanceamento circular que se compara ao de um pião agonizante, em consequência do qual o eixo da Terra, mudando de inclinação, descreve um duplo cone cujo cimo está no centro da Terra, e as bases abraçam a superfície circunscrita pelos círculos polares; quer dizer, uma amplitude de 23 graus e meio de raio.

(1) A lenda indiana sobre o dilúvio conta, segundo o livro dos Vedas, que Brahma, transformado em peixe, dirigiu-se ao piedoso monarca Vaivaswata; ele lhe disse: "O momento da dissolução do Universo chegou; logo tudo o que existe sobre a Terra estará destruído. É necessário que construas um navio no qual embarcarás, depois de pegar contigo os grãos de todos os vegetais. Esperar-me-ás sobre esse navio, e eu virei a ti tendo sobre a cabeça um corno que me fará reconhecer. "O santo obedeceu; construiu um navio, nele embarcou, e o ligou, por um cabo muito forte, ao corno do peixe.

O navio foi arrastado durante vários anos, com uma extrema rapidez, no meio das trevas de uma tempestade pavorosa, e abordou, enfim, o cume do monte Himawat (Himalaia). Brahma recomendou em seguida a Vaivaswata para criar todos os seres e repovoar a Terra. A analogia desta lenda com o relato bíblico de Noé é evidente; da Índia passara ao Egito, como uma multidão de outras crenças. Ora, como o livro dos Vedas e anterior ao de Moisés, o relato que nele se encontra do dilúvio não pode ser uma imitação deste último. É, pois, provável que Moisés; que estudara a doutrina dos sacerdotes egípcios, hauriu o seu entre eles.


7.-O equinócio é o instante em que o Sol, passando de um hemisfério ao outro, encontra-se perpendicularmente sobre o equador, o que ocorre duas vezes por ano, em torno do dia 24 de março, quando o Sol retorna ao hemisfério boreal, e em torno de 22 de setembro, quando retorna ao hemisfério austral.
Mas, em consequência da mudança gradual na obliquidade do eixo, o que ocasiona mudança na obliqüidade do equador sobre a eclíptica, o instante do equinócio se acha, cada ano, avançado de alguns minutos (25 min. 7 seg.) Esse avanço é chamado precessão dos equinócios (do latim procedere, marchar adiante, fazer de proe, avante, ecedere, ir-se).

Esses alguns minutos, com o tempo, fazem horas, dias, meses e anos; disso resulta que o equinócio da primavera, que chega agora em março, chegará, num tempo dado, em fevereiro, depois em janeiro, depois em dezembro, e então o mês de dezembro terá a temperatura do mês de março, e março a de junho, e assim por diante até que, retornando ao mês de março, as coisas se reencontram no estado atual, o que ocorrerá em 25.868 anos, para recomeçar a mesma revolução indefinidamente (1).

(1) A precessão dos equinócios conduz a uma outra mudança, que se opera na posição dos signos do zodíaco. A Terra, girando ao redor do Sol em um ano, à medida que ela avança, o Sol se acha cada mês em face de uma nova constelação. Essas constelações são em número de doze, a saber: Carneiro, Touro, Gêmeos, Câncer, Leão, Virgem, Balança, Escorpião, Sagitário, Capricórnio, Aquário e Peixes. São chamadas constelações zodiacais ou signos do zodíaco, e elas formam um círculo no plano do equador terrestre. Segundo o mês de nascimento de um indivíduo, dizia-se que nascera sob tal signo: daí os prognósticos da astrologia. Mas, em consequência da precessão dos equinócios, ocorre que os meses não correspondem mais as mesmas constelações; um, que nasceu no mês de julho, não está mais no signo de Leão, mas no de Câncer. Assim caiu a idéia supersticiosa ligada à influência dos signos. (Cap. V, nº 9 12).

(1) O deslocamento gradual das linhas isotérmicas, fenômeno reconhecido pela ciência de maneira tão positiva quanto o deslocamento do mar, é um fato material em apoio a essa teoria.
(1) Entre os fatos mais recentes que provam o deslocamento do mar, podem citar-se os seguintes:
No golfo de Gasconha, entre o velho Soulac e a torre de Cordouan, quando o mar está calmo, descobre-se no fundo da água lanços de muralha: são os restos da antiga e grande cidade de Naviomagus, invadida pelas ondas em 580. O rochedo de Cordouan, que estava então ligado à costa, está agora a 12 quilômetros.
No mar da Mancha, sobre a costa do Havre, o mar ganha, cada dia, terreno e mina as fragas de Sainte-Adresse, que desmoronam pouco a pouco. A dois quilômetros da costa, entre Sainte-Adresse e o cabo da Hève, existe o banco de Eclat, outrora a descoberto e reunido à terra firme. Antigos documentos constatam que sobre esse sítio, onde hoje se navega, havia a aldeia de Saint-Denis-chef-de-Caux. O mar, tendo invadido o terreno no século quatorze, a igreja foi engolida em 1378. Pretende-se que se lhe vêem os restos, no fundo das águas, num tempo calmo.

Sobre quase toda a extensão do litoral da Holanda, o mar não é retido senão à força de diques, que se rompem de tempos em tempos. O antigo lago Fevo, reunido ao mar em 1225, forma hoje o golfo de Zuyderzée. Essa irrupção do oceano engoliu várias aldeias.
Segundo isso, o território de Paris e da França será um dia de novo ocupado pelo mar, como já o foi várias vezes, assim como provam as observações geológicas. As partes montanhosas formarão as ilhas, como o são agora Jersey, Guernesey e a Inglaterra, outrora contíguos ao continente.

8. - Resulta, desse movimento cônico do eixo, que os pólos da Terra não olham constantemente os mesmos pontos do céu; que a estrela polar não será sempre a estrela polar; que os pólos estão, gradualmente, mais ou menos inclinados para o Sol, e dele recebem raios mais ou menos diretos; de onde se segue que e Islândia e a Lapônia, por exemplo, que estão sob o circulo polar, poderão, num tempo dado, receber os raios solares como se estivessem na latitude da Espanha e da Itália, e que, na posição oposta extrema, a Espanha e a Itália poderiam ter a temperatura da Islândia e da Lapônia, e assim por diante em cada renovação do período de 25.000 anos.

9. - As consequências desse movimento não pôde ainda ser determinada com precisão, porque não se pôde observar senão uma fraca parte de sua revolução; não há, pois, a esse respeito, senão presunções, das quais algumas têm uma certa probabilidade.
Essas consequências são:

l° - O aquecimento e o resfriamento alternado dos pólos e, por sequência, a fusão dos gelos polares durante a metade do período de 25.000 anos, e a sua formação de novo durante a outra metade desse período. De onde resultaria que os pólos não estariam votados a uma esterilidade perpétua, e gozariam, por seu turno, dos benefícios da fertilidade.

2° - O deslocamento gradual do mar, que invade pouco a pouco as terras, ao passo que descobre outras, para abandoná-las de novo e reentrar em seu antigo leito. Esse movimento periódico, renovado indefinidamente, constituiria uma verdadeira maré universal de 25.000 anos.

A lentidão com a qual se opera esse movimento do mar torna-o quase imperceptível para cada geração; mas é sensível ao cabo de alguns séculos. Não pode causar nenhum cataclismo súbito, porque os homens se retiram, de geração em geração, à medida que o mar avança, e eles avançam sobre as terras de onde o mar se retirou. É a esta causa, mais que provável, que alguns sábios atribuem a retração do mar sobre certas costas e a sua invasão sobre outras.

10.-O deslocamento lento, gradual e periódico do mar é um fato adquirido pela experiência, e atestado por numerosos exemplos sobre todos os pontos do globo. Tem por consequência a conservação das forças produtivas da Terra. Essa longa imersão é um tempo de repouso durante o qual as terras submersas recuperam os princípios vitais esgotados por uma produção não menos longa. Os imensos depósitos de matérias orgânicas, formadas pela permanência das águas durante séculos e séculos, são adubos naturais, periodicamente renovados, e as gerações se sucedem sem se aperceberem destas mudanças.

Navegar-se-á acima das regiões que se percorrem hoje em caminhos de ferro; os navios abordarão em Montmartre, no monte Valérien, nos outeiros de Saint-Cloud e de Meudon; as madeiras e as florestas, onde se passeia, serão sepultadas sob as águas, recobertas de lodo, e povoadas de peixes em lugar de pássaros.
O dilúvio bíblico não pôde ter essa causa, uma vez que a invasão das águas foi súbita e a sua permanência de curta duração, ao passo que, de outra maneira, fora de milhares de anos, e duraria ainda, sem que os homens disso se apercebessem dessas mudanças.

02 - A pluralidade dos Mundos Habitados - Camille Flammarion - pág. 221

(..) Os Vedas ensinavam que na origem das coisas o grande Espírito perguntou, às almas que acabara de criar, que corpo preferiam, e estas almas, depois de passar em revista todos os seres, adotaram o corpo humano como refletindo a mais bela das formas. O livro dos Vedas é o mais antigo livro de cosmogonia religiosa; desde aquela antiguidade longínqua, a opinião sobre a superioridade do corpo humano não mudou.

Os mais humildes entre os homens não duvidam que ao da obra-prima da criação, os reis do Universo; e quando a mente religiosa, sondando a distância que nos separa do Altíssimo, colocou sobre os degraus desta distância uma hierarquia de seres superiores, anjos ou santos, não pôde encontrar forma mais bela e mais digna dessas inteligências que não fosse a nossa forma humana divinizada. Humanizamos Indo, e até os objetos exteriores os mais estranhos, o Sol e a Lua, por exemplo, sofreram a influência desta disposição geral e foram representados sob uma figura humana.

Apesar do resultado de nossos estudos, o conjunto de nossos conhecimentos não vem confirmar este julgamento, que não tem outro fundamento senão a ilusão de nossos sentidos e essa pequena dose de vaidade que cada um traz consigo, ao vir ao mundo. Ao contrário, pode-se colocar como princípio que, para avaliar sadiamente a natureza das coisas, importa antes de tudo não tomarmos a nós mesmos como ponto de comparação, e não ver os objetos em seu valor relativo frente a nós, mas tentar conhecê-los em seu valor absoluto. Este é um princípio cuja importância é preciso apreciar, e que se deve aplicar sobretudo nos estudos da ordem que consideramos aqui.

Os mais sábios entre aqueles que estudaram esta questão misteriosa da habitação dos globos celestes foram aqueles que, a exemplo de Lambert em suas sábias Cartas cosmológicas, reconheceram a impossibilidade em que estamos de emitir conjeturas plausíveis sobre a forma dos habitantes dos outros mundos, e que, dóceis às lições da Natureza, compreenderam que a força vivificadora cuja influência fez germinar as gerações espontâneas na origem dos seres agiu em todos os lugares, segundo os elementos variados inerentes a cada um dos mundos.

Pode-se afirmar que todo homem, qualquer que seja, que pretenda seriamente definir a humanidade de uma outra terra, caracterizar suas condições de existência, fazer conhecer seu estado físico, intelectual ou moral, explicar sua natureza e sua maneira de ser; pode-se afirmar, dizíamos, que todo homem que emite tais pretensões está no erro mais vão. Tanto quanto proclamamos com a certeza de uma convicção inabalável a verdade da pluralidade dos Mundos, igualmente repudiamos o título de colonizador de planetas. E sustentamos que, no estado atual de nossos conhecimentos, é impossível encontrar a solução do problema.

Nosso estudo fisiológico mostrou o quanto as produções da Natureza cá embaixo estão em correlação com o estado da Terra, o quanto os diversos seres que habitam este mundo estão em harmonia com os meios em que vivem, e os exemplos não deixaram de estabelecer a incontestável verdade desta proposição. Aqui seria o lugar de acrescentar que as produções desta natureza podem variar e variam, segundo os degraus de uma escala incomensurável. A começar pelos mínimos detalhes de nosso organismo, não há um só que não tenha sua razão de ser e sua utilidade na economia viva, e até os apêndices que parecem os mais insignificantes, tudo tem seu papel no organismo individual.

Alterai um elemento na física terrestre, subtraí uma força à sua mecânica, fazei em nosso mundo uma modificação qualquer em sua natureza íntima, e eis o que resultará: as condições de habitabilidade uma vez modificadas, a habitação atual dará lugar a uma outra. Atenuai sucessivamente a intensidade da luz solar até torná-la igual, por exemplo, à que é na superfície de Urano ou de Netuno, e logo em seguida nossos olhos perderão a faculdade de ver sem ofuscamento os objetos expostos à nossa iluminação atual. Aumentai, ao contrário, esta intensidade, e não veremos mais claramente em plena luz do dia. Fazei com que o som não se propague mais no ar, e nossas gerações futuras não possuirão senão surdos-mudos, falando a linguagem dos sinais. Somos carnívoros e herbívoros ao mesmo tempo: imaginai uma transformação lenta e progressiva em nosso regime alimentar, e uma transformação correlativa se operará em nosso mecanismo orgânico.

O mundo caminha por oscilações, e seus elementos variam entre dois limites extremos em torno de uma posição média, é a lei da vida; ela é reconhecida em tudo, desde a revolução do pólo terrestre em torno do pólo da eclíptica, cm 25.765 anos, até os períodos diurnos e horários da agulha imantada. Se a vida em cada globo depende da soma dos elementos especiais em cada mundo, ela varia como este mundo, entre esses limites extremos, além dos quais ela se extinguiria, e entre os quais ela sofre modificações graduais. Se a vida é inerente à própria essência da matéria, ela é suscetível de uma diversidade ainda maior que no caso precedente; pois ela aparece inevitavelmente, quaisquer que sejam as condições acidentais que sofram certos mundos ou certas regiões nos mundos.

Seja como for, as modificações causadas nas condições de vida reagem sobre o organismo dos indivíduos e sobre a geração das espécies. O raciocínio que sustentamos agora relativamente a essas modificações à sua influência sobre nós mesmos pode ser continuado e aplicado a todos os nossos órgãos, a todos os nossos sentidos, a todos os nossos membros, a todas as partes internas e externas de nosso corpo; pode-se assegurar que estes órgãos existem tais ou quais, em nós, porque preenchem tais ou quais papéis, e inferir que são completamente outros em outros mundos, onde as mesmas funções não podem ser preenchidas, e mesmo que não existem, onde não têm nenhum papel a desempenhar.

É o modo pelo qual procede a Natureza, alhures, tal como aqui; é o modo que ela seguiria, se as condições terrestres viessem a sofrer uma alteração que não fosse violenta o suficiente para destruir a habitação da Terra; é o modo que seguiu outrora para a sucessão das espécies na superfície de nosso globo durante seus períodos primitivos; e é provavelmente o modo que segue atualmente para ai manutenção da vida na Terra e nos outros mundos.

Para raciocinar sobre a criação na superfície dos planetas, e para emitir alguns julgamentos sobre as formas de que a vida lá pode se revestir, seria necessário pelo menos ter um princípio absoluto como base. Com o auxílio deste princípio absoluto, poder-se-ia, dentro de certos limites, comparar e concluir. Mas que temos de absoluto, em toda a extensão dr nossos conhecimentos? Diremos melhor: o que há de absoluto na física?—Nada! O Universo tem como dimensão o espaço e o que é o espaço? — O indefinido; ou melhor, para evitar qualquer sofisma, o espaço é um infinito. Ora, em termos absolutos, não há menos espaço daqui até Roma que daqui até Sírius, pois a distância daqui até Sírius não é parte maior do infinito que a distância daqui até Roma; se, tomando Terra como ponto de partida, viajamos durante cem mil anos com a velocidade da luz rumo a um ponto qualquer do céu chegando ao termo, não teríamos avançado, na verdade, um só passo no espaço. . .

Sob um outro aspecto, o do tempo, consideremos a extensão absoluta da sucessão das coisas; esta extensão é a duração eterna. Ora, cem bilhões de séculos e um segundo são dois termos equivalentes na duração eterna. O absoluto não existe na física, tudo é relativo. Se, por um fenômeno qualquer, a Terra toda, com sua população, se reduzisse progressivamente ao tamanho de uma bola de bilhar; se todos os elementos que caracterizam o corpo, o peso, a densidade, a força orgânica, o movimento, a intensidade da luz e das cores, o calórico etc., se atenuassem na mesma proporção; se o sistema do mundo sofresse uma modificação proporcional a esta diminuição do globo terrestre; em uma só palavra, se todos os objetos que nossos sentidos percebem sofressem esta diminuição mantendo entre eles as mesmas relações, ser-nos-ia impossível perceber esta imensa transformação.

Seria um mundo dos liliputianos; as altas cadeias do Himalaia e nossas montanhas dos Alpes seriam reduzidas ao tamanho de grãos de cinza; nossos bosques, nossos parques, nossas casas, nossos apartamentos seriam menos que tudo o que conhecemos atualmente, e nós estaríamos do tamanho dos animais que chamamos de microscópicos; a Terra inteira poderia caber na mão de um homem do nosso tamanho atual; tudo seria transformado; e definitivamente, nada teria mudado para nós; nosso tamanho seria sempre de seis pés (nosso metro continuaria a ser a décima milionésima parte de um quarto do meridiano terrestre), nossas cidades e nossos campos, nossos portos e nossos navios conservariam as mesmas relações entre si.

Os objetos se apresentariam a nossos olhos sob o mesmo ângulo em que se apresentam atualmente, e todas as proporções continuaram as mesmas, e por mais maravilhosa que fosse, a metamorfose passaria desapercebida. Se se considera estas idéias muito ousadas, responderemos que, por um lado, são uma verdade matemática, e por outro desfrutam de uma notoriedade muito antiga em filosofia. Seria irrazoável, em nossa opinião, afirmar que elas sejam a expressão de realidades existindo em qualquer lugar do espaço: não é provável que a natureza tenha gerado esses mundos do tamanho de átomos; mas por vezes é útil apresentar exemplos exagerados para combater opiniões fundamentalmente errôneas. (...)

05 - Deus na Natureza - Camille Flammarion - pág. 50

(..) Esses mundos longínquos que, qual o nosso, se embalam no mesmo éter, sob o império das mesmas energias e das mesmas leis, são igualmente sedes de atividade e vida. Poderíamos apresentar este grandioso e magnífico espetáculo da vida universal como eloquente testemunho da inteligência, sabedoria e onipotência da causa annima, que houve por bem reverberar, dos primórdios da Criação, o seu mágico esplendor no espelho da Natureza criada. Mas, não é sob este prisma que desejamos aqui desdobrar o panorama das grandezas celestes. Apenas, para o teatro das leis que regem o nosso mundo, queremos convocar os negadores da inteligência criadora.

Se, abrindo os olhos diante desse espetáculo, eles persistirem em sua negativa, já não teremos como nos eximir de responder-lhes, em consciência, que também duvidaremos de suas faculdades mentais. Porque, para falar com franqueza, a inteligência do Criador nos parece infinitamente mais curta e incontestável que a dos ateus franceses e estrangeiros.

E, como o método positivo consiste em não julgar antes de observar os fatos, corre-nos o dever que examinar primeiro os fatos astronômicos de que falamos, e depois da interpretação com que se satisfazem os nossos antagonistas. Se, depois disso, essa sua interpretação satisfizer, subscreveremos de antemão as suas doutrinas; mas, se, ao contrário, revelar-se insensata, temos, como dever de honra e por amor à verdade, de a desmascarar e entregar ao apupo da platéia.

Esqueçamos por momentos o átomo terrestre, no qual o destino nos fixou por alguns dias. Que o nosso Espírito se lance ao espaço e veja rolar diante de si o mecanismo gigantesco — mundos e mundos, sistemas após sistemas, na infinita sucessão de universos estrelados. Ouçamos, com Pitágoras, as harmonias siderais nas amplas e céleres revoluções das esferas e contemplemos, na sua realidade, esses movimentos simultaneamente vertiginosos e regulares que enfeudam as terras celestes nas suas órbitas ideais. Observamos que a lei suprema, universal, dirige estes mundos.

Em torno do nosso sol, centro, foco luminoso, elétrico, calorífico do sistema planetário, giram os planetas obedientes. Os mais extraordinários labores do espírito humano deram-nos a fórmula da lei, que se divide em três pontos fundamentais, conhecidos em Astronomia por leis de Képler, operoso sábio que a descobriu graças ao seu gênio, como à sua paciência, e que discutiu opiniàticamente, 17 anos, as observações do seu mestre Ticho-Brahe, antes que distinguisse sob o véu da matéria a força que a rege.

Esses três pontos são:

1." — Cada planeta descreve em torno do Sol uma órbita elíptica, na qual o centro do Sol ocupa sempre um dos focos.

2.° — As áreas (ou superfícies) descritas pelo raio vector de um planeta em redor do foco solar são proporcionais aos tempos que levam a descrevê-las.

3." — Os quadrados dos tempos de revolução planetária, em torno do Sol, são proporcionais aos cubos dos grandes eixos orbitários.

A síntese destas leis integra o grande axioma que Newton foi o primeiro a formular na sua obra imortal sobre os Princípios. Neste livro, ensina-nos ele — como bem adverte Herschel — que todos os movimentos celestes são consequências da lei, isto é: — que duas moléculas materiais se atraem na razão direta do volume de suas massas e na inversa do quadrado das distâncias.

Partindo deste princípio, ele explica como a atração exercida entre as grandes massas esféricas, componentes do nosso sistema, é regulada por uma lei cuja expressão é exatamente idêntica, como os movimentos elípticos dos planetas ao redor do Sol e dos satélites ao redor dos planetas, tal como os determinou Képler, se deduzem consequentes necessários da mesma lei, e como as próprias órbitas dos cometas não são mais que casos particulares dos movimentos planetários. Passando em seguida às aplicações difíceis, faz-nos ver como as desigualdades tão complicadas do movimento lunar prendem-se à ação perturbadora do Sol, assim como se originam as marés da desigualdade de atração que esses dois astros exercem sobre a Terra e o oceano que a rodeia. E demonstra-nos, enfim, como também a precessão dos equinócios não passa de consequência necessária da mesma lei.

Pois é à execução dessas leis que está confiada a harmonia do sistema planetário; é a elas que os mundos devem os seus anos, as suas estações, os seus dias; é nelas que haurem a luz e o calor distribuídos em diversos graus pela fonte cintilante; é delas que derivam a eclosão da vida, a forma e ornamento dos corpos celestes. Sob a ação incoercível dessas forças colossais, os mundos se transportam no espaço com a rapidez do relâmpago e percorrem centenas de mil léguas por dia, sem parar, seguindo estritamente a rota certa e previamente traçada por essas mesmas forças.

Se nos fora dado libertar-nos um momento das aparências, sob cujo império nos acreditamos em repouso no centro do Universo, e se pudéramos abranger num olhar de conjunto os movimentos que animam todas as esferas, haveríamos de ficar surpreendidos com a imponência desses movimentos. Aos nossos olhos maravilhados, enormíssimos globos turbilhonariam rápidos sobre si mesmos, pro-jetados no vácuo a toda a velocidade, quais gigantescas balas que uma força de projeção inimaginável houvesse enviado ao Infinito.

Admiramo-nos desses comboios ferroviários que devoram distâncias como dragões flamantes e, no entanto, os globos celestes, mais volumosos que a nossa Terra, deslocam-se com uma rapidez que ultrapassa a das locomotivas, quanto a destas ultrapassa a das tartarugas. A terra que habitamos, por exemplo, percorre o espaço com a velocidade de seiscentos e cinquenta mil léguas por dia.

Rodeando esses mundos, veríamos satélites em circulação e a distâncias diferentes, mas adstritos e submissos às mesmas leis. E todas essas repúblicas flutuantes inclinam os pólos alternativamente para o calor e para a luz, a gravitarem sobre o próprio eixo, apresentando, cada manhã, os diferentes pontos de sua superfície ao beijo do astro-rei.

Tiram, assim, da combinação mesma dos seus movimentos, a renovação da beleza e da juventude; renovam a fecundidade no ciclo das primaveras, dos estios, dos outonos e dos invernos; coroam de frondes as montanhas onde o vento suspira; refletem no espelho dos lagos a magia de suas paisagens; envolvem-se, às vezes, na lanugem atmosférica, fazendo dela um manto protetor, ou transformando-a em cadinho retumbante de raios e granizos; desdobram por superfícies imensas a força das ondas oceânicas, que, também por si, se alteiam sob a atração dos astros, qual seio ofegante.

Iluminam crepúsculos com os matizes policrômicos dos ocasos comburentes, e fremem nos seus pólos às palpitações elétricas despedidas dos leques de boreais auroras; geram, embalam e nutrem a multidão de seres que as povoam; e renovam o filão da vida desde as plantas fósseis, do passado, até o homem que pensa e sonda o futuro. Todos estes mundos, todas estas moradas do espaço, departamentos da vida, nos apareceriam quais naves bussoladas, conduzindo através do oceano celeste tripulantes que não têm a temer escolhos nem imperícias de comando, nem falta de combustível, nem fome, nem tempestades. (..)