PRESCIÊNCIA
BIBLIOGRAFIA
01- A reencarnação- pág. 253 02 - Antologia do perispirito- ref. 326
03 - Crônicas de um e de outro- pág. 46 04 - Magnetismo Espiritual - pág. 254
05 - O consolador - pág. 90 06 - O desconhecido e os probl.psíquicos - pág. 39
07 - O Espírito do Cristianismo - pág. 151 08 - O Livro dos Espíritos - q. 411,454a, 577, 868
09 - O que é a morte - pág. 74, 119 10 - Parapsicologia hoje e amanhã - pág. 147
11 - Revista Espírita - 1861, 1863, pág. 33, 318 12 - Síntese de o novo testamento - pág. 33, 35

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PRESCIÊNCIA – COMPILAÇÃO

01- A reencarnação - Gabriel Delanne - pág. 253

REENCARNAÇAO ANUNCIADOS ANTECIPADAMENTE
Existem casos em que a reencarnação íoi predita com bastante exatidão, para que se lhe pudesse verificar a realidade. — A clarividência do médium não basta para explicar essa premonição. — Exemplos de crianças que dizem à sua mãe que voltarão. — Um duplo anúncio de reencarnacão. — Lembrança de uma canção aprendida na vida precedente. — Um caso quase pessoal. — Uma ata de Lyon, do grupo Nazaré. — O caso de Engel. — Os dois casos contados por Bouvier. — O de Reyles. — O caso Jaffeux. — História da menina Alexandrina, narrada pelo Dr. Samona.

Vimos nos capítulos precedentes que a lei das vidas sucessivas não se nos apresenta mais como simples teoria filosófica, visto que se pode apoiar em fatos experimentais, como os que se obtêm produzindo-se em pacientes apropriados a regressão da memória, que é levada além do nascimento atual.

Essa memória latente, que repousa no subconsciente, pode, por vezes, remontar até a consciência normal e produzir os clarões de reminiscência, que levantam um véu no panorama do passado. Nas crianças-prodígio a ressurreição dos conhecimentos anteriores se manifesta com tanto brilho, que é impossível deixar de ver aí o despertar de conhecimentos pré-natais.

Discuti as hipóteses lógicas às quais poderíamos recorrer para explicar esses casos, sem fazer intervir a reencarnacão; mostrei que elas eram insuficientes. Desejo, agora, passar em revista certo número de narrativas, nas quais os Espíritos, que deviam voltar, íizeram saber previamente, e de diíerentes maneiras, a intenção de retomarem um corpo terrestre.

Por vezes, essas afirmações foram acompanhadas de informes precisos, referentes ao sexo e às circunstâncias nas quais se produziria a volta ao mundo. Examinarei se será possível atribuir todas essas narrativas a simples premonições ou se, pelo contrário, nelas se deve ver a intervenção de seres independentes dos médiuns.

Essa prova resultará, em certos casos, da concordância que existe entre a predição que o Espírito faz do seu próximo retorno, entre nós, e, dado o renascimento, da lembrança que esse Espírito conserva de sua vida anterior. São esses diferentes aspectos do fenômeno, que vou passar agora em revista.

Começo reproduzindo um artigo da "Revue Spirite" de 1875, página 330.
Só a evidente sinceridade do narrador me leva a ter em conta o seu testemunho, porque a mãe, o que é lamentável, não se fez conhecer, e ignoramos se era espiritista. Como quer que seja, eis o fato:

"NOVA PROVA DA REENCARNAÇAO
27 de agosto de 1875 Sr. Leymarie.
Ê com satisfação que venho trazer ao seu conhecimento uma nova prova, bem evidente, da lei da reencarnação. A 23 do corrente, estava em um ônibus com a Sra. Fagard. Seu marido, nosso amigo, não pôde achar lugar no imperial. Uma senhora jovem e distinta colocara-se perto de nós; tinha nos joelhos uma encantadora menina de 15 meses, alegre, jovial, que me estendia seus bracinhos róseos. Hesitava em toma-la, porque receava desagradar a mãe, mas, vendo-lhe um sorriso aprovador, segurei a atraente menina.

Era gentil e graciosa; nessa idade as crianças são adoráveis e aquela tinha tanta amabilidade, que logo havia a disposição de estimá-la. Disse à senhora: — Não há dúvida de que deve adorá-la. — O senhor, amo-a muito. Depois, ela tem um duplo título a esse amor. Ficará espantado se eu lhe disser que é a segunda vez que sou mãe da mesma criança; minhas estranhas palavras são a expressão da verdade, porque não estou louca, nem alucinada, e não digo nada sem provas certas. Vou explicar-me.

Possuía uma deliciosa filhinha, que a morte me arrebatou aos 5 anos e meio; em seus últimos momentos, esse anjinho, vendo-me as lágrimas e o profundo desespero, disse-me essas memoráveis palavras: "Mãezinha, não te aflijas assim, tem coragem; eu não parto para sempre, voltarei num domingo do mês de abril."

Pois bem, no mês de abril e num domingo, pus no mundo a minha pequena Ninie, que o senhor tem a bondade de acariciar. Todos os que conheceram a primeira Ninie, a reconhecem na segunda. Ela só diz as palavras: papá, mamã, e na última semana, julgue a minha felicidade, a minha grande surpresa, abracei-a, pensando na outra, e lhe dizia: — Es tu a Ninie? E ela respondeu: — Sim, sou eu. Posso duvidar, senhor?

— Não, senhora; seria preciso uma grande teimosia para não compreender que foi o mesmo Espirito que voltou a esse corpo encantador. Deus teve a bondade de preveni-la, eis tudo. Se os homens estudassem, compreenderiam esses fatos naturais e seu inestimável valor.

Não lhe pude dar outras explicações, porque ela desceu; lamento não lhe haver pedido o nome e a morada. Esperemos que estas linhas lhe cheguem às mãos e que ela queira confirmar as minhas palavras, que afirmo, sob palavra de honra, serem a verdade. Com todo respeito, seu servidor Floux Mary. Escragnolle Doria. 5, rue Vauvilliers, Plaily, Oise."
É interessante, se é exata a narrativa, que a criança tivesse, antes de morrer, a premonição exata do dia em que voltaria de novo à sua cara mãezinha.(..)

05 - O consolador - Emmanuel - pág. 90

Perg. 143 - Deve-se acreditar na influência oculta de certos objetos, como jóias, etc. que aparecem acompanhados de uma atuação infeliz e fatal?
- Os objetos, mormente os de uso pessoal, têm a sua história viva e, por vezes, podem constituir o ponto de atenção das entidades perturbadas, de seus antigos possuidores no mundo; razão por que parecem tocados, por vezes, de singulares influências ocultas, porém, nosso esforço deve ser o da libertação espiritual, sendo indispensável lutarmos contra os fetiches, para considerar tão-somente os valores morais do homem na sua jornada para o Perfeito.

Perg. 144 - Os fenômenos premonitórios atestam a possibilidade da presciência com relação ao futuro? - Os Espíritos de nossa esfera não podem devassar o futuro, considerando essa atividade uma característica dos atributos do Criador Supremo, que é Deus.Temos de considerar todavia, que as existências humanas estão subordinadas a um mapa de provas gerais, onde a personalidade deve movimentar-se com o seu esforço para a iluminação do porvir, e, dentro desse roteiro, os mentores espirituais mais elevados podem organizar os fatos premonitórios, quando convenham à demonstração de que o homem não se resume a um conglomerado de elementos químicos, de conformidade com a definição do materialismo dissolvente.

08 - O Livro dos Espíritos - Allan Kardec - questões:. 411, 454a, 577, 868


Perg. 411 - O Espírito encarnado, nos momentos em que se desprende da matéria e age como Espírito, conhece a época de sua morte?
- Muitas vezes a pressente, e às vezes tem dela uma consciência bastante clara, o que lhe dá, no estado de vigília, a sua intuição. É por isso que algumas pessoas prevêem a própria morte com grande exatidão.

Perg. 454 - Pode-se-ia atribuir a uma espécie de dupla vista a perspicácia de certas pessoas que, sem nada terem de extraordinário, julgam as coisas com mais precisão do que as outras?- É sempre a alma que irradia mais livremente e julga melhor do que sob o véu da matéria.

Perg. 454a - Esta faculdade pode, em certos casos, dar presciência das coisas?
- Sim; ela dá também os pressentimentos, porque há muitos graus desta faculdade, e o mesmo indivíduo pode ter todos os graus ou não ter mais do que alguns.

Perg. 577 - Quando um homem faz uma coisa útil, é sempre em virtude de uma missão anterior e predestinada ou pode ter recebido uma missão não prevista?
- Nem tudo o que um homem faz é consequência de uma missão predestinada; ele é frequentemente o instrumento de que um Espírito se serve para fazer executar alguma coisa que considera útil. Por exemplo, um Espírito julga que seria bom escrever um livro, que ele escreveria se estivesse encarnado, procura o escritor mais apto a compreender o seu pensamento e a executá-lo: dá-lhe então a idéia e o dirige na execução. Assim, este homem não veio à Terra com a missão de fazer essa obra. Acontece o mesmo com alguns trabalhos de arte e com as descobertas. Acrescentemos ainda que, durante o sono do corpo, o Espírito encarnado comunica-se diretamente com o Espírito errante, e que se entendem sobre a execução.

Perg. 868 - O futuro pode ser revelado ao homem?
- Em princípio, o futuro lhe é oculto, e só em casos raros e excepcionais Deus lhe permite a sua revelação.

11 - Revista Espírita - AllanKardec - 1861, 1863, pág. 33, 318

REVISTA ESPÍRITA 1861 - PÁG. 33- MÉDIUM: SR. ALFRED DIDIEB
É curioso ver surgir, no meio do materialismo, um grupo de homens de boa fé, propagando o Espiritismo. Sim: é no meio das mais profundas trevas que Deus lança a luz e no momento em que ele é mais esquecido, que melhor se mostra. Semelhante ao ladrão sublime de que fala o Evangelho, e que virá julgar o mundo no momento em que este menos esperar. Mas Deus não vem a vós para vos surpreender: ao contrário, vem prevenir-vos de que essa grande surpresa, que deve em empolgar os homens ao morrerem, deve ser para eles funesta ou feliz.

Deus me enviou para o meio de uma sociedade corrupta. Graças à clarividência, algumas dessas revelações que em meu tempo pareciam tão maravilhosas, hoje se afiguram muito naturais. Todas essas lembranças para mim não passam de sonhos e — louvado seja Deus! — o despertar não foi penoso. Nasceu o Espiritismo, ou antes, ressuscitou em vosso tempo; o magnetismo era do meu tempo. Crede que as grandes luzes precedem os grandes clarões. O autor do Dlable Amoureux vos lembra que já teve a honra de conversar convosco e sentir-se-á feliz em continuar suas relações amistosas.
CAZOTTE

Na sessão seguinte foram dirigidas ao Espírito de Cazotte as seguintes perguntas:— Vindo espontaneamente na última vez, tivestes a gentileza de nos dizer que voltaríeis de boa vontade. Aproveitamos o oferecimento para vos dirigir algumas perguntas, se assim o quiserdes.
1.ª— A história do famoso jantar, na qual predissestes a sorte que aguardava cada um dos convivas é inteiramente verídica?
— Ela é verdadeira no sentido de que a predição não foi feita numa mesma noite, mas em vários jantares, no fim dos quais eu me divertia em meter medo aos meus convivas, por meio de sinistras revelações.

2.' — Conhecemos os efeitos da segunda vista e compreendemos que, dada essa faculdade, tivésseis podido ver coisas distantes mas que se passavam no momento. Como pudestes ver coisas futuras, que ainda não existiam e vê-las com precisão? Poderíeis, ao mesmo tempo, dizer-nos como vos foi dada tal precisão? Falastes simplesmente como inspirado, sem nada ver, ou o quadro dos acontecimentos que anunciastes se vos apresentou como uma imagem? Tende a bondade de descrever isto o melhor que puderdes para a nossa instrução.

— Há na razão do homem um instinto moral que o impele a predizer certos acontecimentos. É certo que eu era dotado de muitíssima clarividência, mas sempre humana, para os acontecimentos que então se passaram. Acreditais, porém, que o bom senso, ou o correto julgamento das coisas terrenas vos possam detalhar, com anos de antecedência, esta ou aquela circunstância? Não. Aliava-se à minha natural sagacidade uma qualidade sobrenatural: a segunda vista. Quando eu revelava às pessoas que me cercavam os terríveis abalos que deveriam ocorrer, evidentemente eu falava como um homem de bom senso e de lógica; quando, porém, eu via pequenos detalhes dessas circunstâncias vagas e gerais, quando eu via, visivelmente, esta ou aquela vítima, então não falava mais como um simples homem dotado, mas como um inspirado.

3.' — Independentemente desse fato, tivestes, durante a vida, outros exemplos de previsão?
— Sim. Estas eram todas mais ou menos sobre o mesmo assunto. Mas, por passatempo, eu estudava as ciências ocultas e me ocupava muito de magnetismo.

4.' — Essa faculdade de previsão vos acompanhou no mundo dos Espíritos? Isto é, após a morte ainda prevedes certos acontecimentos?
— Sim; esse dom me ficou muito mais puro.

OBSERVAÇÃO: Poder-se-ia ver aqui uma contradição com o princípio que se opõe à revelação do futuro. Com efeito, o futuro nos é oculto por uma lei muito sábia da Providência, pois que tal conhecimento prejudicaria o nosso livre arbítrio e nos levaria à negligência do presente pelo futuro. Ademais, por nossa oposição, poderíamos entravar certos acontecimentos necessários à ordem geral. Quando, porém, essa comunicação nos pode impelir a facilitar a realização de uma coisa, Deus pode permitir a sua revelação, nos limites assinados por sua sabedoria.

REVISTA ESPÍRITA 1863 - PÁG. 318
LIVRE ARBÍTRIO e PRECIÊNCIA DIVINA * (THIONVILLE, 5 DE JANEIRO DE 1863. MÉDIUM: DR. R...)
Há uma grande lei que domina tudo no universo: a lei do progresso. É em virtude dessa lei que o homem, criatura essencialmente imperfeita, deve, como tudo quanto existe em nosso globo, percorrer todas as fases que o separam da perfeição. Sem dúvida Deus sabe quanto tempo cada um levará para chegar ao fim; como, porém, todo progresso deve resultar de um esforço tentado para o realizar, não haveria nenhum mérito se o homem não tivesse a liberdade de tomar este ou aquele caminho.

Com efeito, o verdadeiro mérito não pode resultar senão de um trabalho operado pelo Espírito para vencer uma resistência mais ou menos considerável. Como cada um ignora o número de existências que consagrou ao seu adiantamento moral, ninguém pode prejulgar nesta grande questão, e é sobretudo aí que brilha de maneira admirável a infinita bondade de nosso Pai celeste que, ao lado do livre arbítrio que nos conferiu, nada obstante semeou em nosso caminho postes indicadores que iluminam os desvios.

É, pois, por um resto de predomínio da matéria que muitos homens se obstinam em ficar surdos às advertências que lhes chegam de todos os lados, e preferem gastar em prazeres enganadores e efêmeros uma vida que lhe havia sido concedida para o avanço de seu espírito. Não se poderia afirmar, sem blasfêmia, que Deus tenha querido a infelicidade de suas criaturas, desde que os infelizes expiam sempre, tanto uma vida anterior mal empregada, quanto sua recusa a seguir o bom caminho, quando este lhe era mostrado claramente.

Assim, depende de cada um abreviar a prova que deve sofrer; e, por isto, os guias seguros, bastante numerosos, lhe são concedidos, para que seja inteiramente responsável por sua recusa de seguir seus conselhos; e ainda, neste caso, existe um meio certo de abrandar uma punição merecida, dando sinais de sincero arrependimento e recorrendo à prece, que jamais deixa de ser ouvida, quando feita com fervor. O livre arbítrio existe pois, muito realmente no homem, mas com um guia: a consciência.

Vós todos que tendes acesso ao grande foco da nova ciência, não negligencieis de vos penetrar das eloquentes verdades que ela vos revela, e dos admiráveis princípios que são a sua consequência; segui-os fielmente: é aí, sobretudo, que brilha o vosso livre arbítrio.
Pensai, por um lado, nas consequências fatais que para vós arrasta a recusa de seguir o bom caminho, como nas magníficas recompensas que vos aguardam caso obedeçais às instruções dos bons Espíritos: é aí que brilhará, por sua vez, a preciência divina.

Em vão se esforçam os homens em busca da verdade por todos os meios que julgam ter na ciência; esta verdade que lhes parece escapar os contorna sempre e os cegos não a percebem.

Espíritos sábios de todos os tempos, aos quais é dado levantar a ponta do véu, não negligencieis os meios que vos são oferecidos pela Providência! Provocai nossas manifestações; fazei que delas aproveitem todos os vossos irmãos menos bem aquinhoados que vós; inculcai em todos os preceitos que vos chegam do mundo espírita, e tereis bem merecido, porque tereis contribuído em larga parte para a realização dos desígnios da Providência.
ESPÍRITO FAMILIAR

REVISTA ESPÍRITA 1864 - PÁG. 129

TEORIA DA PRECIÊNCIA
Como é possível o conhecimento do futuro? Compreendem-se as previsões dos acontecimentos que são consequência do estado presente, mas não dos que nenhuma relação têm com eles e, ainda menos, os que são atribuídos ao acaso. Diz-se que as coisas futuras não existem; que ainda estão no nada. Então como saber se acontecerão? Contudo são muito numerosos os exemplos de predições realizadas, de onde concluir-se que aí se passa um fenômeno cuja chave não se tem, pois não há efeito nem causa. Essa causa, que tentaremos achar, ainda é o Espiritismo, também chave de tantos mistérios, que no-la fornecerá e, além disso, mostrar-nos-á que o próprio fato das predições não sai das leis naturais.

Como comparação, tomemos um exemplo nas coisas usuais e que auxiliará a compreender o princípio que teremos de desenvolver. Suponhamos um homem colocado no alto de uma montanha, considerando a vasta extensão da planície. Nessa situação pouco será o espaço de uma légua, e facilmente poderá ele abarcar que um golpe de vista todos os acidentes do terreno, do começo no fim da estrada. O viajante que, por primeira vez, percorro essa estrada, sabe que marchando chegará ao fim. Isto ó simples previsão da consequência de sua marcha.

Mas os acidentes do terreno, as subidas e descidas, os riachos a transpor, as matas a atravessar, os precipícios onde pode cair, os ladrões pastados para o assalto, as hospedarias onde poderá descansar, tudo Isto independe de sua pessoa: é para ele desconhecido o futuro, porque sua vista não vai além do pequeno círculo que o envolve. Quanto a duração, mede-a pelo tempo consumido em percorrer o caminho. Tirai-lhes os pontos de referência e apaga-se a duração. Para o homem que está na montanha e que acompanha o viajante com o olhar, tudo isto é presente. Suponhamos esse homem descendo ao viajante e que lhe diga:

"Em tal momento encontrareis essa coisa; sereis atacado e socorrido." Ele predirá o futuro. O futuro é para o viajante; para o homem da montanha é o presente. Agora se sairmos do círculo das coisas puramente materiais e, por pensamento, entrarmos no domínio da vida espiritual, veremos esse fenômeno reproduzir-se em escala muito maior. Os Espíritos desmaterializados são como o homem da montanha; para ele apagam-se espaço e tempo. Mas a extensão e a penetração de sua vista são proporcionais à sua depuração e à sua elevação na hierarquia espiritual; em relação aos Espíritos inferiores, são como o homem armado de poderoso telescópio, ao lado do que tem os olhos nus.

Nestes últimos a vista é circunscrita, não só porque dificilmente podem afastar-se do globo a que estão ligados, mas porque a grossura de seu perispírito vela as coisas afastadas, como a garoa para os olhos do corpo. Compreende-se, porque, conforme o grau de perfeição, um Espírito possa abarcar um período de alguns anos, alguns séculos e, até, de milhares de anos, porque o que é um século ante a eternidade? Ante ele os acontecimentos não se desenrolam sucessivamente, como os incidentes da estrada do viajante; vê simultaneamente o começo e o fim do período; todos os acontecimentos que, nesse período são o futuro para o homem da terra, para ele são o presente.

Poderia ele, pois, vir dizer-nos com certeza: Tal coisa acontecerá em tal momento, porque vê essa coisa como o homem da montanha vê o que espera o viajor na estrada. Se não o diz, é porque o conhecimento do futuro seria nocivo ao homem; entravaria o seu livre arbítrio; parallzá-lo-ia no trabalho que deve realizar para o seu progresso. Sendo-lhe desconhecidos o bem e o mal que o esperam, o são para a sua provação.

Se uma tal faculdade, mesmo restrita, pode estar nos atributos da criatura, a que grau de poder deve ela elevar-se no Criador, que abarca o infinito? Para ele o tempo não existe; o começo e o fim do mundo são o presente. Nesse imenso panorama, que é a duração da vida de um homem, de uma geração, de um povo?

Contudo, como deve o homem concorrer para o progresso geral, e certos acontecimentos devem resultar de sua cooperação, em certos casos pode ser útil que pressinta esses acontecimentos, a fim de lhes preparar o caminho e estar pronto para agir quando chegar o momento. Eis por que, às vezes, Deus permite seja levantada a ponta do véu; mas é sempre com um fim útil e jamais para satisfazer uma vã curiosidade. Assim, essa missão pode ser dada, não a todos os Espíritos, pois alguns não conhecem o futuro melhor que os homens, mas a alguns Espíritos suficientemente adiantados para isto. Ora, é de notar que essas espécies de revelações sempre são feitas espontaneamente e jamais, ou, pelo menos, muito raramente, em resposta a uma pergunta direta.

Essa missão pode ser igualmente concedida a certos homens, e eis por que maneira. Aquele a que é confiado o trabalho de revelar uma coisa oculta pode recebê-la, mau grado seu, como inspiração pêlos Espíritos que a conhecem; então a transmite maquinalmente, sem se dar conta. Além disso, sabe-se que, quer durante o sono, quer em vigília, nos êxtase da dupla vista, a alma se desprende e possui em grau mais ou menos grande as faculdades do Espírito livre. Se for um Espírito adiantado, se, como os profetas, tiver recebido a missão especial para esse efeito, goza, nesses momentos de emancipação da alma, da faculdade de abarcar, por si-mesmo, um período mais ou menos extenso e vê, como os presentes, os acontecimentos desse período.

Então pode revelá-los imediatamente, ou lhes conservar a memória ao despertar. Se os acontecimentos deverem ser mantidos em segredo, Ale perderá a sua lembrança ou conservar apenas uma vaga Intuição, bastante para o guiar ínstintivamente. É assim que hoje se vê essa faculdade desenvolver-se providencialmente em certas ocasiões, nos perigos iminentes, nas grandes calamidades, nas revoluções e que a maioria das seitas perseguidas tiveram numerosas videntes; é ainda assim que se vêem grandes capitães marchar resolutamente contra o inimigo, com a certeza da vitória; homens de gênio, como, por exemplo, Cristóvão Colombo, seguir um objetivo, por assim dizer predizendo o momento que o atingir. É que viram esse objetivo, que não é desconhecido para o seu Espírito.

Todos os fenômenos cuja causa era desconhecida foram revelados maravilhosos. A lei segundo a qual estes se realizam, uma vez conhecida, eles entraram na ordem das coisas naturais. o dom da predição não é sobrenatural, como não o são muitos outros fenômenos: repousa nas propriedades da alma e na lei das relações entre os mundos visível e invisível, que o Espiritismo vem dar a conhecer. Mas como admitir a existência de um mundo invisível, se se não admitir a alma, ou se se não admitir sua individualidade após a morte? O incrédulo que nega a preciência é consequente consigo mesmo. Resta a saber se o é com a lei natural.

A teoria da preciência talvez não resolva de modo absoluto Iodos os casos que a previsão do futuro possa apresentar, mas não se pode desconvir que ela estabelece o seu princípio fundamental. Se se não pode tudo explicar é pela dificuldade, para o homem, de colocar-se nesse ponto de vista extra-terrestre; por sua mesma inferioridade, seu pensamento, incessantemente arrastado para o caminho da vida material, muitas vezes é impotente para se destacar do solo. A esse respeito muitos homens são como as aves novas, cujas asas, demasiadamente fracas, não lhes permitem elevar-se no ar, ou como aqueles cuja vista é demasiado curta para ver ao longe, ou, enfim, como aqueles a quem falta um sentido para certas percepções. Entretanto, com alguns esforços e o hábito da reflexão, lá chegam: os Espíritas, mais facilmente que os outros, porque, melhor que os outros, podem identificar-se com a vida espiritual, que compreendem.

Para compreender as coisas espirituais, isto é, para fazer delas uma idéia tão clara quanto a que fazemos de uma paisagem que está aos nossos olhos, falta-nos, realmente, um sentido, exatamente como a um cego falta o sentido necessário para compreender os efeitos da luz, das cores e da visão à distância. Assim, só por um esforço da imaginação é que o conseguimos, auxiliados por comparações tiradas das coisas familiares. Mas as coisas materiais só idéias muito imperfeitas nos podem dar das coisas espirituais. É por isso que não se deveriam tomar essas comparações ao pé da letra e, por exemplo, crer, no caso de que se trata, que a extensão das faculdades de perspectiva dos Espíritos depende de sua elevação efetiva, e que eles necessitem estar numa montanha, ou acima das nuvens, para abarcar o tempo e o espaço.

Essa faculdade é inerente ao estado de espiritualização ou, se se quiser, de desmaterialização. Por outras palavras, a espiritualização produz um efeito que se pode comparar, embora muito imperfeitamente, ao da visão de conjunto do homem sobre a montanha. Esta comparação apenas objetivava mostrar que acontecimentos que estão no futuro para uns, estão no presente para outros e, assim, podem ser preditos, o que não implica que o efeito se produza da mesma maneira.

Para gozar dessa percepção o Espírito não precisa, então, transportar-se para um ponto qualquer no espaço; o que está na terra, ao nosso lado, pode possuí-la em sua plenitude, como se estivesse a milhares de léguas, ao passo que nada vemos fora do horizonte visual. Não se produzindo a visão nos Espíritos da mesma maneira e com os mesmos elementos que no homem, seu horizonte visual é bem outro. Ora, aí está precisamente o sentido que nos falta para o conceber; ao lado do incarnado, o Espírito é como um vidente ao lado de um cego.

Além disso, é necessário imaginar-se que essa percepção não se limita à extensão, mas compreende a penetração em todas os coisas. É, repetimo-lo, uma faculdade inerente e proporcionada ao estado de desmaterialização. Essa faculdade é amortecida pela encarnação, mas não é completamente anulada, porque a alma não está encerrada no corpo como numa caixa. O encarnado a possui em razão do avanço do Espírito, posto que sempre em menor grau do que quando inteiramente desprendido. É o que dá a certos homens um poder de penetração que outros falta completamente, uma justeza maior no golpe de vista moral, uma compreensão mais fácil das coisas extra-materiais. Não só o Espírito percebe, mas se recorda do que viu no estado de Espírito; e essa lembrança é como um quadro que retrata em sua mente. Na encarnação ele vê, mas vagamente como que através de um véu; no estado de liberdade vê e percebe claramente. O princípio da visão não está fora de si, mas em si.

É por isso que não necessita de nossa luz exterior. Pelo desenvolvimento moral, o círculo das idéias e da concepção se alarga; pela desmaterialização gradual do perispírito, este purifica dos elementos grosseiros, que alteram a delicadeza das percepções; de onde é fácil compreender que a extensão do todas as faculdades segue o progresso do Espírito. É o grau da extensão das faculdades do Espírito que, na encarnação, o torna mais ou menos apto para conceber as coisas espirituais. Contudo, essa aptidão não é consequência necessária ao desenvolvimento intelectual; não a dá a ciência vulgar.

É por isso que se vêm homens de grande inteligência e grande saber, tão cegos para as coisas espirituais quanto outros o são para as coisas materiais. São refratários porque não os compreendem; isto é porque seu progresso ainda não foi feito neste sentido, ao passo que se vêem pessoas de inteligência e instrução vulgares as apreender com a maior facilidade, o que prova que tinham a sua intuição prévia. A faculdade de mudar de ponto de vista e de olhar do alto só dá a solução do problema da preciêncïa; é, além disso, chave da verdadeira fé, da fé sólida.

É também o mais poderoso elemento de força e de resignação, porque daí a vida terrena, aparecendo como um ponto na imensidade, compreendendo pouco valor das coisas que, vistas debaixo, parecem tão importantes. Os incidentes, as misérias, as vaidades da vida apequenam à medida que se desenrola o imenso e esplêndido horizonte do futuro. O que assim vê as coisas deste mundo pouco ou nada é atingido pelas virtudes e, por isto mesmo, tão feliz quanto o pode ser aqui em baixo. É preciso, pois, salientar os que concentram seus pensamentos na estreita esfera terrena, porque sente em toda a sua força, o contra-golpe de todas as tribulações que, como tantos aguilhões, os ferem incessantemente. (...)

12 - Síntese de o novo testamento - Mínimus - pág. 33, 35

Síntese de Os Evangelhos - Predição do nascimento de João. (Luc., 1:1 a 25)
Tendo muitas pessoas empreendido escrever a história dos fatos desenrolados entre nós, guiando-se pelo que nos transmitiram aqueles que os observaram desde o começo, com seus próprios olhos, e foram os ministros da palavra, pareceu-me conveniente, excelentíssimo Teófilo, depois que investiguei exatamente todas essas coisas, desde o início, narrar-vos toda a série delas, a fim de que conheçais a verdade da doutrina em que fostes instruído.

Sob o reinado de Herodes, rei da Judéia, havia um sacerdote chamado Zacarias, da classe sacerdotal de Abias; sua mulher pertencia à raça de Aarão e se chamava Isabel. Ambos eram justos aos olhos de Deus e obedeciam aos mandamentos e ordens do Senhor, de modo irrepreensível. Não tinham filhos por ser Isabel estéril e estarem ambos em idade avançada.

Desempenhando Zacarias suas funções de sacerdote perante Deus, na ordem da sua turma, sucedeu que, tirada a sorte, conforme o costume entre os sacerdotes, lhe tocou entrar no santuário do Senhor para queimar o incenso, enquanto a multidão, do lado de fora, orava no momento em que se queimava a resina. À direita do altar de incensamento, um anjo do Senhor apareceu de pé a Zacarias.

Ao vê-lo, Zacarias ficou todo perturbado e o temor se apoderou dele. O anjo, porém, lhe disse: "Não tenhas medo, Zacarias, porquanto a tua súplica foi ouvida e Isabel, tua mulher, te dará um filho a quem chamarás João. Exultarás com isso de alegria e muitos rejubilarão com o seu nascimento; pois que ele será grande aos olhos do Senhor; não beberá vinho nem bebida alguma inebriante; será cheio do Espírito-Santo desde o seio materno; converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor Deus deles; e irá à frente do Senhor, no Espírito e poder de Elias, para converter os corações dos pais aos filhos e os desobedientes à sabedoria dos justos, a fim de preparar para o Senhor um povo dedicado." Disse Zacarias ao anjo: "Como me certificarei disso, sendo já velho e estando minha mulher em idade avançada?"

— Respondeu-lhe o anjo: "Sou Gabriel, sempre presente diante de Deus, e fui enviado para te falar e te anunciar esta boa nova. Vais ficar mudo e não poderás mais falar até ao dia em que estas coisas acontecerem, visto não haveres acreditado nas minhas palavras que a seu tempo se cumprirão."

O povo esperava Zacarias e se admirava que estivesse demorando no santuário. Mas, quando ele saiu sem poder falar, todos compreenderam que tivera uma visão no santuário, pois que lhes dava a entender isso por sinais, e continuou mudo. Decorridos os dias do seu ministério sacerdotal, voltou para casa.

Tempos depois, Isabel, sua mulher, concebeu; e se ocultou durante cinco meses, dizendo: "Esta a graça que o Senhor me concedeu quando se dignou de tirar-me do opróbrio diante dos homens." '

Predição do nascimento de Jesus. (Luc., 1:36 a 38)
Estando Isabel no sexto mês de gravidez, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a Nazaré, cidade da Galiléia, a uma virgem desposada (1) com um varão chamado José, da casa de David, e essa virgem se chamava Maria. O anjo, aproximando-se dela, disse-lhe: "Eu te saúdo, ó cheia de graça; o Senhor é contigo." Ela, porém, ao ouvi-lo, se perturbou muito e pôs-se a pensar no que significaria aquela saudação. O anjo lhe disse:

-"Nada temas, Maria, porquanto caíste em graça perante Deus. E' assim que conceberás no teu ventre, e de ti nascerá um filho ao qual darás o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo; o Senhor Deus lhe dará o trono do seu pai David; reinará eternamente sobre a casa de Jacob, e o seu reino não terá fim." Então, disse Maria ao anjo: "Como sucederá isso, se não conheço varão?" — O anjo respondeu: "O Espírito-Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra, e, por isso, o que há-de nascer será chamado santo, Filho de Deus.

Também tua parenta Isabel concebeu na velhice um filho e está no sexto mês de gravidez, ela que era chamada estéril (2); pois a Deus nada é impossível." Então Maria disse: "Aqui está a serva do Senhor, faça-se em mim conforme ás tuas palavras." E o anjo se afastou dela. (1) Noiva, prometida em casamento. (2) Que era chamada, isto é, que julgavam estéril.