REGRESSÃO DE MEMÓRIA
BIBLIOGRAFIA
01- Alquímia da mente - pág. 111 02 - Antologia do perispírito - ref. 710
03 - Caminhos da divulgação esp. - pág. 45 04 - Ciência e Espiritismo - pág. 128
05 - Correntes de luz- pág. 165, 171 06 - Da alma humana - pág. 84, 100, 200, 215
07 - Dramas da obsessão - pág. 41 08 - Espírito, perispírito e alma - pág. 90, 115
09 - Gestação, sublime intercãmbio - pág. 117 10 - Grilhões partidos- pág. 18, 199
11 - Lastro Esp. nos fatos científicos - pág. 133 12 - Mãos de luz - pág. 45
13 - Médium quem é quem não é - pág. 44 14 - Nas voragens do pecado - pág. 270
15 - No limiar do infinito - pág. 40

16 - O exilado - pág. 49, 64, 90, 109

17 - Palingênese, a grande lei - pág. 140 18 - Pureza doutrinária - pág. 80
19 - Recordações da mediunidade - pág. 51, 55, 62 20 - Resumo da Doutrina Espírita - pág. 159, 187
21 - Saúde e Espiritismo - pág. 99, 138, 169, 263 22 - Tambores de Angola - pág. 46
23 - Vozes do Grande Além - pág. 170  

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REGRESSÃO DE MEMÓRIA – COMPILAÇÃO

08 - Espírito, perispírito e alma - Hernani Guimarães de Andrade- pág. 90, 115

Capítulo V - MODELO EM CAMADAS
"Os verdadeiros artistas e os verdadeiros físicos sabem que o contra-senso é apenas aquilo que, visto do nosso presente ponto de vista, é ininteligível. O contra-senso é insensatez somente quando nós ainda não achamos aquele ponto de vista qual ele faz sentido". (Zukav, G. - The Dancing Wu Li Master, New York: Wiiliam Morrow, 1979, p. 140)

O MODELO EM CAMADAS RiGIDAS

O primeiro modelo do Espírito descrito anteriormente, representado simplificadamente pela figura composta por dois cones superpostos e ligados pelas suas bases, permite-nos explicar e prever diversos fatos biológicos e parapsicológicos. Além disso, ele é mais cômodo e inteligível. Entretanto mostra-se insuficiente para a interpretação dos fatos observados na regressão da memória, seja ela espontânea ou provocada por processos analíticos ou hipnóticos. o modelo que iremos propor aplica-se a todos os aspectos abrangidos pelo anterior — o dos dois cones superpostos — e serve bem para representar os casos de regressão de memória.

Na regressão da memória podem ocorrer dois tipos de recordação:
1. O paciente regride cronologicamente na idade, indo em direção à meninice, chegando às vezes a atingir a fase fetal. É a regressão mais comum, ao longo da qual o paciente vai manifestando comportamentos correspondentes as idades atingidas. Quando ele chega à idade do feto, pode apresentar várias categorias de comportamento. Alguns pacientes perdem a consciência. Outros sentem-se mergulhados em um escuro e confortável meio, como que num estado de tranquilo repouso.

Há um ou outro indivíduo que consegue ultrapassar esta última fase, para sentir-se ressurgir com diferente personalidade correspondente a encarnação anterior. Teoricamente, uma vez atingida semelhante situação, ele poderia continuar a regressão, caminhando novamente em direção à meninice da vida anterior até a fase fetal, e assim por diante. Vamos, então, denominar de "regressão cronológica" a esse tipo de retorno temporal sucessivo em direção ao passado.

E interessante assinalar que, durante a operação de regressão, o paciente também pode ser igualmente reconduzido a idades sucessivas, mas no sentido inverso, até o instante de despertar em seu estado de vigília normal. Seria uma "progressão cronológica". Voltaremos a tratar com mais detalhes deste processo, depois que expusermos esta primeira parte do nosso estudo.

2. O paciente pode recordar-se, ou espontaneamente ou sob sugestão hipnótica, ou por outros meios, e até mesmo reviver um ou mais episódios correspondentes a suas vidas anteriores. Este fenômeno é encontrado em crianças que se recordam nítida e conscientemente de uma ou mais" vidas passadas. Em algumas delas as lembranças são tão nítidas que elas chegam a mudar de comportamento e fundir suas duas existências, como se não tivesse havido um intervalo entre uma e outra encarnação. Em nossos arquivos, no Instituto Brasileiro de Pesquisas Psicobiofísicas—IBPT temos registrado alguns casos deste tipo.
físico.

Em outras circunstâncias, as recordações emergem acompanhadas de sintomas mórbidos, periódicos ou permanentes, alguns com apresentação de sinais orgânicos tais como cicatrizes, dermatoses, disfunções, deformidades e doenças congênitas, etc. São marcas reencarnatórias de nascença - "birthmarks" - citadas nos trabalhos dos pesquisadores de casos de reencarnação.

Outras vezes as lembranças são inconscientes e se traduzem sob o aspecto de neuroses, psicoses, fobias, preferências, temores infundados, símbolos, sonhos recorrentes, etc.. Parece que as experiências estão encapsuladas na intimidade do indivíduo e se extravasam em ocasiões particularmente propícias.

Estas revivescências estranhas, que parecem pertencer a um outro "arquivo mnemônico", podem também ser trazidas à tona por processos artificiais, tais como a hipnose, a análise, etc... A diferença com relação ao primeiro tipo de regressão é que o paciente vai atingir diretamente um dado "lugar" do seu "banco de memorias pregressas", sem exigir uma sucessividade temporal, passo a passo, como na "regressão cronológica".

Para esse tipo de regressão, propomos o nome de "regressão cronotópica". Resumindo o que acabamos de expor, temos então dois tipos de regressão de memória: "regressão cronológica" e "regressão cronotópica". Ambas podem consistir apenas em uma rememoração pura e simples, ou em uma revivescência vigílica ou onírica e, em certas circunstâncias, inconsciente. Há casos em que as lembranças podem ser acompanhadas de sintomas fisiológicos, marcas externas visíveis, ou mudanças profundas de comportamento e até de estado de consciência. (...)

(...) Ligando a face cortada superior (correspondente ao corpo astral), com a face cortada inferior (corpo vital), e atravessando a fina camada de suco, há os campos responsáveis pela coesão molecular. Estes representariam, em seu conjunto, a alma (vera-efígie biomagnética do soma) .

A região compreendida entre a face superior e a face inferior superpostas (astral e vital) seria equivalente ao perispírito. Teríamos assim, conforme ensinou-nos Allan Kardec: a alma (ou Espírito encarnado), o perispírito e o corpo.

Em todos eles podemos assinalar os contornos das camadas reencarnatórias pregressas. E, em cada camada, encontraremos toda a sua história pretérita, inclusive as origens arcaicas da zona embriofetal, onde se resume ontologicamente a evolução filogenética (evolução da espécie, ou então, do filum).

A cúpula, repositório-síntese das experiências intelectuais, morais e psíquicas de todas as reencarnações do Espírito, esta figurada pela fração superior da cebola cortada.

O corpo astral (face superior) tem a sucedê-lo, na direção positiva do eixo OT' as camadas formando a "cúpula". Esta é representada pela calota superior do bolbo seccionado. Semelhante zona corresponde à parte divina do Espírito. B a sede da superconsciência, a qual, segundo Franz Volgyesi (El Alma es Io Todo),"ultrapassa a experiência da raça e da espécie; abarca o tempo (presente, passado e futuro) e o espaço, numa unidade que vai além das possibilidades humanas comuns".

Esta região do Espírito é também acessível à consciência durante seus estados alterados. Ela se manifesta sob variadas formas: inspiração, intuição, censura, lampejos de genialidade, experiências místicas, "samadi", "satori", etc. É a fonte de onde dimanam as idéias profundas, as criações artísticas, as descobertas cïentíficas teóricas e todas as demais manifestações superiores da mente humana.

Na cúpula devem encontrar-se os fundamentos das premonições e profecias, pois, relativamente à "cota de tempo" ocupada pelo corpo físico, ela se projeta em direção ao futuro. Devido a este fato, achamo-nos parcialmente "mergulhados" no futuro, percebendo-o inconsciente e extra-sensorialmente até onde a cúpula permite alcançar. Quando alguma dessas informações se extravasa para a nossa percepção sensorial durante os estados alterados de consciência, diz-se que tivemos uma precognição.

É possível o acesso aos conteúdos cognitivos da cúpula. Um dos métodos seria provocar-se uma "progressão cronológica", por meio de processos hipnóticos, do mesmo modo como se produz a "regressão". O outro método seria a prática usual da meditação. Quando um artista, um técnico ou um cientista exerce grande esforço intelectual para criar uma obra, alcançar uma idéia, ou resolver um problema, normalmente está executando uma operação de contacto e intercâmbio com a cúpula. O mesmo se dá com o místico que, através da cúpula, se põe em comunhão com os planos superiores da Espiritualidade.

Parece que uma das finalidades das experiências reencarnatorias é desenvolver a cúpula espiritual a um ponto tal que se torne desnecessário o retorno do Espírito à vida física corpórea. Daí em diante, a evolução se faria partir da cúpula. (...)

17 - Palingênese, a grande lei - Jorge Andréa - pág. 140

Os Alicerces da Palíngênese.
A idéia palingenética que atravessou a humanidade com todos os matizes das respectivas épocas, nos dias de hoje desloca-se francamente da filosofia, em busca dos capítulos da biologia. Acreditamos, mesmo, que esse será o caminho pela necessidade lógica de explicar hoje muitos fenômenos da vida. É claro que essas idéias se estribam nas judiciosas pesquisas e experimentos de Crookes, Mayer, Hodgson, Geley, Scherenk-Notzing, Delanne, Flammarion, Osty, Bozzano e muitos outros.

Vilela em seu livro "O destino humano", disse que "... a doutrina palingenética tem um poder de síntese tão maravilhoso que equilibra o sentimento e a razão numa harmonia superior. Ela impõe-se ao nosso espírito com a lucidez imperiosa dum axioma e a intuição profunda — visão divina — que o pensamento não sabe modelar, nem a palavra pode" traduzir. Essa demonstração encontra-se cada um dentro de si".

A palingênese, pela lógica que encerra, é de grande aceitação nos dias de hoje, quando a compreensão humana atinge horizontes mais amplos. Uma ideia que suporta milénios, e fazendo parte das civilizações mais antigas da terra, e penetrando intelectualidades de elite, tem que possuir em sua essência um estofo de perfeição e poderosos alicerces com algo interessante e real. Isto, seria tão racional, tão pleno de lógica, praticamente respondendo por uma prova dentro do campo filosófico.

A palingênese é assunto tão antigo que as várias civilizações reconheciam-na como verdade, não só nos setores da religião, mas também da filosofia. Nos papéis dos egípcios as vidas sucessivas representam assunto costumeiro. Nos Upanichads e no Bhagavad Gitã são alicerces do pensamento. Herodoto, em suas descrições, tratava o assunto com familiaridade Os essênios, os chineses e japoneses, os escandinavos e os germanos, desde que se organizaram como povo, tinham a palingênese como natural e lógica.

Na Kabala e no Talmude, a ideia paligenética é baseada em seus conceitos religiosos. No próprio Alcorão e no Evangelho, a palingênese é assunto fartamente divulgado e perfeitamente compreensível. No Evangelho de João existe expressiva passagem (3:3) da visita de Jesus a Nicodemus: "Não pode ver o reino de Deus, senão aquele que renascer de novo". Mais adiante (3:7) "Não te maravilhes por eu te dizer: importa-vos nascer outra vez".

Os filósofos gregos de maior envergadura, inclusive a escola pitagórica, tinham a palingênese como verdade e conceito definido, único capaz de elevar as razões filosóficas do destino humano. Em Ovídio e Cícero o fenómeno reencarnatório é ventilado com naturalidade e razão pura. Os filósofos mais recentes como Hume, Leibnitz, Schelling, Schopenhauer, escritores como Goethe e todos os pensadores que no século passado construíram as bases do espiritualismo, com trabalhos de honesta comprovação, apoiam a palingênese, não só como fenómeno aceitável, mas, principalmente, como necessidade lógica

O fenômeno palingenético oferece condições que traduzem a evolução como infinita, sem privilégios, de conquista lenta e harmoniosa, sendo a dádiva de todos pelas aquisições adquiridas através os tempos. A palingênese é o único processo que assegura o porquê da imortalidade da alma, a razão da pluralidade das existências e dos mundos com suas imensas formas e moldes evolutivos. Com isso, em nosso planeta, alcança todos os reinos da natureza, com as nuanças que lhe são próprias. Do mineral ao vegetal e ao animal, a palingênese é a palavra uni-ficante e de ordem, única capaz de explicar a razão de ser da vida em seus multifaces aspectos. Disseram com muita justeza que o espírito acorda no mineral, sonha no vegetal, desperta os instintos no animal e adquire razão no hominal.

Somente a palingênese poderia explicar o desequilíbrio e divergênica das condições dos nascimentos, com toda a sequência de fatos sociais que se impõem. Todo ser será justificado em face das suas próprias obras. As experiências, realizações, emoções positivas ou negativas, faltas, tudo enfim repercutirá no próprio EU.

O resultado estará ligado à conduta de cada um e para que a evolução se positive, só o trabalho e esforço tem sentido e significado reais. Não importa como uma bandeira religiosa possa oferecer a salvação; esta representa, exclusivamente, a aquisição de cada um nas realizações e cumprimento de deveres. O aspecto externo, o que aparenta, o que se diz e afirma, nada representa em face do que se faz e do que se constrói e cria.

A desigualdade dos seres só poderá ser explicada como escala evolutiva e todos, sem privilégios nem ex-ceções, passarão pêlos mesmos roteiros e oportunidades, não importando a época, porquanto a eternidade não poderá ser medida nem avaliada com a nossa mente finita; só haverá sentido nas obras criadas e realizadas. Quem nada fez, ou trabalhou com potências negativas, continuará rastejando, aguardando as realizações e su-plantações de todas as condições do plano onde se encontra. A evolução de cada ser, em busca de um ideal, só poderá existir com a divergência de degraus evolutivos

— Os que ensinam e administram encontram-se ao lado dos que obedecem; estes, por sua vez, serão os orientadores do porvir. Da zona espiritual aos neurônios da zona consciencial, portanto dos núcleos em potenciação aos centros cerebrais, existiriam as necessárias informações e influências para que o indivíduo encarnado pudesse desenvolver, no sentido de melhora, os instintos adquiridos e, cada vez mais, ampliar positivamente, por absorção, os seus vórtices espirituais. Apesar de tudo, essa influência interna oriunda do Espírito não daria absolutamente, à zona consciencial, a lembrança de suas atividades.

O esquecimento pregresso do encarnado, este bem maior da vida, seria um véu equilibrante evitando as naturais desarmonias se participássemos de outras vivências; nossa atual cerebração não suportaria tamanha carga de emoções impedindo novas construções psicológicas.

Isto porque, no estágio evolutivo de nível inferior em que nos encontramos ainda, este proceder é praticamente um bem, uma proteção, pela nossa capacidade de avaliação dos horizontes e alcances da vida. Todas as atividades têm consequências e os esquecimentos temporários determinados pelas vivências nas personalidades, longe de serem interpretados como fator negativo, reforçam e sustentam a moral palingenética.

Vem corroborar, no caráter moral da questão, as divergências nas aptidões humanas, onde anotamos casos de génios precoces, cuja única explicação seria a continuação de condições adquiridas em etapas anteriores, jamais como resultado direto da herança cromos-sômica. Se a herança fosse exclusivamente resultado do jogo cromossomial paterno e materno, os génios, os gran dês dotados de aptidões, seriam aqueles que apresentariam um sentido prolífico maior.

No caso, a natureza possuiria o esquema de suas defesas, os mecanismos para que a evolução se afirmasse, cada vez mais, protegendo o que fosse melhor. Assim, os inteligentes, os artistas, os mais capacitados seriam os vanguardeiros da procriação, o que realmente não acontece. Os mais prolíficos são os menos dotados. Isto seria contrário ao sapiente e conhecido poder do aproveitamento da evolução.

Ainda nessas mesmas ideias, os jovens são os que possuem melhores condições procriativas em comparação com os mais velhos. Entretanto, os mais velhos apresentam melhores aptidões, até mesmo em dose superlativa em comparação com os jovens, na herança dos caracteres psicológicos, intelectuais e experiências morais. A evolução terá que se valer e aproveitar outros mecanismos, outros caminhos seguros, a fim de conservar seus valores; a chave explicativa estaria na palingênese, onde não haverá perda, por menor que seja, no precessamento da herança.

Mozart, aos 4 anos, executa sonatas e aos 11 anos torna-se compositor. Miguel Angelo, aos 8 anos, foi dado como completo na arte da pintura pelo seu mestre. Pascal, aos 13 anos, já era conhecido matemático e geômetra. Victor Hugo revelou-se, literariamente, aos 13 anos. Listz, menino ainda, já era considerado grande intérprete da música; aos 14 anos havia produzido uma pequena ópera. Hermógenes, aos 15 anos, ensinava retórica a Marco Aurélio. Leibnitz, aos 8 anos, conhecia o latim sem mestre e, aos 12, grego. Gauss resolvia, aos 3 anos, alguns problemas de matemática.

Giotto, criança ainda, traçava esboços plenos de arte e beleza, e Rembrandt já era pintor antes de aprender a ler. Aos 10 anos Pie de Ia Mirandola, era respeitado pêlos conhecimentos que possuía do latim, do grego, do hebraico e do árabe. Trom-betti, que conhecia perto de 300 línguas, entre dialetos e idiomas, aos 12 anos manuseava com facilidade o alemão, francês, latim, grego e hebraico. Van de Kefkhore, falecido aos 11 anos, deixou 350 quadros dignos de apreciação artística. O talento musical de Beethoven fora reconhecido aos 10 anos. Pepito de Ariola, aos 4 anos, tocava áreas com maestria e foi objeto de estudo pelo professor Richet.

A prova científica é o marco de que não podemos prescindir jamais, porque a palingênese explica todas as dúvidas biológicas e, mais do que isto, amplia os conceitos e dá um sentido harmonioso às questões científicas. Dizia Geley que a palingênese é provavelmente um fenómeno verdadeiro: 1) está de acordo com todos os nossos conhecimentos científicos atuais e sem contradizer nenhum deles; 2) dá a chave de uma variedade imensa de enigmas psicológicos; 3) está apoiada em demonstração positiva.

Se colocarmos o fenómeno palingenético no mecanismo evolutivo, a vida passa a nos dar um sentido de grandeza e finalidade. À aquisição do espírito humano deve representar a elaboração de milhões de milénios em experiências variadas e desconhecidas, não ficando fora do quadro as vivências nos minerais, nos vegetais e animais. "O homem e o seu cérebro atual não representam o remate da evolução, mas um estágio intermediário entre o passado, carregado de recordações animais, e o futuro, rico de promessas mais altas. Tal é o destino humano (Leconte de Nouy)".

A prova científico-experimental da palingênese, a de maior importância, teria um aspecto duplo. O primeiro, ligado à fenomenologia mediúnica com todas suas nuanças, cujos relatos e estudos os psicologistas e biologistas não tem o direito de desconhecer. Hoje, os fatos, mediúnicos estão sendo revisados e mais bem adaptados aos conhecimentos hodiernos em virtude, principalmente, da queda que os audaciosos postulados materialistas tem sofrido com a apresentação da matéria como energia concentrada. Os fatos e manifestações mediúnicas estão fartamente registrados por toda história dos povos que constituíram civilizações.

Em nossa épcca da história contemporânea, Allan Kardec, o sistematizador, em cuidadosos estudos, oferece à humanidade o significado integral da mediunidade. William James, pai da pragmática, concita aos investigadores à verificação de fatos e relatos dignos de fé. O professor Ochorowicz, da Universidade de Lemberg, rendeu-se diante os estudos e experiências sobre materializações realizados por William Crookes, os quais combatia fervorosamente. Masucci e Wallace ficam vencidos diante as realidades da vida espiritual. César Lombroso aceita a imortalidade, com a palingênese, após longas e minuciosas experiências.

O segundo aspecto da prova experimental, foi-nos dado com o valioso auxílio da hipnose, no campo ainda pouco explorado das regressões de memória, porém consolidado com organizadas e detalhadas experiências de vários pesquisadores. A regressão de memória, utilizada com valor científico pela hipnose, foi consequência das observações de pacientes que reviviam, espontaneamente, cenas e quadros pretéritas, devidamente cpmprovados, fenómeno esse denominado por Pitres de ecmnésia.

Com esse acervo de fatos, nasce a pesquisa de regressão de memória, atingindo etapas palingenéticas pretéritas, com auxílio da hipnose, cabendo como citação primeira as experiências de Fernando Colavida, em 1887. Flournoy, professor de psicologia em Genebra, deu interessantes contribuições aos estudos em apreço. Charles Lancelin, Cor-nillier, Leon Denis, comprovam os fatos e aumentam a causuística. Pierre Janet estuda a fenomenologia e refere fatos de interesse, embora combatendo-os.

Albert de Rochas, fazendo experiências sobre a exteriorização da motricidade e sensibilidade, penetrou o terreno das regressões de memória, onde catalogou, de 1892 a 1910, 19 casos. Suas pesquisas não estão fora de crítica e podemos mesmo asseverar que os seus casos, apesar do critério científico desenvolvido, não podem ser enquadrados cientificamente por falta de melhores dados. O problema da regressão de memória, perfeitamente comprovado, não está eivado de dificuldades nem erros de interpretação, onde certos e determinados pacientes, possuidores das qualidades de criptestesia e clarividência, podem absorver pensamentos de outras pessoas presentes ou ressuscitar cenas e quadros, se condições de psicometria forem evidentes.

Gabriel Delanne, com apuro científico, retraía bem o ângulo das dificuldades neste setor: 'Somos obrigados, nestas pesquisas, a estar em guarda, em primeiro lugar, contra uma simulação sempre possível, se temos que lidar com indivíduos profissionais; em segundo lugar, mesmo com sonâmbulos perfeitamente honestos, convém desconfiar de sua imaginação, que corre muitas vezes livremente, forjando histórias mais ou menos verídicas, a que o professor Flournoy deu o nome de romances subliminais. Essa espécie de personificação de indivíduos imaginários foram frequentemente produzidas, entre outros, pelo professor Richet, que as designou com o nome de objetivação de tipos; sabemos que, por auto-sugestão, é possível a um paciente, mergulhado naquele estado, imaginar-se tal ou qual personagem e compô-lo com tão grande luxo de atitudes, que pareceria estarmos realmente diante de uma individualidade verdadeira".

Apesar disso, não podemos deixar de dar o valor experimental e científico de alguns casos que traduzem perfeitamente essas ideias. Nesse grupo podemos incluir os experimentos de Flournoy, professor de psicologia em Genebra, com a médium Helena Smith, donde obteve provas inconcussas da reencarnação pela regressão de memória; os experimentos de Russel Davis, o caso de Laura Raynaud relatado pelo Dr. Gaston Durville, de Katherine Bates e da senhora Spapleton, citados, ao lado de muitos outros, por Leon Denis. Deixaremos de relatar casos similares de outros observadores por não apresentarem provas satisfatórias. Em nossos estudos de hipnose experimental e terapêutica temos tido comprovação de fatos dessa natureza.

Estamos pesquisando e tentando aperfeiçoar os métodos e condutas antigas, com finalidade de apreciarmos, nas regressões, melhor penetração nas zonas profundas do inconsciente ou zona espiritual sem as costumeiras interferências, motivos de erróneas interpretações, muito comuns nos sujet "mal preparados" por hipnoses sem ajustada direção. Nossos estudos, por enquanto, estão em fase inicial, sem os alicerces que desejamos, e a título ilustrativo transcreveremos uma de nossas observações correspondendo a uma das fases de nosso trabalho em 1964: A. M. branco, 38 anos de idade, casado, comerciário. Tem 2 filhos sadios. Cônjuge também sadio.

Há 5 anos vem apresentando crises alérgicas, caracterizadas por rinite e prurido cutâneo de intensidade média. O prurido, comumente, desencadeia-se pelo calor, acompanhando placas urticariformes. A rinite persiste em qualquer situação, com maior ou menor intensidade. Esses sintomas alérgicos diminuem e quase desaparecem nos dias que se sucedem ao trabalho mediúnico que desenvolve, semanalmente. Consideremos, também, que as manifestações alérgicas respondem bem com o uso de antialérgicos comuns, embora, com a supressão da medicação novamente se instalem.

Nada digno de registro para o lado dos órgãos e aparelhos em geral.
Pressão arterial: Mx= 130 Mn= 80
Exames de sangue e ur.ina nos limites da normalidade.
Tipo psicológico: Extrovertido normal.

O paciente possui intensa labilidade do sistema neuro-vegetativo que, no nosso entender, explica o afloramento da sintomatologia alérgica e, principalmente, a sensibilidade mediúnica de que é portador. Os seus trabalhos mediúnicos vêem se desenvolvendo há dois anos, em sessões semanais, cujos detalhes e mecanismos tem sido avaliado de modo acurado.

No caso em parfcular, sentimos que a hipnose seria um método valioso, pela possibilidade de exteriorização de energias da organização espiritual, a fim de melhorar os costumeiros deságues dessas energias pelo sistema neuro-vegetativo, como vem acontecendo ao paciente, sob forma de sintomas alérgicos (nossa interpretação) . Temos observado que a labilidade do sistema neuro-vegetativo encontra no trabalho mediúnico bem orientado, verdadeiro campo de equilíbrio. Mais ainda, o harmonizado e bem conduzido campo da mediunidade, poderá suplantar manifestações de energias des-toantes desencadeadas pelo psiquismo profundo.

Aos primeiros sinais de hipnose com o observado, encontramos grande facilidade de aplicação do método, por ser ótimo sujet; a nosso ver, em virtude de sua sensibilidade mediúnica. Na 3^ sessão hipnótica já havia penetração segura na zona inconsciente ou espiritual e, no desenvolver do processo, todos os passos foram positivos, sem falha sequer de algum deles.

A positividade de todos os passos hipnóticos, que por si só nos dá condições de uma hipnose segura e profunda, permitiu que lançássemos mão do processo de regressão de memória, onde haveria possibilidade de boa catarse mental, realmente realizada pelo próprio paciente e de acordo com suas normas psicológicas, sem violações de qualquer natureza.

Nesta situação, o realizador do método (o hipno-tista) apenas orienta o processo e a conduta para que o Censor — zonas energéticas de defesa na região espiritual — desperte o mecanismo de exteriorização de energias necessitadas de expansão, retidas e contidas nos arquivos da alma. Quando essas energias, como que comprimidas, não encontram deságues normais em suas manifestações, tentam a exteriorização, de forma desarmônica e desordenada, através da tela consciencial e corpo físico, sob a forma costumeira de sintomas patológicos.

Com isso, podemos explicar o aparecimento, sem causa justificada, de inúmeros sintomas e quadros clínicos mentais, muitas vezes renitentes e inexoráveis. As sessões de hipnose foram semanais, obedecendo a um ritmo ajustado, para que, em cada novo encontro, fôssemos apagando as naturais resistências com sugestões construtivas e preparando a zona consciente na recepção de energias dormitantes e vividas, sem fixação das emoções dessas vivências pretéritas.

Eis como se desenvolveu o método, embora não esteja ainda concluído o trabalho de pesquisa que desejamos alcançar. Os passos hipnóticos foram anotados e avaliados por sinais: uma cruz= levemente positivo; duas cru-zes= regularmente positivo; três cruzes= positividade integral. Não faremos comentário dos respectivos passos hipnóticos e as razões da conduta utilizada, por não haver interesse imediato nesta descrição:

1ª Sessão — Início do processo hipnótico: relaxação hipnoidéia com exposição do método e sua finalidade construtiva.
— Catalepsia das pálpebras: xxx
— Catalepsia braquial: xxx
- Relaxamento profundo e inibição dos movimentos voluntários: xxx
- Movimentos automáticos: xxx
- Indução do sono: xxx
- Fenômeno da anestesia: xxx
- Sinal hipnogênico - despertar - novo sono com sinal hipnogênico: xxx
- Amnésia leve: x
- Despertar com sugestões construtivas. Paciente com ótima disposição.
- Duração da sessão: 40'. (...)

21 - Saúde e Espiritismo - A.M.E. Brasil - pág. 99, 138, 169, 263

Regressão de Memória e Traumas da Vida - Intra-Uterina
Consequências - Juliane Prieto Peres * e Maria Júlio, Prieto Peres ***( Psicóloga clínica especializada em TRVP. Membro didata do Instituto Nacional de Terapia de Vivências Passadas. Cursos deformação em TVP no INTVP, com Maria Julia Peres no Brasil, com Moriris Nederton, RogerVuger, Edite Fiore e outros. Tem ministrado cursos de TRVP em vários Estados do Brasil, em Lisboa e Porto. Curso de especialização em Arte Terapia pela Faculdade de Artes Plásticas de São Paulo. Cursos de Hipnose com Ernest Rossi. Cursos de Programação Neurolingüistica pelo Instituto de Comunicações Neurolingüísticas. Trabalho Espírita na área mediúnica, pedagógica e assistencial).

A Terapia Regressiva Vivencial Peres, (TRVP) ou Terapia Regressiva a Vivências Passadas - Técnica Peres foi sistematizada pela médica Maria Júlia Pereira de Moraes Prieto Peres em mais de 15 anos de experiência no assunto, quando além do aprendizado no trabalho pessoal com seus clientes, contou com a colaboração de sugestões e críticas construtivas de colegas, com leituras constantes em bibliografia internacional e viagens para fins didáticos, mantendo-se em constante atualização.

Essa técnica diferencia-se das demais por atender somente a objetivos terapêuticos, não satisfazendo, portanto, curiosidades pessoais. E, como uma psicoterapia, mantém neutralidade na área religiosa, respeitando a interpretação que o paciente faz em relação ao conteúdo aflorado na vivência, e trabalhando essa vivência segundo as crenças do paciente.

Na TRVP, as sessões têm sempre a duração de duas horas. Após uma cuidadosa entrevista inicial, se for indicada a aplicação da TRVP, o terapeuta procede às sessões de anamnese, quando há um extenso e minucioso levantamento de toda sua história. Somente então as suas sessões de regressão são iniciadas. Em uma sessão de regressão, o processo se inicia pela indução a estado modificado de consciência, através do relaxamento físico e mental do paciente. Faz a conexão com o inconsciente, detectando traumas do passado que constituem a etiologia de seu problema atual.

Em uma situação traumática, muitas vezes a mente faz um registro distorcido da realidade. Ela grava determinado padrão de comportamento e passa a repeti-lo, numa tentativa de se defender da possibilidade de passar novamento por aquele trauma. O indivíduo vai se acostumando, se habituando a fazer isso, até que chega em um ponto que não se lembra mais quando criou esse padrão, como e porque o está repetindo. Só tem consciência de seu problema, que se manifesta através de sintomas e características especiais.

Através das vivências da regressão de memória (TRVP), a pessoa tem a oportunidade de se conscientizar daqueles traumas do passado que lhe causaram o problema atual. Ela revivencia aquele fato traumático, liberando o conteúdo emocional e organo-sensorial correspondente, extravasando e se distanciando daquela emoção, através de uma catarse integrativa.

Após todas as vivências da regressão de uma sessão de regressão, obtém-se do paciente o momento mais traumático, em que se estabeleceu uma decisão de vida (padrão negativo de comportamento), que está causando desajustes atuais. Nesse momento, o paciente tem a chance de modificar esse registro negativo que vem repetindo, criando uma redecisão com propostas de respostas mais adequadas para a auto-resolução de seus conflitos.

Essa técnica introduz a desprogramação das emoções vinculadas às lembranças traumáticas, e a programação positiva, que reforça a substituição dos pensamentos, sentimentos e sensações traumáticas por padrões mais saudáveis, baseados em sua redecisão. Segue-se o retorno, pelo qual o paciente é conscientizado de sua situação no tempo e no espaço, no aqui e agora (nome, data e local da sessão) e de seu estado de vigília. Em seguida, há a finalização, quando o cliente é incentivado a permanecer em profundo equilíbrio emocional e mental.

Em sessão subsequente, o terapeuta trabalha com o paciente integrando-o e elabora o conteúdo aflorado em regressão, conduzindo-o a refletir sobre analogias entre os traumas vivenciados e o problema que está em pauta. Trabalha os recursos do paciente para desenvolver os primeiros passos práticos, comportamentais, no sentido de sua transformação, utilizando-se dos intrumentos adquiridos na vivência regressiva. É preciso aprender a lidar com essa ferramenta nova e isso exige um treinamento para levar à prática, ao hábito desse novo comportamento.

Muitas vezes, o padrão negativo, que está gerando o problema, vem sendo repetido há muito tempo, estando enraizado. Essa mudança é árdua e exige um investimento intenso, através da vontade e do trabalho diário do paciente consigo mesmo, no sentido da autopercepção, exercício e utilização dos recursos adquiridos na vivência regressiva.

Essa técnica é vivenciada e explicada nos Cursos de Formação e Especialização em TRVP, que constam de 16 módulos teóricos e prático-vivenciais, em que todos os participantes, somente médicos e psicólogos, passam por experiências de terapeuta, paciente, observador, relator, assistente e questionador dos processos regressivos ocorridos durante o curso.

A Terapia Regressiva a Vivências Passadas ou Terapia Vivencial Peres trabalha com lembranças traumáticas de algum período do passado, que pode referir-se a um fato traumático ocorrido na semana passada, ano passado, adolescência, infância, nascimento, vida intra-uterina, concepção ou um conteúdo que, segundo o modelo reencarnatório, pode ser focalizado como em vidas passadas. Esse conteúdo pode ser considerado como uma manifestação do inconsciente e como tal tem um sentido e uma relação com o problema trabalhado. Existem, também, muitos outros modelos explicativos para a regressão da memória.

REGRESSÃO ÁVIDA INTRA-UTERINA

O assunto aqui tratado é especificamente a regressão à Vida Intra-Uterina (VIU), ou seja, quando um trauma de VIU origina um problema, uma dificuldade, um transtorno futuro, mais, ou quando este trauma é um evento reforçador de um problema já existente. A criança antes do nascimento é um ser dotado de sentimentos, de lembranças e de consciência, portanto, tudo o que lhe acontece nos nove meses de gestação tem grande importância na formação e na estruturação da personalidade.

O feto pode ver (sensibilidade à luz), ouvir, degustar, entender e aprender num nível primitivo. Ele é capaz de manifestar sentimentos menos elaborados que os adultos, mas bem reais. Ele pode acionar uma ou outra tendência, conforme as mensagens que recebe no útero (que, de alguma forma vão sendo moldadas). A principal fonte dessas mensagens é a mãe. O feto capta os pensamentos, sentimentos e sensações da mãe, que interferem de modo significativo em sua forma de ser.

Pesquisadores como os médicos Thomas Verny, Dominik Purpura, David Chamberlain Stanislaw Grof, e outros, descobriram que existe uma ligação intra-uterina muito complexa, gradativa e sutil quanto à estrutura racional que se estabelece após o nascimento. A ligação entre mãe e filho, que se estabelece após o nascimento, é o desenvolvimento e a consequência do que a precedeu.

Existe uma comunicação fisiológica, psicológica e extra-sensorial entre mãe e feto. As perturbações do bebê são provocadas tanto pelas consequências psicológicas quanto pelas consequências físicas da ansiedade, depressão, aflições, medo e estresse. O que traz uma repercussão mais profunda na criança não são as preocupações menores da mãe, mas uma ansiedade crônica ou uma ambivalência perturbadora dos pensamentos e dos sentimentos em relação à maternidade. Por exemplo, um sentimento negativo, intenso e duradouro de rejeição à criança pode deixar uma cicatriz profunda.

Perdas afetivas, mortes, separações, choques emocionais, grandes catástrofes, acidentes, agressões etc., podem gerar desajustes emocionais no paciente, que variam de acordo com a forma e com a intensidade com que ele registrou aquele fato traumático. Podem ainda esgotar as reservas emocionais da mulher grávida a ponto de torná-la incapaz de se comunicar com o filho que carrega. E ele percebe isso.

No ambiente familiar, o pai também tem influência muito importante sobre o feto. O estresse do pai, por exemplo, tem uma repercussão direta sobre o filho em formação, e também Indireta através da mãe. Uma discussão entre os pais, e o desajuste familiar, também podem perturbar intensamente o ser que está no útero materno.

Traumas em Vida Intra-uterina, dependendo das heranças que aquele ser traz, podem gerar diferentes transtornos futuros como: insegurança, dificuldade de relacionamento, transtornos depressivos, transtornos ansiosos (na tentativa de satisfazer o outro para ser amado), personalidade dependente etc.

O feto tem necessidades intelectuais e afetivas mais primitivas que as nossas, mas que realmente existem, como as de querer se sentir amado e desejado. Esse sentimento tem uma repercussão importante na segurança e auto-confïança. Emoções positivas de alegria e espera contribuem de maneira importante no desenvolvimento afetivo da criança sadia. Se considerarmos o modelo reencarnatório, que é apenas um dos modelos explicativos da regressão da memória, podemos perceber que essa criança apresenta um passado muitas vezes tumultuado com esta família, trazendo vivências de inimizade. Esse passado pode ser mais ou menos aflorado dependendo dos estímulos por ela vivenciados.

A criança dentro do útero pode manifestar um comportamento de rejeição em relação à mãe, como resposta a um sentimento de rejeição da mãe em relação a ela. Ou a criança pode manifestar um sentimento espontâneo de rejeição àquela mãe, aquela família, àquela condição financeira, cultural, social, racial, sentimento este que pode levar a desânimo, tristeza, falta de motivação, revolta, depressão, insegurança, ansiedade, dificuldade de relacionamento em geral ou especificamente entre mãe e filho.

COMO ACONTECE ESSA COMUNICAÇÃO?

A criança percebe uma ação ou pensamento da mãe e seu cérebro transforma isso imediatamente em uma emoção e comanda o seu corpo a um conjunto de reações. Se a mãe sente medo, ansiedade, depressão ou estresse, ela desencadeia uma descarga hormonal, que se for intensa e contínua, pode trazer nessa criança uma predisposição a esse sentimento. Se a atenção da mãe está completamente absorvida pela sua tristeza, por uma perda e se ela se fecha em si mesma, é provável que sua criança sofra profundamente. O feto não dispõe de recursos suficientes para tolerar essa sobrecarga.

Um consumo excessivo de tabaco, álcool e de medicamentos, ingestão excessiva de alimentos ou privação alimentar, insônia ou hipersônia também são formas de comunicação materna, que prejudica fisicamente o feto e, emocionalmente, traduzem de modo indireto a sua ansiedade. Mesmo sem estar em perigo, no momento em que o feto percebe a aflição materna, ele pode reagir com vigorosos pontapés. O feto reage diante do crescimento da taxa de adrenalina produzida pela mãe e em "solidariedade" à aflição da mãe.

Portanto, a ameaça mais grave ao feto é a reação emocional da mãe a longo prazo e quando suas necessidades físicas ou psicológicas são ignoradas. Ele não exige nada de extraordinário, tudo o que quer é um pouco de amor e de atenção, e quando os obtém, tudo o mais, mesmo a formação da ligação com sua mãe, acontece automaticamente.

A formação da ligação entre mãe e feto exige tempo, amor e compreensão para que ela exista e funcione de maneira satisfatória. A criança antes do nascimento possui recursos resistentes para fazer durar uma emoção materna. Mas ela não pode se comunicar sozinha. Se a mãe bloqueia a comunicação afetiva, ela fica desamparada.

Segundo a medicina tradicional, a criança, antes de dois anos, é incapaz de ter lembranças porque seu sistema nervoso não está completamente mielinizado (a mielina é uma substância que envolve a fibra nervosa) e não pode assim transmitir mensagens. Porém, pesquisadores descobriram que a falta de mielina retarda a condução de impulsos nervosos, mas não os impede de passar.

Também a psiquiatria tradicional afirmava que a criança antes de dois anos era incapaz de pensar. Porém, hoje sabemos que mesmo antes do nascimento, os esquemas de memória estão delineados e que eles seguem modelos reconhecíveis. Nesse estágio, o cérebro da criança e seu sistema nervoso estão suficientemente desenvolvidos para que isso seja possível, e o fato de a lembrança desse período ter uma forma e um contorno identificáveis, que pode ser acionada através da regressão de memória, vem confirmar a hipótese de que antes do nascimento o cérebro já tem um funcionamento semelhante ao adulto.

No fim da décima segunda semana, o feto está inteiramente formado e nesse período aparecem os primeiros sinais da ativldade cerebral. A partir do terceiro trimestre de gestação, o cérebro já tem um funcionamento semelhante ao do adulto. A partir do sexto mês após a concepção, o sistema nervoso central da criança é capaz de receber, tratar e codificar as mensagens; a memória neurológica já está funcionando.

Muitas lembranças escapam à memória voluntária, talvez pelo processo em que intervém o neuropolipeptídeo ocitocina, produzida pelas mulheres no momento do parto, e que controlam o ritmo das contrações do útero nessa ocasião e fluem para a circulação da criança. A ocitocina produzida em grande quantidade provoca a amnésia em animais de laboratório. Talvez essa possa ser uma explicação para as lembranças anteriores desaparecerem durante o nascimento.

A capacidade de recuperar essas memórias de vida intra-uterina, mais tarde, está ligada à produção de hormônio adreno-corticotropina ou ACTH, que ajuda a fixar as lembranças. Quando uma mulher grávida ou que está dando à luz se sente tensa, sofre pressão ou medo, libera hormônios do estresse (cortizol), e a substância que regula seu fluxo é o ACTH, como acontece em qualquer pessoa que sinta medo ou ansiedade. A gestante nessa situação libera muito hormônio que chega à circulação sanguínea da criança e ajuda a conservar uma imagem mental do sentimento de sua mãe e seus efeitos sobre si.

No processo de Terapia Regressiva Vivencial Peres trabalha-se com um tema de cada vez, com uma série de regressões focalizando esse tema, nos diferentes períodos de vida do paciente. Entre uma regressão e outra, trabalha-se aquele conteúdo que aflorou na regressão, com o objetivo de conduzir o paciente e elaborá-lo. Essas sessões de elaboração e integração tem extrema importância para o paciente poder aproveitar da melhor forma possível aquela vivência, e utilizá-la em seu dia-a-dia na solução de seus problemas fazendo a relação entre os pensamentos, sentimentos, sensações e comportamentos vivenciados na regressão com suas características atuais.

Nessa série de regressões, é importante focalizar alguns períodos de vida, significativos, como idade adulta, adolescência, infância, nascimento, vida intra-uterina e supostas vidas passadas; momentos importantes em que a pessoa pode ter criado um padrão de comportamento negativo ou pode ter reforçado um padrão que já existia. Então, a vida intra-uterina sempre será vivenciada em regressão, em cada problema que o paciente trabalhar.

Existem algumas fases importantes no período gestacional, como: momentos e circunstâncias que precedem a concepção; suspeita da gravidez e confirmação da gravidez; período subsequente da gestação; momentos que precedem o nascimento.
Exemplos clínicos de regressão à VIU.

1) E.EG. Mulher, 40 anos, solteira, engenheira. Queixa-se de depressão desde a adolescência. Sua mãe havia tido um aborto espontâneo, seis meses antes de engravidar dela. Parto difícil e demorado, quando a mãe sente medo e desespero. Paciente com dificuldade de relacionamento afetivo com os homens porque não aceitava-se como mulher. Dificuldade de relacionamento com a mãe, por sentir-se rejeitada por ela, e rejeitá-la também.

Tema: Depressão
Vivências regressivas: Vivência sua mãe se contorcendo de dor, assustada. Sente-se como em um turbilhão. Vai se sentindo apertada. Sente que algo está dando errado. Sente-se fraca e com a respiração difícil. Tudo escuro. Mãe está com medo. A paciente diz que tem a impressão de estar cometendo suicídio. Tem um sentimento de fracasso. Mãe tem medo de engravidar. Sente vontade de ajudá-la a não ter medo, mas também tem um impulso de não querer nascer como mulher, porque acha que vai sofrer muito. Sente revolta contra essa condição e medo de enfrentar a vida num corpo feminino.

Não quer estar ali, sente-se contrariada. A paciente diz perceber que a mãe pressente que ela não quer estar ali e sente medo e insegurança. Diz que acha que transmite esses sentimentos para a mãe. Diz sentir provocar seu próprio abortamento, por não querer nascer, pelo medo de passar por todo sofrimento de novo; tem a sensação de fracasso e de culpa. Sente que aproveita o medo da mãe e provoca sensações desagradáveis no corpo dela, através de movimentos bruscos e desordenados, que fazem com que a mãe aumente seu medo. Percebe sua mãe sonhando com um parto mau sucedido e sente que esse sonho exerce influência sobre ela.

E, ao mesmo tempo, também sente medo. A mãe vai ficando perturbada, descontrolada emocionalmente, deixa de ter cuidados com o próprio corpo e acaba tendo um abordo espontâneo.
Momento mais traumático: Abortamento

Decisão: Eu me destruí. Sinto culpa por ter destruído essa chance.
Relação com o tema repressão: Não mereço viver. Sentimento de culpa e de fracasso.
Autopunição através da depressão.

Redecisão: Eu aceito, valorizo e agradeço pela minha vida.
Mais ou menos um terço dos abortos espontâneos são clinicamente inexplicáveis; a mãe tem boa saúde e é fisicamente capaz de carregar uma criança em seu útero, mas suas dificuldades são emocionais. O pesquisador T.Verny concluiu que o temor ou o sentimento de sua responsabilidade e o medo de pôr no mundo uma criança anormal aumentam, organicamente, o risco de aborto espontâneo.

Através da TRVP percebemos que a mãe pode provocar um aborto espontâneo inconscientemente, através da falta de cuidado físico e emoções desequilibradas. Uma parte da responsabilidade pela gravidez também é do feto, que garante o bom funcionamento endócrino da gravidez e desencadeia uma parte das inúmeras mudanças físicas, pelas quais passa o corpo da mãe, para assegurar seu desenvolvimento e sua alimentação antes do nascimento. Ele produz substâncias, contribuindo ativamente para sua sobrevivência.

Em outra regressão, essa paciente vivenciou novamente a vida intra-uterina, com a mesma mãe, agora na gestação da vida atual. Entrou em contato com uma sensação de que sempre deve estar alerta, porque tem a impressão de que vai acontecer alguma coisa ruim. A mãe sente medo de abortar novamente e a paciente, na vivência dentro do útero, sente medo de morrer antes de nascer e medo de se movimentar. Fica imóvel com medo de assustá-la. Sentimento de culpa por estar desencadeando mal-estar em sua mãe. Sensação de angústia como se tivesse perdido tempo.

Nessa vivência, surgiu um aspecto de depressão, medo, revolta, culpa. Sua depressão estava intimamente relacionada à revolta contra a própria vida, ou contra o próprio corpo feminino, situação financeira, cultura, raça etc., fazendo com que ela entrasse num processo de vitimização, sentimento de injustiça, desânimo, falta de motivação pela vida, tristeza. Essa paciente apresenta uma doença auto-imune, que pode ser melhor compreendida num processo de autopunição pela sua parcela de responsabilidade pelo aborto. Tinha também pesadelos, nos quais via-se girando num meio de um turbilhão.

Depois de esgotado o tema da depressão, essa mesma paciente trabalhou a dificuldade em aceitar-se como mulher e vivenciou em regressão um outro aspecto da vida intra-uterina: seus pais desejavam um filho do sexo masculino. Não queria decepcioná-los porque sabia que ela não era quem eles gostariam que fosse. Não queria nascer. Desenvolve então um padrão: "Vou ser forte como um homem para satisfazê-los, para conquistar o amor deles". Em algumas regressões anteriores, a paciente vivenciou cenas em que ela própria entendeu como, em vidas passadas, em que era um homem, fez sofrer muitas mulheres, tratando-as como um ser inferior.

2) H.I.J. Mulher, 48 anos, divorciada, empresária. Queixa-se de insegurança, manifestada por medos, há 17 anos. Tema: Insegurança
Vivências regressivas: Aos 2 meses. Mãe está tomando algo ruim para abortá-la, sente desconforto na garganta e no nariz. "Ë para eu morrer, eu não quero morrer". Sente a boca amarga. Percebe-se intoxicada fisicamente e pelo sentimento da mãe. Manifesta raiva da mãe por ela rejeitar sua gravidez. Depois sente alívio por não ter morrido.

Diz que identifica pensamentos do tipo: "o mundo é ruim". Percebe que a mãe está passando fome porque sente uma fraqueza, uma queda da sua vitalidade. Aos 3 meses. Sente que seu pai também quer matá-la. Pai bate na mãe e ela se percebe como se estivesse apanhando também. Apresenta dor no corpo e fica toda encolhida. Sente-se rejeitada.

Tem medo de nascer e continuar apanhando. "Tenho que ficar encolhida", "Tenho que ficar quieta". Quer dizer para o pai que ela quer viver e dá um chute. Diz sentir-se como se estivesse chorando por dentro, como se estivesse saindo a tristeza de dentro dela, através do seu coração. A mãe sente-se também rejeitada pelo pai.

Aos 4 meses. Chora. "Ninguém me quer". Encolhe-se toda. Mãe está triste e quer morrer. Ouve a mãe dizer: "O que eu fiz para merecer isso?" Mãe refere-se a dificuldades financeiras, desprezo de sua família, mas a paciente diz que sente como se referisse a ela. Sentimento de querer dar forças à mãe. Sente que precisa morrer. Momento mais trumático: Tentativa da mãe em provocar abortamento.

Decisão: "Se nem meus pais me querem, ninguém mais vai me querer. Não sou digna do amor de ninguém".

Redecisão: "Eu me valorizo e me aproximo das pessoas, com amor".
A paciente estava fixada no sentimento de vítima, acreditando que ninguém poderia querê-la; ela também afastava-se das pessoas e foi necessário em seu processo psicoterápico trazer a responsabilidade para ela mesma; para se tornar mais ativa, indo em direção às pessoas e melhorando sua auto-estima.

Seu sentimento de rejeição fazia com que nenhum afeto fosse suficiente, e fazia com que a paciente criasse uma defesa de também rejeitar os pais e sentir raiva deles. Ela apresentava um problema sério de relacionamento com os pais e com as pessoas em geral, pela insegurança, timidez e sentimento de incapacidade. Tinha uma personalidade independente por ter a auto-estima comprometida.
Após as sessões de regressão e da prática de suas redecisões, seus problemas foram plenamente solucionados.

CONCLUSÃO

Uma ligação intra-uterina sólida constitui a melhor proteção da criança contra os perigos do mundo externo. Através desses conhecimentos, mães e pais dispõem de uma oportunidade rica de participar da formação da personalidade de seu filho antes do nascimento, acionando suas tendências mais positivas, registrando nos níveis físico e espiritual, e incentivando nesse novo ser, sentimentos éticos de interesse e compreensão pelo outro, de trabalho e doação.
Fica clara a responsabilidade dos pais de estimularem intelectual e afetivamente o novo ser, desde o início de sua vida intra-uterina, contribuindo para desenvolver suas melhores tendências, ensinando sentimentos positivos, inibindo e diluindo as suas dificuldades.

23 - Vozes do Grande Além - Espíritos Diversos - pág. 170

40 - COMPANHEIRO DE REGRESSO
Não obstante residir no Rio de Janeiro, onde fazia parte do antigo "Grupo Regeneração", Antônio Sampaio Júnior era membro efetivo do "Grupo Meimei", desde a hora da fundação. Por duas a três vezes, anualmente, vinha a Pedro Leopoldo, reconfortando-nos com o seu apoio e com a sua presença. Era ele a personificação da fé viva, da generosidade, do bom humor. Infundia-nos coragem nas horas mais difíceis e esperança nos obstáculos mais duros.

Desencarnado subitamente, em outubro de 1955, deixou-nos as melhores recordações. Foi nosso abnegado e inesquecível Sampaio o amigo que compareceu no horário destinado à instrução, em nossa casa, na fase terminal da reunião, na noite de 22 de março de 1956, transmitindo-nos a confortadora mensagem que passamos a transcrever.

Meus amigos: Louvado seja Nosso Senhor Jesus-Cristo. Sou o Sampaio, de volta ao nosso grupo. Dou, de imediato, o meu cartão de visita para que o pensamento de vocês me ajude a falar com segurança. Reconheço-me ainda como o pássaro vacilante a arrastar-se fora do ninho, movimentando-me qual convalescente em recuperação depois de moléstia longa. Mesmo assim, venho agradecer-lhes as preces com que me ajudam.

Recebam todos o meu reconhecimento por essa dádiva de carinho, porque assim como, para apreciar verdadeiramente um remédio, é preciso haver sofrido uma enfermidade grave, para reconhecer, de fato, o valor de uma oração, é necessário haver deixado o corpo da Terra. Por outro lado, nossos Benfeitores permitiram amavelmente que eu lhes falasse, por haver prometido a mim mesmo trazer-lhes alguma notícia, depois da grande passagem.

Escusado será dizer que me lembrei dos irmãos de ideal na última hora... Não houve tempo, contudo, para qualquer recomendação. A morte arrebatou-me a vestimenta de carne, assim como a faísca elétrica derruba a árvore distraída. Quanto a dizer-lhes, porém, com franqueza, o que me sucedeu, devo afirmar-lhes que, por enquanto, me sinto tão ignorante do fenômeno da morte, assim como, quando estava junto de vocês, desconhecia totalmente o processo de meu nascimento na esfera física.

Creio mesmo que, em minhas atuais condições, guardar a lembrança de que sou o Sampaio já é demais...Posso, em razão disso, apenas notificar-lhes que acordei num leito muito limpo, acreditando-me em casa. O corpo não se modificara. Em minha imaginação, retomava a luta cotidiana em manhã vulgar... Mas quando vi minha mãe ao pé de mim, quando seus olhos me falaram sem palavras, ah! meus amigos, o meu deslumbramento deve ter sido igual ao do prisioneiro que se vê, repentinamente, transferido de um cárcere de trevas para a libertação em plena luz.

Graças a Deus, entendi tudo!... Abracei mãe Antoninha com as lágrimas felizes de uma criança que retorna ao colo materno... Rebentava em mim, naquela hora, uma saudade penosamente sofrida, com muito choro represado no coração. Que palavras da Terra descreveriam meu júbilo? Ainda nos braços de minha mãe, compreendi que o Espiritismo no caminho humano é assim como a alfabetização de nossa alma para a vida eterna, pois não precisei de argumento algum para qualquer explicação a mim mesmo.

Entretanto, cessada que foi aquela primeira explosão de alegria, recordei o Sampaio carnal e vigorosa dor oprimiu-me o peito. Minhas velhas contas com a angina pareciam voltar. A dispnéia assaltou-me de improviso, mas nova expressão de ventura aguardava-me o sentimento. Nosso Dr. Bezerra veio ter comigo e pude beijar-lhe as mãos. Sabem lá o que seja isso?

Bastou que sua destra carinhosa me visitasse a fronte, para que o velho trapo de carne fosse esquecido... Desde esse instante, vi-me à maneira do colegial satisfeito em nova escola. Mãe Antoninha informou-me de que um hospital-educandário me havia admitido. Meu tratamento restaurador obedeceu aos passes magnéticos e à linfoterapia, palavra nova em minha boca. Termas enormes recolhem os enfermos, cada qual segundo as suas necessidades.

Por minha vez, de cada mergulho na água benfazeja e curativa, regressava sempre melhor, até que minhas forças se refizeram de todo. Regularmente recuperado, pude voltar, em companhia de nossos Benfeitores, às minhas casas inesquecíveis de trabalho e de fé, o «Regeneração» e o «Meimei». Graças a Jesus, tenho escutado o Evangelho com outros ouvidos e aprendido a nossa Doutrina com novo entendimento. Tenho agora livros e livros ao meu dispor.

Muitos companheiros são trazidos ao nosso hospital, em terrível situação. Não se alfabetizaram para o continuísmo da existência e sofrem muito, requisitando o concurso de magnetizadores que lhes extraem as recordações, quais médicos arrancando tumores internos de vísceras doentes. Essas recordações projetam-se fora deles para que compreendam e se aquietem. Mas, por felicidade deste criado de vocês, venho tomando contacto com a memorização, muito vagarosamente.

É imprescindível muita precaução para que nosso Espírito, despojado da matéria densa, não penetre de surpresa nos domínios do passado, habitualmente repleto de reminiscências menos dignas, que podem perturbar muitíssimo os nossos atuais desejos. Via de regra, no mundo, sentimo-nos sequiosos pelo conhecimento do pretérito. Aqui, suplicamos para que esse conhecimento seja adiado, reconhecendo que, na maioria dos casos, ele nos alcança qual ventania tumultuosa, abalando os alicerces ainda frágeis das boas idéias que conseguimos assimilar.

Por esse motivo, sou agora um aprendiz de mim mesmo, agindo com muita cautela para não estorvar a proteção que estou recebendo.
«Tudo aqui é como aí», hoje percebo melhor o sentido da pequena mensagem que recebemos juntos: «Tudo aqui é como aí, mas aí não é como aqui.» Nossas vestes, utilidades e alimentos, no plano de recém-desencarnados em que me encontro, embora mais sutis, são aproximadamente análogos aos da Terra.

Tenho perguntado a muitos amigos, com quem posso trocar idéias, quanto à formação das coisas que servem à nossa nova moradia... Todos abordam o assunto, de maneira superficial, como acontece no mundo, onde um químico discorre sobre a água, um botânico expõe teorias quanto à natureza das plantas ou um médico leciona sobre o corpo humano... Mas, no fundo, o químico estuda o hidrogênio e o oxigênio sem conhecer-lhes a origem, o botânico fala da planta, incapaz de penetrar-lhe o segredo, e o médico avança desassombrado em torno da constituição do corpo humano, ocultando com terminologia complicada o enigma da simples gota de sangue.

Aqui também, na faixa de luta em que me encontro, apenas sabemos que a matéria se encontra em novo estado. Dinamizada especificamente para nossos olhos, para nossos ouvidos e para as nossas necessidades, como na Terra surge graduada para as exigências e problemas da escola humana. Não me alongarei, porém, neste assunto. Somente aspiro a algum contacto com vocês para dizer-lhes que o velho amigo está reconhecido e satisfeito.

Desfruto hoje a alegria do paralítico que recobrou os movimentos, do cego que tornou à claridade, da criança embrutecida que alcançou o princípio da própria educação. Sinto-me outro, contudo devo afirmar-lhes que a desencarnação exige grande preparo a fim de que seja uma viagem tranquila. Tudo aqui sobrevive. Os hábitos, os desejos, as inclinações, as boas idéias e os pensamentos indignos reaparecem conosco, além-túmulo, tanto quanto as qualidades nobres ou deprimentes ressurgem, acordadas em nós, na experiência física, depois do repouso noturno, cada manhã.

Dois flagelos ainda agora me atormentam: o costume de fumar e a conversação sem proveito. Tenho sido carinhosamente auxiliado para que me liberte de semelhantes viciações. Com respeito ao fumo, o verdadeiro prejudicado sou eu próprio, no entanto, a palavra inútil impõe-me o remorso do tempo perdido pela desatenção.

Apesar de tudo, estou renovado e otimista, esperando continuar estudando o Evangelho, para que eu possa transferir-me, do hospital-educandário em que ainda me vejo, para o trabalho ativo, porquanto, aprendendo a viver em regime de utilidade para os outros, estarei cooperando em favor de mim mesmo. Que Jesus seja louvado!
Antônio Sampaio Júnior