RESPONSABILIDADE
BIBLIOGRAFIA
01- A clarividência - pág. 90 02 - A reencarnação na Bíblia - pág. 52, 63
03 - A sombra do olmeiro - pág. 114 04 - Caminho, verdade e vida - pág. 29, 81, 225
05 - Cartas e crônicas - pág. 35 06 - Celeiros de bênçãos - pág. 75
07 - Ciência e Espiritismo - pág. 122 08 - Coragem - pág. 107
09 - Depois da morte - pág. 238 10 - Diálogo com as sombras - pág. 57
11 - Encontro marcado - pág. 160 12 - Escrínio de Luz - pág. 48, 52
13 - Estudos Espíritas - pág. 172 14 - Evolução em dois Mundos - pág. 73, 155
15 - Fonte viva - pág. 387

16 - Mecanismos da mediunidade - pág. 140

17 - Novas mensagens - pág. 39 18 - Os mensageiros - pág. 36,52
19 - Pão Nosso - pág. 17 20 - Passos da vida - pág. 14
21 - Pontos e contos - pág. 15 22 - Religião dos Espíritos - pág. 85
23 - Segue-me - pág. 149 24 - Rumos liberdadores - pág. 32, 44
25 - Sexo e evolução - pág. 123 26 - Universo e vida - pág. 52
27 - Vinha de Luz - pág. 17 28 - Vozes do Grande Além - pág. 163

LEMBRETE: O NÚMERO DA PÁGINA PODE VARIAR DE ACORDO COM A EDIÇÃO DA OBRA CITADA.

RESPONSABILIDADE – COMPILAÇÃO

02 - A reencarnação na Bíblia - Hermínio C. Miranda - pág. 52, 63

INOCENTES E CULPADOS
Isso, aliás, não está apenas no Decálogo; confirma-se em outros pontos, como ainda mostraremos. Em Êxodo 34, por exemplo, conta-se como foi que Moisés recebeu, pela segunda vez, o Decálogo. Segundo sabem os leitores da Bíblia, ele havia partido as tábuas da lei num impulso de cólera, ao ver, em seu retorno, que sua gente havia recaído na idolatria. Lembremo-nos de que, se o documento fosse de sua elaboração pessoal, ele não precisaria voltar ao monte para tornar a recebê-lo na solidão, como o fez — bastaria reescrevê-lo de memória ou à vista de suas anotações pessoais. Lá chegando, tem novamente a visão espiritual. Vejamos.

— Passando Jeová por diante dele, proclamou: Jeová, Jeová, Deus misericordioso e clemente, tardio em irar-se e grande em beneficência e verdade; que guarda a beneficência em milhares, que perdoa a iniquidade, a transgressão e o pecado; e que de maneira alguma terá por inocente o culpado, visitando a iniquidade dos pais nos filhos, na terceira e na quarta geração. Dificilmente poderia ser mais bem expressa a doutrina da responsabilidade pessoal. A frase é inequívoca: "de maneira alguma terá por inocente o culpado".

Isto nos leva à recíproca que tem de ser igualmente verdadeira pelo princípio da analogia: o inocente não será de maneira alguma responsabilizado pela falta alheia. É, assim, incongruente e contraditório concluir o período dizendo que até à terceira ou à quarta geração filhos e netos responderão pelos erros dos pais e avós.

E voltamos a lembrar: ainda que isto fosse aceitável, como admitir esse outro absurdo que é o inferno para castigar os que erraram se pelo mesmo erro são punidos os descendentes? E se Deus perdoa a iniquidade, a transgressão e o pecado, como diz o texto, porque vai cobrá-los aos netos e bisnetos? E se até a quarta geração os crimes dos pais não estiverem resgatados pelos descendentes, caducaria o crime, prescreveria a falta ? Ficariam todos isentos, perdoados, redimidos, purificados? E aqueles que não têm descendentes?
Certamente, não pode ser esse o espírito do texto.

Lamentavelmente, como vemos, ficam os textos com as marcas das preferências dogmáticas de seus tradutores ou manipuladores. Ao tomar a Bíblia para consulta, o leitor precavido precisa saber preliminarmente se a versão é católica, protestante, ortodoxa ou o que seja, para saber como posicionar-se. Seria altamente desejável que expoentes da erudição bíblica, linguística e histórica se reunissem para elaborar um texto limpo, confiável, neutro, expurgado de conotações sectárias, fiel aos documentos originais. Que cada leitor o interpretasse a seu modo, mas que o texto básico fosse um só. Ao que vemos desde remotos tempos, nem mesmo versões obtidas no âmbito da mesma corrente religiosa concordam entre si e, algumas vezes, sequer a mesma versão é coerente consigo própria.

Vamos a um exemplo. A tradução dos originais hebraico, aramaico e grego feita pelos monges beneditinos de Maredsous (Bélgica) e que o Centro Bíblico Católico verteu em português está nesse caso. Tenho diante de mim a 21ª edição da Editora Ave Maria, S. Paulo, 1975 e que diz, em Êxodo 20:5-6, o seguinte: — Eu sou o Senhor teu Deus, um Deus zeloso que vingo a iniquidade dos pais nos filhos, nos netos e nos bisnetos daqueles que me odeiam, mas uso de misericórdia até à milésima geração com aqueles que me amam e guardam meus mandamentos.

O texto nada diz sobre as famigeradas gerações da "vingança", podendo prestar-se, sob esse aspecto, à missão da doutrina das vidas sucessivas. Pelo menos não menciona ele a expressão "até a terceira ou quarta geração". Já a coisa fica outra quando o texto é repetido em Êxodo 34:7, que está assim redigido: — Javé, Javé, Deus compassivo e misericordioso, lento para a cólera, rico em bondade e em fidelidade, que conserva sua graça até mil gerações, que perdoa a iniquidade, a rebeldia e o pecado, mas não tem por inocente o culpado, porque castiga o pecado dos pais nos filhos e nos filhos de seus filhos, até à terceira e à quarta geração.

Aí estão, de novo, todas as contradições de um Deus compassivo, misericordioso e bondoso que perdoa o erro, que identifica o culpado e, no entanto, castiga os inocentes que por infelicidade nasceram aí pela terceira ou quarta geração ... Era de supor-se, por outro lado, que pelo menos na questão vital das gerações os textos (Êxodo 20 e Êxodo 34) deveriam estar acordes, sem criar mais conflitos num trecho já bastante conflitado pela deformação.

Em suma: se, para Deus, o culpado não pode ser inocentado, como admitir-se que seja castigado o pecado por ele cometido na pessoa de filhos e netos ? A simples e elementar verdade, portanto, está em que precisamente porque Deus perdoa, mas não inocenta o culpado, é que este mesmo culpado e não outro irá renascer na terceira ou na quarta geração para responder pela sua falta. Nada mais, nada menos do que isso. O resto é sofisma ou, então, aquela dificuldade de perceber a verdade que Jesus identificou claramente nos que se tinham por doutos e entendidos. Há mais, porém. Ao profetizar sobre a nova aliança, Jeremias declara, enfático:

— Naqueles dias não dirão mais: Os pais comeram as uvas verdes e os dentes dos filhos se embotaram. Mas cada um morrerá pela sua iniquidade; todo o homem que comer uvas verdes, a esse é que lhe ficarão botos os dentes. Uso novamente o texto da American Bible Society, tradução brasileira, atualizando apenas a grafia. A citação é Jeremias 31:29-30.

Não há dúvida, portanto, de que muitos interpretavam erroneamente o Decálogo. Aqueles que não tinham preparo suficiente para relacionar a passagem com a doutrina das vidas sucessivas, ficavam sem outra opção que não a de interpretá-la literalmente. É certo, porém, que sempre houve quem soubesse extrair do texto seu exato sentido. Seja como for, o profeta prevê uma época em que — diante de uma nova mensagem ou revelação, a que chama de Nova Aliança (a Doutrina Cristã, naturalmente) — não haveria mais dúvida de que cada um responde pelos seus atos e nunca pelos alheios.

Já na tradução do padre Mattos Soares esse texto foi colocado logo abaixo de um subtítulo escolhido com muita propriedade e acerto: Responsabilidade individual. Foram aí utilizados dois conceitos fundamentais para caracterizar a situação. De fato, o que existe aí, em primeiro lugar, é a definição de responsabilidade perante a lei divina. E, em segundo lugar, o fato de que essa responsabilidade é pessoal, individual, intransferível. Ninguém pode esperar que seus crimes sejam resgatados por outrem — e logo filhos e netos ? E — repetimos — quem não tiver descendência? Se alguém comete erros deliberadamente, confiando nessa esdrúxula teoria de que "os outros" vão pagá-los, não pode ser uma pessoa responsável.

O que o texto pretende deixar bem claro, portanto, como que dirimindo qualquer dúvida de interpretação, é que não são os filhos que respondem pelos desatinos dos pais: se estes comerem uvas verdes os seus próprios dentes ficarão prejudicados e não os dos filhos. Para melhor caracterização do problema e precisamente para indicar que a interpretação antiga está errada, diz claramente o profeta: "não dirão mais" aquele absurdo e sim que cada um responde pelo que faz. Quem praticou a iniquidade morrerá por ela e, portanto, não a deixará para ninguém, da mesma forma que quem comeu uvas verdes, esse mesmo é que terá seus dentes danificados.

Ninguém ignora o elevado índice de acidez da uva verde e, por conseguinte, sua ação prejudicial sobre o esmalte dos dentes. Não é absurdo supor-se que o uso imoderado de uvas verdes possa resultar em prejuízo dos dentes a ponto de torná-los botos, ou seja, rombos, desgastados. Seria ridículo ensinar que um come a uva verde e os dentes dos outros é que vão sofrer. Trata-se, pois, de mais uma das maneiras de definir, com toda clareza e em linguagem de fácil entendimento e acesso, o conceito da responsabilidade pessoal de cada um pelas consequências de seus erros.

DEFINIÇÃO PRECISA DA RESPONSABILIDADE PESSOAL
Com essas considerações em mente, vamos, pois, ao exame do texto. Segundo se infere, havia uma parábola entre os judeus que se convertera em provérbio, e que, aliás, continha uma inverdade, atribuindo a responsabilidade pelo pecado à alma do inocente e não à do pecador.

Vêm a seguir os exemplos. O homem bom (justo) poderá contar sem vacilações com o reconhecimento de sua bondade e retidão — ou seja, sua justiça, ou melhor ainda, sua justeza. Se, porém, seu filho for um mau elemento, responderá pelos seus próprios erros, isto é, "o seu sangue cairá sobre ele". Ele mesmo e não outrem.

Se, por sua vez, este filho mau tiver um filho bom e que, mesmo ante o exemplo maléfico do seu pai, proceder corretamente, o que sucederá ? O pai não se livrará, por isso, dos seus erros, enquanto ele, o filho bom, terá o prêmio da sua bondade, nada tendo a responder pelas faltas do pai.

Há mais ainda: a culpa não é irremissível, imperdoável, eterna. Desde que o ímpio se corrija e se dedique à prática do bem, ficará recuperado. Na linguagem simbólica do texto, "nenhuma das suas transgressões que cometeu, será lembrada contra ele". Mas, atenção !, o prêmio continua merecido pela "justiça que praticou" ou seja, pelo bem que fez e não pelo mal que deixou de praticar.

Da mesma forma, aquele que sempre foi bom e, de repente, descamba para a prática do mal, é prontamente responsabilizado pelos erros que cometer. Ele próprio e não outra pessoa. Até mesmo o homem bom, que se voltar para a iniquidade, responderá por ela como qualquer ímpio. O que antes fizera de bom não o isenta de tal responsabilidade, porque certifica nele a persistência de tendências más ainda não superadas.

A idéia básica de toda essa longa exposição, portanto, é a de que somos julgados segundo nossos atos: "Portanto, ó casa de Israel, vos julgarei cada um conforme os seus caminhos". Prestaram bem atenção? Cada um de acordo com os seus caminhos ou atos e não pelo que outros tenham feito. O que comeu a uva verde, esse mesmo é que terá seus dentes estragados, não os seus filhos ou netos.
Figuremos, porém, o caso mais comum daqueles que não tiveram o bom senso e a disposição de se utilizar das oportunidades de conversão à prática do bem.

Seja porque se comprazem no erro, seja porque, depois do esforço sobre-humano para serem bons, recaíram na prática do mal ou, ainda, porque tenham praticado crime grave já nos últimos momentos da vida terrena, sem tempo de corrigirem-se. Que fazer dessas multidões de seres em falta ?

Já vimos que Deus está disposto a esquecer os erros daquele que se regenera, desde que ele se confirme na prática do bem. Já vimos também que Deus não deseja a morte do pecador, ou seja, a sua condenação, mas que ele renuncie ao erro. E se Deus não o deseja, hão de ser colocados ao alcance do pecador todos os recursos de que ele necessitar para recuperar-se, deixando para sempre de pecar.

Como, porém, entender tais oportunidades de recuperação no contexto de uma só vida na carne ? Como poderia o Pai desejar que o pecador se salve sem proporcionar-lhe os meios para fazê-lo? Não há, pois, como sofismar ante o esquema básico que se resume a seguir:

• Cada um responde pelos seus erros e tem o mérito de suas virtudes.
• Não há sofrimento inocente, nem recompensa imerecida por herança, contágio, ou por procuração. A cada um segundo suas obras.
• As oportunidades de reajuste são proporcionadas a todos indistintamente.
• O processo evolutivo — uma condição cósmica - exige um mecanismo de reajuste moral que é precisamente o das vidas sucessivas.

03 - A sombra do olmeiro - Um jardineiro - pág. 114

— Jardineiro — disse-me o "rishi", em voz terna como a mais doce oferenda — a vida é constante permuta... É o reflexo dos nossos sentimentos e ações. Proporciona água à planta, e ela retribuirá com flores e frutos. Semeia sobre o pântano e este servirá como fonte de benefícios... Planta, Jardineiro, lírios e rosas no coração de teus semelhantes, e cultiva-os com o mesmo amor que dedicas aos teus gerânios. Destes recebes flores; daqueles receberás aquilo que inspirarem tuas ações...

As palavras do "rishi" eram como flores que se abriam em nossas almas, perfumando-as. Em silêncio, eu o escutava.— Não negues nunca, Jardineiro, as flores do jardim das virtudes, mesmo aos que desconhecem a plenitude do bem, desse bem que é sempre caminho florido que conduz a Deus. Oferta à vida o que de melhor e mais nobre houver em ti, e age sempre em sentido vertical, para o mais alto, eternizando tuas obras no tempo e no espaço. Trabalha, Jardineiro, para o futuro, não pelo presente tão só...

E o "rishi" falou-nos de um homem que cultivava a terra, a plantar um trigal, e vivia debruçado sobre a enxada, desde que amanhecia até o por do sol, quando, somente então, juntava-se à família no aconchego do lar. O tempo que fizesse, lá estava o cultivador entregue ao seu trabalho, indifertente à chuva, vento, calor ou frio.

Aquela atividade contínua despertou a atenção de um viajante que ali sempre passava. Um dia este se aproximou, curioso, e perguntou: — Homem, não descansas nessa lida? Estás velho e cansado, por que não abandonas esta enxada para repousar um pouco? O cultivador, apenas erguendo a vista da terra, respondeu:

— Porque amo meu trabalho, senhor... Sem ele, como viveria? Amo a terra, este solo que me dá sustento para os meus. Sim, estou velho e cansado... Por isto devo andar mais depressa; disponho de pouco tempo e muito resta ainda que fazer. — Vejo — falou o homem — que a terra recompensa teu amor. O trigal está viçoso, as espigas abundantes. Será bem produtiva a colheita.

— A terra sempre é generosa com quem a ama. Porém, não sou eu que faço a colheita, mas minha mulher e os filhos. Eu apenas planto.
O homem despediu-se e seguiu caminho. Passados alguns dias, a vida o levou em viagem para terras distantes, onde permaneceu muito tempo.

Ao retornar, passando na mesma estrada, encontrou o camponês ainda ocupado com seu trigal, a cultivar a terra. Era uma tarde sem sol, fria e cinzenta, em que a própria Natureza parece desanimada e sombria. O viajante aproximou-se do camponês, e viu que estava envelhecido, com aspecto cansado e triste. Além disso, vestia-se de luto. — Perdeste algum ente querido? — perguntou o homem, depois de o cumprimentar.

— Perdi, senhor... — respondeu o cultivador, com voz pausada. Perdi minha família. A febre levou a todos em poucas semanas... Agora, estou sozinho. O viajante comoveu-se com a dor daquele camponês simples e humilde, tão dedicado ao trabalho, ferido tão rudemente pelo destino. No entanto, falou-lhe, sem refletir: — Se morreu toda tua família, por que continuas nesse trabalho exaustivo? Abandona a enxada, bom homem, e descansa.

— Não posso fazer isto, senhor... Deus me levou a família, mas deixou-me a terra entregue aos meus cuidados. Como iria abandoná-la?
Ainda irrefletidamente, voltou a indagar o homem:— Mas, sem mulher e filhos, quem há de colher agora o trigo que plantaste? O cultivador respondeu, com serenidade:

— Todos que necessitam. E são tantos, senhor... Surpreso com aquelas palavras, o viajante silenciou alguns instantes. Depois, olhando o camponês, concluiu em tom afetuoso: — Tens razão, bom camponês... Pena que sejam poucos os que assim plantam, como tu, e muitos os que na vida apenas se movimentam à espera da colheita...

Mas a tarde escurecia, logo seria noite... O viajante despediu-se, retornou à estrada. O cultivador continuou em seu trabalho, sem olhar a tarde que morria no horizonte. O cansaço já lhe pesava no corpo, invadia-lhe a alma. Breve iria dormir, descansar as mãos calejadas... E breve despertaria em um trigal de luz.

04 - Caminho, verdade e vida - Emmanuel - pág. 29, 81, 225

7. TUDO NOVO
"Assim é que, se alguém está em Cristo, nova criatura é: as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo." - Paulo (II Coríntios, 5:17)
É muito comum observarmos crentes inquietos, utilizando recursos sagrados da oração para que se perpetuem situações injustificáveis tão-só porque envolvem certas vantagens imediatas para suas preocupações egoísticas. Semelhante atitude mental constitui resolução muito grave.

Cristo ensinou a paciência e a tolerância, mas nunca determinou que seus discípulos estabelecessem acordo com os erros que infelicitam o mundo. Em face dessa decisão, foi à cruz e legou o último testemunho de não-violência, mas também de não-aco-modação com as trevas em que se compraz a maioria das criaturas.

Não se engane o crente acerca do caminho que lhe compete. Em Cristo tudo deve ser renovado. O passado delituoso estará morto, as situações de dúvida terão chegado ao fim, as velhas cogitações do homem carnal darão lugar a vida nova em espírito, onde tudo signifique sadia reconstrução para o futuro eterno. É contra-senso valer-se do nome de Jesus para tentar a continuação de antigos erros.

Quando notarmos a presença de um crente de boa palavra, mas sem o íntimo renovado, dirigindo-se ao Mestre como um prisioneiro carregado de cadeias, estejamos certos de que esse irmão pode estar à porta do Cristo, pela sinceridade das intenções; no entanto, não conseguiu, ainda, a penetração no santuário de seu amor.

33. RECAPITULAÇÕES
"Porque amavam mais a glória dos homens do que a glória de Deus". -(João, 12:43)
Os séculos parecem reviver com seus resplendores e decadência. Fornece o mundo a impressão dum campo onde as cenas se repetem constantemente. Tudo instável.

A força e o direito caminham com alternativas de domínio. Multidões esclarecidas regressam a novas alucinações. O espírito humano, a seu turno, a seu turno, considerado insuladamente, demonstra recapitular as más experiências, após alcançar o bom conhecimento.

Como esclarecer a anomalia? A situação é estranhável porque, no fundo, todo homem tem sede de paz e fome de estabilidade. Importa reconhecer, porém, que, no curso dos milênios, as criaturas humanas, em múltiplas existências, têm amado mais a glória terrena que a glória de Deus.

Inúmeros homens se presumem redimidos com a meditação criteriosa do crepúsculo, mas...e o dia que já se foi? Na justiça misericordiosa de suas decisões, Jesus concede ao trabalhador hesitante uma oportunidade nova. O dia volta. Refunde-se a existência. Todavia, que aproveita ao operário valer-se tão-somente dos bens eternos no crepúsculo cheio de sombras?

Alguém lhe perguntará: que fizeste da manhã clara, do Sol ardente, dos instrumentos que te dei? Apenas a essa altura reconhece a necessidade de gloriar-se no Todo-Poderoso. E homens e povos continuarão desfazendo a obra falsa para recomeçar o esforço outra vez.

105. NEM TODOS
"E aconteceu que, quase oito dias depois destas palavras, tomou consigo a Pedro, a João e a Tiago, e subiu ao monte a orar." - (Lucas, 9:28)
Digna de notar-se a atitude do Mestre, convidando apenas Simão e os filhos de Zebedeu para presenciarem a sublime manifestação do monte, quando Moisés e outro emissário divino estariam em contacto direto com Jesus, aos olhos dos discípulos.

Por que não convocou os demais companheiros? Acaso Filipe ou André não teriam prazer na sublime revelação? Não era Tomé um companheiro indagador, ansioso por equações espirituais? No entanto, o Mestre sabia a causa de suas decisões e somente Ele poderia dosar, convenientemente, as dádivas do conhecimento superior.

O fato deve ser lembrado por quantos desejem forçar a porta do plano espiritual. Certo, o intercâmbio com esse ou aquele núcleo de entidades do Além é possível, mas nem todos estão preparados, a um só tempo, para a recepção de responsabilidades ou benefícios. Não se confia, imprudentemente, um aparelho de produção preciosa, cujo manejo dependa de competência prévia, ao primeiro homem que surja, tomado de bons desejos.

Não se atraiçoa impunemente a ordem natural. Nem todos os aprendizes e estudiosos receberão do Além, num pronto, as grandes revelações. Cada núcleo de atividade espiritualizante deve ser presidido pelo melhor senso de harmonia, esforço e afinidade. Nesse míster, além dasboas intenções é indispensável a apresentação da ficha de bons trabalhos pessoais.

E, no mundo, toda gente permanece disposta a querer isso ou aquilo, mas raríssimas criaturas se prontificam a servir e a educar-se.


05 - Cartas e crônicas - Irmão X - pág. 35

7 - Consciência espírita
Diz você que não compreende o motivo de tanta autocensura nas comunicações dos espíritas desencarnados. Fulano, que deixou a melhor ficha de serviço, volta a escrever, declarando que não agiu entre os homens como deveria; sicrano, conhecido por elevado padrão de virtudes, regressa, por vários médiuns, a lastimar o tempo perdido... E você acentua, depois de interessantes apontamentos: «Tem-se a impressão de que os nossos confrades tornam, do Além, atormentados por terríveis complexos de culpa. Como explicar o fenômeno?»

Creia, meu caro, que nutro pessoalmente pelos espíritas a mais enternecida admiração. Infatigáveis construtores do progresso, obreiros do Cristianismo Redivivo. Tanta liberdade, porém, receberam para a interpretação dos ensinamentos de Jesus que, sinceramente, não conheço neste mundo pessoas de fé mais favorecidas de raciocínio, ante os problemas da vida e do Universo. Carregando largos cabedais de conhecimento, é justo guardem eles a preocupação de realizar muito e sempre mais, a favor de tantos irmãos da Terra, detidos por ilusões e inibições no capítulo da crença.

Conta-se que Allan Kardec, quando reunia os textos de que nasceria «O Livro dos Espíritos», recolheu-se ao leito, certa noite, impressionado com um sonho de Lutero, de que tomara notícias. O grande reformador, em seu tempo, acalentava a convicção de haver estado no paraíso, colhendo informes em torno da felicidade celestial.

Comovido, o codificador da Doutrina Espírita, durante o repouso, viu-se também fora do corpo, em singular desdobramento. . . Junto dele, identificou um enviado de Planos Sublimes que o transportou, de chofre, a nevoenta região, onde gemiam milhares de entidades em sofrimento estarrecedor. Soluços de aflição casavam-se a gritos de cólera, blasfêmias seguiam-se a gargalhadas de loucura. Atônito, Kardec lembrou os tiranos da História e inquiriu, espantado:

— Jazem aqui os crucificadores de Jesus? — Nenhum deles — informou o guia solícito. — Conquanto responsáveis, desconheciam, na essência, o mal que praticavam. O próprio Mestre auxiliou-os a se desembaraçarem do remorso, conseguindo-lhes abençoadas reencarnações, em que se resgataram perante a Lei.

— E os imperadores romanos? Decerto, padecerão nestes sítios aqueles mesmos suplícios que impuseram à Humanidade. ..— Nada disso. Homens da categoria de Tibério ou Calígula não possuíam a mínima noção de espiritualidade. Alguns deles, depois de estágios regenerativos na Terra, já se elevaram a esferas superiores, enquanto que outros se demoram, até hoje, internados no campo físico, à beira da remissão.

— Acaso, andarão presos nestes vales sombrios — tornou o visitante — os algozes dos cristãos, nos séculos primitivos do Evangelho?
— De nenhum modo — replicou o lúcido acompanhante —, os carrascos dos seguidores de Jesus, nos dias apostólicos, eram homens e mulheres quase selvagens, apesar das tintas de civilização que ostentavam... Todos foram encaminhados à reencarnação, para adquirirem instrução e entendimento.

O codificador do Espiritismo pensou nos conquistadores da Antiguidade, Atila, Aníbal, Alarico I, Gengis Khan.. . Antes, todavia, que enunciasse nova pergunta, o mensageiro acrescentou, respondendo-lhe à consulta mental: — Não vagueiam, por aqui, os guerreiros que recordas. .. Eles nada sabiam das realidades do espírito e, por isso, recolheram piedoso amparo, dirigidos para o renascimento carnal, entrando em lides expiatórias, conforme os débitos contraídos...

— Então, dize-me — rogou Kardec, emocionado —, que sofredores são estes, cujos gemidos e imprecações me cortam a alma? E o orientador esclareceu, imperturbável: — Temos junto de nós os que estavam no mundo plenamente educados quanto aos imperativos do Bem e da Verdade, e que fugiram deliberadamente da Verdade e do Bem, especialmente os cristãos infiéis de todas as épocas, perfeitos conhecedores da lição e do exemplo do Cristo e que se entregaram ao mal, por livre vontade. .. Para eles, um novo berço na Terra é sempre mais difícil...

Chocado com a inesperada observação, Kardec regressou ao corpo e, de imediato, levantou-se e escreveu a pergunta que apresentaria, na noite próxima, ao exame dos mentores da obra em andamento e que figura como sendo a Questão número 642, de «O Livro dos Espíritos»: «Para agradar a Deus e assegurar a sua posição futura, bastará que o homem não pratique o mal?», indagação esta a que os instrutores retorquiram:

«Não; cumpre-lhe fazer o bem, no limite de suas forças, porquanto responderá por todo o mal que haja resultado de não haver praticado o bem.» Segundo é fácil de perceber, meu amigo, com princípios tão claros e tão lógicos, é natural que a consciência espírita, situada em confronto com as idéias dominantes nas religiões da maioria, seja muito diferente.

08 - Coragem - Espíritos Diversos - pág. 107

34. NO DOMÍNIO DAS PROVAS
Imaginemos um pai que, a pretexto de amor, decidisse furtar um filho querido de toda relação com os reveses do mundo. Semelhante rebento de tal devoção afetiva seria mantido em sistema de exceção. Para evitar acidentes climáticos inevitáveis, descansaria exclusivamente na estufa, durante a fase de berço e, posto a cavaleiro de perigos e vicissitudes, mal terminada a infância, encerrar-se-ia numa cidadela inexpugnável, onde somente prevalecesse a ternura paterna, a empolgá-lo de mimos.

Não frequentaria qualquer educandário, a fim de não aturar professores austeros ou sofrer a influência de colegas que não lhe respirassem o mesmo nível; alfabetizado, assim, no reduto doméstico, apreciaria unicamente os assuntos e heróis de ficção que o genitor lhe escolhesse.

Isolar-se-ia de todo contato humano para não arrostar problemas e desconheceria todo o noticiário ambiente para não recolher informações que lhe desfigurassem a suavidade da vida interior. Candura inviolável e ignorância completa. Santa inocência e inaptidão absoluta.

Chega, porém, o dia em que o progenitor, naturalmente vinculado a interesses outros, se ausenta compulsoriamente do lar e, tangido pela necessidade, o moço é obrigado a entrar na corrente da vida comum.

Homem feito, sofre o conflito da readaptação, que lhe rasga a carne e a alma, para que se lhe recupere o tempo perdido e o filho acaba enxergando insânia e crueldade onde o pai supunha cultivar preservação e carinho.

A imagem ilustra claramente a necessidade da encarnação e da reencarnação do espírito nos mundos inumeráveis da imensidade cósmica, de maneira a que se lhe apurem as qualidades e se lhe institua a responsabilidade na consciência.

Dificuldades e lutas semelham materiais didáticos na escola ou andaimes na construção; amealhada a cultura ou levantado o edifício, desaparecem uns e outros.

Abençoemos, pois, as disciplinas e as provas com que a Infinita Sabedoria nos acrisolam as forças, enrijando-nos o caráter.
Ingenuidade é predicado encantador na personalidade, mas se o trabalho não a transfigura em tesouro de experiência, laboriosamente adquirido, não passará de flor preciosa a confundir-se no pó da terra, ao primeiro golpe de vento.

EMMANUEL

09 - Depois da morte - Léon Denis - pág. 238

XXXIX — JUSTIÇA, SOLIDARIEDADE, RESPONSABILIDADE
Tanto no moral como no físico, tudo se encadeia e liga no Universo. Na ordem dos fatos, desde o mais simples ao mais complexo, tudo é regulado por uma lei; cada efeito se prende a uma causa e cada causa engendra um efeito que lhe é idêntico. Daí, no domínio moral, o princípio de justiça, a sanção do bem e do mal, a lei distributiva, que dá a cada um segundo as suas obras. Assim como as nuvens formadas pela vaporização solar se resolvem fatalmente em chuva, assim também as consequências dos atos praticados recaem inevitavelmente sobre seus autores.

Cada um desses atos, cada uma das volições do nosso pensamento, segundo a força que os impulsiona, executa sua evolução e volta com os seus efeitos, bons ou maus, para a fonte que os produziu. O mal, do mesmo modo que o bem, torna ao seu ponto de partida em razão da afinidade de sua substância. Há faltas que produzem seus efeitos mesmo no curso da vida terrena. Outras, mais graves, só fazem sentir suas consequências na vida espiritual e, muitas vezes até, nas encarnações ulteriores.

A pena de talião nada tem de absoluto, mas não é menos verdade que as paixões e malefícios do ser humano produzem resultados, sempre idênticos, aos quais ele não pode subtrair-se. O orgulhoso prepara para si um futuro de humilhações, o egoísta cria o vácuo ou a indiferença, e duras privações esperam os sensuais. É a punição inevitável, o remédio eficaz que deve curar o mal em sua origem. Tal lei cumprlr-se-á por si própria, sem haver necessidade de alguém constituir-se algoz dos seus semelhantes.

O arrependimento, em ardente apelo à misericórdia divina, pondo-nos em comunicação com as potências superiores, devem emprestar-nos a força necessária para percorrermos a via dolorosa, o caminho de provas delineado pelo nosso passado; porém, nada, a não ser a expiação, apagará as nossas faltas. Só o sofrimento, esse grande educador, poderá reabilitar-nos.

A lei de justiça não é mais que o funcionamento da ordem moral universal, as penas e os castigos representam a reação da Natureza ultrajada e violentada em seus princípios eternos. As forças do Universo são solidárias, repercutem e vibram unissonamente. Toda potência moral reage sobre aquele que a infringir e proporcionalmente ao seu modo de ação. Deus não fere a pessoa alguma; apenas deixa ao tempo o cuidado de fazer dimanar os efeitos de suas causas. O homem é, portanto, o seu próprio juiz, porque, segundo o uso ou o abuso de sua liberdade, torna-se feliz ou desditoso.

Às vezes, o resultado de seus atos faz-se esperar. Vemos neste mundo criminosos calcarem sua consciência, zombarem das leis, viverem e morrerem cercados de respeito, ao mesmo tempo que pessoas honestas são perseguidas pela adversidade e pela calúnia! Daí, a necessidade das vidas futuras, em cujo percurso o princípio de justiça encontra a sua aplicação e onde o estado moral do ser encontra o seu equilíbrio. Sem esse complemento necessário, não haveria motivo para a existência atual, e quase todos os nossos atos ficariam sem punição.

Realmente, a ignorância é o mal soberano donde procedem todos os outros. Se o homem visse distintamente a consequência do seu modo de proceder, sua conduta seria outra. Conhecendo a lei moral e sua aplicação inevitável, não mais tentaria transgredi-la, do mesmo modo que nada faz por opor-se à gravitação natural dos corpos ou a outra qualquer lei física.

Essas idéias novas ainda mais fortalecem os laços que nos unem à grande família das almas. Encarnadas ou desencarnadas, todas as almas são irmãs. Geradas pela grande mãe, a Natureza, e por seu pai comum, que é Deus, elas perseguem destinos análogos, devendo-se todas um mútuo auxílio. Por vezes, protegidas e protetoras, coadjuvam-se na marcha do progresso, e, pelos serviços prestados, pelas provas passadas em comum, fazem desabrochar em si os sentimentos de fraternidade e de amor, que são uma das condições da vida superior, uma das modalidades da existência feliz.

Os laços que nos prendem aos irmãos do espaço ligam-nos mais estreitamente ainda aos habitantes da Terra. Todos os homens, desde o mais selvagem até o mais civilizado, são Espíritos semelhantes pela origem e pelo fim que têm de atingir. Em seu conjunto, constituem uma sociedade, cujos membros são solidários e na qual cada um trabalhando pelo seu melhoramento particular participa do progresso e do bem geral.

A lei de justiça, não sendo mais que a resultante dos atos, o encadeamento dos efeitos e das causas, explica-nos por que tantos males afligem a Humanidade. A história da Terra é uma urdidura de homicídios e de iniquidade. Ora, todos esses séculos ensanguentados, todas essas existências de desordens reúnem-se na vida presente como afluentes no leito de um rio. Os Espíritos que compõem a sociedade atual nada mais são que homens de outrora, que vieram sofrer as consequências de suas vidas anteriores, com as res-ponsabilidades daí provenientes.

Formada de tais elementos, como poderia a Humanidade viver feliz? As gerações são solidárias através dos tempos; vapores de suas paixões envolvem-nas e seguem-nas até ficarem completamente purificadas. Essa consideração faz-nos sentir mais intensamente ainda a necessidade de melhorar o meio social, esclarecendo os nossos semelhantes sobre a causa dos males comuns e criando em torno de nós, por esforços coletivos, uma atmosfera mais sã e pura. Enfim, o homem deve aprender a medir o alcance de seus atos, a extensão de sua responsabilidade, a sacudir essa indiferença que fecunda as misérias sociais e envenena moralmente este planeta, onde talvez tenha de renascer muitas vezes.

É necessário que um influxo renovador se estenda sobre os povos e produza essas convicções onde se originam as vontades firmes e inabaláveis. É preciso também todos saberem que o império do mal não é eterno, que a justiça não é uma palavra vã, pois ela governa os mundos e, sob o seu nível poderoso, todas as almas se curvam na vida futura, todas as resistências e rebeliões se anulam.

Da idéia superior de justiça dimanam, portanto, a igualdade, a solidariedade e a responsabilidade dos seres. Esses princípios unem-se e fundem-se em um todo, em uma lei única que domina e rege o Universo inteiro: o progresso na liberdade. Essa harmonia, essa coordenação poderosa das leis e das coisas não dará da vida e dos destinos humanos uma idéia maior e mais consoladora que as concepções niilistas ou do nada?

Nessa imensidade, onde tudo é regido por leis sábias e profundas, onde a equidade se mostra mesmo nos menores detalhes, onde nenhum ato útil fica sem proveito, nenhuma falta sem castigo, nenhum sofrimento sem compensação, o ser sente-se ligado a tudo que vive. Trabalhando para si e para todos, desenvolve livremente suas forças, vê aumentarem suas luzes e multiplicarem sua felicidade.

Comparem-se essas perspectivas com as insípidas teorias materialistas, com esse universo horrível onde os seres se agitam, sofrem e passam, sem afeições, sem rumo, sem esperança, percorrendo vidas efêmeras, como pálidas sombras, saídas do nada, para sumirem-se na noite e no silêncio eterno. Digam qual dessas concepções oferece mais possibilidades de sustentar o homem em suas dores, de modificar seu caráter, e de arrastá-lo para os altos cimos!


13 - Estudos Espíritas - Joanna de Ângelis - pág. 172

23. EDUCAÇÃO
CONCEITO: CONCEITO — A educação é base para a vida em comunidade, por meio de legítimos processos de aprendizagem que fomentam as motivações de crescimento e evolução do indivíduo. Não apenas um preparo para a vida, mediante a transferência de conhecimentos pelos métodos da aprendizagem. Antes é um processo de desenvolvimento de experiências, no qual educador e educando desdobram as aptidões inatas, aprimorando-as como recursos para a utilização consciente, nas múltiplas oportunidades da existência.

Objetivada como intercâmbio de aprendizagens, merece considerá-la nas matérias, nos métodos e fins, quando se restringe à instrução. Não somente a formar hábitos e desenvolver o intelecto, deve dedicar-se a educação, mas, sobretudo, realizar um continuum permanente, em que as experiências por não cessarem se fixam ou se reformulam, tendo em conta as necessidades da convivência em sociedade e da auto-realização do educando.

Os métodos na experiência educacional devem ser consentâneos às condições mentais e emocionais do aprendiz. Em vez de se lhe impingir, por meio do processo repetitivo, os conhecimentos adquiridos, o educador há de
motivá-lo às próprias descobertas, com ele crescendo, de modo que a sua contribuição não seja o resultado do "pronto e concluído", processo que, segundo a experiência de alguns, "deu certo até aqui".

Na aplicação dos métodos e escolha das matérias merece considerar as qualidades do educador, sejam de natureza intelectual ou emocional e psicológica, como de caráter afetivo ou sentimental. Os fins, sem dúvida, estão além das linhas da escolaridade. Erguem-se como permanente etapa a culminar na razão do crescimento do indivíduo, sempre além, até transcender-se na realidade espiritual do porvir. A criança não é um "adulto miniaturizado", nem uma "cera plástica", facilmente moldável.

Trata-se de um espírito em recomeço, momentaneamente em esquecimento das realizações positivas e negativas que traz das vidas pretéritas, empenhado na conquista da felicidade. Redescobrindo o mundo e se reidentificando, tende a repetir atitudes e atividades familiares em que se comprazia antes, ou através das quais sucumbiu.

Tendências, aptidões, percepções são lembranças evocadas inconscientemente, que renascem em forma de impressões atraentes, dominantes, assim como limitações, repulsas, frustrações, agressividade e psicoses constituem impositivos constritores ou restritivos — não poucas vezes dolorosos — de que se utilizam as Leis Divinas para corrigir e disciplinar o rebelde que, apesar da manifestação física em período infantil, é espírito relapso, mais de uma vez acumpliciado com o erro, a ele fortemente vinculado, em fracassos morais sucessivos.

Ao educador, além do currículo a que se deve submeter, são indispensáveis os conhecimentos da psicologia infantil, das leis da reencarnação, alta compreensão afetiva junto aos problemas naturais do processo educativo e harmonia interior, valores esses capazes de auxiliar eficientemente a experiência educacional.

As leis da reencarnação quando conhecidas, penetradas necessariamente e aplicadas, conseguem elucidar os mais intrincados enigmas que defronta o educador no processo educativo, isto porque, sem elucidação bastante ampla, nem sempre exitosas, hão redundado as mais avançadas técnicas e modernas experiências. A instrução é setor da educação, na qual os valores do intelecto encontram necessário cultivo.

A educação, porém, abrange área muito grande, na quase totalidade da vida. No período de formação do homem é pedra fundamental, por isso que ao instituto da família compete a indeclinável tarefa, porquanto pela educação, e não pela instrução apenas, se dará a transformação do indivíduo e conseqüentemente da Humanidade.

No lar assentam os alicerces legítimos da educação, que se trasladam para a escola que tem a finalidade de continuar aquele mister, de par com a contribuição intelectual, as experiências sociais... O lar constrói o homem. A escola forma o cidadão.

DESENVOLVIMENTO
— A escola tradicional fundamentada no rigor da transmissão dos conhecimentos elaborava métodos repetitivos de imposição, mediante o desgoverno da força, sem abrir oportunidades ao aprendiz de formular as próprias experiências, mediante o redescobrimento da vida e do mundo.

O educador, utilizando-se da posição de semideus, fazia-se um simples repetidor das expressões culturais ancestrais, asfixiando as germinações dos interesses novos no educando e matando-as, como recalcando por imposição os sentimentos formosos e nobres, ao tempo em que assinalava irremediavelmente de forma negativa os que recomeçavam a vida física sob o abençoado impositivo da reencarnação. Expunha-se o conhecimento, impondo-o.

Com a escola progressiva, porém, surgiu mais ampla visão, em torno da problemática da educação, e o educando passou a merecer o necessário respeito, de modo a desdobrar possibilidades próprias, fomentando intercâmbios experienciais a benefício de mais valiosa aprendizagem. Não mais a fixidez tradicional, porém os métodos móveis da oportunidade criativa.

Atualizada através de experiências de liberdade exagerada — graças à técnica da enfática da própria liberdade —, vem pecando pela libertinagem que enseja, porquanto, em se fundamentando em filosofias materialistas, não percebe no educando um espírito em árdua luta de evolução, mas um corpo e uma mente novos a amarzenarem num cérebro em formação e desenvolvimento a herança cultural do passado e as aquisições do presente, com hora marcada para o aniquilamento, após a transposição do portal do túmulo...

Nesse sentido, conturbadas e infelizes redundaram as tentativas mais modernas no campo educacional, produzindo larga e expressiva faixa de jovens desajustados, inquietos, indisciplinados, quais a multidão que ora desfila, com raras exceções, a um passo da alucinação e do suicídio.

Inegavelmente, na educação a liberdade é primacial, porém com responsabilidade, a fim de que as conquistas se incorporem nos seus efeitos ao educando, que os ressarcirá quando negativos, como os fruirá em bem-estares quando positivos.

Nesse sentido, nem agressão nem abandono ao educando. Nem severidade exagerada nem negligência contumaz. Antes, técnicas de amor, através de convivência digna, assistência fraternal e programa de experiências vívidas, atuantes, em tarefas dinâmicas.

ESPIRITISMO E EDUCAÇÃO
— Doutrina eminentemente racional, o Espiritismo dispõe de vigorosos recursos para a edificação do templo da educação, porquanto penetra nas raízes da vida, jornadeando com o espírito através dos tempos, de modo a elucidar recalques, neuroses, distonias que repontam desde os primeiros dias da conjuntura carnal, a se fixarem no carro somático para complexas provas ou expiações.

Considerando os fatores preponderantes como os secundários que atuam e desorganizam os implementos físicos e psíquicos, equaciona como problemas obsessivos as conjunturas em que padecem os trânsfugas da responsabilidade, agora travestidos em roupagem nova, reencetando tarefas, repetindo experiências para a libertação.

A educação encontra no Espiritismo respostas precisas para melhor compreensão do educando e maior eficiência do educador no labor produtivo de ensinar a viver, oferecendo os instrumentos do conhecimento e da serenidade, da cultura e da experiência aos reiniciantes do sublime caminho redentor, através dos quais os tornam homens voltados para Deus, o bem e o próximo.

ESTUDO E MEDITAÇÃO
:
(...) A educação, convenientemente entendida, constitui a chave do progresso moral. Quando se conhecer a arte de manejar os caracteres, como se conhece a de manejar as Inteligências, conseguir-se-á corrigi-los, do mesmo modo que se aprumam plantas novas. Essa arte, porém, exige muito tato, muita experiência e profunda observação (...) (O Livro dos Espíritos,Allan Kardec, questão 917)

"Desde pequenina, a criança manifesta os instintos bons ou maus que traz da sua existência anterior. A estudá-los devem os pais aplicar-se. Todos os males se originam do egoísmo e do orgulho (...)" - O Evangelho Segundo o Espiritismo, Allan Kardec, cap. XIV,9)

14 - Evolução em dois Mundos - André Luiz - pág. 73, 155

Palavra e responsabilidade
LINGUAGEM ANIMAL — Aperfeiçoando as engrenagens do cérebro, o princípio inteligente sentiu a necessidade de comunicação com os semelhantes e, para isso, a linguagem surgiu entre os animais, sob o patrocínio dos Gênios Veneráveis que nos presidem a existência.
De início, o fonema e a mímica foram os processos indispensáveis ao intercâmbio de impressões ou para o serviço de defesa, como, por exemplo, o silvo de vários répteis, o coaxar dos batráquios, as manifestações sonoras das aves e o mimetismo de alguns insetos e vertebrados, a se modificarem subitamente de cor, preservando-se contra o perigo.

Contudo, à medida que se lhe acentuava a evolução, a consciência fragmentária investia-se na posse de mais amplos recursos. O lobo grita pelos companheiros na sombra noturna, o gato encolerizado mostra fúria característica, miando raivosamente, o cavalo relincha de maneira particular, expressando alegria ou contrariedade, a galinha emite interjeições adequadas para anunciar a postura, acomodar a prole, alimentar os pintinhos ou rogar socorro quando assustada, e o cão é quase humano, em seus gestos de contentamento e em seus ganidos de dor.

INTERVENÇÕES ESPIRITUAIS — É assim que, atingindo os alicerces da Humanidade, o corpo espiritual do homem prias, sob a assistência dos Instrutores do Espírito, recebendo intervenções sutis nos petrechos da fonação para que a palavra articulada pudesse assinalar novo ciclo de progresso.

O laringe, situado acima da traquéia e adiante da faringe, consubstanciado num esqueleto cartilaginoso, urdido em fibras e ligamentos, com uma seleta de pequenos músculos, sofre, nas mãos sábias dos Condutores Espirituais, à maneira de um órgão precioso entre os dedos de cirurgiões exímios no serviço de plástica, delicadas operações no curso dos séculos, para que os músculos mencionados se façam simétricos e para que se vinculem, tão destros quanto possível, à produção fisiológica da voz.

Em sua contextura interna aglutina-se uma mucosa ciliada que se destina ao trabalho de lançamento do som e que verte pelos estreitamentos, transformando-se em pavimentosa-estratificada na borda livre das cordas vocais verdadeiras.

Fora da ação das cordas vocais, o laringe revela no pescoço movimentos de ascensão e descensão, elevando-se na expiração e na deglutição e baixando na inspiração, na sucção e no bocejar, salientando-se no corpo qual perfeito instrumento de efeitos musicais.

MECANISMO DA PALAVRA
— Com o extremo carinho de vagarosa confecção, os Técnicos da Espiritualidade Superior compõem a cartilagem situada em plano inferior, a cricóide, que representa um anel modificado da traquéia, sustentando uma placa na parte posterior, sobre a qual, no bordo superior e de ambos os lados da linha média, se apoiam as duas aritenóides, que se permitem, assim, a conjunção ou o afastamento entre si. Cada uma possui na base uma apófise: a interna, vocal, em que está inserida a parte posterior da corda vocal verdadeira do mesmo lado, e a outra, que é externa, muscular.

Com a mesma habilidade, os Técnicos tecem a cartilagem localizada na região anterior ou cartilagem üreóide, a destacar-se sob a pele no chamado Pomo-de-Adão, em suas lâminas verticais que se conjugam na linha mediana, traçando um ângulo diedro que se volta para a retaguarda e onde se fixam as cordas vocais verdadeiras, cartilagem essa que, por baixo, se une com o anel da cricóide, e, por cima, com o osso hióide, através de membranas e ligamentos, o qual fornece apoio para a implantação do laringe.

Acima das cordas vocais verdadeiras, surgem as cordas vocais falsas a limitarem com a parede os ventrículos laterais de Morgagni. Todos os músculos que garantem o movimento das cordas são pares, exceto o ari-aritenóideo, assegurando as funções da glote vocal e formando, com avançado primor de previsão e eficiência, a abóbada de precioso condicionamento, onde a pressão do ar pode fazer-se com segurança para separar as cordas vocais em serviço.

LINGUAGEM CONVENCIONAL
— Aprende então o homem, com o amparo dos Sábios Tutores que o inspiram, a constituição mecânica das palavras, provindo da mente a força com que aciona os implementos da voz, gerando vibrações nos músculos torácicos, incluindo os pulmões e a traquéia como num fole, e fazendo ressoar o som no laringe e na boca, que exprimem também cavidades supraglótícas, para a criação, enfim, da linguagem convencional, com que reforça a linguagem mímica e primitiva, por ele adquirida na longa viagem através do reino animal.

A esse modo natural de exprimir-se por gestos e atitudes silenciosos, em que derrama as suas forças acumuladas de afetividade e satisfação, desagrado ou rancor, em descargas fluídico-eletromagnéticas de natureza construtiva ou destrutiva, superpõe a criatura humana os valores do verbo articulado, com que acrisola as manifestações mais íntimas, habilitando-se a recolher, por intermédio de sinalética especial na escala dos sons, a experiência dos irmãos que caminham na vanguarda e aprendendo a educar-se para merecer esse tipo de assistência que lhe outorgará o estado de alegria maior, ante as perspectivas da cultura com que a vida lhe responde às indagações.

PENSAMENTO CONTÍNUO
— Com o exercício incessante e fácil da palavra, a energia mental do homem primitivo encontra insopitável desenvolvimento, por adquirir gradativamente a mobilidade e a elasticidade imprescindíveis à expansão do pensamento que, então paulatinamente, se dilata, estabelecendo no mundo tribal todo um oceano de energia sutil, em que as consciências encarnadas e desencarnadas se refletem, sem dificuldade, umas às outras.

Valendo-se dessa instituição de permuta constante, as Inteligências Divinas dosam os recursos da influência e da sugestão e convidam o Espírito terrestre ao justo despertamento na responsabilidade com que lhe cabe conduzir apropria jornada... Pela compreensão progressiva entre as criaturas, por intermédio da palavra que assegura o pronto intercâmbio, fundamenta-se no cérebro o pensamento contínuo e, por semelhante maravilha da alma, as idéias-relâmpagos ou as idéias-fragmentos da crisálida de consciência, no reino animal, se transformam em conceitos e inquirições, traduzindo desejos e idéias de alentada substância íntima.

Começando a fixar o pensamento em si mesmo, fatigando-se para concatená-lo e exprimi-lo, confiou-se o homem a novo tipo de repouso — a meditação compulsória, ante os problemas da própria vida —, passando a exteriorizar, inconscientemente, as próprias idéias e, com isso, a desprender-se do carro denso de carne, desligando as células de seu corpo espiritual das células físicas, durante o sono comum, para receber, em atitude passiva ou de curta movimentação, junto do próprio corpo adormecido, a visita dos Benfeitores Espirituais que o instruem sobre as questões morais. O continuísmo da idéia consciente acende a luz da memória sobre o pedestal do automatismo.

LUTA EVOLUTIVA
— Entre a alma que pergunta, a existência que se expande, a ansiedade que se agrava e o Espírito que responde ao Espírito, no campo da intuição pura, esboça-se imensa luta.

O homem que lascava a pedra e que se escondia na furna, escravizando os elementos com a violência da fera e matando indiscriminadamente para viver, instado pelos Instrutores Amigos que lhe amparam a senda, passou a indagar sobre a causa das coisas...

Constrangido a aceitar os princípios de renovação e progresso, refugia-se no amor-egoísmo, na intimidade da prole, que lhe entretém o campo íntimo, ajudando-o a pensar.

Observa-se tocado por estranha metamorfose. Vê, instintivamente, que não mais se poderia guiar pela excitabilidade dos seus tecidos orgânicos ou pelos apetites furiosos herdados dos animais...

Desligado lentamente dos laços mais fortes que o prendiam às Inteligências Divinas, a lhe tutelarem o desenvolvimento, para que se lhe afirmem as diretrizes próprias, sente-se sozinho, esmagado pela grandeza do Universo. A idéia moral da vida começa a ocupar-lhe o crânio.

O Sol propicia-lhe a concepção de um Criador, oculto no seio invisível da Natureza, e a noite povoa-lhe a alma de visões nebulosas e pesadelos imaginários, dando-lhe a idéia do combate incessante em que a treva e a luz se digladiam. Abraça os filhinhos com enternecimento feroz, buscando a solidariedade possível dos semelhantes na selva que o desafia.

Mentaliza a constituição da família e padece na defesa do lar. Os porquês a lhe nascerem fragmentários, no íntimo, insuflam-lhe aflição e temor.

Percebe que não mais pode obedecer cegamente aos impulsos da Natureza, ao modo dos animais que lhe comungam a paisagem, mas sim que lhe cabe agora o dever de superar-lhes os mecanismos, como quem vê no mundo em que vive a própria moradia, cuja ordem lhe requisita apoio e cooperação.

NASCIMENTO DA RESPONSABILIDADE
— A idéia de Deus iniciando a religião, a indagação prenunciando a Filosofia, a experimentação anunciando a Ciência, o instinto de solidariedade prefigurando o amor puro, e a sede de conforto e beleza inspirando o nascimento das indústrias e das artes, eram pensamentos nebulosos torturando-lhe a cabeça e inflamando-lhe o sentimento.

Nesse concerto de forças, a morte passou a impor-lhe angustiosas perquirições e, enterrando os seus entes amados em sepulcros de pedra, o homem rude, a iniciar-se na evolução de natureza moral, perdido na desértica vastidão do paleolítico, aprendeu a chorar, amando e perguntando para ajustar-se às Leis Divinas a se lhe esculpirem na face imortal e invisível da própria consciência.

Foi, então, que, em se reconhecendo ínfimo e frágil diante da vida, compreendeu que, perante Deus, seu Criador e seu Pai, estava entregue a si mesmo. O princípio da responsabilidade havia nascido.
Pedro Leopoldo, 16-2-58.


15 - Fonte viva - Emmanuel - pág. 387

174. MÃOS ESTENDIDAS
"Estende a tua mão. E ele a estendeu e foi-lhe restituída a sua mão, sã como a outra."- (Marcos, 3:5)
Em todas as casas de fé religiosa, há crentes de mãos estendidas, suplicando socorro... Almas aflitas revelam ansiedade, fraqueza, desesperança e enfermidades do coração.

Não seremos todos nós, encarnados e desencarnados, que algo rogamos à Providência Divina, semelhantes ao homem que trazia a mão seca? Presos ao labirinto por nós mesmos, eis-nos a reclamar o auxílio do Divino Mestre... Entretanto, convém ponderar a nossa atitude.

É justo pedir e ninguém poderá cercear quaisquer manifestações da humildade, do arrependimento, da intercessão. Mas é indispensável examinar o modo de receber. Muita gente aguarda a resposta materializadade Jesus.

Esse espera o dinheiro, aquele conta com a evidência social de improviso, aquele outro exige a imediata transformação das circunstâncias no caminho terrestre... Observemos, todavia, o socorro do Mestre ao paralítico.

Jesus determina que ele estenda a mão mirada e, estendida essa, não lhe confere bolsas de ouro nem fichas de privilégio. Cura-a. Devolve-lhe oportunidade de serviço.

A mão recuperada naquele instante permanece tão vazia quanto antes. É que Cristo restituía-lhe o ensejo bendito de trabalhar, conquistando sagradas realizações por si mesmo; recambiava-o às lides redentoras do bem, nas quais lhe cabia edificar-se e engrandecer-se.

A lição é expressiva para todos os tempos da comunidade cristã. Quando estenderes tuas mãos ao Senhor, não esperes facilidades, ouro, prerrogativas.. Aprende a receber-lhe a assistência, porque o Divino Amor te restaurará as energias, mas não te proporcionará qualquer fuga às realizações do teu próprio esforço.

19 - Pão Nosso - Emmanuel - pág. 17

3. O ARADO
"E Jesus lhe disse: Ninguém que lança mão do arado e olha para trás é apto para o reino de Deus." - (Lucas, 9:62)
Aqui, vemos Jesus utilizar na edificação do Reino Divino um dos mais belos símbolos. Efetivamente, se desejasse, o Mestre criaria outras imagens. Poderia reportar-se às leis do mundo, aos deveres sociais, aos textos da profecia, mas prefere fixar o ensinamento em bases mais simples.

O arado é aparelho de todos os tempos. É pesado, demanda esforço de colaboração entre o homem e a máquina, provoca suor e cuidado e, sobretudo, fere a terra para que produza. Constrói o berço das sementeiras e, à sua passagem, o terreno cede para que a chuva, o sol e os adubos sejam convenientemente aproveitados.

É necessário, pois, que o discípulo sincero tome lições com o Divino Cultivador, abraçando-se ao arado da responsabilidade, na luta edificante, sem dele retirar as mãos, de modo a evitar prejuízos graves à "terra de si mesmo".

Meditemos nas oportunidades perdidas, nas chuvas de misericórdia que caíram sobre nós e que se foram sem qualquer aproveitamento para nosso espírito, no sol de amor que nos vem vivificando há muitos milênios, nos adubos preciosos que temos recusado, por preferirmos a ociosidade e a indiferença.

Examinemos tudo isto e reflitamos no símbolo de Jesus. Um arado promete serviço, disciplina, aflição e cansaço; no entanto, não se deve esquecer que, depois dele, chegam semeaduras e colheitas, pães no prato e celeiros guarnecidos.

22 - Religião dos Espíritos - Emmanuel - pág. 85

RESPONSABILIDADE E DESTINO
Reunião pública de 15.5.59 - Questão n° 470
O Criador, que estabelece o bem de todos como lei para todas as criaturas, não cria Espírito algum para o exercício do mal. A criatura, porém, na Terra ou fora da Terra, segundo o princípio de responsabilidade, ao transviar-se do bem, gera o mal por fecundação passageira de ignorância que ela mesma, atendendo aos ditames da consciência, extirpará do próprio caminho, em tantas existências de abençoada reparação, quantas se fizerem indispensáveis.

Deus concede ao homem os agentes da nitroglicerina e da areia e inspira-lhe a formação da dinamite, por substância explosiva capaz de auxiliá-lo na construção de estradas e moradias, mas o artífice do progresso, quase sempre, abusa do privilégio para arrasar ou ferir, adquirindo dívidas clamorosas em sementeiras de ódio e destruição; empresta-lhe a morfina por alcalóide beneficente, a fim de acalmar-lhe a dor.

Entretanto, enfermo amparado, em muitas ocasiões escarnece do socorro divino, transformando-o em corrosivo entorpecente das próprias forças, com que prejudica as funções de seu corpo espiritual em largas faixas de tempo; galardoa-o com o ferro, por elemento químico flexível e tenaz, de modo a ajudá-lo na indústria e na arte, todavia, o servo da experiência, em muitas circunstâncias, converte-o no instrumento da morte, a desajustar-se em compromissos escusos, que lhe reclamam agonia e suor, em séculos numerosos.

Dá-lhe o ouro por metal nobre, suscetível de enriquecer-lhe o trabalho e desenvolver-lhe a cultura, mas o mordomo da posse nele talha, frequentemente, o grilhão de sovinice e miséria em que se amesquinha a si mesmo; e confere-lhe a onda radiofônica para os serviços da verdadeira fraternidade entre os povos, mas o orientador do intercâmbio, por vezes, nela transmite notas macabras, em que promove o aniquilamento de populações indefesas, agravando-se em débitos aflitivos para o futuro.

É assim que o Supremo Senhor nos cede os dons inefáveis da vida, como sejam as bênçãos do corpo e da alma e os tesouros do amor e da inteligência. Do uso feliz ou infeliz de semelhantes talentos, resultam para nós vitória ou derrota, felicidade ou infortúnio, saúde ou moléstia, harmonia ou desequilíbrio, avanço ou retardamento nos caminhos da evolução.

Examina, pois, a ti mesmo e encontrarás a extensão e a natureza de tua dívida, pela prova que te procura ou pela tentação que padeces, porque o bem verte, puro, de Deus, enquanto que o mal é obra que nos pertence — transitório fantasma de rebeldia e ilusão que criamos, ante as leis do destino, por conta própria.

23 - TEMAS DA VIDA E DA MORTE - MANOEL P. MIRANDA

1 - DESTINO E RESPONSABILIDADE

O primeiro e mais imediato efeito da fé que assenta sobre as bases da razão é a consciência da responsabilidade.

Não tendo o homem senão uma visão estreita da vida, limitada aos curtos horizontes da existência terrena, as suas aspirações tornam-se de breve período e pequena extensão, tendo em vista o término que se anuncia ante o advento da morte.

Pelo contrário, considerando o corpo como sendo uma veste de rápida duração e elaborado para a sua finalidade transitória, embora fundamental ao progresso da alma, dilatam-se as ambições e transferem-se para o futuro, através de um fenômeno natural, sem acomodação ao conformismo, as metas que não podem, de imediato, ser alcançadas.

Os estímulos para a luta fazem-se mais poderosos e as realizações constituem vitórias logradas no dia-a-dia da existência corporal. Por outro lado, os sofrimentos perdem a aparência primitiva e revelam-se como desafios que são colocados ao longo do caminho do progresso, com a finalidade de promover o indivíduo e facultar-lhe a aquisição de valores que, sem esses testes e imposições, permaneceriam adormecidos.

Semeador diligente e responsável, o homem ciente dos seus deveres não tem pressa, tampouco retarda a marcha, porquanto sabe que há época para preparar o solo, ensementá-lo, cuidar das débeis plântulas até que elas respondam corretamente através do fatalismo que lhes jaz inato. Não tem, desse modo, a presunçosa preocupação de colher em solo não semeado, assim como não pretende resultados antes do tempo adequado. Cada ação se dá no seu momento próprio.

O que antes se lhe afigurava enigma ou injustiça, cede lugar a uma ordem natural, com O conhecimento da qual tudo se aclara e revela.

A criança frágil e macerada, enferma e mutilada no corpo ou na mente, não foi criada, como ser algum, no momento do seu nascimento, nem ali se encontra para punir os genitores ou ancestrais mais recuados, cuja conduta arbitrária ou equívoca ensejasse a rude expiação. Pelo contrário, carpe o próprio ser os seus desatinos que foram transferidos de uma para outra existência corporal, qual ocorre com o aluno rebelde e incapaz, que a beneficio dele mesmo como da sociedade, no educandário, ao invés de ser promovido, o que seria uma injustiça, é conservado na mesma classe para revisar os assuntos não assimilados e aprender o que lhe permite a ascensão a outro nível.

Cumprido o áspero período de recuperação e reparação dos erros, aquele ser prisioneiro na dor se liberta e volve à sua individualidade, que reúne todas as suas conquistas prosseguindo em novas etapas de progresso sem o sinete da aflição ou o limite expiatório.

No intervalo entre uma e outra reencarnação, reintegrado nos seus valores intelecto-morais, mantém como pondência mediúnica com os afetos que permanecem no corpo, animando-os e impulsionando-os ao progresso, mediante o qual volverão mais tarde a reunir-se, felizes, em grupos familiares ou fraternais.

Recuperando a lucidez após a morte do corpo físico, compreende a necessidade da provação anterior a que foi submetido, bem como as razões que ligaram os seus pais ao quadro de dor, podendo explicar-lhes tais sucessos e armá-los de valor para procedimentos futuros.

A ignorância, a falta de discernimento, as limitações são corporais, logo superadas após a libertação do cárcere orgânico no qual esteve por breve ou largo período para a redenção educativa.

Pais e filhos crucificados nas traves invisíveis das enfermidades físicas, psíquicas ou morais são comparsas dos mesmos delitos, novamente reunidos para a renovação de propósitos, através do ressarcimento dos débitos que ficaram após a morte anterior e que não foram saldados.

As leis fomentadoras do progresso reúnem os incursos nos mesmos códigos da Justiça e os trazem aos sítios onde delinqüiram, de modo que, juntos outra vez, recomponham a paisagem moral danificada, soerguendo os que ficaram vitimados pela sua tirania ou insensibilidade.

Seria um absurdo, se fosse diferente o comportamento da Divina Sabedoria, brindando a esses seres infelizes da Terra com os desajustes nos quais se estorcegam, não houvesse para eles uma causa anterior ou se lhes concedesse após a morte o paraíso para cuja conquista nada fizeram, tendo-se em vista a impossibilidade em que se encontram para realizá-lo. Deixá-los à própria sorte em qualquer lugar de dor eterna, após tanto sofrimento, constituiria, da mesma forma, aberração maior.

Não se depurasse o criminoso através da reencarnação, e permaneceriam nele as marcas ultrizes dos seus desvarios, resultado da sua imperfeição espiritual, que as experiências sucessivas no corpo logram aprimorar, libertando-o da inferioridade.

Assim, as inteligências que se compraziam na luxuria e na tirania retornam nas patologias da idiotia, assim como os suicidas que esfacelaram o crânio, esmigalhando o cérebro, volvem nas expressões da excepcionalidade, do mongolismo, da hidrocefalia, vinculados àqueles que, de alguma forma, se fizeram comparsas da delinqüência a que se entregaram.

Os quadros complexos das enfermidades que dilaceram os homens restauram-lhes a dignidade perdida e despertam-nos para a valorização dos recursos da vida, que são malbaratados quase sempre com leviandade e prepotência, revolta e presunção, que o egoísmo comanda, soberano.

Às vezes, ficam surpresas muitas pessoas que são aquinhoadas com mensagens afetuosas dos filhos de tenra idade, já desencarnados, de doentes e limitados mentais, como de analfabetos, que ora se expressam com fluidez e correção, preocupados em identificar-se e auxiliar os familiares e amigos que permaneceram na Terra.

Guarde-se na mente que tais dificuldades e prejuízo: pertencem ao corpo, impostos pelo Espírito necessitado de expiar e de reparar faltas, jamais do ser eterno que após a recuperação moral, assume o controle dos seus triunfos e pode expressar-se sem os impositivos constritores do processo de reeducação a que esteve submetido.

Ciente dessa realidade lógica e normal, a responsabilidade assume o comando dos atos atuais do homem, os resultados do seu empreendimento, em face das realizações que se permite.

Não se trata de uma utopia, senão do prosseguimento das atividades que a morte não interrompe, da mesma forma que os planos acalentados antes do berço, após este se desdobram em operações de grave significado para a vida e que vão tomando corpo, à medida que as oportuniidades e os meios se apresentam.

Essa visão responsável da vida confere ao sofrimento o valor que tem: concitar o Espírito endividado ao resgate ou estimulá-lo à conquista de novos títulos de enobrecimento de que necessita para ser feliz.

Não entendendo a linguagem silenciosa, embora operante, do amor e da beleza, em toda parte presentes, o homem não se pode furtar à reflexão, ao exame, quando colhido pela dor ou recambiado ao leito pela provação, ou impedido de seguir conforme lhe apraz, através da expiação que surge, no momento e que menos espera, como a cegueira repentina, a paralisia progressiva sem aparente causa lógica, a hemiplegia ou a paraplegia, a incapacidade para o matrimônio, a reviravolta econômica, que o leva à escassez de recursos, ou os dramas morais, os tormentos emocionais e psíquicos que estrugem de um para outro momento, alterando completamente a programação estabelecida ou o curso dos acontecimentos agradáveis no qual se encontrava.

Em tudo, porem, se apresenta a providencial sabedoria de Deus demonstrando a fugacidade da organização física ante a perenidade da vida em si mesma.

A fé, racionalmente adquirida, responsabilizando o homem, é farol que lhe ilumina o passo em qualquer circunstância, apontando-lhe o rumo seguro por onde segue.

2 - MEDO E RESPONSABILIDADE

O medo é agente de males diversos, que dizimam vidas e deformam caracteres, alucinando uns, neurotizando outros, gerando insegurança e timidez ou levando a atos de violência irracional.

Originário no Espírito enfermo, pode ser examinado como decorrência de três causas fundamentais:

a) conflitos herdados da existência passada, quando os atos reprováveis e criminosos desencadearam sentimentos de culpa e arrependimento que não se consubstanciaram em ações reparadoras;

b) sofrimentos vigorosos que foram vivenciados no além-túmulo, quando as vítimas que ressurgiram da morte açodaram as consciências culpadas, levando-as a martírios inomináveis, ou quando se arrojaram contra quem as infelicitou, em cobranças implacáveis;

c) desequilíbrio da educação na infância atual, com o desrespeito dos genitores e familiares pela personalidade em formação, criando fantasmas e fomentando o temor, em virtude da indiferença pessoal no trato doméstico ou da agressividade adotada.

Em qualquer dos processos referidos, nos quais se origina o medo, este é uma reminiscência que toma corpo na mente e assoma, dominador, culminando por prevalecer ante qualquer decisão ou empenho de quem lhe experimenta a injunção.

Remanescente da encarnação passada, libera os clichês arquivados no inconsciente profundo, estabelecendo alienações auto-obsessivas, em mecanismo punitivo, de que o ser sente necessidade como forma de minorar os efeitos danosos dos atos irresponsáveis e arbitrários praticados.

Não obstante, tal mecanismo de redenção em nada libera o culpado, embora o leve a dores e angústias inomináveis, porque destituído do caráter recuperador dos prejuudicados ou de reparação dos delitos perpetrados.

Se procedente das experiências sofridas fora do corpo, quando na Erraticidade inferior, as recordações pavorosas criam condicionamentos viciosos que atemorizam, fixando-as mais, e, ao mesmo tempo, produzindo instabilidade em relação a quaisquer programas de ação, que se apresentam como áreas perigosas, para a mente em desconcerto, impedindo o rompimento da cortina invisível que se lhe faz obstáculo.

Nascente, na vida atual, em face da família castradora e rude, é ainda o Espírito endividado constrangido a recomeçar a vilegiatura evolutiva, no meio social de que necesssita, a fim de desenvolver os valores da submissão, da autodisciplina e da humildade, lamentavelmente transformados em medo.

O medo torna o homem irresponsável, fraco e pusilâmine.

Provação de grave resultado é instrumento para edificação interior por parte da consciência comprometida.

O medo é tão cruel que, diante de enfermidades irreversíveis e problemas graves de alto porte, induz a sua vítima à morte pelo suicídio, numa forma extravagante de expressar o medo de morrer sob sofrimento demorado desse modo gerando mais rudes aflições a se estenderem por tempo indeterminado.

Cultivado, torna-se fator asfixiante que responde por terríveis prejuízos morais, sociais, mentais e humanos.

É muito complexa a sua órbita de atuação.

Alguns heróis lograram sucessos nos seus empreendimentos, sofrendo-lhe o impulso, enquanto traidores e desertores não lhe puderam resistir à indução.

Na raiz de muitos males encontramo-lo presente. Indispensável combatê-lo com urgência, assim seja notada a sua presença mórbida.

Iniciando por pequenos tentames de atividade relevante, a vítima do medo reconstrói-se interiormente, adquirindo confiança que a encoraja a experiências mais expressivas, portanto, mais difíceis.

Passando, de imediato, a assumir responsabilidade diante dos deveres e atuando com persistência, adquire segurança íntima que a leva a resgatar os seus atentados contra a Consciência Cósmica.

Se fracassa numa empresa, não se intimida, pois compreende que o insucesso é exercício para futuros êxitos e que ninguém é tão perfeito e hábil que não experimente um que outro problema equivalente.

O novo hábito de desincumbir-se das tarefas nobres cria condicionamentos positivos que se vão incorporando ao modus operandi até fazer-se automatismo na área das realizações.

O medo recua, na razão direta em que a disposição de atuar se faz mais forte, da mesma maneira que o inverso é verdadeiro.

Herança moral jacente no Espírito, a este compete o dever de considerar frontalmente a questão e empenhar-se por vencê-lo.

O instinto de conservação da vida induz, muitas vezes, o homem ao medo racional, compreensível, que assuume o comportamento de cuidado, evitando a precipitação, a imprevidência.

Extrapolando, porém, tal condição normal e natural, é gerador de vários distúrbios e conflitos que se instalam e revelam na conduta.

Transfere-se de uma vida para outra esse adversário do progresso humano, permanecendo até quando a firme decisão de elevar-se e ser feliz propele o Espírito à luta sem quartel para superá-lo.

A "parábola dos talentos", narrada por Jesus, confirma a nossa assertiva, quando um dos detentores dos recursos, ao invés de os aplicar, por medo enterrou-os, não logrando multiplicá-los, como sucedeu com os demais, recebendo, em conseqüência, o reproche do amo, que os tomou e os ofereceu a quem houvera feito aplicação com proveito e destemor.

A consciência da responsabilidade é o antídoto para o medo, do que se infere que o desejo de agir, para recuperar-se, comanda a vontade e desarticula as engrenagens maléficas que o desequilíbrio fomentou.

O medo deve ser combatido com todos os valiosos recursos ao alcance, desde a oração à ação feliz.