SACRIFÍCIOS
BIBLIOGRAFIA
01- A plural. dos mundos habitados - pág. 250 02 - Boa Nova - pág. 194
03 - Caminho, verdade e vida - pág. 92, 183, 267 04 - Cinquenta anos depois - pág. 230
05 - De Mário a Tiradentes - pág. 45 06 - Estante da vida - pág. 65, 182
07 - Florações Evangélicas - pág. 99 08 - Guardiães da verdade - pág. 23
09 - Hipnotismo e mediunidade - pág. 240 10 - O alvorecer da espiritualidade - pág. 23
11 - O Evangelho S.o Espiritismo - cap. X, 7 12 - O Livro dos Espíritos - q. 669
13 - O martírio dos suicidas - pág. 166 14 - Pão nosso - pág. 17, 107
15 - Pérolas do Além - pág. 213

16 - Pureza doutrinária - pág. 19

17 - Tambores de Angola - pág. 133 18 - Veladores da luz - pág. 129

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SACRIFÍCIOS – COMPILAÇÃO

01- A pluralidade dos mundos habitados - Camille Flammarion - pág. 250

(..) Essa lei de morte tem, além disso, um triste complemento em nossa espécie, complemento não fatal, esperamos. Os homens, que já estão à frente do combate perpétuo que os seres vivos travam sobre a Terra, levaram ao extremo essa lei desastrosa virando-a contra eles mesmos; e desde a origem das sociedades, entre as civilizações mais avançadas ou em meio à barbárie, a Guerra, iníqua e insensata, tomou as rédeas das nações humanas.

— Crê-lo-eis vós, populações pacíficas do espaço! O homem chegou aqui a tal aberração, que fez dessa Guerra uma deusa, e a adora! Sim, os habitantes da Terra contemplam com veneração este Moloch esfomeado; e, por uma convenção mútua, dão a palma das honras e o diadema da glória aos mais cruéis entre eles, cuja habilidade na carnificina é maior! Eis aí nosso mundo! Glória àquele que amontoa cadáveres nas planícies tingidas de vermelho; glória àquele que enche deles as valas; glória àquele cujo um frenético recruta o maior número de tigres ao redor de seu estandarte sangrento, e faz marchar hordas de carrascos sobre o ventre de nações dilaceradas!

Este estado de coisas que nos domina, que há muito tempo se tornou necessário, porque foi consagrado por nossas instituições políticas, que têm sua origem na lei do mais forte; este estado de coisas é inerente a nossa espécie, cujas necessidades materiais são imperiosas. As primeiras. tribos selvagens que o historiador encontra na origem de todas as nações só puderam subsistir, como os animais, pelo direito da eleição natural, ou seja, pela conquista dos elementos de sua existência.

Antes de saber falar, antes de haver imaginado alguma arte, antes mesmo de haver pensado, esses povos deviam fazer a guerra contra os animais e contra os homens, no momento em que lhes fosse necessário assegurar-se da propriedade de um território; essa guerra ora ofensiva, ora defensiva, cujo único objetivo era fornecer aos combatentes os meios de uma vida segura, fundou os primeiros direitos e os primeiros poderes.

As tribos cresceram, mudaram de território, inquietas com os flagelos da natureza e atraídas pelo atrativo de uma vida mais feliz; elas se sucederam, estabeleceram a pátria e a nacionalidade, e, longe de abandonar entre os apetites primitivos a guerra em que nasceram, cada qual alimentou este monstro devorador que devia com a idade tornar-se ainda maior e mais terrível. Há muito tempo, as ilações, chegadas à maturidade, armaram a guerra por orgulho e ambição; nossas necessidades primitivas estão satisfeitas mas nossa antiga barbárie permaneceu, agravada pelos refinamentos de uma ciência odiosa.

Assim, os vícios de nossa humanidade têm sua origem na própria organização do nosso mundo; a natureza humana está solidariamente ligada a natureza terrestre; se esta fosse superior ao que é presentemente, a primeira teria a mesma superioridade. Não hesitamos em imputar, a essa lei de morte que governa nosso mundo, a causa primeira do vício social de que falamos. Se essa lei terrível não existisse, a humanidade teria vivido desde o primeiro dia no seio da tranquilidade e da felicidade.

A maioria dos males que nos afligem encontraria sua causa primeira no estado de inferioridade de nosso mundo. Indo ao fundo da questão, reconhece-se que nossos vícios particulares, como nossos vícios sociais, não teriam nenhuma razão de ser sobre uma terra que não os provocasse. Se a propriedade, ao menos passageira, dos elementos de nossa existência não nos fosse necessária; se nosso planeta alime tasse seus filhos sem lhes impor condições tão rigorosas, sem submetê-los a tantos sacrifícios, ninguém jamais sonharia em arrebatar objetos gratuitos, o roubo não teria nascido; e com o roubo, a mentira, o assassínio e todos os vícios que têm se princípio na cupidez não teriam aparecido sobre a Terra.

Estando todas as coisas solidárias na natureza, nosso regime, material de um lado, não pode ser espiritual do outro; e enquanto os apetites grosseiros dominavam nosso corpo, todas as paixões de nossa alma deviam ressentir-se disso Então se as mais nobres aspirações de nossa inteligência não podem ter livre curso sob a influência do invólucro terrestre que pesa sobre nós desde o nosso nascimento, todo o nosso ser se encontra absorvido, e é a nosso estado original (estado intimamente modelado pela constituição física do globo) que devemos nos remeter para encontrar a origem de nossas necessidades, nossos desejos e nossas paixões primitivas. Não é nos vícios provenientes da própria civilização que si poderia encontrar ainda um princípio original em nosso estado natural.

Recapitule-se a soma das diversas paixões humanas, desde o fogo dominador do amor físico ao gelo da avareza valetudinária, e será possível encontrar facilmente seu germe nas necessidades inerentes à nossa organização terrestre. Voltemos à lei fundamental da existência, a nossa e a de todos os seres vivos sobre a Terra, a lei que quer que mendiguemos nosso alimento aos restos de outros seres, e que só possamos viver sob a condição de desenterrar as plantas e mandar matar os animais. Pensar-se-á que essa lei é necessária, e que faz parte da ordem absoluta não ser possível viver sem vítimas? Pensar-se-á que em todo os mundos o homem seja forçado a matar e devorar para manter a sua existência? Tal opinião nos pareceria absolutamente falsa.

Por um lado, seria um fenômeno tão extraordinário que certos corpos fossem constituídos de tal maneira que seu organismo trouxesse em si mesmo as condições de uma longa existência? Por outro lado, seria uma suposição muito estranha, imaginar atmosferas alimentícias, atmosferas compostas de elementos nutritivos que se assimilariam a corpos organizados de acordo com as condições delas?

Tão logo se represente o estado da humanidade em tais mundos, onde os homens seriam dispensados das grosseiras necessidades, inerentes à nossa organização terrestre, e que colocam tantos obstáculos ao trabalho de nossas inteligências; tão logo se transporte a esses mundos afortunados onde o homem levaria uma vida mais nobre e generosa, onde as inteligências agiriam com todo o seu poder de ação, com toda a sua liberdade, e tão logo se deixa cair em seguida sobre nosso pobre planeta, onde se travam os combates incessantes da vida contra a morte, compreende-se que alto grau de superioridade esses mundos teriam recebido com relação ao nosso, e quanto os seres que os habitariam estariam elevados acima dos filhos da Terra.

Graças à organização de nosso aparelho pulmonar, nosso sangue se renova incessantemente sem que o saibamos; não precisamos fazer uma refeição de oxigênio para manter a identidade da composição química do nosso sangue, que uma circulação perpétua reconduz das extremidades ao coração; então a atmosfera é mesmo, aqui, um elemento de nossa subsistência, uma parte do alimento de nosso sistema corporal. Não pode acontecer que nos mundos inferiores a respiração difira da nossa e seja forçada a um tipo de alimentação periódica? Reciprocamente, não pode acontecer que nos mundos superiores essa respiração, modificada e completada, seja suficiente para alimentar todo o organismo humano? (...)

02 - Boa Nova - Humberto de Campos - pág. 194

30. MARIA
Junto da cruz, o vulto agoniado de Maria produzia dolorosa e indelével impressão. Com o pensamento ansioso e torturado, olhos fixos no madeiro das perfídias humanas, a ternura materna regredia ao passado em amarguradas recordações. Ali estava, na hora extrema, o filho bem-amado.

Maria deixava-se ir na corrente infinda das lembranças. Eram as circunstâncias maravilhosas em que o nascimento de Jesus lhe fora anunciado, a amizade de Isabel, as profecias do velho Simeão, reconhecendo que a assistência de Deus se tornara incontestável nos menores detalhes de sua vida. Naquele instante supremo, revia a manjedoura, na sua beleza agreste, sentindo que a Natureza parecia desejar redizer aos seus ouvidos o cântico de glória daquela noite inolvidável.

Através do véu espesso das lágrimas, repassou, uma por uma, as cenas da infância do filho estremecido, observando o alarma interior das mais doces reminiscências. Nas menores coisas, reconhecia a intervenção da Providência celestial; entretanto, naquela hora, seu pensamento vagava também pelo vasto mar das mais aflitivas interrogações.

Que fizera Jesus por merecer tão amargas penas? Não o vira crescer de sentimentos imaculados, sob o calor de seu coração? Desde os mais tenros anos, quando o conduzia à fonte tradicional de Nazaré, observava o carinho fraterno que dispensava a todas as criaturas. Frequentemente, ia buscá-lo nas ruas empedradas, onde a sua palavra carinhosa consolava os transeuntes desamparados e tristes. Viandantes misérrimos vinham a sua casa modesta louvar o filhinho idolatrado, que sabia distribuir as bênçãos do Céu.

Com que enlevo recebia os hóspedes inesperados que suas mãos minúsculas conduziam à carpintaria de José!... Lembrava-se bem de que, um dia, a divina criança guiara a casa dois malfeitores publicamente reconhecidos como ladrões do vale de Mizhep. E era de ver-se a amorosa solicitude com que seu vulto pequenino cuidava dos desconhecidos, como se fossem seus irmãos. Muitas vezes, comentara a excelência daquela virtude santificada, receando pelo futuro de seu adorável filhinho.

Depois do caridoso ambiente doméstico, era a missão celestial, dilatando-se em colheita de frutos maravilhosos. Eram paralíticos que retomavam os movimentos da vida, cegos que se reintegravam nos sagrados dons da vista, criaturas famintas de luz e de amor que se saciavam na sua lição de infinita bondade. Que profundos desígnios haviam conduzido seu filho adorado a cruz do suplício?

Uma voz amiga lhe falava ao espírito, dizendo das determinações insondáveis e justas de Deus, que precisam ser aceitas para a redenção divina das criaturas. Seu coração rebentava em tempestades de lágrimas irreprimíveis; contudo, no santuário da consciência, repetia a sua afirmação de sincera humildade: vontade do Senhor!"

— "Faça-se na escrava a vontade do Senhor!" De alma angustiada, notou limite dos padecimentos inenarráveis. Alguns dos populares mais exaltados multiplicavam as pancadas, enquanto as lanças riscavam o ar, em ameaças audaciosas e sinistras. Ironias mordazes eram proferidas a esmo, dilacerando-lhe a alma sensível e afetuosa.

Em meio de algumas mulheres compadecidas, que lhe acompanhavam o angustioso transe, Maria reparou que alguém lhe pousara as mãos, de leve, sobre os ombros. Deparou-se-lhe a figura de João que, vencendo a pusilanimidade criminosa em que haviam mergulhado os demais companheiros, lhe estendia os braços amorosos e reconhecidos. Silenciosamente, o filho de Zebedeu abraçou-se àquele triturado coração maternal. Maria deixou-se enlaçar pelo discípulo querido e ambos, ao pé do madeiro, em gesto súplice, buscaram ansiosamente a luz daqueles olhos misericordiosos, no cúmulo dos tormentos.

Foi aí que a fronte do divino supliciado se moveu vagarosamente, revelando perceber a ansiedade daquelas duas almas em extremo desalento.— "Meu filho! Meu amado filho!..." — exclamou a mártir, em aflição diante da serenidade daquele olhar de melancolia intraduzível. O Cristo pareceu meditar no auge de suas dores, mas, como se quisesse demonstrar, no instante derradeiro, a grandeza de sua coragem e a sua perfeita comunhão com Deus, replicou com significativo movimento dos olhos vigilantes:

— "Mãe, eis aí teu filho!..." — E dirigindo-se, de modo especial, com um leve aceno, ao apóstolo, disse: — "Filho, eis aí tua mãe!" Maria envolveu-se no véu de seu pranto doloroso, mas o grande evangelista compreendeu que o Mestre, na sua derradeira lição, ensinava que o amor universal era o sublime coroamento de sua obra.

Entendeu que, no futuro, a claridade do Reino de Deus revelaria aos homens a necessidade da cessação de todo egoísmo e que, no santuário de cada coração, deveria existir a mais abundante cota de amor, não só para o círculo familiar, senão também para todos os necessitados do mundo, e que no templo de cada habitação permaneceria a fraternidade real, e para que a assistência recíproca se praticasse na Terra, e sem serem precisos os edifícios exteriores, consagrados a uma solidariedade claudicante. Por muito tempo, conservaram-se ainda ali, em preces silenciosas, até que o Mestre, exânime, fosse arrancado à cruz, antes que a tempestade mergulhasse a paisagem castigada de Jerusalém num dilúvio de sombras.

Após a separação dos discípulos, que se dispersaram por lugares diferentes, para a difusão da Boa Nova, Maria retirou-se para a Batanéia, onde alguns parentes mais próximos a esperavam com especial carinho. Os anos começaram a rolar, silenciosos e tristes, para a angustiada saudade de seu coração. Tocada por grandes dissabores, observou que, em tempo rápido, as lembranças do filho amado se convertiam em elementos de ásperas discussões, entre os seus seguidores.

Na Batanéia, pretendia-se manter uma certa aristocracia espiritual, por efeito dos laços consanguíneos que ali a prendiam, em virtude dos elos que a ligavam a José. Em Jerusalém, digladiavam-se os cristãos e os judeus, com veemência e acrimônia. Na Galiléia, os antigos cenáculos simples e amoráveis da Natureza estavam tristes e desertos.

Para aquela mãe amorosa, cuja alma digna observava que o vinho generoso de Cana se transformara no vinagre do martírio, o tempo assinalava sempre uma saudade maior no mundo e uma esperança cada vez mais elevada no céu. Sua vida era uma devoção incessante ao rosário imenso da saudade, às lembranças mais queridas. Tudo que o passado feliz edificara em seu mundo interior revivia na tela de suas lembranças, com minúcias somente conhecidas do amor, e lhe alimentavam a seiva da vida.

Relembrava o seu Jesus pequenino, como naquela noite de beleza prodigiosa, em que o recebera nos braços maternais, iluminado pelo mais doce mistério. Figurava-se-Ihe escutar ainda o balido das ovelhas que vinham, apressadas, acercar-se do berço que se formara de improviso. E aquele primeiro beijo, feito de carinho e de luz? As reminiscências envolviam a realidade longínqua de singulares belezas para o seu coração sensível e generoso. Em seguida, era o rio das recordações desaguando, sem cessar, na sua alma rica de sentimentalidade e ternura. Nazaré lhe voltava à imaginação, com as suas paisagens de felicidade e de luz.

A casa singela, a fonte amiga, a sinceridade das afeições, o lago majestoso e, no meio de todos os detalhes, o filho adorado, trabalhando e amando, no erguimento da mais elevada concepção de Deus, entre os homens da Terra. De vez em quando, parecia vê-lo em seus sonhos repletos de esperança. Jesus lhe prometia o júbilo encantador de sua presença e participava da carícia de suas recordações.

A esse tempo, o filho de Zebedeu, tendo presentes as observações que o Mestre lhe fizera da cruz, surgiu na Batanéia, oferecendo àquele espírito saudoso de mãe o refúgio amoroso de sua proteção. Maria aceitou o oferecimento, com satisfação imensa. E João lhe contou a sua nova vida. Instalara-se definitivamente em Éfeso, onde as idéias cristãs ganhavam terreno entre almas devotadas e sinceras. Nunca olvidara as recomendações do Senhor e, no íntimo, guardava aquele título de filiação como das mais altas expressões de amor universal para com aquela que recebera o Mestre nos braços veneráveis e carinhosos.

Maria escutava-lhe as confidências, num misto de reconhecimento e de ventura. João continuava a expor-lhe os seus planos mais insignificantes. Levá-la-ia consigo, andariam ambos na mesma associação de interesses espirituais. Seria seu filho desvelado, enquanto receberia de sua alma generosa a ternura maternal, nos trabalhos do Evangelho. Demorara-se a vir, explicava o filho de Zebedeu, porque lhe faltava uma choupana, onde se pudessem abrigar; entretanto, um dos membros da família real de Adiabene, convertido ao amor do Cristo, lhe doara uma casinha pobre, ao sul de Éfeso, distando três léguas aproximadamente da cidade. A habitação simples e pobre demorava num promontório, de onde se avistava o mar.

No alto da pequena colina, distante dos homens e no altar imponente da Natureza, se reuniriam ambos para cultivar a lembrança permanente de Jesus. Estabeleceriam um pouso e refúgio aos desamparados, ensinariam as verdades do Evangelho a todos os espíritos de boa-vontade e, como mãe e filho, iniciariam uma nova era de amor, na comunidade universal. Maria aceitou alegremente.

Dentro de breve tempo, instalaram-se no seio amigo da Natureza, em frente do oceano. Éfeso ficava pouco distante; porém, todas as adjacências se povoavam de novos núcleos de habitações alegres e modestas. A casa de João, ao cabo de algumas semanas, se transformou num ponto de assembléias adoráveis, onde as recordações do Messias eram cultuadas por espíritos humildes e sinceros.
Maria externava as suas lembranças. Falava dele com maternal enternecimento, enquanto o apóstolo comentava as verdades evangélicas, apreciando os ensinos recebidos. Vezes inúmeras, a reunião somente terminava noite alta, quando as estrelas tinham maior brilho. E não foi só. (...)

03 - Caminho, verdade e vida - Emmanuel - pág. 92, 183, 267

39 - ENTRA E COOPERA
"E ele, tremendo e atónito, disse: Senhor, que queres que eu faça? Respondeu-lhe o Senhor: — Levanta-te e entra na cidade e lá te será
dito o que te convém fazer." — (ATOS, 9:6.)

Esta particularidade dos Atos dos Apóstolos reveste-se de grande beleza para os que desejam compreensão do serviço com o Cristo.
Se o Mestre aparecera ao rabino apaixonado de Jerusalém, no esplendor da luz divina e imortal, se lhe dirigira palavras diretas e inolvidáveis ao coração, por que não terminou o esclarecimento, recomendando-lhe, ao invés disso, entrar em Damasco, a fim de ouvir o que lhe convinha saber?

É que a lei da cooperação entre os homens é o grande e generoso princípio, através do qual Jesus segue, de perto, a Humanidade inteira, pelos canais da inspiração. O Mestre ensina os discípulos e consola-os através deles próprios. Quanto mais o aprendiz lhe alcança a esfera de influenciação, mais habilitado estará para constituir-se em seu instrumento fiel e justo.

Paulo de Tarso contemplou o Cristo ressuscitado, em sua grandeza imperecível, mas foi obrigado a socorrer-se de Ananias para iniciar a tarefa redentora que lhe cabia junto dos homens.

Essa lição deveria ser bem aproveitada pelos companheiros que esperam ansiosamente a morte do corpo, suplicando transferência para os mundos superiores, tão-somente por haverem ouvido maravilhosas descrições dos mensageiros divinos.

Meditando o ensinamento, perguntem a si próprios o que fariam nas esferas mais altas, se ainda não se apropriaram dos valores educativos que a Terra lhes pode oferecer. Mais razoável, pois, se levantem do passado e penetrem a luta edificante de cada dia, na Terra, porquanto, no trabalho sincero da cooperação fraternal, receberão de Jesus o esclarecimento acerca do que lhes convém fazer.

84 - LEVANTEMO-NOS
"Levantai-vos, vamo-nos daqui." — Jesus. (JOÃO, 14:31.)
Antes de retirar-se para as orações supremas no Horto, falou Jesus aos discípulos longamente, esclarecendo o sentido profundo de sua exemplificação. Relacionando seus pensamentos sublimes, fez o formoso convite inserto no Evangelho de João:— "Levantai-vos, vamo-nos daqui."

O apelo é altamente significativo. Ao toque de erguer-se, o homem do mundo costuma procurar o movimento das vitórias fáceis, atirando-se à luta sequioso de supremacia ou trocando de domicílio, na expectativa de melhoria efêmera. Com Jesus, entretanto, ocorreu o contrário.

Levantou-se para ser dilacerado, logo após, pelo gesto de Judas. Distanciou-se do local em que se achava a fim de alcançar, pouco depois, a flagelação e a morte.

Naturalmente partiu para o glorioso destino de reencontro com o Pai, mas precisamos destacar as escalas da viagem... Ergueu-se e saiu, em busca da glória suprema.

As estações de marcha são eminentemente educativas: -Getsêmani, o Cárcere, o Pretório, a Via Dolorosa, o Calvário, a Cruz constituem pontos de observação muito interessantes, mormente na atualidade, que apresenta inúmeros cristãos aguardando a possibilidade da viagem sobre as almofadas de luxo do menor esforço.

126. ÍDOLOS
"Que vos abstenhais das coisas sacrificadas aos ídolos". - (Atos, 15:29)
Os ambientes religiosos não perceberam ainda toda a extensão do conceito de idolatria. Quando nos referimos a ídolos, tudo parece indicar exclusivamente as imagens materializadas nos altares de pedra. Essa é, porém, a face mais singela do problema. Necessitam os homens exterminar, antes de tudo, outros ídolos mais perigosos, que lhes perturbam a visão e o sentimento.

Demora-se a alma, muitas vezes, em adoração mentirosa. Refere-se o versículo às "coisas sacrificadas aos ídolos", e o homem está rodeado de coisas da vida. Movimentando-as, a criatura enriquece o patrimônio evolutivo. É necessário, no entanto, diferenciar as que se encontram consagradas a Deus das sacrificadas aos ídolos.

A ambição de alcançar os valores espirituais, de acordo com Jesus, chama-se virtude; o propósito de atingir vantagens transitórias no campo carnal, no plano da inquietação injusta, chama-se insensatez.

Os "primeiros lugares", que o Mestre nos recomendou evitemos, representam ídolos igualmente. Não consagrar, portanto, as coisas da vida e da alma ao culto do imediatismo terrestre, é escapar de grosseira posição adorativa.

Quando te encontres, pois, preocupado com os insucessos e desgostos, no círculo individual, não olvides que o Cristo, aceitando a cruz, ensinou-nos o recurso de eliminar a idolatria mantida em nosso caminho por nós mesmos.

04 - Cinquenta anos depois - Emmanuel - pág. 230

(...) Enquanto o coração de Júlia Spinter se sentia tocado das mais dolorosas emoções, o velho e orgulhoso censor exclamava convictamente: - Sim, Helvídio, vamos procurar o traidor quanto antes, a fim de o exterminar, sejam quais forem as consequências; mas, devias ter aniquilado a filha, pois o sangue deve compensar os prejuízos da vergonha, segundo os nossos códigos de honra!... Mas, enfim, ela estará moralmente morta para sempre. Depois de eliminarmos Lólio Urbico, faremos que as cinzas de Célia venham de Cápua para serem recolhidas em Roma, ao jazigo da família.

Ao passo que as duas senhoras, mãe e filha, ficavam no aposento, sucumbidas, consolando-se reciprocamente e rogando a proteção dos deuses para a tragédia inesperada e dolorosa, Fábio e Helvídio dirigiram-se apressadamente para o Capitólio, a fim de exterminarem o inimigo, como se o fizessem a uma serpente imunda e venenosa.Todavia, uma surpresa, tão grande quanto a primeira, os esperava.

No palácio do prefeito dos pretorianos o movimento era desusado e estranho. Antes de atingirem o átrio, os dois patrícios foram informados de que Lólio Urbico havia falecido minutos antes, acreditando-se que se tratava de um suicídio. A morte do marido constava do programa sinistro de Cláudia, agora dona de opulento patrimônio financeiro, porquanto, desse modo, não ficaria voz alguma que pudesse elucidar Helvídio Lucius, quanto à infâmia que a antiga plebéia acreditava haver atirado ao nome de sua esposa.

Além disso, alta madrugada, Sabina tomara de um dos pergaminhos em branco, assinados pelo prefeito, e escreveu, com perfeita imitação caligráfica, um bilhete lacônico, no qual se confessava enfarado da vida, e rogava a Flávio Cornélio, amigo de todos os tempos, perdoasse o dano moral que lhe causara. Penetrando, aturdidos, na casa do inimigo morto, Fábio e Helvídio foram abordados por Cláudia Sabina, que lhes apareceu lacrimosa, naquela manhã trágica.

Depois de se lastimar, comentando a tétrica resolução do esposo em desertar da vida, Sabina entregava ao censor o último bilhete de Urbico, que dizia grafado pelo marido à última hora, deixando transparecer curiosidade a respeito daquele pedido de perdão, injustificável e estranho. Desejava, assim, conhecer os primeiros resultados do trabalho tenebroso de Hatéria, esperando ansiosamente, dos lábios de Helvídio ou de alguma alusão de Fábio, as informações indiretas que o seu espírito vingativo ansiosamente aguardava.

O censor e o genro, entretanto, receberam o suposto bilhete de Urbico com secura e indiferença. E como era preciso dizer alguma coisa em face daquele imprevisto, Fábio Cornélio acrescentou: - Guardarei este bilhete como prova do seu desequilíbrio mental nos últimos momentos, pois só assim se justifica este pedido. E agora, minha senhora - acentuou enigmaticamente para Cláudia, que o ouvia com atenção -, há de perdoar a nossa ausência, porquanto cada qual tem os seus infortúnios...

O velho patrício estendia-lhe as mãos em despedida, mas, sentindo a sua curiosidade fundamente aguçada por aquelas expressões, a antiga plebéia interrogou com interesse, como a provocar algum esclarecimento de Helvídio Lucius, que se fechara em mutismo enigmático. - Infortúnios? Mas que desejais dizer com isso? Pretendeis abandonar-me nesta situação? Qual a razão de sairdes assim, desta casa, quando o cadáver de um amigo e chefe exige testemunhos de veneração e amizade? Porventura aconteceu algo de grave a Alba Lucínia?...

Notava-se que a última pergunta transpirava um sentido misterioso. Ela esperava que Helvídio lhe falasse da sua tragédia doméstica, dos seus profundos desgostos conjugais, da infidelidade da esposa, conforme previa e decorria dos seus planos. Seu coração bastardo aguardava que o homem amado, naquele instante, iria dispensar-lhe as atenções amorosas tão ardentemente aneladas naqueles últimos meses, em que os seus sentimentos mesquinhos haviam acariciado tão grandes esperanças. O tribuno, porém, mantinha-se impassível, como se tivesse os lábios petrificados.

Fábio Cornélio, todavia, sem trair a fibra orgulhosa, esclarecia Sabina nestes termos: - Minha filha vai bem, graças aos deuses, mas também nós acabamos de ser feridos no mais íntimo do coração! Um emissário da Campânia nos trouxe, esta manhã, a dolorosa notícia da morte repentina de minha neta solteira, que se encontrava junto da irmã, numa estação de repouso. Esta a razão que nos impede prestar ao prefeito as derradeiras homenagens, porquanto vínhamos justamente comunicar-lhe a imediata partida para Cápua, a fim de promover o transporte das cinzas!...

Dito isso, os dois homens despediram-se secamente, saindo a passo firme, no burburinho dos amigos e dos servos apressados, que emulavam no patentear a Lólio Urbico a bajulação derradeira. Ante a cena enigmática, Sabina deixava vagar o pensamento em conjeturas. Hatéria ter-se-ia esquecido de cumprir cegamente as suas ordens? Que ocorrera com a rival, cujas notícias a deixavam perplexa, quando tudo premeditara com tanta segurança? Os preconceitos sociais, contudo, as obrigações daquela hora extrema, que a sua própria maldade havia provocado, não lhe permitiam correr como louca no encalço da cúmplice, fosse onde fosse, para matar a curiosidade.

Enquanto o seu espírito se perdia em divagações ansiosas, Fábio Cornélio e o genro dirigiam-se ao Imperador, obtendo a necessária licença para a precisa viagem a Campânia, cedendo-se-lhes, incontinenti, uma galera confortável que os receberia em Ostia, de modo a abreviar a viagem o mais possível. Naquela mesma tarde, a embarcação saía do porto mencionado, conduzindo a família ao seu destino, salientando-se que Helvídio Lucius não se esquecera de levar Hatéria com os outros serviçais de sua confiança.

Enquanto o patriciado romano rende homenagens ao prefeito dos pretorianos e a galera de Helvídio se afasta conduzindo em seu bojo quatro corações angustiados, sigamos a jovem cristã nas suas primeiras horas de amargura e sacrifício. Saindo da casa paterna, Célia atravessou ruas e praças, receosa de encontrar alguém que a reconhecesse no seu doloroso caminho... Conchegava o pequenino de encontro ao coração, como se ele fora seu próprio filho, tal o enternecimento que a sua figurinha lhe inspirava.(...)

11 - O Evangelho Segundo o Espiritismo - Allan Kardec - cap. X, 7

O SACRIFÍCIO MAIS AGRADÁVEL A DEUS
7. Portanto, se estás fazendo a tua oferta diante do altar, e te lembrar aí que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa ali a tua oferta diante do altar, e vai te reconciliar primeiro com teu irmão, e depois virás fazer a tua oferta. (Mateus, V:23-24).

8. Quando Jesus disse: "Vai te reconciliar primeiro com teu irmão, e depois viras fazer a tua oferta", ensinou que o sacrifício mais agradável ao Senhor é o dos próprios ressentimentos; que antes de pedir perdão ao Senhor, é preciso que se perdoe aos outros, e que, se algum mal se tiver feito contra um irmão, é necessário tê-lo reparado.

Somente assim a oferenda será agradável, porque proveniente de um coração puro de qualquer mau pensamento. Ele materializa esse preceito, porque os judeus ofereciam sacrifícios materiais, e era necessário conformar as suas palavras aos costumes do povo. O cristão não oferece prendas materiais, pois que espiritualizou o sacrifício, mas o preceito não tem menos força para ele.

Oferecendo sua alma a Deus, deve apresentá-la purificada. Ao entrar no templo do Senhor, deve deixar lá fora todo sentimento de ódio e de animosidade, todo mau pensamento contra seu irmão. Só então sua prece será levada pelos anjos aos pés do Eterno. Eis o que ensina Jesus por essas palavras: "Deixa ali a tua oferta diante do altar, e vai te reconciliar primeiro com teu irmão", se queres ser agradável a Deus.

14 - Pão nosso - Emmanuel - pág. 17, 107

3 - O ARADO
"E Jesus lhe disse: Ninguém, que lança mão do arado e olha para trás é apto para o reino de Deus."— (LUCAS, 9:62.)
Aqui, vemos Jesus utilizar na edificação do Reino Divino um dos mais belos símbolos. Efetivamente, se desejasse, o Mestre criaria outras imagens. Poderia reportar-se às leis do mundo, aos deveres sociais, aos textos da profecia, mas prefere fixar o ensinamento em bases mais simples.

O arado é aparelho de todos os tempos. É pesado, demanda esforço de colaboração entre o homem e a máquina, provoca suor e cuidado e, sobretudo, fere a terra para que produza. Constrói o berço das sementeiras e, à sua passagem, o terreno cede para que a chuva, o sol e os adubos sejam convenientemente aproveitados.

É necessário, pois, que o discípulo sincero tome lições com o Divino Cultivador, abraçando-se ao arado da responsabilidade, na luta edificante, sem dele retirar as mãos, de modo a evitar prejuízos graves à "terra de si mesmo".

Meditemos nas oportunidades perdidas, nas chuvas de misericórdia que caíram sobre nós e que se foram sem qualquer aproveitamento para nosso espírito, no sol de amor que nos vem vivificando há muitos milênios, nos adubos preciosos que temos recusado, por preferirmos a ociosidade e a indiferença.

Examinemos tudo isto e refutamos no símbolo de Jesus. Um arado promete serviço, disciplina, aflição e cansaço; no entanto, não se deve esquecer que, depois dele, chegam semeaduras e colheitas, pães no prato e celeiros guarnecidos.

48 - COMPREENDAMOS
"Sacrifícios, e ofertas, e holocaustos e oblações pelo pecado não quiseste, nem te agradaram." — Paulo. (HEBREUS, 10:8.)
O mundo antigo não compreendia as relações com o Altíssimo, senão através de suntuosas oferendas e pesados holocaustos. Certos povos primitivos atingiram requintada extravagância religiosa, conduzindo sangue humano aos altares.

Tais manifestações infelizes vão-se atenuando no cadinho dos séculos; no entanto, ainda hoje se verificam lastimáveis pruridos de excentricidade, nos votos dessa natureza. O Cristianismo operou completa renovação no entendimento das verdades divinas; contudo, ainda em suas fileiras costumam surgir absurdas promessas, que apenas favorecem a intromissão da ignorância e do vício.

A mais elevada concepção de Deus que podemos abrigar no santuário do espírito é aquela que Jesus nos apresentou, em no-Lo revelando Pai amoroso e justo, à espera dos nossos testemunhos de compreensão e de amor.

Na própria Crosta da Terra, qualquer chefe de família, consciencioso e reto, não deseja os filhos em constante movimentação de ofertas inúteis, no propósito de arrefecer-lhe a vigilância afetuosa. Se tais iniciativas não agradam aos progenitores humanos, caprichosos e falíveis, como atribuir semelhante falha ao Todo-Misericordioso, no pressuposto de conquistar a benemerência celeste?

É indispensável trabalhar contra o criminoso engano. A felicidade real somente é possível no lar cristão do mundo, quando os seus componentes cumprem as obrigações que lhes competem, ainda mesmo ao preço de heróicas decisões. Com o Nosso Pai Celestial, o programa não é diferente, porque o Senhor Supremo não nos pede sacrifícios e lágrimas e, sim, ânimo sereno para aceitar-lhe a vontade sublime, colocando-a em prática.

LEMBRETE:

1° - "O sacrifício é a prova máxima por que passam os Espíritos que se encaminham para Deus, pois por meio dele se redimem das derradeiras faltas, inundando-se de luminosidade inextinguíveis (...) Amália Domingo Soler

2° - (...) o melhor sacrifício ainda não é o da morte pelo martírio, ou pelo infamante opróbrio dos homens, mas aquele que se realiza com a vida inteira, pelo trabalho e pela abnegação sincera, suportando todas as lutas na renúncia de nós mesmos, para ganhar a vida eterna de que nos falava o Senhor em suas lições divinas. Irmão X

3° - Sacrificar-se é crescer, quem cede para os outros adquire para si mesmo. Francisco C. Xavier

4° - O sacrifício é a lei de elevação. Francisco C. Xavier

5° - O exercício permanente da renúncia divina leva ao sacrifício da própria vida pela Humanidade. É a renúncia profunda da alma que coloca todos os valores do coração a serviço dos semelhantes, para construir a felicidade de todos. Seu coração não vive mais para si, não consegue projetar desejos para si, pois coloca o amor à Humanidade em primeiro lugar. É incansável nos seus trabalhos, multiplica suas forças físicas, morais e espirituais, a fim de ser útil sempre. Tendo tudo para acolher-se ao bem próprio, procura, acima de tudo, o bem para todos. É aquela alma que, podendo exigir, não exige, podendo pedir não pede, podendo complicar em busca de seus justos direitos, não complica. Não pára de servir em circunstância alguma.

Transforma a dor da incompreensão das criaturas mais queridas em um cântico de humildade. Suas dores já não são dores, pois transubstanciou-as na doce alegria de servir com DEUS pela alegria dos semelhantes. A maior manifestação de sacrifício pela Humanidade, em todos os tempos da Terra, é inegavelmente a personalidade divina de Jesus-Cristo. Walter Barcelos

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