SELVAGENS
BIBLIOGRAFIA
01- A clarividência - pág. 84 02 - A evolução anímica - pág. 58
03 - Antologia do perispírito - ref. 1048 04 - Ciência e Espiritismo - pág. 123
05 - Cólera e SIDA/AIDS a realidade - pág. 192 06 - Como vivem os Espíritos - pág. 100
07 - Hipnotismo e Espiritismo - pág. 93, 117 08 - Hipnotismo e mediunidade - pág. 173, 379
09 - Metapsíquica humana - pág. 138 10 - O homem visível e invisível - pág. 87
11 - O Livro dos Espíritos - q. 6, 191, 273, 509, 637, 755,849 12 - O que é a morte - pág. 75, 93,135
13 - Pérolas do além - pág. 197 14 - Pureza Doutrinária - pág. 46
15 - Redescoberta do cristianismo - pág. 16

16 - Revista Espírita 1859 - pág. 150

17 - Revista Espírita 1864 - pág. 241 18 - Voltei - pág. 107

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SELVAGENS – COMPILAÇÃO

02 - A evolução anímica - Gabriel Delanne - pág. 58

OS SELVAGENS
Ao lado da civilização, vegetam seres degredados, que mal poderemos chamar homens. (A sordícia dos Diggers ultrapassa tudo o que se pode imaginar. O mesmo sucede com os selvagens da baía de Motka, (Ilhas Quadro e Vancouvert), que acumulam diante de suas tocas toda a espécie de imundicias. Diz Kolben, referindo-se aos Hotentotes, que nenhum mamífero é mais porco. Algumas tribos são indomáveis e de extrema ferocidade. Dalloux conta, dos Abora, que eles não podem habitar a dois, na mesma lura sem se destruirem, e que a si mesmos se comparam com os tigres).

Entre essas tribos caracterizadas por inferioridade inaudita, costuma dar-se preeminência aos Diggers (Pau-Entaw), índios repelentes, de uma selvajaria extrema, que habitam cavernas da Serra Nevada e são julgados pelos naturalistas mais fidedignos como inferiores, de alguns graus, ao orangotango. O missionário A.L. Krapf, que viu de perto os Dokos do Sul de Kafa e Qurage, na Abissínia, conta que estes selvagens têm todos os traços físicos de grande inferioridade.

Não sabem fazer fogo nem cultivar o solo. Sementes e raízes, arrancadas à unha, constituem a alimentação usual, e felizes se consideram quando podem pilhar um rato, um lagarto, uma serpente. Assim, erram pelas florestas, incapazes de construir uma choça, abrigando-se sob o arvoredo. Ignoram, mais ou menos, o pudor e apenas toleram efêmeros laços familiares, tão certo como as mães abandonarem o filho, ao termo da lactação.

Os Tarungares (Papuas da Costa Oriental) visitados pelo Dr. Meyer, são de um selvagismo inaudito. Completamente nus e privados de todo sentimento moral, antropófagos inveterados, chegam, por vezes, a exumar cadáveres a fim de os devorar. Que diríamos nós se os macacos assim procedessem?

Os Weddas do Ceilão são de pequena estatura, de um tipo abjeto, a fisionomia repulsiva, bestial. A conformação craniana apresenta traços que a aproximam da dos macacos: — nariz chato, prognatismo agudo, à feição de focinho, dentadura saliente. Vivem como animais e mal se abrigam em furnas rupestres, quando faz mau tempo. Tal como os Boschimans, também constróem uma espécie de ninho. O missionário Moffat informa que esses ninhos se assemelham aos dos Antropóides. De fato, sabemos que o orangotango de Sumatra e de Bornéu agasalha-se, em noites frias, construindo um ninho de folhagem.

O sábio e consciencioso naturalista Burmeister opina que muitos selvagens do Brasil se comportam como animais, privados de qualquer inteligência superior. O doutor Avé-Lallement, que, na sua viagem ao norte do Brasil, em 1859, teve ocasião de observar várias tribos ameríndias, compara esses selvagens aos macacos domesticados. "Adquiri — afirma ele — a convicção de existirem também macacos bímanos."

Esta comparação, talvez um tanto exagerada, ressalta, nada obstante, de quase todas as narrativas dos viajantes. O célebre explorador W. Baker diz dos Kytches e dos Latoukas, (africanos) que eles mal se diferenciam dos brutos. Verdadeiros macacos — acrescenta La Gironnière, ao percorrer as montanhas de Luçon (uma das Filipinas), ficou impressionado com o caráter simiesco dos Aetas, cuja voz e gestos dir-se-iam de perfeitos macacos. Darwin, na viagem do "Beagle", chegou a espantar-se quando avistou os Fueguinos.

"Ao contemplar tais seres — escreve —, é difícil acreditar sejam nossos semelhantes e conterrâneos... À noite, cinco ou seis criaturas dessa espécie, nuas e mal protegidas das intempéries de um clima horrível, deitam-se no solo úmido, encolhidas sobre si mesmas e confundidas como verdadeiros brutos."

Aí temos como é insignificante a diferença do homem para o macaco. Distingue-se o nosso ramo por qualquer coisa de verdadeiramente especial? A história natural e a filosofia demonstram que, nem do ponto de vista físico, nem do intelectual, não há diferença essencial. Que, entre o mais inteligente dos animais — o macaco, e o mais embrutecido dos homens haja diferenças, ninguém o negaria, ou o macaco seria um homem.

Tais diferenças, contudo, não passam de graduações ascendentes de um mesmo princípio, que vai progredindo à proporção que anima organismos mais desenvolvidos. Estabeleçamos claramente, com exemplos, essa grande verdade.

Similitude dos organismos humano animal
Já sabemos que os elementos componentes dos tecidos de todos os seres vivos são substancialmente idênticos na composição, e, assim, que a carne de um animal, seja qual for, não se distingue da nossa. O esqueleto dos vertebrados não varia sensivelmente. A noção de um tipo uniforme tornou-se hoje banal. Sabemos todos que há sempre vértebras encimadas de um crânio mais ou menos volumoso, dois membros articulados ao tórax, dois outros à bacia: isso, tanto no homem como no macaco, na águia como na rã.

Sob esse aspecto considerada, a semelhança é tal, que, por mais estranhável que pareça, poder-se-ia conceber viver um homem com um coração de cavalo ou de cachorro. A circulação sanguínea far-se-ia em um, como em outro. Poderíamos atribuir ao homem um pulmão de vitelo, a respirar com a mesma faculdade peculiar ao seu pulmão. O sangue, que nos parece elemento capital da vida, apresenta a mesma identidade no boi, no carneiro, no homem, e os médicos legistas ainda não encontraram método seguro que lhes permita dizer, com certeza, se a nódoa sanguínea de um pano é de origem humana ou animal.

Coração, pulmão, fígado, estômago, sangue, olhos, nervos, músculos, ossatura, é tudo análogo no homem como nos vertebrados. Há menos diferença entre um homem e um cão, do que entre um crocodilo e uma borboleta. Diariamente as descobertas dos naturalistas estabelecem, sobre bases mais sólidas, esta profunda verdade que Aristóteles — grande mestre de coisas naturais — magistralmente exprimiu: a natureza não dá saltos. Perpétuas transições ocorrem entre os seres vivos.

Do homem ao macaco, deste ao cão; da ave ao reptil e deste ao peixe; do peixe ao molusco, ao verme, ao mais ínfimo dos colocados nas fronteiras extremas do mundo orgânico com o mundo inanimado, nenhuma passagem é brusca. O que se dá é sempre uma degradação insensível. Todos os seres se tocam, formam uma formam uma cadeia de vida, que só nos parece interrompida pelo desconhecimento das formas extintas ou desaparecidas.

Nessa hierarquia dos seres, o homem reivindica o primeiro lugar a que tem, certo, incontestável direito; mas, isso não o coloca fora da série, e quer simplesmente dizer que ele é o mais aperfeiçoado dos animais. Não só é impossível fazer do homem um ser destacado do reino animal, como devemos conceituá-lo também ligado aos seres inferiores, visto que, entre animais e vegetais, não há delimitação concebível.

Certo, o vulgar bom senso, como diz Charles Bonnet, distinguirá sempre um gato de uma roseira; mas, se quisermos avançar no estudo dos processos vitais que diferenciam o animal da planta, havemos de ver que não existem mais caracteres próprios do animal que faltem à planta. Porque, de um lado, há plantas que, como as algas, se reproduzem por meio de corpúsculos agilíssimos, e, de outro lado, animais que, no decurso de longa existência permanecem imóveis, aparentemente insensíveis, sem terem mesmo, como a sensitiva, a faculdade de subtrair-se às hostilidades exteriores.
Ao homem é impossível viver de maneira diferente dos outros animais.

O sangue lhe circula do mesmo feitio, o ar é respirado nas mesmas proporções, mercê de idêntico mecanismo. Os alimentos são da mesma natureza, transformados nas mesmas vísceras, mediante as mesmas operações químicas, pois, como temos visto, as condições indispensáveis à manutenção da vida são idênticas para todos os seres. O nascimento não é fenômeno particular. Nos primeiros períodos de vida fetal, é impossível distinguir o embrião humano do canino, ou de outro qualquer vertebrado.

A monera que haja de produzir o "rei da criação" é, originariamente, composta de um simples protoplasma, como a de qualquer vegetal. A morte é também a mesma para toda a série orgânica. Idêntica nas causas, como nos resultados, ou seja, a desorganização da matéria viva, em retorno ao grande laboratório da natureza.

Resumindo: reconhecemos, com os sábios, que, por seus caracteres físicos, o homem em nada se distingue do animal, e que vã tem resultado a tentativa para estabelecer uma linha divisória que lhe permita atribuir-se um lugar privilegiado na criação. Resta-nos examinar se as faculdades intelectuais e morais são de natureza particular e se bastam para criar um abismo intransponível entre a animalidade e a humanidade. (...)

11 - O Livro dos Espíritos - Allan Kardec - questões: 6, 191, 273, 509, 637, 755, 849

Perg. 6 - O sentimento íntimo da existência de Deus, que trazemos conosco, não seria efeito da educação e o produto de idéias adquiridas?
- Se assim fosse, por que os vossos selvagens também teriam esse sentimento?

Perg. 191 - As almas dos nosso selvagens estão no estado de infância?
- Infância relativa, pois são almas já desenvolvidas. Dotada de paixões.

Perg. 273 - Um homem pertecente a uma raça civilizada poderia, por expiação, reencarnar-se numa raça selvagem?
- Sim, mas isso depende do gênero de expiação. Um senhor que tenha sido duro para os seus escravos, poderá tornar-se escravo e sofrer os maus tratos que inflingiu a outros. Aquele que mandou numa época, pode em outra existência, obedecer aos que se curvaram ante a sua vontade. É uma expiação, se ele abusou do poder, e Deus pode determiná-la. Um bom Espírito pode, para os fazer avançar, escolher uma vida de influência entre esses povos. Então se trata de uma missão.

Perg. 509 - Os homens no estado selvagem ou de inferioridade moral têm igualmente seus Espíritos protetores, e nesse caso esses Espíritos são de uma ordem tão elevada como os dos homens adiantados?
- Cada homem tem um Espírito que vela por ele, mas as missões são relativas ao seu objeto. Não dareis a uma criança que aprende a ler um professor de Filosofia. O progreso do Espírito familiar segue o do Espírito protegido. Tendo um Espírito superior que vela por vós, podeis também vos tornar o protetor de um Espírito que vos seja inferior, e o progresso que o ajudardes a fazer contribuirá para o vosso adiantamento. Deus não pede ao Espírito mais do que aquilo que comporte a sua natureza e o grau que tenha atingido.

Perg. 637 - O selvagem que cede ao seu instinto, comendo carne humana, é culpado?
- Eu disse que o mal depende da vontade. Pois bem: o homem é tanto mais culpado, quanto melhor sabe o que faz.
As circunstâncias dão ao bem e ao mal uma gravidade relativa. O homem comete, frequentemente, faltas que, sendo embora decorrentes da posição em que a sociedade o colocou, não são menos repreensíveis; mas a responsabilidade está na razão dos meios que ele tiver para compreender o bem e o mal. É assim que o homem esclarecido que comete uma simples injustiça é mais culpável, aos olhos de Deus, que o selvagem que se entrega aos instintos.

Perg. 755 - Como se explica que nas civilizações mais adiantadas existam criaturas às vezes tão cruéis como os selvagens?
- Da mesma maneira que numa árvore carregada de bons frutos existem os temporão. Elas são, se quiseres, selvagens que só têm da civilização a aparência, lobos extraviados em meio de cordeiros. Os Espíritos de uma ordem inferior, muito atrasados, podem encarnar-se entre homens adiantados com a esperança de também se adiantarem; mas, se a prova for muito pesada, a natureza primitiva reage.

Perg. 849 - Qual é, no homem em estado selvagem, a faculdade dominante: o instinto ou o livre-arbítrio?
- O instinto, o que não o impede de agir com inteira liberdade em certas coisas. Mas, como a criança, ele aplica essa liberdade às suas necessidades e ela se desenvolve com a inteligência. Por conseguinte, tu, que és mais esclarecido que um selvagem, és também mais responsável que ele pelo que fazes.

16 - Revista Espírita 1859 - Allan Kardec - pág. 150

O LIVRO DOS ESPÍRITOS ENTRE OS SELVAGENS
Sabíamos que O LIVRO DOS ESPÍRITOS tem leitores simpáticos em todas as partes do mundo; mas com certeza não teríamos suspeitado encontrá-lo entre os selvagens da América do Sul, não fosse uma carta que nos chegou de Lima, há poucos meses, a qual nos pareceu interessante publicar em tradução integral, à vista do fato significativo que a mesma encerra e cujo alcance facilmente se compreende. Tem a carta um comentário, que dispensa qualquer reflexão de nossa parte.

"Excelentíssimo Senhor Allan Kardec.
Desculpai-me por não vos escrever em francês; compreendo esta língua pela leitura, mas não a escrevo corretamente inteligivelmente. Há mais de dez anos frequento os povos aborígines que habitam a encosta oriental dos Andes, nestas regiões americanas dos confins do Peru.

Vosso Livro aos Espíritos, que adquiri numa viagem a Lima, acompanha-me nestas solidões. Não vos admireis que eu diga tê-lo lido com avidez e que o releio continuamente. Também não viria tomar o vosso tempo com tão pouco, se não fossem certas informações que vos devem interessar e se não desejasse receber os conselhos que espero de vossa bondade, pois não duvido que os vossos sentimentos humanos sejam de acordo com os sublimes princípios de vosso livro.

Estes povos que chamamos selvagens o são menos do que geralmente se pensa. Se se disser que moram em cabanas e não em palácios; que não conhecem as nossas artes e as nossas ciências; que ignoram a etiqueta da gente civilizada, serão verdadeiramente selvagens. Mas em relação à inteligência, encontramos entre eles idéias de uma justeza admirável, uma grande finura de observação e sentimentos nobres e elevados.

Compreendem com maravilhosa facilidade e têm um Espírito incomparavelmente menos tardo que os camponeses da Europa, desprezam aquilo que lhes parece inútil, em relação à simplicidade que lhes basta ao gênero de vida. A tradição de sua mitiga independência é entre eles sempre viva, razão por que tem uma insuperável aversão aos seus conquistadores: mas, se odeiam a raça em geral, ligam-se aos indivíduos que lhes inspiram uma confiança absoluta.

É a essa confiança que devo a sorte de viver na sua intimidade; e, quando me acho em seu meio, sinto-me em maior segurança do que nas grandes cidades. Quando os deixo ficam tristes e me fazem prometer voltar. Quando volto, toda a tribo está em festa. Estas explicações se faziam necessárias pelo seguinte:

Disse-vos que tinha comigo o Livro dos Espiritas. Um dia Inventei de traduzir algumas passagens e fiquei muito surpreendido de ver que eles o compreendiam melhor do que eu supunha, dadas certas observações muito judiciosas que faziam. Eis um exemplo.

A idéia de reviver na Terra lhes parece absolutamente natural. Um dia um deles me perguntou: Quando nós morrermos poderemos renascer entre os Brancos?

-Certamente, respondi. -Então serás, talvez, um dos nossos parentes? É possível. - Com certeza é por isto que és bom para nós e nós te amamos. - Também é possível. -Então quando encontramos um Branco não lhe devemos fazer mal, porque talvez seja um dos nossos irmãos.

Certamente vos admirais, como eu, de tal conclusão de um selvagem e do sentimento de fraternidade que nele brotou. Aliás, para eles não é nova a idéia dos Espíritos: está em suas crenças e eles estão persuadidos de que é possível conversar com os parentes mortos, que nos vêm visitar. O importante é disso tirar partido para os moralizar; e não creio que seja impossível, pois ainda não têm os vícios de nossa civilização.

É para isto que necessito dos vossos conselhos e da vossa experiência. A meu ver, não há razão para supor que só podemos influenciar as criaturas ignorantes falando-lhes aos sentidos. Ao contrário, penso que será entretê-las nessas idéias estultas e lhes desenvolver as inclinações para as superstições. Penso que o raciocínio terá sempre um domínio duradouro, quando nos soubermos colocar no nível das inteligências.

Aguardando a resposta com que, espero, me obsequiareis, recebei, etc. Don Fernando Guerrero.

17 - Revista Espírita 1864 - Allan Kardec - pág. 241

QUESTÕES E PROBLEMAS DESTRUIÇÃO DOS ABORÍGENES DO MÉXICO
Escrevem-nos de Bordeaux:
"Lendo no Civilisateur, de Lamartine, as cartas de Cristóvão Colombo sobre o estado do México no momento da descoberta chamou-nos particularmente a atenção a seguinte passagem: "A natureza, diz Colombo, ali é tão pródiga que a propriedade não criou o sentimento de avareza ou de cupidez. Esses homens parecem viver numa idade de ouro, felizes e tranquilos em meio de jardins abertos sem limites, que não são nem cercados fossos, nem divididos por palissadas, ou defendidos por muros. Agem lealmente um para com o outro, sem leis, sem livros, sem juizes. Olham como um homem mau aquele que se alegra em prejudicar a outro. Este horror dos bons contra os maus parece ser toda a sua legislação.

"Sua religião é apenas o sentimento de inferioridade, o reconhecimento e o amor ao Ser Invisível que lhes havia prodigalizado a vida e a felicidade. "Não há no universo melhor nação nem melhor país; amam aos vizinhos como a si-mesmos; têm sempre uma linguagem suave e graciosa e o sorriso de ternura nos lábios. É verdade que andam nus, mas vestidos de candura e de inocência."

"Conforme este quadro, esses povos eram infinitamente superiores, não só aos seus invasores, mas o seriam ainda hoje, se comparados a países mais civilizados. Os Espanhóis nada tomaram de suas virtudes e os contaminaram com os seus vícios; em troca de sua acolhida, não lhes trouxeram senão a escravidão e a morte. Esses infelizes foram, em grande parte, exterminado e o pouco que deles resta se perverteu ao contacto dos conquistadores. "Ante esses resultados, pergunta-se:

"Onde o progresso, e que benefício moral foi colhido de tanto sangue derramado? Não teria sido melhor que a velha Europa tivesse ignorado o Novo Mundo, tão feliz antes dessa descoberta? "A essa pergunta, assim respondeu meu guia espiritual: "Nós te responderíamos com prazer, se teu Espírito estivesse em estado de tratar, neste momento, de assunto tão sério, que requer alguns desenvolvimentos espírito-filosóficos. Dirige-te a Kardec. Esta ordem de idéias já foi debatida, mas a ela voltar-se-á de maneira mais lúcida do que poderias fazê-lo, porque sempre tens o espírito e o ouvido à espreita. É uma consequência de tua posição atual e tens que te submeter."

Disto ressalta uma primeira instrução: é que não basta ser médium, mesmo formado e desenvolvido, para, à vontade, obter comunicações sobre o primeiro assunto surgido. Aquele fez suas provas mas, no momento, seu Espírito, fortemente e penosamente preocupado com outras coisas, não podia ter a calma necessária, e assim que mil circunstâncias podem opor-se ao exercício da faculdade mediúnica. Nem por isso a faculdade deixa de subsistir, mas nada é sem o concurso dos Espíritos, que lhe dão, ou recusam, conforme julgam conveniente e isto, muitas vezes no Interesse do médium.

Quanto a pergunta principal, eis a resposta dada na Sociedade de Paris: (8 DE JULHO DE 1864. — MÉDIUM: SR. D'AMBEL) "Sob as aparências de uma certa bondade natural, e com costumes mais doces que virtuosos, os Incas viviam despreocupadamente, sem progredir nem se elevar. A essas raças primitivas faltava a luta; e se batalhas sangrentas não os dizimavam; se uma ambição individual ali não exercia uma pressão soberana para lançar aquelas populações a conquistas, elas não eram menos atingidas pelo perigoso vírus que conduzia sua raça à extinção.

Era preciso retemperar as fontes vitais desses Incas abastardados, dos quais os Aztecas representavam a decadência fatal, que deveria ferir todos aqueles povos. Se a essas causas inteiramente fisiológicas, juntarmos as causas morais, notaremos que o nível das ciências e das artes ali tinha igualmente ficado em prolongada infância. Havia, pois, utilidade de pôr esses países pacíficos no nível das raças ocidentais. Hoje se julga a raça desaparecida, porque se fundiu com a dos conquistadores espanhóis. Dessa raça cruzada surgiu uma nação nova e vivaz que, por um vigoroso impulso, não tardará a atingir os povos do velho continente. Que resta de tanto sangue derramado? perguntam de Bordeaux.

Para começar, o sangue derramado não foi tão considerável quanto se poderia crer. Ante as armas de fogo e alguns soldados de Pizarro, toda a região invadida submeteu-se como ante semi-deuses, saídos das águas. É quase um episódio da mitologia antiga e essa raça indiana é, sob vários aspectos, semelhante às que defendiam o Tosão de Ouro."

A essa judiciosa explicação acrescentaremos algumas reflexões. Do ponto de vista antropológico, a extinção das raças é um fato positivo. Do ponto de vista da filosofia, ainda é um problema. Do ponto de vista da religião, o fato é inconciliável com a justiça de Deus, se se admitir para o homem uma única existência corpórea para decidir seu futuro para a eternidade. Com efeito, as raças que se extinguem são sempre raças inferiores às que as sucedem; podem ter na vida futura uma posição idêntica a das raças mais aperfeiçoadas?

O simples bom senso repele esta idéia, pois do contrário o trabalho que fazemos para nos melhorarmos seria inútil, e valeria o mesmo para ficarmos selvagens. A não pré-existência da alma forçosamente implica, para cada raça, a criação de novas almas, mais perfeitas, ao sairem das mãos do Criador, hipótese inconciliável com o princípio de toda justiça. Ao contrário, se admitirmos um mesmo ponto de partida para todas e uma sucessão de existências progressivas, tudo se explica.

Na extinção das raças, geralmente não se leva em conta senão o ser material, único que se destroi, enquanto se esquece o ser espiritual, que é indestrutível e apenas muda de vestimenta, porque a primeira não estava mais em relação com o seu desenvolvimento moral e intelectual. Suponhamos toda a raça negra destruída; não será destruída senão a vestimenta negra. Mas o Espírito, que vive sempre, revestirá, de começo, um corpo intermediário entre o negro e o branco e, mais tarde, um corpo branco. É assim que o ser, colocado no último degrau da humanidade, atingirá, num tempo dado, a soma das perfeições compatíveis com o estado do nosso globo.

Assim, não se deve perder de vista que a extinção das raças só atinge o corpo e em nada afeta o Espírito. Longe de sofrer com isto, ganha o Espírito um instrumento mais aperfeiçoado, provido de cordas cerebrais e respondendo a um maior número de faculdades. O Espírito de um selvagem, encarnado no corpo de um sábio europeu não seria mais sábio e não saberia o que fazer de seu instrumento, cujas cordas inativas atrofiar-se-iam; o Espírito de um sábio, encarnado no corpo de um selvagem, aí seria como um grande pianista ante um plano ao qual faltassem muitas cordas. Esta tese foi desenvolvida num artigo da Revista do abril de 1862, sobre a perfectibilidade da raça negra.

Sem a menor dúvida, a raça branca caucásica é que ocupa o primeiro lugar na terra. Mas atingiu o apogeu da perfeição? Todas as faculdades da alma não estão nela presentes? Quem ousaria dizê-lo? Suponhamos, então, que, progredindo continuamente, os Espíritos desta raça acabassem por se encontrar num apêrto, a raça desapareceria, para dar lugar a outra, de uma organização provida mais ricamente. Assim o quer a lei do progresso. Já não se vêem, na própria raça branca, nuanças muito marcadas, como desenvolvimento moral e intelectual? Podemos ficar certos que os mais adiantados absorverão os outros.

O desaparecimento das raças opera-se de duas maneiras: numas, pela extinção natural, em consequência de condições climatéricas e do abastardamento, quando ficam isoladas; outras, pelas conquistas e pela dispersão, que determinam cruzamentos. Sabe-se que da raça negra e da raça branca saiu uma raça Intermediária, muito superior à primeira, e que é como que uma amostra para os Espíritos desta. Depois, a fusão do sangue traz a aliança dos Espíritos, dos quais os mais avançados ajudam o progresso dos outros. A respeito, quem pode prever as últimas consequências da última guerra da China?

As modificações que se vão produzir nesse longínquo país estacionário, os novos elementos fisiológicos e psicológicos levados para lá? Em alguns séculos talvez não seja mais reconhecível do que o México de hoje, comparado com o do tempo de Colombo. Quanto aos indígenas do México, diremos como Erasto, que não havia entre eles costumes antes doces do que virtuosos e acrescentaremos que, sem dúvida, muito poetizada sua pretensa idade de ouro. Ensina-nos a história da conquista que se guerreavam entre si, o que não indica um grande respeito pelos direitos dos vizinhos. Sua idade de ouro era a da infância; hoje, estão no ardor da juventude; mais tarde atingirão a Idade viril.

Se ainda não têm a virtude dos sábios, adquiriram a inteligência que a ela os conduzirá, quando estiverem maduras pela experiência. Mas são necessários séculos para a educação dos povos; ela não se opera senão pela transformação de seus elementos constitutivos. A França seria o que é hoje sem a conquista dos Romanos? E os bárbaros ter-se-iam civilizado senão tivessem invadido a Gália? A sabedoria gauleza e a civilização romana, unidas ao vigor dos povos do Norte fizeram o povo francês atual.

Sem dúvida é penoso pensar que o progresso por vezes precisa da destruição. Mas é preciso destruir as velhas cabanas substituindo-as por casas novas, mais belas e cômodas. Ali é preciso levar em conta o estado atrasado do globo, onde humanidade está apenas no progresso material e intelectual. Quando entrar no do progresso moral e espiritual, as necessidades morais ultrapassarão as necessidades materiais. Os homens serão governados segundo a justiça e não mais tenham que reivindicar seu lugar à força. Então a guerra e a destruição não mais terão razão de ser. Até lá, a luta é consequência de sua inferioridade moral.

Vivendo mais material que espiritualmente, o homem não encara as coisas senão do ponto de vista atual e material e, por isso, limitado. Até agora, ignorou que o papel capital á do Espírito: viu os seus efeitos, mas não conheceu as causas o por isto que, durante tanto tempo, desencaminhou-se nas ciências, nas suas instituições, e nas suas religiões. Ensinando-lhe a participação do elemento espiritual em todas as coisas mundo, o Espiritismo alarga o seu horizonte e muda o curso de suas idéias. Abre a era do progresso moral.