SUICÍDIO
BIBLIOGRAFIA
01- A crise da morte - pág. 101, 105 02 - Ação e reação - pág. 93, 171
03 -Alerta - pág. 41, 86 04 - Após as tempestades - pág. 78, 84
05 - Crônicas de um e de outro- pág. 39 06 - Da alma humana - pág. 61
07 - Depoimentos vivos - pág. 49, 127, 171 08 - Depois da morte - pág.232
09 - Do país da luz - vol. I, pág. 221 10 - Dramas da obsessão - pág. 18, 28
11 - E a vida continua - pág. 125 12 - Entre o céu e a terra - pág. 211
13 - Falando à Terra - pág.157, 236 14 - Memórias da Loucura - pág.41
15 - Mensagens de além-túmulo - pág. 85

16 - Missionários da luz- pág. 142

17 - Nas pegadas do mestre - pág. 109 18 - No mundo maior - pág. 180
19 - Nosso Lar - pág. 21 20 - O céu e o inferno - 2ª. parte cap. V
21 - O consolador - pág. 96, 149 22 - O Evangelho Seg. o Espiritismo - cap. V
23 - O pensamento de Emmanuel - pág. 213 24 - O que é o Espiritismo - pág. 111
25 - Religião dos Espíritos - pág. 119 26 - Voltas que a vida dá - pág. 13
27 - Temas da vida e da morte - pág. 97, 101 28- Temas de hoje problemas de sempre
29 - Escrínio de Luz - pág. 157  

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SUICÍDIO – COMPILAÇÃO

01 - AÇÃO E REAÇÃO- ANDRÉ LUIZ - PÁG. 93

(...) Nessa altura, Hilário perguntou, inquieto:
— Não teremos, nesse postulado, a consagração do determinismo de ordem absoluta? Se trazemos hoje, no campo mental, tudo aquilo que nos sucederá amanhã...Sânzio, contudo, esclareceu, complacente:— Sim, nas esferas primárias da evolução, o determinismo pode ser considerado irresistível. É o mineral obedecendo a leis invariáveis de coesão e o vegetal respondendo, fiel, aos princípios organogênicos, mas, na consciência humana, a razão e a vontade, o conhecimento e o discernimento entram em função nas forças do destino, conferindo ao Espírito as responsabilidades naturais que deve possuir sobre si mesmo. Por isso, embora nos reconheçamos subordinados aos efeitos de nossas próprias ações, não podemos ignorar que o comportamento de cada um de nós, dentro desse determinismo relativo, decorrente de nossa própria conduta, pode significar liberação abreviada ou cativeiro maior, agravo ou melhoria em nossa condição de almas endividadas perante a Lei.— Mas, ainda mesmo nas piores posições expiatórias — inquiri —, goza a consciência dos direitos inerentes ao livre arbítrio?— Como não? — falou o Ministro, generoso — imaginemos um delinquente monstruoso, segregado na penitenciária. Acusado de vários crimes, permanece privado de toda e qualquer liberdade na enxovia comum. Ainda assim, na hipótese de aproveitar o tempo no cárcere, para servir espontaneamente à ordem e ao bem-estar das autoridades e dos companheiros, acatando com humildade e respeito as disposições da lei que o corrige, atitude essa que resulta de seu livre arbítrio para ajudar ou desajudar a si mesmo, a breve tempo esse prisioneiro começa por atrair a simpatia daqueles que o cercam, avançando com segurança para a recuperação de si mesmo.

O raciocínio era claro, mas, não desejando perder o fio da lição simples e preciosa, indaguei:— Venerável benfeitor, para nossa edificação, poderemos recolher mais amplas anotações sobre a melhor maneira de colaborar com a Lei Divina em nosso próprio favor? Dispomos de algum meio para escapar à justiça? Sânzio sorriu e observou:— Da justiça ninguém fugirá, mesmo porque a nossa consciência, em acordando para a santidade da vida, aspira a resgatar dignamente todos os débitos de que se onerou perante a Bondade de Deus; entretanto, o Amor Infinito do Pai Celeste brilha em todos os processos de reajuste. Assim é que, se claudicamos nessa ou naquela experiência indispensável à conquista da luz que o Supremo Senhor nos reserva, é necessário nos adaptemos à justa recapitulação das experiências frustradas, utilizando os patrimônios do tempo. Figuremos um homem acovardado diante da luta, perpetrando o suicídio aos quarenta anos de idade no corpo físico. Esse homem penetra no mundo espiritual sofrendo as consequências imediatas do gesto infeliz, gastando tempo mais ou menos longo, segundo as atenuantes e agravantes de sua deserção, para recompor as células do veículo perispirítico, e, logo que oportuno, quando torna a merecer o prêmio de um corpo carnal na Esfera Humana, dentre as provas que repetirá, naturalmente se inclui a extrema tentação ao suicídio na idade precisa em que abandonou a posição de trabalho que lhe cabia, porque as imagens destrutivas, que arquivou em sua mente, se desdobrarão, diante dele, através do fenômeno a que podemos chamar «circunstâncias reflexas», dando azo a recônditos desequilíbrios emocionais que o situarão, logicamente, em contacto com as forças desequilibradas que se lhe ajustam ao temporário modo de ser. Se esse homem não houver amealhado recursos educativos e renovadores em si mesmo, pela prática da fraternidade e do estudo, de modo a superar a crise inevitável, muito dificilmente escapará ao suicídio, de novo, porque as tentações, não obstante reforçadas por fora de nós, começam em nós e alimentam-se de nós mesmos.

O esclarecimento era valioso e, por essa razão, interroguei com a curiosidade respeitosa do aluno interessado em aprender:— E como pode a criatura habilitar-se devidamente para resgatar o preço da sua libertação?Sânzio não se deu por surpreendido e replicou, de pronto:— Como qualquer devedor que, de fato, se empenhe na solução dos seus compromissos. Decerto que o homem, sumamente endividado, precisa aceitar restrições no seu conforto para sanar seus débitos com as suas próprias economias. Em razão disso, não pode viver à farta, mas sim com abstinência e suor, de modo a liberar-se tão depressa quanto possível. O grande orientador fez uma pausa de momento, como para refletir, e continuou:— Voltemos ao símbolo da planta. Imaginemos que uma semente de laranjeira caiu em terreno pobre e seco. Segundo as leis que regem as atividades agrícolas, germinará ela sob constringentes obstáculos, transformando-se num arbusto mirrado, com lamentável produção no tempo devido. Mas, se o lavrador lhe acode às necessidades e exigências, desde o início da luta, oferecendo-lhe adubo, água e defesa, tanto quanto ajudando-a com a poda salutar no momento oportuno, a laranjeira atenderá, brilhantemente, ao próprio destino... Semelhantes cuidados, no entanto, devem ser postos em ação, na hora justa, isto é, quando na Terra a alma, e tanto quanto possível deve começar essa restauração nos melhores tempos da jornada física...Hilário, que acompanhava a exposição, fascinado quanto eu mesmo pela lógica daquelas palavras sábias e simples, interrogou:
— E quando a criatura não pode contar, na infância ou na mocidade, com preceptores afeiçoados ao bem, capazes de funcionar como lavradores diligentes, junto daqueles que recomeçam a luta humana?

— Sem dúvida — ponderou o Ministro —, a meninice e a juventude são as épocas mais adequadas à construção da fortaleza moral com que a alma encarnada deve tecer gradativamente a coroa da vitória que lhe cabe atingir. Entretanto, é imperioso entender que, no Espírito consciente, a vontade simboliza o lavrador a que nos reportamos, e o adubo, a irrigação e a poda constituem o serviço incessante a que deve consagrar-se nossa vontade, na recomposição de nossos próprios destinos. Em vista disso, todo minuto da vida é importante para renovar e redimir, aprimorar e purificar. Compreendamos que a tempestade, como símbolo de crise, surgirá para todos, em determinado momento, contudo, quem puder dispor de abrigo certo, superar-lhe-á os perigos com desassombro e valor. A explicação alcançava-nos a mente, qual réstia de Sol penetrando um cubículo escuro. Meu colega, no entanto, voltou a considerar:— Ação por ação, temos igualmente muito trabalho, depois da morte do corpo denso. Assim como perpetramos faltas na carne para sofrer-lhes, muitas vezes, as consequências aqui, é natural que por nossas ações deploráveis, aqui, venhamos a padecer na carne?— Perfeitamente — confirmou Sânzio, bondoso —; nossas manifestações contrárias à Lei Divina, que é, invariavelmente, o Bem de Todos, são corrigidas em qualquer parte. Há, por isso, expiações no Céu e na Terra. (...)

03 - ALERTA - JOANNA DE ÂNGELIS - PÁG. 41, 86

10. GÊNESES DE SUICÍDIOS: A tristeza que agasalhas, levando-te à mortificação interior, de que não te consegues libertar, é fator destrutivo nos alicerces da tua personalidade. A mágoa, que conservas como ácido que te corrói os tecidos do sentimento, constitui morbo que em breve terminará por vencer as tuas resistências. A rebeldia sistemática, a que te agrilhoas, transformará as tuas aspirações duramente acalentadas em resíduos de infelicidade e tormento infindável. Defrontas os problemas que se manifestam no teu dia-a-dia entre a irritação e o desespero, estabelecendo matrizes de aflições que te conduzirão ao auto-aniquilamento. Suicida não é somente aquele que, acionado pelo desconcerto da emotividade se arroja no despenhadeiro da auto-destruição física. Esta melancolia que te busca os painéis da mente, tecendo as malhas da depressão, é sinal de alarme que não podes desconsiderar. Essa aflição que se agiganta, dominando-te o equipamento nervoso, convida-te a uma mudança de atitude, que não deves postergar. Isto que te consome, desaparecendo e ressurgindo em roupagens de configuração nova, é desafio que deves enfrentar com estoicismo, para saires da desarmonia. Mil pequenas injunções contra a tua saúde emocional e mental, que deves rechaçar antes que sejas colhido pelo infortúnio da desencarnação injustificável e precipitada. Sejam quais forem os fatores afugentes ou depressivos que te cheguem, invitando-te ao cultivo do pessimismo ou da irritabilidade, não devem encontrar guarida nos teus painéis mentais. Dor e saudade aferem a força do valor moral de cada um de nós. Enfermidade e desencarnação constituem fenômeno natural no processo biológico em que te encontras situado. Problemas e dificuldades representam prova com que crescemos na direção da vida. Desse modo, realiza a assepsia mental pela pre­servação do otimismo e da irrestrita confiança em Deus. Quando a vida te parecer sem objetivo e estiveres a ponto de cair, renova os teus conceitos e ora, buscando a divina inspiração, haurindo, então, a força que te propiciará sair do ocaso emocional e transformará os teus problemas em ação de benemerência para os teus irmãos, descobrindo, por fim, que a linguagem universal do bem é a terapia preventiva e curadora para o suicídio e a loucura.

28. SUICIDAS TAMBÉM: Os vapores da ira cultivada perturbam o equilíbrio da emoção. Os tóxicos da angústia vitalizada envenenam os centros da harmonia psíquica. As viciações mentais ou físicas mantidas interferem no metabolismo físio-psicológico. A insatisfação demorada desarticula o ritmo da máquina orgânica. A rebeldia sistemática dá gênese a enfermidades complexas. A ociosidade responde por inúmeros distúrbios psíquicos. A ansiedade contínua leva às alienações. O ciúme envilece o caráter e desconcerta a vida. A avareza tisna o discernimento e perturba a organização fisiológica. Quantos cultivam estes e outros semelhantes vírus perigosos adoecem, avançando, insensatamente, para o autocídio total. O suicídio, que decorre do gesto alucinado, levando a vítima a perder os contornos da realidade, choca e produz comoção geral. O suicídio lento, desgastante e fatal, porém, passa despercebido. Pululam, na atualidade, em todos os níveis sociais e econômicos, as vítimas da auto-destruição, por equívocos morais, excessos físicos e leviandades espirituais. Fumantes inveterados, toxicómanos irresponsáveis, alcoólatras sistemáticos, sexólatras atônitos padecendo de estranhas e rudes obsessões, já se encontram a largo trecho da estrada do suicídio infeliz. Há outras formas de anulamento da vida física, a que se entregam inumeráveis vítimas inermes.

No entanto, há tanta beleza e amor convidando à vida! Acautela-te, nas atitudes e comportamentos sadios, preservando a dádiva do corpo com que a Vida te honra, no processo inevitável da evolução. Ora e medita, anulando as constrições negativas de que sejas objeto. Ama e serve indistintamente, arrebentando as algemas morais e emocionais que desejem reter os teus movimentos nobres. E em qualquer situação, segue Jesus, sustentado na fé imortalista, guardando a certeza de que tudo quanto te aconteça ocorre sempre para o teu bem, se te souberes conduzir na difícil circunstância. Por fim, tem em mente que a madrugada colore a treva; suavemente, enquanto a sombra campeia, e que a ressurreição ditosa chegará somente após a passagem pelo túmulo, onde todos despertam para a realidade insofismável da vida.

04 - APÓS A TEMPESTADE - SUICÍDIO - PÁG.84 - JOANNA DE ÂNGELIS

Ato de extrema rebeldia, reação do orgulho desmedido, vingança de alto porte que busca destruir-se ante a impossibilidade de a outrem aniquilar, o suicídio revela o estágio de brutalidade moral em que se demora a criatura humana ... Por um minuto apenas, a revolta atira o ser no dédalo do desvario, conseguindo um tentame de desdita que se alonga por decênios lúridos de amarguras e infortúnios indescritíveis.

Por uma interpretação precipitada, o amor-próprio ferido arroja o homem que se deseja livrar de um problema no poço sem fundo de mais inditosas conjunturas, que somente a peso de demorados remorsos e agonias consegue vencer. .. Sob a constrição de injustificável ciúme, a criatura desforça-se da vida, naufragando em águas encrespadas que a afogam sem a acalmar, de cuja asfixia incessante e tormentosa não logra liberar-se ...

Em nome da dignidade atirada por terra se arroja a pessoa geniosa na covarde fuga pela estrada-sem-fim da cavilosa ilusão, em que carpe, inconsolável, o choro do arrependimento tardio ... Evitando a enfermidade de alongada presença que conduzirá à morte, o impaciente antecipa o momento da libertação e através desse gesto se escraviza por tempo infindável ao desespero e à dor que o afligiam, agravados pela soma dos novos infortúnios infligidos à existência que lhe não compete exterminar. ..

Temendo o sofrimento o suicida impõe-se maior soma de aflições, no pressuposto de que o ato de cobardia encetado seria sancionado pelo apagar da consciência e pelo sono do nada ...... No fundo de todas as razões predisponentes para o autocídio, excetuando-se as profundas neuroses e psicoses de perseguição, as maníaco-depressivas - que procedem de antigas fugas espetaculares à vida e que o espírito traz nos refolhos do ser como predisposições à repetição da falência moral - se encontra o orgulho tentando, pela violência, solucionar questões que somente a ação contínua no bem e a sistemática confiança em Deus podem regularizar com a indispensável eficiência.

Condicionado para os triunfos de fora, não se arma o homem para as conquistas interiores, mediante cujas realizações se imunizaria para as dificuldades naturais da luta com que se encontra comprometido em prol da própria ascensão. Mudam-se as circunstâncias, alteram-se os componentes, variam as condições por piores que se apresentem, mediante o concurso do tempo. À desdita sobrepõe-se a ventura, ao desaire a alegria, ao infortúnio resignado a esperança, quando se sabe converter os espinhos e pedrouços da estrada em flores e bênçãos.

O homem está fadado à ventura e à plenitude espiritual. Não sendo autor da vida, não obstante se faça o usufrutuário nem sempre responsável, é-lhe vedada a permissão de aniquilá-la. Rompe-lhe, pelo impulso irrefletido, a manifestação física, jamais, porém, destrói as engrenagens profundas que lhe acionam a exteriorização orgânica. Toda investida negativa se converte em sobrecarga que deve conduzir o infrator do código de equilíbrio, que vige em todo lugar.

Alguns que se dizem religiosos mas, desassisados, costumam asseverar, irrefletidos, que preferem adiar o resgate, mesmo que sejam constrangidos ulteriormente a imposições mais graves ... Incapazes, no entanto, de suportarem o mínimo, se atribuem possibilidades de, após a falência, arcarem com responsabilidades e encargos maiores. Presunção vã e justificativa enganosa para desertarem do dever!

A si mesmos iludem os que debandam dos compromissos para com a vida. Não morrerão. Ninguém se destrói ante a morte. Províncias de infortúnio, regiões de sombras enxameiam em ambos os lados da vida. Da mesma forma prosseguem além da morte os estados de consciência ultrajada, de mente rebelada, de coração vencido ... Em considerando a problemática das graves quão inprevisíveis desgraças decorrentes do suicídio, convém examinemos, também, a larga faixa dos autocidas indiretos, daqueles que precipitam a hora da desencarnação, mediante os processos mais variados.

São, também, suicidas, os sexólatras inveterados, os viciados deste ou daquele teor, os que ingerem altas cargas de tensão, os que se envenenam com o ódio e se desgastam com as paixões deletérias, os glutões e ociosos, os que cultivam o pessimismo e as enfermidades imaginárias ...

A vida é um poema de amor e beleza esperando por nós. Uma gota d'água transparente, uma nervura de folha, uma partícula de adubo, uma pétala perfumada, uma semente fértil, um raio de sol, o piscar de uma estrela, são desafios à imaginação, à inteligência, à contemplação, à meditação, ao amor!. ..

Há, sem dúvida, agravantes e atenuantes, no exame do suicídio ... Todavia, seja qual for o motivo, a circunstância para o crime de retirada da vida, tal não consegue outro resultado senão o de atirar o delituoso ao encontro da vida estuante, em circunstância análoga àquela da qual pensou evadir-se, com os problemas que não esperava defrontar ... Expungem, sim, na Erraticidade, em inenarráveis condições, os gravames da decisão funesta, e, na Terra, quando retomam, em cruentas expiações, os que defraudam a sagrada concessão divina, que é o corpo plasmado para a glória e a elevação do espírito.

Espera pelo amanhã, quando o teu dia se te apresente sombrio e apavorante. Aguarda um pouco mais, quando tudo te empurrar ao desespero. A Divindade possui soluções que desconheces para todos os enigmas e recursos que te escapam, a fim de elucidar e dirimir equívocos e dificuldades.

Ama a vida e vive com amor - embora constrangido muitas vezes à incompreensão, sob um clima de martírio e sobre um solo de cardos ... Recupera hoje o desperdício de ontem sem pensares, jamais, na atitude simplista do suicídio, que é a mais complexa e infeliz de todas as coisas que podem ocorrer no homem.

Se te parecerem insuportáveis as dores, lembra-te de Jesus, na suprema humilhação da Cruz, todavia confiando em Deus, e de Maria, Sua Mãe, em total angústia, fitando o filho traído, aparentemente abandonado, de alma também trespassada pela dor sem nome, por meio de cuja confiança integral se converteu em exemplo insuperável de resignação e paciência, na sua inquestionável fé em Deus, tornando-se a Mãe Santíssima da Humanidade toda.

08 - DEPOIS DA MORTE - LÉON DENIS - PÁG. 232

(...)A situação dos suicidas tem analogia com a dos criminosos; muitas vezes, é ainda pior. O suicídio é uma covardia, um crime cujas consequências são terríveis. Segundo a expressão de um Espírito, o suicida não foge ao sofrimento senão para encontrar a tortura. Cada um de nós tem deveres, uma missão a cumprir na Terra, provas a suportar para nosso próprio bem e elevação. Procurar subtrair-se, libertar-se dos males terrestres antes do tempo marcado é violar a lei natural, e cada atentado contra essa lei traz para o culpado uma violenta reação. O suicídio não põe termo aos sofrimentos físicos nem morais. O Espírito fica ligado a esse corpo carnal que esperava destruir; experimenta, lentamente, todas as fases de sua decomposição; as sensações dolorosas multiplicam-se, em vez de diminuírem. Longe de abreviar sua prova, ele a prolonga indefinidamente; seu mal-estar, sua perturbação persistem por muito tempo depois da destruição do invólucro carnal. Deverá enfrentar novamente as provas às quais supunha poder escapar com a morte e que foram geradas pelo seu passado. Terá de suportá-las em piores condições, refazer, passo a passo, o caminho semeado de obstáculos, e para isso sofrerá uma encarnação mais penosa ainda que aquela à qual pretendeu fugir. São espantosas as torturas dos que acabam de ser supliciados, e as descrições que delas nos fazem certos assassinos célebres podem comover os corações mais duros, mostrando à justiça humana os tristes efeitos da pena de morte. A maioria desses infelizes acha-se entregue a uma excitação aguda, a sensações atrozes que os tornam furiosos. O horror de seus crimes, a visão de suas vítimas, que parecem persegui-los e trespassá-los como uma espada, alucinações e sonhos horrendos, tal é a sorte que os aguarda.

Muitos, buscando um derivativo a seus males, lançam-se aos encarnados de tendências semelhantes e os impelem ao crime. Outros, devorados pelo fogo inextinguível dos remorsos, procuram, sem tréguas, um refúgio que não podem encontrar. Sob seus passos, ao seu redor, por toda parte, eles julgam ver cadáveres, figuras ameaçadoras e lagos de sangue. Os Espíritos maus sobre os quais recai o peso acabrunhador de suas faltas não podem prever o futuro; nada sabem das leis superiores. Os fluidos que os envolvem privam-nos de toda relação com os Espíritos elevados que queiram arrancá-los à sua inércia, às suas inclinações, pois isso lhes é difícil por causa de sua natureza grosseira, quase material, e do limitado campo de suas percepções; resulta daí uma ignorância completa da própria sorte e uma tendência para acreditarem que são eternos os seus sofrimentos. Alguns, imbuídos ainda de prejuízos católicos, supõem e dizem viver no inferno. Devorados pela inveja e pelo ódio, muitos, a fim de se distraírem de suas aflições, procuram os homens fracos e inclinados ao mal. Apegam-se a eles e insuflam-lhes funestas aspirações. Destes excessos, porém, advêm-lhes, pouco a pouco, novos sofrimentos. A reação do mal causado prende-os numa rede de fluidos mais sombrios. As trevas se fazem mais completas; um círculo estreito forma-se e à sua frente levanta-se o dilema da reencarnação penosa, dolorosa. Mais calmos são aqueles a quem o arrependimento tocou e que, resignados, vêem chegar o tempo das provas ou estão resolvidos a satisfazer a eterna justiça. O remorso, como uma pálida claridade, esclarece vagamente sua alma, permite que os bons Espíritos falem ao seu entendimento, animando-os e aconselhando-os.

19 - NOSSO LAR - ANDRÉ LUIZ - PÁG. 21

ÍTEM 2 - Clarêncio: "Suicida! Suicida! Criminoso! Infame!" - gritos assim, cercavam-me de todos os lados. Onde os sicários de coração empedernido? Por vezes, enxergava-os de relance, escorregadios na treva espessa e, quando meu desespero atingia o auge, atacava-os, mobilizando extremas energias. Em vão, porém, esmurrava o ar nos paroxismos da cólera. Gargalhadas sarcásticas feriam-me os ouvidos, enquanto os vultos negros desapareciam na sombra. Para quem apelar? Torturava-me a fome, a sede me escaldava. Comezinhos fenômenos da experiência material patenteavam-se-me aos olhos. Crescera-me a barba, a roupa começava a romper-se com os esforços da resistência, na região desconhecida. A circunstância mais dolorosa, no entanto, não é o terrível abandono a que me sentia votado, mas o assédio incessante de forças perversas que me assomavam nos caminhos ermos e obscuros. Irritavam-me, aniquilavam-me a possibilidade de concatenar idéias. Desejava ponderar maduramente a situação, esquadrinhar razões e estabelecer novas diretrizes ao pensamento, mas aquelas vozes, aqueles lamentos misturados de acusações nominais, desnorteavam-me irremediavelmente. -Que buscas, infeliz! Aonde vais, suicida? Tais objurgatórias, incessantemente repetidas, perturbavam-me o coração. Infeliz, sim; mas, suicida? - nunca! Essas increpações, a meu ver, não eram procedentes. Eu havia deixado o corpo físico a contragosto.

Recordava meu porfiado duelo com a morte. Ainda julgava ouvir os últimos pareceres médicos, enunciados na Casa de Saúde; lembrava a assistência desvelada que tivera, os curativos dolorosos que experimentara nos dias longos que se seguiram à delicada operação dos intestinos. Sentia, no curso dessas reminiscências, o contacto do termômetro, o pique desagradável da agulha de injeções e, por fim, a última cena que precedera o grande sono: minha esposa ainda jovem e os três filhos contemplando-me, no terror da eterna separação. Depois... o despertar na paisagem úmida e escura e a grande caminhada que parecia sem-fim. Por que a pecha de suicídio, quando fora compelido a abandonar a casa, a família e o doce convívio dos meus? O homem mais forte conhecerá limites à resistência emocional. Firme e resoluto a princípio, comecei por entregar-me a longos períodos de desânimo, e, longe de prosseguir na fortaleza moral, por ignorar o próprio fim, senti que as lágrimas longamente represadas visitavam-me com mais frequência, extravasando do coração. A quem recorrer? Por maior que fosse a cultura intelectual trazida do mundo, não poderia alterar, agora, a realidade da vida. Meus conhecimentos, ante o infinito, semelhavam-se a pequenas bolhas de sabão levadas ao vento impetuoso que transforma as paisagens. Eu era alguma coisa que o tufão da verdade carreava para muito longe.

Entretanto, a situação não modificava a outra realidade do meu ser essencial. Perguntando a mim mesmo se não enlouquecera, encontrava a consciência vigilante, esclarecendo-me que continuava a ser eu mesmo, com o sentimento e a cultura colhidos na experiência material. Persistiam as necessidades fisiológicas, sem modificação. Castigava-me a fome todas as fibras, e, nada obstante, o abatimento progressivo não me fazia cair definitivamente em absoluta exaustão. De quando em quando, deparavam-se-me verduras que me pareciam agrestes, em torno de humildes filetes dágua a que me atirava sequioso. Devorava as folhas desconhecidas, colava os lábios à nascente turva, enquanto mo permitiam as forças irresistíveis, a Impelirem-me para a frente. Muita vez suguei a lama da estrada, recordei o antigo pão de cada dia, vertendo copioso pranto. Não raro, era imprescindível ocultar-me das enormes manadas de seres animalescos, que passavam em bando, quais feras Insaciáveis. Eram quadros de estarrecer! Acentuava se o desalento. Foi quando comecei a recordar que deveria existir um Autor da Vida, fosse onde fosse. Essa idéia confortou-me. Eu, que detestara as religiões no mundo, experimentava agora a necessidade de conforto místico. Médico extremamente arraigado ao negativismo da minha geração, impunha-se-me atitude renovadora. Tornava-se imprescindível confessar a falência do amor-próprio, a que me consagrara orgulhoso.

E, quando as energias me faltaram de todo, quando me senti absolutamente colado ao lodo da Terra, sem forças para reerguer-me, pedi ao Supremo Autor da Natureza me estendesse mãos paternais, em tão amargurosa emergência. Quanto tempo durou a rogativa? Quantas horas consagrei à súplica, de mãos-postas, imitando a criança aflita? Apenas sei que a chuva das lágrimas me lavou o rosto; que todos os meus sentimentos se concentraram na prece dolorosa. Estaria, então, completamente esquecido? Não era, igualmente, filho de Deus, embora não cogitasse de conhecer-lhe a atividade sublime quando engolfado nas vaidades da experiência humana? Por que não me perdoaria o Eterno Pai, quando providenciava ninho às aves inconscientes e protegia, bondoso, a flor tenra dos campos agrestes? Ah! é preciso haver sofrido muito, para entender todas as misteriosas belezas da oração; é necessário haver conhecido o remorso, a humilhação, a extrema desventura, para tomar com eficácia o sublime elixir de esperança. Foi nesse instante que as neblinas espessas se dissiparam e alguém surgiu, emissário dos Céus. Um velhinho simpático me sorriu paternalmente. Inclinou-se, fixou nos meus os grandes olhos lúcidos, e falou:

- Coragem, meu filho! O Senhor não te desampara. Amargurado pranto banhava-me a alma toda. Emocionado, quis traduzir meu júbilo, comentar a consolação que me chegava, mas, reunindo todas as forças que me restavam, pude apenas inquirir:- Quem sois, generoso emissário de Deus? O inesperado benfeitor sorriu bondoso e respondeu:- Chama-me Clarêncio, sou apenas teu irmão. E, percebendo o meu esgotamento, acrescentou:- Agora, permanece calmo e silencioso. É preciso descansar para reaver energias.
Em seguida, chamou dois companheiros que guardavam atitude de servos desvelados e ordenou:- Prestemos ao nosso amigo os socorros de emergência. Alvo lençol foi estendido ali mesmo, à guisa de maca improvisada, aprestando-se ambos os cooperadores a transportarem-me, generosamente. Quando me alçavam, cuidadosos, Clarêncio meditou um instante e esclareceu, como quem recorda inadiável obrigação:- Vamos sem demora. Preciso atingir "Nosso Lar" com a presteza possível. (..)

20 - O CÉU E O INFERNO - ALLAN KARDEC - 2ª. PARTE - CAP. V - PÁG. 295

O SUICIDA DA SAMARITANA: A 7 de abril de 1858, pelas 7 horas da noite, um homem de cerca de 50 anos e decentemente trajado apresentou-se no estabelecimento da Samaritana, de Paris, e mandou que lhe preparassem um banho. Decorridas cerca de 2 horas, o criado de serviço, admirado pelo silêncio do freguês, resolveu entrar no seu gabinete, a fim de verificar o que ocorria. Deparou-se-lhe então um quadro horroroso: o infeliz degolara-se com uma navalha e todo o seu sangue misturava-se à água da banheira. E como a identidade do suicida não pôde ser averiguada, foi o cadáver removido para o necrotério.
1. — Evocação. (Resposta do guia do médium.) — Esperai, ele aí está.
2. — Onde vos achais hoje? — R. Não sei... .dizei-mo.
3. — Estais numa reunião de pessoas que estudam o Espiritismo e que são benévolas para convosco. — R. Dizei-me se vivo, pois este ambiente me sufoca. Sua alma, posto que separada do corpo, está ainda completamente imersa no que poderia chamar-se o turbilhão da matéria corporal; vivazes lhe são as idéias terrenas, a ponto de se acreditar encarnado.
4. — Quem vos impeliu a vir aqui? — R. Sinto-me aliviado.
5. — Qual o motivo que vos arrastou ao suicídio? — B. Morto? Eu? Não... que habito o meu corpo... Não sabeis como sofro!... Sufoco-me... Oxalá que mão compassiva me aniquilasse de vez!
6. — Por que não deixastes indícios que pudessem tornar-vos reconhecível? — R. Estou abandonado; fugi ao sofrimento para entregar-me à tortura.
7. — Tendes ainda os mesmos motivos para ficar incógnito? — R. Sim; não revolvais com ferro candente a ferida que sangra.
8. — Podereis dar-nos o vosso nome, idade, profissão e domicílio? — R. Absolutamente não.
9. — Tínheis família, mulher, filhos? — R. Era um desprezado, ninguém me amava.
10. — E que fizestes para ser assim repudiado? — R. Quantos o são como eu!... Um homem pode viver abandonado no seio da família, quando ninguém o preza.
11. — No momento de vos suicidardes não experimentastes qualquer hesitação? — R. Ansiava pela morte... Esperava repousar.
12. — Como é que a idéia do futuro não vos fez renunciar a um tal projeto? — R. Não acreditava nele, absolutamente. Era um desiludido. O futuro é a esperança.
13. — Que reflexões vos ocorreram ao sentirdes a extinção da vida? — R. Não refleti, senti... Mas a vida não se me extinguiu... minha alma está ligada ao corpo... Sinto os vermes a corroerem-me.
14. — Que sensação experimentastes no momento decisivo da morte? — R. Pois ela se completou?
15. — Foi doloroso o momento em que a vida se vos extinguiu? — R. Menos doloroso que depois. Só o corpo sofreu.
16. — (Ao Espírito S. Luís.) — Que quer dizer o Espírito afirmando que o momento da morte foi menos doloroso que depois? — R. O Espírito descarregou o fardo que o oprimia; ele ressentia a volúpia da dor.
17. — Tal estado sobrevêm sempre ao suicídio? — R. Sim. O Espírito do suicida fica ligado ao corpo até o termo dessa vida. A morte natural é a libertação da vida: o suicídio a rompe por completo.
18. — Dar-se-á o mesmo nas mortes acidentais, embora involuntárias, mas que abreviam a existência? — R. Não. Que entendeis por suicídio? O Espírito só responde pelos seus atos.
Esta dúvida da morte é muito comum nas pessoas recentemente desencarnadas, e principalmente naquelas que, durante a vida, não elevam a alma acima da matéria. É um fenômeno que parece singular à primeira vista, mas que se explica naturalmente. Se a um indivíduo, pela primeira vez sonambulizado, perguntarmos se dorme, ele responderá quase sempre que não, e essa resposta é lógica: o interlocutor é que faz mal a pergunta, servindo-se de um termo impróprio. Na linguagem comum, a idéia do sono prende-se à suspensão de todas as faculdades sensitivas; ora, o sonâmbulo que pensa, que vê e sente, que tem consciência da sua liberdade, não se crê adormecido, e de fato não dorme, na acepção vulgar do vocábulo. Eis a razão por que responde não, até que se familiariza com essa maneira de apreender o fato. O mesmo acontece com o homem que acaba de desencarnar; para ele a morte era o aniquilamento do ser, e, tal como o sonâmbulo, ele vê, sente e fala, e assim não se considera morto, e isto afirmando até que adquira a intuição do seu novo estado. Essa ilusão é sempre mais ou menos dolorosa, uma vez que nunca é completa e dá ao Espírito uma tal ou qual ansie-dade. No exemplo supra ela constitui verdadeiro suplício pela sensação dos vermes que corroem o corpo, sem falarmos da sua duração, que deverá equivaler ao tempo de vida abreviada. Este estado é comum nos suicidas, posto que nem sempre se apresente em idênticas condições, variando de duração e intensidade conforme as circunstâncias atenuantes ou agravantes da falta. A sensação dos vermes e da decomposição do corpo não é privativa dos suicidas: sobrevêm igualmente aos que viveram mais da matéria que do espírito. Em tese, não há falta isenta de penalidades, mas também não há regra absoluta e uniforme nos meios de punição.

O PAI E O CONSCRITO:
No começo da guerra da Itália, em 1859, um negociante de Paris, pai de família, gozando de estima geral por parte dos seus vizinhos, tinha um filho que fora sorteado para o serviço militar. Impossibilitado de o eximir de tal serviço, ocorreu-lhe a idéia de suicidar-se a fim de o isentar do mesmo, como filho único de mulher viúva. Um ano mais tarde, foi evocado na Sociedade de Paris a pedido de pessoa que o conhecera, desejosa de certificar-se da sua sorte no mundo espiritual.
(A S. Luís.) — Podereis dizer-nos se é possível evocar o Espírito a que vimos de nos referir? — R. Sim, e ele ganhará com isso, porque ficará mais aliviado.
1. — Evocação. — R. Oh! obrigado! Sofro muito, mas... é justo. Contudo, ele me perdoará.
O Espírito escreve com grande dificuldade; os caracteres são irregulares e mal formados; depois da palavra mas, ele pára, e, procurando em vão escrever, apenas consegue fazer alguns traços indecifráveis e pontos. É evidente que foi a palavra Deus que ele não conseguiu escrever.
2. — Tende a bondade de preencher a lacuna com a palavra que deixastes de escrever. — R. Sou indigno de escrevê-la.
3. — Dissestes que sofreis; compreendeis que fizestes muito mal em vos suicidar; mas o motivo que vos acarretou esse ato não provocou qualquer indulgência? — R. A punição será menos longa, mas nem por isso a ação deixa de ser má.
4. — Podereis descrever-nos essa punição? — R. Sofro duplamente, na alma e no corpo; e sofro neste último, conquanto o não possua, como sofre o operado a falta de um membro amputado.
5. — A realização do vosso suicídio teve por causa unicamente a isenção do vosso filho, ou concorreram para ele outras razões? — R. Fui completamente inspirado pelo amor paterno, porém, mal inspirado. Em atenção a isso, a minha pena será abreviada.
6. — Podeis precisar a duração dos vossos padecimentos? — R. Não lhes entrevejo o termo, mas tenho certeza de que ele existe, o que é um alívio para mim.
7. — Há pouco não vos foi possível escrever a palavra Deus, e no entanto temos visto Espíritos muito sofredores fazê-lo: será isso uma consequência da vossa punição? — R. Poderei fazê-lo com grandes esforços de arrependimento.
8. — Pois então fazei esses esforços para escrevê-lo, porque estamos certos de que sereis aliviado. (O Espírito acabou por traçar esta frase com caracteres grossos, irregulares e trêmulos: — Deus é muito bom.)
9. — Estamos satisfeitos pela boa-vontade com que correspondestes à nossa evocação, e vamos pedir a Deus para que estenda sobre vós a sua misericórdia. — R. Sim, obrigado.
10. — (A S. Luís.) — Podereis ministrar-nos a vossa apreciação sobre esse suicídio? — R. Este Espírito sofre justamente, pois lhe faltou a confiança em Deus, falta que é sempre punível. A punição seria maior e mais duradoura, se não houvera como atenuante o motivo louvável de evitar que o filho se expusesse à morte na guerra. Deus, que é justo e vê o fundo dos corações, não o pune senão de acordo com suas obras.

OBSERVAÇÕES — À primeira vista, como ato de abnegação, este suicídio poder-se-ia considerar desculpável. Efetivamente assim é, mas não de modo absoluto. A esse homem faltou a confiança em Deus, como disse" o Espírito S. Luís. A sua ação talvez impediu a realização dos destinos do filho; ao demais, ele não tinha a certeza de que aquele sucumbiria na guerra e a carreira militar talvez lhe fornecesse ocasião de adiantar-se. A intenção era boa, e isso lhe atenua o mal provocado e merece indulgência; mas o mal é sempre o mal, e se o não fora, poder-se-ia, escudado no raciocínio, desculpar todos os crimes e até matar a pretexto de prestar serviços. A mãe que mata o filho, crente de o enviar ao céu, seria menos culpada por tê-lo feito com boa intenção? Aí está um sistema que chegaria a justificar todos os crimes cometidos pelo cego fanatismo das guerras religiosas.

Em regra, o homem não tem o direito de dispor da vida, por isso que esta lhe foi dada visando deveres a cumprir na Terra, razão bastante para que não a abrevie voluntariamente, sob pretexto algum. Mas, ao homem — visto que tem o seu livre-arbítrio — ninguém impede a infração dessa lei. Sujeita-se, porém, às suas consequências. O suicídio mais severamente punido é o resultante do desespero que visa a redenção das misérias terrenas, misérias que são ao mesmo tempo expiações e provações. Furtar-se a elas é recuar ante a tarefa aceita e, às vezes, ante a missão que se devera cumprir. O suicídio não consiste somente no ato voluntário que produz a morte instantânea, mas em tudo quanto se faça conscientemente para apressar a extinção das forças vitais. Não se pode tachar de suicida aquele que dedicadamente se expõe à morte para salvar o seu semelhante: primeiro, porque no caso não há intenção de se privar da vida, e, segundo, porque não há perigo do qual a Providência nos não possa subtrair, quando a hora não seja chegada. A morte em tais contingências é sacrifício meritório, como ato de abnegação em proveito de outrem.

22- O EVANGELHO SEGUNDO O ESPÍRITISMO - ALLAN KARDEC - CAPÍTULO V - O SUICÍDIO E A LOUCURA - PÁG. 74

O SUICÍDIO E A LOUCURA: 14. A calma e a resignação adquiridas na maneira de encarar a vida terrena, e a fé no futuro, dão ao Espírito uma serenidade que é o melhor preservativo da loucura e do suicídio. Com efeito, a maior parte dos casos de loucura são provocados pelas vicissitudes que o homem não tem forças de suportar. Se, portanto, graças à maneira por que o Espiritismo o faz encarar as coisas mundanas, ele recebe com indiferença, e até mesmo com alegria, os reveses e as decepções que em outras circunstâncias o levariam ao desespero; é evidente que essa força, que o eleva acima dos acontecimentos, preserva a sua razão dos abalos que o poderiam perturbar.

15. O mesmo se dá com o suicídio. Se excetuarmos os que se verificam por força da embriaguez e da loucura, e que podemos chamar de inconscientes, é certo que, sejam quais forem os motivos particulares, a causa geral é sempre o descontentamento. Ora, aquele que está certo de ser infeliz apenas um dia, e de se encontrar melhor nos dias seguintes, facilmente adquire paciência. Ele só se desespera se não vê um termo para os seus sofrimentos. E o que é a vida humana, em relação à eternidade, senão bem menos que um dia? Mas aquele que não crê na eternidade, que pensa tudo acabar com a vida, que se deixa abater pelo desgosto e pelo infortúnio, só vê na morte o fim dos seus pesares. Nada esperando, acha muito natural, muito lógico mesmo, abreviar as suas misérias pelo suicídio.

16. A incredulidade, a simples dúvida quanto ao futuro, as idéias materialistas, em uma palavra, são os maiores incentivadores ao suicídio: elas produzem a frouxidão moral. Quando vemos, pois, homens de ciência, que se apoiam na autoridade do seu saber, esforçarem-se para provar aos seus ouvintes ou aos seus leitores que eles nada têm a esperar depois da morte, não os vemos tentando convencê-los de que, se são infelizes, o melhor que podem fazer é se matarem? Que poderiam dizer para afastá-los dessa idéia? Que compensação poderão oferecer-lhes? Que esperanças poderão propor-lhes? Nada, além do nada! De onde é forçoso concluir que, se o nada é o único remédio heróico, a única perspectiva possível, mais vale atirar-se logo a ele, do que deixar para mais tarde, aumentando assim o sofrimento.

A propagação das idéias materialistas é, portanto, o veneno que inocula em muitos a idéia do suicídio, e os que se fazem seus apóstolos assumem uma terrível responsabilidade. Com o Espiritismo, a dúvida não sendo mais permitida, modifica-se a visão da vida. O crente sabe que a vida se prolonga indefinidamente para além do cúmulo, mas em condições inteiramente novas. Daí, a paciência e ta resignação, que muito naturalmente afastam a idéia do suicídio. Daí, numa palavra, a coragem moral.

17. O Espiritismo tem ainda, a esse respeito, outro resultado igualmente positivo, e talvez mais decisivo. Ele nos mostra os próprios suicidas revelando a sua situação infeliz, e prova que ninguém pode violar impunemente a lei de Deus, que proíbe ao homem abreviar a sua vida. Entre os suicidas, o sofrimento temporário, em lugar do eterno, nem por isso é menos terrível, e sua natureza dá o que pensar a quem quer que seja tentado a deixar este mundo antes ordem de Deus. O espírita tem, portanto, para opor à idéia do suicídio, muitas razões: a certeza de uma vida futura, na qual ele sabe que será tanto mais feliz quanto mais infeliz e mais resignado tiver sido na Terra; a certeza de que, abreviando sua vida, chega a um resultado inteiramente contrário ao que esperava; que foge de mal para cair noutro ainda pior, mais demorado e mais terrível; que se engana ao pensar que, ao se matar, irá mais depressa para o céu; que o suicídio é um obstáculo à reunião, no outro mundo, com as pessoas de sua afeição, que lá espera encontrar. De tudo isso resulta que o suicídio, só lhe oferecendo decepções, é contrário aos seus próprios interesses. Por isso o número de suicídios que o Espiritismo impede é considerável, e podemos concluir que, quando todos forem espíritas, não haverá mais suicídios conscientes. Comparando, pois, os resultados das doutrinas materialista e espírita, sob o ponto de vista do suicídio, vemos que a lógica de uma conduz a ele, enquanto a lógica de outra o evita, o que é confirmado pela experiência.

24 - O QUE É O ESPIRITISMO - ALLAN KARDEC - CAP. LOUCURA, SUICÍDIO E OBSESSÃO - PÁG. 111

Loucura, suicídio e obsessão: V. — Certas pessoas consideram as idéias espíritas como capazes de perturbar as faculdades mentais, pelo que acham prudente deter-lhes a propagação.
A. K. — Deveis conhecer o provérbio: "Quem quer matar o cão — diz que o cão está danado."
Não é, portanto, estranhável que os inimigos do Espiritismo procurem agarrar-se a todos os pretextos; como este lhes pareceu próprio para despertar temores e suscetibilidades, empregam-no logo, conquanto não resista ao mais ligeiro exame. Ouvi, pois, a respeito dessa loucura, o raciocínio de um louco. Todas as grandes preocupações do espírito podem ocasionar a loucura; as ciências, as artes, a religião mesmo, fornecem o seu contingente. A loucura provém de um certo estado patológico do cérebro, instrumento do pensamento; estando o instrumento desorganizado, o pensamento fica alterado. A loucura é, pois, um efeito consecutivo, cuja causa primária é uma predisposição orgânica, que torna o cérebro mais ou menos acessível a certas impressões; e isto é tão real que encontrareis pessoas que pensam excessivamente e não ficam loucas, ao passo que outras enlouquecem sob o influxo da menor excitação. Existindo uma predisposição para a loucura, toma esta o caráter de preocupação principal, que então se torna idéia fixa; esta poderá ser a dos Espíritos, num indivíduo que deles se tenha ocupado, como poderá ser a de Deus, dos anjos, do diabo, da fortuna, do poder, de uma ciência, da maternidade, de um sistema político ou social. É provável que o louco religioso se tivesse tornado um louco espírita, se o Espiritismo fosse a sua preocupação dominante.

É certo que um jornal disse que se contavam, só em uma localidade da América, de cujo nome não me recordo, 4.000 casos de loucura espírita; mas é também sabido que os nossos adversários têm a idéia fixa de se crerem os únicos dotados de razão; é uma esquisitice como outra qualquer. Para eles, nós somos todos dignos de um hospital de doidos, e, por consequência, os 4.000 espíritas da localidade em questão eram considerados como loucos. Dessa espécie, os Estados Unidos contam centenas de milhares, e todos os países do mundo um número ainda muito maior. Esse gracejo de mau gosto começa a não ter valor, desde que tal moléstia vai invadindo as classes mais elevadas da sociedade. Falam muito do caso de Vitor Hennequin, mas se esquecem que, antes de se ocupar com os Espíritos, já ele havia dado provas de excentricidade nas suas idéias; se as mesas girantes não tivessem então aparecido (as quais, segundo um trocadilho bem espirituoso dos nossos adversários, lhe fizeram girar a cabeça), sua loucura teria seguido outro rumo. Eu digo, pois, que o Espiritismo não tem privilégio algum, nesse sentido; mas vou ainda além: afirmo que, bem compreendido, ele é um preservativo contra a loucura e o suicídio.

Entre as causas mais numerosas de excitação cerebral, devemos contar as decepções, os desastres, as afeições contrariadas, as quais são também as mais frequentes causas do suicídio. Ora, o verdadeiro espírita vê as coisas deste mundo de um ponto de vista tão elevado, que as tribulações não são para eles senão os incidentes desagradáveis de uma viagem. Aquilo que em outro qualquer produziria violenta comoção, afeta-o mediocremente. Ele sabe que os dissabores da vida são provas que servirão para o seu adiantamento, se as sofrer sem murmurar, porque sua recompensa será proporcional à coragem com que as houver suportado. Suas convicções dão-lhe, pois, uma resignação que o preserva do desespero e, por consequência, de uma causa incessante de loucura e de suicídio. Ele sabe, além disso, pelo espetáculo que lhe dão as comunicações com os Espíritos, a sorte deplorável dos que abreviam voluntariamente os seus dias, e este quadro é bem de molde a fazê-lo refletir; também é considerável o número dos que por esse meio têm sido detidos nesse funesto declive. É um dos grandes resultados do Espiritismo.

Em o número das causas de loucura, devemos também colocar o medo, principalmente do diabo, que já tem desarranjado mais de um cérebro. Sabe-se o número de vítimas que se tem feito, ferindo as imaginações fracas com esse painel que, por detalhes horrorosos, capricham em tornar mais assustador. O diabo, dizem, só causa medo às crianças, é um freio para corrigi-las; sim, como o papão e o lobisomem, que as contêm por algum tempo, tornando-se elas piores que antes, quando lhes perdem o medo; mas, em troca desse pequeno resultado, não contam as epilepsias que têm sua origem nesse abalo de cérebros tão delicados. Não confundamos a loucura patológica com a obsessão; esta não provém de lesão alguma cerebral, mas da subjugação que Espíritos malévolos exercem sobre certos indivíduos, e que, muitas vezes, têm as aparências da loucura propriamente dita. Esta afecção, muito frequentemente, é independente de qualquer crença no Espiritismo e existiu em todos os tempos. Neste caso, a medicação comum é impotente e mesmo prejudicial. Fazendo conhecer esta nova causa de perturbação orgânica, o Espiritismo nos oferece, ao mesmo tempo, o único meio de vencê-la, agindo não sobre o enfermo mas sobre o Espírito obsessor. O Espiritismo é o remédio e não a causa do mal.

25 - RELIGIÃO DOS ESPÍRITOS - EMMANUEL - PÁG. 119

Suicídio - Reunião pública de 3-7-59 Questão n°. 957: No suicídio intencional, sem as atenuantes da moléstia ou da ignorância, há que considerar não somente o problema da infração ante as Leis Divinas, mas também o ato de violência que a criatura comete contra si mesma, através da premeditação mais profunda, com remorso mais amplo. Atormentada de dor, a consciência desperta no nível de sombra a que se precipitou, suportando compulsoriamente as companhias que elegeu para si própria, pelo tempo indispensável à justa renovação. Contudo, os resultados não se circunscrevem aos fenômenos de sofrimento íntimo, porque surgem os desequilíbrios consequentes nas sinergias do corpo espiritual, com impositivos de reajuste em existências próximas. É assim que após determinado tempo de reeducação, nos círculos de trabalho fronteiriços da Terra, os suicidas são habitualmente reinternados no plano carnal, em regime de hospitalização na cela física, que lhes reflete as penas e angústias na forma de enfermidades e inibições. Ser-nos-á fácil, desse modo, identificá-los, no berço em que repontam, entremostrando a expiação a que se acolhem.

Os que se envenenaram, conforme os tóxicos de que se valeram, renascem trazendo as afecções valvulares, os achaques do aparelho digestivo, as doenças do sangue e as disfunções endocrínicas, tanto quanto outros males de etiologia obscura; os que incendiaram a própria carne amargam as agruras da ictiose ou do pênfigo; os que se asfixiaram, seja no leito das águas ou nas correntes de gás, exibem os processos mórbidos das vias respiratórias, como no caso do enfisema ou dos cistos pulmonares; os que se enforcaram carreiam consigo os dolorosos distúrbios do sistema nervoso, como sejam as neoplasias diversas e a paralisia cerebral infantil; os que estilhaçaram o crânio ou deitaram a própria cabeça sob rodas destruidoras, experimentam desarmonias da mesma espécie, notadamente as que se relacionam com o cretinismo, e os que se atiraram de grande altura reaparecem portando os padecimentos da distrofia muscular progressiva ou da osteíte difusa.

Segundo o tipo de suicídio, direto ou indireto, surgem as distonias orgânicas derivadas, que correspondem a diversas calamidades congênitas, inclusive a mutilação e o câncer, a surdez e a mudez, a cegueira e a loucura, a representarem terapêutica providencial na cura da alma. Junto de semelhantes quadros de provação regenerativa, funciona a ciência médica por missionária da redenção, conseguindo ajudar e melhorar os enfermos de conformidade com os créditos morais que atingiram ou segundo o merecimento de que disponham. Guarda, pois, a existência como dom inefável, porque teu corpo é sempre instrumento divino, para que nele aprendas a crescer para a luz e a viver para o amor, ante a glória de Deus.

27 - TEMAS DA VIDA E DA MORTE - MANOEL P. DE MIRANDA - PÁG. 97, 101

SUICÍDIO - SOLUÇÃO INSOLVÁVEL
O suicídio é remanescente do primitivismo humano, que permanece arrebanhando as vítimas indefensas, que lhe tombam nas urdiduras intrincadas. Decorrência da revolta espiritual do ser ante as circunstâncias, os acontecimentos e estados da alma que lhe parecem adversos, é a solução enganosa a que se deixam conduzir todos aqueles que preservam os seus conflitos e os fixam na área mental da insatisfação e do desespero sistemático.

A ingorância propositada ou a reação consciente aos Estatutos divinos, que pessoa alguma, na chamada civilização hodierna, pode ingorar, produzem a indeferença pelos valores sublimes da vida, liberando o homem da responsabilidade e do dever de lutar, obstanto-lhe a perseverança nos objetivos relevantes a que se deve entregar.

Os "instintos agressivos", não disciplinados, explodem-lhe, em rebelião indômita, em face do menor desgosto real ou imaginário, diante de qualquer insucesso natural em todos os empreendimentos, fazendo que seja estabelecida uma neurose depressiva de culpa ou de transferência, acusando-se e autopunindo-se ou responsabilizando os outros, a sociedade, assim se arrojando no poço sem fundo da autodestruição, que apenas atinge o corpo.

Os comportamentos materialistas, em modernas escolas da psicologia, pretendem relacionar o suicídio com baixas cargas da serotonina no cérebro, facilitando a compreensão do episódio autocida graças a um neurotransmissor de natureza química. Sem dúvida, nessas dezenas de substâncias químicas que atuam como neurotransmissores no controle da atividade cerebral, respondendo pela área da emoção, defrontamos as causas de muitas ocorrências psíquicas, emocionais e físicas. Contudo, são, por sua vez, efeito de outros fatores mais profundos, aqueles que procedem do Espírito que comanda a câmara cerebral, exteriorizando-se na mente e na fisiologia desses microinstrumentos que constituem a sede física ao pensamento e de outras igualmente importantes funções da vida humana.

É possível que os distúrbios serotônicos respondam pelo ato alucinado, muito embora não deixam de ser o resultado de agentes psicológicos mais sutis e graves, como a angústia, a insegurança, os conturbadores fenômenos psicossociais e econômicos, as enfermidades crucificadoras, o sentimento de desamparo e de perda, todos com sede na alma imatura e ingrata, fraca de recursos morais para sobrepô-los às contingências transitórias desses propelentes ao ato extremo. O espetáculo trágico, todavia, assume gravidade e constrangimento maiores, quando crianças, que ainda não dispõem do discernimento, optam pela aberrante decisão.

Amadurecidas precipitadamente, em razão dos lares desajustados e das famílias desorganizadas; atiradas à agressividade e aos jogos fortes que a atual sociedade lhes brinda, extirpando-lhes a infância não vivida, sobrecarregam-se de angústias e frustrações que as desgastam, retirando-lhes da paisagem mental a esperança e o amor. Vazias, desprotegidas do afeto que alimenta os centros vitais de energia e beleza, vêem-se sem rumo, fugindo, desditosas, pela porta mentirosa do suicídio.

Ademais, grande número delas, suicidas do passado, renascem com as impressões do gesto anterior, e porque desarmadas, na sua quase totalidade, de equilíbrio, vendo, ouvindo e participando dos dramas em que se enleiam os adultos que as não respeitam, antes considerando-as pesados ônus que devem pagar, repetem o ato infeliz, tombando nas refregas de dor, que posteriormente as trarão de volta em expiações muito laceradoras. Uma análise mais íntima do fenômeno autodestruidor leva também a sutis ou violentas obsessões que o amor enlouquecido e o ódio devastador fomentam, além da cortina carnal. O suicídio é terrível mal que aumenta na Humanidade e que deve ser combatido por todos os homens.

Essa rigidez mental que resolve pela solução trágica é doença complexa. Conscientizar as criaturas a respeito das consequências do ato, no além-túmulo, das dores que maceram os familiares e do ultraje às Leis Divinas, é método salutar para diminuir a incidência dessa solução insolvável. Dialogar com bondade e paciência com as pessoas que têm propensão para o suicídio; sugerir-lhes dar-se um pouco mais de tempo, enquanto o problema altera a sua configuração; evitar oferecer bases ilusórias para esperanças fugazes que o tempo desmancha; estimular a valorização pessoal; acender uma luz no túnel do seu desespero, entre outros recursos, constituem terapia preventiva, que se fortalecerá no exercício da oração, das leituras otimistas, espirituais, nos passos e no uso da água fluidificada.

Aquele que tenta o suicídio e não o vê consumado, é candidato natura à recidiva, que culmina tão logo se lhe apresenta o móvel desencadeador do desejo... O suicídio é o mais grosseiro vestígio da fragilidade humana, que ata o homem ao primarismo de que se deve libertar. O homem é, na verdade, a mais alta realização do pensamento divino, na Terra, caminhando para a glória total, mediante as lutas e os sacríficios do dia-a-dia.

SUICÍDIO SEM DOR
A cegueira propiciada pelo materialismo, no momento da defecção da matéria, ora identificada como "energia condensada", tem levado alguns teóricos das filosofias pessimistas a proporem o suicídio como solução para os dissabores, insucessos e sofrimentos defrontados. Fórmula de efeitos contrários, apresenta-se simplista, como se fora constituída de elementos mágicos propiciadores para a equação final e definitiva de todos os acontecimentos da vida.

Sonho que se converte em pesadelo inominável, reaparece, na atualidade, sob emulações alucinadas, fascinando os desencorajados na luta e os fracos de resistência morais para os enfrentamentos inevitáveis. Selecionam e propõem, esses investigadores da ilusão, quais as mais eficazes técnicas para o autocídio sem dor, induzindo as criaturas desnorteadas para o mergulho da consciência no grande sono, com o consequente aniquilamento do ser.

Tal comportamento, pelo insólito de que se reveste, demonstra a utopia em que foi transformada a vida e a ausência de finalidade a que foi reduzida. Tomando o efeito pela causa, pensa-se em suprimir aquele sem alcançar esta, mais complicando a linha das consequências, por falta da cessação dos fatores que as desencadeiam. Malabaristas do imediatismo, esses pensadores acreditam que a morte do corpo significa o fim da existência, desprezando, na sua rebeldia contumaz e ociosidade emocional contínua, todos os fatos probantes de que o ser real e primitivo é o Espírito, sendo o corpo a indumentária que o reveste temporariamente e de que se serve para um fim útil.

Se se detivessem a auscultar a Natureza, diminuindo o tresvario que se permitem, constatariam que o caos e o nada jamais fizeram parte do Cosmo, e que a ordem é a geratriz de todos os fenômenos, causa de todas as ocorrências. Como efeito, nada ou pessoa alguma foge desse equilíbrio, sendo a fraude e a burla desconhecidas nos soberanos códigos da Criação. Nada deve justificar o autocídio, porquanto a sucessão das ocorrências muda a cada instante o quadro em que se vive.

O que ora é desgraça, logo cede lugar à esperança; o que se apresenta como dissabor, de imediato se converte em bonança; o que se manifesta como desdita, a seguir se modifica para alegria; o que hoje é dor insuportável, amanhã é dor aceitável... Passam as horas e alteram-se as circunstâncias, gerando novos acontecimentos que mudam a paisagem emocional, física, social, econômica e moral do homem. Lutar por vencer as vicissitudes é inevitável, desde que a própria injunção biológica é uma constante faina, em que nascimento, morte, transformação e ressurgimento se dão por automatismos na maquinaria fisiológica, ensinando à consciência a técnica do esforço para a preservação da vida.

O pretenso suicida, que consumou a trágica fuga da responsabilidade, jamais se libera, como é natural, dos resultados nefários do seu gesto, sempre tresloucado, por ferir, na agressão furiosa, o mecanismo do instinto de conservação da vida, que governa a existência animal e o possui como fator para sua preservação. Orgulhoso ou pusilânime, irresponsável ou vão, o suicida não se evade de si mesmo, da sua consciência; torna-se, aliás, o seu próprio algoz cujas penas o gesto lhe impõe e que resgatará em injunções mil vezes mais afugentes do que na forma em que ora se apresentam.

A burla que se permite, através de supostos meios indolores para sofrer a desencarnação, hiberna-o por algum tempo, em espírito, até o momento em que desperta mais vilipendiado e agônico, vivo, estuante de vitalidade, padecendo as camarteladas que a superlativa imprudência provocou. É óbvio que ninguém ludibria a Consciência Cósmica, que se expressa na harmonia do Universo e vige, pulsante, na consciência humana individual.

Necessário que o homem assuma as responsabilidades da vida e instrua-se nas leis que lhe regem a existência, aprimorando-se e reunindo valores de que possa dispor nos momentos-desafio, a fim de superá-los e reorganizar-se para os futuros cometimentos até o instante em que se lhe encerre o ciclo biológico. Estará, então, liberado da matéria, mas mantido na vida... Nas aparentes mortes sem dor, provocadas pelos que desejam fugir ou esquecer, o sofrimento moral tem início quando se elabora o programa da evasão e jamais se pode prever quando terminará.

A consciência humana é industrutível, portanto, o suicídio de qualquer espécie é arrematada loucura, um salto no desconhecido abismo da imprevisível desesperação.

28- Temas de hoje problemas de sempre - Richard Simonetti

Enganosa solução

Camilo Castelo Branco foi, talvez, o maior escritor de Portugal, pelo menos o mais versátil. Escrevia sobre qualquer assunto.

Nascido em 1825, teve vida intensa, sempre voltada para as letras. Publicou dezenas de ensaios, biografias, romances e críticas, imprimindo sempre, em suas narrativas, a marca da genialidade.

Jamais poderia supor que um dia escreveria sobre um dos mais trágicos e lamentáveis problemas humanos: o suicídio. Fá-Io-ia, não à maneira de um observador terrestre que reagisse aos conflitos íntimos e a fraqueza de caráter que levam o indivíduo a atentar contra a própria vida e, sim, como Espírito desencarnado que oferecesse suas próprias experiências.

Camilo foi um suicida. Acometido por um mal nos olhos que o levou à cegueira, julgando-se incapaz de resistir a semelhante provação, matou-se com um tiro no ouvido, aos 65 anos.

Alguns decênios mais tarde, seu Espírito encontrou em Yvonne Pereira, dedicada médium espírita, a intérprete de suas impressões para que ele oferecesse aos homens a visão dantesca dos sofrimentos que aguarda. É um tema digno da pena do grande Camilo. Poucos como ele, poderiam descrever, com riqueza de detalhes e de forma envolvente, o que é a tragédia do suicida, que começa quando ele reconhece, penosamente surpreendido, que seu desejo de fuga não se concretizou. A vida continua, com sofrimentos mil vezes acentuados.

Julgando-se a princípio apenas ferido com o tiro que desfechara contra si mesmo, o Espírito do escritor experimenta dores lancinantes. Parece-lhe estar num leito de hospital, curioso nosocômio onde ninguém lhe dispensa cuidados. Clama por socorro, deseja ver os familiares, mas ninguém lhe dá atenção. A dor o alucina; em seus ouvidos vibra, inextinguível, o som do tiro a torturar-lhe os tímpanos. Às suas narinas chega o odor fétido de carne em decomposição. Parece-lhe vir do próprio leito. Após angústias extremas, levanta-se cambaleante, tateia em volta e percebe, horrorizado, dentre as negras trevas que o envolvem, que se encontra num cemitério ... Sua cama era apenas um túmulo; a carne em decomposição, o seu próprio cadáver. Foge, apavorado ... Perambula pelas ruas e é atraído para o lar, mas ninguém lhe dá atenção ... Gargalhadas estridentes, de pessoas que parecem rir de sua situação, o acompanham, aumentando seu desespero ... E por mais que vagueie, irresistível força o reconduz ao cemitério ...

Depois é envolvido por uma legião de Espíritos de suicidas, e vão todos parar em terrível região do Umbral, denominada "O Vale dos Suicidas". Camilo procura na Terra um lugar semelhante, que permita aos homens terem uma idéia do que é o vale. Mas não o encontra. Lembra-se do vale dos leprosos, na antiga Jerusalém, onde eram segregados do convívio social os infelizes portadores de lepra, considerados imundos por seus contemporâneos ... E diz:

"O vale dos leprosos, lugar repulsivo da antiga Jerusalém de tantas emocionantes tradições, e que no orbe terráqueo evoca o último grau da abjeção e do sofrimento humano, seria consolador estágio de repouso comparado ao local que tento descrever. Pelo menos, ali existiria solidariedade entre os renegados! Os de sexo diferente chegam mesmo a amar-se! Adotavam-se em boas amizades, irmanando-se no seio da dor para suavizá-la. Criavam a sua sociedade, divertiam-se, prestavam-se favores, dormiam e sonhavam que eram felizes!

Mas no presídio de que vos desejo dar contas nada disso era possível, porque as lágrimas que se choravam ali eram ardentes demais para se permitirem outras atenções, que não fossem as derivadas da sua própria intensidade!

No vale dos leprosos havia a magnitude compensadora do Sol para retemperar os corações! Existia o ar fresco das madrugadas com seus orvalhos regenera dores! Poderia o precito ali detido contemplar uma faixa do céu azul... Seguir, com o olhar enternecido, bandos de andorinhas ou de pombos que passassem em revoada! ... Ele sonharia - quem sabe? lenido de amarguras, ao poético clarear do plenilúnio, enamorando-se das cintilações suaves das estrelas que, lá no inatingível, acenariam para sua desdita, sugerindo-lhe consolações no insulamento a que o forçavam as férreas leis da época! ... E, depois, a primavera fecunda voltava, rejuvenescia as plantas para embalsamar com seus perfumes cariciosos as correntes de ar, que as brisas diariamente tonificavam com outros tantos bálsamos que traziam no seio amoráve1... E tudo isso era como dádivas celestiais para reconciliá-lo com Deus, fornecendo-lhe tréguas na desgraça!

Mas na caverna onde padeci o martírio que me surpreeendeu além do túmulo, nada disso havia!

Aqui, era a dor que nada consola, a desgraça que nenhum favor ameniza, a tragédia que idéia alguma tranqüilizadora vem orvalhar de esperança! Não há céu, não há luz, não há sol, não há perfume, não há tréguas!

O que há é o choro convulso e inconsolável dos condenados, que nunca se harmonizam! O assombroso "ranger de dentes" da advertência prudente e sábia do Mestre de Nazaré!

A blasfêmia acintosa do réprobo a se acusar a cada novo rebate da mente flagelada pelas recordações penosas! A loucura inalterável de consciências contundidas pelo vergastar infame dos remorsos! O que há é a raiva envenenada daquele que já não pode chorar, porque ficou exausto sob o excesso das lágrimas! O que há é o desaponto, a surpresa aterradora daquele que se sente vivo a despeito de se haver arrojado na Morte! É a revolta, a praga, o insulto, o ulular de corações que o percutir monstruoso da expiação transformou em feras! O que há é a consciência conflagrada, a Alma ofendida pela imprudência das ações cometidas, a mente revolucionada, as faculdades espirituais envolvidas nas trevas oriundas' de si mesma!. .. "

Camilo fala depois do tratamento que recebeu numa instituição socorrista do Plano Espiritual e de generosos benfeitores que o orientaram e ajudaram, preparando-o para novas experiências na Terra, quando enfrentará, em regime de débito agravado, a expiação da cegueira, da qual tentou fugir.

Toda a descrição de Camilo Castelo Branco, registrada no livro "Memórias de um Suicida", publicado pela Federação Espírita Brasileira, encontra plena confirmação nos princípios da Doutrina Espírita, segundo os quais o suicídio provoca violento trauma perispiritual. Expulso violentamente do corpo que destruiu, o suicida atinge a Espiritualidade empolgado pelas sensações angustiantes da morte física, em terríveis padecimentos. Por uma questão de sintonia psíquica, associa-se a companheiros de infortúnio, para longo confinamento nas regiões umbralinas. Vales como o descrito funcionam, segundo a narrativa, como "câmaras de descompressão", onde os suicidas esperam que o tempo esgote os desequilíbrios mais acentuados que provocaram em si mesmos ... Depois são socorridos por piedosos samaritanos do Além, preparando-se para regressar à Terra, no reencontro com as situações de que pretenderam fugir.

O Espiritismo nos oferece aquela substância de conhecimento que impõe a responsabilidade de viver, e viver bem, conscientes de que colhemos hoje o mal que semeamos ontem, e que, se desejamos um futuro de bênçãos, é preciso que semeemos melhor, sem destruir o arado - o corpo físico que Deus nos oferece por empréstimo - pois, se o fizermos, o campo de nosso destino ficará repleto de espinhos. Então, lembrando a advertência de Jesus, registrada por Camilo, haverá para nós "choro e ranger de dentes".

29 - Escrínio de Luz - Emmanuel - Suicidas - pág. 157

Não condenes as vítimas da loucura e do sofrimento que se retiram do mundo pelas portas do suicídio.

Ninguém lhes viu talvez a luta insana. E não sabes até que ponto sorveram o veneno da angústia na taça de fel! .

Faze silêncio, diante dos que cairam no paroxismo da desesperação e da dor. Na batalha do mundo, quantos despem o manto da carne, roídos no âmago da alma pelas chagas de aflitivas desilusões!... Quantos procuram fugir ao nevoeiro do vale, arrojando-se às trevas do despenhadeiro cruel!. ..

E, pedindo a paz do Senhor para os que descem à sombra da rendição antes do triunfo, ora também pelos que armam as garras da treva contra si próprios no pelourinho da maldade e da calúnia: Pelos que perturbam o caminho alheio, aniquilando a própria existência.

Pelos que rendem culto à perversidade, consumindo-se na ilusão de que destroem o próximo; Pelos que se afogam no charco da viciação; Pelos que se entregam à inércia e pelos que perseguem e chicoteiam os semelhantes, cavando para si mesmos o túmulo de lodo em que hão-de perecerl Saibamos utilizar as dificuldades na sublimação de nosso futuro.

A Terra é um santuário de regeneração e de esperança para quantos lhe abraçam as lições com ânimo forte, conscientes da misericórdia em que se fundamenta a Divina Justiça. Dores, aflições, provas e desencantos representam o material educativo do templo em que nos asilamos, à procura de fortaleza moral e de créditos imprescindívels à continuidade de nossa viagem para Deus.

Não te confies ao cansaço ou ao desalento, na solução dos problemas que te afligem a marcha. Renova-te na fé viva e no trabalho constante, inspirando-te na excelsitude do Sol que te acompanha, cada manhã, prometendo-te, cada noite, o esplendor de um outro dia, que raiará sempre mais belo.

Caminha para diante, regozija-te com o sofrimento que te ajusta as contas e abençoa os obstáculos que te fazem mais experiente e mais nobrel ... E unido à tarefa que o Senhor te confiou, qualquer que ela seja, aprendendo e servindo, amando e lutando na construção do Bem Infinito, encontrarás, mesmo na Terra, o manancial da Vida Abundante que te alimentará o coração na conquista da Vida Imperecível.

A VIDA PEDE PASSAGEM
GERSON S. MONTEIRO