USURA
BIBLIOGRAFIA
01- Ação e reação - pág. 116 02 - Calma - pág. 58
03 - Do país da luz - vol. iv pág. 102 04 - O Espírito da Verdade - pág. 187, 196
05 - O Evangelho S.o Espiritismo - cap. XIII,14 06 - Obreiros da vida eterna - pág. 237
07 - Pérolas do além - pág. 230 08 - Pontos e contos - pág. 169
09 - Seareiros de volta - pág. 25 10 - Voltas que a vida dá - pág. 3

LEMBRETE: O NÚMERO DA PÁGINA PODE VARIAR DE ACORDO COM A EDIÇÃO DA OBRA CITADA.

USURA – COMPILAÇÃO

01- Ação e reação - André Luiz - pág. 116

A história de Silas
Na noite imediata, acompanhando o Assistente, eu e Hilário achamo-nos de novo na residência de Luís. Os irmãos de Antônio Olimpio receberam-nos de bom grado. Em larga copa da fazenda, reunia-se a família a dois agregados, em repasto ligeiro. Marcava o relógio vinte e uma horas. A fisionomia do dono da casa era quase a mesma da véspera, não obstante a diferença que a máscara física lhe impunha.

Enquanto Adélia acariciava as crianças, entontecidas de sono, o marido comentava o noticiário radiofônico, destacando tópicos alarmantes que assinalara nos setores da economia. E, falando para os amigos assombrados, salientou as dificuldades públicas, relacionou misérias imaginárias, criticou os políticos e os administradores e referiu-se às pragas do café e da mandioca, detendo-se, particularmente, sobre as epizootias. Por fim, não satisfeito em enunciar as calamidades da Terra, falou, inconsequente, quanto à suposta ira do Céu, afirmando crer que o fim do mundo estava próximo e clamando contra o egoísmo dos ricos, que agravava o infortúnio dos pobres.

Silenciosos todos, ouvíamos-lhe a palavra, quando Leonel, mais confiado, dirigiu-se ao Assistente, observando :— Estão vendo? Este homem — e apontou Luís, cujo verbo dominava a pequenina assembléia familiar — é o derrotismo em pessoa. Enxerga tudo em termos de cinza e lama, ajuíza com firmeza sobre os desastres sociais e conhece as zonas mais tristes da indigência coletiva; entretanto, não sabe desfazer-se de um só centavo dos milhões que retém, a favor dos que sofrem nudez e fome...E, depois de um sorriso irônico:

— Acreditam, acaso, possa ele continuar merecendo a felicidade da permanência num corpo carnal? Silas contemplou as personagens da cena doméstica, mostrando imensa piedade no semblante amigo, e considerou :— Leonel, todas as suas observações apresentam lógica e verdade, à primeira vista. Superficialmente, Luís é um exemplar consumado de pessimismo e de usura. Todavia, no fundo, ele é um doente necessitado de compaixão. Há moléstias da atoa que arruinam a mente por tempo indeterminado.

Quem seria ele, amparado por influências outras? Espiritualmente abafado entre as visões da fortuna terrestre com que lhe assediamos o pensamento, o infeliz perdeu o contacto com os livros nobres e com as nobres companhias. Tem a socorrê-lo apenas a religião domingueira dos crentes que se julgam exonerados de qualquer obrigação para com a fé, contanto que participem do ofício de adoração a Deus, no fim de cada semana. Quem poderia prever-lhe as mudanças benéficas, desde que pudesse receber outro tipo de assistência?

Clarindo e Leonel registrararam-lhe as ponderações como se se vissem apunhalados no âmago, tal a expressão de revolta que lhes assomou ao olhar coruscante. — No entanto, ele e o pai são nossos devedores... Roubaram-nos, assassinaram-nos...exclamou Leonel com a inflexão da criança voluntariosa e inteligente se vê contrariada em seus caprichos.— E que desejam vocês que eles façam? - acrescentou o Assistente, sem se perturbar.— Hão de pagar!... Pagar! bramiu Clarindo, cerrando os punhos. Silas sorriu e obtemperou:

— Sim, pagar é o verbo próprio...Contudo, como pode o devedor resgatar-se, quando o credor lhe subtrai todas as possibilidades de solver os débitos? Que a nós mesmos cabe sanar os males de que somos autores, não padece qualquer dúvida... Entretanto, se nos compete retificar hoje uma estrada que ontem desorganizamos, como proceder se nos decepam agora as mãos? O próprio Cristo aconselhou: — «Ajudai aos vossos inimigos..»

Muitas vezes, penso que semelhante afirmativa, corretamente interpretada, quer assim dizer: ajudai aos vossos inimigos para que possam pagar as dívidas em que se emaranharam, restaurando o equilíbrio da vida, no qual tanto eles quanto vós sereis beneficiados pela paz. Via-se que o Assistente, com a simpatia conquistada na véspera e com a argumentação límpida, lograra inequívoca superioridade moral sobre o ânimo dos obsessores de sentimento enrijecido. Ainda assim, Leonel perguntou a medo:— Que considerações são essas? será você algum padre disfarçado? intentará, porventura, a nossa modificação ?

— Engana-se, meu amigo — informou o Assistente—; se algo procuro, em nossa comunhão fraterna, é a minha própria renovação.E talvez porque longa pausa se fez sentir em nosso grupo, Silas continuou:— Pela sedução do dinheiro, também caí na última passagem pela Terra. A paixão da posse governava-me todos os ideais... A fascinação pelo ouro tomou-me o ser de tal modo que, apesar de ter recebido o título de médico numa universidade venerável, fugi ao exercício da profissão para vigiar os movimentos de meu velho pai, a fim de que nem ele mesmo viesse a dispor, com largueza, dos bens de nossa casa.

O apego às nossas propriedades e aos nossos haveres transformou-me num réprobo do paraíso familiar, convertendo-me, ainda, num verdugo intratável, naturalmente odiado por todos os que viviam em subalternidade no vasto círculo de minha temporária dominação... Para amontoar moedas e multiplicar lucros fáceis, comecei pela crueldade e acabei nas malhas do crime... Abominei a amizade, desprezei os fracos e os pobres e, no temor de perder a fortuna cuja posse total ambicionava, não hesitei adotar a delinquência como sócia infernal de meu terrível caminho...

Ante as palavras do Assistente, enorme surpresa me tomara de improviso. Estaria Silas reportando-se à verdade crua ou se utilizava naquela hora de recursos extremos, incriminando indevidamente a si próprio, para regenerar os carrascos que nos ouviam? De qualquer modo, eu e Hilário havíamos prometido não lhe comprometer a tarefa e, por isso, tacitamente, nos limitávamos a escutá-lo com atenção. Sentindo, decerto, que Leonel e Clarindo se mostravam um tanto comovidos, dando ensejo à assimilação de pensamentos novos, Silas convidou-nos a todos à retirada do ambiente.

Pretendia dizer-nos algo de sua experiência — falou ele —, mas preferia conversar conosco alte o altar abençoado da noite, a fim de que a sua memória pudesse evocar tranquilamente os fatos que buscaria relatar. Lá fora, as constelações resplendiam, como lares pendentes da Criação, e o vento perfumado corria, célere, como quem se propunha transportar-nos a oração ou a palavra para a Glória do Céu. Incapaz de penetrar o verdadeiro sentido da inesperada atitude que o Assistente vinha de assumir, notei-o efetivamente emocionado, qual se fixaste os olhos da alma em painéis distantes.

Clarindo e Leonel, naturalmente dominados pela simpatia a se lhe irradiar do semblante, observavam-no, submissos. E Silas começou em voz pausada: — Tanto quanto posso abranger com a minha memória presente, lembro-me de que, em minha última viagem pelos domínios da carne, desde a meninice, me entreguei à paixão pelo dinheiro, o que hoje me confere a certeza de que, por muitas e muitas vezes, fui usurário terrível entre os homens da Terra. Hoje sei, por informações de instrutores abnegados, que a principio de outras ocasiões, renasci na derradeira existência, Num lar bafejado por grande fortuna, a fim de sofreria tentação do ouro farto e vencê-la, a golpes de vontade firme, na lavoura incessante do amor fraterno, caindo, porém, lamentavelmente, por minha infelicidade.

Era eu o filho único de um homem probo que herdara dos avoengos consideráveis bens. Meu pai era um advogado correto que, por excesso de conforto, não se dedicava aos misteres da profissão, mas, profundamente estudioso, vivia rodeado de livros raros, entre obrigações sociais, que, de alguma sorte, lhe subtraíam a personalidade às logitações da fé. Minha mãe, porém, era católica romana, de pensamento fervoroso e digno, e, embora sem crescer conosco a qualquer disputa na esfera devocional tentava incutir-nos o dever da beneficência.

Recordo-me, com tardio arrependimento, dos reiterados convites que nos dirigia, bondosa, para que lhe palmilhássemos as tarefas de caridade, convites esses que meu pai e eu recusávamos, sem discrepância, encastelados em nossa irreverência enfatuada e risonha. (...)

03 - Do país da luz - Fernando de Lacerda - vol. iv pág. 102

XVIII - ANTÔNIO VIEIRA
Vou hoje tratar da riqueza. Mal vai ao meu propósito assunto em que tanto contrarie o homem: mas de sempre foi meu dever estar em contradição com o homem que em contradição queira estar com a verdade. Vários são os inimigos que em si próprio o homem cria e mantém na Terra. Há o inimigo carne, que, sendo filho da sua própria carne, o homem perde pela sem razão das suas exigências, pelo desarrazoado de seus apetites, pelo exagero dos seus gozos, pelos prazeres da sua malícia, pelos regalos da sua luxúria, pelas fraquezas da sua continência, pelas fragilidades dos seus raciocínios, pelas teimosias dos seus quereres, pelas manifestações da sua animalidade.

Esse inimigo cria o homem em si, em si acalenta e faz medrar e porque o cria e sustenta, por ele tem a dor, porque é a dor alimento de que ele se nutre e fruto que ele produz. E' tanto mais temível inimigo, quanto mais disfarçado se apresenta ao incauto que em si próprio o alimenta; porque no seu disfarce se lhe apresenta como gozo no amor, necessidade na satisfação, virtude no exemplo e pureza na hipocrisia. A carne o faz sofrer, se tem dor, e na mesma dor o faz blasfemar. Tem o homem outro inimigo na vaidade. E' a vaidade um fumo vão que o embriaga, fazendo-o crer que por si reuniram as fadas para o fadarem com perfeições que a mais nada vaidade cega-lhe o entendimento, desvaira-lhe o juízo, mascara-lhe a verdade, corrompe-lhe o afeto, destrói-lhe a bondade. E' a vaidade que lhe sugestiona a perdição.

Aninha-se a vaidade no coração humano fazendo daí corte onde vive com a sua interminável corte de áias e pajens. Essas áias e esse pajens em serviço da vaidade se chamam cegueira, fatuidade, egoísmo, perversidade, descaroabilidade, ambição, exagero, altiveza, petulância, orgulho, injustiça, inveja. De todos se utiliza a vaidade domina, é cego, quando não vê a verdade nem os que lha pregam; é fátuo, quando se supõe modelo de perfeições só para ele forjadas na forja do Criador; egoísta, quando crê que tudo a ele é devido pela superioridade inata na sua pessoa inconfundível; perverso em negar aos outros as qualidades que a sua cegueira lhe não deixa enxergar; descaroável no seu tratamento àqueles em quem desdenha méritos e virtudes que não quer reconhecer.

Ambicioso, quando, para alimentar a vaidade que serve, tudo acha mesquinho e parco, tudo vê desluzido e pobre e tudo quer e almeja como insofrida incontinência; ridículo, quando, desconhecendo o barro frágil em que o seu pedestal assenta, repta os outros a quem ligeiro sopro basta para o derrubar; exagerado, quando se pretende impor, manifestando virtudes que não possui, poder que não tem; altivo, quando se pavoneia perante os seus iguais, empertigado em prosápias que imagina possuir, despedindo do olhar raios de Jove com que anseia fulminar aqueles míseros mortais de diversa argila a que a sua semi-divindade foi moldada; petulante, quando a si arroga direitos de menosprezar as qualidades e méritos alheios que a sua ignorância lhe não deixa apreciar e que a sua inconsciência lhe faz malbaratar em arremedos de inópia desdenhosa;

Orgulhoso, quando, na crença do seu exagerado valor, pretende impôr-se como coisa em que Deus pôs o diadema de todas as perfeições, o condão de todas as virtudes, a força de todos os poderes, o uso de todos os direitos, a súmula de toda a superioridade terrena; injusto, quando nega aos outros o que em si só crê existir; quando malsina, ofende, desdenha, amesquinha e despreza qualidades, virtudes, saberes, luzes, ações, bondades e direitos que todos os outros seus irmãos possuem e em regular uso humano revelam no bem comum e na equidade da justiça; invejoso, quando vê, reconhece ou aprecia coisa de que outrem tenha propriedade e que em si não possa fazer recair em privança daquele que legitimamente a mantém; blasfemo, quando na sua vaidade nega a fonte de todo o seu poder, a origem de toda a sua vida, a existência da sua própria individualidade, só para sentir em si prazer de negar coisa que lhe seja superior, onde a sua ambição não chega, que o seu orgulho não atinge, que o seu poder não domina, que a sua ignorância não aprecia, que a sua pequenez não concebe, que a sua insciência não admite.

Esses dois inimigos do homem, um está na carne, outro está no espírito; e, como anel que os dois prende e confunde, um terceiro inimigo a si próprio inventou, que, não estando nele, é mais poderoso, mais insofrido e mais para temer de que aqueles que em si alimenta: — é o inimigo que daqueles é serventuário e senhor, que àqueles dá manutenção e força: — a riqueza. Só a riqueza dá à carne o conforto, o prazer, a nediez, a sensualidade, a tentação; só a riqueza dá à vaidade alimento para manter-se, trono para ser adulada, roupagem para se entrajar, aprumo para se impor. Sem a riqueza, nem as carnes são regaladas, nem a vaidade é turibulada.

Dá a riqueza ao homem as armas que ele não possui; empresta talento que Deus lhe não deu, qualidades que a Virtude lhe negou, benemerências que a Bondade lhe não ofereceu, belezas que a Perfeição lhe não doou; encobre-lhe defeitos que a Imperfeição lhe assinalou, mascara-lhe vícios que o Desregramento lhe deu; dissimula fraquezas que a Baixeza lhe imprimiu. A riqueza fá-lo aspirar a deleites que a moral condena, cometer atos que a justiça reprova, desejar coisas que a razão repele.

A riqueza dá-lhe pasto a todos os vícios, vício em todas as virtudes. Desconhece a riqueza a Humildade, despreza a Piedade e humilha a Caridade. E, sendo a riqueza assim ninho de todas as perversidades, gérmen de toda a perdição, origem de todos os males, pode na riqueza haver salvação ? Disse o Mestre que ninguém pode servir a dois senhores, e que se não pode servir a Deus e à riqueza. Igualou assim, na sua ação sobre o homem, Deus e Riqueza. Os dois pôs em antagonismo. Não pode servir o homem a Deus e à Riqueza? E porquê? Porque em Deus está a salvação e a Perdição na Riqueza; e não se pode amar a salvação servindo a perdição.

E não haverá salvação na Riqueza? Disse o Mestre que mais fácil é fazer passar um calabre pelo fundo de uma agulha que um rico entrar no reino dos Céus. Mas, se é assim, pode um rico entrar nos Céus. E qual será o caminho que o rico aos Céus pode conduzir? E' a própria riqueza. Nela tem a perdição e nela tem a salvação. Pode a riqueza inspirar ao mal, como inspirar ao bem. Já conhecemos nós como é ela o instrumento da Perdição, vamos ver agora como pode ser o instrumento da Salvação.

E' a riqueza como Jano: em ter duas caras. Jano podia olhar para o passado e para o futuro; a riqueza pode olhar para o mal e para o bem. Era Jano o deus da paz, o regente da abundância; pode a riqueza ser a deusa da felicidade, a regente da caridade. E' a riqueza como certa ordem de remédios que produzem o mal e produzem o bem. Aplicados em conta, são veículo da saúde; aplicados em demasia, conduzem ao sofrimento e à morte. Parece à razão simples que, se remédio é para curar, devia curar sempre; e, se em pequena dose leva o bem, mor bem devia levar em mor porção. Pois a razão simples que assim vir ilude-se e não é razão, porque à própria razão se deve afigurar que tudo no mundo tem quantidade própria e uso apropriado.

Assim a riqueza, a que se não dê o uso para que a riqueza é, constitui um mal que faz sofrer e mata. Faz sofrer o que a possui, porque lhe é cuidado constante, faz sofrer os que lhe estão próximo porque é grão sofrimento viver junto ao avaro e ao que da usura faz gozo e do ouro coração. Que de sofrimentos a riqueza faz, em vez de dores que podia desfazer! Eu disse matar? E muito bem o disse. Começa a riqueza por matar, no coração do homem, a abnegação, o altruísmo, a piedade e vai até transformar-se em pólvoras e em pelouros que matem os homens nas hecatombes guerreiras.

E' como remédio em demasia que isso faz. E' quando a ambição a olha com olhos de esfomeado e com pensares de egoísta, que faz do coração um cofre com escrituração mercantil, onde escritura os proventos, os lucros de cada operação; onde há o memorando que regista os momentos próprios da intervenção gananciosa e as fontes de que há-de correr o metal luzente para aferrolhar e para aumentar o pecúlio. E' o remédio tomado em alta dose, que embriaga o doente, fazendo-o sonhar gozos e cometer crimes, rapacidades e maldades para conseguir esses gozos sonhados, que nunca chegam, porque são sonhos, e são sonhos, porque nunca se realizam.

Tome-se agora o medicamento em dose apropriada e esse medicamento dará saúde ao corpo, gozo ao espírito, porque constitui gozo e saúde a quem dele souber usar em continência e a ele quiser dar apropriada aplicação. Ao corpo dará o que a própria manutenção haja mister para viver ; ao espírito proporcionará os deleites com que o espírito se recreie. Fará que o espírito aprecie os gozos da arte, os gozos da natureza e os gozos da bondade. A arte é o gênio humano, porque é a manifestação sublimada do engenho humano, a natureza é o gênio divino, porque é a manifestação sublimada do gênio de Deus; e a bondade é o gênio divino e humano , porque reúne em si a magnanimidade e a piedade de Deus e a perfeição do espírito do homem, que o faz aproximar de Deus e assemelhar-se-lhe.

Pois; a estas três coisas superiores a riqueza, bem aplicada, pode fazer conhecer, amar, e servir. Sem ela se podem conhecer e amar também, mas não servir; e servi-las é aumentá-las, é dar-lhes da riqueza riqueza, que a arte faça mais bela, a natureza faça mais majestosa, a bondade mais divina.

Para que a riqueza salve, é mister que, como água boa ela seja, que pela irrigação leve à terra a humidade que a fertilize, à planta a seiva que a avivente, ao animal o refrigério que lhe extinga a sede. E' preciso que ela mova o aluvião do mineiro, o arado do lavrador, a pena do escritor. Sem ela, o mineiro estará parado, a pena parada e, parado tudo, só uma coisa trabalha: a fome, a fome que faz a crime, que faz a dor. Assim, a riqueza pode, com o extinguir a fome, extinguir o mal e, então, é remédio que cura.

E' a riqueza quem burila a pedra tosca e bruta, fazendo que dela saiam como da mágica varinha de uma fada, as maravilhas arrendadas das fábricas sagradas, que parecem trabalhadas pelos anjos para serviço do Senhor; quem afaga a mesma pedra, fazendo dela brote a estátua que ao homem se assemelha, e o homem se assemelha ao Criador; quem faz que, com ínfimos pelos e pobres tintas, se imite a natureza, por modo de maravilha, que às vezes faz com que se não saibabem que é mais maravilha, se a natureza imitada, se a natureza que imita. (...)

04 - O Espírito da Verdade - Espíritos Diversos - pág. 187, 196

HISTÓRIA DE UM PÃO - Cap. XIII — Item 15
Quando Barsabás, o tirano, demandou o reino da morte, buscou debalde reintegrar-se no grande palácio que lhe servira de residência.
A viúva, alegando infinita mágoa, desfizera-se da moradia, vendendo-lhe os adornos. Viu ele, então, baixelas e candelabros, telas e jarrões, tapetes e perfumes, jóias e relíquias, sob o martelo do leiloeiro, enquanto os filhos querelavam no tribunal, disputando a melhor parte da herança.

Ninguém lhe lembrava o nome, desde que não fosse para reclamar o ouro e a prata que doara a mordomos distintos. E porque na memória de semelhantes amigos ele não passava, agora, de sombra, tentou o interesse afetivo de companheiros outros da infância...
Todavia, entre estes encontrou simplesmente a recordação dos próprios atos de malquerença e de usura.

Barsabás entregou-se às lágrimas, de tal modo, que a sombra lhe embargou, por fim, a visão, arrojando-o nas trevas... Vagueou por muito tempo no nevoeiro, entre vozes acusadoras, até que um dia aprendeu a pedir na oração, e, como se a rogativa lhe servisse de bússola, embora caminhasse às escuras, eis que, de súbito, se lhe extingue a cegueira e ele vê, diante de seus passos, um santuário sublime, faiscante de luzes.

Milhões de estrelas e pétalas fulgurantes povoavam-no em todas as direções. de Louvor, nas faixas inferiores do firmamento. Não obstante deslumbrado, chorou, impulsivo, ante o ministro espiritual que velava no pórtico. Após ouvi-lo, generoso, o funcionário angélico falou, sereno: — Barsabás, cada fragmento luminoso que contemplas é uma prece de gratidão que subiu da Terra... — Ai de mim — soluçou o desventurado — eu jamais fiz o bem...

— Em verdade — prosseguiu o informante — trazes contigo, em grandes sinais, o pranto e o sangue dos doentes e das viúvas, dos velhinhos e órfãos indefesos que despojaste, nos teus dias de invigilância e de crueldade; entretanto, tens aqui, em teu crédito, uma oração de louvor. .. E apontou-lhe acanhada estrela que brilhava à feição de pequeno disco solar. — Há trinta e dois anos — disse, ainda, o instrutor

— Deste um pão a uma criança e essa criança te agradeceu, em prece ao Senhor da Vida. Chorando de alegria e consultando velhas lembranças, Barsabás perguntou: — Jonakim, o enjeitado? — Sim, ele mesmo — confirmou o missionário divino. — Segue a claridade do pão que deste, um dia, por amor, e livrar-te-ás, em definitivo, do sofrimento nas trevas. E Barsabás acompanhou o tênue raio do tênue fulgor que se desprendia daquela gota estelar, mas, ao invés de elevar-se às Alturas, encontrou-se numa carpintaria humilde da própria Terra.

Um homem calejado aí refletia, manobrando a enxó em pesado lenho... Era Jonakim, aos quarenta de idade. Como se estivessem os dois identificados no doce fio de luz, Barsabás abraçou-se a ele, qual viajante abatido, de volta ao calor do lar. Decorrido um ano, JonaKim, o carpinteiro, ostentava, sorridente, nos braços, mais um filhinho, cujos louros cabelos emolduravam belos olhos azuis. Com a bênção de um pão dado a um menino triste, por espírito de amor puro, conquistara Barsabás, nas Leis Eternas, o prêmio de renascer para redimir-se.

Irmão X

05 - O Evangelho Segundo o Espiritismo - Allan Kardec - cap. XIII,14

Cáritas - Lyon, 1861 - 14. Há muitas maneiras de fazer a caridade, que tantos de vós confundem com a esmola. Não obstante, há grande diferença entre elas. A esmola, meus amigos, algumas vezes é útil, porqu alivia os pobres. Mas é quase sempre humilhante, tanto para o que dá, quanto para o que a dá quanto para o que a recebe. A caridade, pelo contrário, liga o benfeitor e o beneficiário, e além disso se disfarça de tantas maneiras!

A caridade pode ser praticada mesmo entre colegas e amigos sendo indulgentes uns para com os outros, perdoando-se mutuamente suas fraquezas, cuidando de não ferir o amor-próprio de ninguém. Para vós, espíritas, na vossa maneira de agir em relação aos não pensam convosco, induzindo os menos esclarecidos a crer, sem os chocar, sem afrontar as suas convicções, mas levando-os amigavelmente às reuniões, onde eles poderão ouvir-nos, e onde saberemos encontrar a brecha que nos permitirá penetrar nos seus corações. Eis uma das formas da caridade.

Escutai agora o que é a caridade para com os pobres, esses deserdados do mundo, mas recompensados por Deus, quando sabe aceitar as suas misérias sem murmurações, o que depende de vós. Vou-me fazer compreender por um exemplo. Vejo, muitas vezes, na semana, uma reunião de damas de todas as idades. Para nós, como sabeis, são todas irmãs. Trabalham rápidas, bem rápidas. Os dedos são ágeis.

Vede também como os rostos estão radiantes e como os seus corações batem em uníssono! qual o seu objetivo? É que elas vêem aproximar-se o inverno, será rude para as famílias pobres. As formigas não puderam acumular durante o verão os grãos necessários à provisão, e a maior parte de seus utensílios está empenhada. As pobres mães se inquietam e choram, pensando nos filhinhos que, neste inverno, sofrerão frio e fome! Mas tende paciência, pobres mulheres! Deus inspirou outras, mais afortunadas que vós.

Elas se reuniram e confeccionam roupinhas. Depois, num destes dias, quando a neve tiver coberta a terra, e murmurardes, dizendo: "Deus não é justo!", pois é a expressão comum dos vossos períodos de sofrimento, então ver aparecer um dos enviados dessas boas trabalhadoras, que se constituíram em operárias dos pobres. Sim, era para vós que elas trabalhavam assim, e vossos murmúrios se transformarão em bênção porque, no coração dos infelizes, o amor segue de bem perto ódio.


Como todas essas trabalhadoras necessitam de encorajamento vejo as comunicações dos Bons Espíritos lhes chegarem de todas as partes. Os homens que participam desta sociedade oferecem também o seu concurso, fazendo uma dessas leituras que tanto agradam. E nós, para recompensar o zelo de todos e de cada um em particular prometemos a essas obreiras laboriosas uma boa clientela, as pagará em moeda sonante de bênçãos, a única moeda que circula no céu, assegurando-lhes ainda, sem medo de nos arriscarmos, que essa moeda não lhes faltará.

UM ESPIRITO PROTETOR Lyon, 1861
15. Meus caros amigos, cada dia ouço dizerem entre vós: Sou pobre, não posso fazer a caridade." E cada dia, vejo que faltais com a indulgência para com os vossos semelhantes. Não lhes perdoais coisa alguma, e vos arvorais em juizes demasiado severos, vos perguntar se gostaríeis que fizessem o mesmo a vosso respeito. A indulgência não é também caridade?

Vós, que não podeis fazer mais do que a caridade-indulgência, fazei pelo menos essa, fazei-a com grandeza. Pelo que respeita à caridade material, quero contar-vos uma história do outro mundo.

Dois homens acabavam de morrer. Deus havia dito: "Enquanto esses dois homens viverem, serão postas as suas boas ações num saco para cada um, e quando morrerem, serão pesados esses sacos." Quando ambos chegaram à sua última hora, Deus mandou que lhe ssem os dois sacos. Um estava cheio, volumoso, estufado, e retinia o metal dentro dele. O outro era tão pequeno e fino, que se viam através do pano as poucas moedas que continha.

Cada um homens reconheceu o que lhe pertencia: "Eis o meu — disse o primeiro — eu,o conheço; fui rico e distribuí bastante!" O outro :: "Eis o meu. Fui sempre pobre, ah! não tinha quase nada para distribuir." Mas, ó surpresa: postos na balança, o maior tôrnou-se leve, e o pequeno se fez pesado, tanto que elevou muito o outro prato da balança.

Então, Deus disse ao rico: "Deste muito, é verdade, mas o fizeste por ostentação, e para ver o teu nome figurando em todos os templos do orgulho. Além disso, ao dar, não se privaste de nada. Passa à esquerda e fica satisfeito, por te ser contada a esmola como alguma coisa." Depois, disse ao pobre:

"Deste pouco, meu amigo, mas cada uma das moedas que está na balança representou uma privação para ti. Se não distribuiste a esmola, fizeste a caridade, e o melhor é que fizeste naturalmente, sem te preocupares de que a levassem a tua conta. Foste indulgente; não julgaste o teu semelhante; pelo contrário, encontraste desculpa para todas as suas ações. Passa à direita, e vai receber a sua recompensa.

07 - Pérolas do além - Emmanuel - pág. 230

Usurário: O usurário não padece apenas a infelicidade de sequestrar os bens devidos ao Bem de Todos, mas igualmente o infortúnio de erguer para si mesmo a cova adornada em que se lhe estiolarão as mais nobres faculdades do espírito.

08 - Pontos e contos - Irmão X - pág. 169

32 - A LIÇÃO DE ARITOGOGO
Examinávamos a paisagem das ambições humanas, quando um amigo considerou:— Que o homem atenda aos conselhos da prudência, armazenando em bom tempo, como a formiga, para os dias de necessidade e inverno forte, é compreensível e razoável. A vigilância não exclui a previdência, quando é possível amealhar com o bem; mas, explorar o quadro das misérias alheias, embebedar-se na preocupação de ganhar, escravizar-se ao dinheiro, é criar um inferno de padecimentos intraduzíveis.

— Quantos precipícios cavados pelo egoísmo conquistador?! — disse outro — é lastimável observar as angústias semeadas nos caminhos humanos. As guerras não constituem senão o desdobramento das ambições desmedidas. E dizer-se que toda essa marcha de loucuras demanda as zonas da morte! quão incompreensível a nossa cegueira, nos círculos carnais! quantos pesadelos desnecessários e quanta ilusão para se desfazer na sepultura!...

Um dos companheiros presentes sorriu e acrescentou:— Nesse capítulo, recebi inolvidável lição, há mais de trezentos anos, por intermédio de um chefe indígena em nosso país. — Como assim? — perguntei, sumamente in­teressado.— Em princípios do século XVII — esclareceu o interlocutor —, participava dos serviços de uma embarcação francesa, em transporte de pau-brasil. Periodicamente, dávamos à costa, onde fizéramos agradável camaradagem com os silvícolas, e, naquela época, envergando a qualidade de português do Alentejo, não tive dificuldades para aprender alguns rudimentos da língua aborígene, ao contato dos nossos.

Em razão disso, o chefe da tribo litorânea, que respondia pelo nome de Aritogogo, dedicava-me especial atenção. Na sexta viagem denosso barco, o velho bronzeado chamou-me em particular, ministrando-me uma das mais belas lições de filosofia que já recebi em toda a minha vida. Observando-nos a afoiteza em carregar o navio com a madeira preciosa, perguntou-me ele, na linguagem que lhe era familiar:

— Escute, meu amigo, não há lenha em sua terra? É preciso enfrentar o abismo das águas para alimentar o fogo no lar distante?— Não, Aritogogo — respondi, esboçando um sorriso de pretensa superioridade —, a madeira não se destina a fogão. O pau-brasil fornece tinta para a indústria da Europa.— Mas, para que tanta tinta? — tornou ele, assombrado.— Para tingir a roupa dos brancos — expliquei.

— Ah! ah! vêm buscar a lenha para repartir com o povo — exclamou o cacique —, assim como nós buscamos remédio para os que adoecem e comida para os que têm fome!...— Não, não — esclareci —; somos empregados de um industrial. Toda a carga pertence a um só homem. Trata-se de poderoso negociante de tintas, em França.

Aritogogo arregalou os olhos, espantado, e indagou:— Que deseja esse homem com tantos paus e tanta tinta?— Fazer fortuna - respondi -, alcançar muito dinheiro, ter muitas casas e muitos servidores... O Chefe índio sacudiu a cabeça e tornou a perguntar: -Mas esse homem nunca morrerá? Ri-me francamente da interrogação ingênua e observei:— Morrerá, por certo.

— Então? — disse o índio — se ele vai morrer, como nós todos, deve ser tolo em procurar tanto peso para o coração. Tentei corrigir-lhe a concepção, obtemperando:— Esse homem, Aritogogo, está preparando o futuro da família. Naturalmente pretende legar aos filhos uma grande herança, cercá-los de fortuna sólida... Foi aí que o cacique mostrou um gesto singular de desânimo, e falou em tom grave:

— Ah! meu branco, meu branco, vocês estão procurando enganar a Deus. As tribos pacíficas, quando começam a cogitar desse assunto, esbarram nas guerras em que se destroem umas às outras. O único ser, que pode legar uma herança legítima aos nossos filhos, é o dono invisível da Terra e do Céu. O sol, a chuva, o ar, o chão, as pedras, as árvores, os rios são a propriedade de Deus que, por ela, nos ensina as suas leis. Retirar os nossos filhos do trabalho natural é pretender enganar o Eterno. Como podem os brancos pensar nisso?

— Nesse momento, porém — continuou o amigo espiritual —, o comandante chamou-me ao posto e despedi-me de Aritogogo, para não mais tornar a vê-lo naquela recuada existência. O companheiro espraiou o olhar pelo céu azul, como a procurar a imagem distante do cacique filósofo e concluiu:

-Desde então, modifiquei minha idéia de ganho, compreendendo onde estão o supérfluo e o necessário, a previdência e o desperdício, a sobriedade e a avareza, a reserva justa e a ambição criminosa. A lição deAritogogo incorporou-se ao meu espírito para sempre. Com ela aprendi que dominar o dinheiro e aproveitá-lo a bem de todos, socorrendo necessidades e distribuindo bom ânimo, é obra do homem espiritualizado.

Mas, deixar-se dominar pelo ouro, na preocupação de ganho transitório, não reparando meios para atingir os fins, açambarcando direitos de outrem e valendo-se de todas as situações para rechear os cofres e multiplicar os lucros, tão-somente para manter a superioridade convencional, em prejuízo da consciência, é obra do homem vulgar, escravizado aos gênios perversos da tirania


09 - Seareiros de volta - Espíritos Diversos - pág. 25

AS BARREIRAS DA MORTE- ABEL GOMES
Nossa igualdade perante a vida aparece com a nossa igualdade de criação espiritual. Maturidade e esforço próprio são os únicos fatores que fazem diferença. Ante a Lei Divina estamos constrangidos a determinadas obrigações para com a conquista de direitos, evidentemente comuns a todos.

Na Humanidade, somos grande família e tão-somente alguns homens é que estabelecem fronteiras por agentes de separação e discórdia. As verdadeiras e mais sufocantes fronteiras de um povo são os seus filhos incompreensivos. Deus não traçou raias na Crosta Terrestre.

Nas demarcações entre dois países, as areias das praias nunca se discriminam. As vagas do mar são móveis e idênticas onde quer que se formem. O solo prossegue por vales e montes, sem nenhuma descontinuidade. Os rios fazem contrabandos inocentes com recursos da terra e da sementeira de ambas as margens das regiões que interligam.

As raízes dos vegetais, sob as pedras de um muro, não mostram alterações. As árvores dão frutos sem saber que espécie de criatura os devora. Comunicam-se os pássaros sem qualquer noção de limite. Os peixes não marcam as águas em que nasceram. Os ventos, de pólo a pólo do Globo, compõem as mesmas árias.

De modo análogo, as ondas hertzianas transformam-se em sons no rádio, desconhecendo balizas. As ondas luminosas alinham imagens na televisão, transcendendo divisórias geográficas. Ainda hoje, anotamos a ansiedade com que o homem demanda quebrar as segregações linguísticas, difundindo o Esperanto por língua internacional.

A cada instante somos defrontados por múltiplas iniciativas de troca, entre valores culturais e artísticos, de nação a nação. Justo perceber que dia virá em que todos os marcos separatistas desaparecerão; contudo, até lá, cumpre-nos derruir as fronteiras morais existentes entre nós, preparando caminho para o congraçamento integral da Humanidade futura.

À vista disso, reconheçamos a oportunidade de se desfazerem as barreiras da morte que igualmente, existirem só no cérebro humano.
Esfumemos os sonhos ilusórios, acerca do mundo espiritual, para que a grande transição não venha a condensá-los em pesadelos de dor.

Quando o homem desencarna não regride desastrosamente e tampouco avança, de chofre, nas trilhas da evolução; continua a ser o que era, o que viveu, o que fez. Permanecerá, como Espírito, onde já vivia como encarnado: em plano inferior, se articulava o mal; ou em esfera superior, se edificava o bem. Portanto, desde agora, trabalhai servindo, para que vos transformeis amanhã em cidadãos livres da Pátria Espiritual.

10 - Voltas que a vida dá - Espíritos Diversos - pág. 3

VOLTAS QUE A VIDA DÁ
Meu amigo Ricardo Teixeira de Melo, homem prudente e habilidoso, conseguiu à custa de enorme economia juntar fortuna regular.
Esforçara-se durante muito tempo no trabalho árduo e a riqueza, coroando-lhe os esforços, o ajudara a estabelecer-se com rendosa indústria manufatureira.

Entretanto, apesar de estar financeiramente bem, Ricardo não modificou sua maneira de ser. Habituara-se à poupança e ao controle excessivo dos mil réis sem dar-se conta de que já podia usufruir de maior conforto e menos preocupação com a manutenção de sua família.

E assim, ele vigiava o horário dos empregados, na fábrica, calculando o custo dos minutos perdidos nos atrasos comuns durante o serviço. Em casa, não permitia o menor deslise no orçamento magro, jamais propiciando aos familiares o conforto e as vezes as coisas mais necessárias. Quando a esposa, aborrecida, aludia à sua vantajosa situação financeira, ele dizia:

— Você que pensa! Eu é que sei dos compromissos e responsabilidades! Não. Não posso gastar de maneira alguma. E a mulher tristemente remendava ao máximo as roupas da família e fazia tremenda ginástica para não sair do magro orçamento doméstico. Desta forma, os bens de Ricardo duplicavam sempre, sem que ele mudasse o padrão de vida a que desde jovem se habituara.

Ao contrário, com o correr dos anos, foi ficando pior. Não tirava férias para melhor poder vigiar o negócio, era sempre o primeiro a chegar e o último a sair. Não tinha por isso tempo para dedicar-se ao aconchego familiar. -Mal parava em casa. Desenvolvia enorme atividade no sentido de exercer o controle de tudo e assim a neurastenia tornou-se inevitável, e com ela o desequilíbrio orgânico. Mas, era inútil a insistência da família. Ricardo não descansava.

Certa madrugada, foi chamado às pressas. Irrompera violento incêndio em sua fábrica. Ninguém descobriu a causa do sinistro, entretanto, toda a indústria foi destruída. Sobrou, diante dos olhos esbugalhados e febris de Ricardo um amontoado de ruínas fumegantes. Nada pôde ser salvo, nem uma peça. E, como por medida econômica Ricardo não fizera o devido seguro contra incêndio, ficou positivamente na miséria.

Em virtude do choque emocional, foi acometido de séria enfermidade, guardando leito por algum tempo. Quando melhorou, ficou com o braço direito imobilizado e inútil. Incapaz de recomeçar a vida por questões psíquicas, além do defeito físico, Ricardo, sem recursos outros para viver, ficou na dependência dos filhos que viviam de modesto salário. Todavia, habituados ao pensamento de que o pai gastava pouco e porque ele nunca lhes dera dinheiro para as menores coisas, obrigando-os ao trabalho se precisassem de algo, não se sentiam na obrigação de serem pródigos para com ele.

Mas, ainda assim, enquanto os dois rapazes eram solteiros e residiam com os pais, as coisas se arranjaram regularmente, mas depois que se casaram e saíram de casa formando o seu próprio lar, a situação tornou-se calamitosa. Ricardo e a esposa, recebiam pequena mesada que mal dava para a modesta refeição e com seu precário estado de saúde Ricardo precisava de medicamentos cada vez mais caros. Seu corpo envelhecido requisitava maior necessidade de agasalho.

E, se alguma vez engolindo a revolta interior ele se dirigia aos filhos solicitando aumento da magra pensão, ouvia invariavelmente: — Por agora é só o que posso dar. Tenho família a sustentar. O senhor não sabe minhas responsabilidades e os meus compromissos! Quando lhe morreu a companheira, nenhum dos dois abriu-lhe as portas do lar. Alegando necessidade de tratamento especializado e para melhor atendimento médico, internaram-no em um asilo de velhos.

Foi amargurado e triste que Ricardo retornou ao plano espiritual, depois de algum tempo de perturbação. Trazia um amontoado de queixas contra os familiares o que muito prejudicou seu pronto equilíbrio. Foi por isso visitado por amoroso instrutor, desejoso de ajudá-lo. Diante do carinho e da atenção que foi objeto, Ricardo não conteve as lágrimas e com voz triste tornou:— Ai! meu amigo. Como é bom encontrar almas generosas no caminho! Infelizmente eu não tive essa sorte. Deus me deu por família criaturas sem coração que jamais se compadeceram da minha dor.

O mentor amigo, colocando, calmo, a mão sobre o braço do enfermo perguntou:— Mas... que fizeste para sanar o mal?— O que podia fazer? Velho, cansado, só e doente?— A essa altura pouco, realmente. Entretanto, tiveste inúmeras oportunidades, como pai, de construir o amor e a generosidade no coração dos teus filhos. A criança é uma plantinha tenra que cresce em torno da estaca que lhe serve de apoio, se esta for firme e justa, ela crescerá perfeita, na devida posição.

Porém, se for mal colocada, frouxa e indiferente, a planta proliferará irregularmente, será fraca e mirrada. Tiveste durante o início da vida ocasião de ensinares os teus a serem generosos e bons e perdeste a oportunidade, valorizando apenas a posse efêmera do dinheiro que infelizmente não te ofereceu felicidade nem segurança; não encontravas tempo para tecer os laços duradouros da estima e da compreensão.

Chamado à responsabilidade, Ricardo baixou a cabeça confuso. O Mentor prosseguiu:— Aceita as consequências dos teus atos com serenidade e paciência. Se nada plantaste naqueles corações, se nada deste, como querias de lá tirar ou ter direito a alguma coisa? Valoriza a experiência e nunca é demais recordarmos os ensinamentos do Cristo quando nos advertiu: "Não vos afadigueis pela posse do ouro, que a traça corrói e a ferrugem consome, mas ajunteis tesouros no céu e sereis felizes".

E, colocando a mão fraternalmente sobre seus ombros curvados terminou perguntando:— E queres maior riqueza e maior tesouro do que o amor de pai envolvendo e penetrando um coração de filho?
Marcos Vinícius

LEMBRETE:

USURA

1° - Juro de capital;

2° - Contrato de empréstimo com a cláusula em que o devedor se obriga ao pagamento de juros;

3° - Juro excessivo, exorbitante, onzena;

4° - Lucro exagerado;

5° - Ambição, mesquinhez, mesquinharia, avareza;

6° - Desgate que sofrem os materiais por efeito do uso ou de atrito.
Edivaldo