31 - SINCERIDADE

Ainda porque sua personalidade integral se encontra em estado latente, a criança não sofre desta patologia tão comum nos adultos: a dissimulação.

Não nos referimos aqui a pequenas mentiras, possíveis da parte da criança, e que precisam ser analisadas caso por caso; às vezes, são fruto do medo, por causa de uma Educação excessivamente repressiva, algumas são manifestação da fantasia infantil e outras podem ser o reflexo de um hábito dos adultos a sua volta. A dissimulação da personalidade é algo mais profundo.

Na verdade, a hipocrisia humana pode ser um antigo vício do Espírito, mas é na maioria das vezes reforçada e até forjada pelo processo educacional presente. Expliquemo-nos.

A personalidade real da criança está dormente, envolta por uma névoa de inocência e frescor espiritual, o que representa uma espécie de recomeço para a sua alma.

No entanto, impulsos positivos e negativos de sua personalidade espiritual vêm à tona, constantemente, estimulados pelo mundo exterior. Não tendo, porém, ainda assumido a nova Educação que está recebendo, esses impulsos se manifestam francos e sem barreiras.

Por isso, é possível observar as tendências inatas de uma criança desde cedo, pois elas se mostram como reações vindas de seu eu profundo. É preciso apenas saber distingüi-las daquelas que são reflexos do ambiente e, em seguida, saber como trabalhar com elas.

Diante de uma Educação repressiva, porém, esses impulsos - tanto os negativos, como os positivos - vão se recolhendo temerosos e a criança vai pouco a pouco assumindo, sob a forma de máscara, os padrões que lhe são impostos de fora.

A criança é sincera porque não sabe ainda muito bem fazer esse jogo de esconde-esconde de si mesma - no que os adultos já são peritos. O seu desarmamento psíquico, sua ingenuidade não lhe permitem fazê-lo. É claro que quanto mais autoritária, mais homogeneizante, mais implacável for a Educação que estiver recebendo, mais depressa encontrará os meios de se defender dos castigos, das surras e mesmo do ridículo, que poderiam significar a manifestação de seus impulsos reais.

Assim, aquele espírito de observação, que citamos como uma das qualidades necessárias ao educador, pode se exercer facilmente sobre uma criança em estado natural. Mas vai se tornando cada vez mais difícil de usá-lo, quando o educando está submetido o tempo todo a regras e disciplinas impositivas, que não lhe deixem espaço livre à escolha individual.

Só se pode educar de fato, conhecendo o educando. A criança não dissimula de moto próprio aquilo que ela é. Mas deve encontrar um ambiente acolhedor e pessoas que procurem melhorá-la, sem massacrar sua individualidade.

Dora Incontri